Caminhões URAL no Brasil

História e Desenvolvimento.
A gênese desta exitosa família de caminhões militares russos, teve suas demandas originadas involuntariamente desde 1933, quando se iniciaram por parte dos líderes alemães, os planejamentos para uma possível invasão a União Soviética, o que realmente ocorreria em 22 de junho de 1941 com o lançamento da Operação Barbarossa. O governo soviético foi pego complemente de surpresa e despreparado em termos de armas e equipamentos, pois estava em vigência o “Pacto de Não Agressão” firmado entre estes países.  Mesmo assim cerca de três milhões de soldados alemães divididos em 134 divisões com força de combate total e mais 73 divisões de reserva marcharam para o leste. O conceito primordial da ideologia política do movimento nazista, desde o início da década de 1920, estava baseado na destruição da União Soviética pela força militar, levando assim a eliminação permanente da ameaça comunista à Alemanha. E neste contexto a conquista de território era considerada de suma importância aos objetivos nazistas de assentamento para a população ariana a longo prazo. Cientes da ameaça que as forças armadas soviéticas poderiam representar se não fossem esmagadas rapidamente, mais uma vez as forças alemãs fizeram uso das táticas blitzkrieg, combinado alta mobilidade em campo com apoio aéreo aproximado com bombardeiros as linhas de defesa e parque fabril inimigo. Apesar das perdas catastróficas sofridas nas primeiras seis semanas da invasão, a União Soviética não foi derrotada, levando a um penoso embate de resistência nos próximos meses, gerando perdas consideráveis também ao lado alemão. Neste momento o lento, porém significativo avanço inimigo ocasiona também a total destruição do parque industrial soviético, o que comprometeria a médio prazo as chances de resistência as forças alemãs. 

Um novo modelo, o caminhão militar com tração 6X6, agora designado como  Ural ZIS-355, foi lançado em 1956 atingindo uma grande produção, no entanto, em 1958, a nova versão do Ural ZIS-5 foi disponibilizada para entregas ao Cazaquistão e permaneceu assim em produção até 16 de outubro de 1963 empregando motores italianos Fiat AMO-3. O instituto científico de padronização automotiva de Moscou, estava trabalhando em um novo caminhão com tração 6X6 militar. A produção deste tipo de veículo foi atribuída à fábrica Uralskiy Avtomobilnyi Zavod, planta esta reconstruída em 1961, para a produção do modelo Ural-375 6x6 5 toneladas, tendo sua capacidade potencializada para o atendimento das demandas do exército soviético. Para este caminhão, um novo motor nacional seria desenvolvido. A partir desta década a Ural expandia rapidamente sua produção com os novos modelos denominados como Ural - 375, Ural - 375H e Ural - 377H, que contavam com um novo e eficiente motor a diesel V8 diesel KamAZ. Encomendas destinadas ao Exército, Marinha e Aeronáutica Soviética, que em conjunto com demandas das forças militares dos demais países pertencentes ao Pacto de Varsóvia, levariam a empresa a atingir o impressionante número de 530 mil caminhões militares entregues e 1,3 milhão de motores automotivos produzidos. Em 1972 e 1975 mais dois modelos seriam lançados o Ural-375H e Ural-377H, agora com tração 6X4 sendo destinados principalmente para emprego junto a marinha e aeronáutica, permanecendo em produção continuada pelo menos até o final do ano de 1983.
Estava claro ao governo e comando militar soviético, que seria possível resistir por mais tempo ao avanço inimigo, porém uma estratégia de médio e longo prazo deveria ser estabelecida para proporcionar sobrevivência da União Soviética como nação. E um dos pilares desta estratégia se baseava na continuidade da produção industrial militar. Cientes que a aviação alemã não dispunha de bombardeiros estratégicos de longo alcance, decidiu-se transferir todo o parque fabril soviético para as áreas mais afastadas, ficando assim fora do alcance dos bombardeiros inimigos. Assim no outono de 1941 entre tantas fábricas seria estabelecida a primeira unidade industrial da empresa estatal ZIS Likhachov Plant foi estabelecida na cidade de Miass na região de Oblast de Chelyabinsk, nos Urais. Durante os primeiros dois anos de funcionamento está planta industrial esteve focada produção na motores automotivos e caixas de engrenagens para carros de combate, tendo em vista que neste estágio a demanda principal por caminhões de transporte do Exército Vermelho, estava sendo suprida pelos fornecimentos aos milhares de caminhões americanos Studebaker US6 e GMC CCKW entregues nos termos do acordo de empréstimos e arrendamentos (Leand & Lease Act Bill). Com a visão de se reduzir a dependência futura de caminhões importados, decidiu se pelo desenvolvimento e produção de modelos nacionais de veículos, ficando a cargo da Likhachov Plant este projeto. Assim em 8 de julho de 1944 saia das linhas de produção o primeiro caminhão ZIS-5 V 6X6, levando a marca UralZIS, a aceitação do modelo junto aos militares soviéticos nos períodos finais do conflito foi positiva e o modelo se manteve em uso por décadas seguidas. A partir de 1946 um novo modelo de 2,5 toneladas seria lançado o UralZIS-352, nesta mesma década variantes aperfeiçoadas e especializadas foram produzidas em larga escala.

No ano de 1977 seria lançado o Ural-4320 com tração 6X6 e capacidade de até 5 toneladas, recebendo um novo motor a gasolina, essa versão viria a substituir os caminhões das famílias Ural 375 e Ural 740. A necessidade de se adotar um motor a diesel mais eficiente, levaria a empresa a empregar motores norte-americanos produzidos pela Caterpillar Co., criando assim em 1981 o Ural-5920, esta solução, no entanto seria temporária, pois logo em 1983 este motor seria substituído pelo novo KAMAZ-740 V8 á diesel, com capacidade de 10,85 litros que gerava uma potencia máxima de 210 CV. Este novo conjunto de veiculo e motor seria a base para o desenvolvimento de versões com tração 6X6, 6X4 e 4X4, que seriam empregadas em plataformas múltiplas como carro comando, transporte de tropas, basculante, oficina, comunicações, reboque entre outros. Detentor de robustez e simplicidade de operação e manutenção, este se tornaria o modelo de caminhão militar padrão empregado pelas forças militares dos países pertencentes ao Pacto de Varsóvia, sendo amplamente exportado para países na África e na Ásia e América do Sul. Em 1987, a UralAZ celebrou seu milionésimo caminhão produzido. A reorganização da indústria governamental e as reformas econômicas obrigaram a companhia a tornar-se uma sociedade de responsabilidade limitada, lhe permitindo também ingressar no mercado civil com novos modelos como o Ural - 43204 e Ural - 55571.  A abertura econômica proporcionada pela dissolução da União Soviética em 1991, possibilitou a UralAZ o estabelecimento de parcerias mais solidas no mercado internacional, como a estabelecida com a empresa italiana IVECO S.p.A no ano de 1992. Deste importante acordo surgiria o modelo Iveco UralAZ 330-30ANW com tração 6X6, o que se tornaria um importante produto da companhia no mercado internacional civil e militar.
A partir de junho de 1992, toda a linha de produtos da companhia e principalmente o modelo Ural - 4322 6X6 6 toneladas, passaram a receber uma nova cabine com desing mais contemporâneo. Neste período o principal grupo motopropulsor a equipar esta família, passou a ser o Ural-744 V8 com 234 HP de potência, sendo complementado pelos motores a diesel Kustanay (KDZ), fabricados sob licença da empresa alemã Deutz Aktiengesellschaft. Na primavera de 1993, um incêndio de grandes proporções atingiria seriamente as instalações da planta de motores da KamAZ ПАО, que levaria a interrupção da produção. Levando a agora denominada internacionalmente como Urals Automotive Plant, a prospectar novos fornecedores de motores não só na Russia mas também na Europa e Estados Unidos. Como todos os fabricantes de veículos militares russos, a empresa mantém em seu portfólio uma ampla gama de veículos militares off-road que podem ser comercializados em diversas versões de carroceria e aplicações. Além dos modelos com tração tradicional como o Ural- 4320-6 4X4 e Ural 4320-31  6X6, a Urals Automotive oferece ainda exclusivamente para o mercado militar  o modelo Ural-5323 de 9 toneladas com tração integral 8X8.

Emprego nas Forças Armadas Brasileiras.
A efêmera História do emprego de caminhões russos nas Forças Armadas Brasileiras da família Ural 4320 (375) com tração 4X4 e 6X6, tem origem em um processo de apreensão realizado no porto de Santos (SP) entre os anos de 1999 e 2001 pela Receita Federal. Por serem oriundos de uma importação irregular efetuada por uma empresa paulista, foram apreendidos e confiscados e armazenados em um dos seus depósitos, e após infrutíferas tentativas de regularização junto aos interessados originais, foram enfim repassados ao Exército Brasileiro e a Força Aérea Brasileira. Estima-se que doze veículos foram envolvidos neste processo, com três destes na versão basculante com caçamba, inicialmente sendo concentrados junto ao 22° Batalhão Logístico (22º Blog) na cidade de Barueri – SP, nesta unidade após avaliações e um curto emprego operacional, foram classificados como material inservível para a Força Terrestre, sendo leiloados no inicio do ano de 2004. Os remanescentes destes foram concentrados na cidade de Pirassununga no estado de São Paulo, sendo distribuídos ao Exército Brasileiro para uso junto ao 13° Regimento de Cavalaria Mecanizada (13.º RCMec) e Força Aérea Brasileira sendo destinados a Fazenda da Aeronáutica. Através dados extra oficiais é possível citar que pelo menos dois caminhões da versão 6x6 transporte de tropas e dois basculantes (na nomenclatura da fábrica este modelo é o URAL 4320-31) e os demais 4x4 transporte de tropas, com pelo menos dois tipos de pneus (nomenclatura da fábrica URAL 43206). Estes veículos estavam equipados com motores a diesel YaMZ-238M2 com 8 ou 6 cilindros dispostos e V, grupo propulsor que substituiria anteriormente as tradicionais versões a gasolina produzidas em massa durante a década de 1960. 

Seu emprego operacional junto ao 13° Regimento de Cavalaria Mecanizada (13.º RCMec), veio a trazer impressões positivas junto aos oficiais desta unidade, impressionando pela rusticidade, tamanho e desempenho em terrenos acidentados. Sua configuração toda “mecânica” apresentava facilidades para o uso cotidiano, chegando a superar em termos de desempenho em muito os caminhões militarizados produzidos pela Mercedes Benz do Brasil e Volkswagen do Brasil. Como características de referências, estes veículos apresentavam grande capacidade de carga e de operação em terrenos de difícil locomoção, podendo operar em ambientes com faixas de temperatura de - 50 até + 50º Celsius. Estes fatores explicam o fato de que cada vez mais as forças militares latino-americano tem dado atenção aos veículos russos, com este mercado passando ser promissão para o fabricante russo, tendo em vista que só o Exército do Uruguai opera atualmente 400 deles, além do México que em 2003 adquiriu 50, é possível ver ainda versões mais antigas operando no Peru e em outros países da região. Os três caminhões repassados a Força Aérea Brasileira ainda se mantem em uso operacional em sua fazenda também na cidade de Pirassununga, com dois destes com tração 4X4 e um com tração 6X6, com este sendo customizado localmente, com este processo envolvendo a retirada da carroceria de metal, recebendo em seu lugar um dispositivo que o permite tracionar uma carreta graneleira na ordem de 40 toneladas, tendo inclusive já rebocado até 60 toneladas de soja e milho. Por fim este processo ainda abrangeu a aplicação do padrão pintura todo em azul pertinente aos veículos utilitários da Força Aérea Brasileira.
Dos dois caminhões restantes com tração 4X4 pertencentes a  Força Aérea Brasileira, um foi transformado em transporte de suínos e bovinos para o abate, recebendo uma grande gaiola sobre a carroceria, com uma porta traseira por onde entram e saem os animais e foi mantido na cor verde claro original, estando o outro na forma original recebida, pintura areia claro. Já os veículos destinados ao Exército Brasileiro receberam o esquema de camuflagem tática em dois tons de verde e marrom, recebendo as marcações seriais e o escudo do Exército na porta. Operando em conjunto com os carros de combate Leopard 1A1 do então 2º Regimento de Carros de Combate (2º R.C.C), os caminhões Ural 4320 provaram sua vocação para operação em terrenos desfavoráveis, superando com facilidade todos os desníveis do terreno e em alguns momentos criando seu próprio caminho, apresentando grande robustez, transpondo com facilidade obstáculos que representariam grande dificuldade para os demais caminhões militarizados brasileiros. A exemplo do procedimento realizado pela Força Aérea Brasileira, um dos caminhões com tração 6X6 do Exército Brasileiro também seria convertido para a versão de cavalo mecânico para o transporte rodoviário de veículos blindados pertencentes ao 13° Regimento de Cavalaria Mecanizada (13.º RCMec), outro receberia também uma carroceria padrão militar destinada a atividades de oficina, recebendo o nome de batismo de “Brucutu”.

Apesar dos pontos positivos de operação junto ao 13° Regimento de Cavalaria Mecanizada (13.º RCMec), a baixa quantidade de veículos em operação e as consequentes dificuldades na obtenção de peças de reposiçao, levariam o comando do Exército Brasileiro a optar pela “canibalização” para poder assim manter alguns caminhões ainda operacionais, com esta açao mais notadamente focada em componentes mecânicos básicos, que infelizmente não eram compatíveis com nada existente no mercado automotivo nacional. Este cenário levaria a desativação total da frota da Força Terrestre no inicio do ano de 2018, sendo alienados para venda como sucata, permanecendo em serviço apenas os caminhões a serviço da Força Aérea Brasileiro. Além do Exército Brasileiro e da Força Aérea Brasileira, os caminhões russos produzidos pela Urals Automotive Plant seriam empregados também pelo governo do estado do Maranhão, sendo estes veículos também oriundos de um processo de apreensão pela Receita Federal, fruto de um caso de importação ilegal. Este processo se daria no inicio da década de 1990, com os caminhões sendo recebidos no porto de Itaqui na cidade de São Luiz – MA. Registros de época indicam um lote de quinze caminhões configurados na URAL 4320  6X6, versão posto de comando, dotados com um grande baú com uma mesa central com várias gavetas e nos laterais assentos, todos fabricados no ano de 1989. O curioso é que eles vieram equipados com reboques de estação de tratamento de água e alguns com um gerador diesel, responsável pelo fornecimento de energia elétrica. Tais reboques parecem pertencer a uma versão civil, visto que não constam como equipamentos militares disponíveis para a venda nos catálogos militares russos (Russian Army’s 2002).
Após findadas todas as alternativas de legalização deste processo de importação, estes caminhões armazenados no pátio da Receita Federal, foram doados ao governo do Estado do Maranhão, que por sua vez os repassou a da Polícia Militar do Maranhão. Destes apenas quatro seriam postos em serviço ativo, recebendo um padrão de pintura em preto e amarelo e marcações da policia estadual. Aparentemente estes caminhões ficaram em operação por um curto período de tempo, sendo posteriormente retirados da ativa e armazenados em céu aberto em um depósito juntamente com os demais caminhões Ural 4320 6X6 e seus respectivos reboques, e lá ficaram deteriorando ao longo dos anos seguintes. Este cenario perduraria até que através de um leilão autorizado pela Secretaria de Planejamento, Orçamento e Gestão – SEPLAN, pela Comissão Central de Licitação – CCL, foi então autorizado ao Leiloeiro Público Oficial do Estado em edital publicado em 19 de maio de 2005 a venda destes caminhões e reboques, bem como outros veículos e equipamentos, conforme consta do edital 001/2005-CCL. O valor mínimo para cada caminhão foi de R$5.800,00 e reboque R$450,00. Destes alguns seriam adquiridos por entusiastas para restauro.

Em Escala.
Para representarmos o Ural 4320 6X6 em serviço no Exército Brasileiro “EB-34234451”, fizemos uso do excelente kit da Trumpeter na escala 1/35 que nos brinda com muito detalhamentos em photo etched. Para se representar a versão empregada junto ao 13° Regimento de Cavalaria Mecanizada (13.º RCMec), deve se proceder como alteração apenas o sistema de respiro do filtro de ar, configurando esta peça básica em scratch build. Empregamos decais confeccionados Eletric Products pertencentes ao set  "Exército Brasileiro  1983 - 2003".
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura tático aplicado em todos os veículos do Exército Brasileiro a partir de meados da década de 1980, mantendo o mesmo esquema até sua retirada do serviço ativo em 2018. Os três veículos em uso pela Força Aérea Brasileira a exemplo do citado anteriormente receberam três padrões distintos de pintura.

Bibliografia : 
- Ural Automotive Plant ,Wikipedia -  https://en.wikipedia.org/wiki/Ural_Automotive_Plant 
- Caminhões Russos no Brasil -  http://blogdocaminhoneiro.com
- Caminhões Russos no EB e FAB - Expedito Carlos Stephani Bastos
- Ural 4320, Wikipedia.wikipedia.org/wiki/%D0%A3%D1%80%D0%B0%D0%BB-4320