Rural Willys-Overland F-75/F-85 Militar


História e Desenvolvimento. 

As raízes da Willys Overland Automotive tem origem na empresa Standard Wheel Company, um pequeno produtor de automoveis com motores de um ou dois cilindros, fundada no ano de 1902 na cidade americana de Terre Haute, no estado de Indiana. O avançar dos négocios motivou a mudança do parque fabril em 1905 para a capital do estado, oportunidade esta para a primeira alterçao de sua razao social passando a se denominar como Overland Co. Neste mesmo ano seria lançado no mercado o primeiro veiculo furgao comercial destinado a entregas urbanas, com este modelo conquistando rapidamente a simpatia do mercado. Apesar do relativo sucesso em vendas, a empresa enfrentava uma série crise financeira interna devido a problemas de gestao, levando em 1907 a venda de seu controle acionario ao ousado empreendedor John North Willys, um tradicional comerciante e fabricante de bicicletas, assim dois anos mais tarde a empresa passaria a se chamar Willys Overland Motor Company. Sob nova gestao a empresa lançaria um novo carro de passeio com motor de 4 cilindros que obteve relativo sucesso em vendas, a este seguiriam dois modelos de luxo com motores de 6 cilindros. No entato o primeiro campeao de vendas da empresa  o Model 79 seria lançado em 1914, com custo inferio a US$ 1.000,00 o modelo seria um sucesso chegando a vender mais de 80 mil exemplares já no primeiro ano de produção. A crise de 1929 afetaria gravemente a Willys Overland Motor Company, levando a medida emergencial de reduzir o portifolio da empresa a apenas o Model 77 de quatro cilindros, um carro de passeio de baixo custo, sendo comercializado por apenas US$ 445,00. Esse modelo bem-sucedido garantiu a sobrevivência da Willys até o inicio da  Segunda Guerra Mundial, quando surgiu o principal marco da história da montadora. Em 1940 a empresa conquistaria notoriedade no meio militar , depois de vencer uma grande  concorrência para o Exército dos Estados Unidos (US Army), para o desenvolvimento de um veiculo utilitário leve com tração 4X4 que resultaria no Jeep Willys Overland (que também seria produzido pela Ford). Apesar da maior parcela dos contratos de produção deste modelo serem direcionados a outros fabricantes em função da urgência para o atendimento das demandas de guerra, este modelo iria moldar o futuro da empresa, gerando os recursos  e tecnologia necessários para o investimento em novos produtos durante o pós guerra.

A presença da Willys Overland Automotive Division no mercado latino americano, tem sua origem na década de 1920, quando se estabeleceu no Brasil uma representação comercial da marca através da atuação de pequenos importadores independentes nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo. O término da Segunda Guerra Mundial em fins do ano de 1945, levaria ao cancelamento de inúmeros contratos de produção militar com o governo dos Estados Unidos, esta decisão causaria impactos imediatos na escala de faturamento da empresa, tendo em vista sua grande dependência do mercado militar. Entre as opções estudadas a mais viável baseava-se na intensificação das vendas em mercados internacionais emergentes, e neste momento o Brasil passava a ser um dos principais centros de atenção dos fabricantes automotivos, devido ao seu promissor potencial consumidor. Assim a diretoria da empresa elaborou uma estratégia dedicada ao mercado brasileiro, passando a selecionar e nomear novos e mais estruturados representantes no país, entre eles empresas de renome como a como Jeepsa e a Agromotor em São Paulo e a Gastal Ltda no Rio de Janeiro. Em seu pais de origem logo após o termino da Segunda Guerra Mundial em janeiro de 1946 a empresa lançaria no mercado norte americano um veículo de passeio do tipo station wagon (perua) que fora desenvolvido a partir da plataforma e projeto do veículo militar o Jeep CJ-2A, automóvel do qual emprestava toda a mecânica, incluindo o motor alimentado a gasolina Go Devil  4 cilindros de 2,2 litros e 64 cv de potência, a transmissão de 3 marchas e a imbatível tração 4X4. Dispunha de uma carroceria muito superior a do Jeep original, tanto em dimensões quanto em comodidade, contando com teto rígido, amplo espaço interno, boas acomodações para 6 ocupantes e superior isolamento termo acústico. Ademais, apresentava um estilo atrativo e de grande personalidade, diferente de tudo que havia no mercado. Em 1950 o motor Go Devil de válvulas no bloco deu lugar ao novo motor Hurricane de mesma potência e deslocamento, mas com válvulas de admissão no cabeçote, permitindo uma melhoria no desempenho global.

Já de volta ao Brasil, o desenvolver do mercado consumidor nacional levou a empresa a inicial estudos para viabilizar a produção local, com esta ideia se concretizando a partir de 1952, quando foi fundada a Willys Overland do Brasil S/A, com sua primeira planta industrial sendo construída na cidade de São Bernardo do Campo – SP.  O plano estratégico previa a produção inicial de veículos da empresa através do processo de montagem no "sistema CKD", (Completely Knocked Down – Montagem de componentes prontos). O primeiro modelo a ser produzido o  “Jeep Universal” teve sua montagem iniciada em maio de 1954, este processo geraria a  experiencia necessária para o planejamento, estruturação de processos e seleção de fornecedores locais, para incremento do  índice de nacionalização de componentes. Em 1955 este programa seria beneficiado com apoio e recursos do “Plano de Manufatura” do Governo Federal, criando assim as condições necessárias para produção local do motor a gasolina modelo Willys BF-161, que seria iniciada a partir de 1958, empregando peças fundidas na nova fabrica da empresa na cidade de Taubaté no Estado de São Paulo. Um ano antes seria lançado no país a “Willys Station Wagon”, recebendo o nome comercial de Willys Rural, sendo este o sendo o segundo produto da empresa a ser produzido localmente, e um dos poucos veículos representantes da primeira onda de nacionalização da então jovem indústria automobilística brasileira. Durante os primeiros anos o modelo da Willys Overland reinou absoluto na liderança de vendas neste segmento no mercado brasileiro, sendo sua comercialização afetada somente após a segunda metade da década de 1960 quando a General Motors do Brasil introduziria um  novo modelo concorrente na mesma categoria.

Lançado oficialmente em 1966 o novo Chevrolet Veraneio passava a representar um grande ameaça as vendas da Rural Willys, assim com o objetivo de fazer frente a concorrência, a empresa procedeu em seu produto um amplo programa de modernização e reestilização, reestilização envolvendo uma novafrente com para-lamas envolventes, capô mais baixo e nova grade do radiador dividida em forma trapezoidal, o visual tornava-se mais leve também graças ao para-brisa em uma peça única, em lugar do antigo esquema duplo em “V”. No conjunto mecânico a nova Rural brasileira mantinha os componentes do Jeep, começando pelo motor BF-161 de 2.638 cm3 e 91 cv de potência que apresentava 6 cilindros em linha, válvulas de admissão no cabeçote e escape no bloco (arranjo em “F”). O propulsor era conectado a uma transmissão manual de 3 velocidades e uma caixa de transferência reduzida, a tração 4X4 operava em tempo parcial. Como parte de um processo de aumento de portifólio e redução de custo a empresa lançaria no mercado brasileiro em 1959 uma versão com tração 4 X 2. Nesse período a Willys Overland do Brasil S/A era uma das principais montadoras do país, dispondo de uma tecnologia de vanguarda no mercado automotivo mundial, sempre implementado inovações e melhorias em seus produtos, tendo como exemplo a introdução do sistema de alimentação elétrica de 12 volts. Apesar destes esforços, rapidamente a direção comercial da Willys Overland do Brasil S/A viu grande parte de seu volume migrar para seu principal concorrente. No ano de 1967 ocorreria a compra do controle acionário da empresa pela Ford do Brasil S/A, este processo beneficiaria o portifólio de produtos da antiga Willys, pois agora sob gestão da diretoria de engenharia da empresa adquirente, refinamentos de projeto foram ampliados, buscando melhorias no processo de produção, padronização de ferramental e redução de custo, todos motivados pela aplicação dos rígidos processo de aprovação de projetos (sign-off), melhorando assim a qualidade e competividade dos produtos finais.

Se alinhando aos anseios do mercado consumidor, em que uma parcela de consumidores buscavam maior desempenho, em 1968 a empresa passaria a disponibilizar o modelo em duas novas verões tendo com diferencial o emprego de motores mais potentes a gasolina como o M2600 com 112 cv de potência e o M3000 com 134 cv  de potência, que tinham por objetivo competir com as versões mais completas do concorrente Chevrolet Veraneio. Apesar do grande sucesso em vendas, o Brasil e o mundo vivenciavam o impacto da crise do petróleo iniciada em 1973, cenário este que provocaria um meteórico aumento de preços dos combustíveis, levando o público a começar a considerar a economia de gasolina como fator primordial na hora da compra de um carro novo, impactando toda uma geração de carros de alto desempenho.  Mesmo com um enorme número de clientes fiéis e preços atraentes, a Rural Willys começa a apontar sinais claros de exaustão em suas vendas, levando assim a diretoria da Ford do Brasil a decidir em meados de 1976 pelo encerramento da produção. Em janeiro do ano seguinte, quando o ultimo veículo deixou as linhas de produção da empresa, mais 182 mil unidades já haviam sido comercializadas no país em um período de apenas de vinte anos. 

Emprego no Brasil. 

Próximo ao final da década de 1950 o Exército Brasileiro dispunha de uma grande frota de veículos militares com tração 4X4 em suas fileiras, sendo composta por mais de 1.500 carros dispostos entre os modelos da família Dodge WC-51, WC-53, WC-54, WC-56 e WC-57, destinados a missões de transporte, ambulância, carro comando e tração de peças de artilharia leve. Estes recebimentos eram frutos dos termos do programa Leand & Lease Act Bill (Lei de Empréstimos e Arrendamentos), sendo disponibilizados entre os anos de 1942 e 1945. Apesar se ser uma formidável frota em termos numéricos, sua operacionalidade estava seriamente afetada, pois uma parte significativa se encontrava indisponível por problemas de manutenção, muitos dos quais ocasionadas por problemas no fluxo de aquisição de peças de reposição, que cada mais rareavam no mercado internacional, devido ao fato de que em seu país de origem sua produção havia sido descontinuada há mais de 15 anos. Este cenário comprometia em muito a capacidade de mobilidade da força terrestre do exército, e alguma solução deveria ser alcançada em um curto prazo de tempo, buscando assim evitar um colapso que se tornava cada vez mais evidente. Neste contexto a aquisição dos sucessores naturais dos modelos em uso os novos Dodge M37 e M43 se mostrava inviável em termos de recursos financeiros necessários, tendo em vista seu alto custo unitário de aquisição multiplicado por no mínimo 1.000 unidades (necessidade mínima para substituição dos antigos Dodge WC-51, WC-53, WC-54, WC-56 e WC-57). Assim este vestuoso orçamento esbarra na dura realidade orçamentária não só do Exército Brasileiro, mas também das demais forças armadas nacionais.

A solução então deveria ser customizada a realidade orçamentaria, fazendo assim os olhares se voltarem para indústria nacional, e nesta época a Willys Overland do Brasil (WOB) já estava consolidada como a principal montadora de automóveis brasileira, gozando ainda de grande confiança junto ao Exército Brasileiro, por fornecer centenas de Jeeps 1/4 Ton CJ-5, que vieram a substituir carros similares recebidos durante a década de 1940. Neste contexto o lançamento da nova Rural  Willys reestilizada e posteriormente da nova picape Willys despertariam o interesse do exército, criando assim uma opção de baixo custo para substituir e complementar sua frota de utilitários. O Exército Brasileiro buscava uma plataforma comum para emprego em missões de transporte de carga, pessoal, porta morteiro, ambulância e reboque de artilharia anti carro, e neste contexto tanto a Rural na versão station wagon, quanto a picape poderiam se encaixar perfeitamente. Com esta decisão tomada a equipe da Willys Overland do Brasil desenvolveu estudos para aplicações militares, com os primeiros testes de campo sendo realizados pela equipe técnica da empresa em conjunto com o Exército Brasileiro em meados de 1961. Com a implementação de pequenas melhorias necessárias à militarização final do modelo, foi assinado o primeiro contrato de produção, com as primeiras entregas ocorrendo em fins do mesmo ano. Já em serviço ativo o modelo recebeu a designação de Camioneta Militar Jeep Willys 3/4 toneladas com tração 4x4.  Um fato curioso é que esse modelo foi o primeiro veículo militar brasileiro a ser exportado, com 150 unidades vendidas ao governo português em 1962, para equipar unidades de paraquedistas e usados em missões nas colônias portuguesas da época, como Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné, São Tomé e Timor.
Ao longo de sua carreira no Exército Brasileiro a “Camioneta Militar Jeep Willys 3/4 ton 4x4” foi customizada para o atendimento de grande gama de missões, com uma grande parte da frota sendo equipadas com suporte para o emprego de metralhadoras de 12,7 mm ou 7,62mm, canhao sem recuo, e como plataforma para lançamento de foguetes não guiados (versão M-106). Já as versões derivadas da versão civil station wagon foram empregados como viatura de Polícia do Exército (PE), transporte de oficiais e ambulância de campanha. Grande parte da frota seria composta ainda pela versão de cabine dupla com teto de lona para transporte de pessoal. Ambas as versões militares estavam equipadas com o motor Willys BF-161 6 cilindros a gasolina e 2.600cc, sendo equipadas a partir de fins de 1967 com o motor Willys BF-16A de 3.000 cc, com as duas configurações de motorização sendo acopladas a uma caixa de câmbio manual Clark de 3 marchas (com a primeira marcha seca). Em 1964, algumas unidades chegaram provisoriamente a ser equipadas com o motor diesel Perkins 4 cilindros, visando uma futura padronização da frota com este tipo de combustível mais econômico. Porém este processo não lograria êxito pois o novo motor se mostrou inadequado ao câmbio original, resultando em constantes quebras devido ao seu   torque elevado. Em 1975 todos os novos veículos adquiridos passaram a contar com o novo motor Ford OHC 4 cilindros 2.300 cc, muito superior em desempenho e consumo. Em termos de acabamento interno, destacava-se o painel que diferia da versão civil, por ser muito semelhantes ao empregado nos Jeeps, a remoção do teto de aço proporcionou a instalação de um para brisas rebatíveis com a adoção novas portas, bancos, alavanca de marchas e tração no assoalho, características comuns em um veículo militar.

As principais modificações estruturais implementadas nos modelos Rural Willys militarizados em uso no Brasil, se referiam ao chassis e para-choques reforçados (para o uso em terrenos adversos), uso de  pneus 750x16 em conjunto com aros de roda 2 polegadas mais largos, inclusão de sistema de guincho mecânico marca Ramsey (opcional), ganchos dianteiros, grade de proteção dos faróis, farol de aproximação instalado sobre o paralamas dianteiro esquerdo, chave militar de iluminação de 3 estágios, para-choques militares tipo "meia lua" na traseira, duas lanternas militares traseiras, duas anilhas traseiras, gancho “G” militar para reboque, tomada elétrica para reboque militar, seis refletores na caçamba. As versões do tipo picape, eram despojadas das portas, teto e para-brisas originais, sendo equipadas com capota militar de lona, bancos de madeira na caçamba na versão de transporte, bancos dianteiros individuais revestidos em lona, kit de ferramentas, incluindo pá e machado militar fixados atrás dos bancos na cabine. A denominação da pick-up militar Willys foi alterada em 1969 quando a Ford do Brasil, que já havia adquirido a Willys Overland do Brasil em 1967, adotou a marca Ford para todos os seus produtos (antes denominados comercialmente como Ford Willys). A nova nomenclatura do modelo passou a ser Camioneta Militar 3/4 ton 4x4 Ford F-85, porém extra oficialmente no Exército Brasileiros, estes veículos receberam os apelidos de "Cachorro Louco" e Jipão Militar 3/4 ton.

O desenvolvimento em conjunto deste modelo militarizado, entre a Willys Overland do Brasil e posteriormente Ford do Brasil com as Forças Armadas Brasileiras durante as décadas de 1960 e 1970 , foi de significativa importância, pois construiu as bases de cooperação para futuros projetos de sucesso no segmento de moto-mecanização militar brasileira. Vale salientar que modelos desta família de utilitários militarizados também foram incorporados pela Força Aérea Brasileira, Marinha do Brasil e Corpo de Fuzileiros Navais, sendo empregado em quase todas as versões produzidas.  Apesar de terem sua produção descontinuada na década de 1990 e serem substituídos por modelos mais novos produzidos pela Agrale ou Land Rover, ainda hoje em pleno século XXI é possível encontrar dezenas carros destes modelos em pleno estado de funcionamento preservadas nos quarteis do Exército Brasileiro, atestando assim a robustez e durabilidade do projeto original.  

Em Escala.

Para representarmos a Rural Willys - Overland 4X2 "EB21-2012", empregamos como ponto de partida um modelo em die cast  na escala 1/43 , da coleção Veículos de Serviço do Brasil" da Editora Altaya , procedendo a customização para a versão militar como viatura da Policia do Exército . Empregamos decais confeccionados pela decais Eletric Products pertencentes ao set “Exército Brasileiro 1942/1982".

O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura do Exército Brasileiro aplicado em todos seus veículos militares desde a Segunda Guerra Mundial até a o final do ano de 1982, quando foram alteradas com inclusão de um esquema de camuflagem tático de em dois tons, se mantendo este até sua gradativa desativação a até o início da primeira década do ano 2.000. Os carros em uso pela Força Aérea Brasileira e Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil fizeram uso de outros esquemas de pintura e marcação.


Bibliografia :

- F-85 Camioneta Militar Jeep Willys - http://jeepguerreiro.blogspot.com.br

- Veículos de Serviço do Brasil – Chevrolet Veraneio, editora Altaya

- Willys-Overland do Brasil Wikipedia - https://pt.wikipedia.org/wiki/Willys-Overland_do_Brasil

- Veículos Militares Brasileiros – Roberto Pereira de Andrade e José S Fernandes