M-1 Pack Howitzer (75 mm)

História e Desenvolvimento.
Após o término da Primeira Guerra Mundial, o comando do Exército dos Estados Unidos (U.S Army) deparou-se com uma constatação incontornável: sua artilharia de campanha permanecia fortemente dependente de modelos europeus, especialmente franceses e britânicos, como o canhão M1897 de 75 mm. Embora essas peças tivessem desempenhado papel relevante no conflito, a experiência adquirida nos campos de batalha da Europa evidenciou a necessidade de um programa de modernização que contemplasse maior mobilidade, potência de fogo e flexibilidade operacional. Nesse contexto, foi instituído, em 1919, o chamado Westervelt Board, comissão estratégica presidida pelo General de Brigada William I. Westervelt. O grupo recebeu a missão de analisar as lições aprendidas durante a guerra e propor diretrizes para a reorganização e o reequipamento da artilharia norte-americana. Tratava-se de uma iniciativa ambiciosa, voltada não apenas à substituição de equipamentos, mas à redefinição doutrinária do emprego da artilharia em conflitos futuros. Entre as recomendações mais significativas estava o desenvolvimento de um obuseiro leve de 75 mm que reunisse características até então consideradas difíceis de conciliar: alcance mínimo de aproximadamente 10.000 metros, capacidade de disparar projéteis de cerca de 6,8 kg e, sobretudo, possibilidade de desmontagem em cargas transportáveis por mulas. Tal exigência refletia a preocupação com operações em terrenos montanhosos, regiões selváticas ou áreas onde a motorização ainda era limitada. O conselho chegou inclusive a considerar meios de transporte não convencionais, como aeronaves  uma visão que antecipava as futuras operações aerotransportadas e a crescente importância da mobilidade estratégica. O desenvolvimento do que viria a ser o M1 Pack Howitzer teve início em 1920. A primeira versão submetida a testes naquele ano, contudo, foi rejeitada por não atender plenamente aos requisitos de peso e mobilidade estipulados. Após ajustes e aperfeiçoamentos técnicos, um novo projeto foi apresentado em 1922, culminando na padronização oficial, em agosto de 1927, do “Howitzer, Pack, 75 mm M1 on Carriage M1”. O protótipo inicial foi rapidamente concluído e encaminhado para ensaios de campo no ano seguinte, cujos resultados mostraram-se promissores e confirmaram a viabilidade do conceito.   Tratava-se de uma peça pensada não apenas para acompanhar a infantaria em terrenos difíceis, mas para operar onde a artilharia convencional simplesmente não poderia chegar. Com peso aproximado de 653 kg em ordem de combate, o obuseiro podia ser desmontado em seis a nove cargas, conforme a configuração adotada. Cada conjunto variava entre 73 e 107 kg, abrangendo o tubo, o mecanismo de culatra, o reparo, a base de tiro e as rodas. Essa característica permitia seu transporte por mulas  essencial para operações em regiões montanhosas ou de difícil acesso , por lançamento aéreo em paraquedas ou, em situações emergenciais, por equipes de artilheiros devidamente treinados. A desmontagem modular representava, portanto, uma solução prática para os desafios logísticos que marcariam os conflitos da primeira metade do século XX.

Do ponto de vista técnico, o M1 empregava um sistema de recuo hidropneumático instalado sob o tubo, solução que absorvia parte significativa da energia do disparo e contribuía para a estabilidade da peça. O mecanismo de culatra, do tipo cunha deslizante horizontal e operado manualmente, favorecia a simplicidade construtiva e a rapidez na montagem e desmontagem  atributos essenciais para unidades móveis e aerotransportadas. O reparo original, designado M1 Carriage, possuía rodas de madeira e destinava-se principalmente à tração animal ou ao reboque em baixa velocidade. Contudo, à medida que a doutrina militar evoluía e a mobilidade estratégica ganhava importância especialmente com o desenvolvimento das forças aerotransportadas tornou-se evidente a necessidade de aperfeiçoamentos. Na década de 1930 foi introduzido o reparo M8 Carriage, equipado com rodas metálicas e pneus pneumáticos, o que reduziu o peso total do conjunto e possibilitou o reboque por veículos leves, como o jipe de ¼ de tonelada. Essa configuração também facilitava o transporte aéreo em aeronaves como o Douglas C-47 Skytrain e em planadores do tipo Waco CG-4. O reparo M8 tornou-se padrão nas unidades aerotransportadas. Nessa configuração, o obuseiro podia ser desmontado em nove cargas para lançamento por paraquedas  incluindo munição  ou em sete cargas quando destinado ao transporte por mulas. Uma vez em solo, a peça podia ser rapidamente montada e colocada em posição de tiro, característica que ampliava significativamente a capacidade de apoio de fogo em operações aeromóveis. Em serviço, uma guarnição de seis artilheiros bem treinados era capaz de alcançar uma cadência de três a seis disparos por minuto, mantendo precisão satisfatória para o apoio direto à infantaria. Como limitação inerente ao seu projeto, o tubo relativamente curto restringia o alcance máximo a aproximadamente 8,7 quilômetros, valor inferior ao de peças de campanha de maior porte. Ainda assim, seu desempenho atendia às necessidades para as quais fora concebido.  Entretanto, o avanço do programa foi abruptamente impactado pela crise econômica deflagrada em 1929 com a quebra da Bolsa de Valores de Nova York. A Grande Depressão impôs severas restrições orçamentárias ao setor militar, resultando no contingenciamento de recursos e no adiamento da produção em larga escala do novo obuseiro. O programa só seria retomado no início da década de 1930, ainda sob forte limitação financeira; até o começo de 1933, apenas 32 unidades haviam sido fabricadas. Este cenário perduraria, e  até meados de 1940, apenas 91 unidades haviam sido entregues às formações operativas do Exército dos Estados Unidos (U.S army), reflexo direto das limitações impostas pela crise econômica.  No entanto o panorama estratégico internacional alterou-se de forma profunda ao final da década de 1930. A escalada das tensões na Europa e no Pacífico, seguida pela eclosão da Segunda Guerra Mundial, impôs aos Estados Unidos a necessidade de rever rapidamente sua postura militar. Mesmo antes de sua entrada formal no conflito, o país já se mobilizava para suprir tanto suas próprias forças quanto as nações aliadas, especialmente as vésperas da  promulgação do Lend-Lease Act (Lei de Emprestimos e Arrendamentos), que autorizava o fornecimento de armamentos e suprimentos a países considerados vitais à defesa norte-americana. 
Nesse contexto de rearmamento acelerado, o M1  passou a ocupar posição de destaque.  A produção em larga escala foi iniciada em setembro de 1940, sob a liderança do Rock Island Arsenal, um dos mais tradicionais e importantes centros industriais do United States Army no campo da artilharia. Para atender à demanda crescente, outros fabricantes civis e militares foram incorporados ao esforço produtivo, assegurando a ampliação da capacidade industrial e a padronização das linhas de montagem. Esse modelo de mobilização industrial refletia a transição dos Estados Unidos para uma economia de guerra, caracterizada pela coordenação entre governo, forças armadas e setor privado.  No inicio de 1942, um versão aprimorada do obuseiro, a M1A1, foi introduzida com pequenas modificações no anel de culatra e no bloco de culatra, oferecendo maior confiabilidade, neste contexto passariam a ser distribuídas as unidades operativas do Exército dos Estados Unidos (U.S Army), principalmente as unidades de montanha e divisões de paraquedistas.  O batismo de fogo do M-1 75 mm Pack Howitzer ocorreu no contexto da entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, após o ataque a Pearl Harbor em dezembro de 1941. Sua estreia em combate foi registrada no Teatro do Pacífico, particularmente durante a Campanha das Ilhas Salomão em 1942, com destaque para a Batalha de Guadalcanal (agosto de 1942 – fevereiro de 1943). Operado pelos Fuzileiros Navais, o M-1 foi amplamente utilizado em operações em selva, onde sua portabilidade e facilidade de montagem foram cruciais para superar as dificuldades logísticas impostas pelo terreno. Na Batalha de Guadalcanal, o M-1 75 mm Pack Howitzer, apelidado de “Tiny Tim” pelos Fuzileiros Navais, provou sua eficácia contra posições fortificadas japonesas, como bunkers e ninhos de metralhadoras. Transportado por mulas ou desmontado para ser carregado por soldados em trilhas estreitas, o obuseiro ofereceu suporte de fogo preciso e contínuo, permitindo às tropas americanas neutralizar defesas inimigas em um ambiente hostil de selva tropical. Sua capacidade de ser rapidamente montado e operado por uma equipe de seis soldados, com uma cadência de três a seis disparos por minuto, garantiu flexibilidade tática em combates intensos.  Em 22 de janeiro de 1944, o obuseiro foi empregado de maneira significativa durante a Operação Shingle, o desembarque anfíbio aliado em Anzio, Itália, pelas unidades do 39º Regimento de Artilharia de Campo, do 504º Regimento de Infantaria de Paraquedistas e da 82ª Divisão Aerotransportada. Esta operação teve como objetivo abrir uma nova frente na Itália, contornando as fortificações alemãs da Linha Gustav e acelerando o avanço aliado em direção a Roma. O desembarque em Anzio, liderado pelo VI Corpo do V Exército dos Estados Unidos, envolveu forças americanas e britânicas, incluindo unidades de elite como a 82ª Divisão Aerotransportada. O terreno costeiro e pantanoso de Anzio, combinado com a resistência alemã, exigia armas que fossem móveis, fáceis de posicionar e capazes de fornecer suporte de fogo imediato. O 39º Regimento de Artilharia de Campo, parte do VI Corpo, utilizou o M-1 75 mm Pack Howitzer para fornecer apoio de fogo às tropas desembarcadas em Anzio. Transportado em cargas leves, o obuseiro foi rapidamente posicionado nas praias e áreas adjacentes, oferecendo disparos de alto explosivo (HE) contra posições alemãs fortificadas, como ninhos de metralhadoras e bunkers.

A partir de 1943, o obuseiro passou a assumir papel ainda mais relevante nos teatros de operações, com a adoção de uma variante designada M2 75 mm, foi adotada pelas unidades de artilharia divisional do Corpo de Fuzileiros Navais (U.S Marine Corps). Entre os fuzileiros navais, a peça recebeu o apelido de “Tiny Tim”, expressão que refletia, de forma quase afetuosa, seu porte compacto em contraste com sua efetividade em combate. Empregado em sucessivas operações anfíbias no Pacífico, o M1/M2 demonstrou notável utilidade em campanhas como as batalhas de Guadalcanal, Iwo Jima e Okinawa. Nessas frentes, caracterizadas por terrenos abruptos, selvas densas e sistemas defensivos profundamente entrincheirados, sua leveza e relativa facilidade de posicionamento permitiram apoiar de perto as tropas de assalto, neutralizando casamatas, ninhos de metralhadora e posições fortificadas japonesas. Todavia, à medida que as operações avançavam e as defesas inimigas tornavam-se mais robustas, evidenciou-se a necessidade de maior alcance e poder destrutivo. Entre 1944 e 1945, o Corpo de Fuzileiros Navais iniciou gradualmente a substituição do M1 por obuseiros de maior calibre, como os de 105 mm e 155 mm, adequados à destruição de fortificações mais pesadas e à condução de bombardeios preparatórios de maior intensidade. Paralelamente, no âmbito do exército a experiência acumulada nas primeiras operações aerotransportadas levou à revisão das tabelas de organização e equipamento. A partir de fevereiro de 1944, estabeleceu-se que cada divisão aerotransportada deveria dispor de três batalhões de artilharia, totalizando 36 obuseiros M1/M1A1 75 mm. Dois desses batalhões eram transportados em planadores Waco CG-4, enquanto o terceiro  um batalhão de artilharia de campo  lançava suas peças por paraquedas a partir de aeronaves Douglas C-47 Skytrain. Essa organização assegurava apoio de fogo imediato às tropas lançadas atrás das linhas inimigas, como ocorreu na Operation Shingle, em Anzio, e na Operation Overlord, na Normandia. Em determinadas circunstâncias, o M1 podia ser substituído pelo obuseiro M3 de 105 mm, opção que refletia a flexibilidade doutrinária e a constante adaptação às exigências táticas do campo de batalha. Nas divisões de montanha, como a 10th Divisao de Montanha do Exército dos Estados Unidos (U.S Army), o M1 revelou-se igualmente valioso. Cada divisão contava com três batalhões equipados com 12 peças, totalizando 36 obuseiros por grande unidade. Em terrenos acidentados, como os Apeninos italianos, a possibilidade de desmontagem e transporte por animais de carga permitiu que a artilharia acompanhasse a infantaria em áreas onde veículos motorizados eram impraticáveis. O mesmo princípio foi aplicado no Teatro do Pacífico, especialmente nas operações na Birmânia, onde trilhas estreitas e condições climáticas adversas impunham severas restrições logísticas. Nessas circunstâncias, mulas transportavam as peças desmontadas por percursos íngremes e irregulares, assegurando apoio de fogo contínuo a forças que operavam em ambientes extremos. Um dos usos mais singulares do M-1 75 mm Pack Howitzer ocorreu em abril de 1945, durante a Operação Tombola, na Itália. Uma única peça foi lançada de paraquedas para equipar o 2º Regimento Italiano do SAS (Serviço Aéreo Especial), uma unidade heterogênea composta por partisans italianos, ex-prisioneiros de guerra russos e desertores do Exército Alemão (Wehrmacht). Operando entre Modena e Florença, ao longo da Rota 12, o obuseiro foi utilizado para atacar comboios alemães, demonstrando sua versatilidade em operações de guerrilha.  Esse feito destacou a capacidade do M-1 de ser empregado por forças não convencionais em missões táticas complexas, reforçando sua reputação como uma arma adaptável. 
Entre 1940 e dezembro de 1944, foram produzidas 4.939 unidades nas versões M1 e M1A1 número expressivo, sobretudo se consideradas as limitações orçamentárias do período anterior e o fato de que o parque industrial norte-americano precisava, simultaneamente, fabricar uma ampla gama de outros sistemas de armas, como o obuseiro de 105 mm M2A1. Dessa forma, o M1/M2 75 mm Pack Howitzer consolidou-se como um dos mais versáteis sistemas de artilharia leve da Segunda Guerra Mundial, adaptando-se com notável eficácia às demandas de guerra anfíbia, aerotransportada e de montanha  três modalidades operacionais que redefiniram a condução do combate no século XX. Encerrada a Segunda Guerra Mundial, o M1 75 mm Pack Howitzer não foi relegado de imediato aos depósitos, como ocorreu com tantos outros sistemas de artilharia do conflito. Ao contrário, sua comprovada robustez, simplicidade mecânica e notável mobilidade asseguraram-lhe uma sobrevida operacional em diferentes continentes, no contexto das tensões que marcariam o início da Guerra Fria. Na Ásia, particularmente na China, o obuseiro permaneceu em uso por longo período, sendo empregado pelas forças do Viet Minh durante a Guerra da Indochina contra a França e, posteriormente, em fases iniciais dos confrontos que culminariam na Guerra do Vietnã. Sua capacidade de desmontagem em cargas transportáveis, adequada a terrenos montanhosos e de difícil acesso, revelou-se especialmente valiosa em cenários de guerra irregular, nos quais a mobilidade superava, muitas vezes, a necessidade de maior calibre. Em 1962, a peça foi redesignada como M116, conforme a padronização de nomenclaturas adotada pelo Exército dos Estados Unidos (U.S Army),  Mesmo diante da introdução de sistemas mais modernos, o M116 permaneceu em serviço ativo até a década de 1980, sobretudo em funções secundárias e de instrução. Paralelamente, consolidou-se seu emprego cerimonial, tradição que perdura em determinadas unidades, nas quais o obuseiro é utilizado para a execução de salvas em eventos militares solenes. No âmbito da cooperação internacional do pós-guerra, 153 peças do M116 foram transferidas, em 1960, às Forças de Autodefesa do Japão (Jieitai), no contexto dos acordos de segurança firmados entre Tóquio e Washington. Integradas às estruturas japonesas, essas unidades permaneceram em serviço até o final da década de 1980. Em um país de relevo predominantemente montanhoso, a leveza, a facilidade de transporte por veículos leves e a possibilidade de desmontagem continuaram a representar vantagens operacionais significativas, reforçando a reputação de confiabilidade do sistema. De forma surpreendente, o M116 voltou a desempenhar papel operacional no século XXI. Em 2010, o Exército Turco (Türk Kara Kuvvetleri) empregou dezenas dessas peças em operações no sudeste da Turquia, em ações contra grupos separatistas curdos. Mais uma vez, a combinação entre mobilidade, simplicidade logística e capacidade de operar em terrenos acidentados demonstrou a pertinência de um projeto concebido ainda nos anos 1930 para ambientes de difícil acesso.  O Exército dos Estados Unidos (U.S Army) mantém três peças na Bateria de Artilharia Norwich, vinculada à Norwich University, e duas na University of North Georgia. Nessas unidades, o obuseiro é empregado em cerimônias oficiais, disparando salvas que evocam a tradição e a continuidade histórica da artilharia norte-americana, conectando sucessivas gerações de cadetes à experiência de seus predecessores.

Emprego no Exército Brasileiro.
No alvorecer da Segunda Guerra Mundial, a rápida expansão territorial das potências do Eixo — Alemanha Nazista, Itália e Japão  suscitou profunda apreensão em Washington quanto à segurança hemisférica. A capitulação da França, em junho de 1940, agravou esse quadro, pois abriu a possibilidade de que territórios coloniais franceses no Atlântico e na África Ocidental pudessem, direta ou indiretamente, servir aos interesses estratégicos alemães. A perspectiva de utilização de pontos como as Ilhas Canárias, Dacar ou possessões no Norte da África como bases de apoio logístico ou aéreo conferia nova dimensão ao risco de projeção militar em direção ao continente americano. Nesse contexto geopolítico, o Brasil passou a ocupar posição central nos cálculos estratégicos norte-americanos. Sua extensa fachada atlântica e, sobretudo, a proximidade do Nordeste brasileiro com o continente africano faziam do país um elo natural entre os dois lados do Atlântico Sul. A cidade de Recife destacava-se como ponto nodal, por constituir uma das menores distâncias aéreas e marítimas entre a América do Sul e a África, condição que a transformava em área privilegiada para o estabelecimento de bases aéreas e instalações portuárias de valor estratégico. Paralelamente, as conquistas japonesas no Sudeste Asiático e no Pacífico Sul comprometeram severamente o acesso aliado às tradicionais fontes de borracha natural. O Brasil, então, assumiu papel de principal fornecedor de látex para os Aliados, insumo vital para a indústria de guerra indispensável na fabricação de pneus, vedantes, equipamentos médicos e diversos componentes militares. A proteção das rotas marítimas que escoavam essas matérias-primas tornou-se prioridade estratégica. Diante desse cenário, intensificou-se a aproximação política, econômica e militar entre o Brasil e os Estados Unidos. Um dos marcos desse processo foi a adesão brasileira ao programa Lend-Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos), instrumento por meio do qual Washington fornecia material bélico e apoio financeiro a nações consideradas essenciais à defesa dos interesses aliados. O acordo assegurou ao Brasil uma linha inicial de crédito da ordem de US$ 100 milhões de dólares, destinada à aquisição de armamentos modernos, aeronaves, veículos blindados e outros equipamentos necessários à modernização de suas Forças Armadas. Tais recursos revelaram-se particularmente relevantes diante da intensificação dos ataques de submarinos alemães no Atlântico Sul, que ameaçavam a navegação mercante e impactavam diretamente o comércio exterior brasileiro com os Estados Unidos. A proteção das linhas de comunicação marítima, fundamentais para o abastecimento da indústria bélica norte-americana, tornou-se questão de sobrevivência estratégica. A liderança política brasileira, sob o comando do presidente Getúlio Vargas, compreendeu a dimensão histórica daquele momento. Vargas declarou que o Brasil não se limitaria ao fornecimento de matérias-primas estratégicas e sinalizou a disposição de ampliar sua participação no esforço aliado, inclusive com o eventual envio de tropas a um teatro de operações de relevância. Assim, a conjuntura internacional não apenas redefiniu a posição do Brasil no tabuleiro geopolítico do Atlântico Sul, mas também impulsionou um processo de modernização militar e de engajamento internacional que marcaria de forma duradoura a história das Forças Armadas brasileiras e sua inserção no cenário global.

Na década de 1940, a artilharia de campanha do Exército Brasileiro encontrava-se em evidente defasagem material e doutrinária. Grande parte de seus meios era composta por canhões alemães Krupp 75 mm Modelo 1908 e peças francesas Schneider et Cie (Schneider-Canet) de 75 mm, ambos concebidos no início do século XX e destinados à tração hipomóvel. Embora robustos e confiáveis em sua época, tais sistemas já não correspondiam às exigências do combate moderno, marcado por maior mobilidade, emprego intensivo de blindados e integração entre armas combinadas. A esse quadro somava-se a influência da chamada Missão Militar Francesa, cuja permanência no Brasil, desde o período entre guerras, moldara a doutrina e a organização do Exército segundo preceitos já superados pelas transformações táticas observadas nos campos de batalha europeus a partir de 1939. A entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial ao lado dos Aliados inaugurou um processo de modernização acelerada. A partir de meados de 1942, navios de transporte passaram a aportar no Rio de Janeiro trazendo armamentos e equipamentos modernos: armas automáticas de infantaria, canhões anticarro de 37 mm e obuseiros de 75 mm, 105 mm e 155 mm. Esses meios eram fornecidos no âmbito do programa Lend-Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos), instrumento decisivo para a reestruturação das Forças Armadas brasileiras. Entre os primeiros contratos, foram cedidos ao Brasil 36 obuseiros M1 75 mm Pack Howitzer, distribuídos em duas configurações de reparo: o modelo M1, com rodas de madeira  correspondente aos primeiros lotes de produção  e o modelo M8, dotado de pneus de borracha convencionais. Não há, contudo, registros conclusivos que permitam determinar com precisão a quantidade exata recebida de cada versão. Ainda assim, sua incorporação representou um significativo salto qualitativo, ampliando a mobilidade, a precisão e o poder de fogo da artilharia brasileira. O compromisso formal do Brasil com o esforço de guerra aliado consolidou-se em 9 de agosto de 1943, por meio da Portaria Ministerial nº 4.744, que criou a Força Expedicionária Brasileira (FEB). Estruturada como 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária (1ª DIE) e comandada pelo General de Divisão João Batista Mascarenhas de Morais, a FEB deveria totalizar cerca de 25.000 homens, incluindo unidades divisionárias e diversos órgãos de apoio indispensáveis à sua atuação no exterior. Não existem, até o momento, registros oficiais ou documentação fotográfica que comprovem o emprego do M1 75 mm Pack Howitzer pela Força Expedicionária Brasileira (FEB) durante a campanha da Itália. Esta teoria se reflete pelo fato de 10ª Divisão de Montanha norte-americana, que era uma das principais unidades que participaram deste front de batalha , era especializada em operações nos terrenos adversos. Representava assim a primeira e única divisão norte-americana de Alpinos, sendo formada por esquiadores experientes, alpinistas e montanhistas com formação concluída no Texas, e por operar neste nível de especialização estava equipada com peças de artilharia de pequeno porte como os canhões antitanque M-3 37 mm e obuseiros M-1 75 mm Howitzer Pack. Assim a Força Expedicionária Brasileira (FEB) por operar nesta mesma região, possa ter vindo a operar este modelo de peça de artilharia, no entanto reforçamos que trata-se de uma especulação.
No período imediato ao término da Segunda Guerra Mundial, o Exército Brasileiro iniciou um processo gradual, porém consistente, de modernização de suas capacidades operacionais. Parte significativa desse esforço apoiou-se na incorporação de equipamentos recebidos durante o conflito, entre os quais se destacavam os obuseiros leves M1 75 mm Pack Howitzer. Inicialmente distribuídas aos Grupos de Artilharia de Campanha, essas peças passaram a operar em conjunto com outros meios fornecidos por intermédio do Lend-Lease Act, sendo tracionadas por viaturas leves como os jipes Ford Motor Company e Willys-Overland, além dos utilitários Dodge WC-51 e WC-52. A introdução desses obuseiros representou sensível avanço em relação aos antigos canhões de tração hipomóvel, tanto pela maior mobilidade quanto pela versatilidade tática. Sua possibilidade de desmontagem em fardos transportáveis e o reduzido peso operacional permitiam rápido deslocamento e emprego em terrenos variados, alinhando-se às novas concepções de guerra móvel que emergiram do conflito mundial. Uma inflexão decisiva no emprego do M1 75 mm Pack Howitzer ocorreu com a criação, em 26 de dezembro de 1946, do Núcleo de Formação e Treinamento de Paraquedistas, embrião do futuro Núcleo da Divisão Aeroterrestre. A iniciativa refletia a assimilação das lições extraídas das operações aerotransportadas conduzidas durante a guerra, especialmente no teatro europeu. Pretendia-se constituir uma força de elite, estruturada com batalhões de infantaria paraquedista, esquadrões de cavalaria, unidades de comando, comunicações, engenharia, apoio logístico e, de forma inovadora, grupos de artilharia paraquedista. A doutrina então concebida previa a organização de baterias equipadas com obuses de 75 mm e de 105 mm, sendo o M1 a peça que melhor se ajustava às exigências da nova força. Originalmente projetado para operações aerotransportadas norte-americanas, o obuseiro combinava leveza, desmontagem em cargas compatíveis com lançamento aéreo e relativa simplicidade de manutenção — atributos essenciais para uma tropa destinada a atuar isoladamente, em profundidade, e com apoio logístico limitado. O desenvolvimento dessa doutrina culminou na consolidação de uma artilharia aerotransportada nacional, dotada de elevado grau de profissionalização. Um marco simbólico ocorreu em 26 de dezembro de 1950, quando o Capitão Dickson Melges Grael  pioneiro do paraquedismo militar no Brasil e primeiro comandante da unidade  realizou o primeiro tiro de bateria com um obuseiro M1 75 mm Pack Howitzer no âmbito da nova organização. O episódio representou não apenas um feito técnico, mas a afirmação da artilharia paraquedista como elemento orgânico de apoio de fogo da tropa aeroterrestre. As operações aerotransportadas tiveram início logo após esse período inaugural, embora não sem desafios. A Força Aérea Brasileira (FAB) dispunha, à época, de aeronaves como o Douglas C-47 Skytrain, cuja capacidade de carga e configuração  com lançamento realizado exclusivamente por portas laterais  impunham limitações ao transporte de equipamentos mais pesados. Ainda assim, a unidade demonstrou notável capacidade de adaptação, superando restrições materiais por meio de rigoroso treinamento e aperfeiçoamento técnico.

Dessa forma, o M1 75 mm Pack Howitzer não apenas simbolizou a modernização da artilharia brasileira no pós-guerra, mas tornou-se peça fundamental na consolidação da doutrina aeroterrestre nacional, marcando o início de uma tradição que projetaria o Brasil no seleto grupo de nações com capacidade orgânica de emprego de artilharia aerotransportada. A trajetória da artilharia aerotransportada do Exército Brasileiro conheceu etapa decisiva em 31 de março de 1953, quando o então Núcleo da Divisão Aeroterrestre foi elevado à condição de Grupo de Obuses 75 mm Aeroterrestre. A reestruturação concentrou, sob um único comando, todas as peças M1 75 mm Pack Howitzer disponíveis no país, consolidando a especialização da unidade no apoio de fogo às tropas paraquedistas. Sob a liderança de oficiais que marcaram esse período formativo  entre os quais se destacou o Capitão Dickson Melges Grael, pioneiro do paraquedismo militar brasileiro  o grupo afirmou-se como núcleo de inovação doutrinária e elevado profissionalismo. Nesse ambiente, foram lançadas as bases institucionais da futura Brigada de Infantaria Paraquedista, que se tornaria uma das formações de elite mais reconhecidas do Exército Brasileiro. Um salto qualitativo nas capacidades operacionais ocorreu a partir de janeiro de 1956, com a incorporação dos aviões de transporte Fairchild C-82 Packet à Força Aérea Brasileira (FAB). Concebida especificamente para o lançamento de tropas e cargas, a aeronave apresentava capacidade superior à dos veteranos Douglas C-47 Skytrain até então empregados. Sua introdução foi determinante para o amadurecimento da doutrina aeroterrestre nacional, oferecendo melhores condições para o transporte e lançamento de peças de artilharia leve. Esse processo evolutivo culminou, em meados da década de 1950, na realização do primeiro lançamento em larga escala de obuseiros M1 75 mm Pack Howitzer, demonstrando a viabilidade de integrar artilharia leve às operações aerotransportadas brasileiras. Tratava-se de um feito técnico e logístico relevante, que reafirmava a capacidade da unidade de operar com elevado grau de autonomia e coordenação interforças. A partir de 1962, a chegada dos aviões Fairchild C-119 Flying Boxcar ampliou ainda mais o espectro operacional. Dotado de maior capacidade de carga e de portas traseiras adequadas ao lançamento de equipamentos volumosos, o C-119 possibilitou o emprego de obuseiros mais pesados, como os modelos M2 e M3 de 105 mm, que passaram a complementar  e progressivamente substituir  os M1 75 mm Pack Howitzer. Essa modernização refletiu-se na própria designação da unidade, que evoluiu para Grupo de Obuses 105 mm Aeroterrestre e, posteriormente, para 8º Grupo de Artilharia Paraquedista, estrutura que, com adaptações, perdura até os dias atuais. O processo de consolidação das forças aerotransportadas brasileiras atingiu novo patamar em 1968, com a criação da Brigada Aeroterrestre, resultante da reorganização do antigo núcleo divisionário. A nova estrutura fortaleceu a capacidade de atuação em cenários de maior complexidade, organizando-se de forma modular, com batalhões de infantaria paraquedista, esquadrões de cavalaria, companhias de comando e apoio, unidades de comunicações, engenharia, logística e artilharia.
Finalmente, em 1971, a redesignação oficial para Brigada de Infantaria Paraquedista consolidou sua identidade institucional como tropa de elite do Exército Brasileiro. Sediada no Rio de Janeiro e subordinada ao Comando Militar do Leste, a Brigada passou a representar a síntese de um processo iniciado ainda no pós-guerra: a construção de uma capacidade aeroterrestre nacional plenamente integrada, capaz de projetar poder com mobilidade, precisão e elevado grau de preparo técnico. Em 1976, foi realizada a primeira Operação SACI, que aconteceu nas regiões de Campos e Macaé (RJ) e Viana (ES), com a infiltração noturna da Eqp Prec, o lançamento tático de 700 paraquedistas e a participação de caças F-5E precedendo dez aeronaves C-115, três C-95 e seis C-130. Desde então, esta tradicional operação ocorre anualmente como coroamento do período de adestramento. Ao final da década de 1970, os obuseiros M1 75 mm Pack Howitzer  que haviam desempenhado papel decisivo na consolidação da artilharia aerotransportada do Exército Brasileiro  começaram a evidenciar sinais inequívocos de obsolescência. Após mais de três décadas de serviço, desde sua incorporação nos anos 1940, essas peças já enfrentavam limitações técnicas decorrentes do desgaste material, da evolução dos sistemas de tiro e, sobretudo, da necessidade crescente de padronização logística. A doutrina de artilharia de campanha do Exército Brasileiro evoluía no sentido de concentrar esforços no calibre 105 mm, adotado como padrão por oferecer melhor equilíbrio entre mobilidade, alcance e poder de fogo. Essa padronização visava racionalizar estoques de munição, simplificar a manutenção e elevar a eficiência operacional. Nesse novo contexto, o M1 75 mm, embora ainda funcional, tornava-se progressivamente inadequado às exigências de um campo de batalha cada vez mais dinâmico e tecnologicamente sofisticado. Gradualmente, muitas dessas peças passaram a desempenhar funções secundárias, notadamente em atividades de instrução e em disparos de salvas cerimoniais. No âmbito do Curso de Formação de Reservistas de 2ª Categoria, conduzido no Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA), os obuseiros continuaram a cumprir papel formativo e simbólico. Embora tais atividades preservassem tradições e contribuíssem para a educação cívico-militar de jovens reservistas, evidenciavam o declínio de seu emprego operacional efetivo. Diante desse quadro, o Comando do Exército decidiu promover a substituição definitiva do M1 por um sistema mais moderno e compatível com a padronização adotada. A escolha recaiu sobre o Oto Melara Mod 56, cuja aquisição teve início em 1977. Leve, desmontável e apto a operações aerotransportadas e de montanha, o modelo italiano representava significativa evolução tecnológica, alinhando-se às necessidades táticas da época e consolidando o calibre 105 mm como referência na artilharia leve brasileira. Com o encerramento de sua carreira operacional, algumas peças M1 75 mm foram destinadas ao Colégio Militar do Rio de Janeiro, onde passaram a ser empregadas em instrução e em salvas de honra, ao lado dos tradicionais obuseiros franceses Schneider de 75 mm. Nessa nova função, os antigos “Pack Howitzer” assumiram caráter eminentemente simbólico, preservando a memória de uma fase crucial da modernização do Exército Brasileiro e servindo como elo histórico entre gerações de militares. Esse emprego, entretanto, não se prolongaria indefinidamente. No início da década de 1990, os M1 75 mm foram definitivamente desativados do serviço ativo. 

Em Escala.
O kit da Vision Models na escala 1/35 é ideal para representar o M1 75 mm Howitzer Pack do Exército Brasileiro. Apesar de limitações na injeção plástica, o modelo oferece bom detalhamento, com peças em metal e photo-etched, que garantem realismo a elementos como o cano, suportes e grades. O kit não requer modificações para representar a versão utilizada em nosso pais. A pintura em verde-oliva, com marcações discretas, reflete o uso pelo Núcleo da Divisão Aeroterrestre e pela Brigada de Infantaria Paraquedista.
O esquema de pintura adotado para o M-1 75 mm Howitzer Pack consistia predominantemente no Verde-Oliva Fosco, correspondente ao padrão FS 34087 (Federal Standard 595), amplamente utilizado em equipamentos militares brasileiros e aliados durante e após a Segunda Guerra Mundial. As marcações eram minimalistas, geralmente restritas a numerações ou insígnias discretas do Exército Brasileiro, aplicadas em preto fosco (FS 37038) ou, em alguns casos, branco fosco (FS 37875), dependendo do contexto operacional ou cerimonial.

Bibliografia: 
- M116 75 mm  Wikipédia - https://en.wikipedia.org/wiki/M116_howitzer
- Technical Manual TM 9-1320, 75mm Howitzers and Carriages. War Department, 1944
- Veículos Militares do Brasil - EB e CFN – Facebook Edição colaborativa do artigo
-  Exército Brasileiro - http://www.bdainfpqdt.eb.mil.br/oms/60-organiza%C3%A7%C3%B5es-militares/110-8-gac-pqdt.html