História e Desenvolvimento.
A utilização em larga escala dos veículos blindados de transporte de pessoal (VBTP) teve suas origens durante a Segunda Guerra Mundial, a operações de movimento, característica dos grandes conflitos mecanizados do século XX, evidenciou a importância de meios capazes de acompanhar formações blindadas, transportando soldados com rapidez e relativa segurança até as áreas de combate. Nesse contexto, os veículos de tração meia-lagarta destacaram-se como uma solução eficiente para o transporte de tropas em terrenos variados. Entre as forças do Eixo, o mais emblemático foi o Hanomag Sd.Kfz. 251, empregado em praticamente todas as frentes de combate. Já entre os Aliados, , a predominância coube aos modelos M-2, M-3 e M-5, utilizados extensivamente na Europa, Norte da África e no Teatro do Pacífico. Embora tenham contribuído decisivamente para o esforço de guerra, sua experiência operacional revelou limitações importantes. A principal delas era a ausência de uma cobertura blindada superior, deixando os soldados embarcados vulneráveis ao fogo de armas leves, estilhaços de artilharia e fragmentos resultantes das explosões no campo de batalha. Com o objetivo de solucionar esse problema, seria iniciado ainda nos estágios finais da guerra, o desenvolvimento de um novo conceito de transporte blindado de tropas, nascendo assim o M-44 (T16), concebido a partir do chassi do carro de combate leve M-18 Hellcat. Este possuía dimensões substancialmente maiores que seus antecessores e capacidade para transportar até 24 soldados totalmente equipados. Com peso de combate próximo de 23 toneladas, o veículo proporcionava elevados níveis de proteção, mas apresentava limitações decorrentes de sua massa excessiva. Protótipos foram construídos e submetidos a extensivos testes operacionais, que demonstraram desempenho insatisfatório, e diante disso foi oficialmente cancelado em junho de 1945. Este fracasso não diminuiu o interesse na criação de um veiculo desta categoria, pelo contrário, as lições extraídas durante os testes serviram de base para uma nova iniciativa. Em setembro, foi emitida uma especificação para o desenvolvimento de um veículo mais leve, compacto e eficiente, capaz de transportar uma esquadra de infantaria composta por até 10 homens. A concorrência despertou o interesse de diversas empresas do setor automotivo e de defesa, que apresentaram suas propostas ao comando de Material do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army) ao longo de 1946. Entre os projetos avaliados, destacou-se o T-18E1, desenvolvido pela International Harvester Company (IHC). O veículo apresentava uma solução equilibrada entre proteção, capacidade de transporte, simplicidade mecânica e custos operacionais, atendendo de forma satisfatória aos requisitos estabelecidos pelo Exército. Como resultado, foi firmado um contrato para a construção de quatro protótipos destinados à fase de testes e validação operacional, com estes sendo submetidos a testes no inicio de 1947, sendo identificadas diversas oportunidades de aperfeiçoamento. Em maio de 1950, seria formalizado primeiro contrato de aquisição, contemplando a fabricação de 1000 unidades do blindado, que recebeu a designação oficial de M-75 Armored Personnel Carrier (APC).
A partir de janeiro de 1952, foram incorporados os primeiros carros, marcando uma importante etapa na evolução dos veículos blindados de transporte de pessoal, substituindo os veteranos veículos meia-lagarta M-3 e M-5. No entanto, apesar de incorporar importantes melhorias em relação aos projetos anteriores, o novo blindado ainda apresentava características que preocupavam os planejadores militares norte-americanos. Embora fosse consideravelmente mais leve que M-44, o M-75 possuía um peso de combate aproximado de 18 ton, valor considerado elevado para os padrões da época. Durante os primeiros exercícios de grande escala realizados, tornou-se evidente que não conseguia acompanhar adequadamente o ritmo de deslocamento das formações blindadas. Essa deficiência comprometia um dos princípios fundamentais da guerra mecanizada moderna: a manutenção da sincronia entre carros de combate, infantaria e elementos de apoio durante as operações ofensivas. Além das limitações operacionais, apresentava custos de aquisição e manutenção considerados excessivamente elevados, exigindo grande quantidade de matérias-primas estratégicas e um complexo processo de fabricação, fatores que aumentavam significativamente seu custo unitário. Diante dessas dificuldades, concluiu-se que o modelo não representava uma solução economicamente sustentável para aquisição em larga escala. Esta decisão levaria a suspensão de sua produção, resultando na reativação provisória de centenas de veículos meia-lagarta, anteriormente armazenados, visando assim garantir a continuidade da capacidade operacional das tropas mecanizadas. Em dezembro de 1953, foi lançada uma concorrência destinada a produção de um blindado mais leve, econômico e versátil. O programa previa a aquisição de pelo menos 5.000 exemplares, destinados não apenas a substituir os meia-lagartas, mas também o M-75, cuja produção seria interrompida. Os requisitos estabelecidos refletiam a evolução das doutrinas, devendo oferecer proteção adequada à tropa , mantendo, ao mesmo tempo, um peso reduzido que favorecesse sua mobilidade. Exigia-se ainda capacidade anfíbia para a travessia de rios sem preparação prévia, bem como poder ser aerotransportado. A partir de janeiro de 1954, diversas empresas apresentaram suas propostas, e após sucessivas avaliações, os projetos foram gradualmente reduzidos a uma lista de finalistas, na qual se destacaram as propostas da International Harvester Co. e pela Food Machinery and Chemical Co. Neste momento seria financiada a produção de 02 protótipos destes fabricantes, com o objetivo de submetê-los a ensaios de campo comparativos, e neste processo o modelo T-59 apresentaria características superiores, sendo então selecionado. Em consequência dessa escolha, foi firmado um contrato para a construção de 08 veículos de pré-série, destinados a um amplo programa de avaliações técnicas e operacionais. Estes permitiram identificar diversos pontos passíveis de aperfeiçoamento, que foram incorporados ao projeto. Concluída essa etapa e implementadas as modificações recomendadas, o veículo foi aprovado para produção, recebendo a designação oficial de M-59. As primeiras unidades começaram a ser entregues em agosto de 1954, sendo recebidos com entusiasmo.
Entretanto, à medida que sua utilização operacional se intensificava, tornaram-se evidentes algumas limitações. Com peso de combate de aproximadamente 19,3 toneladas, o M-59 era propulsionado por dois motores a gasolina GMC Model 302, capazes de desenvolver 146 hp cada. Apesar desta configuração, o desempenho geral do veículo revelou-se apenas moderado, permitindo uma velocidade máxima de cerca de 32 km/h e uma autonomia operacional limitada a 150 km. Essas características mostraram-se insuficientes para acompanhar adequadamente os modernos carros de combate em serviço. Outro fator preocupante dizia respeito à proteção balística, embora sua blindagem fosse significativamente superior, os avanços observados nas munições perfurantes de médio calibre, especialmente aquelas desenvolvidas pelos países do bloco soviético, passaram a colocar em dúvida sua capacidade de sobrevivência em um eventual conflito de grande intensidade. Diante desse cenário, o comando do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army) iniciou uma série de estudos destinados a avaliar o futuro do M-59 e a identificar possíveis soluções para suas limitações. Assim em 1958 seria deflagrado um programa visando o desenvolvimento de um novo veículo de transporte de tropas, com este devendo unir as melhores características operacionais do M-75 e M-59. Deveria apresentar velocidade compatível aos carros de combate no campo de batalha (principalmente o M-41 e M-48), relativa capacidade anfíbia e possibilidade se ser aerotransportado. Estes parâmetros resultariam no desenvolvimento do conceito AAM-PVF (Veículo Multiuso Blindado Aerotransportado). Em meados de 1959, a FMC Food Machinery Co. seria declarada vencedora, com grande parte desta decisão recaindo sobre o inovador sistema de blindagem proposto, sendo composta por uma liga de duralumínio que fora desenvolvido em parceria com a empresa Kaiser Aluminium and Chemical Company. Esta solução proporcionaria ao veículo uma suficiente proteção blindada e uma grande mobilidade e velocidade no campo de batalha devido ao seu baixo peso final. Este projeto receberia a designação militar de T-113, sendo celebrado um primeiro contrato para a produção de 03 carros pré-série quer seriam destinados a avaliação. Este veículos seriam equipados com um motor a gasolina Chrysler 75M com 8 cilindros em "V" com potência de 215 hp, seriam entregues em maio de março de 1950, sendo imediatamente submetidos a um intensivo programa de ensaios em campo, com este processo se estendendo até o mês de setembro. Os resultados validaram sua produção em série, com um primeiro contrato sendo celebrado logo em seguida, envolvendo inicialmente novecentas unidades, com o modelo recebendo a designação militar de M-113AO APC, com os primeiros sendo entregues as unidades operativas entre os meses de maio e junho do ano de 1960. Em campo o novo M-113 podia transportar até a linha de frente 11 soldados totalmente equipados, servindo de proteção e apoio até o desembarque da tropa, devendo então recuar para a retaguarda. Para autodefesa, contava com uma metralhadora M-2 Browning de calibre .50 operada manualmente pelo comandante. Passariam também logo a ser transportados nos novos aviões C-130 Hercules e C-141 Starlifter. Logo decidiu-se submeter o M-113A0 a uma avaliação em condições reais de combate, com essa oportunidade ocorrendo em 1962, quando 32 M-113A0 foram cedidos ao Exército da República do Vietnã (ARVN), passando a equipar duas companhias mecanizadas. Seu batismo de fogo ocorreu em janeiro de 1963, durante a Batalha de Ap Bac, na então província de Dinh Tuong, atual Tien Giang, um dos primeiros confrontos de grande relevância da Guerra do Vietnã. Sua atuação naquele combate demonstrou o potencial do novo veículo, entretanto, também revelaram uma série de limitações que não haviam sido plenamente identificadas durante os teste de campo. As lições extraídas desta experiência resultaram em um amplo programa de aperfeiçoamento, sendo introduzidas melhorias na proteção blindada, nos sistemas mecânicos e em diversos componentes considerados críticos para sua sobrevivência. Como consequência, em 1964 surgiu o M-113A1, considerado a primeira grande evolução do projeto. A principal inovação do novo modelo foi a substituição do motor a gasolina pelo confiável motor diesel Detroit Diesel 6V-53, com potência de 215 hp, posteriormente aprimorado em versões subsequentes. Além de aumentar significativamente a segurança da tripulação, reduzindo o risco de incêndios em combate, o novo conjunto motriz proporcionava maior autonomia operacional, menor consumo de combustível e melhor desempenho logístico. Nos anos seguintes, milhares de veículos da família M-113 seriam enviados ao Sudeste Asiático para equipar as forças norte-americanas e seus aliados, consolidando sua reputação como um dos principais símbolos da infantaria mecanizada moderna. Entre os soldados norte-americanos, ganhou o apelido de "Battle Taxi" ("Táxi de Combate"), em razão de sua capacidade de transportar rapidamente tropas para as áreas de combate. Seu emprego, contudo, extrapolava a simples função de transporte sendo frequentemente utilizados como veículos de assalto, abrindo caminhos através da vegetação densa da selva vietnamita, apoiando ataques contra posições fortificadas e servindo como plataforma de fogo para metralhadoras pesadas e armamentos adicionais. Em unidades de cavalaria mecanizada, especialmente após adaptações de campo, passaram a ser conhecidos como ACAV (Armored Cavalry Assault Vehicle), designação que identificava os veículos equipados com blindagem suplementar e armamento reforçado para missões de combate direto. Apesar de seu sucesso operacional, a Guerra do Vietnã também evidenciou algumas vulnerabilidades do projeto. A blindagem inferior mostrava-se particularmente suscetível à ação de minas terrestres e armadilhas explosivas improvisadas. Como consequência, tornou-se comum observar soldados viajando sobre o teto do blindado em vez de permanecerem em seu interior, prática que, embora aumentasse a exposição ao fogo inimigo, oferecia melhores chances de sobrevivência em caso de explosão sob o casco. Mesmo diante dessas limitações, o M-113 demonstrou uma notável capacidade de adaptação e evolução.
Ao longo da década de 1970, tornou-se o veículo blindado de transporte de pessoal mais difundido do mundo ocidental. Sua combinação de simplicidade mecânica, baixo custo operacional, elevada mobilidade e grande versatilidade despertou o interesse de mais de 20 paises, e em 1978 já podia ser considerado um dos maiores sucessos da indústria militar norte-americana. Sua curva evolutiva resultaria no M-113A2, que incorporava importantes aperfeiçoamentos nos sistemas de suspensão, transmissão e refrigeração do motor, aumentando sua confiabilidade e resistência em operações prolongadas sob condições extremas. As melhorias ampliaram significativamente a vida útil da plataforma, tornando-a apta a operar em cenários de alta intensidade e elevado desgaste operacional. Uma das maiores virtudes do M-113 residia em sua extraordinária versatilidade, seu projeto modular permitiu o desenvolvimento de variantes especializadas, como veículos de comando, ambulâncias blindadas, porta-morteiros, oficinas móveis, veículos de recuperação, lançadores de mísseis anticarro TOW, sistemas antiaéreos e até versões equipadas com lança-chamas. Entre os operadores internacionais, as Forças de Defesa de Israel (IDF) destacaram-se como o segundo maior usuário, chegando a operar mais de 6.000 veículos. Curiosamente, os primeiros exemplares incorporados por Israel não foram adquiridos diretamente dos Estados Unidos, mas sim capturados das forças jordanianas durante a Guerra dos Seis Dias. Em 1987 seria apresentado o novo M-113A3, versão na qual seriam introduzidas novas melhoria, com destaque para a inclusão do garfo para direção em vez do sistema laterais, um pedal de freio, um motor mais potente (o turbo 6V-53T Detroit Diesel) e revestimentos internos para melhor proteção da tripulação. Seriam adotados tanques de combustível blindados, instalados em ambos os lados da rampa traseira, liberando espaço interno. Seu sucesso comercial internacional seria catapultado por programas de apoio na aquisição de material militar norte-americano, como o programa Military Assistance Program – MAP (Programa de Assistência Militar) e posteriormente o programa Foreign Military Sales – FMS (Vendas Militares a Estrangeiros), facilitando o acesso a 60 países. Estes veículos estiveram presentes nos principais conflitos regionais ocorridos durante os séculos XX e XXI, como as guerras do Vietnã, Camboja-Vietnamita, Sino-Vietnamita, Guerra dos Seis Dias, Indo-Paquistanesa de 1965 e 1971, Yom Kippur, Invasão Turca de Chipre, Civil Libanesa, Líbano de 1982, Irã-Iraque, Golfo Pérsico, Kosovo, Afeganistão, Iraque, Noroeste do Paquistão, Segunda Intifada, Líbano de 2006, Gaza, Civil Líbia, Insurgência iraquiana, Civil da República Centro-Africana (2012-2014), Civil iraquiana, Civil do Iêmen, Houthi-Arábia Saudita e por fim a invasão Russa da Ucrânia a partir de outubro de 2022. Ao longo de mais de 30anos seriam produzidas cerca de 80.000 unidades, com 4.500 destes montados sob licença em empresas na Bélgica, Itália e Coreia do Sul. Atualmente estima-se que grande parte da frota mundial ainda esteja em operação, e constantes programas de modernização em curso mundo afora, permitirão seu emprego ainda por décadas no século XXI. Emprego na Marinha do Brasil.
A Força de Fuzileiros da Esquadra (FFE) foi criada em 1950 com o propósito de estabelecer uma estrutura de combate anfíbio capaz de atender às crescentes demandas operacionais da Marinha do Brasil. Seus primeiros passos foram dados ao longo dos anos seguintes, buscando desenvolver uma força expedicionária anfíbia inspirada na organização, doutrina e capacidades operacionais do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos (USMC). Como parte desse processo de estruturação, foram incorporados os primeiros navios de transporte de tropas e embarcações de desembarque de pessoal, material e viaturas (EDVP e EDVM), estabelecendo as bases necessárias para a condução de operações anfíbias em maior escala. A seguir foram adquiridos os primeiros veículos , incluindo os jipes Willys M-38A1/C e CJ-5, além dos caminhões utilitários Dodge M-37, todos aptos a operar a partir das embarcações de desembarque. Ao longo da década de 1960, estudos foram conduzidos visando à aquisição de veículos anfíbios blindados de transporte de tropas, incluindo modelos como o LVTP-5 e o FM-113. Embora considerados altamente desejáveis sob o ponto de vista operacional, seus elevados custos de aquisição e manutenção mostravam-se incompatíveis com a realidade orçamentária da Marinha do Brasil naquele período. Uma solução intermediária seria adotada em 1972, com a incorporação de um lote de caminhões anfíbios GMC DUKW provenientes dos estoques excedentes da Marinha Nacional Francesa (Marine Nationale). Apesar de representarem um importante avanço nas capacidades de desembarque logístico, esses veículos não atendiam plenamente à necessidade de um moderno blindado de transporte de tropas capaz de acompanhar as unidades de assalto anfíbio em ambientes de combate. Essa demanda começaria a ser atendida no ano seguinte, com a incorporação dos primeiros blindados EE-11 Urutu destinados a equipar o recém-criado Batalhão de Transporte Motorizado (BtlTrnpMtz), unidade subordinada ao Comando da Divisão Anfíbia. A chegada desses veículos representou um marco importante na mecanização do Corpo de Fuzileiros Navais, introduzindo pela primeira vez uma capacidade orgânica de transporte blindado de pessoal. Entretanto, a experiência operacional logo revelou limitações significativas. Embora robusto e confiável, o EE-11 Urutu apresentava restrições para operações anfíbias de assalto, principalmente em função de sua configuração sobre rodas. Em determinadas condições de terreno, especialmente em faixas de areia fofa e áreas alagadiças próximas ao litoral, sua mobilidade mostrava-se inferior à de veículos blindados sobre lagartas, reduzindo sua eficácia durante as fases iniciais do desembarque. Apesar dessas limitações, o Urutu desempenhou papel fundamental na formação da doutrina de emprego de veículos blindados de transporte de tropas. Diante das experiências acumuladas, passou-se a considerar a adoção de uma família de veículos blindados sobre lagartas, com as aspirações apontando para a aquisição do AAV-7A1. Todavia, o elevado custo de aquisição e suporte logístico desses veículos tornava sua incorporação inviável dentro das limitações orçamentárias existentes.
Diante dessa realidade, passou-se a buscar alternativas que pudessem conciliar desempenho operacional, disponibilidade imediata e custos compatíveis com os recursos destinados. Uma solução mais viável para as necessidades seria encontrada na incorporação do veículo blindado de transporte M-113A1. Embora não atendesse plenamente a todos os requisitos inicialmente estabelecidos para operações anfíbias de assalto, apresentava a vantagem de poder ser adquirido em condições financeiras significativamente mais favoráveis. Também pesava em favor dessa escolha o fato de o M-113 já se encontrar em operação em larga escala no Exército Brasileiro. Dessa forma, a partir de abril de 1974, foram iniciadas negociações com as tratativas evoluindo rapidamente, culminando na celebração de um contrato que previa o fornecimento de 30 veículos novos de fábrica. O acordo contemplava diferentes versões especializadas, compondo uma pequena, porém completa, estrutura mecanizada. O lote era formado por 24 veículos M-113A1 de transporte de pessoal, dois porta-morteiros M-125A1, uma viatura-oficina M-113A1G e uma viatura de socorro e recuperação XM-806E1. Essa composição permitia não apenas o transporte blindado de tropas, mas também a realização de apoio de fogo indireto, manutenção de campanha e recuperação de viaturas avariadas, conferindo maior autonomia operacional à força. As primeiras viaturas começaram a ser recebidas em 7 de novembro de 1976, sendo incorporadas ao Batalhão de Transporte Motorizado (BtlTrnpMtz). Paralelamente, foi conduzido um amplo programa de capacitação operacional e logística, ministrado por técnicos do fabricante em conjunto com militares do Exército Brasileiro. Esse intercâmbio permitiu a rápida assimilação dos procedimentos de operação, manutenção e emprego tático da nova plataforma. Concluída a fase de treinamento e avaliação, o veículo foi oficialmente declarado operacional em dezembro de 1977, recebendo no Corpo de Fuzileiros Navais a designação de Viatura Blindada Especial Sobre Lagartas (VtrBldEspSL) M-113 de Transporte de Pessoal (TP). A partir de então, passou a operar em conjunto com os blindados EE-11 Urutu, ampliando significativamente a capacidade mecanizada. Em decorrência da evolução de suas atribuições e da crescente importância dos meios blindados no contexto das operações anfíbias, o Batalhão de Transporte Motorizado foi posteriormente extinto, sendo substituído pela Companhia de Viaturas Blindadas (CiaVtrBld), organização criada especificamente para concentrar a operação e o emprego dos novos blindados. O primeiro exercício anfíbio de grande porte envolvendo os M-113A1 ocorreu em abril de 1981, quando diversas viaturas foram desembarcadas no litoral do Espírito Santo a partir do Navio de Desembarque de Carros de Combate G-26 Duque de Caxias. O êxito alcançado confirmou a adequação do veículo às necessidades e consolidou sua participação nas principais atividades de adestramento anfíbio desenvolvidas nos anos subsequentes. Ao longo da década de 1980, contribuíram decisivamente para elevar o nível de operacionalidade , participando regularmente de exercícios com destaque para as Operações Dragão, que se tornariam o principal laboratório doutrinário para o aperfeiçoamento das capacidades expedicionárias.

Em 1986, a organização responsável pelos meios blindados passou a ser designada Batalhão de Viaturas Anfíbias (BtlVtrAnf), denominação que manteve até 2003, quando foi criado o Batalhão de Blindados de Fuzileiros Navais (BtlBldFuzNav). Com a retirada de serviço dos blindados EE-11 Urutu e até a incorporação dos veículos anfíbios de assalto AAV-7A1 CLAnf, ocorrida em meados da década de 1980, os M-113A1 permaneceram como os únicos veículos blindados de transporte de tropas em operação. Durante esse período, desempenharam papel fundamental na consolidação da doutrina mecanizada anfíbia brasileira, servindo como principal elo entre a infantaria desembarcada e os meios blindados empregados nas operações expedicionárias da Marinha do Brasil. No início da década de 2000, estas viaturas aproximavam-se de quatro décadas de serviço contínuo, e o intenso emprego operacional ao longo desse período refletiu-se diretamente nos índices de disponibilidade da frota, que haviam caído para cerca de 66%, comprometendo significativamente a capacidade de mobilidade da Força de Fuzileiros da Esquadra (FFE). Essa situação resultava de uma combinação de fatores, entre os quais se destacavam o desgaste natural dos veículos, deficiências nos processos de conservação e manutenção, além das crescentes dificuldades para obtenção de componentes e peças de reposição no mercado internacional. Problemas mecânicos e elétricos tornavam-se cada vez mais frequentes, elevando os custos de operação e reduzindo a confiabilidade dos blindados. Diante desse cenário, em 2007 o Comando da Marinha do Brasil iniciou estudos destinados à substituição da frota de Viaturas Blindadas Especiais Sobre Lagartas (VtrBldEspSL) da família M-113. Entre as alternativas avaliadas figurava a aquisição de um terceiro lote dos veículos de assalto anfíbio AAV-7A1, hipótese que acabou sendo descartada em razão das restrições orçamentárias então enfrentadas pela Força Naval. Como alternativa mais viável, passou-se a considerar a implementação de um amplo programa de modernização, capaz de restaurar a capacidade operacional dos blindados existentes e prolongar sua vida útil por pelo menos duas décadas. Para embasar essa iniciativa, uma equipe técnica analisou diversos programas de atualização conduzidos por outros países operadores da família M-113, identificando soluções tecnológicas e procedimentos considerados adequados às necessidades brasileiras. As conclusões desses estudos serviram de base para a definição dos requisitos operacionais e técnicos do futuro programa de modernização, culminando no lançamento de uma concorrência internacional no final de 2007. Diversas empresas especializadas apresentaram propostas, que foram submetidas a criteriosa avaliação comparativa. Ao término desse processo, a oferta apresentada pela Israel Military Industries (IMI) foi considerada a mais vantajosa sob os aspectos técnico, operacional e econômico. Em consequência, em 28 de novembro de 2008, a Comissão Naval Brasileira na Europa firmou um contrato no valor de US$ 15,8 milhões com a empresa israelense. O acordo previa a modernização de todas as viaturas em carga até então.
Além de apresentar a melhor relação custo-benefício entre as propostas, possuía como principal diferencial a realização de todas as intervenções nas instalações do Centro de Reparos e Suprimentos Especiais do Corpo de Fuzileiros Navais, sob a coordenação técnica do Centro Tecnológico do Corpo de Fuzileiros Navais e com assistência especializada da Israel Military Industries (IMI). Essa abordagem permitia não apenas a recuperação da frota, mas também a absorção de conhecimentos técnicos e o fortalecimento da capacidade de manutenção e modernização. Entre aperfeiçoamentos introduzidos destacava-se a adoção do motor Caterpillar C7, turboalimentado, com 300 hp, dotado de injeção eletrônica e configuração militar para operação fora de estrada. A escolha desse motor foi influenciada pela ampla disponibilidade de componentes e serviços de manutenção no mercado brasileiro, reduzindo custos operacionais e assegurando o fornecimento de peças de reposição ao longo de todo o ciclo de vida. Este motor operaria em em conjunto com a transmissão automática Allison 3200SP, dotada de seis marchas à frente e uma à ré, controlada eletronicamente. O sistema de suspensão também recebeu importantes melhorias, incluindo a substituição das barras de torção, a instalação de amortecedores reforçados e a ampliação da área de contato dos seus suportes, além da adoção de novos batentes de proteção dos patins. Foram igualmente incorporados novos conjuntos dos braços das rodas de apoio nas estações 1, 2, 4 e 5, aumentando a distância livre em relação ao solo e aprimorando a absorção de impactos durante a operação em terrenos acidentados. Complementando essas modificações, foi instalado um kit de reposicionamento do conjunto tensor das lagartas e do braço da roda tensora. O sistema de direção foi completamente modernizado por meio da adoção de um novo conjunto de controle hidráulico, substituindo os tradicionais manches de direção por um volante convencional, proporcionando maior ergonomia e facilidade de condução. As lagartas foram substituídas pelo modelo Diehl System Track 513 Agressive, caracterizado por maior área de contato com o terreno e elevada durabilidade. Essa alteração resultou em melhor desempenho, redução dos níveis de vibração e ruído, além de significativo aumento da vida útil dos componentes de rodagem. Foram instalados dois tanques externos de combustível com capacidade de 360 litros cada, que além de ampliar o raio de ação, aumentou a segurança da tripulação ao reduzir a quantidade de combustível armazenada no compartimento interno e possibilitou a continuidade da missão mesmo em caso de avaria de um dos reservatórios. Os sistemas elétricos e eletrônicos também foram atualizados. As viaturas passaram a contar com novos equipamentos de comunicações, alternadores de 200 amperes, conjunto de ar-condicionado e um moderno sistema automático de detecção e supressão de incêndios. Outro destaque foi a adoção da estação de armamento elétrica Platt MR-555 Mod 2, que ampliou as capacidades defensivas. Este permitia a instalação de diferentes armamentos, incluindo a metralhadora pesada FN Herstal Browning M2HB QCB calibre .50, o lançador automático de granadas SB-M2 de 40 mm, a metralhadora MAG calibre 7,62 mm e a metralhadora leve Minimi calibre 5,56 mm.

Todas as viaturas modernizadas passaram ainda a possuir preparação para a instalação de kits de navegação destinados a facilitar a travessia de cursos d'água e operações anfíbias. Adicionalmente, o projeto contemplou a possibilidade de futuras atualizações tecnológicas, incluindo a integração de imageadores termais, telas digitais multifuncionais, kits de blindagem suplementar interna e externa, bem como lançadores de granadas fumígenas calibre 76 mm, garantindo potencial de crescimento operacional para as décadas seguintes. Neste momento receberiam a designação de M-113MB1, com as 07 primeiras unidades sendo oficialmente entregues em 15 de junho de 2013. Durante a edição da LAAD daquele ano foi apresentando um M-113MB1 equipado com um kit de flutuação composto por blocos de navegação acoplados ao veículo, evidenciando a versatilidade proporcionada pelo processo de modernização. Todas as viaturas possuem a capacidade de ser configuradas com esse kit, essencial para a transposição de cursos d'água, embora seja comum observá-las sem essa configuração e sem a instalação da quebra-mar. Ainda em 2013, foi adquirida, para fins de teste, uma blindagem externa do sistema "High Hard Appliqué Armor Toga", de fabricação israelense, destinada a fornecer proteção contra armas do tipo RPG-7 e munições de calibre .50. No interior das viaturas, foi implementada a blindagem do tipo "Internal Spall Liner", complementada pelo sistema "Drive Night Vision" (equipamento de navegação termal) e pelo "Smoke Grenade System 76 mm" (lançador de granadas fumígenas). Os testes realizados demonstraram a eficácia do conjunto, possibilitando sua futura adoção em outras viaturas da frota. A entrega dos últimos M-113MB1 ocorreu no início de 2016, concluindo com êxito um projeto que não apenas elevou o padrão de operacionalidade da frota, mas também proporcionou um avanço significativo em conhecimento e experiência para a equipe técnica. Esse aprimoramento se refletiu especialmente nas áreas de soldagem, manutenção, mecânica e integração de sistemas. O contrato firmado em 2008 incluía um acordo de compensação (OFFSET), por meio do qual o fabricante se comprometia a fornecer treinamento completo ao pessoal técnico da Marinha do Brasil em todos os níveis, garantindo a capacitação necessária para a operação e manutenção dos blindados modernizados. Adicionalmente, o programa buscou qualificar diversas empresas brasileiras para a realização de manutenções de 3º e 4º escalões, bem como para o fornecimento de sobressalentes, componentes e materiais essenciais. Destaca-se, ainda, a participação desses veículos em operações de pacificação de comunidades no Rio de Janeiro, como no Complexo do Alemão e na Rocinha, em junho de 2010. Nessas missões, os blindados desempenharam um papel crucial tanto no transporte de fuzileiros navais para áreas de conflito quanto no apoio operacional às unidades do Batalhão de Operações Especiais (BOPE) da Polícia Militar. Os comandantes dessa unidade enfatizaram a relevância do emprego deste blindados nessas operações, especialmente considerando que os blindados convencionais da polícia, com tração sobre rodas, enfrentavam dificuldades operacionais em ambientes de alto atrito.
Em Escala.
Para representarmos o modelo modernizado M-113MB1 VtrBldEspSL , empregamos como o base o antigo kit do M-113 ACAV produzido pela Academy, na escala 1/35. Para compormos a versão atual em serviço junto Corpo de Fuzileiros Navais (CFN), é necessário proceder uma série de modificações em scratch building com destaque para a estação de amas Platt MR555 Mod 2). Utilizamos ainda pelas peças avulsas oriundas do kit M-163A1 Vulcan também da Academy. Fizemos uso de decais confeccionados pela Decals e Books presentes no set " Forças Armadas do Brasil".
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o segundo padrão de camuflagem tática empregado em veículos desta família no Corpo de Fuzileiros Navais (CFN) . Este esquema substituiu o anterior com os quais os M-113A1, M-113A1G, M-577A1 e XM-806EI foram recebidos na década de 1970. As viaturas modernizadas emergiram deste processo adotando um padrão ligeiramente diferente deste, podendo apresentar pequenas variações de tons de cores.
Bibliografia :
- M-113 APC - http://en.wikipedia.org/wiki/M113_armored_personnel_carrier
- Fuzileiros Blindados - Operacional - http://www.operacional.pt/fuzileiros-blindados-i/
- M-113 no Brasil o Clássico Ocidental – Expedito Carlos Stephani Bastos
- CFN recebe últimos blindados M113MB1 modernizados - www.forte.jor.br/2016/08/15/cfn-recebe-ultimos-blindados-m113mb1-modernizados/
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