FMC M59 A1 APC no Exército Brasileiro

História e Desenvolvimento.

A origem e o emprego dos carros blindados de transporte de tropas, tem origem na Segunda Guerra Mundial com o uso de veículos com tração do tipo meia lagarta que foram usados tanto pelas forças alemães quanto pelos exércitos aliados. Junto as forças aliadas o destaque pende para a família M2/M3/M5 Half Track Car, de projeto da White Motor Co. que foi utilizado em larga escala em todos os fronts. Apesar de terem contribuído fortemente no esforço de guerra na movimentação de tropas e cargas, este tipo de veículo apresentava como deficiência grave a ausência de uma coberta blindada, o que tornava os infantes desprotegidos com armas leves e estilhaços.  A busca pela solução deste problema se materializaria no  desenvolvimento do projeto M44 (T16), veículo blindado originalmente derivado do carro de combate M18 Hellcat, o conceito inicial era o de prover proteção total a seus ocupantes, resultando em um veículo de dimensões muito superiores aos meia lagarta apresentando assim um peso total de combate de 23 toneladas, porém esta característica seria  o grande entrave para sua produção em série, levando ao cancelamento do projeto em junho de 1945. Em setembro do mesmo ano, uma concorrência foi aberta e foram estabelecidos parâmetros de projeto para um novo carro blindado de transporte de tropas, que apresentava como principal requisito ser baseado no veículo de transporte de carga T43. Diversos fabricantes apresentaram suas propostas, sendo o modelo sugerido pela International Harvester (IHC) declarado vencedor da primeira fase do programa. Em 26 de setembro de 1946 foi celebrado um contrato para fabricação de quatro protótipos para serem avaliados em campo, durante quatro meses estes carros foram testados e aprovados, gerando assim os primeiros contratos de produção em série deste modelo que recebeu a designação de M75 APC.

Os primeiros carros M75 APC começaram a entrar em serviço no Exército Americano (US Army) em abril de 1952, sendo distribuídos a diversas unidades de infantaria mecanizada, começando assim a substituir os M3/M5 Half Track Car ainda em operação. Apesar de apresentarem serem mais leves que os protótipos do M44, este novo veículo blindado apresentava um peso total de combate de 18 toneladas, e verificou-se que em treinamentos, o M75 APC não conseguia acompanhar no campo de batalha a velocidade dos demais carros de combate, infringindo uma regra básica da mobilidade, na qual rezava a sincronia na movimentação das unidades motorizadas de uma força terrestre. Esta realidade causou preocupação no Comando do Exército Americano (US Army), que imediatamente cancelou os contratos de produção do M75, levando inclusive a reativar algumas centenas de veículos meia lagarta que haviam sido transferidos para a reserva. A fim de se resolver este problema em dezembro de 1952 uma nova concorrência seria lançada visando a contratação de uma quantidade de pelo menos cinco mil carros blindados de transporte de tropas com tração por esteira, que tinha como objetivo principal a  substituição dos derradeiros carros meia lagartas e os recém introduzidos M75 APC. Este novo veículo blindado manteria a premissa básica de prover adequada proteção a seus ocupantes, porém deveria apresentar menor peso total, maior agilidade, devendo ainda possuir relativa capacidade anfíbia e poder ainda ser aerotransportado nos futuros aviões de transporte em desenvolvimento naquela época.
Em janeiro de 1953 diversas empresas apresentaram suas propostas para o atendimento desta concorrência, as primeiras avaliações técnicas resumiram os participantes a International Harvester Corporation (IHC) e Food Machinery and Chemical Corporation (FMC). Os dois veículos foram avaliados inicialmente para o atendimento dos requisitos do projeto, com as conclusões desta fase derivando pela escolha do projeto da FMC que foi designado pelo fabricante como T59. Um primeiro contrato foi celebrado para a produção de oito carros pré serie para serem submetidos a um segundo programa de ensaios operacional, ao final deste processo algumas recomendações de melhorias foram aferidas e após concordância do fabricante o modelo foi aprovado para produção em série a partir de maio do mesmo ano. O contrato firmado entre a a FMC e o governo norte americano a produção de 6.300 unidades do modelo agora oficialmente designado como M59, com previsão de entrega até fins do ano de 1960.  Umas das primícias dos requisitos originais da concorrência visavam proporcionar um baixo custo de produção e manutenção, e para isto na construção do novo veículo foi empregado muitos componentes do carro de combate médio M41 Walker Buldog   melhorando ainda a gestão do fluxo de peças de reposição. Em termos de economia também o M59 fazia uso de dois motores comerciais a gasolina GMC-302, que geravam em conjunto 7.200 hp de potência, sendo este endo este grupo motriz ligado a uma transmissão hidramática 301MG que melhorava o aspecto de condução pelo motorista.

Seu conceito original contemplava ainda mesmo que limitada a capacidade de operação anfíbia, sendo dotado com sistema de vedação de borracha em todas as portas e escotilhas, desenvolvendo em águas calmas uma velocidade máxima de 6,9 km/h. Seu grande porte lhe proporcionava uma excelente capacidade de transporte de soldados ou carga com a proteção blindada adequada as necessidades daquele período, curiosamente era possível acomodar e transportar internamente um veículo do tipo Jeep. As primeiras unidades do veículo blindado de transporte M59 APC começaram a ser entregues as unidades de infantaria motorizada do Exército Americano (US Army) a partir do segundo semestre de 1953. Para o desenvolvimento das doutrinas de operação deste novo veículo, os M59 foram integrados aos regimentos de carros de combate M41 Walker Buldog, objetivando assim verificar o potencial do modelo em cenário simulado de batalha de alta mobilidade. No entanto este programa de operação conjunta evidenciou uma grave deficiência relacionada a potência, que devido ao seu alto peso de deslocamento, sua velocidade máxima aferida era de 32 km/h o que lhe impedia de acompanhar os M41 que chegavam a atingir 45 km/h. Sua baixa autonomia também o limitava a missões de média distância o que poderia limitar sua operação em missões de longa duração. Apesar de ser equipado com um sistema de blindagem superior a qualquer veículo anterior de sua categoria, o M59 se mostraria vulnerável frente as novas munições perfurantes de médio calibre  que passavam a empregadas pelos exércitos dos países pertencentes ao bloco soviético.
A partir de 1957 foram produzidas algumas centenas de unidades de uma nova versão na configuração de porta morteiro, este veículo recebeu a designação de M84 e estava equipado com um morteiro M30 de 81 mm, tinha uma tripulação de seis homens e apresentava um peso de deslocamento de 21.400 kg, superior a sua versão original por transportar toda a munição. Em ambas as versões, as características negativas de desempenho determinaram sua substituição pelos novos FMC APC M113 que passavam a contar com um sistema de blindagem mais leve e eficiente, e a partir de fins da década de 1960. O Advento da introdução deste novo carro blindado de transporte de tropas, determinou o repasse dos veículos para as unidades de Reserva Guarda Nacional, os excedentes da frota foram repassados a nações amigas como, Etiópia, Brasil, Grécia, Líbano, Turquia, Vietnã do Sul e Venezuela, onde se mantiveram em operação até o início da década de 1990.

Emprego no Brasil.

O emprego de carros blindados de transporte de tropa no Brasil tem início em 1942 quando são recebidos os primeiros M3A1 Scout Car sobre todas e meia lagarta M2 e M3 Half Track, apesar de concebidos para missão de transporte de tropas no front de batalha, no Brasil estes  não foram imediatamente empregados nesta missão, sendo destinados a tração de peças leves de artilharia. Este desvio de finalidade foi influenciado pela total imersão da força terrestre nacional na doutrina militar francesa que era fundamentada nas táticas da Primeira Guerra Mundial que era adepta da operação hipomóvel. O aumento da influência norte americana no país durante o conflito e após iria começar a alterar esta doutrina, logo após o término da Segunda Guerra Mundial o Brasil receberia um grande lote de veículos meia lagarta M3/M3A1/M5 o que possibilitou pela primeira vez implementação de táticas de infantaria motorizada junto ao Exército Brasileiro. O pós guerra traria avanços em termos dos usos de novas munições perfurantes que agravariam ainda mais o fator de proteção aos infantes proporcionado pelos veículos da família M2/M3/M5, esta demanda levaria a concepção de novos modelos de veículos destinados a esta tarefa. No início da década seguinte o Exército Brasileiro apesar de contar de uma grande frota de veículos blindados, passava a avaliar a real efetividade de suas forças mecanizadas nos futuros cenários de ameaças regionais. Ficou evidente a necessidade de se promover um amplo processo de modernização de meios, necessidade esta que começaria a ser viabilizada a partir de 15 de março de 1952, quando foi assinado entre os presidentes Getúlio Vargas e Harry Truman o Acordo Militar Brasil - Estados Unidos. Este termo visava garantir a defesa do hemisfério ocidental face as ameaças representadas pelo bloco soviético, com este possível cenário sendo agravado pelo avançar do regime socialista cubano de Fidel Castro que buscava implementar um processo regional de influência comunista na América Latina.

Com o título oficial de "Acordo de Assistência Militar", esta parceria bilateral , estabeleceu basicamente o fornecimento de material bélico norte-americano atualizado para as forças armadas brasileiras, buscando assim promover uma substituição dos meios atuais que foram cedidos na década de 1940 nos termos do Leand & Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos) tendo como do governo brasileiro a formalização de contratos para o fornecimento de minerais estratégicos para o emprego como matéria prima para a indústria americana. Nestes termos coube ao Exército Brasileiro a destinação de grande parcela deste acordo, passando a ser fornecidos a partir de agosto de 1950, os primeiros 50 carros de combate médio M41 Walker Buldog, 2 veículos de socorro M74 Sherman Recovery Vehicle e 20 viaturas blindadas de transporte de pessoal do modelo FMC M59APC.  Este últimos apesar de serem carros usados, se encontravam em excelente estado de conservação registrando baixa quilometragem de uso, estes veículos eram da versão M59 A1 que contemplavam pequenas melhorias frente a primeira versão de produção em série, entre estas o processo de soldagem do casco de aço no sistema com uma espessura de blindagem de 25 mm. Como diferencial tecnológico dispunha do sistema de periscópio M17 e dispositivo infravermelho M-19 para condução do veículo em ambiente noturno ou com as escotilhas fechadas. Para sua autodefesa estava equipado com torre hidráulica armada com uma metralhadora automática Browning .50 (sistema até então inédito no país).
Os vinte carros blindados M59 A1 APC foram recebidos em outubro de 1960 e após inspeção e treinamento de equipagens foram distribuídos em dezembro dele ao ano ao em proporções iguais, ao 15º Regimento de Cavalaria Mecanizada e ao 16º Regimento de Cavalaria Mecanizada ambos baseados na cidade do Rio de Janeiro. Já em uso no Exército Brasileiro receberam a designação de VBTT - Veículo Blindado de Transporte de Tropas. Nestas unidades estes veículos tiveram o importante papel de desenvolver a doutrina de emprego deste tipo de carros de transporte de tropas sob esteiras, junto a forca blindada do Exército Brasileiro operando em conjuntos com carros de combate como os M41 Walker Buldog e M3 Stuart, elevando o patamar, superando em muito os procedimentos operacionais proporcionados pelos veículos blindados sob esteiras M-2/M-3/M-5 Half Tracks Americanos. Os oficiais ficaram impressionados com a capacidade de transporte dos M59 que além de serem utilizados em sua configuração normal de transporte de tropas com 10 soltados totalmente equipados, passaram a ser  frequentemente usados em exercícios para transporte de peças leves de artilharia como os canhões M1 de 57 mm , M3 de 37 mm ou ainda um Jeep Willys 4X4 para a linha de frente, possibilitando assim melhorar capacidade ofensiva da força terrestre com segurança.

Apesar de em campo os VBTT M59A1 conseguirem acompanhar os carros de combate leves M3/M3A1 Stuart (que na época representavam o esteio da força de blindados do Exército), era evidente que a exemplo do ocorrido junto as operações no Exército Americano, este veiculo não era capaz de acompanhar os novos M41 Walker Buldog que estavam sendo recebidos gradativamente em grandes lotes para substituírem os antigos M3/M3A1 Stuart na tarefa de principal tanque da força terrestre. Porém os VBTT M59A1 apresentaram também grandes limitações em deslocamentos de média e grande distância, pois seu peso bruto excedia a capacidade da infraestrutura viária brasileira (pontes, viadutos, estradas e pranchas ferroviárias). A soma destes dois fatores levou o Ministério do Exército a declinar de mais ofertas para cessão de novos carros M59A1 VBTT, como solução intermediaria foram iniciados estudos prevendo o repotenciamento dos antigos carros meia lagarta. A solução para substituição viria a ocorrer a partir de 1965 quando foram recebidos os primeiros veículos blindados de transporte de tropa FMC M113A0 (modelo que fora desenvolvido nos Estados Unidos como substituto aos M59), os contratos de fornecimento previam o recebimento de mais de 500 carros , quantidade suficiente para uma completa renovação da frota.
A partir do momento que os  FMC M113A0 APC atingiram o status operacional pleno a partir de 1969, os M59A1 APC foram relegados a missões de treinamento, sendo posteriormente gradativamente desativados e recolhidos aos estoques do Exército Brasileiro.  No inicio da década de 1980 a empresa paulista  Moto Peças Transmissões S/A de Sorocaba em conjunto com técnicos do Parque Regional de Motomecanização da Segunda Região Militar de São Paulo (PqRMM/2) iniciaram estudos visando a implementação de um possível programa de repotenciamento dos VBTT M59A1. O principal esforço se baseava se na troca dos dois motores originais a gasolina GMC-302 por equivalentes nacionais a diesel (a exemplo de outros programas deste tipo realizados com exito pelo PqRMM/2). No entanto estudos econômicos do projeto apresentaram problemas de viabilidade econômica, pois não haveria escala suficiente, pois a frota era composta por apenas 20 carros, levando assim ao cancelamento do programa. O M59A1 APC figuraria ainda como base de inspiração para o projeto de um carro nacional de transporte de tropas blindado sob esteiras que receberia o batismo de Charrua. A partir de 1990 os veículos que não foram preservados em museus ou unidades do Exército Brasileiro, foram vendidos como sucata, encerrando assim sua carreira militar no Brasil.

Em Escala.

Não existe no mercado um kit específico para este modelo, então ara representarmos o VBTT M59A1 "EB10-414” pertencente ao 15º Regimento de Cavalaria Mecanizada, optamos por desenvolver um projeto em scratch building. Partimos como base do kit original da Tamiya na escala 1/35, fazendo apenas dos chassis rodas, suspensão, esteiras e acessórios, construindo todo o restante em scratch. Detalhes referente a processo e todas suas etapas, podem ser vistos em nossa secção de reviews "PROJETO M-59”. Empregamos decais produzidos pela Eletric Products, presentes no set  "Veículos  Militares Brasileiros 1944 - 1982 ".
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o primeiro  e único padrão de pintura aplicado em todas as unidades do modelo VBTT M59A1 recebidas pelo Exército Brasileiro na década de 1960, mantendo estas marcações até o encerramento de sua carreira no Brasil.


Bibliografia :

- Blindados no Brasil Volume I,  -  por Expedito Carlos S. Bastos
- M113 no Brasil - por Expedito Carlos S. Bastos
- M-59 APC Wikipédia  - http://en.wikipedia.org/wiki/M59_(APC)