Studebaker US6 G-630 no Brasil

História e Desenvolvimento. 

A Studebaker Brothers Manufacturing Company foi uma das mais antigas empresas americanas, sendo fundada originalmente em 1852, com foco na produção de vagões ferroviários, sua divisão automotiva começou a tomar forma em 1895, porém o grande impulso foi dado pelas encomendas britânicas durante a I Guerra Mundial, transformando a empresa em uma das lideres no mercado, em 1918 suas fabricas tinham a capacidade de produção de até 100.000 automóveis por ano, algo notável para a época. Para complementar sua gama de produtos em 1919 a empresa decidiu entrar no segmento de caminhões, obtendo expressivo sucesso em vendas nos segmentos em que atuava na década de 1920, até ser também afetada pela quebra da bolsa de valores em 1929 levando a empresa a abrir concordata. Apesar dos reveses mudanças no corpo diretivo e na estratégia da empresa (como lançamentos de carro passeio menores e mais acessíveis) foram efetuadas, trazendo em 1933 os primeiros resultados positivos, mantendo assim novamente em funcionamento de todas as suas fabricas produzindo sucessos de venda como o Champion, o Land Cruiser e o Starlight.

No final da década de 1930 o comando do Exército Americano, prevendo o agravamento do clima de hostilidade na Europa, e antevendo um futuro envolvimento em uma possível nova guerra mundial decidiu por implementar um ambicioso plano de renovação de seus meios, entre eles caminhões de transporte, com a intenção de substituir os antigos modelos 4X2 e 4X4 em uso desde meados da década passada. Uma concorrência nacional foi aberta para o desenvolvimento de um modelo tático com tração 6X6 com capacidade de transporte de  2 1/2-toneladas (2,238 kg) para operação em ambientes fora de estrada. Empresas como International Harvester, Studbaker e Yellow Coach (uma subsidiaria da General Motors) apresentaram em 1939 seus projetos técnicos e propostas comerciais. Face ao cenário emergencial todas as ´propostas foram aprovadas, porém com os maiores contratos sendo direcionadas a Yellow Coach (GMC) com seu modelo CCKW e Studebaker.
O modelo da Studebaker recebeu a designação de US6,  e foi projetado visando a robustez e confiabilidade de operação em terrenos adversos. Estava equipado com um novo motor a gasolina Hercules JXD de 6 cilindros em linha desenvolvendo 86 hp (64 kW) a 2800 rpm e 271 nm de torque a 1150 Rpm, era um motor de configuração conservadora e altamente confiável, com uma taxa de compressão de apenas 5,82,  e tinha como a vantagem ser o mesmo grupo motriz empregado na família de blindados meia lagarta M-3, e veículos blindados leves como o M8 Greyhound e o M-20 Command Car, visando assim aproveitar a padronização de peças de reposições em um grupo de veículos de grande importância para as forças armadas americanas. Seu chassi estava disposto como uma escada com três eixos de feixe, com sistema de molas semi elípticas na parte frontal e na parte traseira um sistema também elípticas em tandem, o modelo era apresentado com duas distancias entre eixos que podiam ser usados nas versões basculante, carga seca ou semi reboque. Ainda podiam ser divididos na versão fora de estrada 6X6 e na versão 6X4 para o modelo rodoviário

Para reduzir os custos e otimizar a produção os engenheiros da Studbaker optaram por usar a cabine do modelo civil 4X4, originalmente estava prevista também uma versão empregando a configuração com cabine aberta com sistema rebatível em lona, modelo este descartado, pois segundo decisão do governo norte americano grande parte da produção do US6 deveria atender aos contratos de Leand & Lease Act firmados com a União Soviética, onde as condições climáticas no inverno eram rigorosas, assim os russos solicitaram o fornecimento somente com a cabine convencional. Mesmo assim cerca de 10.000 unidades destinadas as forças americanas seriam produzidas na versão de cabine aberta. O modelo cumpriu muitos papéis importantes no Exército Vermelho, sendo empregado em missões de transporte de carga e tropas, reboque de artilharia e foi usado como plataforma convertida para os veículos lançadores de foguetes Katyusha. Todos os US6 soviéticos foram transportados por navio até o Irã e depois seguiram em uma grande jornada por terra pelo corredor Persa até a fronteira da URSS. O US6 tornou-se carinhosamente conhecido como “Studer” por tropas soviéticas e foi mesmo reconhecido por Joseph Stalin, que enviou uma carta de agradecimento a Studebaker, pela importância do modelo junto ao exército soviético.
Ao todo foram produzidos 219.882 entre 1940 e 1945 dispostos em 13 versões, com 197.678 montados nas fabricas da Studebaker e 22.204 fabricados pela Reo Motors, sendo estes similares aos primeiros, somente não dispondo do gancho hidráulico frontal de carga. O Exército Americano empregou o modelo em menor número, porem tiveram grande participação no esforço de construção da Estrada da Birmânia e da Estrada Alcan na América do Norte. Após o final do conflito milhares deles foram repassados a nações amigas se mantendo em uso até fina da década de 1960.

Emprego no Brasil.

Durante a Segunda Guerra Mundial, o Brasil passou a ter uma posição estratégica tanto no fornecimento de matérias primas quanto no estabelecimento de pontos estratégicos para montagem bases aéreas e operação de portos na região nordeste. Por representar o ponto mais próximo entre o continente americano e africano a costa brasileira seria fundamental no envio de tropas, veículos, suprimentos e aeronaves para emprego no teatro europeu. Como contrapartida e no intuito de se modernizar as forças armadas brasileiras que até então eram ainda signatárias da doutrina militar francesa estavam equipadas com equipamentos obsoletos oriundos da Primeira Guerra Mundial decidiu-se fornecer ao pais os meios e as doutrinas para uma ampla modernização , este processo se daria pela assinatura da adesão do Brasil  aos termos do Leand & Lease Bill Act (Lei de Arrendamentos e Empréstimos) ), que viria a criar uma linha inicial de crédito ao país da ordem de cem milhões de dólares, para a aquisição de material bélico, proporcionando ao pais acesso a modernos armamentos, aeronaves, veículos blindados e carros de combate.

Os primeiros caminhões Studebaker US6 com tração 6X6, começaram a ser recebidos no início do ano de 1943 em sucessivos lotes até o ano de 1945 que viriam a totalizar 808 ou 830 unidades (existem divergências no número). Foram destinados inicialmente as unidades militares dispostas no Rio de Janeiro, o modelo recebido no Brasil foi o Studebaker G-630 US-6 (maior variante de produção) que no Exército Brasileiro recebeu a designação de VTNE Carga Emprego Geral 2 ½ ton 6x6 cabine fechada. O caminhão estava dotado com um motor Hercules a gasolina com 6 cilindros em linha, 4 tempos 5240 cc, 95 CV a 2400 RPM. A exemplo do que ocorrido na União Soviético, os US6 G-630 brasileiros se adaptaram perfeitamente a total falta de infraestrutura da malha viária brasileira na época, seu desempenho também foi satisfatório quando alimentado com gasolina de baixa qualidade que era encontra no interior do país naquela época.
O advento do recebimento dos Studebaker G-630 US-6 em conjunto com o General Motors  CCKW 352 e CCKW 353 com tração 6X6 vieram a trazer uma nova realidade no potencial de motomecanização nas unidades do Exército Brasileiro, pois até então o mesmo estava equipado com os obsoletos e insuficientes caminhões 4X4 Chevrolet 6000/6500/G-617, Diamond T 614, Citroen 1930 e outros. Esta adoção de material possibilitou a modernização das doutrinas operacionais nas unidades de apoio e logística se adequando a nova realidade da guerra altamente móvel que se apresentava no conflito europeu. Foram empregados em missões de transporte de cargas, transporte de tropas, reboque de peças de artilharia e sistemas de busca e orientação antiaérea. Com o termino da Segunda Guerra Mundial os Studebaker US6 continuaram a desempenhar a contento suas missões no Brasil, porém em meados da década de 1960 a frota começou a apresentar altos índices de indisponibilidade ocasionadas por problemas no fornecimento de peças de reposição dos motores a gasolina Hercules JXD de 6 cilindros em linha.

Neste mesmo momento está dificuldade afligia também a frota dos blindados M-8 Greyhound que faziam uso do mesmo grupo motriz dos Studebaker, apesar do Parque Regional de Motomecanização da 2º Região Militar ( PqRMM/2), ter consigo lograr êxito na substituição deste motor por um nacional a diesel Mercedes Benz OM 321 neste carro blindado, o Exército Brasileiro não se interessou em estudar e aplicar tal processo para a frota residual de caminhões Studebaker. Sob a alegação de que quantidade ainda disponível em carga dos US6G era pequena quando comparado aos General Motors CCKW 352 e CCKW 353  que haviam sido recebidos em um número muito superior, e desta maneira optou em proceder a retifica dos motores de algumas centenas do modelo da General Motors que após este processo de repotencialização se mantiveram em uso até a década de 1980.
Desta maneira gradativamente os Studebaker US-6 G-630, ainda em uso foram sendo desativados gradativamente, principalmente com o recebimento dos lotes finais de caminhões usados REO M-34 e M-35 e pelos modelos dos caminhões Mercedes Benz e Chevrolet D-60 nacionais militarizados. As últimas unidades estiveram em uso na Academia Militar das Agulhas Negras até o fim da década de 1960

Em Escala : 


Para representarmos o Studebaker G-630 US-6 fizemos uso do antigo kit da ICM na escala 1/35, modelo este de detalhamento médio e fácil montagem, como opção alternativa sugerimos o novo kit da Italeri na mesma escala. Para se compor a versão utilizada pelo Exército Brasileiro não é necessário proceder nenhuma mudança fizemos a uso de decais confeccionados pela decais Eletric Products pertencentes ao set  "Exército Brasileiro  1942/1982".
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura do Exército Americano utilizado durante a Segunda Guerra Mundial, após seu recebimento no Brasil os Studebaker receberam as marcações do EB e as matriculas, este esquema foi mantido durante toda sua carreira operacional no Brasil.

Bibliografia :

- Studebaker US6 – Wikipedia -  https://en.wikipedia.org/wiki/Studebaker_US6
- FEB na Segunda Guerra Mundial - Luciano Barbosa Monteiro - Decals e Books
- Blindados no Brasil - Volume I, por Expedito Carlos Stephani Bastos
- Manual Técnico – Exército Brasileiro 1976