GMC DUWK e Biselli CAMANF

História e Desenvolvimento. 

Em fins da década de 1930 o comando do Exército Norte Americano estava imbuído em grande processo de modernização de suas forças motomecanizadas, um dos pilares deste plano contemplava a aquisição em larga escala de uma nova família de caminhões 6X6. Os parâmetros da concorrência apresentada as montadoras de caminhões estabeleciam um veículo com capacidades off road, tração integral 6X6, com 3,7 metros de área útil de carga, com capacidade de 2.268 kg de transporte. Avaliações detalhadas de todas as propostas foram realizadas no início de 1940 pelas equipes do US Army Ordnance Corps , deferindo pelo projeto da General Motors Co, esta proposta foi desenvolvida com base no  caminhão GMC ACKWX 353 6X6 que fora desenvolvido em 1939 sob encomenda para o Exército Frances Após a celebração dos contratos com o governo americano foi definida que a produção inicial seria baseada na planta fabril da MGT Yellow Truck and Coach Division's Pontiac, Michigan, sendo depois estendidas as fabricas da General Motors e Pontiac, em St Louis e Missouri. As versões iniciais de produção dispunham da cabine padrão comercial (modelo A1). Um dos grandes segredos do sucesso deste projeto, foi o emprego de componentes já desenvolvidos, testados e provados no meio civil, que além concederam ampla confiabilidade resistência e desempenho, proporcionaram uma produção em série em uma escala jamais vista, atingindo no período de 1940 a 1945 a casa de 562.750 unidades construídas. 

Na primeira fase da Segunda Guerra Mundial, após o desenrolar das primeiras campanhas no teatro de operações europeu, ficou nítida a necessidade de as Forças Armadas Americanas aumentarem sua mobilidade nas operações anfíbias, tendo em vista que em curto período a maioria das campanhas de invasão em todos os teatros de operações ocorreriam neste modal. Diversas alternativas foram avaliadas e entra elas uma em específico se baseava na aplicabilidade operacional dos recém incorporados Ford Jeep GPA anfíbios, propondo a o desenvolvimento deste mesco conceito em caminhões trucks 6X6 com capacidade anfíbia a serem destinados para o transporte de cargas e tropas, permitindo assim serem lançados de navios de desembarque totalmente carregados, evitando assim o tempo de espera para o estabelecimento de portos improvisados nos cenários de desembarque. Com a proposta validada pelo comando do US Army e USN, abriu-se uma consulta junto aos tradicionais fornecedores de veículos militares americanos, para o desenvolvimento em produção em larga escala deste novo conceito de veículo.  A principal premissa básica seria o emprego de plataformas de caminhões já existentes agilizando assim o processo de produção e facilitando a manutenção em campo devido a comunalidade de peças de reposição.
A primeira empresa a investir neste conceito foi a Yellow Truck and Coach Corporation de Michigan com o envolvimento dos projetistas Rod Stephens, Jr. of Sparkman & Stephens , que iniciaram em fins de 1942 o desenvolvimento de um caminhão truck com tração 6X6 na classe de 2,5 toneladas. Seguindo a premissa básica do projeto foi empregado como base o chassi do caminhão General Motors AFKWX, modelo COE 2,5 tn  6x6, plataforma já testada e com êxito em todos dos fronts de batalha, tendo como principal qualidade a robustez e facilidade de manutenção. O primeiro protótipo foi completado no inicio do ano seguinte e logo submetido a testes de aceitação, este novo veiculo receberia de designação de DUWK, em alusão a classificação padrão de veículos militares, sendo a letra D referente ao ano de 1942, U de utilitário, K de veículo sobre rodas e a letra W referente a seus dois eixos de hélice. Sua concepção especial em forma de barco lhe permitia ampla mobilidade no ambiente aquático (inclusive marinho) e sua tração 6X6 lhe garantia a operação em terra como um caminhão convencional, foi o primeiro veículo militar a permitir que o controle de pressão dos pneus fosse controlado remotamente pelo motorista, sendo este recurso necessário para adaptação dos pneus em ambientes de areia (praias) e estradas de terra e pavimentadas, tornando o modelo amplamente adaptável aos mais variados tipos de terreno.

Os primeiros contratos foram destinados as unidades do Exército e Corpo de Fuzileiros Navais Americanos, porém apesar de ser um projeto original da Yellow Truck and Coach Corporation, sua produção em larga escala industrial foi contratada junto as plantas da General Motors Corporation que já estavam ocupadas com as linhas de montagem das series de caminhões CCKW 352 e CCKW 353. As primeiras unidades do Corpo de Fuzileiros Navais (Marines) foram enviados ao front do Pacífico para participar das ações de desembarque durante a ofensiva em Guadalcanal em meados de 1942, porém realmente ocupariam uma posição destaque no front do Mediterrâneo, durante a Operação Husky para a invasão aliada na Sicília – Itália, Foram também empregados no dia D, nas praias da Normandia, Batalha do Escalda, Operação Veritable e Operação Plunder. Acreditava-se que as cabeças de ponte anfíbias eram altamente vulneráveis a um contra-ataque alemão, e como havia o eminente risco do esgotamento das munições das primeiras unidades desembarcadas o DUWK teria um papel fundamental transportando suprimentos dos navios para a terra e realizando transporte médico de feridos para os navios hospitalares
O DUWK seria ainda fornecido as nações aliadas nos termos do Leand & Lease Act, com 2.000 veículos sendo cedidos ao Royal Marines Ingleses, 800 para as forças canadenses e 585 carros para a União Soviética (que viria posteriormente a construir sua versão local denominada BAV 485). Estiveram presentes em todas as operações anfíbias na  Segunda Guerra Mundial.  Até o ano de 1945 foram produzidas 21.247 unidades, após o termino do conflito muitas unidades foram cedidas a França e outras nações. No entanto o DUWK ainda participaria de diversos outros conflitos como a Guerra da Coréia, Guerra Francesa na Indochina e a confrontação entre Malásia e Indonésia entre os anos de 1962 a 1966 Na França, país considerado o maior operador do modelo no pós-guerra, algumas unidades modernizadas na década de 1970, foram retiradas do serviço ativo somente no ano 1982.

Emprego no Brasil. 

No inicio da década de 1970 o Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil estava engajado em um processo de estruturação de sua doutrina operacional anfíbia, e buscava veículos que pudessem compor sua frota de veículos que complementariam os navios de desembarque de tropas e carga. As restrições orçamentarias impediam o acesso a modernos blindados anfíbios como os M-113 APC ou M-59 APC. Em face disse buscou-se no mercado internacional compras de oportunidade de material bélico usado, entre as opções ofertadas uma chamou a atenção do comando da Marinha, sendo esta representada por uma proposta do governo francês para o fornecimento de um lote de caminhões anfíbios GMC DUWK que constavam na relação de material militar excedente da Marinha Francesa. Como este país no pós-guerra se tornou o maior operador do modelo, foi possível proceder em 1973 uma escolha bem elaborado de 34 unidades que deveriam ser adquiridas. Após a seleção os caminhões anfíbios foram encaminhados para instalações locadas no porto de Antuérpia, onde passaram a ser recuperadas por técnicos da empresa brasileira Novatração Artefatos de Borracha Ltda, com a conclusão deste processo os caminhões foram remetidos ao Brasil no inicio do ano de 1974.

Já aptos para entrar em serviço os GMC DUWK foram sendo imediatamente incorporados Batalhão de Blindados do Corpo de Fuzileiros Navais, sediado no Rio de Janeiro. A adoção deste modelo com sua capacidade de transporte de até 59 soldados totalmente equipados, ou 01 Ford Jeep 4X4 ou ainda seu equivalente em carga. Foram de extrema importância desenvolvimento da doutrina de operações de transporte e desembarque de tropas das forças anfíbias brasileiras devido a mobilidade proporcionada.  Apesar desta boa performance operacional os veículos haviam sido produzidos há mais de 30 anos e apresentavam o peso da idade, sendo este fator agravado por problemas no fluxo de peças de reposição do motor a gasolina GMC 270, que provocava baixo índice de disponibilidade e alto custo de operação. Partindo deste cenário o comando da Marinha do Brasil emitiu um requerimento para a indústria automotiva nacional buscando a modernização mais abrangente da parte mecânica ( a exemplo do que foi feito com os caminhões GMC CCKW e Studebaker), ou ainda a produção de um veiculo similar, a exemplo do que foi feito na União Soviética na década de 1950.
Inicialmente a opção de modernização foi considerada inviável do ponto de vista econômico, e neste cenário a empresa paulista Biselli Viaturas e Equipamentos Ltda em maio de 1978 iniciou estudos visando desenvolver um substituto nacional para os GMC DUWK . Este projeto foi batizado de CAMANF (Caminhão Anfíbio), e foi parametrizado para atender a uma capacidade transporte de até 5 toneladas de carga útil em terra ou aguas calmas, para operação em mar agitado este limite seria reduzindo para 2,5 toneladas em função de segurança. O ponto de partida para este projeto estava baseado na adoção do chassi do caminhão nacional civil Ford F-7000, com modificações para adequação ao emprego militar contando com o potente motor diesel Detroit 4-53N com 145 cv aliado a uma nova caixa de câmbio produzida pela Clark equipamentos. Este novo conjunto representou grandes avanços em relação ao modelo original mais notadamente na capacidade do gancho traseiro de duplo emprego capaz de tracionar cargas atrás e a frente graças a uma abertura por onde passava o cabo do reboque.

Sua carroceria foi completamente inspirada nos GMC DUWK (apesar de apresentar dimensões diferentes) era composta totalmente em aço laminado a frio, com estrutura de proa reforçada, tração nas seis rodas e pneus PPB a prova de balas 900 X 20 de rodagem simples. Estava equipado ainda com um sistema de inflamento e desinflamento dos pneus para qualquer terreno, que ao ser acionado armazenava o ar em um reservatório de alta pressão e distribuído por tubos de cobre as laterais do veículo, de onde mangueiras com conectores para enchimento dos pneus ficavam presas em suportes próximos da tomada de ar. Este conjunto mecânico e casco foram projetados para desenvolver velocidade máxima em terra de 72 km/h na água de 14 km/h com autonomia para 480 km em terra ou 18 horas em água, com um peso na ordem de 13.500 kg, sendo um perfil operacional similiar ao seu antecessor americano. Como opcional ainda poderia ser instalada uma metralhadora antiaérea M2 HB de 12.7 mm para autodefesa.
As tratativas iniciais entre a Biselli Viaturas e Equipamentos Ltda e a Marinha do Brasil sinalizam a aquisição de 25 unidades e reforma de 4 modelos DUWK originais que serviriam de laboratório para a construção dos novos veículos. No entanto somente foram adquiridos 5 CAMANFs, pois neste período o Corpo de Fuzileiros Navais já vislumbrava a adoção de veículos blindados de transporte de tropa anfíbios como os M-113APC (em processo de recebimento a partir de 1976) e Engesa EE-11 Urutu, que eram de concepção mais moderna, inviabilizando assim a aquisição de mais unidades do CAMANF.

Em Escala.

Para representarmos o DUWK 6X6  "CFN 2343319" ,utilizamos a nova edição do kit da Italeri na escala 1/35, sendo este modelo de ótima qualidade e nível de detalhamento, para completarmos o conjunto fizemos uso de itens de carga em resina produzidos pela Eletric Products. Empregamos decais confeccionados pela Decals e Books, pertencentes ao set " Forças Armadas do Brasil".

O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão empregando em todos as unidades dos modelos DUWK e CAMANF operadas pelo Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil, desde o seu recebimento até sua desativação em fins da década de 1980. Como principal diferença visual entre os modelos o CAMANF tinha o nome da Biselli em alto relevo gravado na parte frontal do casco.


Bibliografia :

- CAMANF – Um americano naturalizado brasileiro - http://nivelandoaengenharia.com.br/
- DUWK Caminhão Anfíbio do CFN - Expedito Carlos S. Bastos - http://www.ecsbdefesa.com.br/fts/DUKW.pdf