Jeep MB "1942" Ford & Willys Overland

História e Desenvolvimento.
No final da década de 1920 o comando do Exército Americano (US Army) estava imbuído em grande processo de motomecanização, visando aplicar em sua frota as evoluções tecnológicas observados na pujante indústria automotiva americana. Além de contemplar veículos de carga e transporte de pessoal, este programa apresentava como de uma das primícias básicas, o desenvolvimento de um veículo leve com tração 4X4 devendo apresentar capacidade de superar terrenos difíceis com obstáculos, e com capacidade para levar até quatro homens e equipamentos. No entanto este conceito  só se materializaria a partir de 1932 em um projeto idealizado pelo Coronel R.G Howie,  da 7º Companhia de Tanques  (7th Tank Company) baseada no  Fort Smelling Minn no estado de Minessota.  Com base neste conceito, um  primeiro protótipo foi construído em 1937 nas oficinas do Forte Sam Hous Ton no estado do Texas, sendo imediatamente submetidos a testes práticos de campo. O resultado deste processo culminaria em ajustes e modificações, gerando assim um modelo final que seria aprovado pelo comando do Exército Americano (US Army). Esta demanda resultaria na assinatura com a a montadora Bantan Car Company of Butler, para a produção de 70 carros iniciais. Estes veículos passaram se entregues a partir de meados do ano de 1938 ao Quartel General do Departamento Exército em Holabird em Baltimore. Dispondo de uma frota agora maior o comando do Exército Americano (US Army)  pode ampliar seu programa de testes, levando também ao desenvolvimento um amplo processo de formação de doutrinas para emprego deste novo tipo de veículo militar com tração total 4X4.

Em uso rotineiro, este novo veiculo permitiu explorar um grande potencial de mobilidade para força terrestre operando com sucesso em uma variada gama de tarefas. Esta perspectiva levaria a decisão em se adotar em larga escala o modelo  nas forças armadas norte americanas, culminando assim na abertura de concorrência para o desenvolvimento de um novo carro que seria parametrizado dentro dos conceitos deste tipo de utilitário.  Neste mesmo momento  aumento das tensões politicas na Europa e no Pacifico, já antecipavam um cenário complexo e tornavam cada vez mais primente a urgência de modernização e reequipamento das forças armadas, e neste contexto a adoção em larga escala desde modelo de utilitário leve com tração integral se tornava uma  prioridade. Foram feitos convites a 135 montadoras norte americanas para participação neste processo, com este apresentando como condição  sine qua non, que os as propostas envolvessem a apresentação de um protótipo funcional em 49 dias para fins de avaliação imediata. Destas montadoras apenas a Ford Motor Company, American Bantam Co e Willys-Overland Co,. aceitaram o desafio, porém somente a segunda conseguiu entregar o protótipo funcional dentro do prazo exigido. Apesar do carro da American Bantam Co lograr êxito no processo de avaliação, o comando do Exército Americano (US Army) em face a necessidade de produção em massa decidiu aprovar também os projetos dos demais participantes. Os processos de avaliação e testes resultaria em modificações sobre o protótipo original, nascendo assim o modelo Bantan BRC, que apresentava em termos de desing o desenho da parte traseira do veículo semelhante aos projetos da Ford e Willys-Overland, apresentando, porém, frente levemente arredondada em consonância com o design típico do final dos anos da década de 1930. 
Este carro aprimorado foi empregado novamente  em extensivos testes no campo de provas do Quartel General do Departamento Exército Americano, em Holabird entre 27 de setembro a 16 de outubro de 1940, com este processo sendo acompanhado de perto pelos engenheiros da Ford Motors Co. e da Willys-Overland.  Relatórios deste programa culminariam na formatação do modelo "BRC 40", esta que pode ser considerada a versão definitiva de produção. Em 31 de marços de 1941, um contrato seria celebrado junto a American Bantam Co., para a aquisição de 1.500 unidades com prioridade máxima de entrega. Apesar de apresentar um projeto superior aos modelos da Ford Motors Co. e da Willys-Overland, era notório que montadora., não dispunha infelizmente de capacidade industrial imediata para atender a contento este compromisso, bem como novos contratos que seriam firmados a seguir, a este fator critico somava-se o cenário de instabilidade financeira e  fiscal , no qual a empresa atravessava. Desenhava-se então um grande problema, que poderia afetar gravemente as necessidades de reequipamento das forças militares norte americanas. A fim de sanar esta deficiência, o Departamento de Guerra Norte Americano unilateralmente decidiu ceder as plantas originais do veiculo para seus concorrentes a Ford Motors Co. e a Willys-Overland Co., sob a alegação que o referido projeto  era de propriedade intelectual do governo. Apesar da possível contenda jurídica a cerca desta decisão, o objetivo deste movimento era o de fazer uso da gigantesca capacidade das linhas de produção destes concorrentes, proporcionando o atendimento das demandas nos prazos estipulados. Curiosamente esta decisão arbitrária,  não foi contestada pela diretoria da American Bantam Co., muito em função da precária situação financeira da empresa. 

O próximo contrato envolvendo 16.000 carros seria direcionado a Willys Overland Co. que designou o veículo como" MA Quad". Em seguida novos contratos seriam celebrados, porém a Ford Motors Co. passaria a receber as maiores encomendas de produção até o final de 1945. No início, o programa do veículo utilitário  leve com tração 4X4 recebeu a designação militar de “GP” em alusão ao seu proposito General Purpose Vehicle (veículo para uso geral). Seus primeiros usuários se referiam  ao veículo pelo acrônimo "GP", que na língua inglesa soava na pronuncia como "jeep". Curiosamente a palavra "jeep" era a única pronunciada por um personagem de quadrinhos muito famoso da década de 1930 chamado Eugene, que era o bicho de estimação de Olívia Palito, namorada do marinheiro Popeye. Este simpático personagem era detentor de uma variada gama de poderes, como super força e capacidade de caminhar pelas paredes e tetos. Assim graças a popularidade do desenho animado, os soldados passaram a chamar seus veículos de “Jeep” em alusão aos seus poderes. O termo "Hey, he's a real Jeep!" (Ei, ele é um verdadeiro Jeep!), era constantemente empregado para pessoas que apresentavam uma capacidade física superior. Curiosamente nascia assim um dos mais famosos nomes de veículos da historia mundial. Conforme as montadoras aceleravam o processo de fabricação, mais e mais unidades militares norte americanas passavam a integrar o modelo em suas frotas. O batismo de fogo logo viria, figura na  mente coletiva que o primeiro Jeep a entrar em combate foi o modelo Willys MB ou simplesmente "42" (de 1942), mas isso é um erro. Antes dele, outros modelos de Jeep foram enviados para as frentes de combate, como o Willys Quad, Bantan BRC 40,  Willys MA e o Ford GP ou Pigmy, com estes vendo a ação real pela primeira vez.
Durante toda a  Segunda Guerra Mundial, a produção desta versátil família de utilitários leves superaria mais de  meio milhão de carros, destes 363.000 produzidas pela Willys Overland Co. e cerca de 280.000 entregues pela Ford Motors Co. O modelo seria um dos expoentes do Programa Lend & Lease Act Bill (Lei de Empréstimos e Arrendamentos), com mais de 51.000 unidades fornecidas somente para a União Soviética, além de milhares mais para os países aliados.  Diferente de uma serie de veículos militares que tiveram sua produção descontinuada após o termino do conflito, a família de veículos Jeep continuou a ser fabricada, agora somente pela Willys Overland Co., pois neste período a  Ford Motors Co., foi judicialmente impedida de fazer uso da marca Jeep. A partir do inicio da década de 1950, o modelo seria redesignado como M38 (MC), logo em seguida o modelo seria o primeiro veículo militar que receberia autorização do governo para ter uma versão para os civis. O exemplar destinado à compra do público tinha partes diferentes do original, além de ser rebatizado de Willys CJ (Civilian Jeep, traduzindo para o português, Jeep Civil). Sua produção só seria descontinuada nos Estados Unidos somente em 1964 após um total de 167.345 unidades fabricadas. Detentor de uma mecânica simples e robusta, grande parte dos veículos construídos durante a Segunda Guerra Mundial permaneceram em uso em diversas forças armadas no mundo até o final de década de 1990.

Emprego nas Forças Armadas Brasileiras.
No início da Segunda Guerra Mundial, o governo norte americano estava preocupado com uma possível ameaça de invasão no continente americano por parte das forças do Eixo. Quando a França capitulou em junho de 1940, o perigo nazista a América se tornou claro. Se a Alemanha pudesse obter bases nas ilhas Canárias, Dacar e outras colônias francesas, o Brasil seria o local mais provável de invasão ao continente pelas potencias do Eixo. Além disso, as conquistas japonesas no Pacifico tornavam o Brasil o principal fornecedor de látex para os aliados, matéria prima para a produção de borracha, um item de extrema importância na guerra.  Além deste aspecto, geograficamente o país era estratégico para o estabelecimento de bases aéreas e operação de portos na região nordeste, isto se dava, pois, esta região representava para translado aéreo, o ponto mais próximo entre o continente americano e africano, assim a costa brasileira seria fundamental no envio de tropas, veículos, suprimentos e aeronaves para emprego no teatro europeu. Este cenário levaria a uma maior aproximação política e econômica entre o Brasil e os Estados Unidos, resultando em uma série de investimentos e acordo de colaboração. Entre estes estava a adesão do país ao programa de ajuda militar Leand & Lease Bill Act (Lei de Arrendamentos e Empréstimos), que tinha como principal objetivo promover a modernização das Forças Armadas Brasileiras, que neste período estavam à beira da obsolescência em equipamentos, armamentos e doutrina. Os termos garantidos por este acordo, viriam a criar uma linha inicial de crédito ao país da ordem de cem milhões de dólares, para a aquisição de material bélico, proporcionando ao país acesso a modernos armamentos, aeronaves, veículos blindados e carros de combate. Estes recursos seriam vitais para que o país pudesse estar capacitado para fazer frente as ameaças do Eixo que se apresentavam no Atlântico Sul e no futuro front de batalha brasileiro nos campos da Itália.

Os contratos inicialmente firmados entre os governos, previam o fornecimento de 1.985 veículos leves com tração 4X4 do tipo "Jeep", com estes não atendendo a nenhum critério de padronização de fabricante, não existindo  registros oficiais sobre a quantidade de modelos recebidos que foram produzidos pela Ford Motors Co.,  American Bantam Co.  ou Willys Overland Co. Os primeiros carros começaram a ser recebidos no Brasil em lotes a partir de março 1942, e mesclavam veículos novos e usados (oriundos do Exército Americano – US Army), existindo relatos de alguns modelos raríssimos como os Willys MA (sem registro) e "Slatt Grill" (grade de grelha), Ford GP e até uma unidade do primordial Bantam BRC-40.  Salientamos que grande parte destes carros foram fabricados durante o ano de 1941, representado modelos da fase inicial de produção, sendo este o procedimento formal de cessão de equipamento militar a aliados, priorizando assim a entrega de versões mais novas e aprimoradas para as forças armadas norte americanas. O advento do recebimento destes carros e sua operação no Brasil, em muito contribuiu no processo de implantação da motomecanização em larga escala no Exército Brasileiro, não só por sua versatilidade mas também pela quantidade disponível, pois até então, sua frota de veículos com tração integral deste porte se resumiam a  poucos e antigos  Vidal & Sohn Tempo G1200 de procedência alemã que foram recebidos em 1938, porém disponíveis em um número insuficiente para se dotar sequer uma unidade. Além do Exército, uma grande quantidade destes carros seriam disponibilizadas a Força Aérea Brasileira e Marinha do Brasil para o emprego em missões administrativas.
Do total de veículos previstos para cessão a pais, foi decidido que 655 carros seriam entregues na Itália posteriormente para assim equipar as unidades operativas da  Força Expedicionária Brasileira (FEB), que contemplariam o envio de 25.000 soldados ao continente Europeu, teatro no qual os Jeeps teriam grande papel na locomoção das forças brasileiras durante a campanha. A partir do dia 5 de agosto de 1944 estes veículos começaram a ser disponibilizados ao Exército Brasileiro, sendo retirados do  estoque estratégico do 5º Exército Norte Americano baseado na cidade italiana de Tarquinia, com muitas das viaturas podendo ser consideradas como “veteranas de guerra”, devido ao seu intenso emprego nas campanhas militares  Sicília e Norte da África. O principal motivo da cessão de carros usados e muitas vezes em péssimo estado de conservação  para as forças militares brasileiras, era a necessidade de alocação de recursos veículos e equipamentos de primeira linha que foram empregados em junho do mesmo ano na invasão da França durante o "Dia D" na operação Overlord. Neste contexto alguns carros seriam fornecidos a Força Aérea Brasileira para emprego junto ao 1º Grupo de Aviação de Caça (1º GpAvCa) e a 1º Esquadrilha de Ligação e Observação (1º ELO), onde seriam empregados em tarefas administrativas. Os veículos incorporados ao Exército Brasileiro se apresentavam em número inferior as necessidades de movimentação da 1º Divisão de Infantaria Expedicionária (1º DIE), pois pelo tamanho do contingente seria necessário se contar pelo menos com o dobro da frota. Desta maneira este carros passaram ser muito valorizados, e os soldados indicados como motoristas,  passavam a adotar estes carros como verdadeiras “damas”, sendo submetidos primorosamente a processos de  manutenção preventiva e corretiva. Exemplo disso é que grande parte da frota recebeu nomes de batismo, pintados em sua lataria, com alguns fazendo referência às “pessoas amadas” que ficaram no Brasil. Como referencia citamos o Jeep FEB 330 que recebeu o nome “Delourdes” , o Jeep FEB 310 chamado de “Macaca”, e também o  veiculo de uso pessoal do General de Divisão Joao Batista Mascarenhas de Morais, que recebeu o nome de “Liliana” em homenagem a sua filha.
 
Curiosamente as chaves de ignição destas viaturas eram soldadas aos painéis para evitar o risco de perda das mesmas. Em solo italiano estes carros não receberam a sistemática de  numeração padronizada pelo Exército Brasileiro, fazendo uso do padrão norte americano vigente na época, este fato gerava grande dificuldade na gestão da frota, por parte dos responsáveis brasileiros, chegando a ocorrer extravios e furtos por parte das unidades aliadas presentes no mesmo front. No entanto estas perdas eram sorrateiramente repostas, pois muitas vezes os soldados brasileiros, de jeeps do Exército Americano (US Army), pois muitas vezes este eram deixados parados em diversas localidades desacompanhados, e ao se deparar com este fato, as patrulhas brasileiras “pegavam emprestado” estes carros, já que geralmente a chave de ignição era soldada  no painel. Dos jeeps recebidos pela Força Expedicionária Brasileira (FEB), nove estavam configurados na versão de ambulância, provendo assim a remoção de feridos do campo de batalha até os hospitais de campanha, sendo lotados junto ao Batalhão de Saúde operando em conjunto com outros tipos de veículos. Também esta tarefa era frequentemente realizada por outras unidades brasileiras, fazendo uso jeeps convertidos localmente  para o transporte de feridos. Diversas opções foram elaboradas para a versão do Jipe Ambulância, como a de poder levar dois pacientes sem alterar o veículo original, colocando uma padiola atravessada na parte detrás da viatura com os punhos assentados nas laterais do veículo, e a segunda ao longo do lado direito do veículo com seus punhos apoiados na primeira padiola e no para-brisa deitado. 
Após o término do conflito os jeeps remanescentes do lote inicial pertencentes a Força Expedicionária Brasileira (FEB) e a Força Aérea Brasileira foram armazenados e despachados por via naval ao Brasil, juntamente com o restante de veículos aeronaves e armas, chegando ao pais em lotes até fins d segundo semestre de 1945. Estes se juntariam aos demais veículos da mesma classe que ja se encontravam em serviço desde 1942. Ao longo da década de 1950, as Forças Armadas Brasileiras receberiam mais jeeps, se tratando agora de veículos usados, que foram classificados como " material excedente de guerra" (War Surpluss), este novo lote permitiu complementar a frota e também substituir os carros de produção mais antiga  Com este reforço os jeeps veteranos da Segunda Guerra Mundial permaneceram em serviço ativo como o  principal veiculo de transporte do Exército Brasileiro até meados a década de 1960, quando começaram a ser substituídos por veículos usados agora da versão M38 e versões militarizadas nos modelos CJ-2 e CJ-5 e Gurgel X-12  produzidos nacionalmente.  Registros oficiais apontam que os últimos jeeps originais permaneceram em serviço ativo pelo menos até final da década de 1970. Atualmente existem alguns destes carros em estado operacional no Exército Brasileiro sendo basicamente empregados como veículos cerimoniais.

Em Escala.
Para representarmos o Jeep Ford MB "Malacara” FEB 210 A, pertencente a Força Expedicionária Brasileira (FEB) , empregamos o kit da Tamiya escala 1/35, modelo este de fácil montagem. Para melhor detalhamento adicionamos um set de armamentos em resina produzido pela  Eletric Products. Fizemos uso de decais confeccionados pela Decals e Books, presentes no livro "FEB na Segunda Guerra Mundial" de Luciano Barbosa Monteiro. 

O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura empregado pelo Exército Americano (US Army) em todos os veículos utilizados no teatro europeu durante a Segunda Guerra Mundial, recebendo apenas as marcações nacionais. Em seu retorno ao Brasil, estes carros mantiveram este padrão de pintura, passando a ostentar a marcação padrão de matricula serial de frota. 


Bibliografia : 

- Jeep Ford & Willys  https://en.wikipedia.org/wiki/Willys_MB

- FEB na segunda Guerra Mundial - Luciano Barbosa de Monteiro

- Leand & Lease Act  - Revista Tecnologia e Defesa - Edição 133.