M-109A3/A5 155 mm (VBC OAP)

História e Desenvolvimento 
A Segunda Guerra Mundial introduziu uma nova dinâmica baseada na elevada mobilidade das forças terrestres e na integração coordenada entre blindados, infantaria, artilharia e apoio aéreo. Essa transformação alterou profundamente os conceitos táticos vigentes até então, obrigando os exércitos das principais potências a adaptarem suas estruturas e doutrinas para atender às exigências de um campo de batalha cada vez mais dinâmico e mecanizado. O principal protagonista foi o Exército Alemão (Wehrmacht), que demonstrou ao mundo a eficácia da doutrina conhecida como Blitzkrieg, ou “guerra-relâmpago”.  Fundamentada na concentração de forças, velocidade de manobra e exploração rápida das rupturas nas linhas inimigas, essa estratégia permitiu aos alemães obter sucessivos êxitos durante os primeiros anos do conflito. Para sustentar o avanço acelerado das formações blindadas e mecanizadas, tornou-se essencial dispor de sistemas de apoio de fogo capazes de acompanhar o ritmo das operações, levando ao desenvolvimento e emprego em larga escala de veículos de artilharia autopropulsada. Nesse contexto surgiram os canhões autopropulsados Sd.Kfz.165 Hummel - 150 mm, o Sturmtiger 606/4 - 380 mm, e os carros de assalto Sturmgeschütz (StuG III). Testemunhando os desdobramentos do conflito, o Exército dos Estados Unidos (U.S. Army) reconheceu a relevância estratégica de incorporar ao seu arsenal veículos de artilharia autopropulsada. Os primeiros esforços concentraram-se no T19 Howitzer Motor Carriage, equipado com um obuseiro de 105 mm montado sobre um chassi meia-lagarta M-3, alcançado relativo êxito. Em 1942 foi lançado o M-7 Priest, concebido inicialmente sobre a  plataforma do  M-3 Lee e do M-4 Sherman, combinando mobilidade, proteção e capacidade de apoio de fogo em um único veículo. Seu apelido, “Priest” (“Padre”), derivava da aparência característica do suporte da metralhadora instalado à frente do compartimento de combate, que lembrava um púlpito religioso. Seu batismo de fogo ocorreu entre outubro e novembro de 1942 durante a Segunda Batalha de El Alamein, se destacando posteriormente em todos os principais teatros de operações. Durante a Guerra da Coreia, os M-7 Priest e os mais modernos M-37 voltaram a ser empregados em larga escala pelas forças das Nações Unidas. Apesar de continuarem demonstrando elevada eficiência operacional, o conflito coreano expôs limitações que haviam passado despercebidas nos campos de batalha europeus. A geografia da Península Coreana, caracterizada por extensas cadeias montanhosas, vales estreitos e terrenos acidentados, revelou uma deficiência particularmente significativa dos sistemas então em serviço: a limitada elevação de seus armamentos principais. No caso do M-7, cuja elevação máxima era de aproximadamente 35 graus, o engajamento de alvos posicionados em encostas elevadas ou atrás de obstáculos naturais tornava-se frequentemente difícil ou impossível. Essa restrição reduzia a flexibilidade tática das unidades de artilharia e comprometia sua capacidade de apoiar adequadamente as tropas em determinadas situações de combate.

Buscando superar essas limitações, em 1953 seria introduzido o M-52, montado o chassi do carro de combate  M-41. Embora apresentasse avanços importantes, especialmente no aumento da elevação do armamento principal para ângulos entre +65° e -10°, o veículo revelou problemas de confiabilidade mecânica, mobilidade e desempenho operacional. Essas deficiências levaram ao encerramento prematuro de sua produção, reforçando a necessidade de um sistema mais moderno e eficiente para atender às exigências do campo de batalha da Guerra Fria. Diante desse cenário, em 1959 seria lançada uma nova concorrência para o desenvolvimento de uma família de obuseiros autopropulsados de última geração. A responsabilidade pelo projeto foi atribuída à Cadillac Motor Car Division, subsidiária da General Motors, em estreita cooperação com o Detroit Arsenal Tank Plant. O programa possuía uma característica inovadora para a época: previa o desenvolvimento simultâneo de dois sistemas de artilharia distintos, um armado com um obuseiro de 105 mm e outro equipado com uma peça de 155 mm, ambos compartilhando a mesma plataforma mecânica. Embora derivado conceitualmente do M-41, o novo projeto incorporava profundas modificações estruturais. O chassi foi redesenhado para suportar o aumento de peso decorrente da instalação de uma torre totalmente giratória e dos sistemas de artilharia associados.  Em 1960, foram apresentados os primeiros mock-ups em escala real dos dois veículos, permitindo a avaliação preliminar das soluções adotadas. Na sequência, foram construídos 05  protótipos destinados a uma extensa campanha de testes de campo conduzida ao longo do segundo semestre daquele ano. Os resultados obtidos demonstraram a viabilidade técnica do conceito e permitiram a introdução de diversos aperfeiçoamentos antes do início da produção em série. Os novos sistemas apresentavam características avançadas para os padrões da época. O M-108 era equipado com o obuseiro M103 de 105 mm, enquanto o M-109 recebia o obuseiro M126 de 155 mm. Ambas as peças podiam empregar uma ampla variedade de munições padronizadas pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), incluindo projéteis de alto explosivo (HE), fumígenos, iluminativos e munições especiais destinadas a diferentes tipos de missão. No caso do M-109, o alcance inicial ultrapassava os 14.600 metros, podendo ser significativamente ampliado mediante a utilização de munições assistidas por foguete, recurso que aumentava sua capacidade de apoio de fogo em profundidade. Além disso, a viatura podia transportar internamente até 28 projéteis de 155 mm, assegurando razoável autonomia operacional durante as missões de combate. A proteção era proporcionada por uma torre totalmente fechada construída em liga de alumínio. Essa solução permitia reduzir o peso total da viatura sem comprometer excessivamente a proteção da tripulação contra estilhaços de artilharia, munições de armas leves.  Todavia, como ocorria com a maioria dos sistemas de artilharia autopropulsada da época, a blindagem permanecia insuficiente para resistir a impactos diretos de munições anticarro ou de artilharia pesada.

Uma das principais características do projeto era a elevada padronização entre o M-108 e o M-109, que compartilhavam o mesmo chassi, sistema de suspensão, conjunto motriz e diversos componentes mecânicos, simplificando a logística e a manutenção. Ambos eram operados por uma tripulação de cinco militares e utilizavam um motor Detroit Diesel 8V-71T de 405 hp, acoplado a uma transmissão Allison XTG-411-4A, conjunto que lhes permitia atingir velocidades de até 56 km/h e acompanhar formações blindadas em operações de elevada mobilidade. Por ter alcançado a disponibilidade operacional antes do M-109, o M-108 foi o primeiro integrante da nova família de obuseiros autopropulsados a entrar em combate. Em 1965, foi empregado no Vietnã pelo 6º Regimento de Artilharia de Campanha, em Pleiku, apoiando operações contra forças norte-vietnamitas e do Vietcong. O bom desempenho inicial levou à sua rápida expansão para unidades dos 1º e 40º Regimentos de Artilharia de Campanha, que atuavam junto ao Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos (USMC) na região de Đông Hà, próxima à Zona Desmilitarizada (DMZ), onde o sistema demonstrou sua eficácia no apoio de fogo às forças terrestres. Já o M-109 seria implantado naquele teatro de operações em meados do ano de 1966, substituindo os obuseiros rebocados, como o M-114 de 155 mm, integrando batalhões de artilharia de campanha, como a 1ª Divisão de Infantaria e a 25ª Divisão de Infantaria. Sua função principal era fornecer fogo de supressão, apoio à infantaria e bombardeio de posições inimigas, durante seu batismo de fogo,  foi empregado principalmente em missões de apoio às bases de fogo e de supressão e interdição.  Neste último escopo eram disparadas munições de alto explosivo (HE), fumaça e, em alguns casos, munições iluminativas, sendo eficaz contra bunkers, posições fortificadas e concentrações de tropas inimigas. Durante a Ofensiva do Tet (1968) foram cruciais na defesa de cidades como Huế e Saigon, onde forneceram fogo contínuo para conter os ataques surpresa do Viet Cong. Neste contexto mostrava-se muito superior ao M-108, pois embora seu canhao de 105 mm fosse preciso, possuía uma cadência de tiro limitada e um poder de destruição insuficiente para neutralizar alvos fortificados, como bunkers, frequentemente encontrados no teatro de operações. Desta maneira em meados do ano de 1976 seria decidido que o M-109 passassem a substituir os M-108 naquele conflito.  No entanto seu intenso emprego também descortinaria a necessidade melhorias, com destaque para o limitado alcance do canhão M-126, que era  inferior a algumas peças de artilharia soviéticas como o  obuseiro D-30 de 122 mm. Isso exigia que as bases de fogo fossem posicionadas mais próximas das linhas inimigas, aumentando a vulnerabilidade a ataques.  A experiência no Vietnã também destacou a necessidade de melhorias, que originariam o M-109A1 equipado com a  nova versão do motor Detroit Diesel Model 8V-71T acoplado a uma transmissão cross-drive Allison Transmission XTG-411-4A.  A principal evolução estava baseada na introdução do novo canhão M-185 de calibre 39 mm, que apresentava um perfil mais longo, estendendo seu alcance para  18.100 m com munição convencional e até 24.000 m  com munição assistida por foguete. 

O batismo de fogo do M-109A1 ocorreu durante a Guerra do Yom Kippur, em outubro de 1973, quando  foram empregados pelas Forças de Defesa de Israel em intensos combates travados contra forças sírias e egípcias nas frentes do Sinai e das Colinas de Golã. O conflito representou um dos mais severos testes operacionais enfrentados pelo sistema até então, submetendo-o a um ambiente de guerra convencional de alta intensidade caracterizado pelo emprego massivo de blindados, artilharia e meios aéreos.  As lições extraídas dessa experiência contribuíram para orientar o aperfeiçoamento contínuo da plataforma. Entre as primeiras evoluções destacou-se a versão M-109A2, introduzida durante a década de 1970. Essa variante incorporou melhorias substanciais nos aspectos de confiabilidade, disponibilidade e manutenção (Reliability, Availability and Maintainability – RAM), refletindo a crescente preocupação com a redução dos custos de ciclo de vida e o aumento da prontidão operacional. Receberia reforços na proteção balística de componentes sensíveis, incluindo o telescópio panorâmico, o dispositivo de alinhamento M-140 e os equipamentos de visão noturna. A capacidade interna de transporte de munição também foi ampliada, passando de 28 para 36 projéteis, o que aumentava significativamente sua autonomia de combate e reduzia a dependência imediata dos veículos de reabastecimento. Paralelamente, foi desenvolvida uma variante destinada ao mercado internacional, denominada M-109A1B. Concebida para atender às exigências de clientes estrangeiros, essa versão apresentava poucas diferenças externas em relação ao modelo padrão. Durante as décadas de 1970 e 1980, a família continuou a evoluir por meio das versões A3, A3B e A4, que incorporaram uma série de aperfeiçoamentos voltados à sobrevivência da tripulação em ambientes contaminados por agentes nucleares, biológicos e químicos.  Um salto qualitativo particularmente importante ocorreu em 1985 com a introdução do M-109A5 equipado com o canhão M284 de 155 mm e calibre 39, capaz de proporcionar um alcance máximo de aproximadamente 22 quilômetros com munições convencionais e até 30 quilômetros com projéteis assistidos por foguete. O aumento do alcance ampliou significativamente a flexibilidade tática do sistema, permitindo que as unidades de artilharia atuassem a maiores distâncias da linha de frente sem comprometer a eficácia do apoio de fogo. A evolução seguinte resultou no desenvolvimento do M-109A6 Paladin, oficialmente introduzido no início da década de 1990. Recebeu um chassi amplamente aperfeiçoado, incluindo blindagem adicional e revestimentos internos de kevlar destinados a aumentar a proteção da tripulação contra fragmentos e estilhaços. O sistema de armas passou a integrar o canhão M284 ao reparo M182A1, enquanto a reorganização interna do compartimento proporcionou melhores condições para armazenamento seguro de munições e equipamentos. Passaria  a incorporar navegação inercial integrada, sensores automáticos de posicionamento e alinhamento do armamento, além de um avançado sistema de comunicações digitais criptografadas dotado de recursos de proteção contra guerra eletrônica.
A mais recente evolução da família surgiu sob a designação M-109A7, originalmente conhecida como Paladin Integrated Management (PIM). Apresentado inicialmente em 2007, o programa tinha como objetivo garantir a permanência  em serviço durante boa parte do século XXI, incorporando tecnologias derivadas dos mais modernos veículos blindados do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army). Após um extenso programa de desenvolvimento e avaliações operacionais, o M-109A7 passou a incorporar um novo conjunto motriz, arquitetura elétrica digital, sistemas eletrônicos de última geração e melhorias substanciais em mobilidade, confiabilidade e proteção da tripulação.  Em 2013 o programa foi aprovado com a empresa BAE Systems, recebendo um contrato para atualização dos primeiros carros M-109A6 para o padrão M-109A7.  Este novo modelo passou a deter maior peso de deslocamento que seu antecessor, passando proporcionará maior precisão, melhor mobilidade e velocidade de deslocamento. As entregas iniciais ao Exército dos Estados Unidos (U.S. Army) tiveram início em 2015, com o programa devendo atingir 580 carros modernizados ao longo dos próximos anos.  Ao longo de mais de cinco décadas de serviço, os obuseiros autopropulsados da família M-109 estabeleceram-se como um pilar da artilharia moderna, participando de diversos conflitos globais, incluindo as guerras do Vietnã, Yom Kippur, Irã-Iraque, Saara Ocidental, Golfo Pérsico, Iraque, Guerra Civil Iraniana, Guerra Civil Iemenita e Síria. Sua versatilidade e capacidade de adaptação a diferentes cenários de combate consolidaram sua reputação como uma das plataformas de artilharia mais confiáveis e amplamente utilizadas no mundo. Com uma produção total superior a 7.700 unidades, distribuídas em 13 versões distintas, foi fabricado pelas General Motors Co. e BAE Systems, além de produzido sob licença pela Samsung Techwin, na Coreia do Sul. Além de seu país de origem, o M-109. Foi adotado pelas forças armadas de mais de 30 nações, incluindo Líbia, Djibouti, Etiópia, Grécia, Emirados Árabes Unidos, Irã, Kuwait, Marrocos, Omã, Peru, Suíça, Alemanha, Arábia Saudita, Bélgica, Brasil, Dinamarca, Egito, Espanha, Itália, Jordânia, Noruega, Países Baixos, Paquistão, Portugal, Tunísia, Áustria, Canadá, Chile, Filipinas, Iraque, Israel, Tailândia, Reino Unido e Coreia do Sul. Em 1982, uma variante especializada foi desenvolvida: o M-992A2 FAASV (Field Artillery Ammunition Supply Vehicle), um veículo de transporte de munição baseado na plataforma do M109. Projetado para apoiar operações de artilharia, garantiu maior eficiência logística, permitindo o reabastecimento rápido de obuseiros em campo. Embora países como Alemanha e Reino Unido estejam desativando seus M-109, substituindo-os por sistemas mais modernos, como o Panzerhaubitze 2000, nos Estados Unidos permanece em serviço ativo. Projeções indicam que continuará operacional por pelo menos mais duas décadas, até a introdução do M-1299, um sistema de artilharia de alcance estendido. Contudo, vale notar que o M-1299 foi cancelado em 2024 devido a problemas técnicos, reforçando a relevância contínua do M-109A7 e do futuro M-109A52 como pilares da artilharia norte-americana.

Emprego no Exército Brasileiro.
A Artilharia Brasileira possui origens que remontam ao período colonial, tendo participado ativamente das Batalhas dos Guararapes (1648–1649). Desde então, a Arma de Artilharia consolidou-se como um dos pilares fundamentais da organização militar nacional, distinguindo-se por seu elevado grau técnico e pela importância tática no campo de batalha. Durante o período imperial, a artilharia figurava entre as armas mais prestigiadas, exigindo dos oficiais uma formação completa na Academia Militar do Império do Brasil, em contraste com as armas de infantaria e cavalaria, cujos cursos demandavam menor tempo de instrução. Essa exigência refletia o caráter técnico e científico da Arma, que envolvia conhecimentos de balística, geometria, cálculo e mecânica  elementos essenciais à precisão dos fogos e à eficácia do apoio de combate. No início do século XX, a Artilharia de Campanha brasileira ainda operava com canhões Krupp de 75 mm, de tração animal, essa configuração perdurou até a Segunda Guerra Mundial, quando o país enviou a Força Expedicionária Brasileira (FEB) para combater na Campanha da Itália, integrando o V Exército dos Estados Unidos. Sob o comando do General Cordeiro de Farias, a Artilharia Divisionária  desempenhou papel decisivo nas vitórias de Monte Castelo e Montese, em 1945. Paralelamente, durante o mesmo período, a defesa de Fernando de Noronha (1942–1945) evidenciou a capacidade nacional de organizar sistemas de defesa de costa e antiaérea em condições adversas, utilizando artilharia fixa e móvel para proteger o arquipélago contra eventuais incursões navais e aéreas. O término da Segunda Guerra Mundial inaugurou um novo cenário estratégico internacional marcado pela crescente rivalidade entre Estados Unidos e União Soviética. Nesse contexto, o  iniciou-se, a partir de 1952, um amplo programa de reequipamento e modernização no âmbito do Acordo de Assistência Militar Brasil–Estados Unidos, inserido no Programa  de Assistência Militar (MAP). Por meio dessa iniciativa, o país passou a receber uma expressiva quantidade de material militar excedente das forças armadas norte-americanas, abrangendo veículos blindados, carros de combate, caminhões, equipamentos de comunicações e sistemas de artilharia. A partir de agosto de 1960, esse fluxo de material intensificou-se significativamente. Ao longo da década, centenas de viaturas militares passaram a equipar as unidades brasileiras, permitindo uma profunda transformação da estrutura operacional. Em 1970, como parte desse acordo bilateral, o Brasil foi contemplado com a cessão de 72 obuseiros autopropulsados M-108 Howitzer, provenientes dos estoques do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army). A entrega das viaturas teve início no primeiro semestre de 1972, ocasião em que o modelo recebeu sua designação oficial de Viatura Blindada de Combate Obuseiro Autopropulsado (VBCOAP) M-108. Por se tratar de um sistema de armas inédito , sua incorporação demandou uma reestruturação organizacional de grande envergadura, voltada à adaptação doutrinária e logística necessária para a operação e manutenção do novo equipamento. 

Antecipando a chegada das viaturas, em dezembro de 1971, deflagrou-se a criação de quatro Grupamentos de Artilharia de Campanha Autopropulsados (GAC Ap), convertendo unidades de artilharia rebocada em formações totalmente mecanizadas. Essa medida representou não apenas a modernização do parque de artilharia, mas também um marco na evolução doutrinária da Arma, que passava a operar em consonância com os padrões tecnológicos e táticos das forças da OTAN e de outros exércitos ocidentais contemporâneos. No final da década de 1980, o comando do  Exército Brasileiro deu início ao programa Força Terrestre 90 (FT-90), uma iniciativa estratégica concebida pelo Estado-Maior do Exército (EME) com o objetivo de modernizar suas estruturas, equipamentos e doutrinas operacionais, com especial foco na arma blindada. Movido pela necessidade de superar a obsolescência de seus sistemas e preparar a Força Terrestre para os desafios do século XXI, o FT-90 representou um marco na transformação da artilharia autopropulsada brasileira, alinhando-a às demandas de um cenário global em constante evolução. O programa priorizou a modernização da cavalaria blindada e da artilharia de campanha, reconhecendo o papel estratégico dessas armas em um contexto geopolítico marcado pela rivalidade com a Argentina e pela crescente importância da Amazônia como região de interesse nacional. Nesse esforço, optou por aquisições de oportunidade, focando na compra de equipamentos usados, porém em bom estado de conservação. Destacaram-se, nesse período, a incorporação das Viaturas Blindadas de Combate Carro de Combate (VBCCC) alemães Leopard 1A1 e norte-americanas M-60A3 TTS, que fortaleceram significativamente a capacidade operacional da Força. No âmbito da artilharia de campanha, o cenário até então era caracterizado pelo uso de obuseiros convencionais, como os modelos rebocados M-101 de 105 mm e M-102 de 155 mm, além dos autopropulsados M-108 VBC OAP, incorporados em 1972. Esses equipamentos, empregados pelos Grupamentos de Artilharia de Campanha Autopropulsados (GAC AP), já não atendiam plenamente às exigências modernas, demandando a aquisição de um modelo mais avançado principalmente de maior calibre. Contudo, as restrições orçamentárias impostas limitavam a possibilidade de aquisição de veículos novos, levando à formação de uma comissão dedicada a prospectar oportunidades de compra de obuseiros autopropulsados M-109, amplamente utilizados por mais de trinta países na época. Entre as alternativas analisadas pelo Exército Brasileiro para reequipar sua Artilharia de Campanha Autopropulsada, destacou-se a proposta apresentada pelas Forças Armadas da Bélgica (La Défense), que manifestaram interesse em disponibilizar até 40 obuseiros autopropulsados M-109A3, recentemente retirados do serviço ativo em decorrência da incorporação de versões mais modernas da mesma família. 
A oferta revelava-se particularmente atraente não apenas pelo estado geral dos veículos, mas também por incluir um abrangente programa de revisão e atualização técnica a ser conduzido pela empresa belga Sabiex International. A proposta atendia plenamente às necessidades operacionais naquele momento, oferecendo uma solução economicamente viável. Após a conclusão das negociações entre os governos brasileiro e belga, foi constituída uma comissão técnica composta por oficiais especialistas em artilharia e material bélico, enviada à Bélgica com a missão de avaliar e selecionar os 37 exemplares que apresentavam as melhores condições estruturais e mecânicas. Os veículos escolhidos pertenciam à versão M-109A3, resultado de um amplo programa de modernização efetivado na década de 1980.  Esse programa incorporara mais de duas dezenas de aperfeiçoamentos técnicos, destinados a elevar a confiabilidade e o desempenho operacional da plataforma. Entre as principais modificações destacavam-se a adoção do canhão M185 de 155 mm de cano longo, instalado na nova armação M178, o aumento da capacidade de transporte de munição, melhorias nos sistemas de suspensão e transmissão e o reforço da proteção balística de componentes sensíveis, incluindo o conjunto do telescópio panorâmico e os equipamentos de observação e pontaria.  Após a seleção, foram encaminhados às instalações da Sabiex International, onde passaram por um criterioso processo de inspeção, recuperação estrutural, revisão mecânica e atualização de sistemas.  Oficialmente designados como Viatura Blindada de Combate Obuseiro Autopropulsado (VBC OAP) M-109A3, começaram a ser entregues em 06 de outubro de 1999, com outros lotes sendo seguidos, com este processo culminando em 23 23 de abril de 2001, quando foram recebidas as últimas 07 viaturas.  A distribuição dos novos meios foi realizada de forma criteriosa, priorizando as unidades de Artilharia Autopropulsada localizadas na Região Sul do país, tradicional área de concentração das forças blindadas brasileiras. Doze obuseiros foram destinados ao 15º Grupo de Artilharia de Campanha Autopropulsado (15º GAC Ap), sediado na cidade da Lapa, no Paraná; outros doze equiparam o 16º GAC Ap, em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul; enquanto as doze unidades restantes foram destinadas ao 29º GAC Ap, em Cruz Alta, também no Rio Grande do Sul. O último exemplar remanescente foi entregue à Escola de Material Bélico (EsMB), no Rio de Janeiro, sendo posteriormente transferido para o Centro de Instrução de Blindados, onde passou a desempenhar funções de instrução e capacitação técnica. A incorporação dos obuseiros autopropulsados M-109A3 representou um marco importante, ampliando a capacidade de apoio às brigadas blindadas e mecanizadas. Pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, a Artilharia de Campanha brasileira passava a operar um sistema autopropulsado plenamente compatível com os padrões tecnológicos vigentes nas principais forças armadas ocidentais.

Todavia, com o avanço da tecnologia  ao longo dos anos 2000, tornou-se evidente que os M-109A3 começavam a apresentar limitações, especialmente em seus sistemas de direção de tiro, navegação e controle de fogo. Diante desse cenário, foram iniciados estudos visando uma nova etapa de modernização, com este esforço culminando em 2012 , na aquisição de 40 obuseiros autopropulsados M-109A5, disponibilizados pelo governo dos Estados Unidos por intermédio do programa Foreign Military Sales (FMS), na categoria Excess Defense Articles (EDA). A chegada dessa nova versão representou um significativo salto tecnológico, pois seu canhão M284 de 155 mm e calibre 39 oferecia maior alcance, melhor precisão e capacidade ampliada de integração com modernos sistemas de direção de tiro. Entretanto, mesmo antes de sua incorporação definitiva, estudos conduzidos identificaram a possibilidade de realizar uma série de atualizações adicionais, com o objetivo de aproximar os veículos recebidos dos padrões operacionais mais atuais. Assim, foi firmado um contrato de US$ 54 milhões com a BAE Systems para a atualização de 32 veículos, elevando-os à versão M-109A5+ BR. Este programa abrangia  o aumento da potência do motor,  para 440 hp (A5, Low Heat Rejection); ampliação do alcance dos disparos com munição assistida (de 14.600 m para 18.000 m com carga 7; de 18.000 m para 22.000 m com carga 8; e de 23.500 m para 30.000 m com carga 8 HE M549). Incorporação do sistema VFPS (Ventilated Face Piece System), proporcionando ar filtrado e climatizado, essencial para operações em ambientes com ameaças químicas, biológicas ou nucleares (QBN). No campo da eletrônica , seriam integrados componentes presentes na versão M-109A6, como o sistema de posicionamento global (GPS) aliado ao Advanced Field Artillery Tactical Data System (AFATDS), navegação inercial, telas sensíveis ao toque para comando, sistema eletrônico de pontaria com computador balístico e o rádio Harris Falcon III. Além disso, a segurança da tripulação foi reforçada com a adição de um sistema de controle remoto para o bloqueio de viagem do tubo, permitindo ao motorista operar o desbloqueio e bloqueio diretamente de seu compartimento, sem exposição externa.  Foram distribuídos entre duas unidades de destaque: o 3º Grupo de Artilharia de Campanha Autopropulsado (3º GAC Ap), integrante da 6ª Brigada de Infantaria Blindada (6ª Bda Inf Bld), sediada em Santa Maria (RS); e o 5º Grupo de Artilharia de Campanha Autopropulsado (5º GAC Ap), vinculado à 5ª Brigada de Cavalaria Blindada (5ª Bda Cav Bld), em Curitiba (PR). Um marco significativo ocorreu em 18 de novembro de 2019, quando o primeiro tiro real com um M-109A5+ BR foi disparado por um veículo do 3º GAC Ap, simbolizando a plena integração desses obuseiros modernizados às operações. Em 2018, por meio do programa Foreign Military Sales (FMS), o Exército Brasileiro negociou a aquisição de 40 viaturas blindadas de esteiras M-992A2 FAASV. Classificadas como Viatura Blindada de Transporte Especial Remuniciadora (VBTE Remun), garantindo o suporte logístico necessário ao pleno emprego no campo de batalha, assegurando o reabastecimento eficiente de munição.
No mesmo período, consolidou-se definitivamente a padronização do M-109A5 como principal sistema de artilharia autopropulsada. Esse processo foi reforçado pela aquisição de mais 60 obuseiros por intermédio do programa Foreign Military Sales (FMS). Após seu desembarque, em 8 de março de 2018, o foram transferidos para as instalações do Parque Regional de Manutenção da 5ª Região Militar (Pq R Mnt/5), em Curitiba, onde passariam por um criterioso processo de inspeção técnica, revisão e recuperação de 3º escalão. Concluídas as intervenções técnicas, iniciou-se a distribuição  às unidades operacionais, 04 seriam destinados à Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), em Resende, no estado do Rio de Janeiro, onde passaram a ser empregados nas atividades de formação dos futuros oficiais da Arma de Artilharia. Um dos avanços mais relevantes ocorreu na área de comando e controle, com a implementação da versão modernizada M-109A5+BR, integrada a um moderno sistema digital de direção de tiro e gerenciamento do campo de batalha. O elemento central dessa transformação foi a adoção do Advanced Field Artillery Tactical Data System (AFATDS),  adaptado às necessidades nacionais sob a denominação de Sistema Digitalizado de Artilharia de Campanha (SISDAC). Por intermédio , passou a ser possível integrar digitalmente todos os componentes da cadeia de apoio de fogo, abrangendo radares e sensores de busca de alvos, observadores avançados, controladores de apoio de fogo, centrais de direção de tiro e linhas de fogo. O sistema automatiza a transmissão de dados, reduzindo significativamente o tempo entre a detecção do alvo e a execução da missão de tiro. Essa capacidade proporciona maior rapidez na resposta aos pedidos de apoio, reduz a possibilidade de erros humanos decorrentes da transmissão manual de informações e aumenta a precisão dos fogos. Além disso, permite a coordenação simultânea de múltiplas missões por uma mesma unidade de artilharia, otimizando o emprego dos meios disponíveis e ampliando a eficiência operacional dos grupos de artilharia. Neste mesmo período passou-se a estudar alternativas para preservar a capacidade operacional dos M-109A3 , pois  embora  continuassem plenamente aptos ao cumprimento de diversas missões, a idade avançada de seus componentes eletrônicos já há muito se encontrava defasada. Nesse contexto, em 23 de abril de 2024, foi publicada a Portaria nº 1.300-EME/C Ex, que aprovou a diretriz para a implantação do Projeto de Revitalização das Viaturas Blindadas de Combate Obuseiro Autopropulsado M-109A3. A iniciativa passou a integrar o Subprograma Sistema de Artilharia de Campanha (SPrg SAC), atualmente vinculado ao Programa Estratégico do Exército ASTROS (Prg EE ASTROS). O projeto prevê a recuperação e modernização de 27 M-109A3, além dos aspectos de repotenciamento, destaca-se  a completa integração dessas viaturas ao Sistema Digitalizado de Artilharia de Campanha (SISDAC), permitindo que atuem de forma coordenada com os demais elementos do subsistema Linha de Fogo e com os sistemas de apoio ao combate já em operação. A modernização também deverá assegurar a compatibilidade com munições de nova geração e sua plena interoperabilidade com futuros sistemas de artilharia em processo de incorporação.

Em Escala.
Para representar  o obuseiro autopropulsado VBC OAP M-109A3, identificado com o número de registro "EB-6057" do Exército Brasileiro, foi utilizado o kit na escala 1/35 produzido pela Italeri. Esse modelo, embora detalhado, foi projetado para retratar as variantes anteriores M-109A1 e M-109A2, exigindo diversas modificações para corresponder às especificidades da versão empregada no Brasil. Fizemos uso de  decais do conjunto "Forças Armadas do Brasil 1983 – 2002", produzido pela Decal & Books. 
A partir de 1983, o Exército Brasileiro adotou este esquema de pintura tático camuflado em dois tons, conforme as especificações do padrão de cores Federal Standard (FS), para todos os seus blindados de combate. Esse padrão, projetado para otimizar a dissimulação em diferentes ambientes operacionais no pais, sendo aplicados a todos os M-109 atualmente em serviço.
Bibliografia 
- Blindados no Brasil - Um Longo e Árduo Aprendizado - Volume I , por Expedito Carlos Stephani Bastos
Obuseiro Autopropulsado M109-A3 - Expedito Carlos S. Bastos - http://www.ecsbdefesa.com.br/fts/M109.pdf
- M109 A5+BR Uma nova Forma de Atuar da Artilharia do Exército Brasileiro – www.defesanet.com.br
- M109 Howtizer -  Wikipédia - http://en.wikipedia.org/wiki/M109_howitz
Exército irá revitalizar seus obuseiros autopropulsados M109A3 - https://tecnodefesa.com.br/exercito-ira-revitalizar-seus-obuseiros-autopropulsados-m109a3