Curtiss P-40N Warhawk no Brasil

História e Desenvolvimento.

A Curtiss-Wright Corporation foi criada em 1929 a partir da consolidação da Curtiss Airplane and Motor Company (fundada em 1916 por Glenn Hammond Curtiss), a Wright Aeronautical (fundada por Glenn L. Martin e Orville Wright como Wright-Martin), agregando neste processo diversas empresas menores. Esta corporação teria destaca participação no esforço aliado durante a Segunda Guerra Mundial, se tornando a maior fabricante de aviões e componentes aeronáuticos dos Estados Unidos. Este resultado seria fruto do esforço da empresa que em inúmeras ocasiões empregou recursos próprios no desenvolvimento de seus projetos, um destes exemplos pode ser representado na aeronave Curtiss Model 75. O primeiro protótipo foi concluído em 1934, apresentava uma moderna construção toda em metal com superfícies de controle cobertas de tecido, um motor radial Wright XR-1670-5 desenvolvendo 900 hp (670 kW). Após modificações aplicadas para melhoria do desempenho ou adequação as exigências do USAAC, em 16 de junho de 1936 foram encomendadas três aeronaves para melhor avaliação, sendo estas designadas como Y1P-36. As primeiras células de produção do caça P-36 começaram a ser entregues aos esquadrões de combate do United States Air Army Corps (USAAC) em 1938, sendo alocados não só no próprio território continental como também em bases aéreas avançadas no pacifico.

Porém o início das hostilidades na Europa em 1939, trouxeram à tona novos patamares de desempenho para aeronaves e caça, e o desempenho apresentado pelos novos caças alemães Messerschmitt Me-109 e japoneses Mitsubishi AM-6 Zero , tornaram claro e evidente que o Curtiss P-36A Hawk não seria páreo para este nível de ameaça. Visando atender a esta deficiência a Curtiss-Wright Corporation quis dar um sopro de vida a seu projeto anterior, que já havia atingido o limite de seu desenvolvimento. Inicialmente a equipe de engenheiros da empresa se dedicou ao casamento entre a célula básica do P-36 Hawk com uma sofisticada versão do motor refrigerado a liquido Allison V-1710, recebendo a designação militar de XP-37. Foram produzidos 13 exemplares de pré-série ´para avaliação pelo Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos. Infelizmente após sua entrega estas células acabaram sendo atingidas por toda sorte de problemas vinculados ao grupo motopropulsor e seus acessórios, levando ao cancelamento deste projeto. Visando retomar a busca por uma solução a empresa optou por uma linha mais conservadora, descartando o motor radial e aplicando em seu lugar um motor em linha em V com 1.150 hp. Esta nova aeronave recebeu da USAAC a designação de XP-40, com o primeiro protótipo alçando voo em 14 de outubro de 1938 sob o comando do piloto de testes Edward Elliot.
No entanto para a preocupação da Curtiss-Wright, o desempenho da aeronave deixou muito a desejar, este cenário levou a introdução de uma série de alterações para que o XP-40 atingisse um desempenho mínimo para assim ser aceito pela USAAC. Apesar destas modificações, a aeronave continuava nitidamente inferior em termos de desempenho e manobrabilidade quando comparados aos novos caças alemães e japoneses.   Mesmo compreendendo as limitações, o comando do Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC) se viu premido pela urgente necessidade de se reaparelhar sua arma aérea e diante do baixo custo o XP-40 e do fato que poderia ser colocado em produção seriada muito antes de qualquer aeronave de melhor performance que poderia estar em desenvolvimento. Assim em 26 de abril de 1939 foi assinado o primeiro contrato para a produção de exemplares da versão P-40B, com as primeiras unidades popularmente chamados de Tomahawk sendo entregues as unidades de caça americanas a partir de abril de 1940. O batismo de fogo ocorreria no final de 1941, junto a Força Aérea Chinesa, quando caças pertencentes à esquadrilha Tigres voadores na China Nacionalista pilotados por voluntários americanos. O modelo seria adotado ainda pela RAF que encomendaria centenas de aeronaves nos termos do acordo Leand & Lease Act, entrando em ação primeiramente no teatro de operações da África do Norte em agosto de 1942. Visando sanar deficiências observadas em combate, a Curtiss desenvolveria a versão P-40D que seria seguida pelos novos e aprimorados P-40E em fevereiro de 1941, que diferiam da versão anterior por contar com um novo motor mais potente e armamento orgânico reforçado e blindagem reforçada.

A estas seguiram novas versões, porém a curva de aprendizado seria catalisada na série P-40K marcou a introdução do motor mais potente, o Allison versão V-1710-73 (F4R) avaliado em 1.325 hp para a decolagem e 1.150 hp a 11.800 pés de altura, esse motor possuía controle de impulso automático tornando o mais eficiente operacionalmente. O primeiro modelo de série deixou a linha de produção da Curtiss em agosto de 1942, detendo inicialmente uma encomenda de 1.300 células, as versões P-40K-1-CU e P-40K-5-CU eram semelhantes aos últimos lotes de produção de P-40Es exceto a dotação do motor Allison mais poderoso. O modelo K-5 era dotado de sistema de refrigeração válvula rotativa. Os modelos K-1 e K-5 mantiveram a fuselagem curta P-40E, fator este que acarretou problemas de estabilidade o que seria resolvido nas versões posterior. Buscando resolver esta anomalia no projeto, no verão de 1943 a Curtiss apresentava seu novo modelo P-40N (designação da empresa Modelo 87V, 87W ), sendo dotado com uma fuselagem maior a fim de sanar os problemas de estabilidades, este modelo contemplava ainda a adoção de radiadores e resfriadores em alumínio e outras alterações de projeto que obtiveram uma sensível redução do peso da aeronave , proporcionando assim uma melhora na velocidade final, se tornando a versão mais rápida desta família de caças. O modelo P-40N-5CU introduziu uma nova carlinga sem moldura no intuito de melhorar a visibilidade do piloto no ângulo traseiro, sendo esta alteração mantida em todas as subversões subsequentes da aeronave, outro fato interessante foi seu aumento na capacidade de transporte de carga útil, passando de 485kg nas versões anteriores, para 680 kg neste modelo.
Um total de 15 grupos de caça da USAAF, juntamente com outros esquadrões de reconhecimento tático, operaram a P-40 entre os anos de 1941 e 1945, a exemplo do Bell P-39 Airacobra, muitos oficiais americanos consideraram o P-40 excepcional, porém passou a ser gradualmente substituído pelo Lockheed P-38 Lightning, o Republic P-47 Thunderbolt e o North American P-51 Mustang.  Os Curtiss P-40K e P-40N Warhawk seriam também fornecidas a nações aliadas nos termos do Leand Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamento), entre elas União Soviética, Grã Bretanha, Austrália, Canada, Nova Zelândia e Brasil. Ao todo entre 1939 e 1944 foram entregues 13.739 células dividias em doze versões que também seriam empregadas no pós guerra pelas forças armadas do Egito, Finlândia, França, Indonésia, Polônia, Holanda, África do Sul e Turquia. Com muitas células sendo retiradas do serviço ativo somente em fins da década de 1950.

Emprego no Brasil.

Durante a Segunda Guerra Mundial, o Brasil passou a ter uma posição estratégica tanto no fornecimento de matérias primas essenciais a indústria bélica, quanto no estabelecimento de pontos estratégicos para montagem bases aéreas e operação de portos na região nordeste do país. Por representar o ponto mais próximo entre o continente americano e africano, a costa brasileira seria fundamental no envio de tropas, veículos, suprimentos e aeronaves para emprego no teatro europeu. A cessão destas bases iria gerar como contrapartida uma iniciativa com o intuito de se modernizar as forças armadas brasileiras que até então eram ainda signatárias da doutrina militar francesa e estavam equipadas com equipamentos obsoletos oriundos da Primeira Guerra Mundial. Este processo se caracterizaria  por ser fornecer ao pais os equipamentos armamentos e doutrinas para uma ampla modernização, e seria subsidiado pela assinatura da adesão do Brasil  aos termos programa norte americano Leand & Lease Bill Act (Lei de Arrendamentos e Empréstimos), que concederia ao Brasil uma linha inicial de crédito ao país da ordem de cem milhões de dólares, para a aquisição de material bélico, proporcionando ao pais acesso a modernos armamentos, aeronaves, veículos blindados e carros de combate. No que tange a aviação de combate a recém-criada Força Aérea Brasileira era a arma que mais carecia de modernização pois seus caças de combate mais modernos eram os já obsoletos Boeing F4B e P-12 e não satisfaziam as necessidades emergências daquele período.

Entre as primeiras aeronaves relativamente modernas a serem fornecidas a Força Aérea Brasileira estavam dez células do caça Curtiss Wrigth 75 Mohawk P-36A, em abril de 1942 sob o contrato B-905 seriam cedidas seis células da versão P-40E-1-CU Warhawk, aeronaves novas de fábrica que estavam originalmente destinadas a atender uma encomenda da RAF ( Royal Air Force – Força Aérea Real ) e foram desviadas para atender as demandas da FAB. Logo em junho de 1942 seriam transferidas novas aeronaves agora nas versões P-40K-10CU e P-40M-5-CU. Entre os meses de setembro de 1944 e março de 1945, a Força Aérea Brasileira viria a receber seus últimos Warhawks pertencendo este lote a requisição Leand Lease B-85-A4 de 1944, sendo compostos por 20 células do modelo P-40N-35 e 21 células do modelo P-40N-40. Estas variantes incorporavam diversas mudanças em relação aos modelos anteriores entre elas a incorporação do motor Allison V-1710-99/115, modificação nos sistemas de lubrificação e elétrico, equipamentos de radio e ADF de última geração, modernização do painel de instrumentos, ailerons  revestidos com laminas alumínio, controle automático de hélice, tanques de combustível  auto vedantes e escapamentos com supressor de chamas, proporcionando melhores resultados em alcance, teto operacional e razão de subida.
Logo após sua chegada foram distribuídos, sendo seis destinados a Base Aérea de Natal para dotarem o 2º Grupo de Caça, onde se juntaram aos P-40E, P-40K e P-40M e também para o recém-criado 3º Grupo de Caça sediado na Base Aérea de Canoas, sendo as aeronaves transladadas em dois grupos em dezembro de 1944. A ausência de um número suficiente de aeronaves de guerra antissubmarino e naval, levaria ao emprego dos Curtiss P-40 Warhawk em missões de missões de patrulha e acompanhamento de comboios, tarefa esta que se mostrou intensa. Apesar de não poderem infringir grandes estragos aos submersíveis alemães devido a sua baixa capacidade de transporte de bombas, somente a sua presença nas áreas de patrulha conseguia inibir as ações inimigas. Em outubro do mesmo ano foi decidido que o 2ºGpCa fosse transferido para a Base Aérea de Santa Cruz no Rio de Janeiro, seis células que foram destinadas ao 1º Grupo Misto de Aviação que as manteve até o terceiro trimestre de 1945 quando os caças foram destinados ao 2ºGpCa. Nesta unidade os P-40N foram usados também nas tarefas de formação de pilotos seguindo os preceitos estabelecidos pelo USBATU P-40 (United States Brazil Air Training Unit – Unidade de Instrução Aérea Estados Unidos Brasil), visando formar pilotos que deveriam complementar a dotação inicial dos efetivos do 1º Grupo de Aviação de Caça que estava operando na Itália.

Com o termino da Segunda Guerra Mundial e o retorno dos Republic P-47 Thunderbolt da Itália, decidiu-se concentrar as células remanescentes de todos os modelos do P-40 na Base Aérea de Canoas no Rio Grande do Sul, visando não só dotar o 3º Grupo de Caça mas também o 4º Grupo de Caça que fora criado em dezembro de 1945. Nos anos as seguintes os  Curtiss P-40N foram empregados para a formação de pilotos de caças. Em 1947  dentro do processo de reorganização da Força Aérea Brasileira, os dois grupos foram extintos surgindo em seu lugar o 1º/14º Grupo de Aviação (unidade que posteriormente receberia o batismo de Esquadrão Pampa), neste estágio, além de seguirem suas atividades de formação e interceptação, os P-40N Warhawks também passaram a ser empregados em missões de treinamento de ataque a solo com o uso de bombas americanas de exercício M38A2 de 47 kg. Ao longo destes anos, cinco aeronaves foram perdidas em acidentes graves.  A partir de 1948 a unidade abriu mão de seu papel como uma unidade de instrução, se tornando um esquadrão de emprego operacional, com participação constante nos exercícios de combate dissimulado com os P-47D nas manobras do Curso de Tática Aérea (CTA).
Perto do fim de 1949 um P-40N sofreu um acidente fatal quando em uso em uma missão de treinamento de ataque a solo, quando na recuperação a aeronave perdeu a asa, este acidente levou a imediata suspensão de todos os voos até que se fossem identificadas as causas, que eram originarias de anomalias no sistema hidráulico do trem de pouso que provocavam atritos nas longarinas durante os pousos, levando a uma completa revisão junto ao PAMA SP, onde praticamente a maioria dos caças das versões anteriores foram desativadas. Desta maneira os caças seguiram sua missão até o início de 1954, quando em abril uma inspeção identificou identificadas nervuras de asas partidas e rachadas, o que determinou a imediata suspensão de voo destes caças, rapidamente o PqAerSP desenvolveu um plano emergencial de substituição das nervuras comprometidas e inclusão de reforços. Infelizmente em 09 de maio do mesmo durante o primeiro voo de ensaio com o P-40K FAB 4039 a asa direita partiu-se vitimando o piloto, este fato selaria a carreira do modelo no Brasil, com as aeronaves afetadas por este problema sendo recolhidas aos poucos com os últimos voos sendo registrados em fins de junho.

Em Escala.

Para representarmos o P-40N "FAB 4062" empregamos excelente   modelo da Italeri na escala 1/48, kit este de fácil montagem que apresenta inclusive decais para a versão brasileira, porém infelizmente alguns decais estão superdimensionados para a escala, o que levou a utilização dos decais FCM presentes no set 48/23.

Entre as aeronaves recebidas onze células do modelo P-40N-40-CU vieram desprovidas de pintura camuflada com as demais pintadas no padrão olive drab. O esquema de cores (FS) descrito abaixo foi adotado em todas as células após as primeiras revisões completas de parque em 1945, mantendo este esquema até sua desativação.




Bibliografia :

- Aeronaves Militares Brasileiras 1916 - 2015  - Jackson Flores Jr
- Curtiss P-40 Warfawk  - Wikipedia - http://en.wikipedia.org/wiki/curtiss_P-40_warhawk
- Curtiss P-40 Um Caça Puro Sangue na FAB , Aparecido C.Alamino - Revista Asas Edição Nº 40
História da Força Aérea Brasileira, Prof Rudnei Dias Cunha -  http://www.rudnei.cunha.nom.br/FAB/index.html