LCVP Higgins Boats na Marinha do Brasil

História e Desenvolvimento.

A embarcação de desembarque, veículo, pessoal (landing craft, vehicle, personnel) ou simplesmente LCVP foi usada extensivamente em desembarques anfíbios na Segunda Guerra Mundial, tem sua origem a partir de um projeto do engenheiro norte americano Andrew Higgins. Este empreendedor iniciou sua carreira na década de 1930, com uma empresa de construção de barcos de pesca e emprego geral, especula-se que, no entanto, um dos principais intuitos de Higgins era comercializar suas embarcações para o contrabando de bebidas durante a lei seca nos Estados Unidos. No entanto esta lei seria revogada em breve o que prejudicaria os planos de comercialização do empresário, porém neste mesmo período ele seria procurado pelos militares americanos para a aquisição de embarcações de pequeno porte com o objetivo de facilitar as operações de desembarque de tropas. Esta demanda há muito tempo era almejada, porém mesmo os maiores esforços do Departamento de Construção e Reparação da Marinha nunca foi atendida de forma satisfatória. Este fato levaria com comando da US Navy a abrir uma concorrência visando analisar o desempenho de embarcações produzidas por empresas civis, assim sendo diversos modelos foram submetidos a um programa de testes no decorrer do ano de 1938, entre este a embarcação denominada “Eureka” produzida por Higgns obteve grande destaque vencendo inclusive em teste comparativos barcos produzidos pela própria marinha norte americana.

Pré-selecionado como principal opção  o “Eureka” foi submetido ao emprego real durante os exercícios de desembarque da frota em fevereiro de 1939, apesar de apresentar desempenho satisfatório na maioria dos aspectos, a embarcação apresentava como falha a necessidade dos homens e equipamentos precisavam ser descarregados pelos lados, expondo-os assim ao fogo inimigo em situações de combate e tornando a descarga demorada e complexa. No entanto, esse foi o melhor projeto de embarcação disponível e assim foi decidido colocado lo em produção e em serviço como embarcação de desembarque, pessoal recebendo a denominação de LCP ou Landing Craft Personnel, como equipamento de autodefesa o barco contava com duas metralhadoras Browining .30 . Dentro do programa de ajuda ao governo britânico centenas de “ LCP Higgins” foram fornecidos as forças militares aliadas a partir de outubro de 1940, passando a ser conhecidos como R-boat sendo empregados pelos comandos ingleses. Um grande salto evolucionário da embarcação seria proporcionado após a observação das forças militares japonesas que empregaram na Segunda Guerra Sino-Japonesa desde o verão de 1937 barcos de desembarque da classe Daihatsu que estavam equipados com rampa de proa . Estas embarcações passaram por intenso escrutínio por observadores da Marinha e do Corpo de Fuzileiros Navais na Batalha de Xangai, em particular, incluindo o futuro general Victor H. Krulak.
 Quando de seu retorno aos Estados Unidos Krulak apresentou a Higgins relatórios e uma imagem da embarcação japonesa e sugeriu que Higgins desenvolvesse uma versão semelhante reforçada para a Marinha Norte Americana, assim então o empresário, às suas próprias custas, iniciou com seus projetistas, estudos para a adaptação da idéia ao design do barco, chegando a construir três embarcações também com recurso próprios. Assim que apresentadas a Marinha Americana em maio de 1941, o novo modelo foi submetido a testes novamente, tendo como observadores altos oficiais da BuShip e Marine Equipment Board, testemunharam o sucesso de três testes efetivos, um deles envolvia descarregar um caminhão; outro, o embarque e desembarque de 36 funcionários da Higgins, simulando tropas. A boa impressão causada levaria a celebração do primeiro de muitos contratos, sendo esta embarcação foi posteriormente designada LCVP - Veículo de Embarcação de Desembarque, Pessoal. A produção teve início em 1948 nas linhas de produção da Higgins na cidade de Nova Orleans e curiosamente para a época, por uma exigência do próprio empresário, todos os colaboradores envolvidos no processo brancos, negros, masculinos ou femininos, receberam o mesmo salário com base em sua posição profissional. Até o começo do ano de 1945 mais de 23.528 unidades seriam produzidas, sendo empregas com grade êxito pelas forças aliadas em todos os teatros de operação durante a Segunda Guerra Mundial.

Apresentando pouco mais de 11 metros de comprimento e menos de 3,4 metros de largura, a LCVP não era uma embarcação grande. Era alimentado por um motor a diesel Gray Marine 6-71  de 225 cavalos que lhe proporcionava uma potência a 12 nós, oscilava em mar agitado, causando enjoo. Como suas laterais e traseira eram feitas de madeira compensada, ofereciam proteção limitada contra o fogo inimigo, mas também reduziam os custos e economizavam aço tão importante naquele período. O LCVP Higgins podia facilmente transportar um pelotão de 36 homens plenamente equipados, um jipe e um pelotão de 12 homens, ou 3,6 toneladas de carga. Seu calado raso (3 pés na popa e 2 pés, 2 polegadas à frente) permitiu que ele subisse na costa, e um semi-túnel embutido em seu casco protegia a hélice da areia e outros detritos. A rampa de aço na frente podia ser baixada rapidamente melhorando as operações de desembarque. Era possível para o barco Higgins desembarcar rapidamente homens e suprimentos, dar ré na praia e voltar ao navio de suprimentos para outra carga em três a quatro minutos. A pouca blindagem representava um problema grave, porém outras falhas foram encontradas mais tarde, como por exemplo a impossibilidade de o barco não poder atravessar águas rasas e recifes, necessitando assim sem complementado em operação por outros veículos foram criados para atender a essas desvantagens em operações anfíbias.
O batismo de fogo do LCVP “Higgins Boat” ocorreu em 8 de novembro de 1942, durante o lançamento da Operação Tocha, quando os aliados desembarcaram no norte da África, abrindo uma nova frente de batalha para as tropas do Afrika Korps. Já na Europa os LCVP seriam extensamente empregados durante a invasão aliada da Sicília, a Operação Shingle e também a operação Operação Avalanche na Itália. Foi ainda fundamental nas primeiras ondas de invasão da Normandia ocupada pelas forças nazistas durante a Operaçao Overlor deflagrada em 06 de junho de 1944 e posteriormente também na Operação Dragoon sul da França, em 15 de agosto do mesmo ano. Já no teatro de operações do Pacifico os LCVP tiveram grande importância nas Batalhas de Guadalcanal, Tarawa, Filipinas, Iwo Jima e Okinawa. O comandante supremo dos Aliados, general Dwight D. Eisenhower, declarou que o barco Higgins foi crucial para a vitória dos Aliados na Frente Ocidental Européia e nos combates anteriores no norte da África e na Itália. No pós-guerra milhares de unidades seriam fornecidas a nações amigas, sendo empregas em combate real pela Marinha Francesa durante a Primeira Guerra da Indochina para patrulhar o Mekong. Em seu país de origem seriam gradualmente substituídos por modelos mais novos a partir de meados da década de 1950.

Emprego no Brasil.

Durante a Segunda Guerra Mundial, as Forças Armadas Brasileiras foram submetidas a um amplo processo de modernização, sendo o país beneficiado por ser signatário do Acordo de Leand & Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos). Em termos de equipamento nossas forças armadas se equiparavam com seus pares norte americanos e britânicos, no caso específico da Marinha do Brasil diversos navios modernos foram incorporados, porém seu foco principal estava dedicado a missões antissubmarino, o que no período representava a maior ameaça ao esforço brasileiro ao lado dos aliados no conflito. Este fato em essência significava que outros braços do poder naval não foram contemplados com a mesma oferta de navios e equipamentos específicos de missão. Dentre estes ramos encontrava-se toda a estrutura de combate anfíbia, que no âmbito da Marinha Brasileira representava um grande anseio no desenvolvimento desta capacidade desde o final do conflito em maio de 1945. Assim logo no ano seguinte os primeiros passos seriam dados para se constituir uma força de combate anfíbia nos moldes do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos, que obtivera amplo sucesso em operações de desembarque nas ilhas do Pacífico e em uma escala maior como comprovado nas praias da Normandia na França. Estas operações serviriam ao proposito de apresentar a doutrina anfíbia que, em breve, passaria a servir de farol para a atuação no Brasil, da Força que estava prestes a ser criada. A criação de uma força anfíbia inspirada nos norte-americanos exigiria grandes mudanças nos paradigmas do Corpo de Fuzileiros Navais (CFN), haja vista a tendência do CFN em seguir os preceitos da doutrina da força terrestre aprendida nos cursos de aperfeiçoamento de oficiais, realizados, naquela época, no Exército Brasileiro.

Além disso, ainda faltava ao CFN meios para executar os desembarques, não apenas meios para ser empregados em terra que possuíssem características anfíbias, mas principalmente os meios navais para que se  pudesse cumprir uma ação essencial dessa natureza, quais sejam os navios e embarcações de desembarque, sem contar o acervo bélico da Marinha Brasileira , que era significativamente reduzido dos meios que os norte-americanos ostensivamente apresentaram ao mundo na Segunda Guerra Mundial. O estabelecimento de uma aproximação com a Marinha Norte Americana, facilitou o envio de oficiais Fuzileiros Navais para os Estados Unidos da América para a realização de cursos e estágios, oque gerou um clima favorável as mudanças necessárias. A escolha pela doutrina anfíbia militar norte americana ainda permanece atualmente, graças a esta iniciativa, pois os oficiais que realizaram cursos e visitas ao USMC, ao regressarem de suas jornadas juntos aos Marines eram imediatamente designados para servir nas escolas de formação. Contudo ainda havia alguns obstáculos a serem vencidos. Dessa forma era impositivo colocar em pratica os ensinamentos aprendidos com os meios de desembarque que estavam a disposição naquela época e, em 1948 na ilha de Pombeba na baia de Septiba, no litoral do Rio de Janeiro, uma companhia de fuzileiros navais oriunda da Guarnição Central, embarcada em dois contratorpedeiros da classe Beberibe, realizou a primeira operação anfíbia, sendo a preparação das praias de desembarque realizadas com tiro real de contratorpedeiros da classe M com apoio de aeronaves da FAB.
Em 1950 seria aprovada uma nova regulamentação para o Corpo de Fuzileiros Navais, que caracteriza uma profunda mudança de orientação, preparando assim o CFN para plena capacidade operativa com ênfase em operações anfíbias, criando assim a Força de Fuzileiros de Esquadra ou FFE. No entanto este regulamento não determinava o início da FFE, ele apenas previa sua necessidade. A Marinha do Brasil, em decorrência da assinatura, em 1952 do Programa de Assistência Militar (Military Assistence Program – MAP) entre os governos dos Estados Unidos e do Brasil, começou a receber novos meios, nos quais estavam incluídos dois navios de transporte de tropas recebidos em 1955 o G-20 Custodio de Mello e o  G-16 Barroso Pereira , sendo complementados em 1957 pelo G-21 Ary Parreiras e G-22 Soares Dutra. Estes novos navios foram projetados especificamente para missões de transporte de tropa e base de lançamento para operações anfíbias em larga escala. Dentro dos termos do MAP foram cedidos dos estoques do Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha Americana, um substancial lotes de embarcações de desembarque anfíbio, estando entre estes 25 LCVP “Higgins Boat” veteranos da Segunda Guerra Mundial, mas que se encontravam em excelente estado de conservação, e foram transportados ao Brasil em março de 1955.

Em 1956 os LCVP “Higgins Boat” passaram a ser denominados na Força de Fuzileiros de Esquadra – FEE como Embarcações de Desembarque de Viaturas e Pessoal ou EDVP, passando junto com os EDVM (Embarcações de Desembarque de Viaturas e Material) a integrar a Força de Transporte da Marinha que havia sido criada no mesmo ano. Sendo do modelo padrão os EDVP da Marinha Brasileira estavam aptos a transportar até 36 fuzileiros navais totalmente equipe, jeeps ou ainda peças de artilharia de baixo calibre. A partir de 1959 os  “Higgins Boat” brasileiros passaram a participar de um ciclo de adestramento fundamentado na realização de desembarques de pequena complexibilidade, tendo sido realizadas as operações Brisa em outubro, Corvina em novembro, sendo nesta ativado pela primeira vez o Destacamento de Praia. Em setembro de 1960 foi realizada a operação Arfagem, simultaneamente a essa nova onda de exercícios anfíbios, as unidades da FFE realizaram, no Brasil uma sequência de manobrar interaliadas, quer permitiram aos oficiais praças adquiri mais conhecimento e acumular experiencia. Todas estas manobras geraram a doutrina que possibilitariam a partir do início de 1964 no litoral do Espírito Santo, a primogênita da série das Operações Dragão. Além da tropa projetada em terra helitransportada a partir do porta aviões A-11 Minas Gerais , foram projetados em terra, em um período de dez horas, incluindo a movimentação navio para terra por superfície, a partir de 14 LCVP “Higgins Boat – EDVP e 4 EDVM, 844 militares, 20 viaturas leves e quatro obuseiros M3A3 de 105 mm na cabeça de praia.
Durante os anos seguintes os LCVP “Higgins Boat” seguiram prestando relevante serviços a Força de Fuzileiros de Esquadra – FEE,  participando de outras manobras de relevada importância, tendo também atuado a partir do ano de 1965 a chamado da Organização dos Estados Americanos, da  Operação de Paz FAIBRAS (Força Interamericana e Paz), na República Dominicana, onde as tropas do CFN em conjunto com o Exército, formaram o destacamento Brasileiro. Na década seguinte vislumbrou-se a necessidade de substituir os LCVP por embarcações mais novas, tendo em vista a idade da frota, sendo este efetivado a partir de aquisições de oportunidade e barcos produzidos nacionalmente. O advento do recebimento dos primeiros FMC LVTP-7A1 Clanf a partir de meados da década de 1980 viria a encerrar a longeva carreira destas embarcações na Marinha Brasileira, tendo em vista que a inserção de pequenos contingentes na praia era melhor performada por estes novos veículos sob esteiras. Apesar de sua obsolescência já apresentada na década de 1960, os LCVP “Higgins Boat” foram fundamentais para a formação da doutrina referente as Operações Anfíbias, Operações Ribeirinhas e Operações Terrestres de caráter naval, a fim de contribuir para a aplicação do Poder Naval.

Em Escala.

Para representarmos o LCVP “Higgins Boat” ou Embarcação de Desembarque de Viaturas e Pessoal, pertencente ao Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil, empregamos o kit básico da Airfix na escala 1/72. Para se compor a versão operada pelo CFN não há a necessidade de efetivar nenhuma alteração podendo ser montado diretamente da caixa. Empregamos decais originais do modelo em conjunto com peça confeccionados pela Eletric Products.

O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o primeiro padrão de pintura empregados nos LCVP “Higgins Boat” da Marinha do Brasil quando do seu recebimento, posteriormente foram alteradas as marcações de identificação e ocorreu também a inclusão de uma singela faixa em verde e amarelo.

Bibliografia : 

- LCVP Higgins Boats Wikipedia - https://en.wikipedia.org/wiki/LCVP_(United_States)
- Revista da FFE – Edição Comemorativa de aniversário da Força de Fuzileiros da Esquadra 
- Poder Naval por Alexandre Galante - www.naval.com.br
- Marinha do Brasil - https://www.marinha.mil.br/