CCL X1 Pioneiro e X1A1/A2 Carcará

História e Desenvolvimento. 


Na segunda metade da década de 1930, o plano de rearmamento alemão estava focado desenvolvimento de novos conceitos e doutrinas militares, que combinado com novas tecnologias em equipamentos e armas destinadas ao combate terrestre com apoio aéreo (que viria a ser denominado posteriormente como Blitzkrieg). Este complexo programa tinha como um dos principais pilares, o desenvolvimento de carros de combate blindados, que se caracterizavam pela combinação de velocidade, mobilidade, blindagem, controle de tiro e poder de fogo. Assim no final desta mesma década o comando do Exército Americano ao observar este novo cenário tinha plena ciência que seus principais modelos de carros levem de combate M1 e M2 estavam completamente obsoletos quando comparados a seus principais rivais alemães. Fazia se necessário atender a esta demanda, com os primeiros passados sendo tomados em julho de 1940, com a decisão de um novo veículo que culminaria na família de carros de combate M3 Light Tank. Para a criação deste novo carro de combate foi definido como ponto de partida a adoção do canhão M22 de 37 mm, com sua blindagem sendo projetada para resistir a tiros de armas antitanque do mesmo calibre da arma principal. O novo carro de combate M3 foi projetado para levar uma tripulação de 4 homens composta por motorista, comandante, municiador e auxiliar. Nos primeiros modelos produzidos, o comandante, desempenhava também a tarefa de artilheiro do canhão. Já nos modelos mais modernos a partir da adoção de periscópicos para os dois tripulantes da torre, o comandante passou a se posicionar no lado direito, cumprindo a função de municiador. Com as definições de projeto alinhadas, iniciou-se de imediato a produção em larga escala a fins de se atender as demandas emergenciais de reequipamento do Exército Americano (US Army). Apesar de suas limitações frente aos carros de combates alemães, a família M3 Stuart/Honey foi empregada pelos aliados em todos os teatros de operações (sendo inclusive fornecido aos soviéticos), obtendo maior êxito no Pacifico, quando sobrepujaram os carros de combate japoneses. Em fins de 1943 as limitações originais do projeto em termos de blindagem e armamento levaram a sua substituição pelos novos, novos tanques leves M-24 Chaffe, sendo produzidas até junho do ano seguinte 22.744 unidades entre os modelos M3 e M5.

O final da Segunda Guerra Mundial não assistiria o fim da carreira dos M3 Stuart, classificados como excedente militar centenas de unidades seriam fornecidas em programas de ajuda militar a mais de 30 nações alinhados a geopolítica americana. Neste novo cenário seriam utilizados novamente em situações de conflito real, participando ativamente da Guerra Civil Chinesa, Guerra da Indochina e nos primeiros conflitos entre a Índia e o Paquistão e finalmente durante a Guerra de Independência de Angola (Guerra de Ultramar). Apesar de ultrapassado para o cenário bélico no inicio da década de 1950 a simplicidade e a robustez do projeto original que aliadas as características de facilidade de operação e manutenção iriam motivar desenvolvimento de programas de modernização em algumas forças armadas, com destaque para projetos realizados em Israel, experiencias estas que mais tarde serviriam de influencia para o Exercito Brasileiro. Em fins da década de 1960, a frota brasileira de carros de combate leve M3/M3A1 Stuart apresentava itens críticos de disponibilidade, dos mais de 400 carros recebidos grande parte estava fora de serviço devido a problemas na obtenção de peças de reposição, mais notadamente componentes dos dispendiosos motores a gasolina Continental. No ano de 1969 o comando do exército recebeu nas instalações do 1º BCCL (Batalhão de Carros de Combate) a visita de uma delegação israelense que tinha como objetivo a aquisição de plataformas militares antigas para conversão de novas versões de serviço. Esta intenção viria a despertar a atenção do Coronel Oscar de Abreu Paiva (comandante do 1º BCCL) para as possibilidades de emprego dos blindados M3/M3A1 Stuart existentes, com esta motivação sendo reforçada pela delegação daquele país que elogiaram as capacidades de exploração e modernização de carros de combate M3/M3A1 Stuart.
A grande disponibilidade, facilidade de manutenção, baixo custo operacional e principalmente falta de recursos para a aquisição de carros de combate modernos impeliriam iniciativas visando ao desenvolvimento de estudos para a implementação de programas de modernização da frota de M3/M3A1 Stuart. As primeiras tentativas de implementação pratica destes conceitos foram realizadas pelo Parque Regional de Motomecanizacão de Santa Maria (PqRMnt/3) no Rio Grande do Sul que estava profundamente imbuído nos esforços do “Plano Impere” , programa este que visava recuperar diversos veículos de combate do III Exército, resultando em um carro rebocador e nos protótipos da Viatura de Combate Antiaérea. No entanto o grande impulso seria motivado pelos resultados positivos obtidos pelo Parque Regional de Motomecanização da Segunda Região Militar de São Paulo (PqRMM/2) no processo de remotorização de carros blindados como os M8 Greyhound e M2/M3/M5 Half Track. Este processo levaria o Ministério do Exército a criar um um centro de estudos que resultaria no Centro de Pesquisa e Desenvolvimento de Blindados (CPDB). O principal objetivo desta organização era desenvolver uma nova família de blindados leves tendo por base a plataforma e componentes vitais dos antigos M3/M3A1 Stuart. Um dos pontos de partida deste processo era substituição do motor original a gasolina por um novo conjunto de produção nacional a diesel, elencando como opção de análises grupo propulsores oferecidos pela MWM Motores, Deutz e Scania Vabis. Foram desenvolvidos três protótipos que foram exaustivamente testados, a instalação dos novos motores demandou alterações na estrutura do veículo que tiveram de ser alongados acomodar o novo grupo motriz, obrigando a troca da suspensão original do Stuart pela do trator de artilharia M4 de 18 toneladas que era maior e mais larga. Os três protótipos foram submetidos a testes comparativos. O motor Deutz foi o melhor, mas a empresa logo em seguida deixou o País. Entre os outros dois, o que mais se adequava como solução era o Scania de 250 CV.

Paralelamente, sabedores das deficiências de performance dos Stuarts, como veículos de combate, devido a suas linhas retas e planos verticais da carcaça, elevada pressão sobre o solo em função de suas lagartas estreitas e baixo poder de fogo da munição do canhão de 37mm, e sem verba para adquirir outros veículos que pudessem substituí-lo, partiu-se para uma solução brasileira. Realizaram-se estudos no sentido de uma total reformulação do veículo, muito além da simples substituição do motor, como previsto inicialmente. Essas pesquisas indicavam uma reconstrução que compreendia: aproveitamento da caixa de mudanças e diferencial; novo desenho da carcaça com aproveitamento de fundo e frente; colocação do motor Scania turbinado de 250 CV com modificações especiais de cárter e turbina; adaptação de outra suspensão que permitisse o uso de lagartas mais largas; projeto e construção de nova torre com canhão de 90mm Anticarro. Os trabalhos tiveram início em 28 de junho de 1973, com autorização do DPET (Diretoria Pesquisa de Ensino Técnico) e apoio da Diretoria de Motomecanização, que abraçou a ideia. Em dois meses, construiu-se o carro na Indústria Biselli. Sob a supervisão do pessoal do PqRMM/2, o protótipo foi submetido a provas em Peruibe, com percursos em estradas de terra e asfalto, continuamente dia e noite, parando apenas para substituição de motorista e abastecimento. A torre que equipava esse modelo era Engesa. Posteriormente, uma nova torre foi projetada e desenvolvida na Bernardini e recebeu a designação inicial de B-90, em seguida, B-90 A1 (nos de série), onde foi adaptado o canhão francês 62-F1, calibre 90mm. A torre era toda em aço especial de 1" de espessura, resistente a tiros de metralhadora .50 a 200 metros de distância. Esse veículo participou da parada de 7 de Setembro de 1973, comandando as forças motorizadas em Brasília, tendo a bordo, na torre, o diretor de Motomecanização
Com a aprovação formal do projeto as empresas Biselli e Bernardini foram contratadas para a produção em série Coube, então, à Biselli a produção seriada dessa versão, conhecida como X-1, cuja previsão inicial de produção era de 53 veículos. Os trabalhos de produção desses veículos ocorreram da seguinte forma: o PqRMM/2 recebeu os Stuart, desmontou e entregou a carcaça à Biselli, recuperou a caixa de mudança e transmissão original do M-3 A1; a Biselli transformou a carcaça (aumento no comprimento, na largura e rebaixamento na silhueta), instalou o motor Scania, a suspensão Bernardini (derivada do Trator M-4, rebocador de artilharia), a caixa de mudança e transmissão do M-3 A1 original, as lagartas, produzidas pela Novatração, e toda a parte elétrica e de acessórios. O veículo saia da Biselli rodando e seguia para a Bernardini, que procedia a instalação da a torre e o canhão. Em seguida, no PqRMM/2, executava a instalação do armamento secundário e do equipamento de comunicações, os testes de estrada (200 a 300km) e de tiro de canhão 90mm (6 tiros).

Emprego no Brasil. 

O contrato previa a entrega inicial de 53 carros de combate (podendo chegar até 113 unidades em um aditivo complementar) do modelo agora designado como Viatura Blindada de Combate, Carro de Combate MB-1, recebendo o codinome de Pioneiro. O processo de produção em série enfrentou uma série atrasos em seu cronograma original, pois entre a encomenda dos primeiros veículos de pré-série, em dezembro de 1973, e a entrega dos mesmos à tropa, em fevereiro/março de 1976, decorreram-se  27 meses. Dentre as principais causas dessa demora, pode-se citar: a proibição de importação de componentes no decurso da execução de pré-série; os problemas de know how de engenharia de projeto, de gerência e de crédito, na Bernardini, especialmente devidos à falta de experiência; à expectativa de interrupção das encomendas, gerando desestímulos nas empresas envolvidas; o desvio de recursos e de atenção para os novos projetos (X-1 A1 e X-1 A2). Produziram-se dezessete carros de classificação como pré-séries, os quais foram incorporados ao 4º Regimento de Cavalaria Blindada, onde apresentaram problemas técnicos e operacionais de pequena monta, que foram sanados convenientemente. Da segunda série, composta de 16 veículos, 14 foram entregues ao 6o RCB em abril de 1979, 1 levado para a AMAN (Academia Militar das Agulhas Negras) e 1 para a EsMB (Escola de Material Bélico). Tudo leva a crer pelos registros oficiais  que estes foram os últimos produzidos nesta versão, neste período sua designação oficial passou a ser CCL-MB-1 Pioneiro X1.

Previa-se a produção de 113 veículos de denominação oficial CCL- MB-1 Pioneiro (X-1). O projeto do Pioneiro, início da entrada do Brasil na área de blindados de lagartas, não foi tão bom quanto o dos veículos sobre rodas. Ele sofreu críticas, muitas delas duras, mas serviu de aprendizado para o Exército e para a indústria nacional. Em uso nestas unidades os X1 foram bastantes utilizados, pois com sua manutenção simples não apresentavam problemas técnicos de difícil solução, a não ser os transtornos causados pela ausência de materiais técnicos que deveriam ser elaborados pelo fabricante, o que prejudicava a manutenção preventiva No entanto alguns problemas crônicos de projeto assolariam a operação do modelo como a embreagem deficiente por conter apenas um disco, e a constante quebra de molas volutas (originarias dos tratores M4 e semelhantes nacionais) e trincamento do garfo da polia tensora em função do peso elevado da roda tensora que solicitava exageradamente o garfo no deslocamento do veículo em alta velocidade sobre um terreno difícil. Paralelamente a essa produção, novos estudos foram sendo efetuados, visto que pretendia-se elaborar uma família inteira de blindados sobre o mesmo chassi. Alguns protótipos foram construídos, outros ficaram apenas no papel. A nova família usando a mesma plataforma X-1 compreendia: carro-de-combate X-1 Pioneiro, 35 exemplares; carro lançador de pontes XLP-10, 4 protótipos; carro lançador de foguetes XLF-40, 1 protótipo; carro socorro XCS, carro defesa antiaérea, carro porta-morteiro, construídos posteriormente;  carro buldozer e carro destruidor de minas, apenas estudos efetuados. Em julho de 1978, um relatório da 4º Subchefia do Estado-Maior do Exército sugeriu a interrupção da produção do X-1 e a transformação dos CCL M3 e M-3 A1 Stuart remanescentes em X1A2 e em viaturas blindadas especiais (porta-morteiro, antiaéreo, lança-ponte, lança foguete etc).
Partindo dessa experiência, nasceu o X1A1 Carcará, possuía inovações importantes em relação ao seu antecessor o X-1. As principais modificações empreendidas no modelo Carcará foram: – nova suspensão com três boogies, em vez de dois como no X-1, e uma polia tensora independente, permitindo uma pressão sobre o solo de 0,53kg/cm2 , melhor acomodação ao terreno e aumento da capacidade de transposição de fosso e com componentes de durabilidade e resistência superiores a seus similares no exterior; – alongamento de 20cm na carcaça, permitindo, com a mudança da posição da saída de emergência, acréscimo de 12 cartuchos de 90mm sob a torre, e, também, o aumento do comprimento do teto, o espaço necessário para ampliação do diâmetro da torre; – nova torre com rolamento maior de 1,60 m permitindo maior conforto da tripulação, acréscimo de mais 6 cartuchos de 90mm, base para o segundo rádio e antena, escotilha giratória do chefe do carro com base para metralhadora .50 antiaérea e ainda aplicação de acionamento de giro hidráulico; – introdução de acionamento hidráulico das alavancas de comando das lagartas, permitindo mais conforto e menor desgaste físico do motorista. Apenas uma unidade deste modelo foi construída e fou exaustivamente testado pelo Exército e serviu de base para o projeto do X-15, um novo carro-de-combate sem qualquer aproveitamento, mas que, por razões econômicas, transformou-se mais tarde no X1A2, produzido em série com aproveitamentos do X-1, superado por projetos maiores.

O X1A2 manteve o nome de Carcará e foi o primeiro carro-de-combate sobre lagartas brasileiro. Sua carcaça foi totalmente reformulada, inclusive retirando-se o espaço para o auxiliar do motorista, permitindo assim uma blindagem frontal com características balísticas muito superior às do X-1 e do X1-A1, além de lhe dar um desenho mais moderno. Outras grandes novidades foram a troca da caixa de transmissão, que passou a ser uma Allison CD-500 Cross-Drive, com três marchas – alta, baixa e ré –, e a colocação do canhão de 90 mm produzido no País e que equipava o EE-9 Cascavel. O giro da torre passou a ser hidráulico, e seu raio de ação foi aumentado para 580 km. Além destas melhorias o modelo passou a apresentar um maior índice de nacionalização de componentes, oque muito interessava ao comando do Exército Brasileiro, outro fato positivo esperado para a adoção deste novo carro de combate era que sua excelente relação de custo benefício em atividades de treinamento, podendo assim poupar custos e desgastes na frota de carros de combates médios M41 Walker Buldog. Após a avaliação do primeiro protótipo foi decidido pela produção inicial de 24 unidades, com o primeiro lote de 10 carros sendo entregue ao 6º RCB em 1981 e as unidades restantes apresentavam algumas diferenças de projeto e receberam a designação VBC CC MB-2A Lag, e curiosamente estes carros não foram colocados em serviço sendo apenas armazenados nesta unidade.
Em operação real, verificou-se nos carros X1A2 Carcará, um vazamento crônico do selo mecânico do conversor de torque,  componente este original do trator M4 High-Speed Tractor, com esta ocorrência  se aliando  também a alto índice de falhas e quebras no sistema de manches de direção, o que traria dissabores para as equipes de manutenção. Apesar de serem anomalias passiveis de correção, neste período todos os recursos disponíveis passariam a ser canalizados para o ambicioso projeto de modernização dos carros de combate médios M41 Walker Buldog. Este direcionamento levaria ao encerramento do projeto e produção do X1A2 Carcará, com o tempo o 6º Regimento de Carros de Combate (6º RCB) passaria a concentrar os últimos remanescentes X1 Pioneiro e X1A2 Carcará em serviço no Exército Brasileiro, mantendo em operação até até julho de 1994 quando foram substituídos pelos novos M41C Caxias.

Em Escala.

Para representarmos o Bernardini CCL X1 Pioneiro “EB11-232” empregamos como ponto de partida kit da Academy na escala 1/35, desenvolvendo em scracth todo o chassi, canhão e torre. Fizemos uso de fotos de referência e desenhos, buscando a maior proximidade possível com o veículo real. Empregamos decais Eletric Products pertencentes ao set “Exército Brasileiro  1942 - 1982".

O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura empregados em todos os carros de combate leve (CCL) X1 , X1A1 e X1A2 operados pelo Exército Brasileiro até 1983, sendo que após este ano alguns carros de combate receberam o padrão de camuflagem tático adotado pelos EE-9 Cascavel e M41C Caxias, mantendo este esquema até a sua desativação em 1994.


Bibliografia :

- O Stuart no Brasil – Helio Higuchi, Reginaldo Bachi e Paulo R. Bastos Jr.
- M3 Stuart Wikipedia - http://en.wikipedia.org/wiki/M3_Stuart
- Blindados no Brasil Volume I, por Expedito Carlos S. Bastos