História e Desenvolvimento.
Na primeira metade do século XX, a aviação norte-americana atravessou um período de acelerada expansão e notável inovação, impulsionado tanto pelos avanços tecnológicos quanto pela crescente demanda por transporte aéreo civil e militar. Nesse contexto dinâmico, destacou-se a figura de Walter Herschel Beech (1891–1950), cuja visão empresarial aliada a um sólido conhecimento técnico exerceu papel decisivo na consolidação da indústria aeronáutica dos Estados Unidos. Sua atuação foi particularmente relevante para o desenvolvimento da cidade de Wichita, no Kansas, que viria a ser reconhecida internacionalmente como a “Capital Mundial da Aviação”. Beech iniciou sua trajetória empresarial como um dos fundadores da Travel Air Manufacturing Company, que rapidamente ganhou projeção no mercado civil ao produzir aeronaves como os modelos Travel Air 2000, 4000 e 5000. Esses biplanos, amplamente empregados em transporte leve e treinamento, alcançaram expressivo sucesso comercial ao longo da segunda metade da década de 1920, posicionando a Travel Air entre as principais fabricantes aeronáuticas do país. Contudo, a quebra da Bolsa de Valores de Nova York, em outubro de 1929, deu início à Grande Depressão, afetando severamente a economia norte-americana e, por consequência, o setor aeronáutico. Diante desse cenário adverso, a Travel Air acabou sendo incorporada à Curtiss-Wright Corporation ainda em 1929. No âmbito da Curtiss-Wright, Walter H. Beech assumiu funções de destaque, tornando-se presidente da divisão de aeronaves e vice-presidente de vendas. Apesar da posição de prestígio, Beech demonstrou crescente insatisfação com seu afastamento das atividades de concepção, desenvolvimento e produção de aeronaves — áreas nas quais se sentia plenamente realizado. Essa divergência de visão o levou, em 1932, a deixar a companhia, determinado a fundar uma nova empresa que refletisse seus ideais de inovação, eficiência e excelência em projeto aeronáutico. Assim, em meados de 1932, Walter H. Beech estabeleceu a Beech Aircraft Corporation, também sediada em Wichita, aproveitando instalações industriais anteriormente utilizadas pela Cessna Aircraft Company. A nova empresa contou com uma equipe administrativa e técnica cuidadosamente estruturada: Beech assumiu a presidência; sua esposa, Olive Ann Beech, tornou-se secretária da companhia; Ted A. Wells ocupou o cargo de vice-presidente de engenharia; K.K. Shaul foi nomeado tesoureiro; e C.G. Yankey integrou a direção como vice-presidente e investidor. Mesmo diante das severas restrições impostas pela Grande Depressão, Beech demonstrou notável perspicácia ao identificar oportunidades no segmento de transporte executivo e turismo de luxo nichos que, embora restritos, mantinham demanda estável entre clientes de elevado poder aquisitivo. Essa estratégia se materializou no desenvolvimento do Beechcraft Model 17 Staggerwing, uma aeronave de configuração singular, caracterizada por asas escalonadas e concebida para aliar elevado desempenho, conforto e apelo estético. O primeiro voo do Staggerwing ocorreu em 4 de novembro de 1932, marcando o início de um projeto que rapidamente se destacou no mercado civil norte-americano. Com estrutura robusta, acabamento refinado e uma cabine capaz de acomodar até cinco ocupantes com elevado padrão de conforto, o Model 17 consolidou-se como um verdadeiro ícone da aviação executiva, simbolizando a capacidade da Beech Aircraft Corporation de inovar mesmo em um dos períodos mais desafiadores da história econômica dos Estados Unidos.
O êxito comercial alcançado pelos primeiros produtos da Beech Aircraft Corporation gerou receitas substanciais, possibilitando à empresa reinvestir de forma consistente na ampliação de seu portfólio e na consolidação de sua presença no mercado aeronáutico, mesmo em meio às incertezas impostas pelo cenário econômico da década de 1930. A decisão estratégica de Walter H. Beech de concentrar seus esforços no segmento de transporte executivo e no turismo de alto padrão revelou-se particularmente acertada diante das circunstâncias da Grande Depressão. Enquanto a demanda por aeronaves comerciais de grande porte sofreu acentuada retração, a aviação privada manteve relativa estabilidade, sustentada por uma clientela restrita, porém financeiramente sólida, que valorizava exclusividade, confiabilidade e elevado desempenho. Nesse contexto, a Beech Aircraft direcionou seus recursos técnicos e industriais para o desenvolvimento de uma aeronave de maior porte e maior versatilidade, capaz de atender tanto ao mercado civil quanto a aplicações institucionais. O resultado desse esforço foi o Beechcraft Model 18, um projeto que viria a se tornar um dos maiores marcos da história da empresa. Concebido como um monoplano bimotor de asa baixa, com estrutura totalmente metálica e trem de pouso convencional, o Model 18 realizou seu voo inaugural em 15 de janeiro de 1937. Inicialmente projetado para o mercado civil, o modelo foi pensado para transportar até seis passageiros e dois tripulantes, oferecendo uma solução eficiente e confiável para o transporte executivo e para rotas regionais de curta e média distância. Uma das principais virtudes do Model 18 residia em sua notável flexibilidade operacional. A aeronave podia ser equipada com diferentes grupos motopropulsores, incluindo motores Curtiss-Wright, Jacobs Aircraft Engine e Pratt & Whitney, permitindo aos operadores adaptar a configuração às suas necessidades específicas, seja em termos de desempenho, padronização logística ou custos de manutenção. Essa combinação de robustez estrutural, simplicidade de operação e relação custo-benefício favorável fez com que o Model 18 repetisse, e em muitos aspectos ampliasse, o sucesso comercial alcançado anteriormente pelo Staggerwing, despertando interesse não apenas no mercado civil, mas também junto a clientes governamentais e militares. As qualidades operacionais do Beechcraft Model 18 rapidamente chamaram a atenção de forças armadas estrangeiras, marcando a entrada definitiva da Beech Aircraft no setor de defesa. Em 1937, o governo das Filipinas — então um território sob administração dos Estados Unidos — tornou-se o primeiro cliente militar do modelo, ao firmar um contrato para o desenvolvimento de uma variante dedicada a missões de aerofotogrametria para o Exército Filipino. Essa versão, conhecida comercialmente como C-18 e designada T-7 no âmbito militar, teve sua produção iniciada ainda naquele ano. A escolha refletia a crescente preocupação das autoridades filipinas com a necessidade de modernizar suas capacidades de reconhecimento aéreo, em um período marcado pela expansão da influência japonesa no Pacífico. Dois anos mais tarde, em 1939, o governo da China Nacionalista, sob a liderança de Chiang Kai-shek, tornou-se o segundo operador militar do Model 18. A encomenda contemplava uma variante adaptada para treinamento básico multimotor e missões de bombardeio leve, designada AT-7. Esse contrato estava diretamente relacionado ao esforço chinês de fortalecimento da Força Aérea da República da China (ROCAF) durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa (1937–1945), quando o país enfrentava intensos combates contra as forças do Império Japonês.

O êxito alcançado pelo Beechcraft Model 18 no mercado internacional não passou despercebido pelo Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (United States Army Air Corps – USAAC), que, ao final da década de 1930, buscava uma plataforma moderna, confiável e versátil para o treinamento especializado de pilotos e navegadores. Atenta a essa demanda, a Beech Aircraft desenvolveu uma variante especificamente adaptada às exigências militares norte-americanas, designada AT-7-BH. Essa versão incorporava modificações relevantes em relação ao modelo civil, incluindo aprimoramentos nos sistemas de navegação, instrumentação de voo e disposição interna da cabine, de modo a atender às necessidades de instrução em navegação aérea e operação multimotor. Em 1939, foi celebrado um contrato inicial para a produção de 500 exemplares do AT-7-BH, um marco que consolidou definitivamente o Model 18 como uma das principais plataformas de treinamento do Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC) às vésperas da Segunda Guerra Mundial. A partir desse momento, a aeronave passaria a desempenhar um papel central na formação de tripulações aéreas norte-americanas, contribuindo de maneira decisiva para a preparação do país para o conflito que se avizinhava. Ao longo de sua vida produtiva, o Model 18 passou por um processo contínuo de aperfeiçoamento, dando origem a diversas variantes destinadas a atender requisitos operacionais específicos. A versão AT-7A-BH, equipada com flutuadores, foi concebida para operações anfíbias, ampliando o espectro de treinamento em ambientes litorâneos e lacustres. Já a AT-7B-BH foi adaptada para operação em condições de clima frio extremo, sendo posteriormente incorporada pela Força Aérea Real Canadense (Royal Canadian Air Force – RCAF) para missões e treinamento em regiões árticas. A evolução do projeto culminou na variante AT-7C-BH, conhecida como Beechcraft Navigator, que apresentava uma suíte aviônica significativamente mais avançada, maior peso vazio e era equipada com o motor Pratt & Whitney R-985. Essa versão foi concebida para atender às exigências crescentes do treinamento avançado de navegação, refletindo o amadurecimento tecnológico e doutrinário do programa. Paralelamente a essa evolução técnica, o contexto geopolítico internacional deteriorava-se rapidamente. Ao final da década de 1930, a escalada das tensões na Europa culminou com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, em setembro de 1939. Nos Estados Unidos, sob a presidência de Franklin D. Roosevelt, tornava-se cada vez mais evidente que o envolvimento direto do país no conflito era apenas uma questão de tempo, especialmente após eventos decisivos como a queda da França em 1940 e a intensificação da Batalha do Atlântico. Diante desse cenário, o Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC) reconheceu a necessidade urgente de expandir e modernizar suas estruturas de treinamento, de modo a formar, em larga escala, pilotos, navegadores e tripulações de bombardeiros aptos a operar em um teatro de guerra moderno. As aeronaves então disponíveis para o treinamento multimotor, como os já obsoletos bombardeiros bimotores Martin B-12 e Douglas B-18, revelavam-se inadequadas para essa missão. Além de tecnologicamente defasados, esses vetores eram escassos e frequentemente desviados para tarefas operacionais, especialmente patrulhas marítimas no Atlântico, onde a ameaça representada pelos submarinos alemães (U-boats) crescia de forma alarmante contra os comboios mercantes que abasteciam as Ilhas Britânicas.
A inexistência de uma aeronave dedicada e moderna para o treinamento multimotor comprometia seriamente a capacidade de formar os milhares de oficiais e tripulantes necessários ao esforço de guerra. Nesse contexto, o Beechcraft AT-7 emergiu como uma solução oportuna e estratégica, preenchendo uma lacuna crítica na estrutura de formação aérea dos Estados Unidos às vésperas de seu ingresso no maior conflito do século XX. Para enfrentar esse desafio, o Exército dos Estados Unidos (U.S Army) lançou, em maio de 1940, uma concorrência internacional visando o desenvolvimento de uma aeronave bimotora projetada especificamente para o treinamento de pilotos e tripulantes de bombardeiros. O objetivo era criar uma plataforma que combinasse confiabilidade, versatilidade e eficiência, permitindo a formação em massa de pessoal qualificado sem comprometer os recursos operacionais do Corpo Aéreo. Diversas fabricantes apresentaram propostas, mas a Beech Aircraft Corporation destacou-se com um projeto baseado em sua bem-sucedida aeronave Beechcraft Model 18, já amplamente reconhecida no mercado civil e militar. A proposta da Beech Aircraft Corporation aproveitava a estrutura do Beechcraft Model AT-7, uma variante do Model 18 originalmente projetada para treinamento básico multimotor e bombardeio leve, desenvolvida para a Força Aérea da China Nacionalista em 1939. A experiência adquirida com a versão de bombardeio leve Beech M-18R, também encomendada pela China Nacionalista, foi incorporada ao projeto, garantindo soluções testadas e eficazes. Para atender às RA especificações do USAAC, a Beech Aircraft desenvolveu o AT-10, uma versão otimizada do AT-7, com modificações específicas para o treinamento de pilotos e tripulantes de bombardeiros. O AT-10 foi projetado para reduzir o peso da aeronave, eliminando acomodações e equipamentos destinados a missões de navegação, como os sistemas aviônicos avançados presentes em outras variantes. Externamente, foram instalados dois pares de trilhos fixados nas laterais internas, posicionados diretamente atrás da longarina, permitindo a fixação de até cinco bombas de treinamento M-38A2 de 45 kg (100 libras) por trilho. A aeronave também oferecia a possibilidade de instalação de metralhadoras em pontos fixos ou em uma torre móvel, garantindo flexibilidade para simulações de combate e treinamento tático. Essas adaptações tornaram o AT-10 uma plataforma ideal para o treinamento de tripulações de bombardeiros, combinando simplicidade operacional com a capacidade de realizar exercícios práticos de bombardeio. A característica visual mais marcante desta nova versão em comparação com os modelos anteriores, era a aplicação de um novo desenho na parte posterior dianteira da fuselagem que passava a abrigar um nariz composto por peças de plexiglas, onde seriam instalados os moderníssimos visores de bombardeio Norden M-3 ou Sperry M-1 e suas versões posteriores. Esses equipamentos, amplamente utilizados em bombardeiros de primeira linha, como o Boeing B-17 Flying Fortress, Consolidated B-24 Liberator, Martin B-26 Marauder e North American B-25 Mitchell, garantiam precisão em missões de bombardeio. O espaço interno no nariz, originalmente projetado para bagagens no Model 18 civil, foi adaptado para acomodar confortavelmente um instrutor e um aluno durante o treinamento. O AT-11 foi equipado com uma ou duas metralhadoras Browning calibre .30, montadas em uma torre elétrica Bendix AAF, para o treinamento de artilheiros.

Versões posteriores incorporaram o piloto automático C-1, permitindo que o aluno de bombardeiro controlasse a aeronave por meio da mira Norden, simulando condições reais de missão. A tripulação típica do AT-11 consistia em um piloto, um instrutor e dois alunos, com o espaço no nariz facilitando a alternância entre os aprendizes durante os exercícios. Em 1940, o USAAC celebrou um contrato inicial com a Beech Aircraft Corporation para a produção de 300 aeronaves AT-11, oficialmente designadas "Kansan" em referência à sua origem no estado do Kansas. As primeiras unidades começaram a ser entregues às unidades de treinamento do USAAC a partir de março de 1941, configuradas em duas versões principais, com diferenças no armamento e nos sistemas de treinamento. A aeronave rapidamente conquistou a aprovação de instrutores e alunos devido à sua navegabilidade, confiabilidade e adequação como plataforma de treinamento. O treinamento no AT-11 Kansan focava no desenvolvimento de habilidades em bombardeio de queda livre, navegação e tiro aéreo. Durante as missões de treinamento, após atingir a área de alvos, cada aluno assumia a mira de bombardeio (Norden ou Sperry) no nariz da aeronave, enquanto o instrutor observava a partir do lado direito. Cada aluno realizava cinco bombardeios separados, lançando uma bomba por corrida, e alternava posições com o outro aluno. O aluno que não operava a mira utilizava uma câmera de 35 mm para registrar os bombardeios através de um orifício no piso, permitindo a análise posterior dos resultados. A partir de 1943, a USAAF estabeleceu um padrão mínimo de proficiência de 22% de acertos em alvos para todos os aspirantes a navegadores e bombardeiros, garantindo a eficácia do treinamento. Sua versatilidade, baixo custo de aquisição e operação elencariam o Beech AT-11 Kansan, bem como diversas versões da família Beech AT-7, C-45 e C-18, como itens presentes no portifólio do programa de ajuda militar Leand & Lease Bill Act sendo cedidos ao Brasil, Canadá, México e Holanda. Nestes países seriam empregados em tarefas de treinamento e transporte. Com o final do conflito em agosto de 1945 reduziu-se drasticamente a necessidade de formação de novas tripulações de bombardeiros, e assim quase que imediatamente grande parte da frota dos Beech AT-11 Kansan da Força Aérea do Exército dos Estados Unidos (USAAF) seria desmobilizada e retirada do serviço passando a ser classificado como "excedente militar", com parte sendo armazenada e parte sendo alienada para a venda ao mercado civil norte-americano. No início da década de 1950, uma parcela da frota passaria a ser incluída em diversos programas internacionais de ajuda militar, passando a equipar as forças armadas da Argentina, Colômbia, Guatemala, Peru, Portugal, Suécia e Venezuela, Sua produção seria encerrada em junho de 1945, sendo entregues mais de mil e seiscentas células, seriam na Força Aérea do Exército dos Estados Unidos (USAAF) responsáveis pela formação de mais de 90% dos pilotos e tripulantes das equipes de bombardeiros durante o período do conflito. Em seu país de origem o modelo seria totalmente retirado de serviço no ano de 1954.
Emprego na Força Aérea Brasileira.
No início da Segunda Guerra Mundial, o governo dos Estados Unidos passou a encarar com crescente apreensão a possibilidade de que o continente americano viesse a ser ameaçado direta ou indiretamente pelas potências do Eixo — Alemanha, Itália e Japão. A capitulação da França, em junho de 1940, intensificou substancialmente essas preocupações, ao abrir a perspectiva de que a Alemanha nazista pudesse estabelecer bases operacionais em territórios coloniais franceses, como as Ilhas Canárias e a região de Dacar, no então Senegal francês. Tal hipótese representava uma ameaça estratégica concreta ao Atlântico Sul e às linhas de comunicação marítima entre as Américas, a África e a Europa. Nesse contexto, o Brasil passou a ser percebido como um ponto sensível e de elevado valor estratégico, em razão de sua posição geográfica privilegiada e de sua proximidade com o continente africano. A partir de 1940, com o avanço das forças alemãs no Norte da África, essa região passou a figurar de maneira mais explícita nos planos expansionistas do Terceiro Reich, reforçando a importância do litoral brasileiro no cálculo estratégico aliado. Paralelamente, as conquistas japonesas no Sudeste Asiático e no Pacífico Sul incluindo a ocupação da Indochina, em 1940, e das Filipinas, em 1942 alteraram profundamente o equilíbrio econômico global, fazendo do Brasil o principal fornecedor de látex natural para as nações aliadas. Essa matéria-prima era vital para a indústria de guerra, sendo empregada na fabricação de pneus, vedações, mangueiras e diversos outros componentes essenciais ao esforço bélico. A costa nordeste do Brasil, em especial as cidades de Natal e Recife, assumiu papel central nesse arranjo estratégico. Localizadas no ponto de menor distância entre os continentes americano e africano, essas áreas tornaram-se fundamentais para o estabelecimento de rotas aéreas e marítimas destinadas ao translado de tropas, veículos, suprimentos e aeronaves em direção aos teatros de operações no Norte da África e na Europa. Essa importância ficou ainda mais evidente com operações de grande envergadura, como a Operação Tocha, deflagrada em novembro de 1942, que marcou o desembarque aliado no Norte da África. Diante desse cenário de crescente ameaça externa, o governo brasileiro, sob a liderança do presidente Getúlio Vargas, intensificou deliberadamente sua aproximação política, econômica e militar com os Estados Unidos. Esse processo resultou na assinatura de uma série de acordos estratégicos, entre os quais se destacou a adesão do Brasil ao programa de ajuda militar conhecido como Lend-Lease Act (Lei de Arrendamento e Empréstimo), promulgado pelo Congresso norte-americano em março de 1941. Por meio desse programa, foi destinada ao Brasil uma linha de crédito inicial da ordem de 100 milhões de dólares valor que, em termos aproximados, corresponderia a cerca de 2 bilhões de dólares em valores corrigidos para a década de 2020 destinada à aquisição de armamentos modernos, incluindo aeronaves, veículos blindados, carros de combate e unidades navais. Os recursos provenientes desse programa revelaram-se fundamentais para capacitar o país a enfrentar a crescente ameaça representada pelos submarinos alemães da Kriegsmarine e italianos da Regia Marina, que intensificaram suas ações no Atlântico Sul.
Nesse período, a recém-criada Força Aérea Brasileira (FAB), deparava-se com desafios estruturais e operacionais de grande envergadura, decorrentes sobretudo da obsolescência de sua frota aérea. Herdada das antigas aviações do Exército e da Marinha, dispunha majoritariamente de aeronaves ultrapassadas, inadequadas às exigências técnicas e doutrinárias impostas por um conflito de dimensões globais. A carência de meios modernos estendia-se, de forma particularmente sensível, aos aviões de instrução básica e avançada, indispensáveis para a formação acelerada e qualificada de pilotos militares capazes de atender às crescentes demandas do esforço de guerra. Além das limitações no campo da instrução elementar, a Força Aérea Brasileira (FAB) carecia de programas estruturados voltados à formação de tripulações para missões especializadas em aeronaves multimotoras. Para esse fim, contava apenas com um número reduzido de exemplares do bimotor alemão Focke-Wulf Fw 58 Weihe, cuja utilização em larga escala para treinamento comprometeria diretamente a capacidade operacional do país. Tal restrição tornava-se ainda mais crítica diante da necessidade urgente de empregar essas aeronaves em missões reais, sobretudo aquelas relacionadas à busca e destruição de submarinos das potências do Eixo, que à época representavam uma ameaça concreta e crescente à navegação civil e militar ao longo do litoral brasileiro. Em resposta a essas carências, o plano de intercâmbio operacional firmado entre a Força Aérea Brasileira (FAB) e a Força Aérea do Exército dos Estados Unidos (USAAF) previu não apenas a transferência de aeronaves, mas também a estruturação de meios materiais e doutrinários destinados à formação de pilotos, navegadores e bombardeadores. O objetivo central desse esforço conjunto era constituir, em curto prazo, os efetivos humanos necessários para o cumprimento das missões de patrulha marítima e de guerra antissubmarino (ASW), consideradas prioritárias no contexto da defesa do Atlântico Sul. Nesse âmbito, o treinamento em aeronaves multimotoras assumiu caráter fundamental. Nos termos do acordo bilateral, seria recebido um lote de seis aeronaves Beechcraft AT-7-BH, às quais se somariam, posteriormente, exemplares das versões Beechcraft C-18 e C-45. Esses vetores permitiram a introdução gradual de uma doutrina de instrução mais alinhada aos padrões norte-americanos, ampliando significativamente a capacidade de formação de tripulações brasileiras para operações complexas. A partir de meados de 1942, a frota foi ainda reforçada com a incorporação de dez aeronaves do modelo Beech AT-11-BH Kansan, especificamente destinadas à formação de pilotos e tripulantes de aeronaves de bombardeio. Tratava-se de células recém-produzidas, entregues a uma comissão brasileira na Base Aérea de San Antonio Field, no estado do Texas. O traslado dessas aeronaves para o Brasil ocorreu em etapas: a primeira esquadrilha partiu em 15 de dezembro de 1943; a segunda, no dia seguinte; e a terceira e última, em janeiro de 1944. Guarnecidas por tripulações brasileiras, as dez aeronaves cumpriram uma longa rota de translado, atravessando o México e praticamente todos os países da América Central antes de alcançarem o território nacional. Ao chegarem ao Brasil, foram recebidas no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, onde passaram por inspeções técnicas e pelos procedimentos formais de aceitação em serviço.

Em seguida, foram transladadas para o Campo dos Afonsos, onde passaram a integrar o acervo da Escola de Aeronáutica (EAer), desempenhando papel fundamental na consolidação da instrução multimotora e no fortalecimento da capacidade operacional da Força Aérea Brasileira (FAB) durante os anos decisivos da Segunda Guerra Mundial. Nesse momento, e com o apoio direto de oficiais norte-americanos destacados para o Brasil, foi ministrado o curso destinado à formação de instrutores, etapa considerada fundamental para a consolidação do novo sistema de ensino. A partir da qualificação de uma massa crítica mínima de oficiais e graduados aptos a atuar como multiplicadores, o programa de treinamento de pilotos e tripulantes para aeronaves multimotoras de patrulha e bombardeio passou a ser incorporado de forma sistemática ao currículo da Escola de Aeronáutica (EAer). Esse processo marcou um ponto de inflexão na profissionalização do ensino aeronáutico militar brasileiro, ao alinhar métodos, conteúdos e padrões operacionais àqueles empregados pelas forças aéreas aliadas. Entretanto, diferentemente do emprego observado na Força Aérea do Exército dos Estados Unidos ( USAAF), os Beechcraft AT-11 em serviço no Brasil foram utilizados prioritariamente no treinamento de bombardeio dos cadetes da Escola, e não na formação específica de bombardeadores. Nessas missões de instrução, as aeronaves eram empregadas em surtidas de lançamento de bombas de exercício do tipo M-38A2, com peso nominal de 45,5 kg. Esses artefatos eram estruturalmente ocos, permitindo seu preenchimento com materiais inertes como areia, serragem ou cinzas de modo a atingir o peso operacional previsto. Cada bomba dispunha ainda de uma carga sinalizadora na cauda, concebida para facilitar a observação visual do ponto de impacto no solo. As bombas de treinamento M-38A2 reproduziam com elevado grau de fidelidade o comportamento balístico de bombas de emprego geral mais pesadas, como as AN-M43 e AN-M64A1, de 227 kg, o que representava um ganho expressivo em termos de realismo e qualidade da instrução. Tal recurso permitia que os cadetes assimilassem, em condições controladas, os princípios fundamentais do bombardeio aéreo, reduzindo significativamente a lacuna entre o treinamento e o emprego operacional real. Além de sua função primária no adestramento de bombardeio, os Beechcraft AT-11 foram amplamente empregados na instrução de navegação aérea. Há registros consistentes de que essas aeronaves, pertencentes ao acervo da Escola de Aeronáutica (EAer), eram também utilizadas com regularidade em surtidas de instrução de fotografia aérea. O nariz amplamente envidraçado do modelo possibilitava a obtenção de imagens oblíquas, enquanto a presença de um painel de plexiglass opticamente plano na parte inferior do nariz permitia a realização de tomadas fotográficas verticais, ampliando o espectro de competências técnicas transmitidas aos alunos. Até o término da Segunda Guerra Mundial, os AT-11 desempenharam papel decisivo na formação de centenas de pilotos que, posteriormente, operariam os mais diversos modelos de bombardeiros bimotores empregados pela Força Aérea Brasileira (FAB). Com pequenas adaptações, essa rotina de emprego e instrução manteve-se praticamente inalterada até o final de 1947. Nesse mesmo período, contudo, o recém-criado Ministério da Aeronáutica (MAer) encontrava-se profundamente empenhado não apenas em promover uma ampla reorganização de suas unidades aéreas, mas também em preparar a Força para uma fase de crescimento significativo, particularmente no que dizia respeito aos seus estabelecimentos de ensino.
Esse processo de expansão implicou um aumento substancial da demanda por aeronaves de treinamento. Para atender a essa necessidade, foram conduzidas negociações com o governo dos Estados Unidos que resultaram na aquisição de um novo lote de dez aeronaves, obtidas por um valor simbólico. Por se tratarem de aviões usados, coube à Força Aérea Brasileira arcar apenas com os custos relativos à revisão geral das células e dos motores, serviços estes executados pela empresa Texas Engineering & Manufacturing. Declaradas prontas nas últimas semanas de 1947, as primeiras aeronaves desse segundo lote partiram da San Antonio Air Force Base, no Texas, em 24 de dezembro daquele ano, enquanto o último exemplar deixou os Estados Unidos em 9 de fevereiro do ano seguinte, reforçando de maneira decisiva a capacidade de instrução da Aeronáutica brasileira no pós-guerra imediato. Diferentemente do que ocorrera com as aeronaves do primeiro lote, os “novos” Beechcraft AT-11BH, tão logo foram recebidos no Brasil, não tiveram sua totalidade concentrada na Escola de Aeronáutica (EAer). Apenas um exemplar foi destinado a essa instituição, enquanto os demais foram distribuídos entre diferentes bases aéreas e organizações militares, passando a integrar esquadrilhas de adestramento e unidades especializadas. Essa redistribuição refletia a maturidade alcançada pela Força Aérea Brasileira (FAB) no pós-guerra, bem como a necessidade de empregar seus meios de forma descentralizada, atendendo a uma gama mais ampla de missões de instrução e apoio operacional. Na Base Aérea de São Paulo (BASP), os AT-11 foram colocados à disposição da Esquadrilha Mista de Instrução do Curso de Tática Aérea (EMICTAer), onde passaram a ser empregados em tarefas de aerofotogrametria, contribuindo para o desenvolvimento doutrinário e técnico dessa atividade no âmbito da FAB. Duas células, por sua vez, foram encaminhadas à Escola de Especialistas da Aeronáutica (EEAr), onde assumiram papel relevante na formação de futuros graduados dos quadros de armamentos e de fotografia aérea. Equipadas com os visores de bombardeio Norden M-9 ou M-9B, essas aeronaves participaram diretamente da instrução de diversas turmas de sargentos bombardeadores. De forma complementar, quando dotadas de câmeras fotográficas oblíquas e verticais, os mesmos AT-11 contribuíram de maneira decisiva para a diplomação dos futuros sargentos fotógrafos da Força Aérea Brasileira, consolidando um ciclo formativo que combinava teoria, prática e emprego de equipamentos de elevado padrão tecnológico para a época. No início da década de 1950, a distribuição dos Beechcraft AT-11 sofreu novas alterações. Algumas aeronaves foram transferidas para a Escola de Especialistas e de Infantaria de Guarda (EOEIG), sediada no Campo de Bacacheri, em Curitiba, onde passaram a ser utilizadas na formação de oficiais nas áreas de armamento e fotografia aérea, ampliando o escopo de atuação do modelo no sistema de ensino da Aeronáutica. Em meados de 1951, o Parque de Aeronáutica dos Afonsos (PqAerAF) recebeu um exemplar do AT-11, destinado a operar em benefício do Serviço Geográfico do Exército, cooperação interforças que se estenderia até o final daquela década e evidenciaria a versatilidade da aeronave em missões técnicas especializadas. Na segunda metade dos anos 1950, e em decorrência da desativação dos Douglas A-20K do 1º/10º Grupo de Aviação – Esquadrão Poker, o Estado-Maior da Aeronáutica (EMAer) tomou uma decisão que abriu uma nova frente de emprego para os Beechcraft AT-11. Diante do número limitado de aeronaves RB-25 Mitchell disponíveis para missões de reconhecimento fotográfico e aerofotogrametria, determinou-se a alocação de três AT-11 a essa unidade. Esses exemplares distinguiram-se dos demais por receberem pintura tática camuflada, padrão que seria mantido até sua desativação, ocorrida no início da década de 1970.

Paralelamente, dois AT-11 foram destinados ao 1º/6º Grupo de Aviação – Esquadrão Carcará, com o objetivo de reforçar a dotação dos Boeing RB-17 empregados em missões de reconhecimento e apoio. Essa incorporação ocorreu ao longo de 1958, mantendo-se essas aeronaves em operação até 1963. Salvo as periódicas idas ao Parque de Aeronáutica dos Afonsos (PqAerAF) para a realização dos serviços programados de revisão geral ou para reparos decorrentes de incidentes e acidentes operacionais, os Beechcraft AT-11 apresentaram, ao longo de sua vida útil, bons índices de disponibilidade e confiabilidade. Duas ressalvas merecem destaque no que se refere à incorporação de células adicionais ao inventário de Beechcraft AT-11 da Força Aérea Brasileira, ocorridas em momentos distintos e cercadas por circunstâncias particulares. A primeira diz respeito à incorporação de uma aeronave em 1953, identificada como um Beech D-18S que, aparentemente, apresentava características semelhantes às do AT-11. Esse exemplar havia sido originalmente adquirido pelo Ministério da Agricultura e, por razões não plenamente esclarecidas nos registros disponíveis, foi transferido para a Força Aérea Brasileira em junho de 1953. Sua permanência no acervo da Aeronáutica, entretanto, foi breve, sendo oficialmente excluído em outubro de 1954. Em janeiro de 1956, já identificado como um Beech C-45, o mesmo avião voltou a ser distribuído, dessa vez ao Esquadrão de Transporte Especial (ETE). Pouco tempo depois, contudo, seria novamente desativado, havendo indícios de que tenha sido devolvido ao Ministério da Agricultura, encerrando de forma discreta e pouco documentada sua passagem. A segunda ressalva refere-se à incorporação, em 1963, de duas aeronaves originalmente pertencentes à Maryland Aviation Research Corporation e posteriormente vendidas a um particular brasileiro. Os detalhes acerca dessa transação são escassos, mas tudo indica que os aviões tenham sido arrestados em decorrência de atividades ilícitas. Apesar de preservarem o característico “nariz de vidro” típico do AT-11, essas aeronaves haviam sido convertidas para o transporte de carga antes de sua incorporação pela Força Aérea Brasileira, ocorrida em junho de 1963. Ambas as células encontravam-se sem motores e em condições precárias de conservação, o que motivou seu encaminhamento ao Parque de Aeronáutica dos Afonsos (PqAerAF) para processos de recuperação estrutural e revisão geral. Ao final desse esforço, apenas uma das aeronaves pôde ser efetivamente restaurada e colocada em condições de voo, sendo então destinada à Escola de Oficiais Especialistas e de Infantaria de Guarda (EOEIG). O início da década de 1970 marcou o prenúncio do encerramento da vida operacional dos Beechcraft AT-11 na Força Aérea Brasileira. Àquela altura, a frota havia sido reduzida a apenas oito aeronaves, reflexo do desgaste natural das células, da evolução tecnológica e da introdução de meios mais modernos de instrução e apoio. Gradualmente, os exemplares ainda em condições de voo foram sendo recolhidos ao Parque de Material dos Afonsos (PqAerAF), no Rio de Janeiro, onde passaram pelo processo de desativação. Nesta organização os derradeiros Beechcraft AT-11, seriam excluídos da carga passando a ser alienados em concorrência pública para venda sendo posteriormente, utilizados por operadores civis. Uma aeronave seria reservada para preservação sendo destinada ao acervo do Museu Aeroespacial – Musal sediado no Rio de Janeiro.
Em Escala.
Para representarmos o Beechcraft AT-11 Kansan FAB 1366 empregamos o antigo kit da Pionner 2 na escala 1/72, pois não existe similar na escala 1/48. Trata-se de um modelo extremamente básico sem o mínimo nível de detalhamento. Para compormos a versão operada pela Força Aérea Brasileira, é necessário incluir os dutos de escape laterais dos motores, acrescer a base da torre de metralhadoras e o suporte da câmera fotográfica obliqua. Como não existe no mercado um set de decais específicos compomos o modelo com decais diversos oriundos muitos deles da FCM Decais.
O esquema de cores descrito abaixo representa o padrão de pintura tático aplicado as aeronaves configuradas para as missões de foto reconhecimento e aerofotogrametria quando de sua operação pelo 1º/10º Grupo de Aviação – Esquadrão Poker. Originalmente as células foram recebidas com pintura monocromática em metal natural, sendo este substituído posteriormente com o padrão de pintura aplicado aos demais Beechcraft C-45 e Douglas C-47 da Força Aérea Brasileira (FAB).
Bibliografia :
- Beechcraft Model 18 - Wikipédia - https://en.wikipedia.org/wiki/Beechcraft_Model_18
- Aeronaves Militares Brasileiras 1916 á 2015 - Jackson Flores Jr
- História da Força Aérea Brasileira – Rudnei Cunha Dias da Cunha http://www.rudnei.cunha.nom.br/





