M-56 L/14 OTO Melara (105 mm)

História e Desenvolvimento.
A OTO Melara S.p.A., atualmente integrante do grupo industrial italiano Leonardo S.p.A., tem suas origens no início do século XX, período marcado pela intensa modernização das forças armadas europeias e pela crescente competição industrial entre as grandes potências. Fundada em 1905, a empresa nasceu como uma joint venture denominada Vickers Terni, resultado da associação entre a britânica Vickers então uma das mais prestigiadas fabricantes de armamentos do mundo , a siderúrgica italiana Terni Steelworks, e os estaleiros Cantiere Navale Fratelli Orlando e Cantieri Navali Odero. O empreendimento contou com o decisivo apoio financeiro e estratégico dos empresários Giuseppe Orlando e Attilio Odero, figuras centrais no desenvolvimento industrial italiano da época. Estabelecida em La Spezia a nova companhia surgiu com a missão de suprir a crescente demanda por sistemas de artilharia e equipamentos navais, combinando capital estrangeiro, tecnologia britânica e capacidade produtiva italiana. Durante a Primeira Guerra Mundial, a então Vickers Terni destacou-se pela produção em larga escala de peças de artilharia, notadamente canhões de campanha de 40 mm e 76 mm. Esses sistemas foram amplamente empregados pelas forças aliadas, inclusive pelo Exército Italiano, em um conflito caracterizado pela centralidade da artilharia no campo de batalha. A capacidade industrial da empresa e a confiabilidade de seus produtos consolidaram sua reputação no cenário internacional de defesa. Em 1929, no contexto das transformações econômicas e políticas do período entre-guerras, a companhia passou por significativa reestruturação societária, adotando a denominação Odero Terni Orlando e a abreviação “OTO” como marca comercial. Essa mudança simbolizou não apenas uma reorganização administrativa, mas também a afirmação de uma identidade industrial própria, alinhada às ambições estratégicas da Itália da época. Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, a OTO assumiu papel central no esforço bélico italiano, especialmente no fornecimento de armamentos à Regia Marina. A empresa desenvolveu e produziu a maior parte das peças de artilharia naval que equiparam os navios de guerra italianos, desde contratorpedeiros até cruzadores pesados. Entre os modelos mais representativos destacaram-se os canhões de 120 mm e 135 mm, reconhecidos por sua precisão, alcance e robustez técnica. Entretanto, o conflito trouxe consequências severas. As instalações industriais em La Spezia foram alvo de intensos bombardeios aliados, comprometendo significativamente a capacidade produtiva da empresa. Com o término da guerra, em 1945, a Itália enfrentou o desafio da reconstrução nacional. Nesse cenário, a OTO demonstrou notável capacidade de adaptação ao diversificar sua produção para o setor civil, fabricando tratores, implementos agrícolas e teares industriais bens essenciais à retomada econômica do país. Em 1953, a companhia passou a denominar-se oficialmente OTO Melara, inaugurando uma nova fase de sua trajetória. Essa etapa coincidiu com o contexto geopolítico da Guerra Fria, período em que as nações europeias, inclusive a Itália, voltaram a investir na modernização de suas capacidades militares diante das tensões estratégicas com a União Soviética. Assim, a OTO Melara reafirmou sua vocação original no setor de defesa, consolidando-se como um dos principais polos industriais militares da Europa Ocidental.

A adesão da Itália à OTAN em 1949 representou um marco decisivo na reorganização estratégica do Estado italiano no imediato pós-guerra. Inserida no contexto da consolidação da Organização do Tratado do Atlântico Norte, a Itália passou a integrar o sistema de defesa coletiva liderado pelos Estados Unidos em meio às crescentes tensões da Guerra Fria. Tal movimento não apenas redefiniu sua política externa, mas também impulsionou uma profunda reestruturação de sua indústria de defesa, que precisava adaptar-se aos novos padrões operacionais e doutrinários da aliança atlântica. Nesse cenário de realinhamento estratégico, a OTO Melara S.p.A., sediada em La Spezia e herdeira de uma sólida tradição na produção de artilharia naval, identificou uma oportunidade concreta para retomar seu protagonismo no setor militar. Após a devastação provocada pela Segunda Guerra Mundial, a empresa havia direcionado seus esforços para a fabricação de bens civis  como tratores, teares e equipamentos industriais  contribuindo para a reconstrução econômica italiana. Contudo, a nova conjuntura geopolítica, marcada pela polarização ideológica e pela necessidade de modernização das Forças Armadas, incentivou um retorno gradual e estratégico ao mercado de defesa. Como membro fundador da OTAN, a Itália comprometeu-se a modernizar seus meios terrestres, navais e aéreos, adequando-os aos padrões técnicos e logísticos da aliança. Esse processo implicava interoperabilidade, padronização de calibres e compatibilidade com sistemas aliados. Para a OTO Melara, tal contexto representou não apenas uma retomada produtiva, mas também a possibilidade de diversificação tecnológica, expandindo sua atuação para além da artilharia naval tradicional. Uma oportunidade concreta emergiu quando o Esercito Italiano manifestou a necessidade de um obuseiro leve destinado aos regimentos de artilharia de montanha das Brigadas Alpini. Essas unidades, historicamente especializadas em operações em terrenos alpinos e ambientes de difícil acesso, exigiam um sistema de armas que combinasse mobilidade, robustez e potência de fogo. Criadas no final do século XIX, as tropas Alpini haviam consolidado reputação por sua capacidade de operar em condições extremas, onde a artilharia convencional, de maior porte, mostrava-se inadequada. Os requisitos estabelecidos pelo comando militar eram rigorosos e refletiam as especificidades do teatro operacional alpino. O novo obuseiro deveria ter peso aproximado de 1.300 kg e ser concebido de modo a permitir sua desmontagem em até doze cargas transportáveis, possibilitando o deslocamento por tropas a pé ou por muares  característica essencial para terrenos íngremes e trilhas estreitas. Além disso, deveria admitir tração por veículos leves, como jipes ou Land Rovers, e ser compatível com transporte interno em blindados de pessoal, como o M113 Armored Personnel Carrier, mediante remoção de seu escudo protetor. A versatilidade operacional constituía outro requisito fundamental. O sistema deveria permitir tanto disparos em trajetória curva, típicos do emprego indireto da artilharia convencional, quanto tiros em trajetória plana para fogo direto contra alvos fortificados ou blindados. Essa dupla capacidade ampliaria significativamente sua utilidade tática no campo de batalha moderno. A equipe técnica respondeu a esse desafio com um projeto que atendia de forma notável às especificações estabelecidas. 
O resultado foi o desenvolvimento do obuseiro conhecido como OTO Melara Mod 56, concebido para empregar a munição norte-americana M1 de 105 mm  padrão amplamente utilizado pelos membros da OTAN. Essa decisão assegurava interoperabilidade logística e facilitava o emprego conjunto em operações multinacionais. Entre as inovações técnicas do projeto destacava-se o sistema de suspensão e recuo hidropneumático, cuidadosamente dimensionado para absorver as forças geradas tanto em disparos de elevada angulação quanto em tiro direto. Tal solução proporcionava estabilidade, segurança à guarnição e flexibilidade tática, consolidando o Mod 56 como um dos mais bem-sucedidos obuseiros leves de sua categoria no período da Guerra Fria. Dotado de alcance máximo aproximado de 10,5 quilômetros, o OTO Melara Mod 56 consolidou-se como um sistema de artilharia leve notavelmente versátil no contexto operacional da Guerra Fria. Sua concepção técnica permitia o emprego tanto em missões tradicionais de apoio indireto mediante disparos em trajetória curva, com impacto vertical preciso  quanto em tiro direto contra alvos terrestres, inclusive blindados. Essa flexibilidade ampliava significativamente seu espectro de emprego tático, aproximando-o, em determinadas circunstâncias, de funções anticarro. O conjunto de recuo com culatra hidropneumática assegurava estabilidade e controle mesmo sob elevados ângulos de elevação ou em disparos de trajetória plana. A capacidade de travessia lateral de aproximadamente 18 graus conferia rapidez na aquisição de alvos e eficiência em engajamentos diretos. Ao mesmo tempo, seu peso reduzido  cerca de 1.290 kg  representava uma solução técnica coerente com as exigências de mobilidade impostas pelas doutrinas da Guerra Fria, que enfatizavam a prontidão e a capacidade de deslocamento rápido das forças terrestres. O Mod 56 podia ser desmontado em até doze cargas transportáveis, permitindo seu deslocamento manual ou por muares em terrenos montanhosos, característica essencial para unidades de montanha. Também podia ser rebocado por veículos leves ou transportado por via aérea, inclusive por helicópteros como o Agusta-Bell AB.47, ampliando sua utilidade em operações aerotransportadas e expedicionárias. Essa combinação de leveza estrutural, simplicidade mecânica e robustez construtiva resultava ainda em custos relativamente baixos de aquisição, operação e manutenção  fator decisivo para países com orçamentos militares limitados. Outro elemento central para seu êxito internacional foi a compatibilidade com a munição padrão OTAN M1 de 105 mm, assegurando interoperabilidade logística com os membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte. Essa padronização facilitava o emprego conjunto em exercícios e operações multinacionais, reforçando seu apelo no mercado externo. Ainda na década de 1950, a OTO Melara iniciou contratos de exportação que consolidaram a reputação do Mod 56 como solução eficiente para artilharia leve em ambientes geográficos complexos. Em 1959, o sistema participou de um processo competitivo promovido no âmbito da OTAN para a seleção de uma “arma de campo leve” padronizada. Frente a concorrentes de diferentes origens nacionais, o obuseiro italiano destacou-se por sua combinação singular de mobilidade, versatilidade e compatibilidade logística, sendo oficialmente adotado a partir de 1960.

O Mod 56 passou, gradualmente, a substituir peças consideradas obsoletas, como o canhão norte-americano M1 de 75 mm, em diversos exércitos europeus. Países como Alemanha, Reino Unido, Canadá e Bélgica incorporaram o sistema às suas forças terrestres. Particularmente relevante foi sua adoção pelo Exército Britânico, fato que marcou a primeira integração de um equipamento militar italiano às Forças Armadas do Reino Unido  um marco simbólico e industrial para a OTO Melara e para o setor de defesa italiano no pós-guerra. O obuseiro tornou-se ainda o equipamento padrão da artilharia do Allied Command Europe Mobile Force (AMF – Land), força multinacional de rápida mobilização da OTAN, equipada por contingentes do Canadá, Bélgica, Alemanha, Itália e Reino Unido até meados da década de 1970. Sua ampla difusão  alcançando mais de trinta países, entre eles Austrália, Argentina, Brasil, Chile e Índia  refletiu não apenas sua qualidade técnica, mas também sua adequação às necessidades de forças de infantaria leve, tropas aerotransportadas e regimentos de montanha. O batismo de fogo do Modelo 56 ocorreu durante a Emergência Malaia, conflito também conhecido como Guerra de Libertação Nacional Anti-Britânica. Nesse teatro operacional, caracterizado por selvas densas, terreno acidentado e operações de contrainsurgência, a mobilidade e a leveza do sistema mostraram-se particularmente valiosas, confirmando na prática as qualidades que haviam sustentado sua projeção internacional. Nesse conflito, o Exército Australiano e forças da Comunidade das Nações (Commonwealth) empregaram o obuseiro contra os combatentes comunistas do Exército de Libertação Nacional Malaio (MNLA). Sua mobilidade e capacidade de operar em terrenos difíceis foram cruciais em operações de contrainsurgência na selva malaia, consolidando sua eficácia em cenários de baixa iintensidade.  Posteriormente, durante a Emergência de Áden (1963–1967), conhecida como Revolta de Radfan, o Mod 56 foi utilizado pelo Exército Real Britânico, especificamente pelo 1º Regimento Leve de Artilharia Real a Cavalo e pelo 19º Regimento Leve. Nesse conflito, as forças britânicas enfrentaram a Frente de Libertação Nacional no Iêmen do Sul, um protetorado britânico, onde o obuseiro demonstrou sua utilidade em operações contra insurgentes em terrenos acidentados. O uso mais intenso do Mod 56 ocorreu nas primeiras fases da Guerra do Vietnã (1955–1975), onde foi empregado pelas forças armadas da Austrália e da Nova Zelândia. Nesse contexto de alto desgaste, no entanto, o obuseiro revelou limitações. Artilheiros relataram que o equipamento sofria desgaste significativo e quebras frequentes devido à montagem e desmontagem repetitiva, especialmente em operações contínuas. Como resultado, as forças optaram por transportá-lo em caminhões para distâncias maiores fora das zonas de combate, o que reduziu o estresse no equipamento, mas evidenciou sua inadequação para combates prolongados. Dois anos após seu emprego inicial no Vietnã, o Mod 56 foi substituído pelo obuseiro norte-americano M-101A1 de 105 mm, mais robusto e adequado para operações intensas. Na Comunidade das Nações (Commonwealth) , o Mod 56 era conhecido como “obuseiro do pacote L-5” com munição L-10. Apesar de sua popularidade, a combinação de alcance limitado e letalidade moderada de sua munição levou o Reino Unido a iniciar, em 1962, o desenvolvimento de um substituto, resultando no L-118 Light Gun de 105 mm, que entrou em serviço em 1974 e oferecia maior alcance e robustez. 
A adoção do Mod 56 ocorreu em um período de transição para a OTAN, quando os exércitos europeus buscavam modernizar seus arsenais após a Segunda Guerra Mundial.  A Guerra Fria exigia equipamentos versáteis e de rápida mobilização, e o Mod 56 atendia a essas demandas, especialmente para forças que operavam em terrenos difíceis ou em missões expedicionárias. Sua capacidade de ser aerotransportado e desmontado o tornava ideal para conflitos assimétricos, como os enfrentados na Malásia e em Áden, mas as demandas de conflitos de alta intensidade, como a Guerra do Vietnã, expuseram suas limitações estruturais. A OTO Melara, ciente dessas questões, continuou a aprimorar seus projetos, mas o Mod 56 permaneceu um marco em sua história, simbolizando a capacidade da empresa de responder às necessidades de seus clientes em um cenário global competitivo. Um dos usos mais significativos do Mod 56 ocorreu durante a Guerra das Malvinas (Falklands) em 1982, um conflito entre a Argentina e o Reino Unido pelo controle do arquipélago no Atlântico Sul. Nesse confronto, os 3º e 4º Grupos de Artilharia do Exército Argentino empregaram o Mod 56 contra as forças britânicas durante a ousada operação de retomada das ilhas. Apesar do alcance limitado de 10,5 km, a precisão e a mobilidade do obuseiro o tornaram uma arma eficaz em terrenos acidentados, contribuindo significativamente para as baixas sofridas pelos britânicos. O desempenho do Mod 56 nesse conflito destacou sua relevância em cenários de combate assimétrico, onde a capacidade de rápida mobilização e disparos precisos era crucial. Até o final de 1985, cerca de 3.000 unidades do Mod 56 foram produzidas pela OTO Melara, com a fabricação continuando sob licença pela estatal chinesa Norinco Group (North Industries Corporation) até o final do século XX. A produção licenciada ampliou o alcance global do obuseiro, que foi adotado por mais de 40 países, incluindo Itália, Austrália, Alemanha, Áustria, Argentina, Arábia Saudita, Bangladesh, Bélgica, Biafra, Burkina Faso, Botsuana, Brasil, Bósnia e Herzegovina, Canadá, China, Chipre, Croácia, Djibouti, Chile, Equador, Etiópia, Emirados Árabes Unidos, Sérvia e Montenegro, França, Gana, Grécia, Índia, Indonésia, Irã, Iraque, Iêmen, Iugoslávia, Kuwait, Quênia, Malásia, Marrocos, Macedônia, Nepal, Nova Zelândia, Nigéria, Paquistão, Peru, Portugal, Reino Unido, Filipinas, San Marino, Espanha, Somália, Sudão, Tailândia, Venezuela, Zâmbia e Zimbábue. Essa ampla adoção reflete o apelo universal do Mod 56, que se tornou um pilar da artilharia leve em nações com diversas necessidades operacionais. Mesmo décadas após sua introdução, o Mod 56 permanece em serviço em várias forças armadas ao redor do mundo, com previsão de continuar ativo até meados do século XXI. Sua longevidade é um testemunho de seu design funcional e adaptável, especialmente em forças com recursos limitados ou em terrenos desafiadores. Em janeiro de 2023, o governo francês cedeu dezenas de unidades do Oto Melara Modelo 56 às Forças Armadas da Ucrânia, como parte do apoio internacional no conflito contra a Rússia. Essa doação representou um reforço significativo para o esforço de guerra ucraniano, demonstrando a relevância contínua do obuseiro em cenários de combate modernos, onde sua mobilidade e facilidade de operação ainda são valorizadas.

Emprego no Exército Brasileiro.
Durante a Segunda Guerra Mundial, o Brasil redefiniu sua inserção estratégica no cenário internacional ao alinhar-se formalmente ao bloco aliado. Essa decisão representou não apenas um posicionamento político-diplomático, mas também um passo decisivo na modernização de suas Forças Armadas. Em 1941, o país tornou-se signatário do programa norte-americano Lend-Lease Act a chamada Lei de Arrendamentos e Empréstimos  instrumento concebido pelos Estados Unidos para prover material bélico às nações comprometidas com o enfrentamento das potências do Eixo. Até então, a artilharia de campanha do Exército Brasileiro encontrava-se em grande parte equipada com peças adquiridas nas primeiras décadas do século XX, de origem predominantemente francesa, alemã e britânica. Embora adequadas aos padrões de sua época, essas armas revelavam-se tecnologicamente superadas diante das exigências da guerra moderna, sobretudo no que se refere a alcance, mobilidade, padronização de munições e sistemas de pontaria. A adesão ao programa Lend-Lease proporcionou um salto qualitativo significativo. O Brasil passou a receber uma ampla variedade de equipamentos de artilharia, com calibres variando de 37 mm a 305 mm. Entre os sistemas mais relevantes destacaram-se os obuseiros M1 Howitzer de 105 mm e M2 Howitzer de 155 mm, que representaram um avanço técnico substancial em relação às peças então em serviço. Essas armas passaram a equipar as unidades de primeira linha, elevando a capacidade operacional do Exército Brasileiro e aproximando-o dos padrões organizacionais e doutrinários adotados pelos exércitos aliados. O verdadeiro teste dessa modernização ocorreu com o envio da Força Expedicionária Brasileira (FEB) para o teatro de operações europeu, no contexto da Campanha da Itália. A Artilharia Divisionária  foi organizada em quatro Grupos de Obuses, estruturados para proporcionar apoio de fogo contínuo e coordenado às tropas de infantaria. Três desses grupos operavam com doze obuseiros M2 de 105 mm cada, enquanto o IV Grupo estava equipado com doze obuseiros M1 de 155 mm. Essa organização refletia a doutrina de emprego de artilharia então vigente no Exército dos Estados Unidos (U.S. Army)  que desempenhou papel central no treinamento, na padronização logística e na assistência técnica às forças brasileiras. A campanha na Itália  marcada por combates em terrenos montanhosos, clima rigoroso e forte resistência alemã  constituiu um marco na consolidação doutrinária da artilharia nacional. Sob orientação de oficiais norte-americanos, os artilheiros brasileiros aperfeiçoaram procedimentos de coordenação de fogo, comunicações, observação avançada e manutenção, estabelecendo bases técnicas que influenciariam a evolução da artilharia brasileira nas décadas seguintes. O desempenho em ações como as batalhas de Monte Castelo e Montese evidenciou a eficácia dos obuseiros M1 e M2, cuja precisão, cadência de tiro e confiabilidade mecânica mostraram-se determinantes no apoio às operações terrestres. Mais do que um reforço material, tratou-se de uma experiência formadora, que inseriu definitivamente a artilharia brasileira no contexto da guerra moderna.

Na segunda metade da década de 1960, esse processo de fortalecimento foi aprofundado com a implementação do Acordo de Assistência Militar Brasil–Estados Unidos, firmado em 1952 no âmbito do Programa de Assistência Militar (MAP). Esse instrumento ampliou o acesso a equipamentos e recursos norte-americanos, resultando na incorporação adicional de obuseiros M2 e M2A1 de 105 mm, bem como M1 de 155 mm, destinados tanto ao Exército Brasileiro quanto ao Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil. Não obstante os avanços proporcionados pelos acordos de assistência militar com os Estados Unidos, a incorporação de sistemas de artilharia mais modernos pelo Exército Brasileiro permaneceu limitada ao longo das décadas de 1960 e 1970. Entre 1967 e 1968, foram recebidos apenas 19 obuseiros M102 AR de 105 mm  versão mais leve e tecnologicamente aprimorada da tradicional família de obuseiros de 105 mm, concebida para maior mobilidade tática e compatibilidade com transporte aéreo. Essas peças foram concentradas exclusivamente no 25º Grupo de Artilharia de Campanha (25º GAC), sediado em Bagé, no estado do Rio Grande do Sul. Tal concentração geográfica, embora fortalecesse a capacidade operacional daquela unidade, restringiu a disseminação de tecnologia mais recente no âmbito nacional, limitando a modernização estrutural da artilharia de campanha brasileira como um todo. Ao iniciar-se a década de 1980, tornava-se evidente para o Alto Comando da Força Terrestre a necessidade de renovação de seus meios de artilharia de 105 mm. Os obuseiros norte-americanos M101A1  designação posterior dos modelos M2 e M2A1  encontravam-se em serviço havia mais de quatro décadas. Embora mantivessem elevados índices de disponibilidade operacional, resultado de criteriosos programas de manutenção e de sucessivas atualizações técnicas, tratava-se de sistemas concebidos sob parâmetros tecnológicos da Segunda Guerra Mundial. Cabe destacar que a produção nacional de componentes críticos havia assegurado determinado grau de autonomia logística, elemento relevante em termos estratégicos. Ainda assim, tornava-se progressivamente claro que tais sistemas não mais atendiam às exigências de mobilidade, alcance e amplitude de setor de tiro impostas pelo campo de batalha contemporâneo, cada vez mais dinâmico e orientado por doutrinas de emprego que privilegiavam rapidez de deslocamento e flexibilidade tática. Diante desse cenário, o comando do Exército Brasileiro iniciou estudos visando à aquisição de um novo obuseiro de campanha de 105 mm, com previsão inicial de até cinquenta unidades. O objetivo era substituir gradualmente as peças mais desgastadas dos obuseiros M2 AR 105 mm (M101), bem como reforçar o inventário dos Grupos de Artilharia de Campanha Leve, das unidades de Artilharia Paraquedista e das Brigadas de Infantaria. No início de 1985, avançaram as negociações para a aquisição de quarenta obuseiros britânicos L118 Light Gun, cuja incorporação representaria significativo incremento à artilharia de campanha nacional, especialmente em termos de mobilidade e alcance. Todavia, permanecia em aberto a necessidade de substituição dos antigos obuseiros leves M1 Pack Howitzer de 75 mm, em serviço desde o início da década de 1940 e já claramente obsoletos.
Àquela altura, restavam poucas peças desse modelo em operação, empregadas predominantemente em atividades de instrução e em tiros de salva cerimonial, notadamente junto ao Curso de Formação de Reservistas de 2ª Categoria do Colégio Militar de Porto Alegre. Sua permanência em serviço tinha mais caráter histórico e pedagógico do que operacional. Nesse contexto, foram analisadas diversas alternativas internacionais de obuseiros leves, avaliadas sob critérios técnicos e econômicos. A escolha recaiu sobre o OTO Melara Mod 56, sistema de origem italiana que reunia atributos de elevada mobilidade, simplicidade de manutenção e comprovado desempenho em combate. Além de apresentar uma relação custo-benefício considerada favorável, o modelo havia obtido expressiva projeção internacional após seu emprego na Guerra das Malvinas, conflito no qual demonstrou robustez e eficácia em terreno acidentado e sob condições operacionais exigentes.  Nesse quadro, o Ministério do Exército estabeleceu negociações com a OTO Melara S.p.A., tradicional empresa italiana fundada em 1905 e amplamente reconhecida por sua experiência no desenvolvimento de sistemas de artilharia. As tratativas resultaram, ao final de 1982, na aquisição de 92 obuseiros novos de fábrica do modelo OTO Melara Mod 56, que receberam, no Brasil, a designação de Obuseiro M-56 AR 105 mm. As primeiras unidades começaram a ser entregues a partir de meados de 1983, representando um avanço significativo na capacidade operacional da artilharia leve nacional. A escolha do Mod 56 atendeu a uma necessidade objetiva: dotar unidades especializadas com um sistema leve, desmontável, de elevada mobilidade e compatível com munições padronizadas no âmbito da Organização do Tratado do Atlântico Norte. Essas características tornavam o obuseiro particularmente adequado para operações em ambientes diversos, como regiões de selva, áreas montanhosas e missões aeromóveis, nas quais a rapidez de desdobramento e a flexibilidade logística são fatores determinantes. Além dos aspectos técnicos, a aquisição também refletiu a consolidação de uma aproximação estratégica entre Brasil e Itália no campo da cooperação militar e industrial. O processo de introdução do novo sistema foi conduzido com rigor institucional. As primeiras peças foram destinadas à Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), onde se desenvolveu a base doutrinária para sua operação. Nesse âmbito, foi elaborado o Manual de Campanha “Serviço da Peça do Obuseiro M-56”, documento fundamental para a padronização de procedimentos, além da incorporação do sistema ao currículo do Curso de Material Bélico, assegurando a formação técnica adequada dos futuros oficiais. Concluída essa etapa inicial de assimilação doutrinária e capacitação técnica, os obuseiros foram distribuídos a unidades estratégicas do Exército Brasileiro, entre as quais o 2º Grupo de Artilharia de Campanha Leve, o 8º Grupo de Artilharia de Campanha Paraquedista, o 10º Grupo de Artilharia de Campanha de Selva, o 20º Grupo de Artilharia de Campanha Leve – Aeromóvel, o 26º Grupo de Artilharia de Campanha e o 32º Grupo de Artilharia de Campanha. Em cada uma dessas organizações, as baterias passaram a contar, em regra, com quatro obuseiros M-56, normalmente tracionados por viaturas Mercedes-Benz LAK 1418 VTNE, solução que garantia adequada mobilidade terrestre.

A incorporação do OTO Melara Mod 56 ao inventário do Exército Brasileiro representou significativo incremento na capacidade de apoio de fogo das unidades de artilharia leve, particularmente daquelas vocacionadas a operações de emprego imediato e projeção estratégica. Sua adoção inseriu-se em um processo mais amplo de atualização doutrinária ocorrido nas últimas décadas do século XX, período em que mobilidade, flexibilidade logística e rapidez de desdobramento passaram a constituir requisitos centrais do planejamento militar. Nesse sentido, o sistema não apenas substituiu meios já obsoletos, mas consolidou uma nova etapa evolutiva da artilharia leve nacional. O maior destaque operacional coube ao 8º Grupo de Artilharia de Campanha Paraquedista (8º GAC Pqdt), que estruturou três baterias equipadas com o Mod 56. Integrado à Brigada Aeromóvel, esse grupo passou a dispor de uma capacidade ampliada de pronta-resposta, podendo ser lançado por aeronaves de transporte da Força Aérea Brasileira, como o De Havilland Canada DHC-5 Buffalo e o Lockheed C-130 Hercules. A leveza do sistema  aproximadamente 1.290 kg  aliada à possibilidade de desmontagem em até doze cargas, permitia seu transporte aéreo e posterior montagem em curto intervalo de tempo, atributo essencial em operações aerotransportadas e missões de rápida intervenção. Do ponto de vista logístico, o Obuseiro M-56 AR 105 mm destacou-se por sua simplicidade construtiva e facilidade de operação. A compatibilidade com munições nacionais produzidas pela Indústria de Material Bélico do Brasil (IMBEL), idênticas às empregadas pelos obuseiros M101 AR e pelos autopropulsados M108 AP, assegurava racionalização do abastecimento e economia de escala, além de simplificar os processos de manutenção e armazenamento. Entretanto, seu alcance máximo  cerca de 10,2 quilômetros impunha limitações em cenários de combate convencional de maior profundidade. Essa restrição, contudo, era mitigada em operações especializadas, notadamente em ambientes de selva ou áreas de difícil acesso, onde a mobilidade e a adaptabilidade do sistema prevaleciam sobre a necessidade de maior alcance balístico. Na década de 2000, o Exército Brasileiro iniciou experimentações doutrinárias relacionadas à chamada “Marcha para o Combate Fluvial em Ambiente de Selva”, tendo o 10º Grupo de Artilharia de Campanha de Selva assumido protagonismo nesse processo a partir de 2006. Inserido na realidade operacional da Amazônia, o Mod 56 foi submetido a testes em condições logísticas particularmente desafiadoras. Sua capacidade de desmontagem possibilitou o transporte em fardos individuais, inclusive por meio de animais de carga  como búfalos, bem adaptados ao terreno pantanoso e irregular da região , seja conduzindo as peças desmontadas em cangalhas, seja tracionando o obuseiro montado. Além do transporte terrestre, o sistema mostrou-se compatível com deslocamentos fluviais, sendo embarcado em meios navais como embarcações patrulha e balsas logísticas, bem como helitransportado quando necessário. Essa multiplicidade de vetores de mobilidade permitia sua rápida instalação em praias fluviais para execução de tiros reais, assegurando apoio de fogo contínuo em áreas onde os cursos d’água constituem os principais eixos de deslocamento. A experimentação em ambiente amazônico confirmou, assim, a elevada flexibilidade do Mod 56, evidenciando sua adequação a operações fluviais e ribeirinhas. 
A possibilidade de desmontagem e transporte por diferentes meios reforçou sua eficácia em um teatro operacional no qual as limitações impostas pela geografia exigem soluções logísticas criativas e adaptáveis. Dessa forma, o obuseiro italiano consolidou-se como instrumento coerente com as especificidades estratégicas brasileiras, especialmente no que concerne à defesa e à presença militar na região amazônica. O obuseiro OTO Melara M-56 AR 105 mm, incorporado ao Exército Brasileiro a partir de 1983, desempenhou um papel central na artilharia de campanha por décadas. Contudo, o uso contínuo ao longo dos anos resultou em significativo desgaste de suas peças, comprometendo sua operacionalidade. No final da década de 2010, tornou-se evidente a necessidade de um programa abrangente de revitalização para garantir a continuidade de sua eficácia e prolongar sua vida útil. Essa iniciativa refletiu o compromisso do Exército Brasileiro em manter sua capacidade operacional, especialmente em unidades especializadas, como as de artilharia de selva e aeromóveis. A revitalização também se alinhava aos esforços de modernização das Forças Armadas, iniciados durante a Segunda Guerra Mundial com o Leand & Lease Bill Act e continuados por acordos de assistência militar com os Estados Unidos e parcerias com fabricantes internacionais, como a OTO Melara S.p.A. O programa de revitalização foi conduzido pelo Arsenal de Guerra de São Paulo (AGSP) em colaboração com a Diretoria de Material (D Mat), subordinada ao Comando Logístico (COLOG). O projeto focou na recuperação de todos os componentes críticos do Mod 56, com ênfase na nacionalização de 80% de suas peças, reduzindo a dependência de fornecedores estrangeiros e fortalecendo a autonomia logística do Exército. Além disso, foi instalado um novo aparelho de pontaria (luneta), aprimorando a precisão e a eficiência do obuseiro. O processo incluiu a elaboração de materiais técnicos detalhados para manutenção de primeiro e segundo escalões, abrangendo procedimentos de desmontagem, montagem, limpeza e lubrificação. Esses manuais foram desenvolvidos para capacitar os Batalhões Logísticos que apoiam os Grupos de Artilharia, aumentando a disponibilidade operacional do armamento e facilitando sua manutenção em campo. Essa abordagem reforçou a prontidão das unidades equipadas com o Mod 56, garantindo maior eficiência em operações. Entre 5 e 7 de julho de 2017, a Diretoria de Material promoveu uma cerimônia no 1º Grupo de Artilharia de Campanha de Selva, em Boa Vista, Roraima, para marcar a entrega técnica dos três primeiros obuseiros OTO Melara M-56 revitalizados pelo AGSP. Ao todo, o programa envolveu a recuperação de 63 unidades, assegurando a extensão de sua vida útil até a implementação do Subprograma Sistema de Artilharia de Campanha (SPrg SAC), parte do Programa Estratégico do Exército Obtenção da Capacidade Operacional Plena (Prg EE OCOP). O SPrg SAC prevê, como uma das opções, a substituição futura do Mod 56 pelos obuseiros norte-americanos M-119A2 de 105 mm, que oferecem maior alcance e modernidade. Essa possibilidade reflete o planejamento estratégico do Exército para manter sua artilharia alinhada às demandas contemporâneas, enquanto a revitalização do Mod 56 garante a continuidade operacional no curto e médio prazos.

Em Escala.
Uma representação notável do obuseiro leve OTO Melara M-56 L/14 105 mm é oferecida pelo kit em resina impresso em 3D, na escala 1/35, desenvolvido pelo militar e modelista Marcelo Pestana Miniaturas. Esse modelo é amplamente reconhecido por sua qualidade excepcional, combinando facilidade de montagem com um alto nível de detalhamento.  Para representar a versão do Obuseiro M-56 utilizada pelo Exército Brasileiro, o kit não exige modificações adicionais, sendo possível montá-lo diretamente a partir da caixa.
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o primeiro padrão de pintura aplicado nos obuseiros Oto Melara M-56 AR 105 mm, quando de seu recebimento em 1983. Estas peças passaram a ostentar um padrão de pintura total em verde oliva após a implementação do processo de revitalização realizado no pelo Arsenal de Guerra de São Paulo (AGSP). 
Bibliografia: 
- L118 Light Gun 105 mm - https://www.no-regime.com/ru-pt/wiki/L118_light_gun
- O emprego do obuseiro M56 na marcha de combate fluvial - http://ebrevistas.eb.mil.br/REB/article/view/9082/7837
- Revitalização de obuseiros de 105 mm M56 Oto Melara- https://www.forte.jor.br/ 
- Sistema Gênesis GEN-3004 - https://www.imbel.gov.br/index.php/comunicacoes-eletronica-e-sistemas 
- Obuseiro M119A2 para o Brasil? - https://tecnodefesa.com.br/obuseiro-m119a2-para-o-brasil/
- Recuperação de obuseiros de 105mm - Paulo Roberto Bastos Jr. www.tecnodefesa.com.br