WC-62 e WC-63 Dodge (VTR-VTNE)

História e Desenvolvimento.
A Dodge Brothers Motors Company, fundada no início do século XX, desempenhou um papel significativo na indústria automotiva norte-americana, evoluindo de uma produção artesanal para um importante fornecedor de veículos militares e comerciais. Em 1900, os irmãos John Francis Dodge e Horace Elgin Dodge iniciaram um empreendimento para desenvolver um automóvel inovador, distinto dos modelos disponíveis no mercado norte-americano. Nos primeiros anos, a produção era predominantemente artesanal, com dezenas de veículos fabricados manualmente. Em 1914, a empresa foi formalmente estabelecida como Dodge Brothers Motors Company, adotando a produção em série, o que ampliou sua capacidade produtiva e marcou o início de sua ascensão no mercado. A Dodge Brothers Motors Company rapidamente conquistou notoriedade no mercado norte-americano de carros de passeio, capturando uma fatia significativa do setor. O sucesso comercial gerou recursos financeiros substanciais, permitindo investimentos em novos segmentos e consolidando a marca como sinônimo de qualidade e confiabilidade. O falecimento dos irmãos fundadores em 1920 representou um marco crítico na história da empresa, levando a mudanças significativas em sua gestão e orientação estratégica. Apesar desse impacto, a Dodge continuou a operar com foco em crescimento e inovação, preparando-se para novas oportunidades de mercado. Em 1928, a Dodge Brothers Motors Company foi adquirida pela Chrysler Corporation, passando a integrar um conglomerado que incluía marcas como De Soto, Plymouth e Fargo. Sob a nova gestão, a marca Dodge manteve sua identidade e expandiu sua presença, beneficiando-se dos recursos e da estrutura organizacional da holding. A partir de meados da década de 1920, a Dodge direcionou esforços para o desenvolvimento de veículos utilitários voltados para o mercado civil. Esses modelos foram baseados nas plataformas de veículos comerciais de passageiros da marca, uma estratégia que reduziu os custos de projeto e produção ao utilizar ferramental e processos de manufatura existentes. Os utilitários alcançaram êxito comercial, destacando-se no transporte de cargas e em atividades pesadas fora de estrada, reforçando a reputação da Dodge como uma marca robusta e versátil. O crescimento contínuo das vendas proporcionou recursos adicionais à Dodge, permitindo à empresa planejar projetos mais ambiciosos a curto e médio prazo. A competitividade comercial dos utilitários, impulsionada pelos baixos custos de produção, consolidou a posição da Dodge no mercado norte-americano e abriu caminho para sua diversificação. Na primeira metade da década de 1930, o cenário geopolítico global tornou-se preocupante, com a ascensão do partido nazista na Alemanha, liderado pelo chanceler Adolf Hitler. Esse contexto, aliado à possibilidade de uma corrida armamentista global, levou os Estados Unidos a antecipar potenciais ameaças, apesar de sua política oficial de neutralidade. A diretoria da Dodge Motors Company identificou uma oportunidade estratégica no mercado militar, vislumbrando a demanda por veículos especializados para atender às forças armadas.

Em 1934, utilizando recursos próprios, a Dodge iniciou o desenvolvimento de protótipos conceituais de caminhões militares de médio e grande porte. Esses projetos foram fundamentados na experiência adquirida durante a Primeira Guerra Mundial, quando a empresa forneceu veículos leves às forças armadas norte-americanas. O foco em caminhões militares marcou o início de uma nova fase de crescimento, alinhada às necessidades emergentes do setor de defesa. Em 1937, a Dodge realizou uma apresentação oficial ao comando do Exército dos Estados Unidos, exibindo seu primeiro caminhão experimental, o K-39-X-4, um modelo de 1½ toneladas com tração integral nas quatro rodas. Submetido a testes de campo, o veículo impressionou os militares por seu desempenho, resultando na assinatura de um contrato para a produção de aproximadamente 800 unidades. As entregas começaram nos meses subsequentes, marcando o início da colaboração da Dodge com o setor militar. O sucesso do K-39-X-4 levou à assinatura de novos contratos, mais significativos, para a produção dos modelos Dodge VC-1 e VC-6, ambos de ½ tonelada. Esses veículos foram projetados para atender às necessidades militares, mas versões destinadas ao mercado civil também foram lançadas, alcançando grande sucesso comercial no mercado doméstico norte-americano. Esse êxito incentivou a Dodge a expandir sua linha de produtos em 1938, introduzindo novos modelos que passaram a ser fabricados na recém-inaugurada planta industrial Warren Truck Assembly, em Michigan, projetada especificamente para a produção de caminhões leves e médios. Em 1939, a Dodge apresentou uma linha completamente redesenhada de picapes e caminhões, caracterizada por um design moderno e designada como “Job-Rated”. Essa linha foi desenvolvida para atender a uma ampla variedade de tarefas e trabalhos, combinando funcionalidade, durabilidade e estética contemporânea. O lançamento reforçou a posição da Dodge no mercado civil e preparou a empresa para atender às demandas emergentes do setor militar. No final da década de 1930, as crescentes tensões geopolíticas na Europa e no Pacífico evidenciaram a necessidade urgente de modernizar e reequipar as forças armadas dos Estados Unidos. O Exército definiu um padrão para veículos de transporte, categorizando-os em cinco classes com base na capacidade de carga útil: ½ tonelada, 1½ tonelada, 2½ toneladas, 4 toneladas e 7½ toneladas. Esse padrão visava garantir a eficiência logística e a prontidão operacional em um cenário de potenciais conflitos globais. Em junho de 1940, o Quartel-General do Comando do Exército dos Estados Unidos (US Army Quartermaster Corps) testou e aprovou três caminhões comerciais padrão com tração nas quatro rodas: Dodge de 1½ toneladas 4x4; GMC de 2½ toneladas 6x6; Mack de ½ tonelada 6x6. Esses modelos foram selecionados para atender às necessidades estratégicas do Exército, estabelecendo as bases para contratos de produção em larga escala. No verão de 1940, a Dodge-Fargo Division da Chrysler Corporation recebeu um contrato para fornecer 14.000 unidades de caminhões de ½ tonelada com tração integral 4x4, designados como série VC. A produção em larga escala teve início em novembro de 1940. 
Com a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial em 1941, os caminhões da série VC da Dodge foram redesignados como série WC (Weapons Carriers). A letra “W” indicava o ano de início da produção (1941), enquanto o “C” representava a classe inicial de ½ tonelada. Posteriormente, o código “C” foi estendido a modelos de ¾ tonelada e 1½ toneladas 6x6. O primeiro modelo da família WC, a versão G-505 de ½ tonelada, tornou-se um pilar da logística militar do Exército dos Estados Unidos (US Army). Durante o ano de 1940, a Dodge Motors Company produziu mais de 6.000 caminhões leves com tração integral 4x4 do modelo Dodge WC de ½ tonelada, sob dois contratos firmados com o governo norte-americano. Esses veículos, identificados como modelos VF-401 a VF-407 (equipados com o motor tipo T-203 da Dodge G-621), eram variações dos protótipos pré-guerra RF-40 (-X) e TF-40 (-X) (ou T-200/T-201). Montados em um chassi com distância entre eixos de 143 polegadas (3,63 metros), os novos caminhões WC substituíram os modelos Dodge VC-1 e VC-6 de ½ tonelada, pertencentes à série original G505. Entre o final de 1940 e o início de 1942, foram produzidas aproximadamente 82.000 unidades de caminhões WC de ½ tonelada com tração 4x4, sob diversos contratos com o Departamento de Guerra dos Estados Unidos. A produção foi realizada tanto pela Dodge Motors Company quanto pela Fargo Motor Car Company, demonstrando a capacidade industrial da Chrysler Corporation em atender às demandas do esforço de guerra. Os modelos WC-1 e WC-50, pertencentes à classe de ½ tonelada, apresentavam 80% de intercambialidade de componentes com os modelos subsequentes de ¾ tonelada, um requisito essencial para a manutenção em campo. Em 1942, a Dodge atualizou a carga útil, introduzindo: Modelo G-502: Um caminhão de ¾ tonelada 4x4, mais curto; Modelo G-507 (1943): Um caminhão de 1½ toneladas 6x6, projetado para transporte de pessoal e carga. Apesar das melhorias no design, esses modelos mantiveram cerca de 80% de componentes intercambiáveis com os de ½ tonelada, garantindo eficiência logística e operacionalidade próxima às linhas de frente. A família Dodge WC alcançou um total de 38 variantes, projetadas para atender a diversas funções militares, incluindo: Transporte de tropas; Transporte de carga; Ambulância; Carro-comando; Estação móvel de comunicações; Canhoneiro com arma de 57 mm; Oficina leve e Reconhecimento. Versões complementares com cabine aberta e cobertura de lona foram desenvolvidas para ampliar a versatilidade operacional, adaptando-se às condições adversas dos fronts de batalha. Um dos principais diferenciais da série WC era a intercambialidade de 80% das peças de reposição entre todas as versões e modelos produzidos pela Dodge. Essa padronização facilitou significativamente a logística de suprimentos e os processos de manutenção durante a Segunda Guerra Mundial, permitindo reparos rápidos e eficientes em diferentes teatros de operações. A série WC tornou-se um componente crítico da logística militar dos Estados Unidos, substituindo veículos obsoletos e proporcionando mobilidade, confiabilidade e versatilidade às forças armadas. 

Em fins do ano de 1942 o comando do Exército dos Estados Unidos (US Army) viria a alterar a configuração padrão de um pelotão armado de infantaria, passando de oito para doze homens, aumentando assim além da capacidade de combate a possibilidade de sobrevivência no campo de combate. No entanto em termos de material esta nova disposição, traria problemas na capacidade de mobilidade das tropas norte-americanas, tendo em vista que doze soldados não podiam ser transportados nos modelos Dodge WC-51 e WC-52 Beep com tração integral de 4X4, que até então representavam o sustentáculo das tropas motorizadas. Para solucionar este problema, o Major General Courtney Hodges, um dos principais comandantes do exército, sugeriu a montadora o desenvolvimento de uma versão alongada dos modelos de utilitários em serviço até então, visando assim comportar a nova configuração do pelotão de infantaria. Com base neste pleito, em fevereiro de 1943, sua equipe de projetos iniciou o desenvolvimento de um novo utilitário de maior porte que fizesse uso de um sistema de tração integral 6X6. No objetivo de se buscar o aproveitamento do ferramental existente e consequente otimização do processo de produção, seria empregado como ponto de partida a plataforma e componentes do Dodge WC-51. Ao fazer uso de um chassi de maiores dimensões, seria necessário promover mudanças em componentes críticos como suspensão e transmissão, o peso extra resultando deste processo levaria a necessidade de incorporação de um motor mais potente sendo escolhido então o Dodge T-223 com 93 hp de potência. O veículo que emergiria deste conceito poderia ser classificado como um caminhão de infantaria com grande capacidade fora de estrada (off road), apresentando uma estabilidade incrível em terrenos acidentados, graças ao seu baixo centro de gravidade e banda de rodagem larga (que é a mesma, dianteira e traseira).  A tração nas seis rodas e a grande distância ao solo permitiam que o veículo superasse muitos perigos, seu bom ângulo de aproximação e saída o possibilitava subir e descer encostas íngremes sem enterrar o para-choque ou a estrutura traseira no solo. Sua distribuição de carga era feita de forma uniforme sobre os três eixos podendo operar sem maiores percalços em terrenos lamacentos ou praias. Ainda como ponto positivo, sua silhueta baixa o tornava de difícil visualização a distância, e seu consequente piso baixo da carroceria facilitava em muito os processos de carregamento e descarregamento de tropas ou carga. Os primeiros carros pré-série seriam completados até meados do mesmo sendo então submetidos a testes de aceitação pelo Quartel General do Comando do Exército dos Estados Unidos (US Army Quartermaster Corps), com estes sendo validados para emprego operacional em setembro. O modelo agora designado como Dodge WC-62  (G-507/ T-223 ) teria sua produção em série iniciada no mês de novembro, com os primeiros carros sendo entregues logo em seguida. A exemplo dos modelos anteriores da família de utilitários desta montadora, seria desenvolvida uma versão equipada com um sistema de guincho elétrico do modelo Braden MU2 com capacidade de tração de até 3.409 kg, com este veículo recebendo a denominação de WC-63. 

Após um breve período de adaptação e treinamento, estes dois modelos começaram a ser disponibilizados em grandes quantidades as forças armadas norte-americanos, passando a se faze presentes em todos os fronts de batalha ao longo do conflito. Inicialmente seu escopo de tarefas seria focado nas tarefas de transporte de tropas e cargas na linha de frente, porém em uso constante observou-se que o emprego da tração 6X6 melhoria significadamente não só na transposição de terrenos adversos, mas também em estradas normais, fazendo com que os Dodges WC-62 e WC-63 passassem a ser empregados no Exército dos Estados Unidos (US Army) em tarefas de reboque de artilharia leve antitanque, geralmente peças de 37 mm e 57 mm. Até o termino do conflito seriam produzidos cerva de quarenta e três veículos divididos entre as versões principais Dodge WC-62 e WC-63, tendo saído das linhas de montagem da Dodge’s Mound Road Truck, na cidade de Detroit e da Chrysler Corporation. Estes veículos seriam inclusos também no portifólio do programa Leand & Lease Act Bill (Lei de Empréstimos e Arrendamentos) sendo fornecidos a nações aliadas durante a Segunda Guerra Mundial. Seu batismo de fogo ocorreu em 1944, já na fase final da guerra na Europa, quando os primeiros lotes começaram a equipar unidades de infantaria, artilharia e engenharia dos Exércitos dos Estados Unidos e de seus aliados. A estreia operacional dos WC-62 e WC-63 deu-se no contexto de grandes ofensivas aliadas pós-Dia D, quando a necessidade de transporte de tropas, munições, peças de artilharia e suprimentos aumentou drasticamente diante do rápido avanço a partir da Normandia. Logo após o término da guerra uma grande parte da frota pertencente ao em operação na Europa seria abandonada, com muitos veículos sendo incorporados as forças armadas da Áustria, França e Bélgica.  Quando a Guerra da Coreia eclodiu em junho de 1950, o Exército dos Estados Unidos e seus aliados necessitavam urgentemente de meios de transporte confiáveis e disponíveis em grande quantidade. Assim, os Dodge WC-62 e WC-63, veteranos de 1944–45, foram prontamente reativados e enviados ao teatro coreano. Nos meses iniciais da guerra, quando as forças da ONU se retiravam para o perímetro de Pusan, os WC-62 e WC-63 foram intensamente utilizados no transporte de tropas e munições, na evacuação de feridos e na movimentação de equipamentos de engenharia. Sua tração 6x6 permitiu operar em estradas lamacentas e frequentemente destruídas pela artilharia norte-coreana. A partir da segunda metade da década de 1950 estes veículos começaram a ser desativados das forças armadas norte-americanas, sendo substituídos por versões da família Dodge M-37. Este processo resultaria em um grande lote excedente de veículos que seriam repassados a nações alinhadas aos interesses geopolíticos dos Estados Unidos através de programas de ajuda militar, como Grécia, Irã, Nicarágua, Portugal e Suíça. 

Emprego no Exército Brasileiro.
No início da Segunda Guerra Mundial, o governo dos Estados Unidos passou a encarar com crescente apreensão a possibilidade de uma incursão militar das forças do Eixo — Alemanha, Itália e Japão — no continente americano. Essa preocupação intensificou-se de forma decisiva após a capitulação da França, em junho de 1940, evento que alterou profundamente o equilíbrio estratégico do conflito. A derrota francesa abriu a perspectiva de que a Alemanha nazista pudesse utilizar territórios ultramarinos sob controle francês, como as Ilhas Canárias, Dacar e outras colônias na África e no Atlântico, como bases avançadas para operações militares, criando condições favoráveis a uma eventual projeção de poder sobre o hemisfério ocidental. Nesse contexto, o Brasil passou a ser identificado pelos estrategistas norte-americanos como um dos pontos mais sensíveis e prováveis para a deflagração de uma ofensiva inimiga. Tal avaliação decorria, sobretudo, de sua proximidade geográfica com o continente africano, região que figurava nos planos de expansão alemães, além de sua extensa costa voltada para o Atlântico Sul. Paralelamente, as rápidas conquistas japonesas no Sudeste Asiático e no Pacífico Sul comprometeram o acesso dos Aliados a importantes fontes de látex, transformando o Brasil no principal fornecedor dessa matéria-prima estratégica. A borracha natural era, à época, um insumo indispensável para a indústria de guerra, sendo empregada em larga escala na produção de pneus, vedantes, mangueiras e inúmeros componentes militares. A relevância estratégica do território brasileiro não se limitava à oferta de recursos naturais. A posição geográfica do litoral nordestino revelava-se particularmente vantajosa para o estabelecimento de bases aéreas e portuárias. Destacava-se, nesse cenário, a cidade de Recife, considerada o ponto mais próximo entre os continentes americano e africano. Essa condição tornava a região um elo logístico fundamental, apto a servir como ponte para o deslocamento de tropas, suprimentos e aeronaves destinadas aos teatros de operações europeu e norte-africano. Diante desse quadro geopolítico, observou-se, em curto espaço de tempo, uma aproximação progressiva entre o Brasil e os Estados Unidos, tanto no plano político quanto no econômico. Essa convergência resultou na celebração de acordos estratégicos e no incremento da cooperação militar entre os dois países. Entre as iniciativas mais relevantes destacou-se a adesão do Brasil ao programa de ajuda militar conhecido como Lend-Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos), concebido com o propósito de fortalecer as capacidades defensivas das nações aliadas. Os termos do acordo garantiram ao Brasil uma linha inicial de crédito da ordem de US$ 100 milhões, destinada à aquisição de material bélico moderno. Esse aporte possibilitou o acesso a armamentos atualizados, aeronaves, veículos blindados e carros de combate, elementos essenciais para a modernização das Forças Armadas Brasileiras. Tais recursos mostraram-se particularmente relevantes diante da intensificação dos ataques de submarinos alemães no Atlântico Sul, que passaram a ameaçar de forma direta a navegação mercante e a segurança do comércio exterior brasileiro  vital para o abastecimento diário de matérias-primas destinadas à indústria de guerra norte-americana. A participação brasileira no esforço de guerra aliado, inicialmente limitada ao apoio logístico e ao fornecimento de recursos estratégicos, rapidamente começou a se ampliar. O então presidente Getúlio Vargas deixou claro que o Brasil não se restringiria a um papel secundário no conflito. Em pronunciamentos e negociações diplomáticas, sinalizou a disposição do país em assumir uma participação mais ativa, inclusive com a possibilidade do envio de tropas brasileiras para um teatro de operações de relevância, antecipando o protagonismo que o Brasil viria a desempenhar nos anos subsequentes da guerra.

Naquele contexto histórico, o Exército Brasileiro encontrava-se em avançado estado de defasagem no que se referia a armamentos, meios de transporte e equipamentos em geral. Entre as carências mais sensíveis destacava-se a escassez de caminhões militares dotados de tração integral 4x4 e 6x6, indispensáveis para operações em terrenos difíceis e para o apoio logístico de unidades mecanizadas. Os poucos veículos disponíveis eram claramente insuficientes para atender às exigências operacionais da força terrestre, limitando sua mobilidade e comprometendo sua capacidade de resposta. A partir do final de 1941, no âmbito do programa de assistência militar firmado com os Estados Unidos, o Brasil passou a receber os primeiros lotes de veículos militares destinados às Forças Armadas. Todavia, os utilitários da família Dodge WC amplamente empregados pelo Exército dos Estados Unidos (U.S Army)  somente começaram a ser entregues em quantidade mais significativa ao final de 1942. A maioria dessas viaturas era composta por veículos recém-saídos das linhas de montagem da Dodge’s Mound Road Truck Plant e da Chrysler Corporation, refletindo o esforço industrial norte-americano voltado à produção em larga escala de meios militares. Entre os primeiros modelos incorporados destacaram-se os utilitários Dodge WC-62 e WC-63, conhecidos como Big Shot, que passaram a equipar regimentos de infantaria sediados na cidade do Rio de Janeiro, então capital federal. A introdução desses veículos com tração integral 4x4 representou um marco decisivo na evolução da doutrina operacional do Exército Brasileiro, ao ampliar significativamente sua mobilidade tática e sua capacidade de atuação em diferentes ambientes operacionais. Essa modernização permitiu a progressiva substituição de uma frota heterogênea de veículos leves civis militarizados  até então inadequados para o emprego militar e de modelos já obsoletos, como os Vidal & Sohn Tempo-Werk Tempo G1200, de origem alemã, recebidos em 1938. Embora esses veículos tivessem representado um avanço à época de sua incorporação, mostravam-se insuficientes para equipar de forma adequada uma unidade mecanizada nos padrões exigidos pelo conflito moderno. Nessa fase inicial, estima-se que aproximadamente trezentos utilitários norte-americanos da família Dodge WC, incluindo os modelos WC-51, WC-52, WC-62 e WC-63, tenham sido entregues ao Exército Brasileiro. Essa aquisição simbolizou o início de uma profunda transição institucional, na qual o Exército passou de uma força majoritariamente hipomóvel para uma organização terrestre progressivamente mecanizada, alinhada às concepções operacionais contemporâneas adotadas pelos exércitos aliados. Em consonância com os compromissos assumidos no âmbito da aliança com os países aliados, o Brasil formalizou sua participação direta no esforço de guerra em 9 de agosto de 1943, por meio da Portaria Ministerial nº 4.744, publicada no Boletim Reservado de 13 de agosto do mesmo ano. Esse ato normativo instituiu oficialmente a Força Expedicionária Brasileira (FEB), concebida para atuar em operações de combate no teatro europeu, sob a égide do Exército Brasileiro. A FEB foi organizada segundo os padrões doutrinários e estruturais do Exército dos Estados Unidos (US Army), refletindo a integração operacional entre as forças aliadas.  Sua composição incluía: Três Regimentos de Infantaria: o 1º, o 6º Regimento de Infantaria (Caçapava) e o 11º Regimento de Infantaria; Quatro Grupos de Artilharia, sendo três equipados com obuses de 105 mm e um com obuses de 155 mm; Unidades de Apoio, compreendendo um batalhão de engenharia, um batalhão de saúde, um esquadrão de reconhecimento e uma companhia de transmissões.
O comando da Força Expedicionária Brasileira (FEB) foi confiado ao General-de-Divisão João Batista Mascarenhas de Morais, cuja liderança revelou-se fundamental para a organização, preparação e condução das operações da tropa brasileira no contexto do conflito, marcando de forma definitiva a presença do Brasil na história militar da Segunda Guerra Mundial. O contingente brasileiro inicialmente previsto para emprego no Teatro de Operações Europeu era estimado em aproximadamente vinte e cinco mil homens. Essa força deveria operar integralmente segundo os preceitos doutrinários e organizacionais do Exército dos Estados Unidos (US Army), o que exigia elevados padrões de mobilidade tática e logística. Nesse contexto, a Força Expedicionária Brasileira (FEB) necessitava ser amplamente dotada de veículos para transporte de tropas, equipamentos e suprimentos, em consonância com os modelos e sistemas então em uso pelas forças aliadas. Em conformidade com o cronograma estabelecido, o primeiro escalão  desembarcou no porto de Nápoles, na Itália, em 16 de julho de 1944. Após um breve período de adaptação e treinamento operacional, as tropas brasileiras foram incorporadas ao V Corpo de Exército dos Estados Unidos, então sob o comando do General Mark Wayne Clark. Nessa fase inicial, a FEB recebeu a totalidade de seus armamentos, equipamentos e viaturas, os quais foram retirados dos estoques estratégicos de recomplementação norte-americano, localizados na cidade italiana de Tarquinia. O parque de veículos disponibilizado à FEB incluía um expressivo número de caminhões, jipes e utilitários de médio porte, fundamentais para assegurar a mobilidade das unidades em campanha. Entre essas viaturas destacavam-se 137 veículos com tração integral 6x6, pertencentes aos modelos Dodge WC-62 e WC-63, amplamente reconhecidos por sua robustez e confiabilidade em terrenos difíceis. O batismo de fogo ocorreu em 14 de setembro de 1944, durante as operações iniciais no Vale do Rio Serchio, na região da Toscana. Naquela ocasião, o 6º Regimento de Infantaria (6º RI)  tradicionalmente conhecido como Regimento Ipiranga e sediado em Caçapava, no estado de São Paulo  entrou em combate contra posições alemãs integrantes da Linha Gótica, um complexo e fortificado sistema defensivo estabelecido pelas forças do Eixo no norte da Itália. Ao longo da campanha , os utilitários da família Dodge WC, equipados com tração integral 6x6 e pertencentes à FEB, desempenharam papel de grande relevância nas operações militares. Os modelos WC-62 e WC-63 foram intensamente empregados no transporte de tropas, munições, víveres e demais suprimentos, assegurando a mobilidade das unidades brasileiras em ambientes caracterizados por relevo acidentado, estradas precárias e condições climáticas adversas. A tração 6x6 revelou-se particularmente eficaz nas regiões montanhosas e lamacentas do front italiano, onde a logística frequentemente representava um desafio tão significativo quanto o próprio combate. Em determinadas circunstâncias, os Dodge WC-62 também foram empregados pelo Pelotão de Sepultamento (PS), unidade responsável pela delicada missão de localizar, identificar e sepultar os militares brasileiros mortos em combate, além de organizar o envio de seus pertences pessoais às famílias no Brasil. Nessas operações, os veículos ofereceram apoio logístico indispensável, operando em coordenação com outras viaturas e contribuindo para o cumprimento de uma das tarefas mais sensíveis e humanamente relevantes da campanha.

Em consonância com a doutrina operacional adotada pelo Exército dos Estados Unidos (US Army), os caminhões Dodge WC-62 passaram a ser empregados pela Força Expedicionária Brasileira (FEB) no reboque de peças de artilharia leves e médias, com destaque para o canhão anticarro M-1 de 57 mm. Essa atribuição ampliou de forma significativa a mobilidade da artilharia brasileira no teatro de operações italiano, permitindo o rápido deslocamento e reposicionamento das peças em resposta às constantes mudanças do cenário tático durante os combates. Os veículos Dodge WC-62 e WC-63, pertencentes à Força Expedicionária Brasileira (FEB), estiveram presentes em algumas das mais exigentes e emblemáticas ações da Campanha da Itália, participando dos combates em Montese, Castelnuovo di Vergato, Monte Castello, Camaiore, Monte Prano, Zocca, Collecchio e Fornovo. Nessas operações, enfrentaram condições particularmente severas, caracterizadas por terrenos acidentados, vias precárias, chuvas intensas e pelo rigor do inverno italiano. Ainda assim, demonstraram notável capacidade de adaptação ao ambiente de guerra, mantendo elevados índices de operacionalidade, mesmo quando submetidos a manutenção realizada diretamente em campanha, muitas vezes sem instalações adequadas ou ferramentas especializadas. Com o encerramento das hostilidades na Europa, em 8 de maio de 1945, os caminhões Dodge WC-62 e WC-63, assim como os demais veículos, armamentos e equipamentos pertencentes ao Exército Brasileiro e à Força Aérea Brasileira (FAB), foram encaminhados ao Comando de Material do Exército dos Estados Unidos, sediado na cidade de Roma. Nessa organização, as viaturas em melhores condições de conservação foram selecionadas, armazenadas e posteriormente enviadas ao Brasil por via marítima. Os utilitários Dodge WC-62 e WC-63, conhecidos como Big Shot, retornaram ao território nacional a tempo de participar do Desfile da Vitória, realizado em 18 de julho de 1945, na Avenida Presidente Vargas, no Rio de Janeiro. Naquela solenidade de grande significado simbólico, a Força Expedicionária Brasileira foi oficialmente homenageada, apresentando ao público brasileiro os meios materiais que haviam acompanhado seus combatentes no teatro europeu. No período pós-guerra, esses veículos foram incorporados às unidades de infantaria motorizada do Exército Brasileiro e às companhias de canhões anticarro, continuando a exercer a função de tracionar os canhões M-1 de 57 mm. Ao longo das duas décadas seguintes, os utilitários Dodge desempenharam papel central no processo de modernização e mecanização da Força Terrestre, contribuindo para a consolidação de uma doutrina operacional mais móvel e compatível com os padrões das forças armadas modernas. Entretanto, ao final da década de 1950, a frota começou a apresentar crescentes dificuldades operacionais, refletidas principalmente na redução dos índices de disponibilidade. Esse quadro foi agravado pela crescente escassez de peças de reposição, em especial para o motor a gasolina Dodge T-214, de seis cilindros, válvulas laterais e refrigeração a água, cuja produção havia sido encerrada nos Estados Unidos em 1947. Tal limitação logística marcou o início do processo de declínio operacional desses veículos, que, apesar disso, deixaram um legado duradouro na história da mecanização do Exército Brasileiro.
Diante desse cenário de crescente obsolescência e das limitações logísticas impostas pela escassez de peças de reposição, tornou-se imperativa a adoção de uma solução de caráter emergencial. Nesse contexto, o Exército Brasileiro, por meio de negociações conduzidas junto ao Departamento de Estado dos Estados Unidos, no âmbito do Programa de Assistência Militar (Military Assistance Program – MAP), viabilizou a aquisição de um lote expressivo de utilitários mais modernos, pertencentes à família Dodge M-37 e M-43. A partir de 1966, o Brasil passou a receber mais de trezentas viaturas usadas desses modelos, fato que representou um novo e importante capítulo no processo de renovação e padronização da frota de veículos militares da Força Terrestre. Paralelamente às iniciativas voltadas à modernização do parque automotivo, a equipe técnica do Parque Regional de Motomecanização da 2ª Região Militar (PqRMM/2), sediado na cidade de São Paulo, desenvolveu estudos com o objetivo de substituir os motores a gasolina Dodge T-214, originalmente instalados nos utilitários Dodge WC-51, WC-52, WC-53, WC-54, WC-62 e WC-63, por motores diesel de fabricação nacional. Tal iniciativa encontrava-se alinhada a programas similares então em andamento no Exército Brasileiro, como a remotorização dos caminhões GMC CCKW, Studebaker US6 e dos veículos meia-lagarta White Motors M-3, M-3A1 e M-5 Half Track, buscando maior eficiência operacional, economia de combustível e padronização logística. Apesar do potencial técnico identificado, o projeto de remotorização dos veículos Dodge não avançou além da fase inicial de prototipagem, em razão de restrições orçamentárias, operacionais e logísticas. Como medida paliativa, optou-se pela retífica dos motores a gasolina originais de grande parte da frota dos modelos Dodge WC-51 e WC-52, bem como de um número mais reduzido de unidades dos modelos WC-62 e WC-63. Esse processo foi conduzido pela empresa paulista Motopeças S/A, permitindo estender a vida útil dessas viaturas e assegurar sua continuidade operacional por mais alguns anos. Ainda assim, a partir do final da década de 1970, os utilitários remanescentes passaram a ser progressivamente substituídos por caminhões militarizados de produção nacional, em um processo gradual de renovação que se estendeu até o final da década de 1980. Essa transição refletiu não apenas a evolução tecnológica dos meios de transporte militar, mas também a crescente capacidade da indústria nacional de atender às demandas das Forças Armadas. No período pós-guerra, os Dodge WC-62 e WC-63 foram amplamente empregados em atividades de instrução, transporte de tropas e equipamentos, bem como em missões de apoio logístico em diversas regiões do território nacional. Sua presença contribuiu de maneira significativa para o fortalecimento da capacidade operacional do Exército Brasileiro, permitindo a atuação em cenários variados e colaborando para a consolidação de uma doutrina militar mais flexível e compatível com as exigências estratégicas do contexto da Guerra Fria. Além de seu valor operacional, esses veículos adquiriram profundo significado simbólico, ao representarem de forma concreta a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, reforçando o sentimento de orgulho nacional associado à atuação da Força Expedicionária Brasileira (FEB) no teatro europeu. Com a progressiva desativação da frota, muitos desses utilitários foram alienados por meio de leilões ou destinados à sucata, encerrando, assim, uma trajetória marcada por décadas de serviço relevante e por um legado duradouro na história da motomecanização do Exército Brasileiro.

Em Escala.
Para representarmos o Dodge WC-63 "FEB 330", pertencente ao 11º Regimento de Infantaria da Companhia Anti Carros da Força Expedicionária Brasileira (FEB) empregamos o excelente kit da AFV Club, na escala 1/35. Modelo este que prima pelo nível de detalhamento e possibilita também a montagem da versão WC-62 (sem o guincho elétrico frontal). Incluímos em resina, artefatos que simulam a carga em formato de caixas e lonas de campanha. Fizemos uso de decais produzidos pela Decals e Books, presentes como complemento do livro "FEB na Segunda Guerra Mundial" de Luciano Barbosa Monteiro.
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura tático aplicado a todos os veículos em serviço no Exército dos Estados Unidos (U.S Army) durante a Segunda Guerra Mundial, padrão este com os veículos foram cedidos ao Exército Brasileiro na Itália, recebendo neste momento apenas as marcações nacionais. Este esquema seria mantido durante o tempo de serviço dos Dodges WC-62 e WC-63,alterando-se apenas o padrão de matrícula, seguindo este esquema até sua desativação.

Bibliografia :
- FEB na Segunda Guerra Mundial, por Luciano Barbosa Monteiro
- Dodges WC Series - http://en.wikipedia.org/wiki/Dodge_WC_series#WC51
- Standard Catalog of U.S. Military Vehicles, 1942
- Dodge 6X6 WC-63 da  FEB, por Expedito Stephani Bastos - http://www.ecsbdefesa.com.br/fts/Dodge.pdf