Dodge M-37/43/56 (VE-TNE-VLSR)

História e Desenvolvimento.
No alvorecer do século XX, mais precisamente em 1900, os irmãos John Francis Dodge e Horace Elgin Dodge deram início a um empreendimento ambicioso ao se dedicarem ao desenvolvimento de um automóvel capaz de se diferenciar dos modelos então disponíveis no mercado norte-americano. Em seus primeiros anos, a produção possuía caráter quase artesanal, limitando-se à fabricação de poucas dezenas de veículos. Essa realidade, contudo, seria profundamente transformada a partir de 1914, quando a adoção de métodos de produção em série marcou o surgimento formal da Dodge Brothers Motor Company. Em um curto espaço de tempo, a empresa conquistou posição de destaque no competitivo mercado estadunidense de automóveis de passeio, alcançando participação expressiva e reconhecimento por sua qualidade construtiva. O êxito comercial obtido nesse segmento garantiu os recursos financeiros necessários para que, na década seguinte, a Dodge ampliasse seu portfólio e passasse a desenvolver veículos utilitários destinados ao mercado civil e comercial. A entrada dos Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial representou um novo e decisivo capítulo para a montadora. Nesse contexto, a Dodge tornou-se fornecedora de milhares de veículos militarizados à Força Expedicionária Americana (American Expeditionary Force – AEF), destacando-se modelos como o Dodge Light Repair Truck e a Dodge Ambulance, amplamente empregados nas frentes de combate europeias. A trajetória dos irmãos fundadores, entretanto, foi interrompida de forma prematura com o falecimento de ambos em 1920. A partir de então, o controle acionário da empresa passou para as viúvas, Matilda Dodge e Anna Dodge. Sem a liderança direta de seus criadores, a Dodge Brothers Motor Company acabaria sendo vendida, em 1928, à Chrysler Corporation, inaugurando uma nova fase de sua história sob a administração de um grande conglomerado industrial. Sob o controle da Chrysler, os primeiros veículos utilitários lançados no mercado norte-americano passaram a ser desenvolvidos com base nas plataformas de automóveis de passeio já existentes. Essa estratégia permitiu a redução significativa dos custos de projeto e produção, graças ao compartilhamento de ferramental, componentes e processos industriais. Como resultado, a Dodge conseguiu oferecer produtos a preços competitivos, fortalecendo sua posição no mercado. Assim como ocorrera com os automóveis de passeio, os utilitários da marca alcançaram expressivo sucesso comercial, consolidando a reputação da Dodge como sinônimo de robustez, confiabilidade e versatilidade, especialmente em aplicações severas e em ambientes fora de estrada. O crescimento sustentado das vendas gerou novos recursos financeiros, possibilitando o planejamento de projetos mais ambiciosos no curto e médio prazo. Na primeira metade da década de 1930, o cenário geopolítico internacional começou a se tornar cada vez mais instável, sobretudo na Europa, em razão da ascensão do Partido Nazista na Alemanha, sob a liderança do chanceler Adolf Hitler. Esse ambiente de tensão despertou preocupação em diversas nações, inclusive nos Estados Unidos, que, embora mantivessem oficialmente uma política de neutralidade, acompanhavam atentamente os desdobramentos internacionais. Diante da possibilidade de uma futura corrida armamentista global, a diretoria da Dodge Motor Company identificou uma oportunidade estratégica no setor militar. 

Em 1934, a empresa passou a investir recursos próprios no desenvolvimento de projetos e protótipos conceituais de caminhões militares de médio e grande porte, valendo-se da experiência acumulada durante os fornecimentos realizados às forças armadas norte-americanas na Primeira Guerra Mundial. Em 1937, a Dodge Brothers Motor Company, então já incorporada à Chrysler Corporation, alcançou um importante marco em sua trajetória industrial ao apresentar ao Exército dos Estados Unidos (US Army) seu primeiro caminhão militar experimental. Designado K-39-X-4, o veículo possuía capacidade de carga de 1½ tonelada e tração integral nas quatro rodas, características que refletiam o esforço da empresa em atender às exigências operacionais das forças armadas. Submetido a rigorosos testes de campo, o protótipo demonstrou desempenho satisfatório e elevada robustez, conquistando a confiança dos avaliadores militares. Como resultado, foi firmado um contrato inicial para a produção de 800 unidades. As primeiras entregas ocorreram nos meses seguintes e, diante dos resultados positivos, novos contratos foram celebrados, contemplando os modelos Dodge VC-1 e VC-6, ambos de ½ tonelada, que rapidamente se tornariam elementos centrais no portfólio da companhia. Paralelamente ao fornecimento militar, a Dodge introduziu versões civis desses veículos no mercado norte-americano. O sucesso comercial obtido superou as expectativas e estimulou a expansão da linha de produtos em 1938, com a introdução de novos modelos fabricados na recém-inaugurada unidade industrial Warren Truck Assembly, no estado de Michigan. Projetada especificamente para a produção de caminhões leves e médios, essa planta representou um avanço estratégico significativo na capacidade produtiva e na especialização industrial da empresa. No ano seguinte, em 1939, a Dodge apresentou uma linha completamente renovada de picapes e caminhões, marcada por um design mais moderno e pela adoção da denominação “Job-Rated”. Essa designação refletia o compromisso da marca em oferecer veículos dimensionados para atender, com precisão, às mais diversas demandas de trabalho, reforçando sua reputação de versatilidade, confiabilidade e inovação tecnológica. Enquanto a empresa avançava em sua consolidação industrial, o cenário geopolítico internacional tornava-se progressivamente mais instável, com o agravamento das tensões tanto na Europa quanto na região do Pacífico. Diante da necessidade de modernizar e reequipar suas forças armadas, o Exército dos Estados Unidos estabeleceu um padrão para veículos de transporte militar, classificando-os em cinco categorias de acordo com a capacidade de carga: ½ tonelada, 1½ tonelada, 2½ toneladas, 4 toneladas e 7½ toneladas. Em junho de 1940, o Quartel-General do Corpo de Intendência do Exército (US Army Quartermaster Corps) aprovou oficialmente três modelos de caminhões comerciais com tração integral: o Dodge de 1½ tonelada 4x4, o GMC de 2½ toneladas 6x6 e o Mack de ½ tonelada 6x6. Nesse contexto, a divisão Dodge-Fargo da Chrysler assegurou, no verão de 1940, um contrato de grande relevância para a produção de 14.000 unidades do caminhão de ½ tonelada com tração 4x4, identificado como série VC.
A produção em larga escala teve início em novembro daquele mesmo ano e, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, o modelo passou a ser redesignado como série WC (Weapons Carriers). Ao longo de 1940, a Dodge Motor Company consolidou sua importância no esforço de reaparelhamento militar ao produzir mais de seis mil caminhões leves 4x4 da série Dodge WC de ½ tonelada. Esses veículos substituíram gradualmente os modelos Dodge VC-1 e VC-6, também integrantes da série original G-505, no inventário do Exército dos Estados Unidos. Entre o final de 1940 e o início de 1942, a Dodge, em cooperação com a Fargo Motor Car Company, alcançou a expressiva marca de aproximadamente 82.000 veículos de ½ tonelada com tração integral 4x4 produzidos, consolidando definitivamente sua posição como um dos principais fornecedores de veículos leves militares das forças armadas norte-americanas. Os modelos Dodge WC-1 e WC-50, enquadrados na classe de ½ tonelada, destacavam-se por uma notável taxa de intercambialidade, compartilhando cerca de 80% de seus componentes com os posteriores modelos de ¾ tonelada. Em 1942, a Dodge promoveu uma reorganização e o aprimoramento de sua linha de caminhões militares, estruturando-a em duas categorias principais. A primeira correspondia ao modelo G-502, de ¾ tonelada, dotado de tração integral 4x4 e chassi mais curto, especialmente adequado a missões de caráter tático. A segunda era o G-507, de ½ tonelada, com tração 6x6, concebido prioritariamente para o transporte de cargas e de tropas. Até o encerramento do conflito, em 1945, foram produzidos aproximadamente 535.000 veículos de todas as variantes da família WC, um volume sem precedentes para veículos dessa categoria. Esse expressivo sucesso deveu-se, em grande medida, à comprovada resistência dos veículos em serviço e à sua relação custo-benefício, tanto na construção quanto na operação, fatores que consolidaram a Dodge como um dos pilares fundamentais do esforço logístico aliado durante a guerra. O término da Segunda Guerra Mundial, desencadeou uma rápida desmobilização da indústria militar norte-americana, com o cancelamento de numerosos contratos de produção. A Dodge Motors Company, que havia dedicado praticamente a totalidade de suas linhas industriais à fabricação da família WC, viu-se diante da necessidade urgente de redefinir seus rumos estratégicos para assegurar sua continuidade no cenário do pós-guerra. Demonstrando visão e capacidade de adaptação, a diretoria da empresa voltou-se para o mercado civil, identificando na conversão dos projetos militares uma oportunidade concreta de crescimento. Ao recorrer ao ferramental existente e às soluções técnicas já consolidadas nos veículos da família WC, a Dodge buscou reduzir custos, encurtar prazos de desenvolvimento e preservar a reconhecida robustez que se tornara a marca registrada de seus caminhões. Após a conclusão do último contrato militar, com a entrega das unidades remanescentes do Dodge WC-52, a empresa concentrou seus esforços nesse novo projeto ao longo de 1946. Em março de 1947, foi concluído o primeiro protótipo conceitual, sinalizando o início de uma nova etapa na história da companhia. Entre 1948 e 1949, outros cinco protótipos foram desenvolvidos, incluindo uma versão com potencial aplicação militar. Até maio de 1950, as configurações definitivas, tanto civil quanto militar, estavam estabelecidas e, em 14 de dezembro daquele ano, o primeiro veículo piloto do lote de pré-produção deixou a linha de montagem da unidade Warren Truck Assembly, no estado de Michigan.

Concebido para atender ao mercado comercial, o novo utilitário incorporava diversos componentes herdados da família militar WC, entre eles o motor Dodge T-245, um seis cilindros em linha com potência de 78 hp, derivado do Chrysler Straight-6 da década de 1930, bem como uma transmissão mecânica de quatro marchas. Como principal inovação estrutural, o veículo passou a utilizar um chassi de picape comercial, designado WDX, em substituição ao conjunto militar original, solução que simplificou o processo produtivo e contribuiu para a redução dos custos de fabricação, sem comprometer a durabilidade e a confiabilidade que caracterizavam a marca. Em janeiro de 1951, deu-se início à produção em série de seu novo utilitário comercial com tração integral 4x4. O modelo rapidamente conquistou uma participação expressiva no mercado civil, beneficiando-se de sua elevada durabilidade, versatilidade operacional e da sólida herança técnica dos consagrados veículos militares da família WC. Esse êxito evidenciou a capacidade da Dodge de transferir, de forma eficiente, a experiência acumulada durante o esforço de guerra para as exigências do mercado do pós-guerra, oferecendo veículos aptos a operar em condições severas e em múltiplas aplicações profissionais. Paralelamente, o Exército dos Estados Unidos (U.S Army), atento ao progressivo envelhecimento de sua frota de Dodge WC-51 e WC-52 Beep, em serviço desde o início da década de 1940, iniciou estudos preliminares visando à aquisição de um novo utilitário de porte médio. O objetivo era promover a modernização gradual de sua capacidade logística e operacional. Antes mesmo da abertura de um processo formal de concorrência, a Dodge apresentou a versão militar de seu novo utilitário, designada Dodge M-37, concebida como uma evolução direta dos modelos WC. A adoção do M-37 mostrou-se uma escolha natural, uma vez que o novo veículo mantinha elevada compatibilidade com seus antecessores no que se referia à manutenção e ao suprimento de peças de reposição, assegurando continuidade logística e reduzindo custos operacionais. Em abril de 1951, foi firmado o primeiro contrato de produção, contemplando um modelo equipado com o consagrado motor Dodge T-245, um seis cilindros em linha com potência de 78 hp, associado a uma transmissão manual Model 88950. Esse conjunto propulsor permitia ao M-37 atingir velocidade máxima de 89 km/h e autonomia aproximada de 362 km, superando o desempenho dos antigos WC-51 e WC-52 e atendendo de forma mais adequada às exigências operacionais contemporâneas. Ainda em 1951, o Exército dos Estados Unidos (U.S Army)recebeu cerca de 11.000 unidades do Dodge M-37, que passaram imediatamente a substituir as viaturas mais antigas em serviço. O batismo de fogo do novo modelo ocorreu durante a Guerra da Coreia (1950–1953), quando as primeiras unidades foram enviadas à península coreana em maio de 1952. Atuando lado a lado com os Dodge WC-51 e WC-52, o M-37 demonstrou elevada robustez, confiabilidade e versatilidade em condições de combate. A crescente demanda resultante de novos contratos com o Departamento de Defesa dos Estados Unidos (Department of Defense – DoD) manteve as linhas de produção da Dodge em plena atividade, resultando na fabricação de aproximadamente 52.000 viaturas adicionais até meados de 1954. Paralelamente à versão básica de picape, a empresa desenvolveu uma ampla gama de variantes especializadas, destinadas a atender às mais diversas necessidades militares, entre elas o M-42 Carro de Comando, o M-43 Ambulância, o M-56 Oficina, o M-B2 Veículo de Combate a Incêndio e o R-2 Veículo de Resgate Aeroportuário.
Em 1958, o projeto original foi submetido a estudos de aprimoramento mecânico e a modificações de caráter estético e funcional, resultando no lançamento do M-37B1. Essa versão modernizada seria empregada nas fases iniciais da Guerra do Vietnã, servindo tanto ao Exército dos Estados Unidos (U.S Army) quanto ao Exército da República do Vietnã (ARV), demonstrando sua capacidade de adaptação a novos cenários operacionais. Até o final de 1968, foram produzidas aproximadamente 47.000 viaturas adicionais, abrangendo variantes como o M-37B1, o M-201V41 Veículo de Manutenção Telefônica, o M-283 Veículo de Carga de entre-eixos longo (LWB), o M-596 Veículo de Transporte de Peróxido de Hidrogênio, vinculado ao projeto Redstone, e o V-126, plataforma móvel destinada ao sistema de radar AN/MPX-7. Além disso, três modelos experimentais XM-152, XM-708 e XM-711 foram desenvolvidos para a Força Aérea dos Estados Unidos (USAF), destacando a versatilidade da plataforma M-37.  Entre 1951 e 1955, aproximadamente 4.500 veículos da família M-37 foram montados sob licença no Canadá, recebendo a designação M-37CDN e o apelido local de “Power Wagon”. Essas viaturas, produzidas principalmente nas versões de transporte básico e ambulância, refletiam a robustez e a versatilidade que caracterizavam a linha original. Parte desses veículos, após anos de uso pelas forças canadenses, foi transferida para as forças armadas da Grécia e de Israel, onde continuaram a servir com distinção por longos períodos, demonstrando a durabilidade e a confiabilidade que tornaram o M-37 um marco na história militar. A partir de 1968, o Exército dos Estados Unidos (US Army) iniciou a substituição dos modelos Dodge M-37 e M-37B1 pelo novo utilitário Kaiser Jeep M-715, projetado com uma capacidade nominal de carga superior, de 1¼ tonelada. Apesar dessa vantagem, o M-715, baseado em veículos comerciais adaptados para uso militar (Commercial Off-The-Shelf – COTS), foi inicialmente percebido pelos usuários como menos potente e mais frágil em comparação com os robustos caminhões táticos Dodge M-37. Essa transição gerou um excedente significativo de veículos M-37 em bom estado de conservação, que, após serem retirados do serviço ativo, foram redistribuídos a nações aliadas por meio de programas de assistência militar patrocinados pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos. Países como Argentina, França, Espanha, Áustria, Brasil, Bélgica, Grécia, Irã, Cuba, Portugal, África do Sul, Israel e Suíça receberam essas viaturas, que se tornaram instrumentos valiosos em suas forças armadas. Além disso, os Dodge M-37 foram empregados em diversos conflitos regionais, incluindo a Guerra Civil no Camboja, a Revolução na Nicarágua, a Guerra Civil em El Salvador e a Guerra Civil na Guatemala, onde sua resistência e capacidade de operar em condições adversas continuaram a fazer a diferença. Até o final da década de 1990, centenas desses veículos ainda permaneciam em operação militar ao redor do mundo, um testemunho de sua engenhosidade e longevidade. O  M-37 não foi apenas um utilitário militar; ele simbolizou a resiliência e a adaptabilidade das forças armadas que o utilizaram, bem como o espírito de cooperação internacional que marcou os esforços de assistência militar no pós-guerra. Sua presença em campos de batalha e operações logísticas por quase meio século reflete um legado de serviço e inovação, perpetuando a memória dos homens e mulheres que confiaram nesses veículos para cumprir suas missões com coragem e dedicação.

Emprego nas Forças Armadas Brasileiras.
No início da Segunda Guerra Mundial, o governo dos Estados Unidos passou a considerar com crescente apreensão a possibilidade de uma ofensiva das potências do Eixo — Alemanha, Itália e Japão — contra o continente americano. A rápida capitulação da França, em 1940, agravou esse quadro ao evidenciar o risco de que territórios coloniais franceses, como as Ilhas Canárias ou Dacar, pudessem ser utilizados como bases avançadas pelas forças alemãs no Atlântico. Nesse contexto, o Brasil destacou-se como um ponto particularmente sensível e estratégico para a defesa hemisférica. Sua posição geográfica, especialmente a proximidade do litoral nordestino com o continente africano, tornava o país vulnerável a eventuais incursões inimigas, ao mesmo tempo em que o colocava no centro das preocupações estratégicas dos Estados Unidos. Tal relevância foi reforçada pelas ambições expansionistas alemãs na África e pelas conquistas japonesas no Sudeste Asiático e no Pacífico Sul, que elevaram o Brasil à condição de principal fornecedor de látex natural, insumo essencial para a produção de borracha e, consequentemente, para a indústria bélica aliada. A importância estratégica brasileira tornou-se ainda mais evidente em razão das características singulares de seu litoral nordeste, o ponto de menor distância entre os continentes americano e africano. Essa região mostrou-se ideal para a instalação de bases aéreas e portos militares, configurando-se como uma verdadeira ponte logística para o deslocamento de tropas, aeronaves e suprimentos destinados aos teatros de operações na Europa e no norte da África. Diante desse cenário, intensificou-se a aproximação política, econômica e militar entre o Brasil e os Estados Unidos, processo que culminou na adesão brasileira ao Lend-Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos). Por meio desse acordo, o Brasil obteve uma linha de crédito inicial de aproximadamente US$ 100 milhões, destinada à aquisição de modernos equipamentos militares, incluindo armamentos, aeronaves, veículos blindados e carros de combate. Esse aporte representou um passo decisivo no processo de modernização das Forças Armadas Brasileiras. A partir do final de 1941, o país passou a receber um volume expressivo de material bélico de origem norte-americana, abrangendo caminhões, veículos utilitários leves, aeronaves, embarcações e diversos tipos de armamentos. O Exército Brasileiro, principal beneficiário desse programa, experimentou uma transformação profunda em suas capacidades logísticas e operacionais. Entre os veículos fornecidos, destacaram-se os utilitários Dodge WC-51 e WC-52, dotados de tração integral 4x4, cujas entregas tiveram início no final de 1942. Esses modelos foram posteriormente complementados por outras variantes da família WC, incluindo os carros de comando WC-53, WC-56 e WC-57, a ambulância WC-54, bem como os utilitários de maior capacidade WC-62 e WC-63. Cabe destacar que a quase totalidade dos lotes destinados era composta por veículos novos, recém-saídos das linhas de produção da Dodge Motors e da Fargo Motor Car, o que assegurava elevados padrões de qualidade, confiabilidade e padronização. A incorporação desses utilitários representou um marco decisivo na evolução da doutrina operacional da Força Terrestre brasileira.  Estes  novos utilitários vieram substituir uma frota, formada majoritariamente por veículos civis adaptados de maneira precária ao uso militar, além de um número reduzido de modelos militares, como os Vidal & Sohn Tempo-Werk G1200, de origem alemã, adquiridos em 1938, mas insuficientes conceber  uma capacidade mecanizada consistente. 

Para equipar a Força Expedicionária Brasileira (FEB), que combateu heroicamente na campanha italiana durante a Segunda Guerra Mundial, foram destinadas 148 unidades do Dodge WC-51 e 30 unidades do Dodge WC-52, veículos essenciais para a mobilidade e logística das tropas em terrenos desafiadores. Registros históricos indicam que pelo menos três WC-51 foram cedidos à Força Aérea Brasileira (FAB), onde desempenharam funções cruciais no transporte de pilotos e cargas, apoiando as missões do 1º Grupo de Aviação de Caça (1º GAvCa) e da 1ª Esquadrilha de Ligação e Observação (1ª ELO). Até meados de 1945, as Forças Armadas Brasileiras receberam um total de 954 viaturas desses modelos, consolidando sua relevância operacional. No período pós-guerra, essas viaturas, carinhosamente apelidadas de “Dodge Japão” pelos militares brasileiros, foram distribuídas gradualmente a diversas unidades espalhadas pelo território nacional. Por muitos anos, prestaram serviços inestimáveis ao as forças armadas, destacando-se por sua robustez e versatilidade em tarefas administrativas, logísticas e operacionais. Esses veículos não apenas facilitaram a modernização das Forças Armadas, mas também se tornaram símbolos da resiliência dos “pracinhas” que os operaram. Entretanto, a partir de meados da década de 1950, a frota de Dodge WC-51 e WC-52 começou a apresentar um preocupante declínio em sua disponibilidade operacional. A principal causa era a dificuldade em obter peças de reposição no mercado internacional, uma vez que a produção desses modelos havia sido descontinuada pela Dodge Motors Company em 1946. Esse cenário, que se agravava ano após ano, gerou grande inquietação no comando do Exército Brasileiro, comprometendo a mobilidade e a eficácia da Força Terrestre. Diante disso, iniciaram-se estudos para encontrar soluções de curto prazo que atendessem a essa demanda crítica.  A primeira alternativa considerada foi a aquisição de viaturas novas da família sucessora, composta pelos modelos Dodge M-37, M-43 e M-43 (M-615), projetados para substituir os antigos WC. Contudo, essa opção revelou-se economicamente inviável, pois a substituição de cerca de 1.300 viaturas incluindo os modelos WC-51, WC-52, WC-53, WC-54, WC-56 e WC-57 exigiria um investimento que ultrapassava a dotação orçamentária do Ministério do Exército destinada à renovação da frota. A mesma limitação financeira afetava os outros ramos das Forças Armadas, que enfrentavam desafios semelhantes. Nesse contexto, duas estratégias foram avaliadas: a repotenciação de parte da frota existente e a aquisição de veículos militarizados produzidos pela nascente indústria automotiva nacional. A primeira alternativa foi conduzida pela equipe técnica do Parque Regional de Motomecanização da 2ª Região Militar (PqRMM/2), em São Paulo, que estudou a substituição dos motores a gasolina Dodge T-214 por modelos a diesel fabricados no Brasil. Apesar do potencial dessa iniciativa, o projeto não avançou além da fase de protótipo devido a limitações técnicas e logísticas. Como medida paliativa, optou-se pela retífica dos motores originais a gasolina, um esforço que abrangeu uma parcela da frota dos WC-51, WC-52, além de algumas dezenas de WC-56 e WC-57. Essa solução, embora temporária, permitiu que esses veículos continuassem a servir com dedicação, prolongando seu legado de serviço.
Ao longo da década de 1960, a Willys Overland do Brasil (WOB) já se encontrava plenamente consolidada como uma das principais montadoras instaladas no país, exercendo papel de destaque como fornecedora de veículos militares para o Exército Brasileiro. A partir da sólida plataforma do Rural Willys, foram desenvolvidas versões especificamente adaptadas ao uso castrense, entre as quais se destacou a Camioneta Militar Jeep Willys ¾ ton 4x4. Esses veículos foram concebidos para atender a uma ampla variedade de missões operacionais. Grande parte da frota recebeu suportes para armamentos coletivos, como metralhadoras de 12,7 mm e 7,62 mm, o que lhes conferia capacidade de resposta em ações de caráter tático. Além da versão básica, surgiram variantes especializadas, incluindo plataformas destinadas à instalação do canhão sem recuo M-40A1 de 106 mm e lançadores de foguetes não guiados, na versão M-106, ampliando de forma significativa a versatilidade e o emprego operacional desses meios. A introdução desses modelos, a partir de 1962, representou um passo importante na recuperação da capacidade operacional da Força Terrestre, então afetada pelo envelhecimento progressivo de sua frota. Contudo, por se tratarem de veículos de origem civil adaptados ao serviço militar, os Willys não apresentavam o mesmo nível de robustez estrutural e resistência em condições extremas que haviam caracterizado os antigos Dodge WC-51 e WC-52, deixando evidente uma lacuna em termos de desempenho em operações mais exigentes. Diante desse quadro, o Ministério do Exército passou a buscar soluções mais abrangentes para a renovação de seus meios, recorrendo aos mecanismos previstos no Programa de Assistência Militar Brasil–Estados Unidos (Military Assistance Program – MAP). A partir de 1964, negociações conduzidas com o Departamento de Estado norte-americano resultaram na celebração de um amplo acordo que previa a aquisição de um pacote significativo de equipamentos militares. Esse conjunto incluía carros de combate, blindados de transporte de tropas, veículos leves e caminhões, destinados à modernização não apenas do Exército Brasileiro, mas também da Força Aérea Brasileira (FAB) e da Marinha do Brasil, fortalecendo de maneira integrada a capacidade logística e operacional das Forças Armadas. Entre os veículos cedidos ao Brasil, destacou-se a incorporação de um número expressivo de utilitários com tração integral 4x4 da família Dodge M-37, abrangendo a versão básica de transporte, o M-56, destinado à manutenção de telecomunicações, e a ambulância M-43 (M-615). Reconhecidos por sua durabilidade, confiabilidade e versatilidade, esses veículos representaram um avanço substancial na substituição definitiva das antigas viaturas Dodge WC, atendendo de forma mais adequada às exigências de mobilidade, apoio e suporte em operações críticas. A chegada dos Willys militarizados e, posteriormente, dos Dodge M-37 simbolizou o esforço contínuo do Brasil em modernizar suas Forças Armadas, mesmo diante de limitações orçamentárias e desafios tecnológicos. A partir de abril de 1966, os primeiros lotes desses veículos começaram a desembarcar no porto do Rio de Janeiro, quando se constatou que grande parte da frota encontrava-se em excelente estado de conservação, oriunda dos estoques de reserva estratégica do Exército dos Estados Unidos (US Army).

A incorporação dos utilitários Dodge M-37, M-56 e M-43 ao Brasil, no âmbito do Programa de Assistência Militar Brasil–Estados Unidos (Military Assistance Program – MAP), representou um marco relevante no processo de modernização das Forças Armadas Brasileiras a partir de meados da década de 1960. Após sua chegada aos portos nacionais, esses veículos eram cuidadosamente desembarcados e organizados conforme os destinos previamente estabelecidos, evidenciando um planejamento estratégico voltado ao atendimento das necessidades operacionais dos três ramos das Forças Armadas: o Exército Brasileiro, a Força Aérea Brasileira (FAB) e a Marinha do Brasil. O Exército Brasileiro, principal beneficiário desse aporte, recebeu a maior parcela das viaturas, que foram prontamente distribuídas a unidades de infantaria e de saúde ainda equipadas com os veteranos Dodge WC-51, WC-52 e WC-54 Ambulância. Esses modelos, embora historicamente relevantes, já apresentavam limitações operacionais significativas, sobretudo em razão da crescente escassez de peças de reposição. Nesse contexto, a escolha dos Dodge M-37 mostrou-se particularmente acertada, em grande medida devido ao elevado índice de intercambialidade de componentes com os modelos da família WC, fator que facilitava a manutenção, reduzia custos logísticos e ampliava a disponibilidade operacional das viaturas. No âmbito do Exército Brasileiro, esses veículos passaram a receber designações específicas, alinhadas às suas funções operacionais: Viatura de Transporte de Pessoal Comando ¾ ton 4x4 (M-37), Viatura Especializada de Comunicações ¾ ton 4x4 (M-56), Viatura Especializada Ambulância ¾ ton 4x4 (M-43) e Viatura de Transporte Não Especializado ¾ ton 4x4 (M-37). Todas essas variantes eram equipadas com o consagrado motor Dodge T-245, um seis cilindros a gasolina com potência de 78 hp, associado a uma transmissão manual Model 88950 de quatro marchas. Esse conjunto mecânico permitia velocidade máxima aproximada de 89 km/h e autonomia em torno de 362 km. Em comparação com seus antecessores, os Dodge M-37 destacavam-se pelo desempenho superior, maior capacidade de carga  de ¾ de tonelada  e por um projeto mais adequado às exigências das operações táticas modernas. Rapidamente, tornaram-se meios indispensáveis à Força Terrestre, tanto em atividades rotineiras quanto em exercícios militares de maior envergadura. Sua robustez em terrenos difíceis, aliada à versatilidade em missões de transporte de tropas, apoio logístico e evacuação médica, consolidou sua reputação positiva entre os militares brasileiros. Curiosamente, embora existam relatos orais que mencionem a presença de unidades do M-37 equipadas com o guincho hidráulico Braden LU-4 PTO, os registros fotográficos disponíveis até o momento não confirmam a utilização dessa configuração no Brasil, permanecendo o tema como uma questão em aberto para a historiografia militar nacional. A Força Aérea Brasileira (FAB) também foi contemplada no mesmo acordo de fornecimento, recebendo ao menos dez unidades do M-37 e cinco do M-43. Essas viaturas foram destinadas a bases aéreas, comandos regionais e hospitais da Aeronáutica, onde desempenharam funções orgânicas essenciais, como o transporte de pessoal, equipamentos e o apoio médico. A confiabilidade e a capacidade de operar em diferentes condições ambientais reforçaram significativamente a eficiência logística da Força Aérea Brasileira (FAB), complementando de forma coerente o esforço mais amplo de modernização d
A partir de 1968, o Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil (CFN) passou a incorporar pelo menos três dezenas de utilitários Dodge M-37, o que representou um avanço significativo na capacidade de mobilidade dos batalhões de infantaria da Força de Fuzileiros da Esquadra (FFE). Dotados de tração integral 4x4 e equipados com o consagrado motor Dodge T-245, de 78 hp, esses veículos ofereceram elevados níveis de robustez, confiabilidade e versatilidade, permitindo aos fuzileiros navais operar com maior eficiência em terrenos difíceis e em ambientes operacionais variados. A introdução dos M-37 constituiu um salto qualitativo em relação às viaturas anteriormente em serviço, contribuindo para a substituição de meios mais antigos e para o fortalecimento da prontidão operacional, especialmente no contexto das missões anfíbias e terrestres que caracterizam o emprego da força. Essa capacidade seria ainda ampliada em 1971, com a incorporação à Marinha do Brasil do navio de desembarque de carros de combate NDCC Garcia D’Avila (G-28), pertencente à classe LST 511–1152 e adquirido dos Estados Unidos. Trata-se da primeira embarcação da esquadra brasileira com capacidade plena para realizar desembarques diretos de veículos sobre rodas em praias, ampliando de forma decisiva o potencial de emprego dos Dodge M-37 em operações anfíbias. Essa nova doutrina operacional foi colocada à prova em abril de 1974, durante a Operação Dragão IX, exercício militar que simulou um desembarque anfíbio em um teatro de operações fictício. Na ocasião, os M-37, transportados a bordo do NDCC Garcia D’Avila, demonstraram elevada eficácia ao serem desembarcados com rapidez e ao operar em condições adversas logo após atingir a praia, consolidando sua importância como meio orgânico de apoio à manobra anfíbia do Corpo de Fuzileiros Navais. Os M-37 permaneceram em serviço no CFN até meados da década de 1980, quando passaram a ser gradualmente substituídos pela versão militarizada do Toyota Bandeirante, veículo de fabricação nacional que refletia o crescente investimento brasileiro no fortalecimento de sua indústria automotiva e de defesa. Mesmo após sua retirada de serviço, os M-37 deixaram um legado duradouro de confiabilidade, simplicidade mecânica e versatilidade, tendo contribuído de maneira significativa para o aprimoramento da capacidade operacional do CFN em um período marcado por intensos esforços de modernização. No Exército Brasileiro, os Dodge M-37, carinhosamente apelidados pela tropa de “Pata Choca”, tornaram-se verdadeiros símbolos de robustez e dedicação ao longo de décadas de uso intensivo. Empregados amplamente durante as décadas de 1970 e 1980, esses veículos desempenharam funções variadas, incluindo transporte de pessoal e suprimentos, apoio logístico em grandes exercícios militares e missões de patrulhamento em diferentes regiões do país. As variantes especializadas M-43 (M-615), destinadas a funções de ambulância, e M-56, voltadas à manutenção de telecomunicações, foram as primeiras a ser retiradas do serviço ativo, sendo substituídas por viaturas nacionais.  No final da década de 1980, os Dodge M-37 receberam uma sobrevida no Exército Brasileiro por meio de um programa de repotenciação. Algumas dezenas de viaturas foram equipadas com motores diesel Perkins OM4236 (Q20B), de fabricação nacional, acoplados a caixas de mudanças Clark, com cinco marchas à frente e uma à ré. Essa modernização, permitiu a extensão da vida útil dos M-37 até meados da década de 1990, quando, finalmente, começaram a ser substituídos pelos mais modernos Engesa EE-34.

Em Escala.
Para representarmos o Dodge M-37 Viatura Leve sobre Rodas - VLSR pertencente ao Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil (CFN), empregamos o kit da Roden na escala 1/35. Modelo este que prima pelo nível de detalhamento e possibilita também a montagem da versão com o guincho mecânico frontal. Fizemos uso de decais confeccionados pela Decals e Books presentes no set " Forças Armadas do Brasil".
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o último padrão de pintura tático empregado nos veículos leves e médios do Corpo de Fuzileiros Navais (CFN). Inicialmente estes, bem como as viaturas destinadas as demais Forças Armadas, seriam recebidas no esquema padrão do Exército dos Estados Unidos (US Army). Ao longo dos anos seguintes os Dodge M-37, M-43 e M-56  em serviço no Exército Brasileiro e na Força Aérea Brasileira receberiam padrões distintos de pintura e marcações.

Bibliografia : 
- Dodge M-37  – Wikipédia - https://en.wikipedia.org/wiki/Dodge_WC_series
- Manual Técnico – Exército Brasileiro 1951
- Características Gerais de Veículos do Exército Brasileiro – Ministério da Guerra 1947
- Revista da FFE – Edição Comemorativa de aniversário da Força de Fuzileiros da Esquadra