Dodge M-37/43/56 (VE-TNE-VLSR)

História e Desenvolvimento.
No início do século XX, em 1900, os irmãos John Francis Dodge e Horace Elgin Dodge embarcaram em um ambicioso empreendimento: criar um automóvel que se destacasse dos modelos disponíveis no mercado. Inicialmente, a produção era quase artesanal, com a fabricação de poucas dezenas de veículos. Contudo, a partir de 1914, esse processo evoluiu para uma produção em série, marcando o nascimento da Dodge Brothers Motor Company. Rapidamente, conquistou prestígio no competitivo mercado de automóveis de passeio dos Estados Unidos, alcançando uma significativa participação nesse setor. O êxito comercial proporcionou recursos financeiros que viabilizaram, na década seguinte, o desenvolvimento de veículos utilitários voltados para o mercado comercial civil. A entrada dos Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial levaria a montadora a fornecer milhares de veículos a Força Expedicionária Americana (AEF), se destacando o  Light Repair Truck e a Ambulance. Infelizmente, a trajetória dos fundadores foi interrompida por seu falecimento precoce (ambos no ano de 1920),  neste momento as viúvas, Matilda e Anna , assumiram o controle acionário da empresa. No entanto, sem a liderança direta dos fundadores, a montadora foi vendida em 1928 para a Chrysler Corporation, marcando o início de uma nova fase sob o conglomerado. Os primeiros utilitários lançados no mercado foram desenvolvidos com base nas plataformas dos veículos de passageiros da Chrysler, o que reduziu os custos de projeto e produção. A utilização compartilhada de ferramental e processos de manufatura resultou em preços competitivos, conferindo à Dodge uma forte vantagem comercial. Assim como os automóveis de passeio, os novos veículos utilitários  alcançaram expressivo sucesso de vendas no mercado interno, consolidando a reputação da marca como sinônimo de robustez e versatilidade, especialmente em atividades pesadas e em ambientes fora de estrada. O crescimento contínuo das vendas gerou recursos adicionais, permitindo que a empresa planejasse projetos ainda mais ambiciosos a curto e médio prazo. Na primeira metade da década de 1930, o cenário geopolítico começou a se tornar preocupante, especialmente na Europa, com a ascensão do Partido Nazista na Alemanha. Esse contexto gerou inquietação em diversas nações, incluindo os Estados Unidos, que, embora adotassem uma postura de neutralidade, permaneciam atentos a possíveis ameaças futuras. Diante da possibilidade de uma corrida armamentista global, a montadora vislumbrou uma oportunidade estratégica no mercado militar. Assim, em 1934, a empresa passou a investir recursos próprios no desenvolvimento de projetos e protótipos  de caminhões militares de médio e grande porte, aproveitando a expertise adquirida em projetos anteriores para as forças armadas norte-americanas durante a Primeira Guerra Mundial.

Em 1937, já integrada à Chrysler Corporation, alcançou um marco significativo ao apresentar ao Exército dos Estados Unidos (U.S. Army) seu primeiro modelo experimental de caminhão militar: o K-39-X-4, um veículo de 1 ½ toneladas equipado com tração integral nas quatro rodas. Submetido a rigorosos testes de campo, o protótipo impressionou os militares por sua robustez e desempenho, culminando na assinatura de um contrato para a produção de aproximadamente 800 unidades. Nos meses subsequentes, as primeiras entregas foram realizadas, e a confiança depositada levou à celebração de novos contratos, desta vez envolvendo os caminhões Dodge VC-1 e VC-6, de ½ tonelada, que se tornariam peças-chave no portfólio da empresa. Paralelamente, a Dodge lançou versões civis desses veículos no mercado norte-americano, que alcançaram notável sucesso comercial. Esse êxito incentivou a empresa a expandir sua linha de produtos em 1938, introduzindo novos modelos que passaram a ser fabricados na recém-inaugurada planta industrial Warren Truck Assembly, em Michigan. Projetada especificamente para a produção de caminhões leves e médios, essa fábrica marcou um avanço estratégico na capacidade produtiva da companhia. No ano seguinte, em 1939, a Dodge apresentou uma linha completamente renovada de picapes e caminhões, caracterizada por um design moderno e pela designação “Job-Rated”, que prometia atender às mais diversas demandas de trabalho, consolidando a reputação da marca por versatilidade e inovação. Enquanto isso, o cenário geopolítico global tornava-se cada vez mais tenso, com ameaças emergindo na Europa e no Pacífico. Diante da necessidade urgente de modernizar e reequipar as forças armadas norte-americanas, definiu-se um padrão para veículos de transporte, categorizando-os em cinco classes com base na capacidade de carga: ½ tonelada, 1 ½ tonelada, 2 ½ toneladas, 4 toneladas e 7 ½ toneladas. Em junho de 1940, o Quartel-General do Comando de Intendência do Exército (U.S. Army Quartermaster Corps) aprovou três modelos de caminhões comerciais com tração nas quatro rodas: o Dodge de 1 ½ tonelada 4x4, o GMC de 2 ½ toneladas 6x6 e o Mack de ½ tonelada 6x6. Nesse contexto, a Dodge-Fargo Division assegurou um contrato significativo no verão de 1940 para a produção de 14.000 unidades do modelo de ½ tonelada  4x4, designado como série VC. A produção em larga escala teve início em novembro do mesmo ano, e, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, o modelo foi redesignado como série WC (Weapons Carriers). A letra “W” indicava o ano de início da produção (1941), enquanto “C” representava a classificação de ½ tonelada. Posteriormente, o código “C” foi estendido para modelos de ¾ tonelada e 1 ½ tonelada 6x6, com o primeiro veículo dessa família sendo o G-505 WC de ½ tonelada.
A produção em larga escala dos caminhões Dodge WC teve início em 1940, impulsionada pela Segunda Guerra Mundial. Nesse ano, foram fabricadas mais de 6.000 unidades 4x4 de ½ tonelada, que substituíram gradualmente os modelos VC-1 e VC-6 no Exército dos Estados Unidos.  Os  WC-1 e WC-50, de ½ tonelada, apresentavam elevada intercambialidade, compartilhando cerca de 80% dos componentes com os modelos posteriores de ¾ tonelada. Em 1942, a Dodge reorganizou sua linha militar, introduzindo a categoria G-502, de ¾ tonelada, com tração 4x4 e chassi curto, especialmente projetada para missões táticas. A segunda era o G-507, de ½ tonelada, com tração 6x6, concebido prioritariamente para o transporte de cargas e de tropas. Até o encerramento do conflito, em 1945, foram produzidos aproximadamente 535.000 veículos de todas as variantes da família WC, um volume sem precedentes para veículos dessa categoria. Esse expressivo sucesso deveu-se, em grande medida, à comprovada resistência dos veículos em serviço e à sua relação custo-benefício, tanto na construção quanto na operação, fatores que consolidaram a Dodge como um dos pilares fundamentais do esforço logístico aliado durante a guerra. O término da Segunda Guerra Mundial, desencadeou uma rápida desmobilização da indústria militar norte-americana, com o cancelamento de numerosos contratos de produção. A Dodge Motors Company, que havia dedicado praticamente a totalidade de suas linhas industriais à fabricação da família WC, viu-se diante da necessidade urgente de redefinir seus rumos estratégicos para assegurar sua continuidade no cenário do pós-guerra. Demonstrando visão e capacidade de adaptação, a diretoria da empresa voltou-se para o mercado civil, identificando na conversão dos projetos militares uma oportunidade concreta de crescimento. Ao recorrer ao ferramental existente e às soluções técnicas já consolidadas nos veículos da família WC, a Dodge buscou reduzir custos, encurtar prazos de desenvolvimento e preservar a reconhecida robustez que se tornara a marca registrada de seus caminhões. Após a conclusão do último contrato militar, com a entrega das unidades remanescentes do Dodge WC-52, a empresa concentrou seus esforços nesse novo projeto ao longo de 1946. Em março de 1947, foi concluído o primeiro protótipo conceitual, sinalizando o início de uma nova etapa na história da companhia. Entre 1948 e 1949, outros cinco protótipos foram desenvolvidos, incluindo uma versão com potencial aplicação militar. Até maio de 1950, as configurações definitivas, tanto civil quanto militar, estavam estabelecidas e, em 14 de dezembro daquele ano, o primeiro veículo piloto do lote de pré-produção deixou a linha de montagem da unidade Warren Truck Assembly, no estado de Michigan.

Desenvolvido para o mercado comercial,  mantinha componentes da família militar WC, incluindo o motor Dodge T-245 e  transmissão mecânica de quatro marchas Model 88950. A principal inovação foi a adoção do chassi comercial WDX, que simplificou a produção e reduziu os custos de fabricação, preservando a robustez e a confiabilidade. Em janeiro de 1951, iniciou-se a produção em série do novo utilitário comercial 4x4, que conquistou espaço no mercado civil graças à sua robustez, versatilidade. Seu sucesso demonstrou a capacidade da fabricante de adaptar a experiência adquirida durante a Segunda Guerra Mundial às necessidades do mercado do pós-guerra, oferecendo um veículo confiável para diferentes aplicações profissionais e condições severas de operação. Paralelamente, o Exército dos Estados Unidos (U.S. Army), atento ao progressivo envelhecimento de sua frota de WC-51 e WC-52, iniciou estudos preliminares visando à aquisição de um novo utilitário de porte médio. O objetivo era promover a modernização gradual de sua capacidade operacional. Antes mesmo da abertura de um processo formal de concorrência, foi apresentada a versão militar de seu novo utilitário, designada  M-37, concebida como uma evolução direta dos modelos WC. A adoção do M-37 mostrou-se uma escolha natural, uma vez que o novo veículo mantinha elevada compatibilidade com seus antecessores no que se referia à manutenção e ao suprimento de peças de reposição, assegurando continuidade logística e reduzindo custos operacionais. Em abril de 1951, foi firmado o primeiro contrato de produção. Seu conjunto propulsor permitia ao M-37 atingir velocidade máxima de 89 km/h e autonomia aproximada de 362 km, superando o desempenho dos antigos WC-51 e WC-52.  Ainda em 1951, foram recebidas cerca de 11.000 unidades do M-37, que passaram imediatamente a substituir as viaturas mais antigas em serviço. Seu batismo de fogo ocorreu durante a Guerra da Coreia (1950–1953), quando as primeiras unidades foram enviadas à península coreana em maio de 1952. Atuando lado a lado com os WC-51 e WC-52, o M-37 demonstrou elevada robustez, confiabilidade e versatilidade em condições de combate. A crescente demanda resultante de novos contratos com o Departamento de Defesa dos Estados Unidos (DoD) manteve as linhas de produção em plena atividade, resultando na fabricação de aproximadamente 52.000 viaturas adicionais até meados de 1954. Paralelamente à versão básica de picape, a empresa desenvolveu uma ampla gama de variantes especializadas, destinadas a atender às mais diversas necessidades militares, entre elas o M-42 Carro de Comando, o M-43 Ambulância, o M-56 Oficina, o M-B2 Veículo de Combate a Incêndio e o R-2 Veículo de Resgate Aeroportuário.
Em 1958, o projeto foi submetido a estudos de aprimoramento mecânico e a modificações de caráter estético e funcional, resultando no lançamento do M-37B1. Seria empregada nas fases iniciais da Guerra do Vietnã, servindo tanto ao Exército dos Estados Unidos (U.S. Army) quanto ao Exército da República do Vietnã (ARV). Até o final de 1968, foram produzidas aproximadamente 47.000 viaturas adicionais, abrangendo variantes como o M-37B1,  M-201V41 Veículo de Manutenção Telefônica,  M-283 Veículo de Carga de entre-eixos longo (LWB),  M-596 Veículo de Transporte de Peróxido de Hidrogênio, vinculado ao projeto Redstone, e o V-126, plataforma móvel destinada ao sistema de radar AN/MPX-7. Além disso, três modelos experimentais XM-152, XM-708 e XM-711 foram desenvolvidos para a Força Aérea dos Estados Unidos (USAF).  Entre 1951 e 1955, aproximadamente 4.500 veículos da família M-37 foram montados sob licença no Canadá, recebendo a designação M-37CDN e o apelido local de “Power Wagon”. Essas viaturas, produzidas principalmente nas versões de transporte básico e ambulância, refletiam a robustez e a versatilidade que caracterizavam a linha original. Parte desses veículos, após anos de uso pelas forças canadenses, foi transferida para as forças armadas da Grécia e de Israel, onde continuaram a servir com distinção por longos períodos. A partir de 1968, foi iniciada a substituição dos modelos Dodge M-37 e M-37B1 pelo novo utilitário Kaiser Jeep M-715, projetado com uma capacidade nominal de carga superior, de 1¼ tonelada. Apesar dessa vantagem, o M-715, baseado em veículos comerciais adaptados para uso militar (Commercial Off-The-Shelf), foi inicialmente percebido pelos usuários como menos potente e mais frágil em comparação com os robustos caminhões táticos M-37. Essa transição gerou um excedente significativo de veículos M-37 em bom estado de conservação, que, após serem retirados do serviço ativo, foram redistribuídos a nações aliadas por meio de programas de assistência militar patrocinados pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos. Países como Argentina, França, Espanha, Áustria, Brasil, Bélgica, Grécia, Irã, Cuba, Portugal, África do Sul, Israel e Suíça receberam essas viaturas, que se tornaram instrumentos valiosos em suas forças armadas. Além disso,  foram empregados em diversos conflitos regionais, incluindo a Guerra Civil no Camboja, a Revolução na Nicarágua, a Guerra Civil em El Salvador e a Guerra Civil na Guatemala, onde sua resistência e capacidade de operar em condições adversas continuaram a fazer a diferença. Até o final da década de 1990, centenas desses veículos ainda permaneciam em operação militar ao redor do mundo, um testemunho de sua engenhosidade e longevidade. 

Emprego nas Forças Armadas Brasileiras.
Com o avanço da Segunda Guerra Mundial e a queda da França, em 1940, os Estados Unidos intensificaram as preocupações com a defesa do continente americano. Nesse contexto, o Brasil assumiu importância estratégica devido à posição geográfica do Nordeste, essencial para o estabelecimento de bases aéreas e portos militares destinados ao transporte de tropas e suprimentos para a Europa e o norte da África. A aproximação entre os dois países resultou na participação brasileira no programa Lend-Lease, que disponibilizou cerca de US$ 100 milhões em crédito para a aquisição de equipamentos militares norte-americanos. A partir do final de 1941, o recebimento desses materiais impulsionou a modernização das Forças Armadas Brasileiras, incluindo a incorporação dos utilitários Dodge WC-51 e WC-52, com tração integral 4x4, cujas entregas começaram no final de 1942. Esses modelos foram posteriormente complementados por outras variantes da família WC, incluindo os carros de comando WC-53, WC-56 e WC-57, a ambulância WC-54, bem como os utilitários de maior capacidade WC-62 e WC-63. Cabe destacar que a quase totalidade dos lotes destinados era composta por veículos novos, recém-saídos das linhas de produção da Dodge Motors e da Fargo Motor Car, o que assegurava elevados padrões de qualidade, confiabilidade e padronização.  A incorporação dos utilitários Dodge WC-51 e WC-52 representou um avanço na modernização operacional do Exército Brasileiro, substituindo parte da frota composta por veículos civis adaptados para uso militar e complementando os poucos modelos especializados disponíveis, como os alemães Vidal & Sohn Tempo-Werk G1200, adquiridos em 1938. Essa renovação contribuiu para ampliar a mobilidade e a capacidade mecanizada da Força Terrestre. Durante o conflito, foram destinadas à Força Expedicionária Brasileira (FEB) 148  WC-51 e 30 do WC-52, fundamentais para a mobilidade e o apoio logístico na campanha da Itália. Pelo menos três WC-51 também foram cedidos à Força Aérea Brasileira (FAB), apoiando as operações do 1º Grupo de Aviação de Caça (1º GAvCa) e da 1ª Esquadrilha de Ligação e Observação (1ª ELO). Até meados de 1945, o Brasil havia recebido 954 viaturas desses modelos, ampliando significativamente sua capacidade operacional. No período pós-guerra, essas viaturas, carinhosamente apelidadas de “Dodge Japão” pelos militares brasileiros, foram distribuídas gradualmente a diversas unidades espalhadas pelo território nacional. Por muitos anos, prestaram serviços inestimáveis ao as forças armadas, destacando-se por sua robustez e versatilidade em tarefas administrativas, logísticas e operacionais. Esses veículos não apenas facilitaram a modernização das Forças Armadas, mas também se tornaram símbolos da resiliência dos “pracinhas” que os operaram. 

A partir de meados da década de 1950, a disponibilidade operacional dos Dodge WC-51 e WC-52 no Exército Brasileiro começou a diminuir devido à escassez de peças de reposição e ao desgaste natural das viaturas. Com o encerramento da produção da família WC em 1945, a manutenção tornou-se cada vez mais difícil, gerando preocupação quanto à preservação da mobilidade e da capacidade operacional da Força Terrestre. Diante desse cenário, foram iniciados estudos para encontrar alternativas que permitissem manter a frota em condições de emprego, sem exigir investimentos incompatíveis com os recursos orçamentários disponíveis. A primeira possibilidade considerada foi a aquisição de viaturas novas da família Dodge M-37 e de suas variantes especializadas. Entretanto, a renovação integral da frota representaria um encargo financeiro elevado, devido a necessidade de substituir  aproximadamente 1.300 veículos. Isto exigiria recursos superiores à dotação orçamentária destinada pelo Ministério do Exército à renovação dos meios de transporte, cenário que se repetia junto as demais  Forças Armadas. Nesse contexto, duas alternativas passaram a ser consideradas: prolongar a vida útil das viaturas existentes por meio de intervenções mecânicas mais profundas ou recorrer à aquisição de veículos produzidos pela nascente indústria automobilística brasileira, adaptados às exigências do serviço militar. A primeira opção oferecia a possibilidade de aproveitar a estrutura já disponível, reduzindo os custos imediatos e adiando a necessidade de uma substituição em larga escala. Os estudos de repotenciação ficaram a cargo da equipe técnica do Parque Regional de Motomecanização da 2ª Região Militar (PqRMM/2), em São Paulo, que investigou a possibilidade de substituir os motores originais a gasolina Dodge T-214 por unidades a diesel fabricadas no Brasil. A iniciativa refletia uma tendência de racionalização dos meios militares, buscando maior autonomia na manutenção e menor dependência de componentes importados. Apesar das perspectivas favoráveis, dificuldades de ordem técnica e logística impediram que o projeto avançasse além da fase de protótipo, inviabilizando sua aplicação em escala na frota existente. Como alternativa imediata, optou-se pela retífica dos motores originais a gasolina, medida que permitia recuperar parte da capacidade operacional das viaturas sem exigir uma transformação estrutural dos veículos. Esse trabalho abrangeu uma parcela dos  WC-51 e WC-52, além de algumas dezenas dos modelos WC-56 e WC-57. Embora não solucionasse o problema da escassez de peças nem representasse uma modernização definitiva, a iniciativa contribuiu para prolongar a vida útil de parte da frota. Essas medidas evidenciam as dificuldades enfrentadas  na manutenção de uma frota numerosa, mas progressivamente envelhecida.
Ao longo da década de 1960, a Willys Overland do Brasil (WOB), exercia papel de destaque como fornecedora de veículos militares para o Exército Brasileiro. A partir da sólida plataforma do Rural Willys, foram desenvolvidas versões especificamente adaptadas ao uso castrense, entre as quais se destacou a Camioneta Militar Jeep Willys ¾ ton 4x4. Foram concebidos para atender a uma ampla variedade de missões operacionais. Grande parte da frota recebeu suportes para armamentos coletivos, como metralhadoras de 12,7 mm e 7,62 mm, o que lhes conferia capacidade de resposta em ações de caráter tático. Surgiram variantes especializadas, incluindo plataformas destinadas à instalação do canhão sem recuo M-40A1 de 106 mm e lançadores de foguetes na versão M-106, ampliando de forma significativa o emprego operacional. A introdução desses modelos, a partir de 1962, representou um passo importante na recuperação da capacidade operacional, então afetada pelo envelhecimento progressivo de sua frota. Contudo, por se tratarem de veículos militarizados, os Willys não apresentavam o mesmo nível de robustez estrutural e resistência em condições extremas que haviam caracterizado os antigos WC-51/52, deixando evidente uma lacuna em termos de desempenho em operações mais exigentes. Diante desse quadro, passou-se a buscar soluções mais abrangentes para a renovação de seus meios, recorrendo aos mecanismos previstos no Programa de Assistência Militar Brasil–Estados Unidos (MAP). A partir de 1964, negociações conduzidas, resultaram na celebração de um amplo acordo que previa a aquisição de um pacote significativo de equipamentos militares. Esse conjunto incluía carros de combate, blindados de transporte de tropas, veículos leves e caminhões, destinados à modernização das forças armadas. Entre os veículos cedidos ao Brasil, destacou-se a incorporação de um número expressivo de utilitários com tração integral 4x4 da família Dodge M-37, abrangendo a versão básica de transporte, o M-56, destinado à manutenção de telecomunicações, e a ambulância M-43 (M-615). Reconhecidos por sua durabilidade, confiabilidade e versatilidade, esses veículos representaram um avanço substancial na substituição definitiva das antigas viaturas Dodge WC, atendendo de forma mais adequada às exigências de mobilidade, apoio e suporte em operações críticas. A chegada dos Willys militarizados e, posteriormente, dos Dodge M-37 simbolizou o esforço contínuo do Brasil em modernizar suas Forças Armadas, mesmo diante de limitações orçamentárias e desafios tecnológicos. A partir de abril de 1966, os primeiros lotes  começaram a desembarcar no porto do Rio de Janeiro, quando se constatou que grande parte da frota encontrava-se em excelente estado de conservação, oriunda dos estoques da reserva norte-americana.

A incorporação dos utilitários M-37, M-56 e M-43, representou um marco relevante no processo de modernização das Forças Armadas Brasileiras a partir de meados da década de 1960. Após sua chegada aos portos, foram desembarcados e organizados conforme os destinos previamente estabelecidos, evidenciando um planejamento estratégico voltado ao atendimento das necessidades operacionais dos três ramos das Forças Armadas. O Exército Brasileiro, principal beneficiário desse aporte, recebeu a maior parcela das viaturas, que foram prontamente distribuídas a unidades de infantaria e de saúde. Esses modelos, embora historicamente relevantes, já apresentavam limitações operacionais significativas, sobretudo em razão da crescente escassez de peças de reposição. Nesse contexto, a escolha dos  M-37 mostrou-se particularmente acertada, em grande medida devido ao elevado índice de intercambialidade de componentes com os modelos da família WC, fator que facilitava a manutenção, reduzia custos logísticos e ampliava a disponibilidade operacional das viaturas. Passaram a receber designações específicas, alinhadas às suas funções, como Viatura de Transporte de Pessoal Comando ¾ ton 4x4 (M-37), Viatura Especializada de Comunicações ¾ ton 4x4 (M-56), Viatura Especializada Ambulância ¾ ton 4x4 (M-43) e Viatura de Transporte Não Especializado ¾ ton 4x4 (M-37). Em comparação com seus antecessores, destacavam-se pelo desempenho superior, maior capacidade de carga  de ¾ de tonelada  e por um projeto mais adequado às exigências das operações táticas modernas. Rapidamente, tornaram-se meios indispensáveis, tanto em atividades rotineiras quanto em exercícios militares de maior envergadura. Sua robustez em terrenos difíceis, aliada à versatilidade em missões de transporte de tropas, apoio logístico e evacuação médica, consolidou sua reputação positiva entre os militares brasileiros. Curiosamente, embora existam relatos orais que mencionem a presença de unidades do M-37 equipadas com o guincho hidráulico Braden LU-4 PTO, os registros fotográficos disponíveis até o momento não confirmam a utilização dessa configuração no Brasil, permanecendo o tema como uma questão em aberto para a historiografia militar nacional. A Força Aérea Brasileira (FAB) também foi contemplada no mesmo acordo de fornecimento, recebendo ao menos 10 unidades do M-37 e 05 do M-43. Essas viaturas foram destinadas a bases aéreas, comandos regionais e hospitais da Aeronáutica, onde desempenharam funções orgânicas essenciais, como o transporte de pessoal, equipamentos e o apoio médico. Sua confiabilidade e versatilidade em diferentes condições ambientais contribuíram para aumentar a eficiência logística e fortalecer o processo de modernização militar.
A partir de 1968, o Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil (CFN) passou a incorporar pelo menos três dezenas de utilitários Dodge M-37, o que representou um avanço significativo na capacidade de mobilidade dos batalhões de infantaria da Força de Fuzileiros da Esquadra (FFE). Sua introdução representou um avanço em relação às viaturas mais antigas, contribuindo para a renovação da frota e o fortalecimento da prontidão operacional, tanto em missões terrestres quanto anfíbias. Essa capacidade seria ainda ampliada em 1971, com a incorporação  do navio de desembarque de carros de combate NDCC Garcia D’Avila (G-28), pertencente à classe LST 511–1152. Tratava-se da primeira embarcação da esquadra brasileira com capacidade plena para realizar desembarques diretos de veículos sobre rodas em praias, ampliando de forma decisiva o potencial de emprego dos  M-37 em operações anfíbias. Essa nova doutrina operacional foi colocada à prova em abril de 1974, durante a Operação Dragão IX, exercício militar que simulou um desembarque anfíbio em um teatro de operações fictício. Na ocasião, os M-37, transportados a bordo do NDCC Garcia D’Avila, demonstraram elevada eficácia ao serem desembarcados com rapidez e ao operar em condições adversas logo após atingir a praia, consolidando sua importância como meio orgânico de apoio à manobra anfíbia. Os M-37 permaneceram em serviço  até meados da década de 1980, quando passaram a ser gradualmente substituídos pela versão militarizada do Toyota Bandeirante, veículo de fabricação nacional que refletia o crescente investimento brasileiro no fortalecimento de sua indústria automotiva e de defesa. Mesmo após sua retirada de serviço, os M-37 deixaram um legado duradouro de confiabilidade, simplicidade mecânica e versatilidade, tendo contribuído de maneira significativa para o aprimoramento da capacidade operacional  em um período marcado por intensos esforços de modernização. No Exército Brasileiro, carinhosamente apelidados pela tropa de “Pata Choca”, tornaram-se verdadeiros símbolos de robustez e dedicação ao longo de décadas de uso intensivo. As variantes especializadas M-43 (M-615), destinadas a funções de ambulância, e M-56, voltadas à manutenção de telecomunicações, foram as primeiras a ser retiradas do serviço ativo, sendo substituídas por viaturas nacionais.  No final da década de 1980, os Dodge M-37 receberam uma sobrevida no Exército Brasileiro por meio de um programa de repotenciação. Algumas dezenas de viaturas foram equipadas com motores diesel Perkins OM4236 (Q20B), de fabricação nacional, acoplados a caixas de mudanças Clark, com cinco marchas à frente e uma à ré. Essa modernização, permitiu a extensão da vida útil dos M-37 até meados da década de 1990, quando, finalmente, começaram a ser substituídos pelos mais modernos Engesa EE-34.

Em Escala.
Para representarmos o Dodge M-37 Viatura Leve sobre Rodas - VLSR pertencente ao Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil (CFN), empregamos o kit da Roden na escala 1/35. Modelo este que prima pelo nível de detalhamento e possibilita também a montagem da versão com o guincho mecânico frontal. Fizemos uso de decais confeccionados pela Decals e Books presentes no set " Forças Armadas do Brasil".
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o último padrão de pintura tático empregado nos veículos leves e médios do Corpo de Fuzileiros Navais (CFN). Inicialmente estes, bem como as viaturas destinadas as demais Forças Armadas, seriam recebidas no esquema padrão do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army). Ao longo dos anos seguintes os Dodge M-37, M-43 e M-56  em serviço no Exército Brasileiro e na Força Aérea Brasileira (FAB) receberiam padrões distintos de pintura e marcações.
Bibliografia : 
- Dodge M-37  – Wikipédia - https://en.wikipedia.org/wiki/Dodge_WC_series
- Manual Técnico – Exército Brasileiro 1951
- Características Gerais de Veículos do Exército Brasileiro – Ministério da Guerra 1947
- Revista da FFE – Edição Comemorativa de aniversário da Força de Fuzileiros da Esquadra