Beechcraft AT-11 Kansan no Brasil

História e Desenvolvimento.

Walter H. Beech foi um dos vários personagens relevantes dos primórdios da aviação, entre os anos de 1924 e 1925, juntou-se com os projetistas Lloyd Stearman e Clyde Cessna para fundar a empresa Travel Air Manufacturing uma das mais promissoras fabricantes de aeronaves daquele período.  No início da década de 1930, Walter Beech deixou a vice-presidência da Travel Air Manufacturing para criar sua própria empresa de construção aeronáutica, que seria fundada em medos de 1932 sob o nome de Beech Aircraft Corporation. Apesar do cenário econômico americano na época se apresentar caótico em função do auge da depressão, Walter resolveu focar seus esforços para o segmento de transporte executivo e turismo de luxo o que resultaria no sucesso comercial Beech Model 17 a partir de 1932. Com recursos próprios a Beech Aircraft resolveu desenvolver uma aeronave maior que resultaria no Model 18 que teve seu primeiro voo em 15 de janeiro de 1937. O Beech 18 era um bimotor monoplano de asa baixa, metálico com trem de pouso convencional, capacidade para 6 passageiros e dois tripulantes podendo ser equipado com os motores Wright, Jacobs ou Pratt & Whitney disponíveis a época.

As qualidades da nova aeronave, cujo desenvolvimento visava o mercado civil, rapidamente despertaram o interesse do governo filipino, se tornando o primeiro cliente militar, sendo seu interesse por uma versão para aerofotogrametria, que recebeu a designação C-18 pelo fabricante e foi militarmente designado T-7, com sua produção sendo iniciada em 1937. O cliente seguinte foi o governo chinês, que, em 1939 solicitou o desenvolvimento de uma versão para treinamento de bombardeio, o AT-7, versão esta que interessaria também ao Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos, gerando assim um contrato para 577 aeronaves da versão inicial AT-7-BH, que foram produzidas em Wichita no Kansas. As versões seguintes foram designadas AT-7A-BH  e AT-7B-BH, sendo o primeiro equipado com flutuadores e o outro adaptado para operações em ambientes da baixa temperatura. A ultima versão foi o AT-7C-BH, que dispunha de uma suíte avionica mais avançada, peso vazio significadamente maior do que as versões anteriores e um modelo mais moderno do motor Pratt & Whitney R-985. Esta versão passou a ser chamada de Navigator com sua produção atingindo o total de 549 unidades. 
Às vésperas do ingresso dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, o comando da USAAC demonstrou a necessidade de se dispor de uma aeronaves para treinamento das equipes de aeronaves de bombardeio, atividade esta que era precariamente realizada com o uso dos modelos Martin B-12 e Douglas B-18, que não atendiam em números a demanda e eventualmente em um cenário de guerra deveriam ser empregados em missões de ataque e patrulha. A solução para este problema foi atendida com a abertura de concorrência para o desenvolvimento de uma aeronave dedicada a esta missão de treinamento que teria por missão a formação de uma nova geração de bombardeadores, neste contexto a Beechcraft apresentou uma proposta derivada do Beech Model AT-7, que incorporava ainda o know how obtido na versão M-18R destinada a bombardeio leve que havia sido desenvolvida sobre encomenda para a China Nacionalista.

Partindo da célula básica do AT-7, a Beech eliminou toda as acomodações e equipamentos destinados a missão de treinamento para navegação. Em seu lugar, foram instalados dois pares de trilhos nas laterais do interior e diretamente á ré da longarina, de modo que cada um permitisse a fixação de até cinco bombas de treinamento de 45 kg. A característica visual que diferia esta nova versão do restante da família era a instalação de uma nova fuselagem na dianteira que passava a abrigar um nariz composto por peças de plexiglas, que servia para a instalação dos moderníssimos visores de bombardeio Norden M-3 e versões posteriores, equipamentos idênticos aos empregados nos Boeing B-17, Consolidated B-24 e Boieing B-29. Por ocupar um amplo espaço que orginalmente era ocupado por bagagens no C-45, o nariz da aeronave permitia ainda a tranquila acomodação do instrutor e aluno. As primeiras unidades começaram a ser entregues as unidades de treinamento da USAAC em março de 1941. Algumas sub variantes estavam equipadas ainda com uma torre elétrica Bendix com uma ou duas metralhadoras calibre. 30 para o treinamento de artilheiros. A produção foi suspensa com o encerramento do conflito em 1945 com um total de 1.606 aeronaves produzidas, sendo o modelo responsável por treinar 90% dos bombardeadores formados no período.
O AT-11 Kansan seria ainda fornecido as nações aliadas como o Brasil, Canadá, México e Holanda durante a Segunda Guerra Mundial para emprego em missões de treinamento. Sua desativação da USAF em 1946 representou o inicio de uma nova carreira, agora no mercado civil, pois suas características de operação e seu nariz transparente se mostraram ser a combinação ideal para uso em missões de aerofotogrametria em empresas civis que atuaram nos Estados Unidos, Europa, Ásia África e América Latina. No pós-guerra o modelo também seria empregado em missões de treinamento e fotografia área para as forças militares da Argentina, Colômbia, Guatemala, Peru, Portugal, Suécia e Venezuela.

Emprego no Brasil.

Em atendimento aos acordos do Leand & Lease Act, a partir de 1941 a Força Aérea Brasileira começaria a receber vultuosos lotes de modernas aeronaves de combate, transporte e patrulha. O plano de intercambio da FAB com USAAC previa também a estruturação dos meios materiais e doutrinários para a formação de pilotos, navegadores e bombardeadores. O treinamento de aero navegantes para aeronaves multimotores seria fundamental, e para se atender a esta demanda foi acertado o fornecimento de um lote inicial de seis aeronaves Beechcraft AT-7-BH, que seriam seguidas por mais células na versão C-18 e C-45. No ano seguinte seriam recebidas dez células do modelo Beech AT-11-BH destinadas a missão de formação de bombardeadores, sendo todas as aeronaves recebidas em San Antonio Field no Texas. As aeronaves foram transladadas por pilotos brasileiros em três esquadrilhas, entre 15 de março de 1943 e 10 de janeiro do ano seguinte, tendo como destino o aeroporto Santos Dumont no Rio de Janeiro, após a inspeção de recebimento foram destinados ao Campos dos Afonsos para serem assim incorporados ao acervo da Escola de Aeronáutica , onde tiveram como missão inicial a formação de instrutores e após este processo foram inseridos no currículo de instrução da EAer.

Diferente de sua missão inicial, os AT-11 brasileiros foram destinados prioritariamente ao treinamento de bombardeio e não de bombardeadores, sendo também empregados para instrução de navegação. No caso de surtidas de bombardeio eram armados com bombas de treinamento M38A2 de 45,5 kg cada que estavam dotadas de carga sinalizadora na cauda para facilitar a visualização do ponto de impacto, este artefato simulava com muita fidelidade as bombas de emprego geral como a NA-M43 e NA-M64A1 de 227kg. Existe ainda registros de que os AT-11 da Escola de Aeronáutica eram periodicamente utilizados em surtidas de instrução de fotografia aérea, pois seu nariz envidraçado permitia a coleta de imagens obliquas e verticais. Com leves alterações, essa foi a rotina deste modelo até fins de 1947, neste período a FAB preparava-se para uma considerável expansão operacional, abrangendo novas unidade de ensino neste processo. Estas alterações impactaria na demanda por aeronaves de treinamento levando o Ministério da Aeronáutica a buscar mais células do AT-11 que se concretizou em uma oferta da Força Aérea Americana para aquisição a preço simbólico de 10 aeronaves deste modelo, cabendo a FAB a apenas custear os serviços de revisão geral que seria realizado pela empresa Texas Enginnering & Manufacturing, estando as aeronaves prontas para translado no mês de dezembro do mesmo ano.
Com seu recebimento no Brasil as dez aeronaves foram distribuídas a EAer e bases aéreas, onde foram designados para servir nas recém-criadas esquadrilhas de adestramento, onde foram incumbidas de missões básicas de treinamento não se focando na especialidade do modelo. No entanto junto a Base Aérea de São Paulo as aeronaves foram colocadas à disposição da Esquadrilha Mista de Instrução do Curso de Tática Aérea. Duas aeronaves foram encaminhadas a Escola de Especialistas da Aéronautica (EEAr), onde passaram a atuar na formação de futuros graduados nos quadros de armamentos e de fotografia aérea. Equipados com os visores Norden M9 ou M9B aquelas aeronaves ajudaram a formar diversas turmas de sargentos bombardeadores, e as mesmas aeronaves equipadas com câmeras oblíquas e verticais contribuíram na diplomação dos futuros sargentos fotógrafos da Força Aérea Brasileira. No inicio da década de 1950 a disposição dos AT-11 foi alterada com algumas aeronaves sendo transferidas para a Escola de Especialistas e de Infantaria de Guarda (EOEIG), sediada na Base Aérea de Bacacheri em Curitiba, onde passaram a formar os futuros oficiais de armamento e fotografia aérea. Em meados de 1951 o Parque de Aeronáutica dos Afonsos recebeu um AT-11 para operar em beneficio do Serviço Geográfico do Exército, relação que perduraria até o final daquela década.

Em 1955 decidiu-se pela gradual desativação do Douglas A-20K do 1º/10º Grupo de Aviação que até então vinha operando em conjunto com aeronaves RB-25 missões destinadas a foto reconhecimento e aerofotogrametria, para sanar esta deficiência decidiu-se pelo emprego dos AT-11 nestas tarefas, com três aeronaves devendo ser transferidas a esta unidade. Assim em janeiro de 1957 o 1º/10º GAv começou a receber aquelas aeronaves, chegando a dispor de quatro AT-11 em meados da década seguinte. Diferentemente dos demais exemplares estas células receberam uma pintura tática camuflada, mantendo este padrão até sua desativação no início da década de 1970. Paralelamente dois AT-11 foram destinados ao 1º/6º GAv para assim reforçar a dotação dos Boeing RB-17, o que aconteceu no transcorrer de 1958, se mantendo operacionais até 1963. Salvo as regulares revisões normais em nível de parque os AT-11 se mantiveram ativos e com boa disponibilidade, registra-se a inclusão de mais uma célula que anteriormente pertencera ao Ministério da Agricultura e que foi incorporado a FAB em 1953, sendo logo excluída no ano seguinte. Em junho de 1963 mais duas aeronaves convertidas em aeronaves de carga, que pertenceram a uma empresa particular e foram confiscadas devido ao emprego em atividades ilícitas, foram entregues a FAB, sendo somente uma considerada aproveitável e transferida a Escola de Especialistas e de Infantaria de Guarda (EOEIG).
O início da década de 1970, anunciou o fim da vida operacional dos AT-11 na FAB, que neste período tinha sua frota resumida somente a oito aeronaves. Aos poucos as células ainda disponíveis para voo foram sendo encaminhadas para o Parque de Material dos Afonsos no Rio de Janeiro para serem desativadas. Lá estes aviões foram excluídos da carga da FAB e alienados em concorrência pública, com algumas unidades sendo adquiridas por empresas privadas, com uma aeronave sendo preservada no Museu Aeroespacial.              

Em Escala. 

Para representarmos o Beechcraft AT-11 Kansan FAB 1366 empregamos o antigo kit da Pionner 2 na escala 1/72, pois não existe similar na escala 1/48, trata-se de um kit extremamente básico sem nível de detalhamento. Para representar a versão operada pela FAB é necessário incluir os dutos de escape laterais dos motores, acrescer a base da torre de metralhadoras e o suporte da câmera fotográfica obliqua. Como não existe no mercado um set de decais específicos compomos o modelo com decais diversos oriundos muitos deles da FCM.
O esquema de cores descrito abaixo representa o padrão de pintura tático aplicado as aeronaves configuradas para as missões de foto reconhecimento e aerofotogrametria. Originalmente as células foram recebidas com pintura monocromática em metal natural, sendo este substituído posteriormente com o padrão de pintura dos demais C-45 e C-47 da FAB.
                                                                                                                                                                                                                                   
 Bibliografia :

- Beechcraft Model 18 - Wikipédia -  https://en.wikipedia.org/wiki/Beechcraft_Model_18     
- Aeronaves Militares Brasileiras 1916 á 2015  - Jackson Flores Jr
- História da Força Aérea Brasileira – Rudnei Cunha Dias da Cunha http://www.rudnei.cunha.nom.br/]