Jeep Willys CJ (VTrOp-VTNE-VTECsR)

História e Desenvolvimento.
No final da década de 1920, o comando do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army) intensificou seus esforços no sentido de transformar profundamente sua estrutura operacional, buscando acelerar a transição de uma força terrestre ainda majoritariamente hipomóvel, dependente da tração animal, para uma força progressivamente mecanizada, apta a responder às exigências de um cenário bélico em rápida transformação. Esse movimento esteve diretamente associado aos avanços tecnológicos proporcionados pela pujante indústria automotiva norte-americana, que passou a oferecer soluções cada vez mais eficazes para os desafios de mobilidade, logística e comando no campo de batalha. O ambicioso programa de mecanização concebido pelo Exército abrangia o desenvolvimento de uma ampla gama de veículos militares, incluindo caminhões de carga, transportes de tropas e, de maneira prioritária, um veículo utilitário leve dotado de tração integral nas quatro rodas (4x4). Esse novo meio deveria ser capaz de operar com eficiência em terrenos fora de estrada, transpor obstáculos naturais com facilidade e transportar até quatro soldados completamente equipados, garantindo agilidade, flexibilidade e rapidez nas operações táticas. Entretanto, as severas restrições orçamentárias impostas pela Grande Depressão acabaram por retardar a consolidação desse projeto, interrompendo temporariamente o avanço do programa. Apenas no final de 1936, com a gradual estabilização do cenário econômico e a renovação das prioridades estratégicas, o Exército voltou a direcionar esforços significativos para a modernização de seus meios. Após a realização de uma concorrência aberta, a Bantam Car Company, sediada na Pensilvânia, foi selecionada para desenvolver e produzir um lote pré-série do novo utilitário. No final da década de 1930, a Bantam Car Company, instalada na cidade de Butler, Pensilvânia, concluiu a produção dos primeiros setenta veículos utilitários leves com tração integral. Esses modelos pioneiros dariam origem à icônica família Jeep, posteriormente consagrada como uma das mais emblemáticas linhas de veículos militares da história. Empregados inicialmente pelas unidades de infantaria, esses utilitários rapidamente se destacaram por sua excepcional mobilidade e versatilidade, demonstrando capacidade para cumprir uma ampla gama de missões operacionais, desde reconhecimento até ligação e transporte leve. O desempenho notável desses primeiros veículos levou o comando do Exército a decidir por sua adoção em larga escala, culminando na abertura de um processo licitatório destinado ao desenvolvimento de uma versão aprimorada, adequada à produção em grande quantidade. Em 1941, após um processo de avaliação técnica e de contratação marcado por intensos debates, a produção do Jeep foi oficialmente iniciada nas fábricas da American Bantam Company, da Ford Motor Company e da Willys-Overland Company. As primeiras unidades começaram a ser entregues ao Exército a partir de março de 1942. Rapidamente, o novo veículo conquistou a simpatia dos soldados, que passaram a chamá-lo informalmente de “GP”, sigla para General Purpose (Propósito Geral), cuja pronúncia em inglês soava como “jeep”. O termo também remetia a um personagem popular da cultura norte-americana dos anos 1930: Eugene the Jeep, o carismático animal de estimação de Olívia Palito, nos quadrinhos e desenhos animados do marinheiro Popeye. Dotado de habilidades extraordinárias  como força incomum e a capacidade de se deslocar por paredes e tetos , Eugene simbolizava atributos que os militares prontamente associaram ao desempenho do veículo. A expressão “Hey, he’s a real Jeep!” (“Ei, ele é um verdadeiro Jeep!”) tornou-se comum para elogiar pessoas de notável vigor físico, consolidando o nome como sinônimo de robustez, adaptabilidade e confiabilidade.

Ao longo de toda a Segunda Guerra Mundial, a produção dessa versátil família de utilitários leves ultrapassou a marca de meio milhão de unidades. Desse total, aproximadamente 363 mil veículos foram fabricados pela Willys-Overland Company, enquanto cerca de 280 mil saíram das linhas de montagem da Ford Motor Company. O Jeep destacou-se ainda como um dos principais símbolos do Programa Lend-Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos), sendo fornecidas mais de 51 mil unidades somente à União Soviética, além de dezenas de milhares destinadas a outros países aliados, consolidando sua relevância não apenas como veículo militar, mas como um verdadeiro ícone da cooperação aliada e da guerra mecanizada do século XX. O término do conflito, em agosto de 1945, desencadeou uma rápida e profunda desmobilização do esforço industrial militar dos Estados Unidos. Com o fim do conflito, os volumosos contratos de produção bélica foram cancelados ou drasticamente reduzidos, afetando de maneira direta praticamente todas as empresas vinculadas ao setor de defesa. Entre elas encontrava-se a Willys-Overland Company, cuja estrutura industrial, naquele momento, estava quase integralmente dedicada à fabricação da família de veículos Jeep, símbolo da mobilidade aliada durante a guerra. Diante desse novo cenário, e já no final da década de 1940, a Willys-Overland reconheceu a necessidade de uma reorientação estratégica de seu portfólio automotivo, voltando-se progressivamente para o mercado civil. Essa transição foi favorecida por uma circunstância particularmente vantajosa: a Ford Motor Company, sua principal concorrente durante o conflito, encontrava-se judicialmente impedida de utilizar a denominação “Jeep”. Tal condição permitiu à Willys capitalizar de forma exclusiva o prestígio e a popularidade de um nome que, ao longo da guerra, havia se tornado sinônimo de robustez, confiabilidade e versatilidade. Nesse contexto, a Willys-Overland lançou as bases da versão civil de seu consagrado veículo militar Willys MB, dando origem ao Willys CJ-2 (Civil Jeep). Inicialmente, foram produzidos quarenta exemplares de uma série experimental, mas a fabricação em escala industrial teve início efetivo apenas em julho de 1945, com o lançamento do modelo aperfeiçoado CJ-2A. Embora claramente derivado do MB, o CJ-2A apresentava modificações substanciais voltadas ao uso civil, tanto na carroceria quanto em sua construção geral. Mantinha o confiável motor Willys Go-Devil de quatro cilindros, porém com carburador e sistema de ignição distintos, além da eliminação de diversos elementos exclusivamente militares, o que ampliava seu apelo junto a agricultores, profissionais liberais e usuários civis em geral. Em 1949, a Willys introduziu o CJ-3A, que permaneceu em produção até 1953, quando foi sucedido pelo CJ-3B. O CJ-3A era equipado com o motor L-134 Go-Devil, de aproximadamente 60 cavalos de potência, associado à transmissão T-90, à caixa de transferência Dana 18, ao eixo dianteiro Dana 25 e ao eixo traseiro Dana 41 ou 44. Esse conjunto mecânico consolidou a reputação da marca no mercado civil, oferecendo durabilidade, simplicidade mecânica e desempenho confiável em diferentes condições de uso, do campo às áreas urbanas. Paralelamente à consolidação de sua linha civil, a Willys-Overland continuou a atender às demandas militares do pós-guerra. Em 1950, a empresa lançou o modelo M-38, também conhecido pela designação MC, uma versão militar evoluída baseada no CJ-3A, projetada para atender às exigências específicas das Forças Armadas em um contexto geopolítico marcado pelo início da Guerra Fria. O M-38 apresentava chassi e suspensão significativamente mais robustos, incluindo um eixo traseiro totalmente flutuante, além de faróis salientes protegidos por grades metálicas, sistema de iluminação blackout e uma saída de ar posicionada na base do para-brisa.
Concebido para máxima funcionalidade em operações militares, o M-38 não possuía degrau externo, o que aumentava a distância do solo e facilitava o embarque em terrenos irregulares. Entre os equipamentos opcionais disponíveis figuravam guinchos hidráulicos Ramsey, kits para travessia de cursos d’água e sistemas especiais de respiração para operação em ambientes alagados. Algumas unidades raras chegaram a ser equipadas com lâminas hidráulicas para trabalhos leves de nivelamento de solo, enquanto versões destinadas a regiões de clima rigoroso contavam com carroceria metálica e capota rígida. O painel de instrumentos, fiel à tradição de simplicidade funcional dos veículos Jeep, concentrava os mostradores no centro, com iluminação externa, placas de dados posicionadas à direita e um porta-luvas na extremidade. Assim, o M-38 representou não apenas a continuidade do legado militar do Jeep, mas também a adaptação desse ícone às novas realidades estratégicas do pós-guerra, ao mesmo tempo em que a Willys-Overland consolidava sua posição tanto no mercado civil quanto no militar. No imediato pós-Segunda Guerra Mundial, o Brasil passou a vivenciar seus primeiros esforços consistentes voltados à fabricação local de veículos utilitários do tipo jipe, cuja reputação internacional já estava solidamente estabelecida graças à robustez, à versatilidade e ao desempenho demonstrados nos campos de batalha. Inserido em um contexto de reorganização econômica e de busca por autonomia industrial, o país começou a enxergar na indústria automobilística um vetor estratégico de desenvolvimento. Em 1946, a Fábrica Nacional de Motores (FNM) avaliou a possibilidade de produzir jipes em território nacional, procurando aproveitar suas amplas instalações industriais, que naquele momento encontravam-se parcialmente ociosas. Embora a iniciativa não tenha se concretizado, ela representou um marco simbólico, ao sinalizar o interesse do Estado brasileiro em fomentar a produção automotiva como parte de um projeto mais amplo de industrialização. O passo seguinte ocorreu em 1947, quando a concessionária Gastal Veículos Ltda., sediada no Rio de Janeiro, iniciou a importação de jipes no regime SKD (Semi Knocked Down), ou seja, parcialmente desmontados. A montagem desses veículos era realizada nas oficinas da empresa, localizadas no bairro da Tijuca. Até 1950, mais de duzentas unidades haviam sido montadas, o que evidenciou a viabilidade do empreendimento e levou à transferência da linha de montagem para instalações maiores em Nova Iguaçu, também no estado do Rio de Janeiro. Essa operação manteve-se ativa até 1954, quando a produção passou a ser assumida de forma definitiva pela Willys-Overland do Brasil S/A. Em 1954, a Willys-Overland inaugurou sua primeira fábrica no país, localizada em São Bernardo do Campo, no estado de São Paulo. A planta industrial, concluída ainda no segundo semestre de 1953, teve sua entrada em operação retardada por entraves burocráticos relacionados à importação de componentes no regime CKD (Completely Knocked Down). Nos primeiros meses, a produção baseava-se integralmente em peças importadas dos Estados Unidos; contudo, uma vez superadas as dificuldades iniciais, a fábrica rapidamente ampliou sua capacidade produtiva. Em setembro de 1955, a Willys-Overland apresentou ao mercado brasileiro uma versão modernizada do Jeep, inspirada no modelo civil derivado do M-38. Designado CJ-5 e rebatizado comercialmente como “Universal”, o novo veículo incorporava avanços importantes, como carroceria de linhas mais atuais, para-brisa ampliado, bancos mais confortáveis, chassi reforçado, suspensão aprimorada e um motor de quatro cilindros com aproximadamente 75 cavalos de potência. 

Essas melhorias não apenas elevaram o padrão técnico do veículo, como também o adequaram às condições e expectativas do consumidor brasileiro, consolidando o Jeep como um símbolo de inovação e funcionalidade. Entre fevereiro e dezembro de 1955, cerca de seis mil unidades foram montadas, já com a incorporação de aproximadamente 30% de componentes de origem nacional. Esse índice representou um marco relevante no processo de nacionalização da indústria automotiva brasileira, ao estimular fornecedores locais e reduzir gradualmente a dependência de importações. A empresa tornou-se, assim, a segunda empresa estrangeira após a General Motors do Brasil S/A  a atender ao convite do CEIMA (Comissão Executiva da Indústria Mecânica Automotiva), órgão precursor do GEIA (Grupo Executivo da Indústria Automobilística), criado com o objetivo de atrair grandes fabricantes internacionais e estruturar uma base industrial sólida no país. A construção da fábrica de São Bernardo do Campo foi financiada majoritariamente com recursos nacionais, provenientes de um fundo formado por empresários brasileiros e por meio de subscrição popular, evidenciando o caráter coletivo e estratégico do empreendimento. Dessa forma, a implantação da Willys-Overland no Brasil não apenas consolidou a produção local de jipes, como também contribuiu de maneira decisiva para o amadurecimento da indústria automobilística nacional, inserindo o país de forma mais ativa no cenário industrial do pós-guerra. A participação da Willys-Overland Company, dos Estados Unidos, na constituição da subsidiaria brasileira limitou-se a 30% do capital social, integralizado principalmente por meio da transferência de matrizes e equipamentos industriais usados. Esse arranjo financeiro evidenciou o protagonismo do capital nacional e o espírito empreendedor dos investidores brasileiros, que assumiram a maior parcela do empreendimento por meio de recursos próprios e de subscrição popular. Tal iniciativa refletiu não apenas confiança no potencial do mercado interno, mas também uma clara determinação em estabelecer uma base industrial sólida e autônoma, condizente com as ambições de um país em acelerado processo de transformação econômica e social. O Jeep, concebido como um veículo essencialmente utilitário, revelou-se particularmente adequado à realidade brasileira da época, marcada por extensas áreas rurais e por uma malha viária ainda pouco desenvolvida. Sua concepção privilegiava a funcionalidade e a resistência, destacando-se a tração integral 4x4 temporária, acionada por meio de uma caixa de transferência de duas velocidades. O sistema, comandado por duas alavancas no assoalho uma destinada ao engate da tração dianteira auxiliar e outra à seleção da marcha reduzida  conferia ao veículo notável capacidade de transposição de terrenos difíceis. Complementarmente, a presença de uma tomada de força permitia o acoplamento de implementos agrícolas e de construção, ampliando seu espectro de utilização. Essas características fizeram do Jeep uma ferramenta de trabalho indispensável para agricultores, construtores e profissionais que necessitavam de um veículo confiável, robusto e versátil. Em consonância com as diretrizes estabelecidas pelo GEIA (Grupo Executivo da Indústria Automobilística), a montadora promoveu, em agosto de 1956, uma significativa ampliação de sua unidade industrial em São Bernardo do Campo, no estado de São Paulo. Essa expansão incluiu a implantação de uma linha própria de usinagem e montagem de motores, inaugurada em março de 1958, representando um passo decisivo no processo de nacionalização da produção. Inicialmente, o motor Hurricane, foi substituído pelo Willys BF-161, também importado. Ainda em 1958, a empresa alcançou um marco histórico ao produzir o primeiro motor Willys fabricado no Brasil, cujo bloco passou a ser fundido em uma nova planta industrial instalada em Taubaté, São Paulo.
Esse novo propulsor, a gasolina, possuía seis cilindros em linha, com cilindrada de 2,6 litros e potência aproximada de 90 cavalos. Sua arquitetura técnica combinava válvulas de admissão no cabeçote e de escapamento no bloco, proporcionando um torque máximo de 18,67 kgfm a 2.000 rotações por minuto. A conjugação entre desempenho robusto, confiabilidade mecânica e consumo relativamente moderado contribuiu para sua ampla aceitação no mercado nacional. Paralelamente, a Willys-Overland intensificou os investimentos na nacionalização de componentes, ampliando seu parque fabril com a instalação de uma linha de prensas e de uma unidade dedicada à produção de eixos e transmissões. Ao final da década de 1950, a empresa atingiu um índice de nacionalização próximo de 40%  e quase 50% quando considerado o peso bruto dos veículos , um resultado expressivo que consolidou sua posição de destaque na indústria automobilística brasileira e a projetou como uma das principais referências do setor na América Latina. No cenário rural do Brasil da década de 1950, caracterizado pela escassez de estradas pavimentadas, o Jeep encontrou um mercado excepcionalmente receptivo, onde sua robustez e capacidade off-road se destacavam. As vendas do modelo refletiram esse sucesso: 9.139 unidades em 1957, 13.177 em 1958 e 15.721 em 1959. Junto com seus derivados, como a perua Rural, o Jeep representava 15% da produção total de veículos no Brasil, englobando automóveis, caminhões e ônibus. Esse desempenho consolidou a Willys-Overland do Brasil como a maior indústria automobilística da América Latina, posição que manteve até 1961, quando foi superada pela Volkswagen do Brasil S/A. Nesse período de ascensão, a Willys-Overland do Brasil lançou o Jeep Universal 101, nomeado em referência à distância de 101 polegadas (2,56 metros) entre os eixos. Inspirado no modelo norte-americano CJ-6, o Universal 101 oferecia opções de carroceria com duas ou quatro portas, conquistando o carinhoso apelido de “Bernardão” entre os brasileiros. Diferenciando-se do CJ-5, o modelo incorporava rodas de 15 polegadas com calotas da perua Rural e estava disponível com tração traseira 4x2, além da tradicional tração integral 4x4. Essas características ampliavam sua versatilidade, atendendo tanto às necessidades rurais quanto urbanas. Em 1960, a Willys-Overland apresentou propostas às Forças Armadas Brasileiras, oferecendo versões militarizadas do Jeep para substituir os obsoletos Ford GPW, Willys MB e M-38A1. As atualizações continuaram ao longo da década: em 1965, o modelo passou a contar com uma caixa de mudanças de três marchas com primeira sincronizada; em 1966, incorporou uma roda livre automática e substituiu o dínamo por um alternador no sistema elétrico. Essas inovações reforçaram a confiabilidade e o desempenho do Jeep, atendendo às crescentes demandas do mercado. A popularidade do Jeep impulsionou a Willys-Overland a expandir suas operações. Em resposta à alta demanda, especialmente nas regiões Norte e Nordeste, a empresa inaugurou uma nova planta industrial em Jaboatão dos Guararapes, Pernambuco, dedicada à produção de veículos e peças de reposição. O material publicitário da época celebrava o Jeep como o “cavalo de ferro”, um símbolo de resistência capaz de enfrentar as adversidades de um Brasil em desenvolvimento, conquistando o imaginário popular com sua robustez e espírito aventureiro. Em outubro de 1967, a Ford do Brasil anunciou a aquisição total das ações da Willys-Overland do Brasil S/A, até então controlada majoritariamente por uma sociedade entre a Renault Motores, da França, e a Kaiser Motors Company, dos Estados Unidos. Apesar de contar com dezenas de milhares de acionistas brasileiros, a maioria detinha participações minoritárias ou sem direito a voto. Com a aquisição, a Ford assumiu o controle efetivo da empresa, herdando um valioso legado que incluía unidades industriais modernas, propriedades intelectuais e um portfólio diversificado de produtos, com o Jeep como carro-chefe.

Emprego nas Forças Armadas Brasileiras.
A trajetória da incorporação de veículos utilitários leves com tração integral 4x4 popularmente conhecidos como jipes  nas Forças Armadas Brasileiras remonta a 1942, diretamente associada à adesão do Brasil ao programa norte-americano Lend-Lease Act (Lei de Arrendamentos e Empréstimos). Firmado em plena Segunda Guerra Mundial, esse acordo previa a cessão de aproximadamente dois mil jipes ao Brasil, sem padronização quanto a fabricante ou modelo. Não há registros oficiais precisos que indiquem a proporção exata de veículos fornecidos pela Ford Motor Company ou pela Willys-Overland Company; sabe-se, contudo, que os primeiros lotes, compostos por veículos novos e usados provenientes tanto da frota ativa quanto da reserva estratégica do Exército dos Estados Unidos, começaram a chegar ao país a partir de março de 1942. Desse contingente, 655 jipes foram destinados diretamente ao Teatro de Operações do Mediterrâneo, a fim de equipar a Força Expedicionária Brasileira (FEB) durante a Campanha da Itália. A experiência operacional adquirida pelo Exército Brasileiro no emprego desses veículos em um contexto real de conflito foi de valor incalculável, influenciando de maneira decisiva a consolidação da doutrina motomecanizada que viria a orientar a Força nas décadas subsequentes. Ao longo das décadas de 1940 e 1950, a frota de jipes  complementada por outros meios de transporte motorizados  proporcionou às Forças Armadas Brasileiras, em especial ao Exército Brasileiro, um nível de mobilidade até então inédito. Essa capacidade ampliada de deslocamento contribuiu significativamente para o fortalecimento das operações de infantaria, conferindo maior agilidade, flexibilidade tática e eficiência logística em diferentes cenários operacionais. Com o passar do tempo, entretanto, o intenso uso e o desgaste natural dos veículos começaram a comprometer sua disponibilidade. A obsolescência progressiva, associada à manutenção muitas vezes inadequada e à crescente dificuldade de obtenção de peças de reposição  sobretudo em razão da descontinuidade da produção de diversos modelos  agravou a situação, resultando em índices elevados de viaturas inoperantes. Diante desse quadro, o governo brasileiro buscou alternativas junto ao Departamento de Defesa dos Estados Unidos, negociando a aquisição de novos lotes de jipes usados classificados como material excedente de guerra (war surplus). No âmbito dos programas de ajuda militar então vigentes, um número expressivo desses veículos, provenientes dos estoques estratégicos norte-americanos, foi cedido ao Brasil, permitindo a substituição gradual das viaturas mais antigas e desgastadas e a recuperação parcial da capacidade operacional do Exército Brasileiro. Já no final da década de 1950, intensificaram-se os esforços de modernização da frota, com a incorporação de jipes desenvolvidos no período pós-guerra, como os modelos Willys M-38A1 e M-38A1-C, este último configurado para o emprego de canhões sem recuo M-40 de 106 mm. Embora realizadas em escala relativamente limitada, essas aquisições representaram um avanço significativo, ao introduzirem veículos mais confiáveis, modernos e adaptáveis às exigências operacionais contemporâneas, reafirmando a importância estratégica dos jipes no contexto da mobilidade militar brasileira.

Apesar do esforço de modernização representado pela incorporação dos então considerados “novos” Willys M-38A1 e M-38A1-C, a frota de jipes das Forças Armadas Brasileiras continuava a enfrentar limitações estruturais relevantes. As quantidades recebidas mostravam-se insuficientes para atender às reais necessidades de reequipamento, evidenciando a urgência de substituir e atualizar os veículos utilitários leves com tração integral 4x4 em serviço. Estudos preliminares conduzidos à época apontavam para a necessidade de aquisição de algo entre 300 e 600 novos jipes, com preferência por modelos mais modernos, como versões atualizadas do Willys M-38 ou o então recente Ford M-151 Mutt. Contudo, os elevados custos envolvidos nesse processo tornavam a iniciativa economicamente inviável, sobretudo diante das restrições orçamentárias que caracterizavam o período. Nesse contexto, a partir de 1959, o governo brasileiro passou a direcionar sua atenção para a indústria automotiva nacional, em busca de uma solução que fosse simultaneamente compatível com as exigências operacionais das Forças Armadas e financeiramente sustentável. Essa mudança de enfoque inseria-se em um quadro mais amplo de estímulo à industrialização e à substituição de importações, políticas consideradas estratégicas para o desenvolvimento econômico do país. A Willys-Overland do Brasil S/A destacou-se como uma alternativa promissora, oferecendo em seu portfólio modelos como os Jeeps CJ-3, CJ-4 e CJ-5, todos já produzidos em território nacional. Entre essas opções, o Jeep CJ-5 revelou-se o mais adequado às necessidades militares, ao conjugar robustez estrutural, versatilidade operacional e uma relação custo-benefício particularmente favorável. Equipado com o motor Willys BF-161, de seis cilindros a gasolina e fabricação nacional, o modelo apresentava um índice de nacionalização superior a 80%, fator que contribuía significativamente para a redução dos custos de aquisição, operação e manutenção. Embora não incorporasse, em sua configuração original, características típicas de militarização como a capota de lona padronizada e outros equipamentos específicos , o CJ-5 atendia às exigências operacionais mínimas estabelecidas pelo Exército Brasileiro. A adoção do Jeep CJ-5 marcou o início de uma parceria estratégica entre a Willys-Overland do Brasil e as Forças Armadas. Em um primeiro momento, o Ministério do Exército adquiriu cinquenta unidades, decisão que rapidamente encontrou adesão também na Marinha do Brasil e na Força Aérea Brasileira. Esses veículos passaram a ser empregados com eficiência em atividades administrativas e em missões operacionais básicas, demonstrando confiabilidade e adaptabilidade em diferentes cenários de emprego. Entretanto, a experiência em serviço evidenciou que a ausência de determinadas características de militarização limitava o desempenho do CJ-5 em contextos mais exigentes, reforçando a necessidade de uma versão mais robusta, com capacidades operacionais comparáveis às dos Willys M-38A1 de origem norte-americana. Diante dessa constatação, a equipe de engenharia e projetos da Willys-Overland do Brasil deu início a estudos voltados ao desenvolvimento de uma variante militarizada do CJ-5. O objetivo central era atender de forma mais plena às expectativas do Exército Brasileiro, preservando, ao mesmo tempo, a viabilidade econômica do projeto. Esse esforço simbolizou o compromisso da montadora em alinhar inovação tecnológica às necessidades estratégicas do país, contribuindo para o fortalecimento da capacidade operacional das Forças Armadas e para a consolidação da indústria automotiva nacional.
Para atender às exigências operacionais então colocadas pelo Exército Brasileiro, a equipe de engenharia e projetos da Willys-Overland do Brasil deu início a estudos destinados ao desenvolvimento de uma variante militarizada do Jeep CJ-5. O propósito central era conceber um veículo capaz de responder às expectativas das Forças Armadas, conciliando robustez e funcionalidade com custos controlados de aquisição, operação e manutenção. Tal iniciativa evidenciava o compromisso da montadora em harmonizar inovação tecnológica com as necessidades estratégicas do país, contribuindo simultaneamente para o fortalecimento da capacidade operacional militar e para a consolidação da indústria automotiva nacional. Desse processo resultou um novo modelo que passou a apresentar uma carroceria especificamente concebida para o uso militar, incorporando alterações significativas nos estampos e reforços estruturais da seção posterior, conhecida como “caixão”. Abandonava-se, assim, a tradicional tampa traseira removível e rebatível do Willys CJ-5 civil, substituída por uma chapa soldada e reforçada, projetada para acomodar o suporte do estepe, o conjunto de ferramentas essenciais  como pá e machado  e um tanque suplementar (camburão) com capacidade de três litros. Visando à otimização do espaço interno e à maior flexibilidade de emprego, o banco traseiro, quando instalado  uma vez que era de fácil remoção , podia ser dobrado e rebatido, permitindo acesso rápido às ferramentas e aos equipamentos transportados. No interior, os bancos dianteiros passaram a ser individuais, destinados ao motorista e ao passageiro, com revestimento padrão em napa verde de tonalidade esmeralda, embora algumas poucas unidades tenham sido entregues com acabamento em lona verde-oliva. O painel de instrumentos manteve, em linhas gerais, a configuração do CJ-5 civil, mas recebeu adaptações funcionais, como a inclusão de um comando específico para as luzes traseiras militares e, em versões posteriores, uma tecla instalada sob o painel destinada ao acionamento do farol de aproximação e das luzes de parada em configuração civil-militar. Os para-lamas traseiros adotaram um desenho trapezoidal, introduzido no CJ-5 brasileiro a partir de 1962, reforçando a identidade visual e funcional do modelo. Entre as variantes desenvolvidas, destacou-se a versão “canhoneiro” de ¼ de tonelada, concebida para o suporte de armamentos pesados, como o canhão sem recuo norte-americano M-40A1 de 106 mm ou o modelo nacional M-18A1 de 57 mm. Nessa configuração, a tampa traseira convencional era suprimida, facilitando o municiamento e a operação do armamento. O veículo passava a contar com para-brisa bipartido, suportes externos para tanques suplementares de três litros, ferramentas fixadas nas laterais dos para-lamas e o estepe reposicionado na lateral dianteira direita. O painel de instrumentos incorporava ainda um suporte específico para o descanso do canhão, assegurando maior praticidade e segurança durante o transporte. Para suportar o peso adicional do armamento e da munição, bem como absorver os esforços gerados durante os disparos  que frequentemente provocavam um perceptível “salto” do veículo , a suspensão traseira da versão canhoneiro foi reforçada com molas adicionais. Essas adaptações tornaram o modelo particularmente adequado à substituição dos já desgastados Willys M-38A1C canhoneiros, oferecendo maior confiabilidade mecânica, desempenho operacional superior e melhor adequação às necessidades contemporâneas das Forças Armadas Brasileiras.

O Jeep militarizado desenvolvido pela Willys-Overland do Brasil rapidamente conquistou a confiança do Exército Brasileiro, sendo oficialmente homologado para uso militar em 1961. Em outubro daquele mesmo ano, a assinatura de um contrato para o fornecimento de duzentas viaturas representou um marco relevante no processo de modernização da frota terrestre das Forças Armadas. Tratava-se não apenas da aquisição de um novo veículo, mas da consolidação de uma solução concebida no país, alinhada às realidades operacionais brasileiras e às limitações orçamentárias então vigentes. Projetado com especial atenção às exigências do serviço militar, o modelo reunia robustez estrutural, versatilidade de emprego e custos controlados, expressando o amadurecimento da indústria automotiva nacional e seu papel estratégico no fortalecimento da defesa. Essa versão passou a ser designada Viatura de Transporte Não Especializado 4x4 (VTNE), incorporando uma série de modificações que a diferenciavam claramente do Jeep civil de origem. Entre os principais aperfeiçoamentos estavam as presilhas instaladas nas laterais e na traseira da carroceria, acompanhadas de dois suportes traseiros destinados à sustentação da estrutura superior da capota de lona. Essa armação, em formato de “V”, podia ser facilmente rebatida quando não utilizada, apoiando-se em suportes fixados aos para-lamas traseiros, o que conferia praticidade e rapidez na adaptação do veículo às diferentes missões. A capota, distinta da versão civil, era confeccionada em material antichamas de maior resistência e possuía cinco janelas quatro laterais, removíveis e enroláveis , permitindo transformar o VTNE em um veículo semi-conversível, adequado tanto ao transporte de pessoal quanto ao emprego em ambientes operacionais diversos. As portas da capota eram fixadas por suportes soldados às laterais da carroceria, os quais também serviam para prender as cintas de segurança quando as portas eram removidas, além de manter as extremidades do cajado da capota em posição recolhida. Refletores do tipo “olho-de-gato” foram instalados nas laterais traseiras e no suporte central do estepe, aumentando a visibilidade e a segurança em deslocamentos noturnos ou em condições adversas. A parte traseira do veículo concentrava elementos característicos do uso militar, como o estepe montado externamente, um suporte para tanque suplementar de combustível que também podia ser utilizado como reservatório de água potável e um gancho militar padrão tipo “G”, destinado ao reboque de carretas ou de peças de artilharia antitanque. Anilhas de amarração, soldadas à base da carroceria e ao para-choque dianteiro, possibilitavam o transporte do veículo por aeronaves, embarcações, pontes flutuantes ou vagões ferroviários, ampliando sua flexibilidade logística. Os para-choques em formato de meia-lua, típicos de viaturas militares, completavam o conjunto visual e funcional. Algumas unidades do VTNE podiam ser equipadas com guinchos mecânicos das marcas Ramsey, de origem norte-americana, ou Biselli, de fabricação nacional, ambos com capacidade aproximada de até 3,5 toneladas. Esses equipamentos ampliavam significativamente a capacidade do veículo em missões de resgate, apoio logístico e transposição de obstáculos. Para fins de autodefesa, o modelo admitia a instalação de metralhadoras Browning de calibre .30 ou .50, montadas em suportes fixados ao assoalho traseiro, conferindo ao VTNE uma capacidade básica de resposta em ambientes táticos.

Posteriormente, foi desenvolvida uma variante especializada para radiocomunicações, na qual o espaço originalmente destinado ao banco traseiro era ocupado por equipamentos de transmissão e recepção. Esse conjunto avançava ligeiramente além dos para-lamas traseiros e era complementado por uma antena instalada na lateral traseira direita da viatura, assegurando comunicações confiáveis em operações de campanha. Assim, o VTNE consolidou-se como uma plataforma versátil e adaptável, plenamente integrada às necessidades operacionais das Forças Armadas Brasileiras no início da década de 1960. Os jipes ¼ tonelada com tração integral 4x4, produzidos pela Willys-Overland do Brasil nos modelos CJ-5 e CJ-6, tornaram-se peças fundamentais nas operações das três Forças Armadas Brasileiras  Exército, Marinha e Força Aérea. Esses veículos, adaptados para uso militar, destacaram-se pela versatilidade, desempenhando papéis em uma ampla gama de atividades, desde operações administrativas até missões especializadas. Variantes como as versões bombeiro e viatura policial, esta última equipada com sirenes ROTAM no para-lama direito para uso pela Polícia do Exército (PE), e a versão “canhoneiro” ¼ tonelada CSR (canhão sem recuo), utilizada pelo Corpo de Fuzileiros Navais (CFN), demonstraram a capacidade de adaptação do Jeep às demandas específicas de cada instituição militar. A Willys-Overland do Brasil consolidou-se como a principal fornecedora de viaturas não blindadas para as Forças Armadas, especialmente para o Exército Brasileiro, por meio de sucessivos contratos de aquisição. Essa parceria continuou mesmo após a aquisição da empresa pela Ford do Brasil em 1967, quando os jipes passaram a ser designados como U-50. A produção desses veículos se manteve até abril de 1983, refletindo a durabilidade e a relevância do modelo no contexto militar brasileiro. A partir de 1986, muitos desses jipes foram submetidos a um programa de repotenciação conduzido pela empresa Bernardini S/A, em colaboração com o Arsenal de Guerra de São Paulo (AGSP). O projeto incluiu a substituição do motor original pelo General Motors 2,5 litros de quatro cilindros (modelo 151, também utilizado no Chevrolet Opala 4.1S), que entregava 82 cavalos a 4.400 rpm e torque de 17,1 kgfm. Além da modernização do motor, foram implementadas melhorias no sistema elétrico, como limpadores de para-brisa elétricos, caixa de fusíveis sob o painel, nova chave para setas, luz alta e baixa com indicador LED, comando de afogador atualizado, pisca-alerta e um chicote elétrico renovado. O sistema de iluminação foi adaptado ao padrão NATO, incorporando chaves militares específicas. Essas modificações trouxeram maior autonomia, com um novo tanque de combustível que reduzia o consumo, e aumentaram a capacidade de carga. O programa de repotenciação garantiu uma sobrevida significativa a esses jipes, permitindo que algumas unidades permanecessem em operação até os dias atuais, um testemunho da robustez e longevidade do projeto. Os jipes militarizados da Willys-Overland do Brasil transcenderam sua função utilitária, tornando-se símbolos de resiliência e adaptabilidade. Sua presença em diversas operações das Forças Armadas, aliada ao sucesso dos contratos com a Willys e, posteriormente, com a Ford, destacou a importância da indústria automotiva nacional no fortalecimento da defesa do país. O programa de repotenciação, conduzido com precisão pela Bernardini e pelo AGSP, assegurou que esses veículos continuassem a servir com eficiência, mesmo décadas após sua fabricação inicial.

Em Escala.
Para representarmos o Jeep Willys CJ-3 matrícula “EB 23465”, empregamos por base o modelo em die cast na escala 1/32 produzido pelo fabricante New Ray.  Como este apresenta a versão a Willys MB 1941, para se configurar o modelo pretendido é necessário realizar uma serie de modificações em scratch build, com destaque para os paralamas, grade frontal e conjunto de faróis. Outras alterações de menor expressão foram também implementadas como o armamento orgânico da viatura, com o resultado final podendo ser considerado aceitável. Outra opção para se representar este modelo pode ser obtido fazendo uso do modelo M-38A1 produzido pela AFV Club. Fizemos uso de decais produzidos pela Decal & Books , presentes no set especial “Forças Armadas do Brasil 1983 – 2002”.
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura tático camuflado em dois tons, empregado na maioria de todos os veículos em uso no Exército Brasileiro a partir do ano de 1983. Anteriormente estes veículos ostentavam o padrão anterior, totalmente em verde oliva, a exemplo do esquema tático norte-americano utilizado durante Segunda Guerra Mundial. Empregamos tintas e vernizes produzidos pela Tom Colors.
Bibliografia :
- Willys - Lexicar - https://www.lexicarbrasil.com.br/willys
- Primeiro Jeep Nacional https://quatrorodas.abril.com.br/noticias/willys-jeep-universal-ford-jeep-cj-5/
- O Jeep Militar no Brasil - http://jeepguerreiro.blogspot.com
- Veículos Militares Brasileiros – Roberto Pereira de Andrade e José S Fernandes