C-60 e C-66 Lockheed Lodestar

História e Desenvolvimento.
Fundada em 1912 pelos irmãos Allan e Malcolm Lockheed, na cidade de San Diego, a Lockheed Aircraft Manufacturing Company marcou o início de uma trajetória que viria a se tornar uma das mais relevantes da indústria aeronáutica norte-americana. Em seus primeiros anos, a empresa concentrou-se na produção de aeronaves de pequeno porte destinadas ao mercado civil, especialmente voltadas ao turismo e ao treinamento, destacando-se desde cedo pela qualidade construtiva e pela busca constante por inovação tecnológica. Entretanto, o término da Primeira Guerra Mundial, alterou profundamente o panorama do setor aeronáutico. A desmobilização em larga escala de aeronaves militares, posteriormente disponibilizadas no mercado civil a preços reduzidos, gerou uma saturação sem precedentes, impactando severamente fabricantes emergentes. Nesse contexto adverso, a Lockheed Aircraft Manufacturing Company viu-se incapaz de competir, sendo forçada a encerrar suas atividades. Após esse revés, os irmãos Lockheed buscaram novas oportunidades em outros setores, sem, contudo, abandonar sua vocação empreendedora. Esse período de transição não representou o fim de sua atuação na aviação, mas sim o prelúdio de uma nova e mais estruturada fase. Em 1926, Allan retornaria ao setor ao fundar a Lockheed Aircraft Company, estabelecida em Hollywood, em associação com os engenheiros John Northrop, Kenneth Kay e Fred Keeler. A nova empresa rapidamente capitalizou os conhecimentos técnicos previamente adquiridos, especialmente aqueles oriundos do desenvolvimento do protótipo S-1, que serviria de base para o icônico Lockheed Vega. O sucesso desse modelo foi imediato e expressivo: já em 1928, a companhia transferiu sua sede para Burbank, alcançando vendas superiores a um milhão de dólares. Nesse mesmo período, a empresa contava com mais de trezentos funcionários e operava uma linha de montagem capaz de produzir até cinco aeronaves por semana  um feito notável para a época. Todavia, o crescimento acelerado levou à necessidade de novos aportes de capital. Em julho de 1929, Fred Keeler, então acionista majoritário, vendeu 87% das ações da empresa à Detroit Aircraft Corporation, com o objetivo de financiar um ambicioso plano de expansão. Contudo, a eclosão da Grande Depressão, ainda naquele ano, provocou uma abrupta retração do mercado aeronáutico, conduzindo a empresa à insolvência e, posteriormente, à sua liquidação judicial em 1932. A recuperação ocorreria pouco tempo depois, com a aquisição da companhia por um grupo de investidores liderado pelos irmãos Robert Gross e Courtland Gross, em associação com Walter Varney. Esse momento representou um verdadeiro ponto de inflexão, permitindo reestruturar-se e retomar sua trajetória de crescimento ao longo da década de 1930. A confiança do mercado seria rapidamente restabelecida com o lançamento do Model 10 Electra, uma aeronave totalmente metálica projetada para o transporte de até dez passageiros. Introduzido em meados daquela década, o Electra destacou-se por sua confiabilidade, desempenho e modernidade, consolidando-se como um dos principais vetores da aviação comercial norte-americana e reafirmando o protagonismo da Lockheed na evolução tecnológica do setor.

Atenta às demandas emergentes tanto da aviação privada quanto das rotas regionais de transporte aéreo, a Lockheed Aircraft Company lançou, em 1935, o Model 12 Electra Junior, concebido como uma versão reduzida do  Model 10 Electra, com capacidade para seis passageiros. A aeronave destacou-se por apresentar desempenho notável para sua categoria, atingindo velocidade máxima de 362 km/h a 1.525 metros de altitude, razão de subida de 427 metros por minuto, teto de serviço de 6.980 metros e alcance aproximado de 1.290 quilômetros. Tais características posicionaram o Electra Junior como uma solução altamente competitiva, reforçando sua reputação. como uma das mais inovadoras fabricantes aeronáuticas do período. Buscando ampliar seu portfólio e atender ao crescente segmento de aeronaves comerciais de maior capacidade, a empresa deu início ao desenvolvimento de um novo projeto, tomando como base o bem-sucedido Electra. Esse esforço resultou no Lockheed L-14 Super Electra, cuja fuselagem alongada permitia o transporte de até quatorze passageiros. Concebido para competir diretamente com o Douglas DC-2, o modelo enfrentou, contudo, desafios relevantes, sobretudo no que tange aos custos operacionais e de manutenção, que se mostraram superiores aos de seu principal concorrente, comprometendo sua competitividade no mercado norte-americano Em resposta a essas limitações, o fabricante promoveu uma série de aprimoramentos estruturais e operacionais no projeto. Entre as principais modificações, destacou-se a adição de uma seção de 1,68 metro à fuselagem, elevando a capacidade para até dezoito passageiros. O voo inaugural dessa versão aperfeiçoada ocorreu em 21 de setembro de 1938, seguido por um programa abrangente de ensaios em voo, cujos resultados forneceram base técnica para a conversão de outras células e, subsequentemente, para o desenvolvimento de um novo modelo. Esse processo culminou, em 2 de fevereiro de 1939, no primeiro voo do Lockheed L-18 Lodestar. Submetido a rigorosos testes, o modelo passou por refinamentos que resultaram em sua versão inicial de produção. A adoção de uma configuração interna otimizada, com maior número de assentos, contribuiu para melhorar significativamente sua relação custo-benefício, aproximando seu desempenho econômico ao do DC-2 e restabelecendo o equilíbrio competitivo no mercado. Outro aspecto fundamental do projeto foi a ênfase na eficiência operacional. A Lockheed adotou como diretriz a padronização e a flexibilidade logística, concebendo o L-18 Lodestar para operar com diferentes tipos de motores radiais. Entre as opções disponíveis, destacavam-se o Wright R-1820 Cyclone em diversas variantes, bem como o Pratt & Whitney S1E-G Hornet. Essa versatilidade permitiu adaptar a aeronave às necessidades específicas de diferentes operadores, ampliando seu apelo comercial e consolidando o Lodestar como um vetor versátil, eficiente e economicamente viável no competitivo cenário da aviação comercial do final da década de 1930.
Ao longo da década de 1930, a Lockheed Aircraft Company demonstrou notável capacidade de adaptação às dinâmicas do mercado aeronáutico, particularmente por meio do desenvolvimento do  L-18 Lodestar. A flexibilidade na escolha de motorização  contemplando opções como o Wright R-1820 Cyclone e o Pratt & Whitney Hornet  ampliou significativamente a versatilidade e a eficiência operacional do modelo. Associada à ampliação da capacidade de passageiros, essa característica contribuiu para otimizar sua relação custo-benefício, aproximando seu desempenho econômico ao de seu principal concorrente, o Douglas DC-2. Em 30 de março de 1940, o Lodestar obteve sua certificação para operação civil, representando um marco importante em sua trajetória. A Mid-Continent Airlines tornou-se o primeiro operador do modelo, consolidando sua introdução no mercado comercial. Não obstante seus avanços técnicos, o desempenho comercial da aeronave revelou-se aquém das expectativas. Esse cenário deve ser compreendido à luz da introdução, em 1939, do Douglas DC-3. Amplamente reconhecido por sua eficiência, confiabilidade e capacidade de operação em larga escala, o DC-3 rapidamente conquistou a preferência das companhias aéreas, sendo adotado inicialmente pela American Airlines em 26 de junho daquele ano. Sua superioridade operacional e econômica permitiu-lhe dominar tanto o mercado norte-americano quanto o internacional, relegando o Lodestar a uma posição secundária. Como resultado, o L-18 Lodestar registrou apenas 94 encomendas  um volume insuficiente para amortizar plenamente os investimentos realizados em seu desenvolvimento. Tal desempenho colocou a fabricante diante de novas pressões financeiras, evocando, em certa medida, as dificuldades enfrentadas no contexto da Grande Depressão. Entretanto, o agravamento das tensões geopolíticas no final da década de 1930  particularmente diante das ambições expansionistas do Império do Japão e do cenário europeu em ebulição  alterou substancialmente as perspectivas para a indústria aeronáutica. À medida que o mundo se aproximava da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos iniciaram um amplo programa de reequipamento militar. Nesse contexto, o Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC) passou a priorizar a aquisição emergencial de aeronaves de transporte de pessoal e carga, criando uma oportunidade estratégica para a Lockheed. Apesar de seu desempenho limitado no mercado civil, o Lodestar destacou-se nos processos de avaliação militar graças às suas qualidades operacionais, notadamente sua elevada velocidade, alcance e capacidade de carga. Em abril de 1940, a Lockheed entregou a primeira célula customizada do Lodestar, baseada na versão L-18-50, para fins de avaliação. Equipada com dois motores Wright R-1820-89 Cyclone, com potência de 1.100 hp cada, a aeronave foi submetida a um rigoroso programa de testes. Os resultados obtidos evidenciaram o potencial do modelo, levando à formulação de requisitos adicionais , especialmente no que se referia ao aumento da potência nominal, visando aprimorar ainda mais seu desempenho em operações militares.

Esse processo evolutivo culminou no desenvolvimento da versão de pré-produção designada C-56A Lodestar, equipada com dois motores Wright R-1820-97 Cyclone. Os ensaios em voo resultaram em ajustes pontuais, conduzindo à definição da versão final de produção em série, denominada C-56B Lodestar. A transição do modelo para o ambiente militar foi formalizada com a assinatura de um contrato inicial para a produção de trinta unidades da variante C-56B, seguido por encomendas adicionais das versões C-56C e C-56D. Essas adaptações refletiam as exigências específicas do Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC), assegurando que a aeronave desempenhasse um papel relevante nas operações de transporte militar. A capacidade da Lockheed Aircraft Company de adaptar rapidamente o projeto às necessidades operacionais, preservando sua eficiência e confiabilidade, foi determinante para mitigar as dificuldades enfrentadas no mercado civil. Paralelamente, uma variante específica foi desenvolvida para atender às demandas britânicas. Designada C-59 Lodestar IA, essa versão foi produzida para a Força Aérea Real (RAF) e equipada com motores Pratt & Whitney R-1690 Hornet. Posteriormente, o próprio exército norte-americano ampliaria suas encomendas, introduzindo versões adicionais sob a designação  C-60 Lodestar. A partir de 1942, modelo seria adorado pela Marinha dos Estados Unidos (U.S. Navy),  Corpo de Fuzileiros Navais (USMC) e Guarda Costeira (USCG), passando a  sob diferentes designações, como R5O e C-111, ampliando sua presença no esforço de guerra aliado. O chamado “batismo de fogo” do C-56 Lodestar não se materializou em um único episódio de operação em um ambiente de conflagração real , mas sim em uma série contínua de missões logísticas realizadas sob condições adversas, a partir de meados de 1942, quando as primeiras unidades entraram em serviço ativo. Inserido na categoria de aeronaves de transporte tático, seu emprego concentrou-se em tarefas como evacuação aeromédica, suprimento de tropas em linha de frente e transporte de pessoal em regiões com infraestrutura limitada. Seu primeiro grande teste operacional ocorreu no Teatro de Operações do Pacífico, onde integrou unidades de transporte subordinadas à 13th Air Force, operando a partir de bases avançadas em regiões como a Nova Guiné e o arquipélago das Ilhas Salomão. Um marco relevante deu-se durante a Campanha de Guadalcanal, iniciada em agosto de 1942, considerada o primeiro grande confronto terrestre entre forças dos Estados Unidos e do Império do Japão no Pacífico. Durante essa campanha, enquanto unidades da 1st Marine Division enfrentavam intensos combates terrestres, aeronaves Lodestar foram empregadas em missões de reabastecimento  frequentemente realizadas no período noturno  partindo de bases como Efate, nas Novas Hébridas. Essas operações eram conduzidas sob constante ameaça de interceptação por caças japoneses, além do risco representado pelo fogo antiaéreo inimigo. Relatos de época descrevem essas missões como extremamente desafiadoras, marcadas por condições meteorológicas adversas, incluindo tempestades tropicais, e pela constante exposição ao inimigo.
As aeronaves transportavam cargas vitais  munições, suprimentos médicos e rações  sendo essenciais para a sustentação das forças aliadas em combate. As perdas iniciais, estimadas entre 5% e 10% por ciclo de missões, evidenciam o elevado grau de risco envolvido. Um episódio particularmente significativo ocorreu em outubro de 1942, quando um C-56 realizou uma missão de entrega de suprimentos diretamente para posições da 1st Marine Division sob fogo de artilharia costeira japonesa, configurando um dos primeiros empregos operacionais documentados da aeronave em ambiente hostil.  No Teatro Europeu, o batismo veio, em 1943, com o apoio à Operação Torch  o desembarque aliado no Norte da África , com os C-56 operando a partir de bases na Argelia e Marrocos,  transportando paraquedistas da 82nd Airborne Division para missões de sabotagem atrás das linhas do Eixo.  Durante a subsequente Campanha da Tunísia, em fevereiro de 1943, as aeronaves sofreram seu primeiro abate confirmado: um C-56B foi atingido por fogo de Messerschmitt Bf 109 sobre Bizerta, forçando um pouso de emergência. Os dados históricos revelam que, ao longo da guerra, cerca de 200 Lodestars foram convertidos para uso militar, com as variantes C-56 representando cerca de 40 unidades.  Unidades como o 21st Troop Carrier Squadron e o 317th Troop Carrier Group, que acumularam mais de 5.000 horas de voo em missões de combate até 1944.  Além de seu emprego pelas forças armadas norte-americanas e britânicas em praticamente todos os teatros de operações da Segunda Guerra Mundial, a família de aeronaves Lodestar foi incluída como item prioritário no âmbito do programa de assistência militar  Lend-Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos). Nesse contexto, dezenas de unidades foram fornecidas às forças aéreas de países como Nova Zelândia, Austrália, Brasil, Noruega e Canadá. No período pós-guerra, diversas aeronaves pertencentes à Força Aérea do Exército dos Estados Unidos (USAAF) foram retiradas do serviço ativo e classificadas como excedentes de guerra. Essas unidades foram armazenadas para posterior transferência a nações aliadas, incluindo Venezuela, Colômbia, Haiti, Israel, México, Noruega e África do Sul. Paralelamente, uma parcela significativa dessa frota foi disponibilizada para comercialização no mercado de transporte civil, sendo adquirida e operada por companhias aéreas em países como Portugal, Bélgica, Bolívia, Canadá, Chile, Finlândia, França, Honduras, Quênia, Uganda, Porto Rico, Venezuela, Trindade e Tobago, além do Brasil, onde foi utilizada por empresas como Panair do Brasil, NAB, Transportes Aéreos Universal, SAVAG, Linhas Aéreas Wright e Viação Aérea Bahiana. Um aspecto notável é que uma versão esticada do Super Electra, semelhante ao Lodestar, foi produzida sob licença no Japão pela Kawasaki, sob a designação Ki-56. Ao todo, 121 exemplares foram fabricados e empregados como aeronaves de transporte pela Força Aérea do Exército Imperial Japonês entre 1942 e 1945. Até janeiro de 1944, seriam  produzidos um total de 625 unidades do Lodestar, abrangendo tanto as variantes militares quanto as civis. 

Emprego na Força Aérea Brasileira.
Às vésperas da Segunda Guerra Mundial, o governo dos Estados Unidos passou a encarar com crescente apreensão a possibilidade de uma projeção ofensiva das potências do Eixo - Alemanha, Itália e Japão  em direção ao continente americano. Tal preocupação foi significativamente intensificada após a queda da França, em junho de 1940, evento que alterou de forma substancial o equilíbrio estratégico no Atlântico. Nesse contexto, a eventual utilização de territórios coloniais franceses pela Alemanha nazista, como pontos de apoio avançados  a exemplo de Dacar, no Senegal , situados a aproximadamente 2.800 quilômetros do litoral nordeste brasileiro, evidenciava a vulnerabilidade geopolítica do Brasil. Paralelamente, a rápida expansão japonesa no Sudeste Asiático e no Pacífico Sul comprometeu importantes fontes tradicionais de látex, elevando o Brasil à condição de principal fornecedor dessa matéria-prima essencial ao esforço de guerra aliado. A borracha natural, indispensável para a fabricação de pneus, vedações e diversos componentes industriais críticos, tornou-se um recurso estratégico de primeira ordem. Nesse cenário, a posição geográfica do litoral nordestino brasileiro adquiriu relevância singular. Representando o ponto de menor distância entre os continentes americano e africano, a região consolidou-se como eixo logístico fundamental para o fluxo de tropas, equipamentos e suprimentos destinados aos teatros de operações na Europa e no Norte da África. Portos como Natal e Recife, bem como a Base Aérea de Parnamirim  conhecida como “Trampolim da Vitória” , desempenharam papel decisivo na sustentação das rotas aéreas e marítimas aliadas, contribuindo diretamente para a eficiência operacional do esforço de guerra. Sob a liderança do presidente Getúlio Vargas, o Brasil aprofundou sua aproximação diplomática e militar com os Estados Unidos, alinhando seus interesses estratégicos à causa aliada. Esse processo culminou na adesão ao Lend-Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos), mecanismo que viabilizou o fornecimento de recursos financeiros e materiais destinados à modernização das forças armadas brasileiras. Tal acordo representou um marco decisivo para o país. A recém-criada Força Aérea Brasileira, instituída em 20 de janeiro de 1941, enfrentava limitações significativas decorrentes da obsolescência de seus meios e da ausência de uma doutrina operacional plenamente desenvolvida. Por meio do programa, o Brasil teve acesso a uma linha de crédito inicial de 100 milhões de dólares  montante expressivo à época , destinada à aquisição de equipamentos militares modernos, incluindo aeronaves, veículos blindados e armamentos diversos. Esses recursos mostraram-se fundamentais diante das ameaças concretas que se materializariam pouco depois, como a intensificação da guerra submarina no Atlântico Sul. Entre 1942 e 1945, submarinos alemães (U-boats) afundaram ao menos 36 navios brasileiros, comprometendo seriamente a navegação e evidenciando a urgência da modernização militar. Nesse contexto, a recém-criada Força Aérea Brasileira (FAB) iniciou sua trajetória operacional dispondo, em grande medida, de aeronaves já tecnologicamente superadas e, portanto, inadequadas às exigências impostas por um conflito de escala global. 

Tal realidade evidenciava a urgência de um amplo processo de reequipamento e capacitação. No que concerne especificamente ao transporte de carga e pessoal, a carência era praticamente absoluta. A frota disponível restringia-se a aeronaves monomotoras de pequeno porte, como os Waco EGC-7, Fairchild 24 e Beechcraft D-17, empregadas predominantemente em missões de ligação e nas rotas do Correio Aéreo Nacional (CAN). Esses vetores apresentavam severas limitações operacionais, com capacidade de carga inferior a 500 kg e alcance reduzido, geralmente abaixo de 600 quilômetros, sendo mais adequados a tarefas administrativas, de treinamento básico ou de apoio logístico leve. De forma complementar, alguns exemplares do bimotor alemão Focke-Wulf Fw 58  poderiam ser empregados em missões de transporte leve. Contudo, sua operação era marcada por restrições significativas, sobretudo em função da crescente escassez de peças de reposição, decorrente do agravamento das tensões diplomáticas com a Alemanha. No transporte de autoridades, a situação também era limitada. Inicialmente, dispunha-se de apenas 04 aeronaves do modelo Lockheed L-12A Electra Junior, adquiridas em 1937 pela Aviação Militar do Exército Brasileiro. À época, tratava-se de um equipamento relativamente moderno. Posteriormente, outras quatro células foram incorporadas, oriundas de um contrato firmado no início de 1941, ainda sob a égide do Exército, às vésperas da criação do Ministério da Aeronáutica (MAer). Esses aviões receberam a designação militar UC-40 e foram destinados à Seção de Aviões de Comando (SAC). Apesar de representarem os meios mais avançados então disponíveis para o transporte de pessoal, os Electra Junior rapidamente demonstraram limitações operacionais relevantes, como autonomia reduzida, capacidade restrita de voo por instrumentos e inadequação das acomodações internas. Tais fatores tornavam-nos impróprios para o transporte do Presidente da República e de autoridades de alto escalão. Diante dessa lacuna, a Comissão de Compras de Material Aeronáutico sediada em Washington, viabilizou, no âmbito do Lend-Lease Act, a aquisição de uma aeronave do modelo Lockheed L-18-08 Lodestar (número de série 18-2148). O aparelho foi convertido para a versão VIP L-18-10-0, originalmente concebida para o transporte de oficiais de alta patente do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army). Designada inicialmente pelo fabricante como C-66, essa aeronave constituiu um exemplar singular, produzido em configuração especialmente adaptada para transporte de altas autoridades, sendo, inclusive, associada à possibilidade de uso pelo presidente Franklin D. Roosevelt. Equipada com motores Pratt & Whitney R-1830-53 Twin Wasp de 1.200 hp, a aeronave apresentava desempenho satisfatório para a época, com velocidade de cruzeiro em torno de 370 km/h e alcance aproximado de 1.600 quilômetros. Internamente, o C-66 distinguia-se das demais aeronaves da família Lodestar destinadas ao uso militar convencional, dispondo de configuração voltada ao conforto e à funcionalidade, com poltronas reclináveis, mesas de trabalho, sofá, compartimento de serviço (galley) e outros recursos compatíveis com sua missão de transporte de autoridades.
Em 25 de dezembro de 1941, os aviadores brasileiros Nero Moura e Oswaldo Pamplona Pinto receberam oficialmente a aeronave Lockheed C-66 Lodestar nas instalações da Lockheed Vega Aircraft Company, em Los Angeles, Califórnia. Tratava-se de um exemplar singular, correspondente à variante Model 18-10-01, concebido especificamente para o transporte de autoridades, com configuração interna de alto padrão, composta por 11 assentos dispostos em layout de luxo. O aparelho era equipado com dois motores Pratt & Whitney R-1830-53 Twin Wasp, cada um com potência de 1.200 hp, conferindo-lhe desempenho confiável para operações de média distância. Antes de seu translado ao Brasil, os pilotos dedicaram-se a um período de adaptação e familiarização com as características técnicas da aeronave, etapa fundamental para assegurar a condução segura do voo em longas distâncias, bem como sua operação em condições climáticas tropicais e em infraestruturas aeroportuárias ainda limitadas. Após sua chegada ao Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, o C-66 foi formalmente incorporado à Seção de Aviões de Comando(SAC), sendo imediatamente designado para o transporte presidencial. Rapidamente, a aeronave passou a ser conhecida como “O Avião de Getúlio”, em referência ao presidente brasileiro. Embora Vargas mantivesse preferência por deslocamentos ferroviários e marítimos no território nacional, o C-66 revelou-se instrumento essencial em missões de caráter estratégico e diplomático. Entre seus empregos mais relevantes destacam-se as viagens à Base Aérea de Parnamirim, em Natal  o chamado “Trampolim da Vitória” , ponto-chave na logística aliada no Atlântico Sul. Dotado de velocidade de cruzeiro em torno de 370 km/h, alcance aproximado de 1.600 quilômetros e capacidade de operar em pistas rudimentares, o C-66 proporcionava a mobilidade necessária a um chefe de Estado em um país de dimensões continentais, inserido em um contexto de guerra global. Frequentemente pilotado pelo então Major Nero Moura que posteriormente viria a comandar o 1º Grupo de Aviação de Caça nas operações da Campanha da Itália , o C-66 simbolizava não apenas o transporte presidencial, mas também os primeiros passos rumo à modernização operacional da aviação brasileira. Não obstante o avanço representado por essa incorporação, a aviação de transporte da Força Aérea Brasileira (FAB), no período de 1941 a 1943, ainda enfrentava limitações estruturais significativas. Nesse cenário, o então buscou-se, por meio do Lend-Lease Act, a obtenção de aeronaves mais modernas, com destaque para o Douglas C-47 Skytrain, versão militar do consagrado DC-3. Amplamente empregado pelas forças aliadas, o C-47 destacava-se por sua versatilidade e capacidade logística, podendo transportar até 28 passageiros ou cerca de 2.700 kg de carga, com alcance aproximado de 2.400 quilômetros. Contudo, em 1942, a cessão imediata dessas aeronaves ao Brasil foi negada pelos Estados Unidos, que priorizavam o emprego intensivo desses vetores no teatro europeu e no norte da África. Esse contexto operacional estava diretamente relacionado às primeiras grandes ofensivas aliadas, como , que demandava volumosos recursos logísticos e a concentração dos meios de transporte disponíveis. 

Diante disso, as projeções mais otimistas indicavam que o Brasil somente passaria a receber unidades do C-47 a partir do final de 1944, atraso que impactava diretamente a capacidade de mobilização e resposta da Força Aérea Brasileira (FAB) em um momento crítico do conflito. Diante da indisponibilidade do Douglas C-47 Skytrain, o Ministério da Aeronáutica (MAer) reformulou seu pleito no início de 1943, voltando-se para alternativas disponíveis via programas de ajuda militar. Assim o  Lockheed C-60 Lodestar, emergiu como uma solução viável, com este modelo sendo equipado com dois motores radiais Wright Cyclone GR-1820 ou Pratt & Whitney Twin Wasp. A aeronave  oferecia capacidade para até 18 soldados totalmente equipados, com uma velocidade de cruzeiro de cerca de 370 km/h e alcance de 1.600 km, tornando-o adequado para missões de transporte tático e estratégico no Brasil e no Atlântico Sul. O primeiro Lockheed C-60A-1-LO Lodestar foi recebido no Brasil em novembro de 1944, marcando o início da incorporação dessas aeronaves. No início de 1945, mais 07 unidades, nas versões C-60A-1-LO e C-60A-5-LO, foram entregues na Base Aérea de San Antonio Field, no Texas, pertencente à Força Aérea do Exército dos Estados Unidos (USAAF). Essas aeronaves foram transladadas em voo por pilotos brasileiros, com a última unidade chegando ao Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, em julho de 1945, coincidindo com o fim da guerra na Europa. Inicialmente alocadas à Seção de Aviões de Comando (SecAvCom), as aeronaves desempenharam funções de transporte de pessoal e carga, além de atender às linhas de longo alcance do Correio Aéreo Nacional (CAN), um serviço essencial para conectar regiões remotas do Brasil.  As missões do C-60 Lodestar incluíam o transporte de tropas, suprimentos e autoridades, reforçando a capacidade logística em um país de dimensões continentais. Contudo, a frota enfrentou contratempos significativos. Em 12 de dezembro de 1944, o Lockheed C-60 Lodestar FAB 2002 (ex-USAAF 42-55916) foi perdido em um trágico acidente na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, reduzindo a já limitada disponibilidade operacional. Esse incidente destacou os desafios de operar aeronaves complexas em um contexto de infraestrutura precária e treinamento ainda em desenvolvimento. Em janeiro de 1945, a frota de C-60 foi transferida para o recém-criado 1º Grupo de Transporte (1º GT), sem alterações nas missões originalmente atribuídas. Em julho de 1945, o C-60 Lodestar FAB 2003 (ex-USAAF 42-55928) foi reconfigurado para transporte VIP, recebendo a designação VC-60A. Essa aeronave, equipada com assentos reclináveis e melhorias no conforto, passou a atender autoridades governamentais, complementando o papel do Lockheed C-66 (VC-66), que desde 1942 servia como transporte presidencial para Getúlio Vargas. Apesar desses avanços, a frota sofreu outro revés em 1947, com a perda do C-60A Lodestar FAB 2004 (ex-USAAF 42-55929) em um acidente em São Paulo, impactando ainda mais a disponibilidade operacional. Esses incidentes refletem as dificuldades enfrentadas pela Força Aérea Brasileira (FAB) em manter uma frota moderna em um período de transição, marcado por limitações logísticas e pela necessidade de capacitação contínua de pilotos e mecânicos.
Em abril de 1952, a Seção de Aviões de Comando (SecAvCom) foi reorganizada como uma unidade aérea independente, mantendo as células remanescentes dos Lockheed C-60A e VC-66. Contudo, nessa nova fase, o VC-66 Lodestar, conhecido como “O Avião de Getúlio”, perdeu seu status como aeronave preferencial para missões de transporte presidencial e de membros do primeiro escalão governamental. A introdução de outras aeronaves mais modernas, aliada às perdas sofridas pela frota de Lodestars, reduziu sua relevância em favor de modelos como o Douglas C-47, que começou a chegar em maior quantidade a partir de 1944-1945. A missão de transporte presidencial passou a ser desempenhada por duas células do modelo Douglas VC-47, que foram configurados localmente para atender a essa função. Estas aeronaves receberiam um interior requintado, adaptado ao padrão VIP (Very Important Person), visando atender às exigências de conforto e segurança. Dois anos após sua introdução, em 1958, essa unidade tornou-se a base para a criação do Esquadrão de Transporte Especial (ETE). Naquele período, apenas quatro células do Lockheed C-60A Lodestar permaneciam em condições de voo, uma vez que as demais haviam sido desativadas devido a acidentes ou desgaste operacional precoce. No final de 1956, o Esquadrão de Transporte Especial (ETE) foi extinto, dando lugar ao Grupo de Transporte Especial (GTE). Com a redefinição dos parâmetros de missão, que passaram a priorizar segurança e conforto, constatou-se que os modelos VC-60 e VC-66 não mais atendiam às necessidades do transporte especial no perfil VIP. Entre 1957 e 1958, essas aeronaves foram realocadas para tarefas de transporte orgânico e distribuídas aos Parques de Aeronáutica dos Afonsos,  de Recife e São Paulo. Dentre esses, o Parque de São Paulo (PARSP) destacou-se como o principal operador, utilizando as aeronaves em benefício das bases aéreas que dependiam do suporte logístico daquela unidade. Por volta da metade da década de 1960, apenas duas unidades do C-60 e o VC-66 permaneciam operacionais, embora em condições extremamente precárias. As demais células foram sucateadas ou destinadas a exercícios de combate a incêndios. Dentre as aeronaves remanescentes, o VC-60A FAB 2003 (ex-USAAF 42-13567) foi perdido em um acidente durante uma operação de pouso no Campo de Marte, em São Paulo. Em 1963, o VC-66 Lodestar, conhecido como “O Avião de Getúlio”, foi transferido para a Escola de Especialistas da Aeronáutica (EEAR), onde passou a ser utilizado em atividades de instrução em solo. Essa função foi mantida até 12 de novembro de 1971, quando a aeronave foi oficialmente desativada e sucateada. Em 17 de abril de 1968, o último Lockheed Lodestar foi entregue à Escola de Aeronáutica (EAer), onde foi preservado e mantido em exposição ao ar livre. Posteriormente, a aeronave foi transferida para o acervo do Museu Aeroespacial (Musal), onde passou por um processo de restauração e foi incorporada à exposição permanente da instituição.

Em Escala.
Para representarmos o Lockheed C-60A Lodestar "FAB 2002" empregamos o excelente kit da Classic Airframes na escala 1/48, modelo este que vem com a opção para se compor também a versão civil Lockheed L-14 Super Electra. Para apresentarmos a versão militar operada pela Força Aérea Brasileira, quando em uso na década de 1950 pelo Esquadrão de Transporte Especial (ETE), é necessário proceder alterações me scratch, entre estas aberturas de janelas de observação na parte traseira da fuselagem, redesenho do cooling dos motores, inclusão de dutos de admissão e escape e alteração de antenas do sistema de comunicação e navegação. Como não há set de decais específicos para este modelo nas cores militares brasileiras, optamos por usar decais produzidos pela FCM Decals oriundos de diversos sets.
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o terceiro padrão de pintura empregado pelos Lockheed Lodestar durante meados da década de 1950. As primeiras quatro células foram recebidas com o esquema tático de transporte da Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC) em olive drab. As demais aeronaves recebidas posteriormente, foram entregues em metal natural com as cores nacionais nos lemes da deriva. Após a revisão geral em âmbito de parque todas as células receberam o esquema padrão de pintura de aeronaves do transporte especial  da Força Aérea Brasileira (FAB), mantendo este até sua desativação.

Bibliografia :
- Lockheed Lodestar Model 18 - Wikipedia - http://en.wikipedia.org/wiki/Lockheed_Model_18_Lodestar~
- Aeronaves Militares Brasileiras 1916 – 2015  por Jackson Flores Junior
- História da Força Aérea Brasileira, Prof Rudnei Dias Cunha  -http://rudnei.cunha.nom.br