Citroen 2 CV - Operação UNEF SUEZ


Historia e Desenvolvimento

A história de Citroën uma das mais renomadas montadoras europeias, teve início com o fundador da companhia, o engenheiro André Citroën, empreendendo no segmento industrial militar, passando a produzir armamentos para o governo francês, com o termino do conflito a empresa se viu detentora de uma excelente planta industrial, porém sem nenhum produto para comercialização, tendo em vista que as encomendas militares foram canceladas. Visando se adequar ao novo cenário a empresa passou a desenvolver e produzir automóveis a partir do ano de 1919, lançando assim o modelo convencional Type A, passando gradativamente a lançar novos modelos de automóveis, e em 1928 seria a pioneira na Europa na produção de veículos totalmente construídos em metal. Durante a ocupação alemã da França, os investidores da Citroën continuaram com o seu trabalho e desenvolveram os conceitos que mais tarde chegaram ao mercado pelos modelos que se tornariam clássicos no mercado automotivo europeu. Entre estes podemos citar o Citroën 2CV (deux chevaux - dois cavalos, em francês), desenvolvido como um automóvel de baixo custo que teve sua produção iniciada em 1948, sendo descontinuada somente em 1990, alcançando a incrível marca de 5.114.940 unidades produzidas, podendo ser considerado como o modelo mais popular da Citroen, sendo comercializados nas versões seda e caminhonete. A sigla CV, que faz parte da denominação desse modelo vem de "cheval fiscale" ou potência fiscal, uma unidade usada para taxar o veículo. Apesar de estar relacionada, entre outros fatores, à potência do motor, a sigla CV nesse caso, não expressa a potência real do motor. Sua história tem início 1936, ano em que Charles Chaplin lançava o filme “Tempos Modernos”, a Citroën desenvolveu um projeto do que viria a ser o 2 CV. O objetivo era fazer um veículo popular, de baixa cilindrada, uma espécie de ferramenta de trabalho que poderia servir tanto aos trabalhadores rurais como aos operários urbanos. Seria o equivalente francês ao Modelo T, que a Ford fazia nos EUA desde o início do século, ou o sedã que a Volkswagen desenvolvia na Alemanha. Inicialmente, a intenção era apresentá-lo no Salão do automóvel de 1939. Dizia-se na época que o carro seria uma espécie de “quatro rodas sob um guarda-chuva, um veículo seguro, capaz de transportar quatro pessoas e 50 kg de batatas com o máximo de conforto, a 60 km/h”.

O projeto recebeu o nome provisório de TPV, iniciais de “Très Petite Voiture”, ou veículo muito pequeno, e sua moderna concepção geraria expectativas muito otimistas em termos comerciais no final da década de 1930. No entanto o eclodir da Segunda Guerra Mundial em setembro de 1939 e a ocupação alemã na França em 1940 adiaram consideravelmente se lançamento comercial, tendo em vista que todo o parque industrial francês seria forçado a se dedicar a produção de insumos e equipamentos militares para o governo alemão. Neste interim os eventos desencadeados logo após a rendição da França as forças nazistas em 22 de junho de 1940, alterariam drasticamente os planos da montadora, a alta direção da empresa nutria repulsa a qualquer possibilidade de colaboração com as forças de ocupação. Esta determinação resultaria na decisão de se destruir praticamente todos os 250 protótipos produzidos, restando poucas unidades que foram desmontadas e escondidas em diversos locais, evitando assim qualquer iniciativa dos alemães fazerem uso do projeto para seus próprios fins. O termino da Segunda Guerra Mundial levaria ao início da reconstrução da Europa e o consequente retomar das atividades industriais na França, com seus projetos sendo assim colocados em desenvolvimento, com o Citroen 2CV sendo lançado no mercado somente em 1948, portanto três anos após o fim do conflito. Curiosamente em 1994 três protótipos do TPV Citroen 2 CV daquela época foram redescobertos escondidos num celeiro na França, e até o ano de 2004 haviam sido encontrados um total de cinco protótipos deste carro.

O modelo só seria oficialmente apresentado no Salão de Paris de 1948, com um motor bi cilíndrico de 375 cm3 e 9 cavalos, refrigerado a ar. Inicialmente, o estilo foi considerado polêmico, mas a economia, simpatia e praticidade acabaram prevalecendo e conquistando o público. Embora a potência fosse contida, o veículo era extremante leve pesando apenas 560 kg, não comprometendo tanto seu desempenho. A nomenclatura oficial do modelo de “deux chevaux”, que significa dois cavalos, fazia referência a potência do veículo, buscando assim enquadramento em políticas governamentais de redução de impostos para carros populares. Apesar do desempenho dentro do mínimo aceitável, o mercado consumidor exigia cada vez mais maior potência, levando a empresa em 1954 a adorar um novo motor de 425 cm3 de 12 cavalos, elevando assim a velocidade máxima a 80 km/h. O sucesso desta nova versão, fez a Citroën expandir a produção da versão furgão em 1957 para o Camboja, e no ano seguinte para a Espanha. Ainda em 1958, a montadora apresentou a versão Sahara, com dois motores de 425 cm3, 24 cv e tração nas quatro rodas. O Citroen 2 CV 4×4 era capaz de alcançar 100 km/h, mas sua produção só começaria dois anos mais tarde, em 1960. Fabricado até 1966, o modelo teve 694 unidades produzidas. Em 1964, o Citroen 2 CV começou a ser produzido em Portugal. E, em 1971, chegou à América do Sul, com acordos de montagem no Paraguai, Uruguai e Equador. A última fábrica a produzir o 2 CV, a de Portugal, interrompeu a montagem no dia 27 de julho de 1990. O 2CV foi muito popular na Europa entre as décadas de 1950 e 1960 e teve também um lugar de destaque nas famosas Aventuras de Tintim de Hergé no livro O Caso Girassol ao ser conduzido pelos detectives Dupond e Dupont. O mais carismático a acarinhado modelo da Citroën de todos os tempos fez ainda parte de uma edição especial dos chocolates da Côte d'Or que juntava as personagens das Aventuras de Tintim a vários modelos da Citroën.

O preço de compra do Citroen 2CV era baixo em relação à concorrência. Na Alemanha Ocidental durante a década de 1960, por exemplo, ele custava cerca de metade do preço de um Volkswagen Sedan “Fusca”. A partir da metade da década de 1950, o mercado de carros econômicos na europa estava em amplo crescimento, aumentado assim a concorrência com o aparecimento de novos competidores entre eles o alemão Messerschmitt KR175 e o italiano Isetta, passando a passando a ameaçar assim a liderança francesa a partir do ano de 1955. Apesar destes últimos serem classificados pejorativamente como “microcarros” com desempenho e capacidade de transporte inferior ao Citroen 2 CV, o mercado consumidor passou a migrar parcialmente para estes, muito em função do preço de aquisição. As ameaças seriam sentidas também no mercado doméstico francês, a partir de 1961, o pequeno Simca 1000, que usava a tecnologia Fiat licenciada, e o maior hatchback Renault 4, estavam disponíveis, com o modelo da Renault passando a conquistar rapidamente um importante fatia das vendas de carros novos. O R4 foi a maior ameaça para o 2CV, eventualmente vendendo mais. O pequeno modelo da Citroen iniciaria uma grande carreira militar em 1961, quando a Marinha Real Britânica assinou contrato para a aquisição de 65 carros divididos entre modelo original e a versão picape, que tinham por missão servir como transporte motorizado para ser empregado pelos Regimentos de Comandos dos Royal Marines, que necessitavam de veículos robustos e confiáveis para uso em ambiente de selva,  e que fossem leves o suficiente para serem levados para terra por helicóptero dos porta-aviões.


Consequentemente o Citroen 2 CV passou a ser empregado por outras forças militares dos países europeus, servindo como carro de transporte pessoal, no entanto versões básicas também seriam adaptadas para reconhecimento armado e porta morteiro leve, principalmente pelas forças militares francesas. Em fins da década de 1970 o Exército Frances solicitou a Citroen o desenvolvimento de uma versão militar com tração 4X4 que receberia a designação de Méhari 4x4. Este basicamente seria um veículo militar leve de cross-country com carroceira metálica, sendo alimentado por um motor de duplo plano com 652 cilindradas, refrigerado a ar com ignição eletrônica integral, desenvolvendo uma potência DIN máxima de 34 HP a 5.750 rpm e um torque DIN máximo de 36 lb.ft a 3.500 rpm. Este novo modelo garantiria uma sobre vida aos modelos derivados do Citroen 2 CV produzidos na França, atestando assim a simplicidade do projeto. O modelo militar seria adotado em grande escala pelo exército de pais, se mantendo em uso até meados da década de 1990.

Emprego nas Forças Armadas Brasileiras.

O uso do Citroen 2 CV por forças militares brasileiras, seria proporcionado pelos fatos históricos que ocorreriam com a Crise do Canal de Suez, se iniciando em julho de 1956, quando o presidente egípcio Gamal Abdel Nasser decidiu nacionalizar o Canal de Suez, após decisão de Estados Unidos e Grã-Bretanha de não financiar a construção da Barragem de Aswan, como haviam prometido, em razão da aproximação do Egito dos países comunistas União Soviética e Tchecoslováquia. Esta era a única ligação entre o  Mar Mediterrâneo e o Mar Vermelho e principal escoadouro de petróleo dos países árabes para a Europa, que até então estiveram sob o controle de capitais privados de origem principalmente britânica e francesa. Insatisfeitos com a decisão, e temerosos do nacionalismo pan-árabe defendido por Nasser, França e Grã-Bretanha decidiram fazer uma intervenção militar punitiva na região, contando para tanto com a ajuda de Israel. Assim, em outubro de 1956, Israel invadiu o Sinai, península pertencente ao Egito, e em novembro tropas britânicas e francesas ocuparam a região e assumiram o controle militar sobre o canal. Contudo, a manobra, que possuía clara motivação colonialista, repercutiu muito mal junto à opinião pública mundial, particularmente junto aos EUA. Ainda durante os meses de outubro e novembro de 1956, o Conselho de Segurança da ONU exigiu, com os votos favoráveis dos EUA e da URSS, a retirada militar da França, Grã-Bretanha e Israel, e decidiu enviar uma Força Internacional de Paz ao canal, que foi reaberto em 1957.

O canal de 163 quilômetros ligando o Mar Mediterrâneo ao Mar Vermelho, sempre foi palco de tensões internacionais e foi construído entre 1859 e 1869, custando as vidas de 125 mil egípcios, principalmente por causa da cólera. De propriedade conjunta dos governos do Egito e França, o canal de Suez sempre teve importância estratégica porque permitia que embarcações fossem da Europa à Ásia sem ter de contornar a África pelo Cabo da Boa Esperança. A dívida externa do Egito forçou o país a vender sua parte do canal à Grã-Bretanha em 1879, assim em 1882 tropas britânicas se instalaram na região a fim de proporcionar proteção a sua nova propriedade. Já no século XX um dos principais catalisadores desta crise seria o nacionalismo árabe, ou 'arabismo’, que incorporava a ideia de que todos os árabes, do Marrocos até o Golfo, deveriam se unir em um só país. Era uma ilusão, mas com efeito de repercussão muito forte. Durante o auge do poder de Nasser, entre os anos de 1950 e 1960, a ideia de que os árabes deveriam se unir sob a liderança do Egito tornou-se muito popular. Usando o rádio portátil como meio de comunicação, Nasser espalhou a mensagem arabista pelos cantos mais remotos da região. Líderes manchados por sua ligação com os antigos poderes coloniais viram sua influência seriamente enfraquecida. Com a ascensão de Nasser, três ideais passaram a dominar a política árabe: o arabismo, a justiça social e a luta contra Israel. Alinhando-se com Grã-Bretanha e França na questão do Canal de Suez, Israel confirmou a visão árabe que via o país como uma criação do colonialismo. A luta contra Israel tornou-se a causa árabe predominante, mas acabou contribuindo, no fim, para a ruína de Nasser.

O Brasil, garantido pelos vínculos de país membro da Organização das Nações Unidas e pela circunstância de ter aprovado a Carta de sua criação, foi convocado para ser membro da comissão internacional de estudos sobre o conflito. Exercício este que geraria a primeira Força de Paz formada pela ONU, constituída em 1956 a partir desta crise, passando a ser denominada como a UNEF (United Nations Emergency Force), em português, FENU (Força de Emergência das Nações Unidas). Dentre as nações que iriam compor este esforço a participação do Brasil seria um ponto decisivo na história das experiências internacionais diplomáticas e militares, em Missões de Paz, do Exército Brasileiro. O Rio Grande do Sul, sempre historicamente, um forte componente militar da Federação, desempenhou seu papel no destacamento e fornecimento de três dos vinte contingentes militares para a composição do Batalhão de Infantaria denominado Batalhão Suez, cujos efetivos foram formados, integralmente, nas unidades militares gaúchas, e enviados pelo Brasil como parte integrante da FENU, abrangendo o período de janeiro de 1957 até julho de 1967. A partir deste fato, e à luz das informações obtidas, pretende montar um mosaico desse importante, curiosa, e até, para muitos, desconhecida e pouco valorizada página da história militar brasileira e gaúcha nas missões internacionais de vigilância e pacificação. Para tanto, faz uma análise empírica dos antecedentes históricos daquela região do Oriente Médio; bem como do papel mediador da ONU na questão diplomática; e a participação brasileira, por meio de seus efetivos, notadamente os gaúchos do 5º, 13º e 20º Contingentes para lá despachados. 

Assim que as tropas pertencentes ao primeiro contingente ao chegarem no teatro de operações, em fevereiro de 1957, passaram a ser equipadas com equipamentos, veículos e armas oriundos de diversas nações, entre eles de origem norte-americana, oriundos da Segunda Guerra Mundial, como os blindados Ford M8 Greyhound, M20 Comando Car, Jeeps 4X4, Dodge WC, Ford Mutt, e  ingleses como os caminhões Bedford e carros de reconhecimento Coventry Armoured Car Mk.I, franceses como os carros e picapes Citroen da família 2CV e até brasileiros como caminhões FNM e picapes Volkswagen Kombi. No campo de carros orgânicos e administrativos o modelo eleito foi o da Citroen, com mais de 90 carros sendo fornecidos pelo governo francês, dispostos nas versões de passeio e picape. Estes foram distribuídos aos dez países que compunham a “UNEF 1” como Brasil, Canada, Colômbia, Dinamarca, Finlândia, Índia, Indonésia, Iugoslávia, Noruega e Suécia. As forças brasileiras foram destinadas 6 carros sedans e duas picapes do Citroen 2CV, deste dois foram destinados a dotação da Policia Militar do Exército, cinco ao Exército Brasileiro e um a Força Aérea Brasileira que manteve um destacamento administrativo permanente, muito em função para manter a logística da ponte aérea operada em Brasil e Egito. 

Durante uma década, as tropas brasileiras tiveram papel decisivo para que o Oriente Médio vivesse lampejos de paz. De 1957 a 1967 os Citroen 2 CV participaram desta missão, servido a as atividades administrativas de uma força multinacional de paz, onde jovens brasileiros, participaram ativamente na missão de pacificar uma região instável tomada por conflitos bélicos. A tensão pairava sobre cada um dos componentes destas forças de paz que se encontravam nas proximidades da Faixa de Gaza. Encarando um calor escaldante, tempestades de areia e minas terrestres, as “boinas azuis” patrulharam dia e noite as fronteiras entre Israel e Egito. Ao termino da participação brasileira, os Citroen 2CV foram deixados no pais, sendo repassados ao mercado civil. Duas décadas depois, os integrantes do Batalhão Suez ganharam o Prêmio Nobel da Paz, em 1988, ao lado das Forças de Paz da Organização das Nações Unidas (ONU).

Em Escala.

Para representarmos o Citroen 2CV Charleston em serviço ao Exército Brasileiro durante sua participação na força de emergência UNEF 1 Suez, empregamos o excelente kit da Revell na escala 1/24. Não necessidade de se proceder nenhuma alteração para compor a versão utilizada pelo Brasil. Empregamos decais na escala 1/35 confeccionados sob encomenda pela Eletric Products , presentes no Set “Suez - 1957 / 1967".

O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura padrão empregado em todos os veículos participantes das Forças de Paz da ONU (Organização das Nações Unidas), durante a crise do Canal de Suez, somente os carros pertencentes a Policia Militar do Exército Brasileiro apresentavam diferenças neste esquema de pintura.



Bibliografia: 

- Citroën 2 CV vai completar 70 anos - https://jornaldocarro.estadao.com.br
- Citroen 2 CV Wikipédia - https://en.wikipedia.org/wiki/Citro%C3%ABn_2CV
- Citroen 2 Cv  – http://www.citroenet.org.uk/
- Batalhão Suez -   http://www.batalhaosuez.com.br