D9500/11000/180/210 FNM (VTNE-VTE)

História e Desenvolvimento.
A Alfa Romeo Automobiles S.p.A., tem suas origens em 24 de junho de 1910, na cidade de Milão,  fundada originalmente sob a denominação Anonima Lombarda Fabbrica Automobili (ALFA). A fabricante instalou-se nas antigas instalações da Automobiles Darracq France, empresa francesa que havia encerrado suas operações na Itália. A estrutura industrial existente proporcionou à ALFA uma base inicial para desenvolver suas atividades, permitindo que a jovem companhia ingressasse rapidamente em um mercado automobilístico ainda em processo de formação. O primeiro automóvel produzido em série  foi o Alfa 24 HP, apresentado em 1910 e desenvolvido pelo engenheiro Giuseppe Merosi.  A vocação esportiva surgiu em 1911, com a participação no Targa Florio, uma das mais tradicionais e exigentes competições automobilísticas da Europa. Dois Alfa do 24 HP foram inscritos na prova, e sua participação contribuiu para projetar a imagem da jovem fabricante como produtora de automóveis capazes de conciliar desempenho, resistência e qualidade construtiva. Ao longo de sua história, a experiência adquirida nas pistas serviria não apenas para fortalecer sua imagem comercial, mas também como campo de desenvolvimento e experimentação de soluções posteriormente aplicadas aos automóveis de produção. Em  1915, Nicola Romeo assumiu o controle da empresa, que passou a direcionar sua produção para motores, equipamentos industriais e materiais destinados ao esforço de guerra. Após o conflito, dificuldades financeiras levaram à intervenção estatal e, em 1933, a Alfa Romeo passou ao controle do Instituto per la Ricostruzione Industriale (IRI), criado para reorganizar empresas estratégicas e setores industriais afetados pela crise. Sob gestão estatal, a empresa diversificou sua produção, incorporando caminhões, ônibus, motores aeronáuticos e equipamentos militares, consolidando-se como um importante complexo industrial italiano. Durante a Segunda Guerra Mundial,  direcionou sua produção para atender ao esforço de guerra, fabricando motores, veículos comerciais e equipamentos militares, embora suas instalações tenham sofrido danos causados pelos bombardeios. No pós-guerra, a empresa iniciou um amplo processo de reconstrução e voltou-se inicialmente para modelos de menor custo e maior volume, acompanhando a recuperação econômica italiana. A partir do final dos anos 1940, retomou gradualmente a produção de automóveis, veículos comerciais, caminhões e outros produtos industriais, consolidando sua experiência em engenharia e diversificação industrial. Durante o final da década de 1940 e, ao longo dos primeiros anos da década de 1950, a Alfa Romeo retomaria progressivamente a produção de automóveis, veículos comerciais leves e médios, caminhões e outros produtos industriais. É nesse contexto que a história da Alfa Romeo se cruzaria com o processo de industrialização brasileira. A experiência em veículos comerciais e motores encontraria no país um importante campo de aplicação por meio da Fábrica Nacional de Motores (FNM).

Fundada em 13 de junho de 1942, a Fábrica Nacional de Motores (FNM) surgiu com a missão de produzir motores aeronáuticos destinados a apoiar o esforço de guerra  durante a Segunda Guerra Mundial. Com o término do conflito, as perspectivas de continuidade e exportação de motores aeronáuticos desapareceram. A empresa passou a buscar novas atividades, sendo realizados estudos para a montagem de jipes Willys MB, a fabricação de caminhões pesados Mack e um ambicioso projeto para o fornecimento de tratores ao Ministério da Agricultura. Entretanto, os projetos enfrentaram sucessivos atrasos em razão de divergências entre a direção da FNM e setores do governo, levando, posteriormente, ao cancelamento dessas iniciativas. Em meio a esse cenário de incertezas, uma nova perspectiva surgiu em janeiro de 1949, quando a FNM firmou um acordo com a fabricante italiana Isotta Fraschini. O contrato previa a nacionalização progressiva e a fabricação de caminhões da marca italiana, no entanto a parceria nasceu cercada de dificuldades. A Isotta Fraschini atravessava uma grave crise financeira, tendo perdido parcela significativa de sua capacidade produtiva, sobrevivendo com uma gama bastante reduzida de produtos e encontrava-se em concordata desde fevereiro de 1948. Poucos meses depois da assinatura do acordo, em setembro de 1949, a fabricante italiana decretaria falência, colocando em risco o futuro do empreendimento brasileiro.  Apesar das adversidades, decidiu-se prosseguir com o projeto, resultando na produção do caminhão derivado do Isotta Fraschini D.80, que receberia a denominação FNM D-7300. Equipado com motor diesel de seis cilindros e 7,3 litros, desenvolvendo aproximadamente 100 cv, o veículo apresentava capacidade de carga de cerca de 7 toneladas, transmissão manual de cinco velocidades e sistema de freios pneumáticos. A adoção da motorização diesel constituía um de seus principais diferenciais para o mercado brasileiro daquele período, ainda amplamente dependente de caminhões médios e pesados equipados com motores a gasolina, em grande parte provenientes dos Estados Unidos. Além de oferecer maior adequação ao transporte de cargas pesadas, a tecnologia diesel representava um importante avanço para a nascente indústria nacional de veículos comerciais. O programa inicial previa a fabricação de aproximadamente 200 unidades, incorporando mais de 30% de componentes nacionais em cada veículo. Esse índice de nacionalização estava alinhado às políticas de desenvolvimento industrial vigentes e representava uma etapa importante no processo de formação de uma cadeia brasileira de fornecedores de componentes automotivos. O modelo representaria um marco na industrialização brasileira por se tornar o primeiro caminhão produzido em território nacional. A produção do FNM D-7300 não apenas asseguraria uma nova perspectiva para a empresa, como também abriria caminho para a formação de uma importante indústria nacional de caminhões e veículos comerciais.
Seguindo em busca de um novo parceiro internacional para dar sequencia a transferência de tecnologia, o governo brasileiro deu inicio a novas  novas articulações diplomáticas com a Itália, resultando em um acordo com a montadora Alfa Romeo Automobiles S.p.A., que viria a redefinir os rumos da indústria automotiva nacional.  Apesar de entraves administrativos e burocráticos que marcaram seus primeiros anos, esta parceria trouxe bases tecnológicas e industriais robustas. Seria estabelecido o fornecimento de  1.000 chassis para caminhões e ônibus, envolvendo um colaboração entre as equipes de engenharia, visando garantir a produção de veículos adequados às condições brasileiras. A montagem seria seria iniciada em 1952 com o primeiro modelo que recebeu a designação comercial de  FNM D-9500, que apresentava uma capacidade de carga de 8,1 toneladas (14,0 toneladas com reboque). Estava equipado com um motor a diesel com injeção direta desenvolvendo 130 cv, operando em conjunto com uma transmissão mecânica oito marchas à frente e duas a ré, eixo traseiro de dupla redução e freios pneumáticos. Durante o primeiro ano de fabricação, todos os componentes do modelo eram integralmente importados, sendo logo iniciado um estruturado programa de nacionalização, que não apenas reduziu custos, mas também fortaleceu o nascente parque industrial brasileiro. Seu cronograma previa para o ano de 1953 o inicio  da estampagem de uma nova cabine e utilização de componentes nacionais, como pneus e baterias. Em 1954 seria a vez da nacionalização de  molas, radiador, rodas, tambores de freio, tanque de combustível e sistema de exaustão, atingindo cerca de 45% de conteúdo nacional, projetando  alcançar 55% com a produção local de eixos e sistema de direção. Em 1955 seria iniciada a produção do  primeiro chassi brasileiro, com a montadora brasileira já superando a marca de 2.400 veículos fabricados.  Já no ano de  1956, a frota de caminhões FNM em circulação  ultrapassava a soma das frotas dos veículos Mercedes-Benz e Volvo, ambos ainda importados. Essa ascensão demonstrou a ampla aceitação do popular “Fenemê”, admirado por sua robustez, durabilidade e capacidade de enfrentar longas distâncias em estradas frequentemente precárias. Nesse mesmo período, a montadora buscando se diferenciar da concorrência importada, lançou a cabine leito, equipada com dois pequenos beliches, proporcionando conforto adicional para motoristas que enfrentavam viagens extensas pelo interior do país. A inovação respondia diretamente às demandas crescentes do transporte rodoviário, que se expandia em ritmo acelerado no Brasil da década de 1950. A parceria estabelecida entre a FNM e a Alfa Romeo em 1949 consolidou-se como um dos marcos mais significativos da industrialização automobilística brasileira. O caminhão FNM D-9500, aliado a um bem-sucedido processo de nacionalização, não apenas superou os desafios iniciais como projetou a estatal brasileira à liderança do mercado nacional de caminhões. 

Em 1957, seria lançado o D-11000 que incorporava melhorias mecânicas, atingindo 82% de conteúdo nacional. Seu motor diesel de seis cilindros e 11 litros desenvolvia 150 cv, utilizando bloco e três cabeçotes de alumínio. Seria oferecido com três diferentes distâncias entre eixos, permitindo sua adaptação a diversas necessidades.  A campanha publicitária, sintetizada no slogan “Montanha comigo é festa!”, explorava  a robustez e a capacidade em enfrentar as difíceis condições das estradas. Logo conquistaria expressiva aceitação comercial, atingindo 4.000 unidades comercializadas até o ano de 1958. O D-11000 enfrentou um importante problema de fabricação no bloco do motor, que permitia a passagem do líquido de arrefecimento para o cárter, contaminando o óleo e podendo causar danos graves. Conhecido como “barriga d’água”, o defeito levou a FNM a implementar um amplo programa de substituição dos motores afetados, medida que ajudou a recuperar a confiança dos usuários e preservar a reputação do modelo. Durante o final da década de 1950 e início dos anos 1960, os caminhões FNM, tiveram participação destacada nas principais obras de infraestrutura, incluindo a construção de Brasília e a implantação de rodovias como a Belém-Brasília e a Transamazônica. Sua atuação em condições severas reforçou a imagem do “Fenemê” como símbolo da industrialização e do desenvolvimento nacional. Em 1960, a FNM também diversificou suas atividades ao iniciar a produção do automóvel 2000 JK, sob licença da Alfa Romeo, ampliando sua atuação para além do segmento de caminhões. No início da década de 1960, receberam atualizações estéticas, incluindo modificações no conjunto óptico e melhorias de acabamento. Em 1962, a FNM iniciou a usinagem local dos motores, representando um importante avanço tecnológico e ampliando o processo de nacionalização da produção. Em 1964, foi apresentada a série “V”, composta pelos modelos V-6, V-5, V-4 e V-2, com diferentes distâncias entre eixos. A família incorporava melhorias como direção hidráulica assistida e acabamento interno aprimorado, alcançando cerca de 97% de nacionalização. A evolução da indústria automobilística nacional começava a colocar a FNM diante de um novo desafio. O lançamento de novos modelos da Mercedes-Benz e Scania-Vabis, ressaltaria ao mercado a defasagem da plataforma FNM, afetando sua competitividade e, consequentemente, suas vendas. Em 1967, esse processo já se refletia de maneira contundente nos resultados comerciais da empresa, quando as vendas de caminhões teriam caído para aproximadamente 1.000 unidades. Diante da perda de competitividade, a empresa buscou desenvolver uma nova cabine, concebida para modernizar profundamente a aparência e a ergonomia de seus caminhões. O projeto denominado “Futurama”, contudo, não avançaria além da fase de protótipo. Sem condições de realizar uma renovação completa, a FNM limitou-se a introduzir atualizações pontuais, entre elas um novo painel de instrumentos e a possibilidade de instalação de um terceiro eixo.
Durante o período do governo militar, a montadora atravessou uma fase marcada por profundas indefinições estratégicas. Dentro da administração federal, formaram-se duas correntes distintas: uma defendia a recuperação e modernização da estatal, argumentando que sua preservação era essencial para a autonomia industrial brasileira; a outra, que acabaria prevalecendo, advogava pela alienação da empresa, considerando-a onerosa e pouco competitiva frente ao avanço das montadoras estrangeiras instaladas no país. Assim, em 1967,  foi oficialmente colocada à venda, atraindo o interesse de diversas fabricantes internacionais. Entre as propostas apresentadas destacaram-se: Citroën e Renault, que vislumbravam a cooperação técnica para a produção de automóveis de passeio e veículos utilitários; Alfa Romeo Automobiles S.p.A., que apresentou a proposta mais consistente e abrangente, assumindo integralmente a operação em 1968. A escolha pela Alfa Romeo surpreendeu parte do mercado automotivo, sobretudo porque a montadora italiana havia encerrado a produção de caminhões em seu país de origem em 1964. Ainda assim, sua tradição em engenharia mecânica e sua experiência prévia com a própria FNM tornaram a aquisição estratégica e, de certo modo, coerente com os interesses brasileiros. Em 1972, já sob controle italiano, seria lançado o último modelo de caminhão pesado, cuja cabine derivava do Alfa Romeo Mille. O ferramental de estampagem foi transferido diretamente da matriz, reduzindo custos industriais e acelerando o processo de nacionalização. As principais características incluíam a cabine fixada ao chassi com componentes elásticos, equipada com ventilação forçada e aquecimento. A linha seria composta pelo  FNM 180 com motor diesel  de 11 litros, 180 cv de potencia, disposta nas configurações de três opções de entre-eixos, com terceiro eixo opcional e pelo  FNM 210 com motor diesel de 11 litros, 215 cv de potencia, disponível apenas como cavalo mecânico, com transmissão reduzida. Em 1973, a Fiat Automóveis adquiriu 43% das ações da Alfa Romeo na Itália, assumindo o controle acionário total da montadora três anos depois.  Em 1977, acompanhando a consolidação da presença italiana no país, a razão social da subsidiária nacional foi alterada para Fiat Diesel S/A. Apesar da incorporação progressiva da identidade Fiat, a produção dalinha de caminhões derivada dos modelos FNM e Alfa Romeo continuou sendo realizada planta de Duque de Caxias (RJ), Esse ciclo chegaria ao fim em meados de 1985, quando o último caminhão da linhagem FNM-Alfa-Fiat deixou a linha de montagem. Ao longo de aproximadamente 36 anos de produção de caminhões, a trajetória iniciada com os primeiros modelos derivados da Isotta Fraschini e posteriormente desenvolvida sob a influência da Alfa Romeo resultaria em cerca de 78 mil unidades produzidas, consolidando uma das mais importantes experiências de fabricação de veículos pesados no Brasil. A trajetória da FNM, posteriormente vinculada à Alfa Romeo e à Fiat, permanece, assim, como um dos capítulos mais expressivos da história da indústria automobilística brasileira.

Emprego nas Forças Armadas Brasileiras.
O processo de motomecanização do Exército Brasileiro teve seu efetivo início durante a Segunda Guerra Mundial, período em que o Brasil estreitou sua cooperação militar com os Estados Unidos. Nesse contexto, a adesão brasileira ao Lend-Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos) possibilitou a obtenção de uma linha de crédito da ordem de US$ 100 milhões, destinada à aquisição de modernos equipamentos militares. O programa contemplava uma ampla variedade de materiais, incluindo armamentos, aeronaves, veículos blindados, carros de combate e meios de transporte logístico, estabelecendo. Como resultado direto , entre 1942 e 1945 o Exército Brasileiro incorporou mais de 5.000 caminhões militares, se destacando os modelos GMC CCKW, Diamond T, White Corbitt Cargo, Ward LaFrance, Chevrolet Série G e Studebaker US6G, veículos que se tornaram a espinha dorsal do sistema logístico da Força Terrestre. A incorporação dessa numerosa frota representou um salto qualitativo sem precedentes na capacidade de transporte militar do país. Pela primeira vez,  passou-se  a dispor de meios motorizados em quantidade suficiente para assegurar o deslocamento rápido de tropas, armamentos, suprimentos e equipamentos em grandes distâncias, reduzindo significativamente a dependência da tração animal e dos limitados recursos ferroviários então disponíveis. Entretanto, ao longo da década de 1950, a frota adquirida durante o conflito começou a apresentar sinais evidentes de desgaste. O uso intensivo ao longo dos anos, associado ao envelhecimento natural dos veículos, comprometeu progressivamente sua disponibilidade operacional. Paralelamente, surgiram crescentes dificuldades de manutenção, uma vez que grande parte desses caminhões já havia sido retirada de produção pelas indústrias norte-americanas, tornando cada vez mais escassa a oferta de peças de reposição no mercado internacional. Essa situação passou a preocupar o Alto Comando do Exército, pois a redução gradual da disponibilidade de caminhões afetava diretamente a capacidade logística da Força Terrestre. A limitação dos meios de transporte comprometia o deslocamento de tropas, a distribuição de suprimentos e o apoio às unidades espalhadas pelo vasto território nacional, evidenciando a necessidade de adoção de medidas que garantissem a continuidade da capacidade operacional dentro das restrições orçamentárias existentes. A substituição integral da frota por caminhões militares de nova geração, como os norte-americanos REO M-34 e  M-35, equipados com sistemas de tração 4x4 e 6x6, era considerada a solução tecnicamente mais adequada. Esses veículos apresentavam maior capacidade de carga, melhor desempenho fora de estrada e elevados índices de confiabilidade. Contudo, os elevados custos de aquisição tornavam inviável sua incorporação em quantidade suficiente para substituir toda a frota herdada, ultrapassando a capacidade financeira  naquele momento.

Diante dessa realidade, passou-se a adotar uma estratégia mais pragmática, estruturada em ações complementares destinadas a preservar sua capacidade logística. A primeira consistiu na aquisição limitada de caminhões militares modernos, como o REO M-34, destinados prioritariamente às unidades que apresentavam maiores necessidades operacionais. A segunda  concentrou-se na repotencialização da frota existente, por meio de programas de recuperação estrutural e remotorização  dos caminhões GMC CCKW e Studebaker US6G, estendendo sua vida útil. Paralelamente, uma terceira linha de ação começou a ganhar importância com a crescente nacionalização da produção de caminhões, abrindo assim a perspectiva de incorporar veículos militarizados.  As propostas de repotencialização, apesar de tecnicamente atraentes, acabaram sendo descartadas. Tal decisão fundamentou-se, em dois fatores determinantes: o elevado custo de implementação, incompatível com as possibilidades financeiras do período, e a ausência de expertise técnica nacional para conduzir programas dessa complexidade e escala. O cancelamento dessa iniciativa reforçou a necessidade de ampliar a adoção de caminhões militarizados, que passariam a atuar de forma complementar à frota, composta majoritariamente por veículos 6x6. A lógica operacional por trás dessa decisão consistia em liberar os caminhões 6x6 para missões em terrenos adversos, destinando os veículos comercialmente adaptados a tarefas secundárias, como transporte de pessoal e cargas em áreas urbanas, rodovias pavimentadas e zonas de retaguarda. Esse conceito, longe de ser inédito, já vinha sendo aplicado  desde a década de 1930, quando modelos civis adaptados, como os Chevrolet 112 Tigre, Chevrolet 137 Comercial, Chevrolet Gigante 937 e o Opel Blitz II, haviam sido incorporados. A experiência acumulada ao longo dessas décadas conferiu segurança à retomada e ampliação desse modelo de emprego. A introdução em escala de caminhões  militarizados permitiu uma redistribuição mais racional dos meios logísticos, otimizando o uso da frota disponível, reduzindo o desgaste dos veículos táticos mais valiosos e assegurando a continuidade das operações em um cenário de recursos limitados. A ampliação desse modelo de emprego permitiu uma redistribuição mais racional dos recursos logísticos, otimizando o uso da frota disponível e assegurando a continuidade das atividades operacionais. Paralelamente, em consonância com a política de incentivo à indústria nacional, o Ministério do Exército decidiu priorizar a aquisição de veículos comerciais produzidos no país. Entre as empresas nacionais, a Fábrica Nacional de Motores (FNM) despontava como uma das principais fornecedoras de caminhões médios, oferecendo dois modelos  o D-9500 e o  D-11000. Após análises técnicas e operacionais, o FNM D-11000 foi selecionado pois apresentava robustez e confiabilidade, considerada essencial para atender, ao menos em teoria, aos padrões exigidos pelas operações militares.
Embora não fosse classificado como um caminhão tático em sentido estrito, a introdução do D-11000 VTNE representou um importante avanço na organização da logística do Exército Brasileiro. Os primeiros caminhões configurados na versão 4x2, equipados com carroceria bau em alumínio, começaram a ser entregues a partir de 1957 e ainda apresentavam grande semelhança com os modelos comerciais. No ano seguinte, tiveram início as entregas dos primeiros exemplares destinados ao transporte de tropas e cargas, que passaram a receber modificações específicas destinadas a atender às exigências do emprego militar. Entre as principais adaptações destacavam-se os para-choques reforçados, dimensionados para suportar impactos e condições severas de operação, além de grades de proteção destinadas a resguardar componentes mais vulneráveis, especialmente o conjunto óptico dianteiro. Dispunha de carroceria de aço coberta por lona. Após sua incorporação, consolidou-se como uma viatura de transporte versátil, capaz de atender a diferentes necessidades logísticas em ambientes urbanos, rodoviários e rurais. Sua entrada em serviço contribuiu para reduzir a sobrecarga sobre a já envelhecida frota de caminhões norte-americanos 6×6, muitos dos quais permaneciam em operação desde meados da década de 1940. Nesse contexto, sua adoção representou uma significativa recuperação da capacidade de transporte e mobilidade logística. A robustez mecânica e a simplicidade de sua concepção também favoreceram seu emprego em unidades que atuavam em regiões remotas e com infraestrutura limitada, especialmente nos Batalhões Rodoviários (BRv) e nos Batalhões de Engenharia de Construção (BEc). Essas organizações desempenhavam atividades de grande relevância na abertura e manutenção de estradas, construção de pontes e execução de obras de infraestrutura, frequentemente em áreas isoladas das regiões Norte e Nordeste. O desempenho satisfatório alcançado pelo D-11000 ao longo dos primeiros anos de serviço contribuiu para a continuidade da relação entre a fabricante e o Exército Brasileiro, resultando na celebração de novos contratos e na aquisição de outros modelos, entre eles o D-9500 nas versões de carroceria militar (aço e madeira) e baú comercial.  Após a aquisição da fabricante pela Alfa Romeo Automobiles S.p.A., em 1969, novas encomendas seriam realizadas pelas Forças Armadas. Nesse período, os modelos D-9500 e D-11000 também passaram a integrar as frotas da Marinha do Brasil e da Força Aérea Brasileira (FAB), onde encontraram emprego em missões de apoio logístico, transporte de suprimentos, movimentação de materiais e deslocamentos internos em bases, arsenais, depósitos e demais instalações militares. Dessa forma, a família de caminhões FNM/Alfa Romeo consolidou sua presença nas três Forças Armadas Brasileiras, tornando-se parte importante do processo de renovação da frota de transporte militar brasileira durante as décadas de 1960 e 1970.

Curiosamente, o FNM D-11000 tornou-se o primeiro caminhão nacional empregado em um cenário de conflito real, durante a Crise do Canal de Suez, em 1956. O episódio teve origem na nacionalização do canal pelo presidente egípcio Gamal Abdel Nasser, após a suspensão do financiamento britânico e norte-americano para a construção da Barragem de Aswan. A aproximação do Egito com a União Soviética e a Tchecoslováquia agravou as tensões da Guerra Fria, enquanto Reino Unido e França temiam os impactos da nacionalização sobre o estratégico fluxo de petróleo do Golfo Pérsico. Diante do fracasso diplomático, Reino Unido e França, aliados a Israel, lançaram uma intervenção militar em 1956 para retomar o controle do Canal de Suez e enfraquecer Nasser. A ofensiva, iniciada pela invasão israelense do Sinai e seguida pela intervenção anglo-francesa, sofreu forte pressão internacional, especialmente da União Soviética e da  Organização das Nações Unidas (ONU), levando à sua rápida interrupção. A pressão internacional resultante da Crise de Suez levou à criação da Força de Emergência das Nações Unidas (UNEF-Suez), primeira força de paz estabelecida pela ONU, destinada a supervisionar o cessar-fogo, acompanhar a retirada das tropas estrangeiras e contribuir para a estabilização da região. Como membro das Nações Unidas, o Brasil participou ativamente dos esforços diplomáticos para solucionar a crise e, posteriormente, decidiu integrar a força multinacional de paz. Em fevereiro de 1957, as primeiras tropas brasileiras desembarcaram no Egito, dando início à participação do país na missão. O contingente apresentava um inventário diversificado, reunindo armamentos e veículos blindados norte-americanos e uma parcela crescente de veículos produzidos pela indústria nacional. Entre estes destacavam-se os caminhões FNM D-9500 e D-11000, retirados diretamente de unidades operacionais do Exército Brasileiro. Transportados por navios da Marinha do Brasil, os caminhões chegaram ao Oriente Médio juntamente com o primeiro contingente brasileiro, tornando-se parte da estrutura logística empregada pelo país em sua primeira grande missão internacional de paz. Inicialmente, alguns desses veículos foram empregados naquele cenário ainda com a pintura padrão tático em verde oliva, recebendo as marcações padrão da UNEF-Suez, posteriormente seria repintados agora na cor branca, seguindo a sistemática dos demais veículos das Nações Unidas (ONU). A experiência no teatro de operações egípcio também revelou alguns desafios para o emprego dos caminhões FNM. O terreno desértico impunha condições particularmente severas, e a configuração de traçao convencional 4×2 dos D-11000 e D-9500 limitava sua mobilidade sobre a areia fofa, ocasionando frequentes atolamentos. Nessas situações, o apoio operacional era complementado por caminhões britânicos Bedford 6×6, cuja configuração de tração integral proporcionava maior capacidade de tração e melhor desempenho em terrenos arenosos e fora de estrada.
A partir de 1972, o Exército Brasileiro passou a incorporar os modelos FNM 180 e FNM 210 fornecidos em diferentes configurações, adequadas às necessidades específicas das organizações militares. Entre as principais carrocerias encontravam-se as versões com baú de alumínio, carroceria comercial de madeira, carroceria militar de aço, frigorífica e basculante, permitindo seu emprego em atividades de transporte de suprimentos, materiais, equipamentos e apoio logístico. Entretanto, ao longo da década de 1970, o envelhecimento dos primeiros lotes de caminhões FNM e Alfa Romeo tornou-se cada vez mais evidente. Embora esses veículos tivessem demonstrado robustez e capacidade para operar nas condições frequentemente severas das estradas brasileiras, a evolução tecnológica do setor caminhoneiro passou a evidenciar as limitações de uma linha que já não recebia atualizações técnicas na mesma velocidade de seus concorrentes. Nesse contexto, as Forças Armadas começaram a buscar alternativas capazes de oferecer maior confiabilidade, disponibilidade operacional e facilidade de manutenção. A renovação da frota ocorreu de forma progressiva e acompanhou o processo de modernização da indústria automobilística brasileira. Mercedes-Benz L-1111 e L-1213, Ford da Série F, incluindo os F-600, além dos Chevrolet C-60 e D-60, passaram a ser incorporados em diferentes configurações militarizadas. Esses caminhões assumiram gradualmente uma parcela significativa das atividades de transporte e apoio logístico, substituindo os veículos mais antigos e estabelecendo um novo padrão de mobilidade para as unidades militares. A retirada dos FNM e Alfa Romeo, contudo, não ocorreu de maneira imediata. Os exemplares que ainda apresentavam boas condições mecânicas permaneceram em serviço, sobretudo em organizações de apoio, suprimento, manutenção e transporte. No Exército Brasileiro, esses caminhões encontraram emprego particularmente importante nas estruturas de Intendência e Logística, onde a confiabilidade mecânica e a capacidade de carga continuavam sendo atributos relevantes. Dessa maneira, mesmo diante da chegada de modelos mais modernos, muitos FNM continuaram desempenhando funções essenciais, prolongando sua vida operacional muito além do período originalmente previsto. Alguns exemplares alcançaram uma longevidade particularmente expressiva. É o caso dos FNM D-11000 e D-9500 configurados como caminhões-tanque para transporte de combustíveis, empregados pelo 1º Batalhão Ferroviário, em Lages, Santa Catarina. Nas Polícias Militares, o processo apresentou características distintas. Ao contrário do Exército Brasileiro, que recebeu oficialmente determinados modelos FNM em configurações militarizadas, a presença desses caminhões nas corporações policiais parece ter ocorrido, em grande medida, por meio da incorporação de veículos originalmente comerciais, posteriormente adaptados às necessidades de cada instituição.

Em Escala.
Para representarmos o caminhão FNM D-11000 empregado pelo Exército Brasileiro junto a UNEF -SUEZ, na região de Gaza, empregamos o modelo em die cast produzido pela Axio para a Editora Altaya na escala 1/43. Como a versão militarizada apresenta mínimas diferenças em relação a versão civil, procedemos uma leve conversão em scratch build,  para assim se obter a configuração empregada pelo Exército Brasileiro. Empregamos ainda decais confeccionados pela Eletric Products presentes no Set UNEF - SUEZ. 
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura tático do Exército Brasileiro em todos seus veículos militares desde a Segunda Guerra Mundial até a o final do ano de 1982, tendo como alteração apenas a remoção das marcações nacionais, sendo estas substituídas pelo sistema de identificação padrão dos veículos a serviço da Organização das Nações Unidas (ONU) –  para a operação de paz internacional - UNEF SUEZ.
Bibliografia : 
- Caminhões Brasileiros de Outros Tempos – FMN , editora Altaya
- Alfa Romeu - https://en.wikipedia.org/wiki/Alfa_Romeo
- Veículos Militares Brasileiros – Roberto Pereira de Andrade e José S Fernandes 
- Manual Técnico – Exército Brasileiro 1976
- FNM - www.lexicar.com.br
- Caminhões FNM no Exército - Expedito Carlos S Bastos