Sikorsky H-19D no Brasil

História e Desenvolvimento. 

Em 23 de maio de 1923, a "Sikorsky Aero Engineering Corporation" foi fundada perto de Roosevelt Field, Nova York, por Igor Sikorsky, um imigrante dos Estados Unidos que nasceu em Kiev, na Rússia. Em 1925, o nome da empresa foi alterado para "Sikorsky Manufacturing Company, e a partir de 1929 transferiu suas instalações para a cidade de Stratford no sestado de Connecticut, passando a se tornar parte da United Aircraft and Transport Corporation (agora United Technologies Corporation). Igor Sikorsky originalmente se concentrou no desenvolvimento de aviões convencionais com múltiplos motores e aeronaves anfíbias. No final da década de 1930, as vendas deste segmento passaram por profundas reduções, levando a United Aircraft a fundir sua divisão de projetos e fabricação com a  Vought Aircraft. Neste contexto Igor passou a concentrar seus esforços em uma aeronave de asas rotativas funcional, o que levaria depois de vários estágios a produção do Sikorsky R-4, o primeiro helicóptero estável, de rotor único e totalmente controlável a entrar em produção em grande escala em fins de 1942, sendo o conceito deste projeto passando a ser empregado na maioria dos helicópteros subsequentes. No final da década de 1940 a Sikorsky Aircraft vislumbrou as oportunidades que o segmento de aeronaves de asas rotativas poderia trazer nos próximos anos, assim desta maneira através de uma iniciativa independente, iniciou uma série de estudos visando o desenvolvimento de um novo helicóptero de médio porte.

Este projeto tinha por finalidade servir como uma plataforma de teste a fim de se testar novos conceitos de design que visavam proporcionar uma maior capacidade de transporte em carga combinado com facilidade de manutenção e baixo custo de operação. Esta nova aeronave de asas rotativas teria todo seu desenvolvimento custeado com recursos da própria empresa. Sobre a tutela do engenheiro e designer Edward F. Katzenberger o projeto, mockups e protótipos foram concluídos em menos de um ano, estando pronto para os primeiros testes em novembro de 1949. Pouco antes do voo do primeiro protótipo o comando da Força Aérea Americana (USAF) iniciava um processo de estudos para a aquisição de um helicóptero de transporte capaz de transportar até 10 soldados totalmente equipados, além de 2 pilotos. Neste contexto a Sikorsky Aircraft apresentou seu modelo S-55 como proposta para participação na concorrência. Em comparação aos demais concorrentes que possuíam projetos complexos com penalidades em termos de peso envolvendo dois rotores verificou se que a simplicidade do projeto da Sikorsky era a mais adequada para atender as especificações desta concorrência. A decisão em se instalar o grupo motopropulsor no nariz, proporcionou uma volumosa cabine de carga e passageiros posicionada diretamente abaixo do rotor principal, assim a aeronave tinha a capacidade de transportar uma variada composição de cargas sem afetar de forma adversa seu centro de gravidade. A disposição do motor ainda facilitava as operações de manutenção em solo através das portas duplas, sendo ainda possível realizar a troca do grupo motriz em apenas duas horas.
Colaborando com estes fatores, os flaps de compensação e os servos hidráulicos proporcionaram a aeronave um controle de vôo mais positivo sob diferentes condições de carga, isolando assim o sistema principal de comando da vibração, diminuindo as forças de controle, isto permitia que o agora designado YH-19 pudesse ser pilotado com apenas dois dedos no manche. Este leque de características positivas levaram o modelo da Sikorsky Aircraft a ser declarado vencedor da concorrência, recebendo um primeiro contrato para a produção de 5 aeronaves pré-série que foram entregues a partir de março de 1950 a fim de serem empregadas em um amplo processo de ensaios em voo. Ao final deste foi celebrado o primeiro contrato de produção para 50 células, estas aeronaves receberam a designação de H-19A e estavam equipadas com um motor radial Pratt & Whitney R-1340-57 com 600 hp de potência. Com o reconhecimento das inerentes qualidades daquele helicóptero o modelo conquistaria um contrato para o fornecimento de aeronaves para a Marinha Americana (US Navy), o Corpo de Fuzileiros (USMC), e Guarda Costeira (USCG), pequenas modificações foram implementadas nascendo assim a versões HO4S-1, HO4S-2 e HO4S-2G.  No entanto, o HO4S quando em operação em um ambiente aéreo-marítimo foi severamente avaliado no quesito de potência, levando a fabrica a reequipar as aeronaves já entregues com o motor radial Wright R-1300-3 de 700 hp, sendo este equipamento adotado em todas as versões posteriores entregues.

O  Sikorsky H-19 Chickasaw possui a distinção de ser o primeiro helicóptero de transporte efetivo do Exército Americano (US Army) e, como tal, desempenhou um papel importante na formulação inicial da doutrina do Exército em relação à mobilidade aérea e ao emprego no campo de batalha de helicópteros que transportam tropas. Com o estágio pleno operacional atingido foi decidido imergir o modelo em um cenário real de emprego, com várias aeronaves pertencentes ao 6ª Companhia de Transporte do Exército, sendo deslocadas para a península coreana, onde seriam empregadas na Guerra da Coreia. As missões tiveram início em meados de 1951 atuando em missões de transporte desarmado, evacuação médica, controle tático e suporte de carga na linha de frente. E nestas tarefas conseguiu superar admiravelmente as capacidades do H-5 Dragonfly, usado durante a guerra pelo Exército. O Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA  (USMC) fez uso extensivo do modelo na Guerra da Coréia, as primeiras 15 aeronaves da versão  pertencentes ao esquadrão HMR-161, chegaram no país em 2 de setembro de 1951 HRS-1. A primeira surtida ocorreria em 13 de setembro de 1951, durante a Operação Moinho de Vento I, quando os HRS-1 transportaram 8.527 kg de equipamento e 74 fuzileiros navais para uma cordilheira na área de Punchbowl. Na semana seguinte seriam transportados mais 224 fuzileiros navais e mais 8.000 kg de equipamento para locais próximos a este. Os helicópteros HRS-1 também foram usados para realocar as baterias dos lançadores de foguetes. O modelo da Sikorsky provou ser durável e confiável em situações reais de conflito, registra-se o fato de que um deles voou para casa depois de perder 46 cm da lâmina do rotor principal após um choque com uma árvore, ainda neste escopo o esquadrão HMR-161, relatou índices de 90% de disponibilidade de aeronaves.
Paralelamente no mercado civil a versão S-55 conquistaria grande vendas nos Estados Unidos, e 1 de setembro de 1953, a empresa de transporte aéreo Sabena usou o S-55 para inaugurar o primeiro serviço de helicóptero comercial na Europa, com rotas entre Roterdã e Maastricht na Holanda e Colônia e Bonn na Alemanha. No meio militar a aeronave seria fabricada sob licença pela Westland Aircraft, sendo este processo seguido com contratos junto a Mitsubishi no Japão e Sud Aviation na França, com estes contratos atingindo a casa de 547 células produzidas. O S-55 deixou as linhas de produção da Sikorsky Aircraft em 1960 com a entrega de 1.061 unidades divididas em versões civis e militares. A partir de 1969 o modelo ´passou a ser retirado do serviço ativo junto as forças armadas norte americanas, sendo repassadas a nações como Argentina, Brasil, Canada, Bélgica, Chile, Cuba, Dinamarca, República Dominicana, Grécia, Guatemala, Haiti, Israel, Itália, Índia, Noruega, Paquistão, Filipinas, Portugal, Vietnã do Sul, Espanha, Tailândia, Peru e Peru.

Emprego no Brasil. 

O emprego de aeronaves de asas rotativas na Força Aérea Brasileira tem início em março de 1952, quando é celebrado um contrato junto a Bell Helicopter Co. para a aquisição de quatro células do Model 47D1 H-13D novas de fábrica, esta aeronave na época representava a versão mais avançada da aeronave em produção, equipando o braço aéreo das forças armadas norte americanas. Apesar serem poucas células estas aeronaves foram empregadas em um variado leque de missões, englobando inclusive tarefas de busca e salvamento, operando também em ambiente naval, tendo vista a existência de kits de flutuação para os helicópteros. Na segunda metade da década de 1950 o Ministério da Aeronáutica passava a ser signatário de diversos tratados internacionais de busca e salvamento, e para isto necessitava melhorar sua estrutura de vetores para o atendimento destas demandas, no campo de aeronaves de asas fixas passava a contar com os quadrimotores Boeing SB-17G e Consolidated PBY5A Catalina. Apesar de serem aeronaves com grande raio de ação e capacidade anfíbia, havia ainda uma lacuna a ser preenchida, a de aeronaves de asas rotativas, vetor considerado indispensável para o emprego com sucesso deste tipo de missão. Para atendar a esta necessidade em 1956 foram desenvolvidos estudos para a escolha e aquisição de um pequeno lote de helicópteros a fim de serem exclusivamente operados em missões de Busca e Salvamento.

Dentre as opções avaliadas, o melhor custo benefício repousava sobre o modelo Sikorsky H-19D (variante esta originalmente destinada ao Exército Americano), com o processo de aquisição sendo facilitado através dos termos do Plano de Ajuda Mútua (MAP) anteriormente firmado entre o Brasil e Estados Unidos. Quatro aeronaves deste modelo foram requisitadas, sendo retiradas de unidades da aviação do exército norte americano, apesar de serem células usadas, eram relativamente novas e apresentavam excelente vida útil e baixa horas de voo.  Com a definição da compra, restava agora criar uma nova unidade aérea especializada em missões de busca e salvamento, então em 6 de dezembro de 1957, pela Portaria 60/GM2, era criado o Segundo Esquadrão do Décimo Grupo de Aviação - 2º/10º GAV, que seria sediado na Base Aérea de São Paulo - BASP, no município de Guarulhos - SP e teria como dotação aviões anfíbios Grumman SA-16A Albatroz e helicópteros Sikorsky H-19D. Assim desta maneira neste mesmo mês a Diretoria de Material da Aeronáutica (DIRMA) foi instruída a colocar em marcha as providencias necessárias ao recebimento dos helicópteros H-19D.Com a estrutura de pessoal da nova unidade definida, um seleto grupo de oficiais e mecânicos foram selecionados para participarem de um programa de treinamento patrocinado pelo fabricante a fim de se formar os multiplicadores para a operação e manutenção da  nova aeronave. Este processo englobaria ainda a capacitação das equipagens para a realização de todo o escopo de missões de busca e salvamento SAR, amparada na doutrina militar norte americana.
Os quatro Sikorsky H-19D foram desmontados e transportados em aviões da Força Aérea Americana (USAF) sendo recebidos Base Aérea do Galeão   ao longo do mês de fevereiro de 1958. Deslocados para um hangar junto ao prédio de comando, as células começaram a ser montadas por uma equipe técnica liderada pelos tenentes Lemar Gonçalves e Jose Marioto Ferreira do 2º/10º Gav Esquadrão Pelicano. Após a finalização deste processo e a efetivação de ensaios em voo, as aeronaves agora matriculadas como FAB 8504 a FAB 8507, foram liberadas para operação, sendo uma a umas transladadas em voo para a Base Aérea de São Paulo (BASP) a partir 02 e maio de 1958. Já em posse de todo efetivo operacional o Esquadrão Pelicano iniciou a fase operativa para a formação da doutrina operacional com os helicópteros da Sikorsky operando em conjunto com os recém-chegados Grumman SA-16 Albatroz. A primeira ativação real ocorreu em de 21 de maio de 1958, quando o H-19D “FAB 8506” foi acionado pela Capitania dos Portos a fins de realizar missões de busca a sobreviventes de uma lancha que explodira durante o trajeto entre as ilhas de São Sebastião e Santos, no litoral paulista. Esta foi a primeira de muitas missões reais, durante a sua vida operacional no 2º/10º GAV, os H-19D participaram de inúmeras missões de busca e de resgate, além de atuarem no apoio a diversas calamidades, como enchentes, em várias ocasiões, com grande sucesso e operacionalidade.

A primeira e única perda de aeronave ocorreu em 25 de outubro de 1960, quando o FAB 8504 em proveito de uma missão em apoio a Comissão Nacional de Energia Nuclear na região de Barra do Pirai no Rio de Janeiro, colidiu com o solo, provocando a morte do piloto e do mecânico. A reduzida frota total agora passava a preocupar o comando do esquadrão sobre a disponibilidade mínima operacional para a realização de missões de busca e salvamento, a este fator somava-se a obsolescência do modelo, não sendo assim recomendada a aquisição de mais células. A solução mais sensata seria a aquisição de uma nova aeronave de asas rotativas com propulsão turbo eixo, sendo mais moderna e confiável que os antigos e dispendiosos motores radiais a pistão. Assim desta maneira o Ministério da Aeronáutica, em meados 1964 decidiu pela aquisição de 14 células novas de fábrica do modelo Bell Helicopter 205 dispostos a variante UH-1D Huey. Oito destas aeronaves eram destinadas a missões de transporte e ataque e seis células seriam configuradas para missões de busca e salvamento (SAR) e evacuação aeromédica. Os Sikorsky H-19D permaneceram em operação no Esquadrão Pelicano até 26 de outubro de 1967, quando foram enfim substituídos pelos novos Bell SH-1D. As aeronaves remanescentes foram transferidas para o Centro de Instrução e Emprego de Helicópteros - CIEH, recém-criado no Destacamento de Base Aérea de Santos, na cidade de Guarujá - SP.
Entretanto, essa transferência não postergou o inevitável, pois a Força Aérea Brasileira se encontrava nesta em pleno processo de renovação dos seus meios de asas rotativas com a aquisição de dezenas de células do UH-1H e Bell 206 Jet Ranger. Neste novo vislumbre os H-19D enfrentavam altos índices de indisponibilidade devido principalmente a falta de peças de reposição dos antigos motores radias Wright Cyclone R-1300-3. Assim em abril de 1969, os três H-19D foram preparados para alienação com sua exclusão da carga, permanecendo em serviço no CIEH até 6 de junho de 1969, quando foram desativados do inventário da Força Aérea Brasileira após 11 anos de profícuo serviço em prol de nosso País e da Aviação de Busca e Salvamento. Carregando o legado de ter estabelecido o da doutrina operacional de asas rotativas em missões SAR. Infelizmente, nenhuma aeronave foi preservada.

Em Escala.

Para representarmos o Sikorsky H-19D  "FAB 8506" , fizemos uso do antigo kit da Revell na escala 1/48 (única opção existente no mercado nesta escala). Apesar do modelo apresentar um despojamento total no detalhamento interno  da cabine (o qual deve ser todo realizado em scratch), o kit  traz a opção de apresentarmos aeronave com o compartimento do motor radial aberto, oque  sem dúvida compensa o conjunto. Para compormos as marcações nacionais empregamos decais diversos produzidos pela FCM, as marcações seriais foram feitas usando os decais presentes no set 72/13.

O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o segundo padrão de pintura empregado nos H-19D, pois foram originalmente recebidos com as faixas de alta visibilidade na cor laranja, posteriormente foram alterados para amarelo, após sua transferência para o Centro de Instrução e Emprego de Helicópteros, perderam as marcações padrão SAR e receberam a identificação CIEH marca nas laterais das aeronaves.



Bibliografia :

- Esquadrão Pelicano 50 anos de História - Mauro Lins Barros & Oswaldo Cruz
- Aeronaves Militares Brasileiras 1916 – 2015 – Jackson Flores Jr
- Sikorsky H-19 Chicksaw - Wikipedia - https://en.wikipedia.org/wiki/Sikorsky_H-19_Chickasaw
- História da Força Aérea Brasileira – Prof Rudnei Dias Cunha
- Sikorsky H-19D Na FAB, por Aparecido Camazano Alamino - Revista Asas Nº 32