Fiat Ansaldo CV3/35 Modelo II no Brasil

História e Desenvolvimento.

A origem deste pequeno e notável carro de combate se baseou no projeto do veículo similar inglês Carden-Loyd Mk VI, modelo desenvolvido pela empresa Vickers-Armstrongs a pedido do Exército Real Britânico no inicio da década de 1920, tendo por missões prioritárias tracionar peças de artilharia e reconhecimento no campo de batalha. Seu projeto foi refinado ao longo desta década e o seu modelo final obteve grande êxito no mercado de exportações com mais de 450 unidades comercializadas para mais de vinte países, servindo de base para o desenvolvimento de uma geração de carros de combate leves, entre estes o modelo japonês Type 92 Jyū-Sokosha, o polonês TKS e italiano CV3-33. O Exército Real Italiano assinou contrato em 1929 com a Vickers-Armstrongs para o aquisição de quatro carros e produção em licença pela empresa  de mais vinte e uma unidades que passariam a ser equipadas com duas metralhadoras 8 mm Fiat Mod. 14 tipo aeronáutica ou ainda  um lança-chamas FIAT-OCI. Entrando em serviço localmente estes carros receberam a designação no Exército Real Italiano de CV-29, sendo "CV" é uma abreviatura de Carro Veloce (italiano: "tanque rápido") e "29" como o ano da adoção.

A pedido do Exército Real Italiano, a equipe de projetos da fábrica Ansaldo, de Gênova, iniciou estudos para o desenvolvimento de um carro de combate leve sob lagartas. O primeiro carro foi completado em 1933, sendo produzido em conjunto a Fiat, após testes de aceitação um primeiro contrato seria celebrado com o governo fascista italiano para a aquisição de 300 carros designados como CV3-33 e que seriam destinados a função de controle de distúrbios urbanos. Uma versão melhorada começaria a ser desenvolvida em 1934, que culminaria em 1935 em um veículo leve, de dois lugares, artilheiro e motorista, recebeu a designação de “Tankette” – em virtude de seu pequeno tamanho apresentando 3,15 m de comprimento,1,28 m de altura e 1,40m de largura, baixo peso na ordem de 3.100kg. Seu projeto facilitava a locomoção em terrenos difíceis, podendo alcançar 42km/h em estradas e 12km/h em terreno acidentado, com autonomia de 140km, blindagem máxima de 13,5mm, impulsionado por um motor Fiat a gasolina, 4 cilindros em linha, 43hp, 2.746 cilindradas e refrigerado a água. A participação da Fiat se dá através dos motores que o equiparam, daí a denominação Fiat-Ansaldo. Em 1936 começaria a produção da versão designada CV3-35 que visualmente se diferenciava da versão anterior por apresentar a blindagem fixada por rebites ao invés de soldada e passava a dispor de duas novas metralhadoras Fiat Mod. 14/35 de 8 mm em substituição os originais FIAT-Revelli Mod. 1914 de 6,5 mm.
O Exército Real Italiano em 1935 fez uma encomenda de cerca de 1300 CV3-35 que deveriam começar a ser entregues no inicio do ano seguinte, neste mesmo período foi contratada junto a  Ansalvo também atualização de muitas unidades dos primeiros CV-33 entregues a partir de 1933, após este processo de modernização estes carros foram renomeados como L3 / 33 ("L" para Leggero - Ligeiro) sendo empregados para tarefas de tração de artilharia leve ou ainda lancha chamas. Assim que introduzidos em serviço os CV3-35 iriam logo iniciar sua longa carreira em participações em ações reais, recebendo seu batismo de fogo durante a Segunda Guerra Italo-Abissínia e a Guerra Civil Espanhola, versões exportadas também atuariam em conflitos como a Segunda Guerra Sino-Japonesa, Guerra Eslovaco-Húngara e  na Guerra Anglo-Iraquiana. No entanto o desempenho em combate neste período foram considerados ruins, por pelo menos duas ocasiões durante a invasão italiana da Etiópia os carros de combate leves foram destruídos em contra ataques de infantaria, na Guerra Civil Espanhola o carros do do Corpo de Tropas Voluntárias (Corpo Truppe Volontarie, ou CTV) foram totalmente superados pelos tanques T-26 e BT-5 fornecidos às forças republicanas pela União Soviética.

Em 10 de junho de 1940, quando a Itália ingressou na Segunda Guerra Mundial, o Exército Real Italiano (Regio Esercito) possuía apenas cerca de cem carros de combate level L3/33 em dois batalhões de tanques, já os  tanquetes CV3-35 ainda equipavam todas as três divisões blindadas italianas compartilhando com carros de combate médios os batalhões de tanques nas divisões motorizadas, e o  grupo de esquadras de tanques leves estava presente em cada divisão "Rápida" (Celere) além de estas presente também em numerosos batalhões de tanques independentes. Apesar de números nos campos de batalha onde a Itália combateu na Segunda Guerra Mundial, os carros da Fiat – Ansalvo se mostraram obsoletos e ineficazes desde o inicio da campanha. Eles se mostram muito vulneráveis aos canhoes anti-tanque de 37 mm empregados pelas forças britânicas. Após a ocupação dos Balcas os CV3-35 começaram a ser deslocados para tarefas secundarias, com muitas poucas unidades permanecendo em serviço da linha da frente após o final de 1940. Cerca de 40 CV3-35 capturados foram utilizados pelo exército grego durante a Guerra Greco-Italiana, lutaram de 1940 a 1941, e foram utilizados para equipar a 19ª Divisão Mecanizada. Após a invasão da Iugoslávia e da Grécia em abril de 1941, os CV3-35 e L3/33 também foram capturados pelas forças de resistência iugoslavas e gregas. Após o armistício italiano com os Aliados em 1943, estes veículos foram utilizados pelas forças do exército alemão e pelo Exército Republicano Nacional da República Social Italiana, atuando até a rendição.
Aproximadamente 2.500 exemplares das modelos CV3-33 e CV3-35 foram produzidos até o inicio de 1943, sendo dispostos em diversas versões como o L3 CC anti-tanque armado com um canhão de 20 mm Solothurn instalado no local da metralhadora, L3 LF lancha chamas que tracionava o tanque de combustível blindado de 500 litros, L3 lança pontes e L3 Radio Comando que estava equipado com o potente rádio Marelli RF1 CA. Além dos países que operaram unidades capturadas em combate os carros da Fiat Ansalvo seriam ainda exportados para a China Nacionalista, Afeganistão, Albânia, Áustria, Bolívia, Brasil, Bulgária, Croácia, Hungria, Iraque e Espanha Nacionalista. Dado a suas limitações em confronto contra oponentes melhores armados e blindados os CV3-35 foram muitas vezes relegados a tarefas secundárias, como veiculo policial para contenção de distúrbios e ordem pública e veiculo patrulha para defesa de perímetro de campos de prisioneiros de guerra. Muitos países mantiveram seus exemplares em uso até meados da década de 1950.

Emprego no Brasil.

A implantação definitiva dos blindados no Brasil se deu a partir da chegada dos carros Fiat Ansaldo CV 3-35  Modelo II e ao idealismo do Capitão Carlos Flores de Paiva Chaves em1938. Muito embora esses carros não fossem os primeiros a serem adquiridos pelo Exército, foram de vital importância. As ideias do Capitão a respeito da novidade chamada carros de combate começaram a se materializar, concretamente, a partir de 1934, quando inicia um estágio na Escola de Cavalaria de Saumur e, no ano seguinte, serve no 13º Regimento de Dragões, em Melun, ambos na França, retornando ao Brasil no final de 1936. Este aprendizado foi muito importante, tanto que em 1937 foi nomeado Adjunto e Chefe da Seção de Motorização do Estado-Maior do Exército, criada a título experimental, onde organizou os estudos preliminares de motorização e mecanização. Em 1938, foi designado, por ordem do Ministro da Guerra, General Eurico Gaspar Dutra, para organizar o Centro de Instrução de Motorização e Mecanização (CIMM) e comandar a recém-criada subunidade-escola deste Centro, além de integrar a Comissão de Estudos de Motomecanização, uma novidade dentro do Exército Brasileiro.

Neste mesmo ano regressava ao Brasil, depois de ter observado o desenvolvimento das operações de guerra na Abissínia, então ocupada pelas tropas italianas, o General Waldomiro Castilho de Lima, que aconselha a compra dos modernos carros de combate leve Fiat-Ansaldo CV 3-35, da Itália, em razão de seu sucesso nas terras áridas em que se desenvolveu aquele conflito. Esses carros-de-combate, sem dúvida, foram o maior sucesso comercial da indústria bélica italiana, desta maneira seguindo a tendência de diversos que já haviam incorporado este blindado em suas fileiras, o governo brasileiro firma com a empresa Ansalvo um contrato para o fornecimento de um pequeno lote destes veículos. Os Fiat-Ansaldo, CV 3-35 II quando chegaram ao Brasil, foram recolhidos ao Depósito de Material Bélico, em Deodoro e, em 25 de maio de 1938, pelo Aviso no 400, foi criado o Esquadrão de Auto-Metralhadora do Centro de Instrução de Motorização e Mecanização, integrado à recém-criada Subunidade-Escola de Moto-Mecanização. Seu aquartelamento foi em Deodoro, ocupando parte de um edifício inacabado, e destinado à Escola de Engenharia (atual Escola de Material Bélico – EsMB). O próprio Capitão Paiva Chaves, com a ajuda de um sargento mecânico da Escola de Aviação, opera, um a um, os carros, os quais são levados do Depósito de Material até as novas instalações da subunidade.
Eles foram oficialmente apresentados às autoridades brasileiras na parada de 07 de setembro de 1938, formando assim a primeira subunidade mecanizada da Cavalaria brasileira  o Esquadrão de Auto-Metralhadoras, convivendo muito bem com a Cavalaria a cavalo. Os 23 blindados adquiridos possuíam dois tipos de armamento, sendo que 18 estavam equipados com duas metralhadoras Madsen calibre 7mm, e 5 com uma metralhadora Breda calibre 13,2mm. Formavam um esquadrão com quatro pelotões de 5 carros cada, cujos emblemas eram os naipes das cartas de baralho, pintados nas laterais, dentro de um círculo branco, sendo 4 carros com metralhadoras Madsen e 1 com metralhadora Breda, destinados aos comandantes de esquadrão e pelotões, e 2 eram carros reservas, além de um pelotão de apoio com 2 viaturas de turismo, 9 caminhões, 7 motocicletas, 8 motocicletas com side-car, sendo que os demais carros eram reservas. Seu efetivo total era de 102 homens, sendo 7 oficiais e 95 praças. A tripulação de um carro era composta de dois homens. A esta subunidade fora ainda agregada os 5 Renault FT-17 remanescentes da primeira tentativa de criar uma unidade blindada no Exército, desde 1921.

Esses blindados foram usados na instrução e formação de pessoal até 1942, enquanto o Exército vinha recebendo material de origem norte-americano, moderno, desde o ano anterior, para equipar diversas unidades, inclusive as blindadas. Eles motivaram muito a oficialidade brasileira no emprego e utilização de veículos blindados. Os Fiat-Ansaldo CV 3-35 II não foram excluídos, ainda sobreviveram, alguns deles foram enviados para Recife, neste mesmo ano de 1942, como integrantes do Esquadrão de Reconhecimento da Ala Motomecanizada do 7º Regimento de Cavalaria Divisionário, sob o comando do 1º  Tenente Plínio Pitaluga, futuro comandante do 1º Esquadrão de Reconhecimento da FEB, única unidade de Cavalaria do Exército Brasileiro a lutar no teatro-de-operações da Europa, reforçando as tropas do General Mascarenhas de Moraes, comandante da FEB. A seguir retornaram ao Rio de Janeiro, então Distrito Federal, sendo usados até o final da Segunda Guerra Mundial em 1945. Posteriormente, foram recolhidos a um depósito do Exército, e alguns foram para Polícia Militar do Distrito Federal, onde operaram até os anos 50. Outros  serviram como alvo em exercícios de artilharia e lança-chamas.
Durante e logo após a Segunda Guerra Mundial, a arma blindada brasileira foi inteiramente modificada e modernizada, passando a possuir blindados norte-americanos dos modelos M-3 Lee, M-4 Sherman e M-3 Stuart, os quais foram os sucessores dos Fiat-Ansaldo nas novas unidades criadas. Ainda é possível ver alguns exemplares preservados em diversas unidades militares, como no Museu Militar Conde de Linhares, no 15º Regimento de Cavalaria Mecanizada, em Campinho, Rio de Janeiro. Eles ainda desfilam em cerimônias em duas outras: na Escola de Material Bélico (EsMB), no Rio de Janeiro, e na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), em Resende, RJ, todos da versão equipada com duas metralhadoras Madsen de 7mm.

Em Escala.

Para representarmos o Fiat Ansaldo CV3-35 Modelo II fizemos uso do excelente kit da Bronco Models na escala 1/35, modelo este que prima pelo detalhamento apresentando set em photo etched. Não há necessidade de se promover nenhuma alteração para se representar a versão empregada pelo Exercito Brasileiro. Fizemos uso de decais customizados com base em sets produzidos pela FCM Decais.
 O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura do Exército Brasileiro aplicado em todos seus veículos militares nas décadas de 1920 e 1930, inicialmente os Fiat Ansaldo CV3-35 foram recebidos pintados em um padrão de camuflagem do Exército Real Italiano, sendo este esquema rapidamente substituído.


Bibliografia :

- Carro Veloce L3/35 (CV-35) - http://www.tanks-encyclopedia.com
- CV33 Ansaldo Wikipédia - https://it.wikipedia.org/wiki/CV33
- CV35 Ansaldo Wikipédia - https://it.wikipedia.org/wiki/CV35
- Consolidação dos Blindados no Brasil - Expedito Carlos Stephani Bastos - www.ecsbdefesa.com.br/defesa/fts/DC3.PDF