Douglas A-20K/C Havoc na FAB

História e Desenvolvimento. 

Em fins da década de 1930 a empresa Douglas Aircraft Company decidiu investir recursos no desenvolvimento de uma nova aeronave média de bombardeio de alta velocidade, os primeiros estudos coordenados pelos engenheiros aeronáuticos Donald Douglas, Jack Northrop e Ed Heinemann, tiveram inicio em fins de 1936, com os primeiros conceitos sendo apresentados no primeiro trimestre do ano seguinte. A aeronave de bombardeio leve, estava equipada com dois motores radiais Pratt & Whitney R-985 Wasp de 450 hp, com capacidade estimada para o transporte de 1.000 ln (454 kg) de bombas, em velocidades superiores a 400 km/h. Este primeiro modelo designado Model 7A, porém, não chegou a passar da fase de projeto, sendo esta decisão foi influenciada por relatórios de inteligência sobre a campanha aérea da Guerra Civil Espanhola, por estes novos parâmetros a aeronave deveria desenvolver velocidades superiores a 250 mph, alcance de 1.200 mn capacidade de transportar mais de 1.200 lb (544kg) de carga bélica. Estes parâmetros levariam ao reprojeto de uma nova aeronave nos meses seguintes.

Em 1938 o United States Air Corp Army (Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos – USAAC) deu início a uma concorrência para o desenvolvimento de uma nova aeronave média de bombardeio de alta velocidade. A fim de atender esta demanda a equipe de projetos da Douglas apresentou em 26 de outubro o primeiro protótipo do Modelo 7B, que iria concorrer com o North American NA-40, o Stearman X-100, o Bel Model 9 e o Martin 167F. O modelo da Douglas estava equipado com dois motores de 1.100 hp, podendo transportar 2.000 lb (908 kg) com um alcance de até 2.000 milhas, possuía hélices tripas e trem de pouso triciclo. O DB-7 foi projetado para quatro tripulantes, um piloto, um bombardeador que ficava posicionado em um nariz de vidro e dois artilheiros, apresentava ainda uma fuselagem cilíndrica que recebia as asas cantilever em uma altura média, empenagem tradicional, com apenas um estabilizador vertical e estabilizadores horizontais em diedro positivo Apesar do bom desempenho aferido, ele não recebeu encomendas da USAAC, sendo, no entanto, escolhido pela Força Aérea Francesa em 1939 mediante a uma encomenda inicial de 100 unidades que seria ampliada para 270 da versão final de produção DB-7 (Douglas Bomber 7).
Antes do inicio da Segunda Guerra Mundial a Força Aérea Francesa já havia recebido 45 exemplares, recebendo lotes graduais até a capitulação da França em junho de 1940, totalizando 115 aeronaves. Vale salientar que 95 aeronaves do lote inicial sobreviveram a blitzkrieg alemã e foram empregadas ativamente a partir do norte da África sob o controle do governo colaboracionista de Vichy. O restante do contrato francês foi direcionado a Royal Air Force (RAF) que os denominou Boston MKI empregando os no teatro europeu. Os ingleses receberiam ainda mais células do modelo ao longo do conflito chegando a equipar 24 esquadrões da RAF. No esteio das experiências operacionais a Douglas viria a criar a versão DB-7A Boston MKII, porem ambas as versões foram consideradas inadequadas para a tarefa de bombardeio, sendo convertidos em aeronaves de ataque e caça noturna (a exemplo da versão P-70 Nightfighter da USAAF), sendo rebatizados Havoc I e Havoc II respectivamente. 

A versão DB-7B equipada com dois motores Wright R-2600-7 com 1850 hp cada, foi a primeira a ser encomendada pela USAAC, sendo derivado na versão A-20 para bombardeio vertical em alta altitude e A-20 para ataques a média e baixas altitudes, o primeiro contrato abrangia a aquisição de 200 aeronaves. A versão posterior A-20B recebeu o maior contrato até então envolvendo 999 aeronaves, com 665 sendo repassados diretamente a União Soviética em regime emergencial, A versão A-20C contou com inúmeras melhorias, sendo habilitado inclusive para missões de ataque naval com a provisão de transporte externo de um torpedo de 910 kg, foram construídas 948 unidades destinadas a Inglaterra e União Soviética . O Modelo A-20G foi o mais produzido incorporando diversas modificações na capacidade de transportar armamentos e na motorização sendo equipado com um par Wrigth R-2600-23, sua característica visual mais marcante era a ausência do nariz envidraçado, tendo em seu lugar um nariz solido com quatro metralhadoras de 12,7 mm ou quatro canhoes de 20 mm . A versão A-20K foi muito empregada pela RAF e foi designada Boston MKV. As aeronaves das versões H e K foram os modelos com motores mais potentes de todas as versões produzidas, sendo equipadas com dois Wright R-2600 29 de 1850 hp.
A primeira missão operacional americana no teatro de operações europeu foi realizada por bombardeiros A-20 Boston contra aeródromos alemães localizados nos países baixos, no entanto a Força Aérea Americana não foi um grande utilizados do modelo, e seu papel fundamental foi o de fornecer grandes lotes de aeronaves as nações aliadas nos termos do Leand & Lease Act, levando o A-20 a operar em todas as frente de combate da Segunda Guerra Mundial. Sua A produção em série foi encerrada em 20 de setembro de 1944, sendo produzidas ao todo 7.478 unidades pela Douglas e Boeing, sendo assim sendo considerado o bombardeiro médio mais fabricado durante o conflito. Além dos Estados Unidos, França, União Soviética e Inglaterra, os A-20 estiveram em serviço na África do Sul. Brasil, Austrália, Canada, Holanda, Nicarágua e Nova Zelândia.

Emprego no Brasil. 

Durante a Segunda Guerra Mundial, o Brasil passou a ter uma posição estratégica tanto no fornecimento de matérias primas quanto no estabelecimento de pontos bases aéreas e portos na região nordeste destinados ao envio de tropas, suprimentos e armas para os teatros de operações europeu e norte africano. Porém naquele período as forças armadas brasileiras ainda signatárias da doutrina militar francesa estavam equipadas com equipamentos obsoletos oriundos da Primeira Guerra Mundial, e se fazia necessário proceder uma ampla modernização de seus meios e doutrinas, esta necessidade começaria a ser sanada com a adesão do Brasil aos termos do Leand & Lease Act (Lei de Arrendamentos e Empréstimos), proporcionando ao país acesso a modernos armamentos, aeronaves, veículos blindados e carros de combate.

A recém-criada Força Aérea Brasileira começou a receber aeronaves de caça, patrulha e bombardeio a partir de 1941, com a priore sendo definida para as missões de patrulha e guerra antissubmarino nos primeiros estágios da participação na Segunda Guerra Mundial, com a edificação das doutrinas através da colaboração da Força Aérea Americana no processo de treinamento. Com a maturidade sendo alcançada na aviação de patrulha a FAB esta pronta para o desenvolvimento de novas operações áreas através de grupo especializados. Em agosto de 1944 seriam criados o  1º e 2º  Grupos de Bombardeio Leve (GBL) sediados em Gravataí (RS) e Cumbica (SP), que deveriam ser equipados com os Douglas A-20K, que representava o ápice do desenvolvimento do modelo, incluindo melhorias observadas durante o emprego em combate das versões anteriores. Fora decidida a aquisição de 30 aeronaves dispostas nas subversões  A-20K-10DO e A-20K-15DO, porém a  primeira unidade recebida em  julho de 1994 no Campo de Marte em São Paulo – SP foi um A-20C ou Boston MK III (DB-7B), sendo uma aeronave usada (Ex RAF) portando o número de série da USAAF 44-336 (c/n 23559), sendo alocado a Escola Técnica de Aviação (ETAv) para servir as atividades de instrução em solo dos alunos, permanecendo até 1947, quando, já matriculado “FAB 6091”, passou a cargo do Parque de Aeronáutica de São Paulo (PASP) para tarefas de instrução em solo também  até junho de 1955 quando foi descarregado e sucateado.
Os demais A-20K Havoc começaram a chegar no Brasil a parti de junho de 1944, sendo todos alocados inicialmente na Base Aérea de Santa Cruz (RJ), no intuito de se criar um curso intensivo para pilotos e mecânicos que seria ministrado por oficiais da USAAF. Com a alocação junto as unidades de destino tiveram inícios as atividades, porém o arrojado perfil de operação da aeronave começou a cobrar seu preço, sendo perdidos em acidentes nos primeiros anos as aeronaves FAB 6079,6075,6081 e 6089. Nova fatalidades viriam a ocorrer durante o ano de 1947, reduzindo a frota original a apenas 18 células, representando uma perda de um terço das unidades em apenas três anos de operação no Brasil. Estes acontecimentos motivaram a transferência do 1º GBL para Cumbica a fim de concentrar todos as unidades em apenas uma base, com as duas unidades operando lado a lado, e não havendo mais distinção de qual unidade pertencia a aeronave, criou se um cenário de otimização das operações e manutenção, antecipando assim a decisão de fusão dos dois grupos em uma única unidade, o que ocorreria em 01 de abril de 1947 com a criação do  1º Esquadrão do 10º Grupo de Aviação (1º/10ºGAv) Poker. Por mais de cinco anos os A-20K continuaram a cumprir as missões de ataque e bombardeio, a partir de 1952 seguindo uma doutrina de modernização dos meios de ataque a FAB decidiu retirar o modelo das missões táticas, destinando os mesmos a uma nova missão, abrindo assim as portas para que o esquadrão Poker se transformasse na primeira unidade especializada em reconhecimento tático.

Para se adequar à nova missão os agora denominados R-20 deveriam ser convertidos a este padrão envolvendo a retirada de todo o armamento e blindagem, contemplando a instalação de câmeras fotográficas verticais modelos K-17B e K-17C na área do bombay original. No local onde ficavam as metralhadoras superiores, foi instalado o posto do operador de rádio e todo o equipamento de comunicação, as aeronaves também receberiam um programa de atualização em todos os instrumentos de navegação. Todo este processo foi realizado nas oficinas do PASP e as células emergiram deste processo apresentando um novo padrão de camuflagem rajada em tons de castanho e verde.  As aeronaves nesta fase receberiam nomes de batismo, entre eles “Aboim Ema”, “ Calango”, “Jurunas”, “Trumais”, ‘Gavião”, “Paranaguá”, “Bororos”, “Xavantes”, “Rio Preto”, “Suias” e “Kalapagos”. A primeira missão aconteceu no dia 10 de novembro de 1952, tornando se um marco para a aviação de reconhecimento no Brasil, desta data em diante a FAB passou a contar em seu espectro de missões as atividades táticas e estratégicas de missões de reconhecimento fotográfico prévio e crítica de fotos pós ataques. Em 1953 a unidade passaria a agregar a missão de reconhecimento meteorológico.
 No entanto a partir de 1954 a disponibilidade da frota despencou assustadoramente devido a dois novos acidentes e a falta crônica de peças de reposição e obsolescência, no ano seguinte os R-20 já começavam a dividir as missões com células adaptadas de B-25J, prevendo assim em um curto espaço de tempo a sua total desativação. A ultimas missão de reconhecimento fotográfico e Rec Tat ocorrera em 11 de fevereiro e 10 de outubro de 1955, foram substituídos pelos RB-25J Mitchel e Beech RT-11. As células remanescentes foram estocadas em Cumbica, sendo duas os R-20 “FAB 6085 e 6068” destinadas a tarefas de instrução em solo junto a Escola de Especialistas da Aeronáutica e outra (6086) direcionada ao Centro Tecnológico de Aeronáutica a ser empregada em estudos e ensaios pelos alunos daquela instituição.

Em Escala.

Para representarmos o A-20K “ FAB 6071 “, fizemos uso do antigo kit da AMT na escala 1/48 , apesar do modelo original representar poder representar as  versões G e J, porém infelizmente é a única versão que mais se aproxima do modelo empregado no Brasil , procedemos mudanças superficiais. Empregamos decais confeccionados pela FCM presentes no Set 48/03 para completar o conjunto.

O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o primeiro padrão de pintura empregados nas aeronaves recebidas em 1944 ostentando uma pintura americana composta pela superfície em verde olive drab e cinza neutral gray, com matriculas iniciais americanas que foram posteriormente substituídas pelas matriculas FAB-01 a FAB-30, que a partir de 1945 foi alterado contemplando a adoção de matrículas com quatro dígitos , este padrão perdurou até a conversão das aeronaves remanescentes para a versão R-20 em 1952.



Bibliografia :

- Douglas A-20 Havoc  - Wikipedia - http://en.wikipedia.org/wiki/Douglas_A-20_Havoc
- Aeronaves Militares Brasileiras 1916 – 2015 Jackson Flores Jr.
- A-20K o Devastador na FAB, Claudio Luchesi - Revista Asas Nº6
- Havoc – O Bombardeiro Douglas A-20 na FAB – Leandro Casella – Revista Força Aérea nº 97