M-114 L/23 (M-1) 155 mm


História e Desenvolvimento.
No início do século XIX, a artilharia ainda se encontrava fortemente vinculada a concepções técnicas herdadas dos séculos anteriores. A maioria das peças empregadas nos campos de batalha consistia em canhões de alma lisa, geralmente fundidos em bronze ou ferro, que disparavam projéteis esféricos com alcance relativamente limitado e precisão reduzida. Embora a Pólvora fosse conhecida e empregada desde a Idade Média, somente com os progressos verificados nas técnicas de fundição e metalurgia, ao longo do século XIX, tornou-se possível produzir peças de artilharia mais robustas e confiáveis. Esses avanços permitiram o desenvolvimento de canhões capazes de suportar pressões internas mais elevadas, possibilitando o emprego de projéteis mais pesados e a obtenção de maiores distâncias de tiro. Uma das transformações mais significativas na evolução da artilharia ocorreu com a introdução do raiamento dos canos, processo que passou a ser amplamente adotado a partir da década de 1850. As ranhuras helicoidais no interior do tubo imprimiam rotação ao projétil durante o disparo, aumentando sua estabilidade em voo e, consequentemente, sua precisão e alcance. Para as peças de maior calibre, como as de 155 mm, essa inovação representou profunda mudança conceitual: os antigos projéteis esféricos deram lugar a granadas de formato cilíndrico-ogival, mais aerodinâmicas e muito mais eficazes em termos balísticos. Outro avanço tecnológico fundamental foi a introdução do sistema de carregamento pela culatra, que gradualmente substituiu o tradicional carregamento pela boca do cano. A adoção desse sistema permitiu reduzir o tempo de recarga, aumentar a cadência de tiro e melhorar a segurança das guarnições, ao mesmo tempo em que diminuía o risco de escape de gases durante o disparo. Na Europa, potências militares como a França e a Prússia destacaram-se no desenvolvimento de peças de grande calibre com sistemas de culatra mais eficientes. Nesse contexto, a França desempenhou papel particularmente relevante, com projetos que culminariam, já no início do século XX, em modelos consagrados como o Canon de 155 C Modèle 1917 Schneider, cuja concepção influenciaria profundamente a artilharia moderna. A partir da década de 1890, novos aperfeiçoamentos consolidaram o progresso técnico da artilharia de campanha. Entre eles, destacou-se o desenvolvimento dos sistemas de freio e recuperação, destinados a absorver o recuo gerado pelo disparo. Utilizando mecanismos baseados em molas, sistemas hidráulicos ou cilindros de gás, esses dispositivos permitiam que a peça permanecesse praticamente na mesma posição após cada tiro. Tal inovação reduziu drasticamente a necessidade de reposicionamento da arma e aumentou significativamente a cadência de fogo. Em combinação com reparos e carretas mais robustos, esses sistemas ampliaram a mobilidade e a eficiência das baterias de artilharia em operações de campanha. As peças de 155 mm passaram então a ocupar posição intermediária entre a artilharia de campanha leve e a artilharia pesada de sítio, sendo empregadas tanto em operações contra fortificações quanto em apoio às forças em campo aberto. Durante a Guerra Russo-Turca (1877–1878), por exemplo, obuses desse calibre demonstraram notável capacidade destrutiva ao empregar projéteis explosivos com massa aproximada de 43 kg, capazes de atingir fortificações a distâncias consideráveis. De forma semelhante, durante a Guerra Civil Americana, peças de calibre próximo  como os canhões-obuses de 12 cm evidenciaram grande versatilidade ao disparar tanto projéteis explosivos quanto munições de efeito antipessoal.

Na Europa, especialmente a partir da década de 1890, a França e a Alemanha lideraram o desenvolvimento de obuses pesados de campanha, consolidando o calibre 155 mm como padrão em diversos exércitos. Esse processo prepararia o terreno para o papel decisivo que tais peças desempenhariam nas grandes guerras do século XX. Durante a Primeira Guerra Mundial, os obuses de 155 mm tornaram-se instrumentos fundamentais na condução das operações militares. Sua capacidade de produzir destruição em larga escala contribuiu para transformar profundamente a natureza do combate, favorecendo a guerra de posições e levando os exércitos a investir em fortificações cada vez mais robustas, como abrigos subterrâneos e bunkers de concreto armado. Na Batalha de Passchendaele, por exemplo, obuses desse calibre foram utilizados intensivamente nas tentativas aliadas de romper as linhas alemãs, ainda que as condições extremas do terreno  caracterizadas por lama profunda e clima adverso tenham limitado a eficácia dos bombardeios. Paralelamente, a introdução de munições especializadas ampliou o poder destrutivo dessas armas. Granadas de estilhaços, destinadas a atingir tropas expostas, e projéteis químicos passaram a integrar o arsenal de muitas nações, aumentando significativamente a letalidade da artilharia. Dessa forma, o calibre 155 mm consolidou-se como um dos pilares da artilharia moderna, desempenhando papel decisivo na evolução das táticas militares e na configuração dos conflitos contemporâneos. Os  Estados Unidos, ao entrarem no conflito em 1917, enfrentaram uma carência de artilharia moderna, com sua força dependendo de  equipamentos obsoletos ou importados, especialmente de aliados como a França.  O canhão de 155 mm 155 C Modelo 1917 Schneider, projetado pelo coronel francês Louis Filloux, era uma peça de artilharia pesada de longo alcance, amplamente utilizada pelo exército francês. Sua eficácia em bombardeios de longo alcance e operações contra-bateria impressionou os norte-americanos, que decidiram adotá-lo e adaptá-lo para suas necessidades, resultando no M-1918. Sua produção em massa começou em 1918, mas enfrentou atrasos devido à falta de experiência industrial em fabricar artilharia pesada.  No período que se seguiu à Primeira Guerra Mundial, os Estados Unidos passaram por um amplo processo de reflexão estratégica acerca da organização e da modernização de suas forças armadas. As lições extraídas do conflito evidenciaram a importância decisiva da artilharia pesada no campo de batalha moderno, bem como a necessidade de peças com maior alcance, mobilidade e capacidade de apoio às manobras das tropas terrestres. Nesse contexto, reconheceu-se que seu principal canhão de 155 mm da época, o M1918, embora eficaz, apresentava limitações significativas em termos de mobilidade e alcance quando comparado aos sistemas europeus mais recentes. Diante desse cenário, ao longo da década de 1920 o Departamento de Guerra (United States Department of War) iniciou estudos destinados ao desenvolvimento de um novo sistema de artilharia pesada de 155 mm que pudesse reunir maior potência de fogo, alcance superior e melhores condições de transporte e emprego tático. O desenvolvimento da nova peça, que posteriormente seria conhecida como 155 mm Gun M1, teve início formal em 1920 sob a supervisão do Westervelt Board, comissão criada para revisar as necessidades de artilharia do Exército norte-americano à luz das experiências da guerra recém-encerrada.
O projeto buscava superar as limitações observadas no modelo anterior, inspirando-se tanto no próprio M1918 quanto no conceituado canhão francês Canon GPF, amplamente reconhecido por seu desempenho durante o conflito. Entre as principais inovações adotadas estava o emprego de um cano significativamente mais longo, com 45 calibres aproximadamente 6,97 metros  solução destinada a aumentar a velocidade inicial do projétil e, consequentemente, o alcance e a precisão do tiro. Além disso, o novo sistema incorporou um avançado mecanismo de recuo hidropneumático. Esse dispositivo tinha a função de absorver a energia gerada pelo disparo, permitindo maior estabilidade da peça e favorecendo uma cadência de tiro mais elevada sem a necessidade constante de reposicionamento do armamento. Paralelamente, a carreta foi completamente redesenhada para facilitar o transporte estratégico e tático. A estrutura passou a ser dividida em duas cargas principais  o tubo e a base  possibilitando deslocamentos mais eficientes. A adoção de pneus de borracha e de um sistema de suspensão reforçado também representou um avanço importante, permitindo melhor adaptação a diferentes tipos de terreno. Os primeiros protótipos do sistema, designados T4, começaram a ser avaliados ao longo da década de 1920. Essas versões iniciais incorporavam um novo mecanismo de culatra e diferentes configurações estruturais, porém ainda apresentavam desafios técnicos, especialmente relacionados ao peso elevado e à estabilidade durante o tiro. Um aspecto singular do projeto foi a adoção de um mecanismo de culatra de parafuso interrompido do tipo “cone lento”, característica pouco comum nos sistemas norte-americanos posteriores. Esse mecanismo exigia dois movimentos distintos para a abertura da culatra, diferentemente do sistema de “cone íngreme”, no qual a rotação e a extração ocorriam simultaneamente em um único movimento. Apesar dos avanços técnicos obtidos durante o período de desenvolvimento, o progresso do programa sofreu sérias interrupções em decorrência da crise econômica, com a eclosão da Grande Depressão, iniciada em 1929. As severas restrições orçamentárias impostas ao setor militar reduziram drasticamente os recursos disponíveis para pesquisa, testes e produção de novos equipamentos. Como resultado, o desenvolvimento do novo canhão de 155 mm avançou de forma lenta ao longo da década de 1930, sendo que o modelo definitivo somente viria a ser aprovado oficialmente em 1938. A produção  M-1 155 mm teve início em 1940, com destaque para o Watervliet Arsenal e American Locomotive Company. Com o avanço do conflito na Europa e o crescente agravamento das tensões no Oceano Pacífico, foram assinados contratos de produção em larga escala em 1941. Esse ritmo acelerado permitiu que o  M-1 155 mm equipasse todos os regimentos de artilharia de campanha, consolidando-se como uma peça essencial. Dentre as melhorias em relação aos canhões da Primeira Guerra Mundial, destaca-se a introdução de uma nova "carreta", que evoluiu ao longo da produção. Na versão inicial, os freios elétricos da Warner foram substituídos por freios a ar Westinghouse no modelo M-1A1, refletindo um aprimoramento significativo. Tanto o vagão de transporte do M-1 quanto do M-1A1 utilizaram um pedestal de disparo central, equipado com um mecanismo de catraca, posteriormente substituído por um sistema de macaco na versão M-1A2, que também incluiu uma nova trava de deslocamento. Com um alcance máximo de 14.800 metros, o M-1 155 mm era classificado como peça de artilharia média nos regimentos. 

Operado por uma equipe de 11 soldados, era tradicionalmente tracionado por tratores de esteiras, como os M-4 e M-5 High Speed Tractor. Capaz de disparar projéteis a uma velocidade inicial de 564 metros por segundo, utilizava munição de "carregamento separado", composta por quatro elementos: projétil, carga propulsora ensacada (ajustável com sacos individuais de pó), fusível e primer. Os projéteis, pesando 43 quilos, recebiam o fusível na base após a remoção de um anel de transporte. A variedade de munições incluía explosivos como HE M102 Shell e HE M107 Shell, fósforo branco (FS M105 Shell e WP M105 Shell), químicas (CNS M110 Shell e H M110 Shell, nunca empregadas devido a tratados internacionais), luminosas (Illuminating M118 Shell) e perfurantes (Dummy Mk I Projectile e Dummy M7 Projectile). Seu batismo de fogo ocorreu durante a Operação Tocha, iniciada em 8 de novembro de 1942, com o desembarque aliado no Norte da África, marcando sua presença em todos os fronts da Segunda Guerra Mundial. Ao término do conflito, em agosto de 1945, cerca de 4.000 unidades haviam sido entregues às forças armadas norte-americanas. Diferentemente de outros armamentos, a produção do M-1 155 mm prosseguiu continuamente até o final de 1953, alcançando um total superior a 10.300 peças concluídas. O M-1s também se fariam presentes também na Guerra da Coreia,  neste período o Exercito dos Estados Unidos (U.S. Arny) estava passando por um período de desmobilização e não dispunha dos mesmos efetivos para artilharia de campanha, a exemplo do que possuía no final da Segunda Guerra Mundial. Assim  somente 21 obuseiros M-1 foram empregados nas primeiras fases do conflito. Apesar de serem reforçados por novas peças de artilharia, muitas destas se perderam em combate, sendo abandonadas perante o avanço das forças inimigas. Mesmo assim  provaria novamente seu valor no campo de batalha, introduzido como uma peça de artilharia pesada de longo alcance, o M-1 desempenhou um papel crucial no apoio às tropas terrestres, especialmente em combates intensos como a Batalha do Rio Imjin e a defesa do perímetro de Pusan. Sua capacidade de disparar projéteis a até 23,5 km, com precisão e poder destrutivo, foi essencial para neutralizar posições fortificadas norte-coreanas e chinesas. A partir de 1962 o modelo seria renomeado atendendo ao nova padrão de designação, passando a ser conhecido como M-114, época no qual passaram a dotar também os grupos de artilharia do Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha do Estados Unidos (USMC).  Ao final da década de  1960, dentro dos esforços de apoio à Coreia do Sul, o M-114A1 passou a ser produzido sob licença, contribuindo significativamente para o fortalecimento do arsenal daquele país. A versão local, designada KM114-A1, foi adaptada para disparar munições de alcance estendido (RAP), alcançando até 19,5 km, e representou um marco no desenvolvimento da indústria de defesa sul-coreana, alinhando-se às necessidades estratégicas de defesa contra as ameaças regionais. O início da Guerra do Vietnã, marcou o retorno do obuseiro M-114 e sua variante M-114A1 à ação real, consolidando-se como a peça de artilharia padrão de calibre 155 mm para operações de médio alcance. Esses obuseiros,  também foram fornecidos em grande quantidade ao Vietnã do Sul como parte do apoio militar americano. O M-114A1, com alcance aprimorado e capacidade de disparar munições de carregamento separado, incluindo projéteis explosivos e iluminantes, tornou-se uma ferramenta essencial no suporte às forças do Exército da República do Vietnã (ARVN), especialmente em combates contra a guerrilha do Viet Cong e as forças do Exército Popular do Vietnã (PAVN).
Com o término da Guerra do Vietnã, uma quantidade expressiva de equipamentos militares de origem norte-americana foi capturada pelas forças vencedoras do norte. Entre esses materiais encontravam-se diversos exemplares M-114 155 mm, que haviam sido amplamente utilizados durante o conflito. Estes seriam  incorporadas ao inventário militar do novo Estado vietnamita e permaneceram em operação ao longo da década de 1980, após adaptações e adequações às necessidades locais. Paralelamente à utilização operacional dessas peças, ao longo da evolução da artilharia norte-americana foram conduzidos diversos estudos e experimentos destinados a aumentar a mobilidade dos sistemas de 155 mm por meio da adoção de plataformas autopropulsadas. Um dos primeiros esforços nesse sentido resultou no projeto 155 mm Howitzer Motor Carriage T64, iniciado em dezembro de 1942, que previa a instalação do obuseiro em um chassi derivado do tanque leve M5 Stuart. Entretanto, após a construção de apenas um protótipo, o programa foi interrompido, sendo substituído por uma versão aperfeiçoada, o T64E1, que empregava o chassi alongado do tanque leve M-24 Chaffee. Esse novo desenvolvimento culminaria na padronização do sistema como M41 Howitzer Motor Carriage, conhecido pelo apelido de “Gorilla”. A produção teve início em 1945; contudo, das 250 unidades inicialmente planejadas, apenas 85 foram efetivamente concluídas antes do cancelamento do programa, decisão diretamente relacionada ao término da Segunda Guerra Mundial. Já no final da década de 1960, diante do progressivo envelhecimento do M-114, seriam iniciados para o desenvolvimento de um novo obuseiro rebocado de 155 mm que apresentasse melhores características de mobilidade, alcance e capacidade de emprego aerotransportado. O projeto resultante, denominado M198 155 mm Howitzer, foi desenvolvido no Rock Island Arsenal a partir de 1969, com os primeiros testes de tiro realizados em 1970. A produção em série teve início em 1978, e o sistema entrou oficialmente em serviço no ano seguinte. O novo obuseiro apresentava peso inferior a aproximadamente 7.200 kg, característica que permitia seu transporte aéreo por helicópteros como o CH‑53E Super Stallion e o CH‑47 Chinook, além da possibilidade de lançamento por paraquedas em operações aerotransportadas. Em termos de desempenho balístico, o sistema oferecia alcance de cerca de 18 km com munições convencionais e até aproximadamente 30 km quando empregadas munições assistidas por foguete (RAP), representando um avanço significativo em relação ao seu antecessor. A partir de 1979, o M-198 começou a ser distribuído às unidades de artilharia de campanha, substituindo gradualmente os obuseiros M-114 em serviço ativo. Inicialmente, a substituição concentrou-se nas peças mais desgastadas ou tecnicamente ultrapassadas, enquanto parte dos sistemas remanescentes foi transferida para unidades de reserva da Guarda Nacional dos Estados Unidos, onde permaneceram em operação até meados da década de 1980. O processo de retirada do M-114 do serviço ativo norte-americano, iniciado no final da década de 1970, gerou um considerável excedente desse equipamento. Como parte da política de cooperação militar e de apoio estratégico a países aliados durante o contexto geopolítico da Guerra Fria, muitos desses foram transferidos a nações parceiras em diferentes regiões do mundo, alcançando cerca de quatro dezenas de operadores. Mesmo após décadas de serviço, o M114 permanece em operação em diversos países, evidenciando a robustez de seu projeto e a durabilidade de sistemas de artilharia dessa categoria. Em várias forças armadas, especialmente em nações em desenvolvimento, essas peças continuam desempenhando funções relevantes no apoio de fogo de campanha, havendo indícios de que algumas delas ainda permanecerão em uso por muitos anos.

Emprego nas Forças Armadas Brasileiras.
No início da Segunda Guerra Mundial, o governo dos Estados Unidos passou a considerar com crescente preocupação a possibilidade de que o conflito ultrapassasse os limites tradicionais do teatro europeu e ameaçasse diretamente o continente americano. Tal apreensão intensificou-se após a capitulação da França em junho de 1940, durante a chamada Batalha da França. Com a derrota francesa e a expansão da influência da Alemanha Nazista sobre territórios coloniais, surgia o risco de que instalações estratégicas situadas no Atlântico  como Ilhas Canárias e Dacar pudessem servir de base para operações militares projetadas em direção ao continente americano. Nesse contexto geopolítico, o Brasil passou a ser considerado pelos estrategistas aliados como um ponto de elevada importância estratégica. Sua posição geográfica, especialmente no chamado “saliente nordestino”, reduzia significativamente a distância entre a América do Sul e o continente africano, o que transformava o território brasileiro em um possível alvo ou, alternativamente, em uma base essencial para operações militares no Oceano Atlântico. A eventual presença de forças do Eixo na costa ocidental da África ampliava ainda mais essa preocupação, uma vez que poderia facilitar ações ofensivas ou operações de interdição marítima na região. Ao mesmo tempo, os avanços militares do Império do Japão no Sudeste Asiático e no Pacífico Sul comprometeram o acesso dos Aliados às tradicionais áreas produtoras de borracha natural. Nesse cenário, o Brasil passou a desempenhar papel fundamental como fornecedor de látex, matéria-prima indispensável para a produção de borracha utilizada em pneus, equipamentos militares e inúmeros componentes da indústria de guerra aliada. Além do valor econômico de seus recursos naturais, o litoral brasileiro  particularmente a região Nordeste  apresentava condições geográficas extremamente favoráveis para o estabelecimento de bases aéreas e instalações logísticas. Cidades como Recife destacavam-se como pontos estratégicos, por constituírem uma das menores distâncias entre os continentes americano e africano. Dessa forma, essas localidades poderiam servir como uma verdadeira ponte logística para o deslocamento de tropas, aeronaves e suprimentos destinados aos teatros de operações no Norte da África e na Europa. Diante desse cenário internacional marcado por intensas transformações geopolíticas, observou-se, em um curto espaço de tempo, um significativo processo de aproximação política, econômica e militar entre o Brasil e os Estados Unidos. Essa cooperação materializou-se por meio de investimentos em infraestrutura estratégica, acordos diplomáticos e programas de assistência militar. Entre as iniciativas mais relevantes destacou-se a adesão brasileira ao Lend‑Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos). Criado pelo governo norte-americano para fortalecer países aliados na luta contra o Eixo, esse programa permitiu ao Brasil obter uma linha inicial de crédito estimada em aproximadamente 100 milhões de dólares, destinada à aquisição de equipamentos militares modernos. Por meio desse acordo, as Forças Armadas Brasileiras tiveram acesso a armamentos, aeronaves, veículos militares e carros de combate que contribuíram significativamente para a modernização de sua estrutura operacional. Esses recursos revelaram-se particularmente importantes diante do agravamento da guerra no Atlântico Sul. A intensificação das operações de submarinos alemães passou a representar uma ameaça direta à navegação mercante brasileira e às rotas marítimas que conectavam o país aos Estados Unidos. Essas linhas de comunicação marítima eram fundamentais para o transporte de matérias-primas estratégicas destinadas à indústria de guerra norte-americana.

Nesse contexto, a participação brasileira no esforço de guerra aliado gradualmente se ampliou. O então presidente Getúlio Vargas declarou que o Brasil não se limitaria apenas ao fornecimento de recursos estratégicos, sinalizando a disposição do país em assumir um papel mais ativo no conflito.  Na década de 1940, a artilharia de campanha do Exército Brasileiro enfrentava desafios significativos decorrentes da obsolescência de grande parte de seu material bélico. À época, a força encontrava-se equipada predominantemente com peças de origem europeia concebidas ainda no início do século XX, como os canhões alemães Krupp 75 mm Modelo 1908 e os franceses Schneider-Canet 75 mm. Projetados para tração hipomóvel e concebidos segundo os padrões tecnológicos anteriores à Primeira Guerra Mundial, esses armamentos, embora robustos e confiáveis em seu contexto original, já não atendiam plenamente às exigências impostas pelo campo de batalha moderno. A conjuntura internacional que se formou com o avanço da Segunda Guerra Mundial acabaria por impulsionar uma profunda transformação na estrutura e nos meios do Exército Brasileiro. A partir de meados de 1942, sucessivos navios de transporte começaram a chegar ao Porto do Rio de Janeiro trazendo uma ampla gama de equipamentos modernos. Entre esses materiais encontravam-se armas de infantaria, canhões anticarro de 37 mm, além de obuseiros de campanha de 105 mm e 155 mm. A incorporação desses sistemas de artilharia representou um salto qualitativo significativo para as forças brasileiras, ampliando substancialmente sua capacidade de fogo, alcance e precisão. O comprometimento brasileiro com o esforço de guerra aliado seria formalizado em 9 de agosto de 1943, com a criação da Força Expedicionária Brasileira (FEB), instituída por meio da Portaria Ministerial nº 4.744, posteriormente publicada em boletim reservado no dia 13 do mesmo mês. Estruturada como a 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária (1ª DIE), a nova força expedicionária foi colocada sob o comando do João Batista Mascarenhas de Morais e concebida para integrar o dispositivo aliado no teatro de operações europeu. Ao todo, previa-se que a força fosse composta por aproximadamente 25 mil soldados. A organização incluía, além da divisão principal, uma série de unidades de apoio e serviços essenciais ao funcionamento de uma força expedicionária moderna. No campo da artilharia, a estrutura previa quatro grupos de artilharia  três equipados com obuseiros de 105 mm e um com peças de 155 mm  responsáveis por fornecer apoio de fogo às operações terrestres. A força contava ainda com uma esquadrilha de ligação e observação da Força Aérea Brasileira, além de um batalhão de engenharia, um batalhão de saúde, um esquadrão de reconhecimento e uma companhia de comunicações. Complementavam essa estrutura diversas unidades logísticas e administrativas, incluindo um comando próprio, um comando de quartel-general, destacamentos de saúde, companhias de manutenção e intendência, além de elementos especializados como pelotões de polícia e de sepultamento. Após o desembarque no porto de Nápoles e um período de intensivo treinamento conduzido por instrutores norte-americanos, as unidades de artilharia brasileiras foram posicionadas para apoiar as operações do V Exército na campanha da Itália. Nesse teatro de operações, as forças aliadas enfrentavam complexos sistemas defensivos estabelecidos pelas tropas alemãs, entre os quais se destacavam a Linha Gustav e a Linha Gótica. O batismo de fogo da artilharia brasileira ocorreria em 16 de setembro de 1944, nas encostas do Monte Bastione, ao norte da cidade de Lucca, na região da Toscana. Naquela tarde, sob um vento frio que já prenunciava os rigores do inverno europeu, às 14 horas e 22 minutos foi disparado o primeiro tiro da artilharia brasileira em solo estrangeiro. O projétil, lançado contra posições alemãs na localidade de Massarosa, atingiu com precisão o objetivo designado.
Ao longo da campanha da Itália, no contexto da Segunda Guerra Mundial, os obuseiros de 155 mm desempenharam papel decisivo no apoio de fogo às operações conduzidas pelas forças aliadas. Essas peças de artilharia foram amplamente empregadas em missões de bombardeio contra posições defensivas alemãs, na neutralização de contra-ataques inimigos e na proteção dos flancos das unidades em avanço. Dotados de elevado alcance e grande poder destrutivo, os obuseiros revelaram-se particularmente eficazes no terreno montanhoso e nas condições climáticas adversas que caracterizaram grande parte da campanha italiana. Demonstrando notável confiabilidade e precisão, esses sistemas de artilharia tornaram-se elementos fundamentais no dispositivo de apoio de fogo aliado, contribuindo diretamente para o êxito das operações terrestres. Durante seus deslocamentos táticos e logísticos, as peças eram normalmente tracionadas por tratores de esteira M-5 High-Speed Tractor, veículos especialmente concebidos para garantir mobilidade às unidades de artilharia pesada em terrenos difíceis. Ainda durante o conflito, um número adicional de obuseiros desse modelo foi enviado ao Brasil, passando a equipar novas unidades de artilharia divisionária. Entre essas formações destacava-se um agrupamento constituído por três grupos armados com obuseiros M-2A1 105 mm Howitzer e um grupo equipado com os obuseiros M-1 155 mm todos sediados no Rio de Janeiro, então principal centro administrativo e militar do país. Com o término da guerra na Europa, em maio de 1945, os obuseiros M-1 e diversos outros equipamentos utilizados pela Força Expedicionária Brasileira (FEB) foram transferidos ao comando logístico do Exército dos Estados Unidos, instalado em Roma. Nesse processo de reorganização do material de guerra, os equipamentos que se encontravam em melhores condições operacionais foram cuidadosamente selecionados, acondicionados e posteriormente enviados ao Brasil por via marítima. Após sua chegada ao território nacional, essas peças foram distribuídas entre diferentes Grupos de Artilharia de Campanha do Exército Brasileiro, onde continuaram a desempenhar papel relevante na estrutura de apoio de fogo da força terrestre. Nessas unidades, os obuseiros eram normalmente tracionados pelos tratores de esteira M-4- e M-5-que asseguravam mobilidade às baterias de artilharia pesada. A partir da década de 1950, no contexto da Guerra Fria e das iniciativas de modernização das forças armadas nacionais, o Brasil intensificou seus esforços para atualizar seus meios militares. Um marco importante desse processo foi a assinatura do Acordo de Assistência Militar Brasil–Estados Unidos, que ampliou a cooperação estratégica entre os dois países e facilitou a transferência de equipamentos militares norte-americanos para o Exército Brasileiro e para o Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil. No âmbito desse acordo, o Brasil recebeu pelo menos 90 obuseiros do modelo M-114A2 155 mm, uma versão aperfeiçoada do sistema original. Essas peças, produzidas sob licença na Coreia do Sul, apresentavam melhorias estruturais e operacionais em relação aos exemplares fabricados durante a década de 1940. A chegada desses novos sistemas permitiu substituir as unidades mais desgastadas e, ao mesmo tempo, redistribuir os obuseiros mais antigos para outras formações do Exército. Entre as unidades beneficiadas por esse processo destacaram-se o 13º Grupo de Artilharia de Campanha conhecido como Grupo General Polidoro e o 11º Grupo de Artilharia de Campanha, tradicionalmente denominado Grupo Montese. Nesse mesmo período, ocorreu também uma significativa modernização dos meios de tração das peças de artilharia. Os antigos tratores sobre esteiras começaram gradualmente a ser substituídos pelos caminhões militares MB Engesa LG-1519 e LG-1819 Mamute.

Paralelamente, uma pequena quantidade desses obuseiros foi também incorporada, na década de 1970, ao Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil. Essas peças foram destinadas ao Batalhão de Artilharia do Corpo de Fuzileiros Navais, reforçando significativamente a capacidade de apoio de fogo nas operações anfíbias e terrestres conduzidas pela força naval. Nessas unidades, os obuseiros eram organizados em baterias  geralmente compostas por duas peças cada  e tracionados por veículos como os caminhões militares REO M-35.  Ao longo das últimas décadas, a munição de 155 mm empregada pelas unidades de artilharia brasileiras passou por um processo gradual de nacionalização, refletindo o esforço do país em consolidar sua autonomia estratégica no campo da defesa. Esse processo envolveu a participação de importantes organizações da Base Industrial de Defesa brasileira, como a Indústria de Material Bélico do Brasil (IMBEL), a Mac Jee, a CSD – Componentes e Sistemas de Defesa e a Empresa Gerencial de Projetos Navais (EMGEPRON). Entre essas iniciativas, destaca-se o papel desempenhado pela Indústria de Material Bélico do Brasil, cuja unidade industrial localizada em Juiz de Fora consolidou a nacionalização do processo produtivo do tiro de artilharia M-107 155 mm. Em 2022, a empresa passou a entregar componentes inteiramente fabricados no país, incluindo o corpo da granada e as cargas de projeção, alcançando um nível de produção plenamente capaz de atender às necessidades operacionais do Exército Brasileiro. Essa conquista representa um passo significativo no fortalecimento da Base Industrial de Defesa, reduzindo a dependência externa e ampliando a capacidade nacional de sustentação logística. No âmbito operacional, os obuseiros M-114 AR 155 mm e M-114A2 AR 155 mm permanecem em serviço no Exército Brasileiro, integrando a dotação dos Grupos de Artilharia de Campanha orgânicos à Artilharia Divisionária.  Seu poder de fogo permanece expressivo, sustentado pela ampla variedade de munições de 155 mm disponíveis no país, muitas das quais atualmente produzidas por empresas brasileiras. Essa capacidade garante às unidades de artilharia um importante instrumento de apoio de fogo indireto, essencial para a manobra das forças terrestres. Paralelamente, os sistemas de direção e controle de tiro da artilharia brasileira vêm passando por um processo de modernização tecnológica, acompanhando a evolução dos conceitos operacionais contemporâneos. Nesse contexto, tanto os obuseiros rebocados M-114 AR 155 mm quanto os autopropulsados M109 A5+BR passaram a operar com sistemas digitais destinados a aumentar a precisão, a rapidez de resposta e a integração entre as unidades de artilharia. Um dos principais avanços nesse campo foi o desenvolvimento do Sistema de Controle de Tiro Gênesis pela Indústria de Material Bélico do Brasil. Esse sistema introduziu a digitalização dos processos de planejamento, coordenação e execução do tiro de artilharia em nível de brigada, substituindo gradualmente métodos tradicionais baseados em cálculos manuais. A integração de dados topográficos, observação de alvos e informações provenientes de sensores modernos permite realizar ajustes em tempo real, elevando significativamente a precisão e a eficiência do apoio de fogo. Apesar dessas melhorias, os obuseiros da família M-114 enfrentam desafios operacionais consideráveis diante das exigências do campo de batalha contemporâneo. Um dos principais fatores limitantes é o peso elevado do sistema, que pode alcançar aproximadamente 5.700 kg em deslocamento, impondo significativa carga às viaturas tratoras e reduzindo sua mobilidade em determinados tipos de terreno.
Além disso, suas dimensões e características estruturais geram dificuldades logísticas, aumentando o tempo necessário para o posicionamento da peça em bateria e para sua retirada após o cumprimento da missão. Outro fator crítico é o alcance relativamente limitado, o que restringe a capacidade de executar fogos em profundidade, realizar missões eficazes de contrabateria e garantir maior sobrevivência em ambientes de combate modernos. A principal limitação técnica, entretanto, reside no comprimento do tubo de apenas 24 calibres. Essa característica impede a plena utilização de munições mais avançadas, frequentemente projetadas para sistemas de artilharia com tubos mais longos, o que reduz o potencial de modernização e a eficiência operacional dessas peças. Como tentativa de mitigar essa limitação, foi proposto no passado um programa de modernização que previa a adoção do sistema RDM 155 mm de 30 calibres, cuja principal vantagem seria o aumento significativo do alcance da peça. Contudo, apenas uma unidade desse modelo foi efetivamente incorporada ao Exército Brasileiro. Atualmente, esse exemplar encontra-se desativado e preservado como monumento histórico, fato que ilustra as limitações orçamentárias e as prioridades estratégicas que marcaram o processo de renovação da artilharia brasileira ao longo das últimas décadas. Apesar de os cerca de 92 obuseiros M-114  1 e M-114A2 ainda em serviço, apresentarem elevados índices de disponibilidade operacional resultado de programas regulares de manutenção, atualizações técnicas periódicas e da continuidade da produção nacional de peças de reposição  tornou-se cada vez mais evidente que esses sistemas de artilharia já não atendem plenamente às exigências do campo de batalha contemporâneo. Concebidos em um contexto tecnológico da década de 1940, esses apresentam limitações importantes em aspectos fundamentais como mobilidade tática, alcance efetivo e amplitude do setor de tiro. Diante desse cenário, o Ministério da Defesa do Brasil iniciou, em 2018, estudos destinados à substituição progressiva desses sistemas na Força Terrestre. As análises conduzidas no âmbito do Exército Brasileiro resultaram na definição de duas linhas principais de modernização da artilharia de campanha. A primeira vertente contempla a introdução de um moderno sistema de artilharia autopropulsada sobre rodas, inserido no projeto denominado VBCOAP 155 mm SR (Viatura Blindada de Combate Obuseiro Autopropulsado sobre Rodas). Como etapa inicial do programa, prevê-se a aquisição de duas viaturas destinadas à avaliação operacional no Centro de Avaliações do Exército. Após essa fase de testes, o planejamento prevê a aquisição adicional de 34 sistemas, totalizando 36 unidades destinadas a equipar três grupos de artilharia. Paralelamente, uma segunda linha de ação foi estruturada no âmbito do subprograma de modernização da artilharia de campanha inserido no Programa Estratégico do Exército para a obtenção de Capacidade Operacional Plena. Essa iniciativa tem como objetivo reestruturar o portfólio de sistemas de artilharia da Força Terrestre, assegurando às tropas brasileiras um poder de fogo adequado, preciso e compatível com as exigências operacionais previstas até o horizonte de 2031. Dentro desse contexto, passou-se a considerar a possível aquisição de até 80 M-198 155 mm usados, por meio do programa Excess Defense Articles, mecanismo que permite a transferência de equipamentos militares excedentes para países aliados. Independentemente da solução final adotada, a introdução gradual de novos sistemas de artilharia permitirá, no futuro, a retirada progressiva dos  M-114  do serviço ativo. Esse processo marcará o encerramento de uma longa e notável trajetória operacional,

Em Escala:
Para representarmos o M-114 L/23 155 mm fizemos uso do excelente kit da Bronco Models na escala 1/35, modelo que prima pela qualidade e detalhamento, combinado peças em metal e photo etched. Para se representar a versão usada pelo Exército Brasileiro, não há necessidade de se realizar nenhuma alteração, bastando montar o modelo direto da caixa.
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o primeiro padrão de pintura empregado desde o recebimento das primeiras peças em 1942 e nos lotes subsequentes, após o ano de 1983 os M-114 AR e M-114A2  AR 155 passaram a ostentar o novo esquema de camuflagem tática em dois tons, mantendo este padrão até a atualidade.

Bibliografia: 
- M114 Howitzer Wilipedia - https://en.wikipedia.org/wiki/M114_155_mm_howitzer
- M114A2 Towed 155mm Howitzer - https://www.hmdb.org/
- Artilharia de Campanha no Exército Brasileiro – Cezar Carriel Benetti - http://www.ecsbdefesa.com.br/fts/ACEB.pdf