Engesa EE-3 Jararaca no Brasil

História e Desenvolvimento.
A objetivo de se produzir um veículo leve blindado  com tração 4x4 para o Exército Brasileiro não é nova, ela remonta ao início da década de 1970, quando a primeira ideia surge entre os oficiais do corpo técnico do Parque Regional de Motomecanização da 2ª Região Militar de São Paulo – PqRMM/2. Seria uma forma de substituir o velho jipe como veículo de exploração nas unidades de cavalaria mecanizada, dada a sua vulnerabilidade e ausência total de blindagem. Desta forma surge o primeiro desenho denominado de AUTO METRALHADORA 4x4, porém como neste período a equipe de projetos do parque estava empenhada na construção do protótipo do VBB-1 (Viatura Blindada Brasileira 1), este novo projeto não foi devidamente priorizado. O seguir dos anos assistiram a criação do VBB-2 (Viatura Blindada Brasileira 2) que resultaria após um longo processo de desenvolvimento  no veiculo blindado de reconhecimento Engesa  EE-9 Cascavel. O sucesso operacional deste blindado nas unidades do Exército Brasileiro e sua consequente aceitação no mercado internacional viriam em um futuro próximo a  restringir muito o nicho de mercado para o emprego operacional de veículos blindados leves sob rodas com configuração 4x4. Neste contexto as intenções do Exército Brasileiro em dispor de um veiculo blindado desta natureza desapareceram por completo neste período, com esta postura se mantendo até pelo menos o ano de 2010 quando este conceito foi revisto culminando na aquisição em 2019 de 32 novos carros blindados com tração 4X4 produzido pela  Iveco do modelo LMV Lince MK2 para o projeto Viatura Blindada Multitarefa, Leve Sobre Rodas (VBMT-LR).

Como a Engesa S/A estava à sempre frente de seu tempo, operando no desenvolvimento de uma gama variada de veículos blindados visando o mercado externo, ela apresentaria no entanto ao Ministério do Exército a intenção na criação de um veiculo deste tipo. Neste momento, a empresa estava entrando seu ápice comercial,  e seus fartos contratos de exportação estavam gerando os recursos necessários para que fosse ativados uma série de estudos de novos produtos. Entre estes um veículo com tração 4X4 com grande mobilidade e deveria contar com uma tripulação composta por um motorista, um comandante e um atirador. O veiculo proposto em sua configuração padrão podia ser armado com metralhadora externa de calibres 7,62 mm, ou 12,7 mm, instalada numa torreta giratória blindada, dispunha ainda de quatro lançadores de granadas fumígenas, podendo ainda ser integrado com lançadores de misseis como os anti-carro do tipo Milan. Seu motor seria posicionado na parte traseira do veiculo ligado  a transmissão mecânica de cinco velocidades à frente e uma à ré, já sua direção era hidráulica integral, permitindo acionamento mecânico em caso de emergência. Deveria possuir um sistema elétrico de 24 volts com circuitos de iluminação civil e militar. Visando a padronização máxima de componentes o veiculo seria equipado com rodas de aço estampado idênticas ao usadas no Engesa EE-9 Cascavel , pneus à “prova de balas” com sistema automático de enchimento, dispunha ainda de um sofisticado conjunto ótico de periscópios para observação além de um sistema passivo de visão noturna.
Por ser extremamente compacto, seu peso máximo era da ordem de 5.800 kg, com autonomia de 700 km, com 140 litros de diesel, apresentava uma velocidade máxima de 100 km, podendo subir rampas de 60% e inclinação máxima lateral de 30%, superar obstáculos vertical de 400 mm, podendo passar em vãos de 800 mm. Seus componentes mecânicos eram todos oriundos da indústria automotiva nacional, usada em caminhões comerciais , o que facilitava a logística de peças de reposição. Seu motor era o comprovado diesel Mercedes Benz OM-314A, quatro cilindros em linha, turbo alimentado e sua caixa de mudanças era uma Clark modelo 240 V, mecânica, com caixa de descida Engesa, com engrenagens helicoidais, engrenamento constante e relação l,0:1. Sua embreagem era do tipo monodisco seco, hidráulico e a caixa de transmissão múltipla Engesa, mecânica, duas velocidades, engrenamento constante. O sistema de direção era ZF do Brasil modelo 8058, hidráulica e sua suspensão tipo eixo rígido, flutuante, com molas semi elípticas e amortecedores de dupla ação, sistema de freio Bendix a tambor com acionamento a ar sobre hidráulico e freio de estacionamento mecânico. Os primeiros dois protótipos foram construídos com recursos próprios e terminados em fins de 1979 e apresentados ao Exército Brasileiro no ano seguinte. Neste mesmo período a área comercial da Engesa iniciou uma ampla campanha de divulgação de seu novo produto agora designado como EE-3 e batizado como “Jararaca” dando continuidade em dar a seus veiculo o nome de cobras venenosas.

Um dos mais promissores clientes era o Exército Iraquiano, e de fato se concretizaria no primeiro contrato de exportação englobando uma encomenda de 280 unidades, porém nenhum Engesa EE-3 Jararaca foi efetivamente entregue, pois o degringolar das condições de inadimplência daquele país em relação a contratos anteriores firmados com a Engesa S/A,  levaria a direção comercial da  empresa a abortar qualquer entrega futura. No entanto a linha de produção do carro se manteria aberta para atender a pequenas encomendas celebradas com alguns países, entre eles Guarda Nacional Cipriota, que no início da década de 1980 estava empenhada em grande programa de modernização em meio a tensões desencadeadas pela declaração de independência do norte de Chipre de 1983,  levando assim a assinatura de um contrato para o fornecimento de 15 carros. No entanto os cipriotas não estavam especialmente interessados na utilidade do veículo como um carro de reconhecimento e modificaram seus Jararacas com mísseis guiados antitanques MILAN, convertendo-os em destruidores de tanque usados para complementar o  Engesa Cascavel EE-9 mais pesados presentes em suas unidades blindadas leves. A fabricante nacional subsequentemente começou a instalar todos os carros  um sistema de filtragem projetado para permitir que suas tripulações operassem em um ambiente de guerra nuclear, química e biológica (NBC); isto foi aparentemente em resposta à pressão de outro cliente potencial de exportação, a Líbia, que manifestaria interesse no veículo. Apesar de uma carta de intenções firmadas para a compra de 180 unidades, processo este barrado pela a Agência Central de Inteligência (CIA)  que teorizou que os veículos eram destinados a terceiros, como o Irã.
No final da década de 1980, a Engesa observou que o Engesa EE-3 Jararaca não era mais um veículo com condições competitivas de disputar grandes contratos internacionais, principalmente pelo surgimento no mercado de novas opções de carros blindados sob rodas com tração 6X6, o fim da Guerra Fria também levava a diminuição dos orçamentos militares ao longo do globo, reduzindo ainda mais as possibilidades de exportação do modelo. Ao todo somente 63 carros foram produzidos, sendo exportados para o Uruguai com dezesseis unidades, Guiné dez unidades, Gabão doze unidades, Equador dez unidades, e Chipre quinze unidades. Muitos destes Engesa EE-3 Jararaca ainda se encontram em uso, com cinco carros sendo empregados constantemente pelo exercito uruguaio juntos as forças de paz da Organização das Nações Unidas (ONU) no Haiti na operação "Minustah".

Emprego no Exército Brasileiro.
Em meados da década de 1970 o Exército Brasileiro vivenciava um processo de modernização de seus meios de transporte e combate, passando a receber centenas de caminhões militares, veículos blindados de transporte de tropas e carros de combate. Atentos a este processo a Engesa S/A que estava se tornando um dos maiores fornecedores de itens militares ao governo brasileiro deu sequencia no desenvolvimento de seu projeto para um veículo blindado leve de reconhecimento sob rodas com tração 4X4, baseando seu conceito nos estudos desenvolvidos no início da mesma década pelo Parque Regional de Motomecanização da 2º Região Militar de São Paulo ( PqRMM/2 ). Este promissor novo produto buscava criar um novo nicho de vendas para a empresa dentro do Exercito Brasileiro, capitalizando assim a boa fase no relacionamento governamental proporcionado pelo avançar positivo dos projetos do EE-9 Cascavel e EE-11 Urutu junto a força mecanizada. O foco deste esforço era mais politico na tentativa de ajudar a empresa, tentando assim enquadrar o novo EE-3 Jararaca  em uma possível concorrência para o fornecimento de de mais de  mil e duzentas viaturas blindadas leves sobre rodas, em várias variantes: reconhecimento, anti-carro, radar, posto de comando, observador avançado e porta-morteiro. A alta taxa de comunalidade de componentes com os demais veículos da empresa já em processo de implantação no exército era um dos grandes trunfos capitalizados pela empresa, visando assim uma excelente relação de custo benefício em termos de operação e manutenção.

A Engesa S/A decidiu produzir com recursos próprios, dois protótipos funcionais do Engesa EE-3 Jararaca que foram concluídos em fins do ano de 1979, devido a necessidade de pequenos ajustes e retrabalhos os carros foram cedidos ao Exército Brasileiro para avaliação somente no inicio do ano de 1981. De posse dos dois carros o exército iniciou um amplo processo de avaliação se estendendo de abril de 1981 até março do ano seguinte. As conclusões aferidas neste processo não recomendavam a adoção do modelo, nos relatórios oficiais foram feitas citações devidos a inúmeras falhas mecânicas quando da operação do veiculo nos mais diversos tipos de terreno, sendo estas deficiências  aparentemente originadas devido a falhas de engenharia que foram negligenciadas no estagio de projeto devido ao interesse da empresa em disponibilizar mais rápido possível os protótipos para teste. Além destes fatores negativos, umas das principais causas da não aceitação do Engesa  EE-3 Jararaca estava fundamentada que neste mesmo período o processo de implantação dos carros blindados sobre rodas com tração 6X6 Engesa EE-9 Cascavel estava a pleno vapor  nas unidades do Exército Brasileiro com alto índice de sucesso, Este cenário desmontou todo o interesse na aquisição e operação de veículo blindado leve com tração 4X4, negativando assim qualquer possibilidade atual ou futura de aquisição deste tipo carro blindado.
Assim os dois protótipos foram devolvidos a Engesa S/A, que decidiu seguir com o programa agora com foco em possíveis exportações, infelizmente nesta mesma época havia também no mercado internacional um consenso para a operação de carros blindados 6X6 o que limitaria em muito o fechamento de contratos de alto vulto para as exportações do modelo. Somente 63 carros seriam fornecidos a nações estrangeiras até 1986. Em meados desta mesma década a Engesa passou a sofrer com sérios problemas de ordem financeira, sendo provocada em face de altos investimentos com recursos próprios para o desenvolvimento do Carro Principal de Combate (Main Battle Tank- MBT) EE-T1 Osório que infelizmente não logrou êxito em vendas, a não geração de receita agravou seriamente o fluxo de caixa da empresa. Este cenário de fragilidade financeira seria agravado com a inadimplência já citada anteriormente na ordem de US$ 200 milhões de dólares junto ao governo iraquiano, oriunda de contratos anteriores de fornecimento de carros blindados e caminhões militares. A combinação destes dois fatores resultaria na decretação da falência da empresa no início da década de 1990, gerando uma dívida de R$ 1,5 bilhão, em valores atualizados, junto ao Banco do Brasil e ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), em empréstimos não pagos. Este então  seria o fim infelizmente de uma das mais promissoras empresas de defesa do pais.

Como o governo era um dos principais credores da massa falida da empresa, ficou decidido que os ativos, peças de reposição e veículos deveriam ser incorporados ao Exército Brasileiro por autorização judicial, e entre estes ativos estavam, os dois protótipos originais do Engesa EE-3 Jararaca. Assim em 1993 ficou decidido que estes carros de reconhecimento deveriam ser alocados junto ao 13 º Regimento de Cavalaria Mecanizado (13 º RecMec) baseado na cidade de Pirassununga no interior de São Paulo. Após a execução de uma breve revisão mecânica e elétrica, os EE-3 Jararaca foram disponibilizados para serviço ativo junto a esta unidade, passando a atuar em missões de reconhecimento de campo de batalha em conjunto com os Engesa EE-9 Cascavel. Um dos carros incorporados ao Exército Brasileiro apresentava uma configuração única destinada a operar em cenários de guerra química, tinha como missão primordial missão identificar e marcar com sistema de bandeirolas coloridas na parte traseira do veículo os tipos de substâncias toxicas identificadas no campo de batalha. E estava dotado de um elaborado sistema de proteção NBC com filtros de ar condicionado e mascaras de proteção química. A existência de apenas duas unidades em serviço no Exército Brasileiro limitava em muito a operação dos Engesa EE-3 Jararaca, sendo definido em 2012 a transferência de um carro para o acervo do Museu Blindado do Centro de Instrução de Blindados General Walter Pires (CIBld), com a outra unidade ainda permanecendo ainda em serviço restrito junto ao 13º Regimento de Cavalaria Mecanizado (13 º RecMec).
Não foi o melhor veículo desenvolvido pela Engesa S/A, recebendo ao longo de seu desenvolvimento muitas críticas de seus próprios engenheiros e projetistas. Sua concepção foi focada na substituição de antigas viaturas  não blindadas de ¼ toneladas ja obsoletas naquele momento. Sua silhueta baixa e sua facilidade de manobras em terrenos variados, o tornariam um veículo extremamente operacional, inclusive para patrulhar áreas urbanas, como força policial, em possíveis operações em diversos cenários que poderiam vir a exigir alto poder ofensivo com mobilidade, proporcionado ainda uma satisfatória proteção blindada a seus tripulantes. Dadas as suas pequenas dimensões, podia locomover-se com facilidade, evitando, desta forma, empregar no campo de batalha, veículos sob rodas com configuração 6x6, mais pesados, e grandes como os usados recentemente no Rio de Janeiro durante as operações de segurança nas favelas cariocas. Seria no entanto um veículo ideal para emprego junto as unidades de ataque rápido, pois poderia muito bem ser lançado de paraquedas das aeronaves Lockheed C-130E/H Hercules da Força Aérea Brasileira.

Em Escala.
Para representarmos a versão básica de reconhecimento do Engesa EE-3 Jararaca, fizemos uso da única opção disponível, um modelo em resina de produção artesanal na escala 1/35 que apresenta características rusticas e espartana. Este modelo deve ter sido baseado no Cascavel produzido pela mesma empresa (versão encurtada) e por isto necessita de inúmeras correções, mudanças e inclusões para se aproximar da versão real. Iremos abordar o processo de conversão futuramente em um novo artigo na seção de Reviews. Empregamos decais produzidos pela Decal e Books presentes no set " Forças Armadas do Brasil 1983 - 2002 ".
O esquema  de cores  ( FS ) descrito abaixo representa o  padrão de pintura empregado em todos  os carros blindados do Exército Brasileiro, sendo este aplicado após o recebimento da massa falida da empresa em 1993.


Bibliografia : 

- EE-3 Jararaca 4X4 Um Conceito Esquecido, por Expedito Carlos Stephani Bastos
- Engesa EE-3 Jararaca, Wikipedia - http://pt.wikipedia.org/wiki/EE-3_Jararaca
- Uma Realidade Brasileira - por Expedito Carlos Stephani Bastos