Diamond T968 & T969 6X6 no Brasil

História e Desenvolvimento. 

Fundada em 1905 na cidade de Chicago pelo empresário C. A. Tilt a Diamond T Motor Car foi uma das muitas montadoras surgidas no início do século vinte nos Estados Unidos. O nome da empresa foi criado tendo como base inspiracional uma marca de sapatos produzida pelo pai de Tilt, sua logomarca apresentava uma grade “T” (de Tillt) emoldurado por um diamante, o que significava alta qualidade. Os primeiros veículos a serem produzidos eram carros de passeio e turismo, nos anos seguintes a empresa se aventuraria no segmento de caminhões médios e pesados, com seus modelos ostentando um emblema de um cão de trenó, no capo do motor, representando assim a proposta de robustez de seus produtos. A empresa lançaria no mercado norte americano produtos de grande sucesso, sendo o primeiro destes entre os anos de 1928 e 1929 quando uma gama de melhorias mecânicas foram implementadas, entre elas carroceria com portas rígidas, adoção de freios a tambor nas rodas hidráulicas , também toda a linha de caminhões pesados passaria a contar com novos motores de seis cilindros  fabricados pela Continental e Hercules, já os caminhões leves e carros de passeio seriam equipados com modernos motores de quatro cilindros Buda. Todos os caminhões possuíam eixos traseiros equipados com diferencial de engrenagem. Em 1929, havia classificações de carga do chassi (o peso da carroceria e da carga útil) de até 12 toneladas (10.900 kg) em três eixos. No que tange em especifico a linha de caminhões, entre os anos de 1933 e 1935 mais melhorias seriam implementadas, entre elas a introdução de uma nova cabine coberta de aço, com portas e janelas de enrolar, com este design sendo mantido na linha de caminhões comerciais e militares até ser substituída em 1951.

O começo da década de 1940 seria marcada pela adoção de novos modelos de motores para a linha de caminhões, sendo empregados grupo propulsores movidos a gasolina e a diesel, entre eles o Hercules de seis cilindros com até 118 cavalos de potência (88 kW) e diesel de Cummins de até 200 cavalos de potência (150 kW). A partir de 1942 a Diamond T iniciaria seu avanço no segmento militar, quando desenvolveu sob encomenda para o Exército Britânico (Army Ordnance Corps), o modelo Diamond T 980/981 de 12 toneladas com tração 6X4 (Mod G159), veículo este que seria destinado para o reboque ou transporte sob carreta de veículos blindados ou ainda tracionar pesadas peças de artilharia como o obuseiro M114 155 mm howitzer . Esse caminhão era alimentado por um motor diesel Hercules DFXE de 14,7 litros cúbicos (14,7 l), que desenvolvia 185 cavalos de potência (138 kW) com marcha muito baixa, podendo assim tracionar um reboque de até 52.000 kg, provando ser capaz de mover os mais pesados tanques em serviço no exército britânico. Foi equipado com chassi curto com lastro onde estava instalado o guincho hidráulico. Havia compartimentos de ferramentas fechados em ambos os lados, dois contêineres abertos na frente e uma tampa traseira com dobradiças. A caixa podia conter 8.200 kg de lastro para aumentar a tração nos eixos traseiros em tandem. Quando acoplado a carreta M9 Rogers, o modelo recebia a designação militar de transportador de tanques M19. Este modelo como os subsequentes da linha militar empregava a comercial Diamond T padrão (também usada pelos caminhões G509 de 4 toneladas), sendo este design mantido até agosto de 1943, quando foi substituído por uma cabine militar aberta. 
Em 1942 a fins de atender ao esforço de guerra a produção caminhões comerciais foi suspensa com o foco sendo destinado aos veículos militares, o interesse do Exército Norte Americano era o de possuir um modelo pesado de reboque para veículos blindados e peças de artilharia a exemplo do modelo desenvolvido para o exército britânico. Classificado como Diamond Model 980/981 12-ton 6x4 trucks (G159) esta versão seria a primeira a entrar em produção em larga escala, tratava-se em essência ao modelo britânico possuindo um engate de trava na traseira para rebocar até 11.000 libras (5.000 kg) fora da estrada e 25.000 libras (11.000 kg) na estrada. Apresentava uma distância entre eixos curta e uma saliência traseira, o corpo pode ter apenas 3,4 metros de comprimento, dispunha de aparadores com bancos dobráveis e arcos para uma lona no teto, foi equipado com dois pneus sobressalentes foram montados dentro do corpo. Os primeiros caminhões começaram a ser distribuídos as unidades de artilharia do Exército Norte Americano a partir de fins de 1942 sendo empregados também para transporte de carga, soldados e munição além claro da missão principal de tracionar peça de artilharia pesadas como o obuseiro M114 155 mm howitzer. A estrutura básica dos chassis era composta pelo sistema de escada com três eixos ativos, a frente em molas, os eixos traseiros em tandem em molas com braços de localização. Havia duas distâncias entre eixos, os 3,8 metros padrão e o longo de 4,4 metros, usado pelo caminhão de carga do pontão (dimensões aferidas a partir da linha central do eixo dianteiro à linha central do conjunto traseiro). Estavam equipados com pneus eram 9.00 x 20 com sistema traseiro duplo, possuíam com freios a tambor em todas as rodas.

A robustez do projeto levaria a criação de uma versão específica para socorro e reboque que receberia a designação de Diamond Model Wrecker Model 969, sobre seus chassis estava montado um guindaste hidráulico com lança dupla do modelo “Holmes twin-boom” com uma lança oscilante e um cabo de elevação acionado em cada lado. Ao rebocar, as barras foram giradas para trás, conectadas nas extremidades e funcionavam como uma estrutura em A. Quando o levantamento das barras pode ser separado e girado 90% para a frente, um estabilizador podia ser baixado para aumentar a capacidade de elevação. A caixa de transferência estava equipada com uma tomada de força que acionava uma transmissão com dois guinchos, os controles de ambos os lados do corpo permitiam que cada guincho se levantasse ou abaixasse independentemente do outro. O corpo tinha lados baixos na metade traseira, que afunilavam no chão na frente, deixando espaço para a lança balançar. Um suporte para a estrutura do destruidor continha um pneu sobressalente, podia ser ainda equipado com tanques de solda, compressor de ar, cabos, blocos e equipamentos como correntes, engates destinados a reparo ou socorro no campo de batalha.  A próxima versão a ser produzida foi a Ponton Model 970 destinada ao transporte de pontoes de ponte, para poder realizar esta missão o veículo teve sua distância entre eixos aumentada à medida que o tandem traseiro foi movido de volta para distribuição de peso, seu pneu sobressalente foi deslocado atrás da cabine e uma cama de 12 pés (3,66 m) de comprimento foi colocada mais atrás no chassi.
A esta se somariam as versões de transporte de lixo o Dump Model 972, que estava equipado com uma caçamba hidráulica basculante de 3,3 metros x 3,3 metros, e versões especiais como caminhão tanque para combustível ou cisterna de agua potável, aplicação de asfalto e transporte e remoção de componentes químicos , um total de 2.000 chassis seriam empregados em versões especiais que tiveram emprego no exército ou no corpo de fuzileiros navais. A estes podemos incluir o Cargo Model 975 serie especial de 1.500 unidades com chassis extralongos destinados ao Exército Canadense que foram localmente configurados para versões de oficina e transporte de pontoes. Elencando como item fundamental do programa Leand & Lease Act veículos da família Diamond foram disponibilizados as nações aliadas durante a Segunda Guerra Mundial. A produção foi descontinuada em janeiro de 1945 com mais de 30.000 sendo produzidas nas linhas de montagem da empresa em Chicago. No pós-guerra se mantiveram em operação nas forças armadas norte americanas até meados da década de 1950 quando passaram a ser substituídos por variantes da família REO M34 – M35.

Emprego no Brasil. 

Durante a Segunda Guerra Mundial, o Brasil passou a ter uma posição estratégica tanto no fornecimento de matérias primas de primeira importância para o esforço de guerra aliado, quanto no estabelecimento de pontos estratégicos para montagem bases aéreas e operação de portos na região nordeste, isto se dava pois esta região representava para translado aéreo, o ponto mais próximo entre o continente americano e africano, assim a costa brasileira seria fundamental no envio de tropas, veículos, suprimentos e aeronaves para emprego no teatro europeu. Como contrapartida no intuito de se promover a modernização das Forças Armadas Brasileiras, que neste período estavam a beira da obsolescência em materiais, quando de doutrina militar (pois havia grande influência francesa no meio militar brasileiro pois por muitos anos o pais ainda era signatárias da doutrina militar francesa que fora desenvolvida durante a Primeira Guerra Mundial. Este processo de reequipamento teria início em meados de 1941 após a adesão do governo brasileiro do presidente Getúlio Vargas ao programa norte americano denominado Leand & Lease Bill Act (Lei de Arrendamentos e Empréstimos). Os termos garantidos por este acordo viriam a criar uma linha inicial de crédito ao país da ordem de cem milhões de dólares, para a aquisição de material bélico, proporcionando ao país acesso a modernos armamentos, aeronaves, veículos blindados e carros de combate. Estes materiais e equipamento seriam vitais para que o país pudesse estar capacitado para fazer frente as ameaças do Eixo que se apresentavam no Atlântico Sul e no futuro front de batalha brasileiro nos campos da Itália.

A partir de fins e 1941 começaram a ser recebidos no Brasil os lotes de veículos militares destinados as forças armadas brasileiras que estavam dispostos no termo do acordo de empréstimos e arrendamentos. Em termos de veículos de transporte estavam diversos modelos de porte pequeno e médio da Dodge com tração 4X4 e no seguimento de caminhões os primeiros a serem recebidos pertenciam a um lote de 1.445 unidades de veículos da família GMC CCKW-352 A1 e B2 (cabine aberta e fechada), que seriam complementados nos anos seguintes por modelos da família Studbaker G-630 US-6. Em termos de veículos de transporte modernos para emprego do Exército Brasileiro os contratos de Leand & Lease Act previam o recebimento de uma variada gama de modelos desde carros leves com tração 4X4 até caminhões com tração 6X6. Carros blindados de reconhecimento como os T17 Deerhound, M8 Greyhound e carros de combate M3 Stuart, M3 Lee e M4 Sherman foram recebidos as centenas, além de peças de artilharia de campanha e artilharia antiaérea de porte pesado como os obuseiros M114 155 mm howitzer e AA como os M1A3 90mm e M3 de 76mm. Nesta época os únicos veículos em uso no Exército Brasileiro com capacidade de tracionar estes peças de artilharia era os tratores Minneapolis Moonline GTX-147 6X6 que haviam sido adquiridos em dos Estados Unidos em 1941 com a missão de tracionar os pesados canhões de costa Vickers Armstrong de 154,6 mm. Apesar de estarem presentes em uma quantidade significativa não podiam prover apoio as novas peças de artilharia e muito menos ao socorro e reboque de veículos blindados.
Em termos de veículos de socorro sob rodas o Exército Brasileiro estava em pleno  período de recebimento de modelos como os Chevrolet G-506 NM G-7117 com  guincho,  NK G-7113 trator e GMC CCKW-352 G-138 M-7, que apesar de serem fornecidos em quantidade considerável não tinha a capacidade de atender os veículos mais pesados em uso. Assim a fim de sanar esta demanda em contratos complementares do Leand & Lease Act, seriam destinados ao Brasil algumas dezenas de caminhões pesados com tração 6X6 destinados ao reboque de peças de artilharia e socorro a veículos de porte pesado em campo de batalha. Inicialmente a entrega deles foi postergada, pois a prioridades da produção destinada ao programa de empréstimos e arrendamentos estavam focadas no atendimento por veículos e armamentos das demandas do Exército Vermelho da União Soviética. Assim a partir do ultimo semestre de 1942 começaram a ser  recebidos no porto do Rio de Janeiro – RJ os primeiros caminhões pesados produzidos pela Diamond T Motor Car, sendo enviados em lotes até meados no ano seguinte que iriam totalizar 15 unidades da versão de transporte de carga Diamond T 968 /A/0 G-509 e T 968 /A/0 G-509 e 38 veículos especializados em socorro Diamond T 968 G-509 6×6 Wrecker. Após o recebimento todos os caminhões foram concentrados nas unidades militares nesta localidade onde se realizavam os treinamentos a fim de se formar motoristas e pessoal de manutenção para a frota.

Curiosamente os veículos da família Diamond T não seriam cedidos ao contingente do Exército Brasileiro que compunham a Força Expedicionária Brasileira (FEB), que quando em ação no front italiano a partir de 1944 receberam os mesmos veículos e equipamentos em uso pelas demais forças aliadas, nas quais os Diamond T 968/969 Cargo e Wrecker se faziam presentes em grande número. Os veículos recebidos se apresentavam em ambas as versões de aplicação com teto rígido ou teto de lona, sua motorização era a presente na maioria dos modelos produzidos desta família, o motor a gasolina Hercules RXC 106 hp gas que apesar de serem de maior potencia compartilhavam muitos itens dos motores do mesmo fabricante já em uso no pais como os JXD de 86 cv dos Studebaker US-6 , M8 Greyhound e M20, facilitando o processo de manutenção. No entanto sua maior potência instalada exigia um combustível de melhor qualidade, restringindo sua operação as cercanias das capitais, não podendo ser deslocados para áreas muito afastadas do interior pois nestas regiões a gasolina encontrada era de qualidade duvidosa. Devido a pequena quantidade os veículos da versão de carga foram concentrados nas unidades militares dispostas na capital federal facilitando assim o processo de manutenção, onde receberam a designação militar de VTNE Carga Emprego Geral 4 Ton 6x6 SWB LDE/PDE 1941/42 EB-21 truck 4-Ton teto rígido e lona c/guincho, já os caminhões de socorro foram designados como VE Socorro Leve de Rodas 4 Ton 6x6 1941/42 EB-22 Truck 4-Ton, 6×6 Wrecker teto rigido e lona guincho Garwood e devido sua especialidade foram distribuídos a diversas unidades motomecanizadas dispostas em diversos estados do território do pais.
Após o término da Segunda Guerra Mundial os Diamond T 968/969 seguiram em serviço realizando missões de transporte de cargas, munição e tracionando peças de artilharia, já os veículos de socorro Diamond T Wrecker continuaram sendo complementados pelos GMC CCKW-352 de socorro e pelos Ward La France M-1/A1 G-116 Mod 1000. Não encontramos registros oficiais, mas é bem possível que o Exército Brasileiro tenha incorporado mais unidades deste modelo durante a década de 1950 e 1960, a exemplo do recebimento de alguns veículos do modelo Diamond T980 (cavalo mecânico).  No início da década de 1960 a pequena frota começou a apresentar altos índices de indisponibilidade ocasionados por problemas no fornecimento de peças de reposição dos motores a gasolina Hercules JXD de 6 cilindros em linha, que já tinha sua produção descontinuada há mais de dez anos. Os primeiros caminhões a serem desativados foram os da versão de transporte, com os modelos de socorro se mantendo em operação fins desta década quando foram enfim desativados pelas versões de socorro dos novos REO M35.

Em Escala.

Para representarmos o Diamond T empregamos o antigo e excelente kit em resina da Accurate Armour na escala 1/35, modelo este que prima pelo nível de detalhamento e qualidade da resina, possibilitando expor o motor Hercules RXC 106. Fizemos uso de decais produzidos pela Decals e Books, presentes como   complemento do livro " FEB na Segunda Guerra Mundial" de Luciano Barbosa Monteiro.

O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura do Exército Americano utilizado durante a Segunda Guerra Mundial, após seu recebimento no Brasil os Diamond T968/969 receberam as marcações do exército e as matriculas de unidade. Este esquema foi mantido durante toda sua carreira operacional no Brasil até sua retirada do serviço ativo em fins da década de 1960.


Bibliografia :

- Diamound T Truck 6X6 – Wikipedia -  https://en.wikipedia.org/wiki/Diamond_T_4-ton_6x6_truck
- Blindados no Brasil - Volume I e II , por Expedito Carlos Stephani Bastos
- Manual Técnico – Exército Brasileiro 1976