História e Desenvolvimento.
No início da década de 1930, as unidades de infantaria do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army) tinham nas metralhadoras pesadas de calibre .50 (12,7 mm) seu principal meio orgânico de fogo de grande potência. Embora eficazes contra alvos leves e posições fortificadas, essas armas apresentavam limitações quando empregadas contra veículos motorizados ou blindados emergentes, cuja presença tornava-se cada vez mais comum no campo de batalha. Já naquele período, alguns estudos preliminares começavam a ser conduzidos no interior da instituição com o objetivo de desenvolver uma arma de maior calibre, especificamente concebida para enfrentar ameaças blindadas. Entretanto, tais iniciativas ainda se encontravam em estágio embrionário e enfrentavam resistência por parte de oficiais de alta patente, que consideravam o desenvolvimento de novos sistemas anticarro uma prioridade secundária diante de outras demandas organizacionais e doutrinárias. Esse cenário começou a se modificar significativamente a partir do desencadeamento da Guerra Civil Espanhola, em 17 de julho de 1936. O conflito revelou, de forma inédita, o emprego sistemático de unidades blindadas por ambos os lados, criando um laboratório de combate que demonstrou a crescente importância das armas anticarro no campo de batalha moderno. Nesse contexto, destacou-se a eficácia de canhões leves dedicados à função antiblindagem, como o PaK 35/36 de 37 mm, desenvolvido pela Alemanha. A atuação dessas peças evidenciou a necessidade de sistemas de artilharia leves, móveis e capazes de acompanhar as unidades de infantaria, proporcionando-lhes meios eficazes para enfrentar veículos blindados inimigos. Diante dessas lições operacionais, o Comitê de Material Bélico do Exército dos Estados Unidos recomendou, em janeiro de 1937, o desenvolvimento urgente de um sistema de características semelhantes. A proposta visava dotar o arsenal norte-americano de uma arma com efetiva capacidade anticarro, elevada cadência de tiro e boa mobilidade tática, permitindo seu rápido deslocamento e emprego direto no campo de batalha em apoio às tropas de infantaria. Com essa diretriz estabelecida, iniciaram-se estudos preliminares voltados à análise de diversos modelos de artilharia leve já existentes no mercado internacional. A estratégia consistia em avaliar sistemas considerados bem-sucedidos e, a partir de suas características técnicas e operacionais, desenvolver um projeto próprio adaptado às necessidades do Exército norte-americano. Nesse contexto, foram adquiridas duas unidades do canhão alemão Panzerabwehrkanone 36 (PaK 36), de calibre 37 mm, destinadas a extensivos testes e avaliações no Aberdeen Proving Ground, importante campo de provas militar localizado no estado de Maryland. A análise detalhada dessas peças forneceu subsídios fundamentais para a formulação do novo projeto. O programa de desenvolvimento passou a ser conduzido sob a supervisão de uma ampla equipe técnica composta por representantes das armas de infantaria e artilharia do Exército dos Estados Unidos. Durante as avaliações iniciais, considerou-se a possibilidade de empregar calibres superiores; contudo, tais opções foram descartadas em favor de um sistema mais leve e manobrável, que pudesse ser operado com relativa facilidade por uma pequena guarnição e deslocado rapidamente em terreno variado. Essas premissas levaram à escolha do calibre 37 mm, já amplamente utilizado em diversos canhões anticarro da época, como os modelos desenvolvidos pela Bofors, na Suécia, e pelo arsenal tchecoslovaco representado pelo canhão vz. 37.
Em 9 de setembro de 1937, foi autorizada a construção dos primeiros protótipos experimentais, iniciando-se com o canhão designado T3 montado no reboque T1. Durante os testes iniciais, entretanto, surgiram divergências entre as diferentes correntes de pensamento dos futuros usuários particularmente entre oficiais da infantaria e da artilharia quanto às características ideais do sistema. Paralelamente, verificaram-se problemas de estabilidade no conjunto durante os ensaios de tiro e deslocamento. Essas limitações levaram à introdução de modificações estruturais no sistema de transporte, resultando em uma versão aprimorada do conjunto, que passou a receber a designação T1E1. Já nesta nova configuração, os protótipos foram submetidos a um novo programa de testes no Aberdeen Proving Ground. As avaliações, contudo, ainda revelaram diversas deficiências estruturais, destacando-se sobretudo a instabilidade do conjunto de transporte durante o disparo e o deslocamento em terreno irregular. Diante desses resultados, tornou-se evidente a necessidade de um novo redesenho do sistema de reboque. Assim, foi concebido um conjunto de transporte inteiramente reformulado, designado T5, que passou a ser submetido a testes durante o verão de 1938. Ao término dessas avaliações, a comissão de desenvolvimento concluiu que a combinação mais eficiente para o emprego operacional seria formada pelo canhão T10 acoplado ao conjunto de transporte T5. Essa configuração foi então submetida a uma nova série de ensaios de campo no próprio Aberdeen Proving Ground, onde demonstrou desempenho satisfatório em termos de mobilidade, estabilidade e precisão de tiro. Com base nesses resultados, o sistema foi oficialmente adotado em 15 de dezembro de 1938 pelo Exército dos Estados Unidos, recebendo a designação de M3 de 37 mm para o canhão e M4 para o conjunto de transporte. Os primeiros contratos de produção foram firmados no início do ano seguinte, prevendo inicialmente uma produção limitada destinada a equipar as primeiras unidades e validar o sistema em serviço. A fabricação do canhão ficou a cargo do Watervliet Arsenal, no estado de Nova York, enquanto o conjunto de transporte foi produzido no Rock Island Arsenal, em Illinois. A expansão da produção ocorreria de forma mais acelerada apenas em agosto de 1941, após a realização das grandes manobras militares conhecidas como Manobras da Louisiana e Manobras da Carolina. Durante esses exercícios, evidenciou-se a carência de armamento anticarro em diversas unidades, a ponto de algumas delas utilizarem maquetes de madeira em substituição às peças reais, devido aos atrasos na entrega do novo sistema. Embora o M3 tenha seguido conceitualmente a mesma linha do canhão alemão PaK 36, desenvolvido pela Rheinmetall, frequentemente sendo descrito como uma cópia deste, na prática tratava-se de um projeto substancialmente distinto. O sistema norte-americano apresentava diferenças significativas de concepção, inclusive no tipo de munição empregada e em diversos elementos estruturais. O conjunto completo possuía peso aproximado de apenas 400 kg, característica que lhe conferia excelente mobilidade tática. O tubo do canhão era forjado em peça única, apresentando raiamento uniforme composto por doze ranhuras com torção para a direita, completando um giro a cada 25 calibres. A extremidade posterior do tubo era rosqueada a um anel de culatra que abrigava um mecanismo de fechamento do tipo deslizante vertical, solução robusta e confiável. O sistema de recuo adotava o mecanismo do tipo hydrospring, que combinava componentes hidráulicos e molas para absorver a energia gerada no disparo.

O conjunto de transporte M4 empregava o sistema de trilhos divergentes do tipo split trail, que proporcionava maior estabilidade durante o tiro. As rodas eram equipadas com pneus pneumáticos montados em um eixo robusto, permitindo deslocamentos rápidos por veículos de tração leve. O sistema também contava com suportes escamoteáveis, que podiam ser baixados quando a peça entrava em posição de disparo, aumentando sua estabilidade, ou recolhidos durante o deslocamento. A pontaria era realizada por meio da mira telescópica modelo M6, enquanto os mecanismos de elevação e direção estavam posicionados no lado esquerdo da peça, permitindo que um único artilheiro operasse com relativa facilidade os controles de apontamento. O mecanismo transversal incluía ainda um sistema de liberação rápida que possibilitava o deslocamento livre do tubo, facilitando o engajamento rápido de alvos emergentes. Graças ao seu peso reduzido e à simplicidade de operação, o M3 podia ser facilmente rebocado por veículos utilitários leves como os jipes Willys MB e Ford GPW. Essas características contribuíram para que o sistema se consolidasse rapidamente como a principal arma anticarro orgânica da infantaria do Exército dos Estados Unidos (U.S Army), representando uma solução prática e eficiente. O canhão M3 de 37 mm foi oficialmente introduzido em 1940 como uma arma leve destinada à defesa anticarro das unidades de infantaria. Concebido para oferecer elevada mobilidade tática e rápida cadência de tiro, o sistema tornou-se amplamente empregado durante as fases iniciais da Segunda Guerra Mundial, particularmente em cenários onde as forças inimigas utilizavam veículos blindados leves. Um dos primeiros grandes teatros de operações em que o M3 foi utilizado ocorreu durante a defesa das Filipinas, iniciada após o ataque japonês de 8 de dezembro de 1941 (horário local), ocorrido poucas horas após o ataque a Pearl Harbor. Naquele momento, as forças americanas e filipinas estacionadas no arquipélago, organizadas no âmbito da Força de Luzon, foram surpreendidas pela ofensiva japonesa. Entre as unidades envolvidas destacavam-se os contingentes dos Philippine Scouts, que integravam a estrutura do Exército norte-americano e constituíam parte importante da defesa local. Nesse contexto, o canhão M3 tornou-se uma das principais armas anticarro disponíveis para enfrentar os blindados japoneses empregados na campanha, entre eles o Type 95 Ha-Go e o Type 97 Te-Ke. Esses veículos possuíam blindagem relativamente leve variando aproximadamente entre 6 e 25 mm o que permitia ao canhão de 37 mm obter resultados satisfatórios em distâncias de até cerca de 500 metros quando empregada munição perfurante (AP). O emprego do M3 ocorreu em diversos combates relevantes da campanha, incluindo as operações iniciais na região do Golfo de Lingayen, bem como nas subsequentes ações defensivas nas áreas de Manila e da Península de Bataan. Nos estágios iniciais da campanha, o sistema demonstrou boa eficácia contra os blindados japoneses, especialmente quando utilizado em emboscadas ou em posições defensivas previamente preparadas. Entretanto, as condições adversas do terreno tropical, aliadas à velocidade do avanço japonês e às limitações logísticas das forças defensoras, reduziram significativamente a mobilidade operacional da peça. Embora relativamente leve e capaz de ser rebocada por jipes ou movimentada por uma guarnição de aproximadamente seis homens, o deslocamento do M3 frequentemente se mostrava dificultado por terrenos acidentados, selvas densas e estradas precárias.
À medida que a campanha avançava e a situação defensiva das forças aliadas se deteriorava, especialmente na Península de Bataan, os M-3 passaram a ser empregados também em funções de apoio direto à infantaria. Nessa função, utilizavam munição de alto explosivo (HE) para engajar posições fortificadas, concentrações de tropas e outras posições defensivas inimigas. Apesar da resistência prolongada, a queda da fortaleza insular de Corregidor, em maio de 1942, marcou o colapso definitivo da defesa. Nesse momento, grande parte do material militar remanescente, incluindo numerosos canhões M-3, foi destruída pelas próprias forças defensoras ou capturada pelas tropas japonesas. Os relatos operacionais da campanha indicam que o M-3 recebeu avaliações positivas quanto à sua portabilidade, simplicidade mecânica e facilidade de operação. Contudo, suas limitações tornaram-se cada vez mais evidentes à medida que a guerra evoluiu. A capacidade limitada de perfuração contra blindagens mais espessas e as dificuldades logísticas enfrentadas pelas forças aliadas reduziram significativamente sua eficácia estratégica naquele teatro de operações. Posteriormente, o canhão M-3voltaria a ser empregado em larga escala durante a Operação Tocha, em novembro de 1942. Essa operação marcou os desembarques aliados no Norte da África, particularmente nas regiões de Marrocos e Argélia, constituindo o primeiro grande envolvimento terrestre das forças norte-americanas no teatro europeu-mediterrâneo da guerra. Durante esses desembarques, unidades do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army), incluindo a 1ª Divisão de Infantaria e a 3ª Divisão de Infantarias, empregaram extensivamente os canhões M-3 nas operações realizadas nas áreas de Casablanca, Oran e Argel. Nessas operações, as forças aliadas enfrentaram principalmente tropas da França de Vichy, além de elementos das forças alemãs e italianas presentes na região. Nessas circunstâncias, o M-3 continuou a desempenhar funções tanto anticarro quanto de apoio direto à infantaria. Contudo, à medida que o conflito evoluía e os campos de batalha passaram a ser dominados por carros de combate mais pesadamente blindados, como os modelos alemães empregados no Norte da África, o canhão de 37 mm gradualmente demonstraria suas limitações, levando os norte-americanos a buscar sistemas anticarro de maior calibre e poder de penetração nos anos subsequentes da guerra. Nas primeiras fases da campanha, o M-3 demonstrou desempenho satisfatório contra os blindados leves utilizados pelas forças da França de Vichy, como o Renault R‑35 e o Hotchkiss H‑35. Esses veículos possuíam blindagem frontal relativamente limitada, variando aproximadamente entre 25 e 40 mm, o que permitia ao projétil perfurante com carga explosiva (APHE) do canhão de 37 mm penetrar a blindagem a distâncias de até cerca de 500 metros em condições favoráveis de combate. Durante os combates nas áreas de Port Lyautey e Safi, os canhões M-3 foram frequentemente posicionados em emboscadas e em linhas defensivas preparadas, desempenhando papel relevante na neutralização de blindados adversários e no apoio direto às unidades de infantaria. Nessas circunstâncias, a combinação de mobilidade, simplicidade mecânica e rapidez de tiro revelou-se particularmente útil nas operações anfíbias e nas subsequentes ações terrestres. Entretanto, a partir de 1943, a situação tática no teatro norte-africano modificou-se sensivelmente com a chegada de reforços alemães pertencentes às forças do Wehrmacht. A introdução de carros de combate mais bem protegidos, como o Panzer III e o Panzer IV, evidenciou as limitações do canhão de 37 mm. A blindagem frontal desses veículos, frequentemente variando entre 50 e 80 mm, excedia a capacidade de penetração do M-3 em distâncias normais de combate.

Diante dessa limitação, as guarnições eram frequentemente obrigadas a buscar disparos contra os flancos ou a retaguarda dos blindados inimigos, ou ainda aproximar-se perigosamente a distâncias inferiores a 100 metros para obter algum efeito contra a blindagem. Essa situação aumentava significativamente a exposição e a vulnerabilidade da guarnição. Em resposta a essas limitações, o emprego tático do M-3 passou a privilegiar emboscadas, posições ocultas e o uso complementar de munição de alto explosivo (HE) contra fortificações, posições de infantaria e outros alvos menos protegidos. Com o prosseguimento da campanha, especialmente após a derrota aliada na Batalha do Passo de Kasserine em fevereiro de 1943 episódio que evidenciou de forma contundente a superioridade tática e material das forças blindadas alemãs, tornou-se evidente a necessidade de substituir o M-3 por armamentos de maior poder de penetração. Gradualmente, o canhão foi sendo substituído pelo mais potente M-1 de 57 mm.. Posteriormente, o sistema voltaria a ser empregado durante a invasão da Sicília, durante essa operação, unidades do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army) particularmente a 1ª Divisão de Infantaria e a 9ª Divisão de Infantaria desembarcaram canhões M-3 nas praias do setor ocidental, incluindo as regiões de Gela e Licata. Nas fases iniciais, o M-3 voltou a demonstrar eficácia contra os blindados leves italianos, como o Fiat M13/40 e o L6/40, cujas blindagens não excediam, em geral, 40 mm. Nessas condições, os projéteis perfurantes APHE podiam penetrar a blindagem a distâncias de até cerca de 500 metros. Em especial durante os combates na região de Gela, os M-3 desempenharam papel relevante na contenção dos contra-ataques italianos ocorridos nas primeiras horas da operação. Todavia, a chegada de reforços alemães ao teatro siciliano, incluindo unidades equipadas com os carros de combate Panzer IV e o Tiger I, evidenciou novamente a insuficiência do armamento. A blindagem frontal do Tiger, que podia atingir aproximadamente 100 mm de espessura, tornava o M-3 praticamente ineficaz, exceto em disparos extremamente próximos ou contra áreas vulneráveis do veículo. Durante a invasão da Normandia, em 6 de junho de 1944, o M-3 desempenhou um papel relevante, embora limitado, nas operações das forças aliadas. Utilizado principalmente por unidades de infantaria, sendo empregado em funções secundárias, oferecendo suporte contra alvos leves, como bunkers, ninhos de metralhadoras e veículos com blindagem menos robusta. Unidades aerotransportadas, como as divisões 82ª e 101ª, fizeram uso do M-3 devido à sua notável portabilidade, uma vez que era uma arma leve e podia ser desmontada para transporte em planadores. Nessas circunstâncias, o canhão foi empregado, por exemplo, na defesa de posições contra contra-ataques alemães com veículos menos blindados, além de proporcionar apoio direto às tropas de infantaria. Entretanto, em 1944, o M-3 de 37 mm já era considerado obsoleto contra os tanques alemães mais avançados, como os Panzer IV, Panther e Tiger. Essa limitação levou muitas unidades a preferirem armamentos alternativos, como bazucas ou canhões de maior calibre. Apesar disso, a mobilidade e a facilidade de operação do M-3 garantiram sua utilidade em combates urbanos e em terrenos onde tanques pesados eram menos predominantes. No teatro do Pacífico, o M-3 demonstrou maior eficácia contra tanques japoneses, como os Type 95 Ha-Go e Type 97 Chi-Ha, que possuíam blindagens mais finas. Entre 1940 e 1943, foram produzidos 18.702 canhões M3 de 37 mm, divididos em três modelos principais. Durante a Segunda Guerra Mundial, este armamento foi amplamente distribuído entre as nações aliadas por meio do programa Lend-Lease (Lei de Empréstimos e Arrendamentos), fortalecendo os arsenais de países alinhados aos Estados Unidos. No período pós-guerra, excedentes desses canhões foram transferidos para nações politicamente alinhadas com os interesses do governo norte-americano, permanecendo em serviço ativo em alguns países até o final da década de 1970.
Emprego no Exército Brasileiro.
No início da Segunda Guerra Mundial, o governo dos Estados Unidos passou a considerar com crescente preocupação a possibilidade de uma eventual incursão militar das potências do Eixo no continente americano. Essa apreensão intensificou-se particularmente após a Batalha da França e a consequente capitulação francesa em junho de 1940, evento que alterou significativamente o equilíbrio estratégico no Atlântico. A partir daquele momento, temia-se que a Alemanha Nazista pudesse estabelecer bases operacionais em territórios sob influência ou controle francês, como nas Ilhas Canárias, em Dacar e em outras possessões coloniais na África, criando assim posições estratégicas que poderiam servir de ponto de apoio para uma eventual projeção de poder em direção ao continente americano. Nesse contexto geopolítico, o Brasil passou a ser identificado por analistas militares norte-americanos como um dos pontos mais sensíveis do hemisfério ocidental. Sua proximidade com o continente africano especialmente na região do litoral nordestino tornava o território brasileiro potencialmente vulnerável a operações transatlânticas oriundas da África Ocidental, região que também figurava, naquele momento, nos planos estratégicos de expansão do Eixo. Paralelamente, a expansão militar japonesa no Sudeste Asiático e no Pacífico Sul provocou a perda de importantes áreas produtoras de borracha natural para os Aliados. Como consequência, o Brasil assumiu papel central como fornecedor de látex, matéria-prima essencial para a produção de borracha utilizada em pneus, mangueiras, juntas industriais e diversos componentes críticos para a indústria de guerra aliada. Além desses fatores econômicos e estratégicos, a posição geográfica do litoral brasileiro apresentava vantagens logísticas notáveis para o esforço militar aliado. A região Nordeste, particularmente a cidade de Recife, constituía um dos pontos de menor distância entre os continentes americano e africano. Essa característica transformava o Nordeste brasileiro em um elo fundamental nas rotas aéreas e marítimas utilizadas para o deslocamento de tropas, suprimentos e aeronaves em direção aos teatros de operações no norte da África e na Europa. Diante desse cenário, observou-se, em um curto espaço de tempo, uma significativa aproximação política, econômica e militar entre o Brasil e os Estados Unidos. Essa cooperação materializou-se por meio de diversos acordos estratégicos, investimentos em infraestrutura militar e projetos de modernização das forças armadas brasileiras. Entre essas iniciativas destacou-se a adesão do Brasil ao programa de assistência militar conhecido como Lend-Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos), instrumento criado pelo governo norte-americano com o objetivo de fornecer apoio material aos países aliados. Por meio desse acordo, foi concedida ao Brasil uma linha inicial de crédito da ordem de 100 milhões de dólares, destinada à aquisição de armamentos, aeronaves, veículos militares e outros equipamentos necessários à modernização das Forças Armadas Brasileiras. Esse apoio revelou-se particularmente relevante diante da crescente ameaça representada pelas operações submarinas alemas no Atlântico Sul. Os ataques conduzidos por submarinos alemães contra navios mercantes intensificaram os riscos à navegação comercial brasileira, afetando diretamente o fluxo de matérias-primas estratégicas destinadas à indústria de guerra norte-americana.
Gradualmente, a participação brasileira no esforço de guerra aliado ampliou-se para além do fornecimento de recursos estratégicos e da cooperação logística. O então presidente Getúlio Vargas declarou que o Brasil não se limitaria a apoiar os Aliados apenas no campo econômico ou industrial, sinalizando a disposição do país em assumir um papel mais ativo no conflito. Nesse contexto, passou-se a considerar seriamente a possibilidade do envio de tropas brasileiras para atuar em um teatro de operações externo, decisão que, nos anos seguintes, resultaria na criação da Força Expedicionária Brasileira, responsável pela participação direta do Brasil nas operações militares no continente europeu. Na década de 1940, a artilharia do Exército Brasileiro enfrentava sérias limitações materiais e tecnológicas. Grande parte de seu parque de artilharia ainda era composta por peças concebidas no início do século XX, como os canhões alemães Krupp 75 mm Modelo 1908 e os franceses Schneider-Canet 75 mm, projetados originalmente para tração hipomóvel. Embora fossem armamentos robustos e confiáveis em sua época, essas peças já não correspondiam às exigências táticas e operacionais impostas pela guerra moderna, marcada por maior mobilidade, poder de fogo e integração com meios mecanizados. A entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial, ao lado dos Aliados, desencadeou um processo de modernização sem precedentes nas Forças Armadas brasileiras. A partir de meados de 1942, navios de transporte começaram a aportar no Porto do Rio de Janeiro trazendo uma ampla variedade de equipamentos modernos. Entre eles destacavam-se armamentos de infantaria, canhões anticarro de 37 mm e obuseiros de 105 mm e 155 mm, sistemas que representavam um salto qualitativo significativo para a artilharia brasileira, ampliando substancialmente sua capacidade de apoio de fogo, alcance e precisão. O comprometimento do Brasil com o esforço de guerra aliado foi formalizado em 9 de agosto de 1943, por meio da Portaria Ministerial nº 4.744, publicada em boletim reservado no dia 13 do mesmo mês, que determinou a criação da Força Expedicionária Brasileira (FEB). Estruturada como a 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária (1ª DIE) e colocada sob o comando do João Batista Mascarenhas de Morais, então general de divisão, a força brasileira foi concebida como um grupo expedicionário completo, organizado segundo os padrões operacionais do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army) e destinada a atuar no teatro de operações europeu. Sua composição previa um efetivo aproximado de 25 mil soldados. A estrutura brasileira incluía quatro grupos de artilharia de campanha três equipados com obuseiros de 105 mm e um com peças de 155 mm. Responsáveis por fornecer apoio de fogo direto às unidades de infantaria. A força contava ainda com uma esquadrilha de ligação e observação da Força Aérea Brasileira, um batalhão de engenharia, um batalhão de saúde, um esquadrão de reconhecimento e uma companhia de comunicações. Além dessas unidades operacionais, a organização incluía diversos elementos de apoio indispensáveis ao funcionamento da força expedicionária, como comando próprio, comando de quartel-general, destacamento de saúde, companhia de manutenção, companhia de intendência, pelotão de sepultamento, pelotão de polícia. Após o desembarque no porto de Nápoles e um período de intensivo treinamento conduzido por instrutores do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army), as unidades foram integradas às operações do V Exército dos Estados Unidos.

Nesse contexto, passaram a apoiar as ofensivas aliadas contra as posições defensivas alemãs na Itália, notadamente nas fortificações da Linha Gustav e posteriormente da Linha Gótica. No que se refere ao emprego de armamentos anticarro, não existem registros documentais ou fotográficos conclusivos que comprovem o uso efetivo em combate dos canhões M-3 e M3A1 37 mm Gun pelas unidades da Força Expedicionária Brasileira (FEB) durante a campanha na Itália. Contudo, há indícios de que essas peças desempenharam papel relevante nas atividades de instrução e adestramento conduzidas pelo pessoal norte-americano junto aos soldados brasileiros. Realizado já em território italiano, esse treinamento tinha como objetivo familiarizar as tropas expedicionárias com o manejo, a operação e os princípios de emprego tático desses sistemas de armas, preparando-as para as exigências do combate no teatro europeu. Outra hipótese interpretativa sugere que o teatro de operações italiano não figurava entre as prioridades estratégicas para o recebimento dos armamentos anticarro mais modernos então disponíveis aos Aliados. Nesse contexto, o V Exército dos Estados Unidos, mantinha em seu inventário uma quantidade considerável de canhões anticarro M-3, em detrimento de modelos mais recentes. Relatórios operacionais indicam que essas peças permaneceram em uso pelo menos até o final de 1944, refletindo as limitações logísticas, industriais e estratégicas que caracterizaram a condução da campanha aliada na Itália. Em sua obra "US Anti-tank Artillery 1941–1945", o historiador e pesquisador norte-americano Steven J. Zaloga dedica especial atenção ao emprego da artilharia anticarro no front italiano, destacando a influência decisiva da topografia do país nas escolhas táticas adotadas pelas unidades do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army). Segundo o autor, o relevo acidentado e predominantemente montanhoso da península italiana caracterizado por vales estreitos, elevações abruptas e vias de acesso limitadas favoreceu a permanência em serviço do canhão antitanque M-3 de 37 mm, cuja principal virtude residia na leveza e na facilidade de manobra em comparação com seu sucessor direto, o M-1 de 57 mm. Steven J. Zaloga observa que a reduzida massa do M-3 permitia sua tração por veículos leves, como jipes militares, proporcionando maior agilidade tática e rapidez de deslocamento em terrenos difíceis. Em contrapartida, o M-1 de 57 mm, embora significativamente mais potente e eficaz contra blindados mais pesados, exigia veículos de maior porte e potência para seu reboque, o que restringia sua mobilidade em regiões montanhosas e em estradas precárias. Dessa forma, em um ambiente operacional como o da campanha italiana, a capacidade de deslocamento rápido e de posicionamento ágil das peças anticarro frequentemente se mostrava tão importante quanto o poder de penetração do armamento. Essa realidade contribuiu para que o canhão M-3 de 37 mm permanecesse como uma solução operacionalmente viável naquele teatro de operações, sendo considerado por diversas unidades norte-americanas um sistema de armas versátil e adaptado às exigências específicas do terreno, apesar de suas conhecidas limitações frente a blindados mais modernos empregados pelas forças alemãs. Seguindo a organização tática padrão, é plausível supor que os canhões anticarro M-3 de 37 mm tenham sido empregados de forma complementar aos M1 57 mm nas unidades brasileiras. Nesse arranjo, essas peças poderiam ter sido operadas pelos regimentos de infantaria da divisão o 1º Regimento de Infantaria Sampaio, o 6º Regimento de Infantaria Ipiranga e o 11º Regimento de Infantaria Tiradentes bem como pela Companhia Anticarros divisionária, responsável pelo emprego especializado de armamentos destinados à neutralização de veículos blindados.
A análise de Zaloga evidencia, portanto, como as condições geográficas e operacionais da campanha na Itália exerceram influência direta sobre a organização e o emprego da artilharia anticarro aliada. Nesse contexto, o M3 de 37 mm manteve relevância como um instrumento de combate relativamente leve, móvel e adaptável às particularidades daquele front, mesmo diante da crescente evolução dos blindados utilizados durante a guerra. Com o término do conflito na Europa, em maio de 1945, parte significativa do material empregado pela Força Expedicionária Brasileira (FEB) passou por um processo de redistribuição e controle logístico conduzido pelo Exército dos Estados Unidos (U.S. Army). Equipamentos como os obuseiros M1 155 mm Howitzer e diversos outros sistemas utilizados foram então transferidos para o Comando de Material do Exército norte-americano instalado em Roma. Nesse processo de reorganização logística, os equipamentos que se encontravam em melhores condições de conservação entre eles os canhões anticarro M-3 e M-3A 1 foram cuidadosamente selecionados, revisados e acondicionados para transporte marítimo. Posteriormente, esse material foi embarcado com destino ao Brasil. Logo após seu retorno ao Brasil, em julho de 1945, estes canhões anticarro foram rapidamente incorporados à estrutura operacional. Essas peças passaram a ser distribuídas entre os diversos Regimentos de Infantaria (R.I.), que já operavam ao menos 48 canhões do mesmo modelo recebidos anteriormente. A mobilidade dessas armas era assegurada por uma variedade de veículos militares de origem norte-americana introduzidos no mesmo período. Entre eles destacavam-se os carros blindados de reconhecimento M3A1 Scout Car, os jipes utilitários Willys MB e Ford GPW, além dos caminhões utilitários médios Dodge WC-51 e Dodge WC-52, conhecidos popularmente como “Beep”. Esses veículos garantiam a capacidade de reboque e transporte das peças em diferentes tipos de terreno, conferindo maior flexibilidade tática às unidades de infantaria. No contexto operacional do Exército Brasileiro, o canhão M3 apresentava ainda uma vantagem logística significativa: utilizava a mesma munição de 37 mm empregada no armamento principal dos carros de combate leves M3 Stuart. Essa padronização simplificava o sistema de suprimento e facilitava o abastecimento de munição tanto para as unidades blindadas quanto para as unidades anticarro. Entre os tipos de munição disponíveis para o sistema destacavam-se os projéteis de treinamento utilizados para instrução e sem carga explosiva e os projéteis perfurantes do tipo Armor-Piercing Capped (A.P.C.), também sem carga explosiva, concebidos especificamente para a perfuração de blindagens. Havia ainda o projétil HE M63 37 mm Shell, destinado ao engajamento de alvos leves, posições fortificadas e concentrações de tropas. O cartucho HE M63 era composto por um projétil de aço oco cujo interior continha aproximadamente 38,5 gramas de TNT, detonado por uma espoleta de impacto M58 fuze. A carga propelente, constituída por cerca de 222 gramas de pólvora FNH, proporcionava ao projétil uma velocidade inicial aproximada de 790 metros por segundo (2.600 pés por segundo). Com peso total de cerca de 1,419 kg, esse cartucho alcançava um alcance máximo próximo de 9.500 metros e, em determinadas condições, podia penetrar até cerca de 60 mm de blindagem de aço a uma distância de 500 metros. Embora o canhão M-3 de 37 mm já fosse considerado tecnologicamente superado a partir da década de 1950, algumas de suas características operacionais contribuíram para sua prolongada permanência em serviço no Exército Brasileiro.

Com peso aproximado de 400 kg, a peça podia ser facilmente rebocada por veículos utilitários leves e operada por uma guarnição reduzida de apenas quatro militares, o que a tornava relativamente prática, econômica e versátil no contexto das unidades de infantaria. Essas qualidades permitiram que o sistema permanecesse em uso ativo por cerca de duas décadas adicionais, estendendo sua vida operacional até o final da década de 1960. No início da década de 1960, o Exército Brasileiro recebeu ainda um novo lote dessas armas em condições consideradas bastante vantajosas, agora na versão M-3A1 37 mm, no âmbito do Acordo Militar Brasil–Estados Unidos. Produzida a partir de 1942, essa variante distinguia-se do modelo original principalmente pela extremidade do cano rosqueada, projetada para permitir a instalação de um freio de boca. Esse acessório tinha como finalidade reduzir o recuo e melhorar a estabilidade da peça durante o disparo, embora, segundo registros disponíveis, tal dispositivo nunca tenha sido efetivamente utilizado nas unidades brasileiras que operaram o sistema. Com a chegada de novas unidades do canhão antitanque M-3A1 no início da década de 1960, no âmbito do Acordo Militar Brasil–Estados Unidos, o Exército Brasileiro ampliou significativamente a distribuição dos canhões M-3 e M-3A1. Inicialmente restritos aos Regimentos de Infantaria (R.I.), esses armamentos passaram a equipar também os Esquadrões de Reconhecimento Motorizado (RecMec), expandindo sua presença nas estruturas operativas do Exército. Um exemplo emblemático foi o 4º Esquadrão de Reconhecimento Motorizado (4º RecMec), baseado em Juiz de Fora, Minas Gerais. Essa unidade fez uso dos canhões M-3 de 37 mm durante deslocamentos de blindados, particularmente em operações de demonstração de força no contexto da Revolução de 1964, também referida como Contra-Revolução, movimento iniciado em 31 de março daquele ano. Essas ações refletiram o papel estratégico do Exército Brasileiro em um período de intensas transformações políticas no país, com os canhões M-3 desempenhando uma função de apoio em operações de caráter dissuasório. A partir de meados de 1965, ainda sob os auspícios do Acordo Militar Brasil–Estados Unidos, o Exército Brasileiro começou a receber uma quantidade significativa de equipamentos bélicos modernos, marcando uma nova fase na modernização de seu arsenal. Entre os novos armamentos destacavam-se os canhões sem recuo CSR M-40 de 106 mm, nas versões A1 e A2, destinados a equipar os principais Batalhões de Infantaria (BInf). Esses canhões, mais avançados e eficazes contra blindagens modernas, representaram um salto tecnológico em relação aos modelos anteriores. Nesse contexto, os canhões antitanque M1 de 57 mm passaram a substituir gradativamente os M-3 e M-3A1 de 37 mm, que, apesar de sua versatilidade e mobilidade, já eram considerados obsoletos frente às demandas táticas da época. O processo de substituição culminou na desativação definitiva dos canhões M-3 e M-3A1 até o final de 1967. Muitas dessas peças de artilharia foram preservadas em unidades do Exército Brasileiro como parte de seu acervo histórico, testemunhando a trajetória de modernização militar do país. A partir da década de 1990, algumas unidades desmilitarizadas foram vendidas a colecionadores e entusiastas de história militar, garantindo que o legado dos canhões M-3 e M-3A1 continuasse vivo em acervos privados e museus. Essa transição reflete não apenas a evolução tecnológica do Exército Brasileiro, mas também o esforço contínuo de adaptação às necessidades estratégicas de um país em transformação, marcado por desafios internos e compromissos internacionais. ças Armadas em um período de mudanças significativas.
Em Escala.
Para representarmos o canhão anticarro M-3 37 mm, fizemos uso do excelente kit produzido pela Bronco Models na escala 1/35, modelo que prima pela qualidade e detalhamento, combinado peças em metal e photo etched. Para se representar a versão usada pelo Exército Brasileiro, não há necessidade de se realizar nenhuma alteração, bastando montar o modelo diretamente da caixa.
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão tático do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army) adotado durante a Segunda Guerra Mundial, sendo este o único esquema empregado nos canhões M-3 e M-3A1 de 37 mm do Exército Brasileiro durante seu serviço ativo, mantendo este padrão até sua desativação em fins da década de 1960.
Bibliografia:
- M3 37mm Gun Wilipedia - https://pt.wikipedia.org/wiki/M3_37mm_Gun
- M3 AntiTank de 37mm - Militaria & Armas- http://militariaearmas.blogspot.com/
- Antigos Equipamentos do Exército Brasileiro - https://armasonline.org
- Artilharia de Campanha no Exército Brasileiro – Cezar Carriel Benetti - http://www.ecsbdefesa.com.br/fts/ACEB.pdf





