História e Desenvolvimento.
Na Europa, durante a segunda metade da década de 1930, o amplo programa de rearmamento promovido pelo governo alemão já se encontrava em plena execução. Mais do que simplesmente reequipar suas forças armadas, o Terceiro Reich buscava desenvolver uma nova concepção de guerra, baseada na integração entre avanços tecnológicos, mobilidade operacional e coordenação entre diferentes armas. Essas ideias culminaram na formulação do conceito que ficaria mundialmente conhecido como Blitzkrieg (Guerra Relâmpago). A doutrina baseava-se na realização de ofensivas rápidas e profundas, destinadas a romper as linhas inimigas e desorganizar sua capacidade de comando e reação antes que uma defesa efetiva pudesse ser organizada. O êxito dessa estratégia dependia fundamentalmente do emprego de formações altamente móveis, apoiadas por carros de combate dotados de elevada velocidade, grande autonomia, eficiente proteção blindada e armamento capaz de neutralizar tanto posições fortificadas quanto blindados adversários. O resultado foi o desenvolvimento de uma força blindada que, ao final da década de 1930, encontrava-se entre as mais modernas e eficientes do mundo. Apesar das severas limitações impostas pelo Tratado de Versalhes, a Alemanha conseguiu, em poucos anos, reconstruir e modernizar suas forças armadas em ritmo acelerado. O surgimento de novos carros de combate, aeronaves e sistemas de artilharia despertou crescente preocupação entre os principais observadores militares internacionais, especialmente nos Estados Unidos. Relatórios periódicos produzidos por adidos militares, observadores estrangeiros e analistas de inteligência eram encaminhados ao comando do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army), alertando para o rápido avanço tecnológico As avaliações mais pessimistas indicavam que os carros de combate então em desenvolvimento na poderiam superar significativamente os modelos em serviço como o M-1 e M-2 Diante desse cenário, em abril de 1939, seria iniciado um amplo programa de estudos destinado ao desenvolvimento de uma nova família de carros de combate leves. O objetivo era substituir os modelos então em serviço por veículos capazes de enfrentar, em igualdade de condições, os blindados que equipariam os exércitos da Alemanha e do Japão em um eventual conflito. Este programa seria colocado sob responsabilidade do Departamento de Artilharia do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army Ordnance Department). Seriam estabelecidos requisitos destinados a elevar significativamente as capacidades do blindado. Entre os principais avanços previstos destacava-se a adoção do canhão M-22 de 37 mm, considerado à época uma arma moderna e capaz de enfrentar a maioria dos blindados leves existentes. Um novo sistema de blindagem foi desenvolvida, visando resistir aos impactos de projéteis anticarro de até 40 mm. Entretanto, mesmo nas as fases iniciais do projeto, uma parcela dos dos oficiais do alto comando do exército manifestavam dúvidas quanto à capacidade do blindado poder rivalizar com seus pares alemães, havendo questionamentos tanto em relação à eficácia da proteção blindada quanto ao desempenho do armamento principal. Apesar dessas incertezas, os trabalhos avançaram rapidamente e resultaram no desenvolvimento do novo carro de combate leve M-3 Light Tank.
As preocupações manifestadas seriam confirmadas, com o início da ofensiva alemã contra a França e os Países Baixos. Durante a campanha, os carros de combate Panzer III e Panzer IV demonstraram a eficácia da doutrina de Guerra Relâmpago (Blitzkrieg), participando de operações que resultaram no rápido colapso das forças aliadas. Embora franceses e britânicos dispusessem de alguns blindados superiores em termos de blindagem e armamento, a superioridade alemã em mobilidade, coordenação tática e emprego combinado de forças revelou-se decisiva. Os acontecimentos da campanha francesa reforçaram a percepção de que o Exército dos Estados Unidos (U.S Army) necessitava, com urgência, de um carro de combate dotado de maior poder de fogo. Tornou-se evidente que os blindados armados apenas com canhões de 37 mm enfrentariam dificuldades, contudo o M-3 apresentava limitações estruturais que impossibilitavam a instalação de um armamento de maior calibre. A adoção de um canhão de 75 mm exigiria o desenvolvimento de uma torre completamente nova, capaz de suportar não apenas o peso do armamento, mas também as elevadas cargas geradas pelo recuo durante o disparo. Embora essa solução fosse considerada tecnicamente viável, sua implementação demandaria tempo, recursos e adaptações incompatíveis com a urgência imposta pelo cenário internacional. Assim decidiu-se adotar uma solução intermediária que permitisse colocar rapidamente em produção um carro de combate mais bem armado. Paralelamente aos estudos para o desenvolvimento de uma torre capaz de acomodar um canhão de 75 mm, foi iniciado um programa experimental utilizando o chassi do carro de combate médio M-2 como plataforma para a instalação de um armamento de maior calibre. Essa iniciativa resultou em um veículo experimental equipado com um canhão de 75 mm, com os testes demonstrando que o casco poderia ser adaptado para receber uma superestrutura modificada, permitindo a instalação de uma arma de maior calibre sem a necessidade de redesenhar completamente o veículo. Ao mesmo tempo, preservava-se uma torre giratória armada com um canhão M-22 de 37 mm, mantendo a capacidade de engajar alvos móveis em qualquer direção. A principal arma do veículo consistia em um canhão M-2 de 75 mm montado em um reparo lateral no casco, com capacidade limitada de movimentação horizontal. Complementando esse armamento, uma torre giratória instalada sobre a superestrutura abrigava um canhão de 37 mm, responsável pelo engajamento de alvos que exigissem maior flexibilidade de tiro. Em algumas versões iniciais, uma pequena cúpula superior armada com uma metralhadora completava o conjunto, conferindo ao blindado uma aparência característica e facilmente reconhecível. A adoção desse arranjo de armamentos não era uma solução inédita. Seus projetistas inspiraram-se em conceitos já empregados no carros de combate francês Char B1 e o britânico Churchill Mark I. O M-3, entretanto, diferenciava-se desses modelos ao empregar um canhão principal de dupla finalidade. Sua arma de 75 mm era capaz de disparar tanto projéteis perfurantes, adequados ao combate anticarro, quanto munições altamente explosivas destinadas ao apoio de infantaria e à destruição de posições fortificadas. Essa característica conferia ao veículo uma versatilidade operacional.

Apesar dessas qualidades, o projeto apresentava limitações significativas, com destaque para o canhão principal no casco restringia severamente seu setor de tiro lateral, obrigando o motorista a manobrar o veículo para efetuar correções mais amplas de pontaria. Apesar disto a capacidade de produção em larga escala permitiu atender com maior agilidade às demandas emergenciais, sendo firmados grande contratos de aquisição. A produção foi distribuída entre a Baldwin Locomotive Works, a Pullman Company e a Pressed Steel Car Company, com o primeiro carro pré-serie sendo concluído em março de 1941, já os primeiros exemplares com especificações britânicas foram entregues em julho daquele ano. Nessa fase já apresentavam blindagem mais espessa do que a inicialmente prevista, em resposta às exigências operacionais do front europeu e africano. A versão britânica, denominada Grant, diferia da versão americana conhecida como Lee por incorporar o rádio na torre, o que permitia operar com um tripulante a menos. Essa configuração, considerada mais eficiente, acabaria por ser adotada posteriormente também pelo Exército dos Estados Unidos (U.S. Army). Os primeiros Grants chegaram ao Norte da África no final de janeiro de 1942, sendo imediatamente seguidos por treinamentos intensivos das tripulações para enfrentar as forças do Eixo. Como o canhão M-2 de 75 mm havia sido desenvolvido a partir de um modelo francês, o Exército Real (Royal Army) já possuía em seus arsenais consideráveis estoques de munição compatível, entre eles projéteis perfurantes de tiro sólido. Estes munição era capaz de penetrar cerca de 50 mm de blindagem a uma distância de 1.000 metros, o que representava um desempenho superior ao dos canhões britânicos de 2 libras, embora ainda aquém das exigências ideais para combate antiblindado moderno. Durante os combates, no entanto, foram capturados significativos volumes de munição alemã de 75 mm, que, ao serem adaptados ao cartucho norte-americano, resultaram em uma melhoria substancial na eficácia balística do armamento principal do M-3. Posteriormente, a introdução do projétil AP M61, de fabricação norte-americana, elevaria ainda mais o desempenho do veículo em campo de batalha. O batismo de fogo do M-3 Grant ocorreu em 27 de maio de 1942, durante a Batalha de Gazala, no Norte da África. A aparição do novo blindado representou uma surpresa para as forças alemãs, que não estavam preparadas para enfrentar um canhão de 75 mm com tal alcance e poder de penetração. Mostrou-se capaz de engajar o inimigo a distâncias superiores ao alcance efetivo do canhão antitanque PaK 38 (50 mm) e do KwK 39 (50 mm), empregado pelo Panzer III, o principal carro de combate médio das forças alemãs naquele teatro de operações. Ademais, demonstrou superioridade frente aos tanques leves italianos Fiat M13/40 e M14/41, cujos canhões de 47 mm revelavam-se eficazes apenas em combate a curta distância. Apenas os poucos canhões autopropulsados Semovente 75/18, armados com munições de carga oca (HEAT), mostraram-se capazes de neutralizar o M-3. Apesar do impacto inicial causado por sua introdução em combate, os carros de combate M3 Grant não foram capazes de alterar significativamente o desfecho da Batalha de Gazala, sendo severamente castigados pelas eficazes baterias antiaéreas alemãs Flak 18/36/37, de 88 mm, empregadas como armas anticarro.
Nesse cenário, tornaram-se evidentes algumas das principais limitações, seu perfil elevado do chassi, a baixa relação peso-potência, que comprometia sua mobilidade em terrenos difíceis, e, especialmente, o uso de blindagem rebitada. Esta última apresentava um risco crítico à tripulação, uma vez que, ao sofrer impacto direto, os rebites podiam se soltar e ricochetear dentro do compartimento de combate, ferindo gravemente os tripulantes. Inicialmente concebidos como uma solução temporária para o Exército Real (Royal Army), até a entrada em serviço dos novos carros Crusader Mark III, os M-3 acabaram se tornando a principal força blindada dos Aliados no Oriente Médio. Tal protagonismo se estendeu até o final de 1942, quando começaram a ser substituídos pelos mais modernos M-4 Sherman. No teatro de operações do Pacífico, foram empregados durante a campanha das Ilhas Gilbert e Marshall, em 1943. Após o famoso desembarque em Tarawa, a 27ª Divisão de Infantaria realizou um ataque anfíbio à Ilha Makin, com o apoio de um pelotão de M3A5 Lee pertencente ao 193º Batalhão de Tanques, equipados com kits de vadear profundo, essenciais para operações em terreno insular.O Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos (U.S. Marine Corps) chegou a considerar o emprego da família M-3, mas acabou optando por migrar diretamente dos M-3 Stuart para os M-4 Sherman, abandonando os Lee e Grant para uso operacional. Já o Exército Real empregou extensivamente os Grants no teatro do Sudeste Asiático, especialmente na Birmânia, onde foram utilizados pelo 14º Exército Britânico até a reconquista de Rangum. Destaca-se o desempenho durante a Batalha de Imphal, quando os M-3 britânicos demonstraram notável eficácia ao atravessar as encostas íngremes da região, enfrentando e repelindo as forças japonesas. Na ocasião, o 14º Regimento de Tanques do Exército Imperial Japonês, equipado majoritariamente com tanques leves Type 95 Ha-Go e alguns M-3 Stuart britânicos capturados, encontrou dificuldades para conter os M-3 Grant britânicos, que se mostraram superiores em blindagem e poder de fogo. Ao longo desse período, cerca de 900 unidades do M-3 Grant foram fornecidas ao Exército Indiano Britânico, sendo empregadas em diversas operações na Campanha da Birmânia, incluindo combates diretos contra forças blindadas japonesas. O Real Corpo Blindado Australiano (RAAC) também utilizou o M-3, tendo suas 04 divisões equipadas, ao menos parcialmente, com unidades disponibilizadas por meio de excedentes britânicos. Contudo, após avaliação, foi considerado inadequado para missões de combate fora do território continental australiano. Consequentemente, os M-3 australianos foram substituídos pelos Matilda II antes do envio das tropas para as campanhas da Nova Guiné e Bornéu. No que se refere às forças armadas dos Estados Unidos, todos foram retirados gradualmente das funções de linha de frente, sendo substituídos à medida que os M-4 Sherman passaram a ser disponibilizados em grande escala. Apesar disso, a plataforma do M-3 continuou a ser empregada em diversas funções especializadas, com destaque para os veículos de apoio e suporte, como o M-31 Tank Recovery Vehicle e o Canal Defence Light, utilizados no teatro europeu até os estágios finais da guerra.
A União Soviética tornou-se o segundo maior operador M-3 fora dos Estados Unidos. No âmbito do programa Lend-Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos), foram destinados ao Exército Vermelho 1.386 exemplares . Entretanto, as dificuldades inerentes ao transporte marítimo em tempo de guerra reduziram significativamente esse número. Estima-se que 417 veículos tenham sido perdidos durante o trajeto, afundados em consequência de ataques realizados por submarinos, aeronaves e navios de superfície alemães contra os comboios aliados. Embora as tripulações soviéticas frequentemente se referissem ao blindado como “Grant”, todos os veículos recebidos pertenciam, na realidade, à variante Lee. Oficialmente, seria adotada a designação М-3 средний (Sredniy, ou Médio), estabelecendo uma diferenciação em relação ao carro de combate leve M-3 Stuart, identificado nos registros soviéticos como М-3 лёгкий ( Lyogkiy, ou Leve). Apesar de sua importância numérica, o M-3 jamais conquistou a confiança das tripulações soviéticas. Entre os combatentes, o veículo recebeu o apelido pejorativo “túmulo coletivo para seis homens”, a origem dessa reputação negativa estava associada a uma combinação de fatores técnicos e operacionais. O elevado perfil do veículo facilitava sua identificação e engajamento pelas forças inimigas, enquanto o emprego de motores radiais movidos a gasolina aumentava significativamente o risco de incêndio após a perfuração da blindagem. Além disso, a proteção oferecida pelo blindado mostrava-se insuficiente diante da crescente capacidade dos canhões anticarro alemães empregados na Frente Oriental. O descontentamento soviético com o desempenho alcançou inclusive os mais altos níveis da liderança política e militar. Em correspondência enviada ao presidente Franklin D. Roosevelt, Stalin manifestou formalmente suas preocupações quanto à vulnerabilidade do veículo. Segundo o líder soviético: “Considero meu dever adverti-lo de que, segundo nossos especialistas no front, os tanques M-3 incendeiam-se facilmente ao serem atingidos na parte traseira ou lateral por projéteis de rifles antitanque. A causa é o combustível de alta octanagem utilizado, que gera uma espessa fumaça altamente inflamável no interior do veículo.” A partir de 1943, com a crescente capacidade industrial e o aumento da produção T-34, os M-3 Lee começaram a ser gradualmente retirados das unidades de primeira linha. Os exemplares remanescentes passaram a ser empregados em setores considerados secundários ou em regiões onde a resistência alemã era menos intensa. Apesar das críticas recebidas durante sua carreira operacional, o M-3 representou um importante estágio na evolução da engenharia . Entre suas contribuições mais relevantes destacava-se a introdução do sistema de suspensão VVSS (Vertical Volute Spring Suspension). Sua produção foi encerrada em dezembro de 1943, totalizando 6.258 exemplares distribuídos entre 17 variantes distintas. Embora concebido inicialmente como uma solução intermediária enquanto se aguardava o desenvolvimento de um carro de combate mais moderno, o veículo alcançou ampla difusão internacional. Além dos Estados Unidos, Grã-Bretanha e União Soviética, foi empregado Austrália, Canadá, China, Índia, Filipinas e Brasil, desempenhando diferentes funções operacionais e contribuindo para o esforço de guerra em múltiplos teatros de operações.Emprego no Exército Brasileiro.
No início da Segunda Guerra Mundial, o governo dos Estados Unidos passou a encarar com crescente preocupação a possibilidade de uma expansão das operações militares das potências do Eixo — Alemanha, Itália e Japão em direção ao continente americano. Embora tal cenário parecesse remoto nos primeiros meses do conflito, a rápida sucessão de vitórias obtidas pelas forças alemãs na Europa alterou significativamente a percepção estratégica norte-americana. A capitulação da França, em junho de 1940, representou um dos momentos mais críticos desse processo. Com a derrota francesa, surgiram temores de que a Alemanha Nazista pudesse utilizar territórios e possessões coloniais sob influência do governo colaboracionista de Vichy para estabelecer bases operacionais avançadas em regiões estratégicas do Atlântico. Entre as áreas consideradas mais sensíveis figuravam as Ilhas Canárias, Dacar, no Senegal, e diversas colônias francesas na África Ocidental. Caso essas posições fossem efetivamente utilizadas pelo Eixo, abrir-se-ia a possibilidade de projetar poder militar em direção ao Atlântico Sul, aproximando a guerra das Américas. Nesse contexto, o Brasil passou a ocupar posição de destaque nos estudos estratégicos realizados em Washington. Sua extensa faixa litorânea, especialmente na região Nordeste, representava o ponto de menor distância entre os continentes americano e africano, tornando-se uma área de enorme relevância para qualquer operação militar ou logística envolvendo o Atlântico Sul. A proximidade com a África, região que também despertava crescente interesse estratégico alemão, fez com que analistas militares norte-americanos considerassem o território brasileiro como uma das áreas mais vulneráveis a uma eventual tentativa de projeção de forças do Eixo no continente americano. Paralelamente, o avanço japonês no Sudeste Asiático e no Pacífico produziu importantes consequências econômicas e estratégicas. A ocupação de áreas tradicionalmente produtoras de borracha natural reduziu drasticamente o acesso dos Aliados a essa matéria-prima essencial para a fabricação de pneus, vedações, mangueiras, componentes aeronáuticos e inúmeros outros produtos indispensáveis ao esforço de guerra. Nesse cenário, o Brasil assumiu papel de destaque como um dos principais fornecedores de látex para os países aliados, reforçando ainda mais sua importância geopolítica. Além de sua relevância econômica, o território brasileiro possuía características geográficas que o tornavam fundamental para a estratégia aliada. O litoral nordestino, especialmente as áreas compreendidas entre Natal, Recife e outras cidades da região, oferecia condições ideais para a instalação de bases aéreas, centros logísticos e portos militares. A partir dessas localidades seria possível estabelecer uma ponte aérea e marítima entre as Américas, a África e, posteriormente, os teatros de operações no Mediterrâneo e na Europa. Dessa forma, tropas, veículos, suprimentos e aeronaves poderiam ser deslocados com maior rapidez para as frentes de combate. A crescente importância estratégica do Brasil favoreceu uma rápida aproximação política, econômica e militar entre Brasília e Washington. Em poucos anos, essa cooperação resultaria em uma série de acordos bilaterais, investimentos em infraestrutura e programas de assistência militar destinados a fortalecer a capacidade defensiva brasileira.
Entre as iniciativas mais importantes destacou-se a inclusão no programa de assistência militar norte-americano conhecido como Lend-Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos).Os termos do acordo garantiram uma linha inicial de crédito da ordem de US$ 100 milhões de dólares, destinada à aquisição de armamentos, aeronaves, veículos militares, embarcações, equipamentos de comunicações e carros de combate. O cronograma de recebimento dos veículos militares, previa o início das entregas entre os meses de novembro e dezembro de 1941. Entretanto, buscando demonstrar à opinião pública os resultados concretos da crescente aproximação político-militar entre os dois países, o governo federal decidiu antecipar simbolicamente esse processo por meio da aquisição direta de um pequeno lote de veículos modernos. Assim, com recursos próprios oriundos do orçamento do Ministério da Guerra, foram adquiridos 10 carros de combate leves M-3 Stuart e 10 viaturas meia lagarta M-3A1 Scout Car. Estes foram rapidamente preparados para participar das comemorações do Dia da Independência, realizadas em 7 de setembro de 1941, na então Capital Federal, o Rio de Janeiro. Sua presença no tradicional desfile cívico-militar causou grande impacto junto ao público e à imprensa especializada, representando uma demonstração visível do processo de reequipamento militar em curso. A incorporação desses blindados marcou o início de uma profunda transformação na Cavalaria. Inspirado nos conceitos operacionais adotados pelo Exército dos Estados Unidos (U.S. Army), teve início o processo de criação de unidades motomecanizadas voltadas para missões de reconhecimento, segurança e exploração. Essa mudança representava uma ruptura gradual com a influência doutrinária francesa que, desde a década de 1920, orientava a organização, o treinamento e o emprego das forças terrestres brasileiras. Os M-3 Stuart passaram a substituir progressivamente os já obsoletos Fiat-Ansaldo CV3-35 e Renault FT-17, veículos que constituíam, até então, o núcleo da força blindada nacional. Todavia, apesar da crescente importância estratégica do Brasil para o esforço de guerra aliado, as prioridades de distribuição de material militar estavam concentradas nas forças que combatiam diretamente nos teatros de operações da Europa, Norte da África e Pacífico. Em consequência, o país não foi inicialmente contemplado com os mais modernos carros de combate M-4 Sherman. Como alternativa, o seriam recebidos veículos considerados de segunda linha naquele período , entre eles os carros de combate leves M-3 Stuart e os carros de combate médios M-3 Lee. Embora esses modelos já estivessem em processo de substituição gradual por equipamentos mais modernos nas unidades norte-americanas, continuavam sendo blindados plenamente capazes de atender às necessidades de modernização do Exército Brasileiro. Nesse contexto, ocorreu, em janeiro de 1942, a chegada ao Porto do Rio de Janeiro dos primeiros carros de combate médios M-3 Lee destinados ao Brasil. As entregas prosseguiriam de forma gradual ao longo dos meses seguintes, intensificando-se até meados de 1943. Ao final do processo, seriam recebidos um total de 104 exemplares, distribuídos entre duas variantes de exportação.

Embora parte desses veículos já tivesse sido utilizados anteriormente pelo Exército dos Estados Unidos (U.S Army), o carros de combate cedidos ao pais apresentavam excelentes condições de conservação. Essa situação decorria do reduzido nível de desgaste operacional a que haviam sido submetidos, uma vez que muitos permaneceram empregados em unidades de treinamento e instrução localizadas no território continental norte-americano. Do total de carros M-3 Lee recebidos, 81 correspondiam à variante M-3A3, conhecida na nomenclatura britânica como Lee V, que haviam sido originalmente produzidos para atender às especificações operacionais do Exército Real (Royal Army), razão pela qual apresentavam algumas características distintas em relação aos modelos padrão. A principal diferença encontrava-se no conjunto motopropulsor, pois eram equipados com dois motores diesel Detroit Diesel Series GM 6-71, acoplados para formar o conjunto conhecido como GM 6046 Power Pack. Essa configuração proporcionava maior economia de combustível e menor risco de incêndio em combate quando comparada aos motores movidos a gasolina empregados em outras variantes da família M-3. Outra característica marcante desses veículos era a presença de portas laterais soldadas ao casco, solução adotada em conformidade com os requisitos operacionais britânicos e que refletia a constante busca por aprimoramentos na proteção blindada. As 24 viaturas restantes pertenciam à variante M-3A5. Inicialmente destinadas à exportação sob a designação britânica Grant II, essas unidades acabaram sendo redirecionadas para utilização pelo Exército dos Estados Unidos (U.S Army) antes de serem posteriormente transferidas ao Brasil. Embora compartilhassem o mesmo conjunto mecânico diesel GM 6046 dos M-3A3, distinguiam-se estruturalmente pelo casco rebitado, característica típica dos primeiros lotes de produção fabricados em 1941. Essa solução construtiva, amplamente utilizada nos estágios iniciais da guerra, seria gradualmente abandonada em favor dos cascos soldados, considerados mais seguros e resistentes em condições de combate. O transporte dos blindados para o Brasil apresentou alguns desafios logísticos. Por razões de segurança e otimização do espaço disponível nos navios cargueiros, muitos dos veículos foram embarcados parcialmente desmontados, com diversos componentes acondicionados separadamente em embalagens específicas. Essa condição provocou pequenos atrasos no processo de incorporação dos carros de combate às unidades operacionais brasileiras. As dificuldades iniciais foram agravadas pela escassez de documentação técnica adequada. Em muitos casos, os manuais de operação e manutenção não acompanhavam os veículos ou estavam disponíveis apenas em versões incompletas e exclusivamente em língua inglesa, dificultando o trabalho das equipes responsáveis pela montagem, inspeção e preparação dos blindados. Apesar desses obstáculos, o elevado grau de motivação dos quadros técnicos do Exército Brasileiro e o apoio prestado pelas missões militares norte-americanas permitiram que os problemas fossem rapidamente solucionados, possibilitando a entrada em serviço dos veículos dentro de um prazo apenas ligeiramente superior ao previsto.
Sua operação exigia uma guarnição de 06 militares, distribuídos entre comandante, atirador, carregador, motorista, auxiliar de motorista e operador de rádio/metralhador. Essa característica tornou necessária a implementação de programas de instrução voltados tanto para a formação de tripulações quanto para a capacitação de mecânicos, eletricistas, armeiros e demais especialistas responsáveis pela manutenção dos veículos. O armamento principal era constituído pelo canhão M-2 de 75 mm, instalado em um reparo lateral no casco e operado por uma equipe composta por um atirador e um municiador. Este último era responsável pela alimentação da peça, introduzindo manualmente os projéteis na culatra por meio de um sistema de carregamento relativamente simples, porém eficiente para os padrões da época. A pontaria era realizada através de um periscópio M1 integral, instalado no topo da superestrutura e mecanicamente integrado aos movimentos da arma. Esse sistema permitia ao atirador acompanhar continuamente o alinhamento do canhão durante a elevação e depressão do tubo, favorecendo a aquisição e o engajamento dos alvos. A retícula de tiro possuía escalas graduadas para distâncias de aproximadamente 2.740 metros, incorporando ainda referências verticais destinadas ao cálculo de deflexão, recurso particularmente útil durante disparos contra alvos em movimento. Complementando o poder de fogo do blindado, encontrava-se o canhão M-22 de 37 mm, instalado na torre giratória e operado por um terceiro tripulante. Embora inferior em potência ao canhão de 75 mm, esse armamento oferecia maior flexibilidade tática graças à capacidade de rotação completa da torre, permitindo o rápido engajamento de ameaças em qualquer direção. Seu alcance efetivo era estimado em aproximadamente 1.400 metros. Assim como ocorria com algumas versões iniciais do canhão de 75 mm, determinados exemplares do canhão de 37 mm recebiam um contrapeso instalado sob o tubo. Esse dispositivo tinha por finalidade equilibrar o conjunto móvel da arma e otimizar o funcionamento do sistema estabilizador. Entretanto, sua finalidade nem sempre era plenamente compreendida pelas tripulações, que frequentemente negligenciavam sua manutenção ou mesmo desconheciam sua importância operacional. A torre possuía capacidade de rotação completa de 360 graus e era movimentada por um moderno sistema eletro-hidráulico alimentado pelo motor principal do veículo. O mesmo circuito hidráulico também fornecia energia ao estabilizador do canhão de 37 mm, recurso relativamente avançado para a época. Graças a esse mecanismo, a torre podia completar uma rotação integral em menos de quinze segundos, conferindo ao blindado elevada rapidez de reação em combate. Para autodefesa e apoio aproximado à infantaria, os veículos eram equipados com um expressivo conjunto de metralhadoras calibres .30 (7,62 mm) e .50 (12,7 mm). Em sua configuração máxima, o armamento secundário incluía uma metralhadora coaxial ao canhão de 37 mm, uma metralhadora instalada na cúpula do comandante, uma arma antiaérea montada externamente na parte traseira da torre e até quatro metralhadoras adicionais posicionadas em montagens laterais fixas nos chamados sponsons, localizados nos cantos da superestrutura frontal.

Foram destinados prioritariamente às principais organizações blindadas então em processo de formação. A maior parte dos veículos equipou o 1º Batalhão de Carros de Combate (1º BCC), sediado nas instalações do antigo Derby Club, no Rio de Janeiro; o 2º Batalhão de Carros de Combate (2º BCC), aquartelado em Valença, no interior fluminense; e o 3º Batalhão de Carros de Combate (3º BCC), estabelecido na cidade de São Paulo. Essas unidades constituíam o núcleo da recém-criada Divisão Motomecanizada, organização que simbolizava a adoção dos modernos conceitos de guerra mecanizada pelo Exército Brasileiro. Paralelamente, dois exemplares do M-3A3 Lee foram destinados à Escola de Motomecanização (EsMM), localizada em Marechal Deodoro, no então Distrito Federal. Nessas instalações, os blindados desempenharam papel fundamental na formação das primeiras gerações de tripulantes, instrutores e especialistas em manutenção de carros de combate médios, contribuindo decisivamente para a consolidação da doutrina blindada nacional. Durante este período passaram a dividir protagonismo com os modelos leves M-3 Stuart cuja incorporação ocorreu em escala significativamente maior. Apesar dessa ampliação da frota de blindados leves, os M-3A3/A5 permaneceram como os principais carros de combate brasileiros, mas este cenário começaria a se transformar a partir de 27 de julho de 1945, com a incorporação dos primeiros 16 carros M-4 Sherman, seguidos por mais 17 em outubro do mesmo ano. Inicialmente, esses veículos foram concentrados no 1º Batalhão de Carros de Combate (1º BCC), onde operaram conjuntamente com os M-3A3/A5 até o início de 1946. A partir de então, os M-4 Sherman foram redistribuídos para os demais batalhões 2º BCC e 3º BCC onde passaram a operar em conjunto com os M-3A3/A5 e M-3/A1 Stuart. Durante a década seguinte, embora tenham continuado prestando valiosos serviços, passaram a operar com restrições cada vez maiores, sobretudo devido às dificuldades crônicas na obtenção de peças de reposição. Este processo culminou, em 1962, com a retirada definitiva desses modelos do 2º Batalhão de Carros de Combate (2º BCC), onde foram mantidos em armazenamento, aguardando destino. Naquele momento, apenas o 3º Batalhão de Carros de Combate (3º BCC) ainda operava os últimos exemplares remanescentes. A partir de meados da década de 1960, problemas similares de disponibilidade começaram a comprometer também a frota dos M-4 Sherman, cuja manutenção se tornava progressivamente mais difícil. Embora ainda se estivesse em processo de substituição de sua frota com a chegada dos modernos M-41 Walker Bulldog, ainda era necessário manter os M-4 Sherman em estado de plena operacionalidade. Para atender a essa necessidade, entre os anos de 1967 e 1968, o comando do 1º Batalhão de Carros de Combate (1º BCC) promoveu um extenso programa de revisão e reaproveitamento de componentes dos M-3A3/A5 como lagartas, caixas reguladoras, geradores auxiliares e outros componentes comuns. Por fim, em 1969, os últimos carros ainda em serviço no 3º Batalhão de Carros de Combate (3º BCC) foram oficialmente desativados, encerrando assim a trajetória desses veteranos blindados no âmbito do Exército Brasileiro.
Em Escala.
Para representar o carro de combate M-3A5 Lee, exemplar “EB11-527”, caracterizado pelo casco rebitado, foi utilizado o kit da Tamiya, na escala 1/35. Trata-se de um modelo particularmente adequado para a configuração da versão empregada pelo Exército Brasileiro, não sendo necessárias modificações significativas para sua correta representação. Foram aplicados decais produzidos pela Electric Products, pertencentes ao conjunto temático “Exército Brasileiro 1944–1982”, que fornecem os emblemas e marcações condizentes com o período histórico retratado.
O esquema de cores descrito a seguir, baseado no padrão Federal Standard (FS), corresponde à pintura originalmente aplicada a todos os carros de combate M-3A3 e M-3A5 Lee incorporados pelo Exército Brasileiro. Estas viaturas foram recebidas a partir de 1942 com acabamento na tonalidade Vitrolack Cor 7043-P-12, conforme o padrão estabelecido pelo Exército dos Estados Unidos (US Army). Tal padronização visual foi mantida de forma inalterada ao longo de toda a carreira operacional desses veículos no Brasil.
Bibliografia :
- M-3 Lee : From Wikipedia - http://en.wikipedia.org/wiki/M3_Lee
- Bllindados no Brasil Volume I, - por Expedito Carlos S. Bastos
- M-4 Sherman no Brasil - Por Helio Higuchi e Paulo Roberto Bastos Junior
- Medium Tank M3 Lee/Grant - Medium Tank M3 Lee/Grant - Tank Encyclopedia

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