Vultee BT-15 Valiant na FAB

História e Desenvolvimento.
A empresa Aircraft Manufacturing Co. Vultee Division, foi fundada no ano de 1932 nos Estados Unidos pelo projetista Gerard F. Vultee, um promissor jovem engenheiro que já havia trabalhado com Jonh Nortrhop no desenvolvimento do Lockheed Vega, ganhando experiencia necessária que lhe permitira agora seguir seu próprio caminho no promissor mercado de aviação civil norte americano. O primeiro projeto desta nova empresa recebeu a denominação de Vultee V-1, e fora concebido para competir no exclusivo segmento de transporte executivo. A aeronave em si , tratava-se de um veloz monoplano, monomotor, todo metálico, com capacidade para transportar até oito passageiros., tendo realizado eu primeiro voo em 19 de fevereiro de 1939. O programa de ensaios de voo mostrou-se ser extremamente promissor e ter inclusive registrado recorde de velocidade e autonomia, conquistando como primeiro cliente a empresa American Airlines com aquisição de 14 aeronaves que foram empregadas em rotas domésticas, o segundo operador civil a empregar o modelo foi a Bowen Airlines do Texas, porém as vendas se limitaram a apenas 27 aeronaves, frustrando as expectativas de vendas originais da aeronave. Curiosamente 7 aeronaves que antes pertenceram a American Airlines e outras oito células foram empregadas pelas forças republicanas durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), com 4 Vultee V-1 sendo capturados e operados também pelas forças nacionalistas, apresentando assim apresentando uma nova faceta para qual o modelo nunca fora pensado inicialmente.

No início da Segunda Guerra Mundial, o United States Army Air Corps (USAAC) empregava, para fase primaria de instrução de voo para seus cadetes, os biplanos Fairchild PT-17 Steaman, na fase seguinte os monoplanos Fairchild PT-19 e, na avançada, os North American T-6 Texan para formação monomotor e Cessna T-50 Bobcat e Beerchcraft AT-17 para formação multimotor. No entanto os Fairchild PT-19 não preenchiam plenamente os critérios estipulados para a formação do quadro de aviadores americanos, levando assim a United States Army Air Corps (USAAC) a buscar o desenvolvimento de uma aeronave de treinamento, através de uma concorrência nacional para uma aeronave substituta. Antes mesmo da criação desta concorrência, a empresa Vultee Aircraft Incorporated em 1938 iniciou sob a tutela de Richard Palmer (chefe de engenharia da empresa) o desenvolvimento de um projeto para um novo caça e adaptou sua aeronave para concorrer como treinador para atendimento da demanda do United States Army Air Corps (USAAC). Designado V-51 pelo fabricante e BC-51 pelo exército, o primeiro protótipo fez seu primeiro voo em 24 de março de 1939, apesar de ser tecnicamente superior aos seus concorrentes, a aeronave foi considerada muito cara e complexa para o tipo de treinamento pretendido, uma vez que era dotada de trem de pouso e flaps operados hidraulicamente e um motor de 600 hp, levando assim a United States Army Air Corps (USAAC) a optar por outro concorrente que apresentava uma melhor relação de custo benefício.
Apesar de não ter sido o projeto escolhido pelo United States Army Air Corps (USAAC), como treinador padrão, o protótipo do Vultee V-51 foi adquirido para fins de avaliação futura (designando-o o BC-3). Este movimento colaborou com a visão da  equipe de projetos da Vultee Aircraft Corporation, vislumbrava um grande potencial comercial na aeronave e solicitou a direção a empresa a permissão e recursos para continuar o desenvolvimento do projeto. Esta concederia todos os recursos necessários, desde que a nova aeronave fosse simplificada, trazendo o custo final da aeronave a patamares reais de comparação com os principais concorrentes. Atendendo a esta diretiva estratégica, os trabalhos foram retomados, buscando no conceito do novo treinador suprimir todos os sistemas considerados superficiais ou inovadores em demasia. Designado agora como Vultee Modelo 74 , a nova aeronave agora possuía trem de pouso fixo, um motor radial mais conservador, o  Pratt & Whitney R-985-25 de 450 hp e flaps acionados através de comandos mecânicos. Mantinha, porém como diferencial, a fuselagem metálica com a superfície dos comandos entelada, naceles cobertas dispostas em tandem com comandos duplicados, equipamento de rádio e possibilidade de instalação de sistemas para voo noturno e por instrumentos. O grande trunfo da aeronave no entanto estava baseada no excelente custo de aquisição, aliado a uma expectativa de baixo custo de operação e manutenção. 

A nova versão receberia a designação Vultee V-54, com o principal objetivo de promover vendas de exportação a nações amigas, apesar da empresa conduzir uma grande campanha comercial, a aeronave não receberia nenhum contrato internacional. De volta ao prancheta de projetos, decidiu-se  por adequar alguns pontos críticos do programa, visando assim buscar realizar uma nova oferta as forças armadas norte americanas.  Nascia assim o Vultee VF-54A, que foi oficialmente apresentado ao comando do United States Army Air Corps (USAAC)  em agosto de 1939, a nova performance de voo e a promessa de uma excelente relação de custo beneficio operacional, agradaram ao comando militar norte americano, que neste momento em função do agravamento das tensões politicas na Europa e Ásia, estava focado na expansão de suas forças de combate áreas, fato este que demandaria uma grande frota de aeronaves de treinamento. Um contrato seria firmado entre a Vultee Aircraft Corporatio e o governo Norte Americano para a aquisição inicial de 300 células do novo treinador, que receberia do United States Army Air Corps (USAAC) a designação de BT-13.  As primeiras células passariam a ser entregues a partir de junho de 1940, o intensificar das hostilidades mundo a fora nesta época levariam a celebração de um novo contrato englobando agora 6.407 células da nova versão BT-13A que apresentava novas melhorias. Neste mesmo período a Marinha Americana despertou interesse pela aeronave da Vultee concretizando a aquisição de 1.150 modelos BT-13 sob a designação SNV-1 e 650 unidades do BT-13 sob a designação de SNV-2. A próxima versão de produção apresentou uma modificação no sistema elétrico, que aumentou a tensão de 12 a 24 volts com sua denominação sendo mudada para BT-13B com sua produção atingindo a cifra de 1.125 unidades.
A partir de 1941, como a  fabricante de motores Pratt & Whitney Company   não conseguia atender a demanda por tantos grupos propulsores encomendados, o equipe de projetos da Vultee Aircraft Corporation, customizou o projeto da aeronave para a operar com o motor também radial do modelo Wright R-975-11 de 450 hp. Esta nova versão receberia a designação de Vultee BT-15, com sua produção  atingido 1.263 exemplares. Ao todo até fins de 1944 foram entregues 11.537 aeronaves de todas as versões, sendo fornecidos a diversas nações aliadas nos termos dos acordos militares do programa "Leand & Lease Act".  Após o encerramento da Segunda Guerra Mundial, todas as aeronaves em serviço nas forças armadas norte americanas, foram imediatamente retiradas do serviço ativo, sendo sucateadas ou repassadas a nações amigas. Os Vultee BT-13 e BT-15 seriam ao todo pelas forças armadas da Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, China, Colômbia, Cuba, Republica Dominicana, Equador, Egito, El Salvador, França, Guatemala, Haiti, Honduras, Israel, Indonésia, México, Nicarágua,  Panamá, Paraguai, Peru, União Soviética e Venezuela.

Emprego na Força Aérea Brasileira.
Durante a Segunda Guerra Mundial, o Brasil passou a ter uma posição estratégica tanto no fornecimento de matérias primas de primeira importância para o esforço de guerra aliado, quanto no estabelecimento de pontos estratégicos para montagem bases aéreas e operação de portos na região nordeste, isto se dava pois esta região representava para translado aéreo, o ponto mais próximo entre o continente americano e africano, assim a costa brasileira seria fundamental no envio de tropas, veículos, suprimentos e aeronaves para emprego no teatro europeu. Como contrapartida no intuito de se promover a modernização das Forças Armadas Brasileiras, que neste período estavam à beira da obsolescência em materiais, e em de doutrina militar (pois havia ainda grande influência francesa no meio militar brasileiro pois por muitos anos o pais ainda era signatário da doutrina militar francesa que fora desenvolvida durante a Primeira Guerra Mundial. Este processo de reequipamento teria início em meados de 1941 após a adesão do governo brasileiro do presidente Getúlio Vargas ao programa norte americano denominado Leand & Lease Bill Act (Lei de Arrendamentos e Empréstimos). Os termos garantidos por este acordo viriam a criar uma linha inicial de crédito ao país da ordem de cem milhões de dólares, para a aquisição de material bélico, proporcionando ao país entao acesso a modernos armamentos, aeronaves, veículos blindados e carros de combate. Estes materiais e equipamento seriam vitais para que o país pudesse estar capacitado para fazer frente as ameaças do Eixo que se apresentavam no Atlântico Sul e no futuro front de batalha brasileiro nos campos da Itália.

No que tange a aviação de combate a recém-criada Força Aérea Brasileira era a arma que mais carecia de modernização pois herdará em sua criação  da Aviação Naval da Marinha  e da Aviação Militar do Exército, aeronaves já ultrapassadas e não adequadas as ameaças existentes naquela época. Uma das prioridades  neste cenário, era a formação de um grande número de pilotos militares. E para esta tarefa em termos de aeronaves relativamente modernas, estavam à disposição poucas unidades dos modelos North American BT-13 e NA 72, sendo inferiores em termos quantitativo  as demandas exigidas. Os contratos Leand & Lease Bill Act previam a entrega de grandes quantidades de aeronaves de treinamento básico e avançado, que seriam fornecidos em lotes, com o primeiro grupo sendo recebido em de 1942.  Entre os  diversos modelos recebidos,  estavam 120 unidades novas de fábrica do consagrado Vultee BT-15 Valiant que deveriam ser empregados em tarefas de instrução básica e de voo por instrumentos. As aeronaves recebidas diferiam dos seus pares norte-americanos por estarem equipados com os motores Wright R-975-11 de 450 hp. Devido as ameaças de ataque a comboios de carga por parte dos submarinos do Eixo, foi determinado que todas as aeronaves fossem transladas em voo dos Estados Unidos, oque foi considerado um feito notável para a época, principalmente porque os pilotos brasileiros eram recém-formados nos Estados Unidos e tinham poucas horas de voo de experiência.
Após seu recebimento no Brasil na cidade do Rio de Janeiro, estas aeronaves foram distribuídas a Escola de Aeronáutica (EAer), onde passaram a ser empregados no programa de formação de novos pilotos militares, sendo empregados no estágio intermediário de treinamento, atuando entre os  os Fairchild PT-19 empregados na formação básica e os North American BT-13, NA 72 e AT-6 usados para a instrução avançada.  Durante a Segunda Guerra os Vultee BT-15 Valiant tiveram participação fundamental na formação de pilotos militares no pais. Esta sistemática de treinamento n aEscola de Aeronáutica (EAer)  perdurou até fins de 1946, no  ano seguinte os Vulteezinho, ou Vultee Perna Dura, como eram conhecidos os Vultee BT-15 ( para diferencia-los do seu “irmão mais velho”, o Vultee V-11 GB2, ou Vulteezão), foram distribuídos para as diversas bases aéreas onde passaram a equipar as Esquadrilhas de Adestramento, sendo empregados também missões administrativas em proveito destas unidades. Além das Esquadrilhas de Adestramento, os Vultee BT-15 também passaram a equipar o Centro de Preparação de Oficiais da Reserva (CPOR) se mantendo nesta atividade até o fim da primeira metade da década de 1950.

Sendo uma plataforma extremamente versátil e robusta, o Vultee BT-15 Valiant foi escolhido como a aeronave padrão para participar do ousado programa de desenvolvimento nacional de motores aeronáuticos, que estava sendo conduzido com supervisão norte americana junto a   Fabrica Nacional de Motores  - FNM (empresa estatal criada durante o esforço de guerra para reduzir a dependência nacional de itens complexos mecânicos). Desta maneira duas aeronaves foram cedidas pela Força Aérea Brasileira para servirem como banco de testes estático e em voo para os novos motores "nacionais" do modelo FNM R-975-11 de 450 hp. O Vultee BT-15 Valiant  "FAB 1082" foi escolhido  programa de ensaios reais em condições normais de operação, com o primeiro voo da aeronave com o protótipo do motor ocorrendo em 19 de março de 1946. Após a realização das avaliações o empreendimento foi considerado um grande sucesso, infelizmente por questões politicas e por falta de visão estratégica o projeto foi prematuramente cancelado. Em 1947 outras duas células do modelo  seriam incorporadas a Força Aérea Brasileira, estas aeronaves foram totalmente compostas por um vasto estoque de peças de reposiçao, sendo montadas junto as instalações do Parque de Material de Aeronáutica de São Paulo (PAMA SP), perfazendo um total de 122 aeronaves  recebidas e operadas pela Força Aérea Brasileira.
Os Vultee BT-15 Valiant estiveram relacionados no acervo operacional da Força Aérea Brasileira, entre os anos 1942 á 1956 quando, inclusive, foram utilizados no Correio Aéreo Nacional (CAN). Após sua desativação na Força Aérea Brasileira, o Ministério da Aeronáutica procedeu a doação das células em melhor estado de conservação e voo a diversos aeroclubes espalhados por todo o pais,  a fim de serem empregados na formação de pilotos civis. Algumas aeronaves também foram repassadas a Escola de Aviação da Varig (EVAER) onde passaram a atuar juntamente com um lote de  células do modelo  Vultee BT-13 Valiant, que haviam sido importadas anteriormente  dos Estados Unidos para o emprego na  realização de voos por instrumentos.

Em Escala.
Para representarmos o Vultee BT-15 Valiant  “FAB 110321” (número de série original americano, que depois logo substituída pelas matriculas de 01 a 122) empregamos o excelente kit em resina na escala 1/48 produzido pela Planet Models. Apesar do modelo representar a versão BT-13, pode ser empregado para a versão brasileira, pois a diferença baseia-se apenas na troca do motor Pratt & Whitney R-985-25, pelo Wright R-975-11. Como não existe no mercado um set de decais específicos para o modelo quando em atuação na Força Aérea Brasileira,  fizemos uso de decais oriundos de diversos sets confeccionados pela FCM.
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa padrão de pintura de aeronaves de treinamento da USAAC, com o qual as aeronaves foram recebidas a partir de 1942. Posteriormente logo após o termino da Segunda Guerra Mundial, as células receberam o esquema de aeronaves de instrução da Força Aérea Brasileira, mantendo este padrão até a sua desativação em 1956.


Bibliografia :

Vultee BT-13 Valiant – Wikipedia https://en.wikipedia.org/wiki/Vultee_BT-13_Valiant
Aeronaves Militares Brasileiras 1916 – 2015 – Jackson Flores
História da Força Aérea Brasileira , Prof Rudnei Dias Cunha - http://www.rudnei.cunha.nom.br/FAB/index.html