Bell UH-1H na Força Aérea Brasileira

História e Desenvolvimento. 

A eclosão da Guerra da Coréia (1950 – 1953), traria para a realidade o emprego de aeronaves de asas rotativas em um teatro de operações, o batismo de fogo ocorreu quando os novos helicópteros Bell H-13  das três forças armadas americanas, foram empregados em larga escala no transporte de feridos da linha de frente diretamente para os centros médicos de campanha recebendo esta tarefa a denominação de MEDEVAC (Medical Evacuation – Evacuação Aero médica). Essa nova missão fez aumentar a necessidade de mais aeronaves do modelo Bell H-13 neste conflito, gerando assim mais contratos de aquisição de centenas de células. A grande disponibilidade de aeronaves de asas rotativas neste teatro de operações aliadas ao desenvolvimento de técnicas de operação do modelo resultaria no fantástico número de resgate transporte e salvamento de mais de 15.000 soldados americanos que foram feridos em combate. Durante o transcorrer deste conflito regional ficou evidente que o uso mais amplo de aeronaves de asas rotativas, trouxe a tona novas técnicas e doutrinas a serem exploradas não só no processo de evacuação médica, mas também no conceito de mobilidade da tropa e ressuprimento aéreo de ponto. Em 1952, o comando do Exército Americano (US Army) identificou a necessidade de um novo helicóptero para atuar em missões de Evacuação Médica (MEDEVAC), para assim suprir as deficiências dos modelos empregados naquele período. Os parâmetros do projeto foram revisados em novembro de 1953, e assim foi aberto uma concorrência de desenvolvimento que contou com a participação de 20 empresas, sendo este processo refinado até a seleção de dois concorrentes e seus respectivos protótipos, sendo o Bell Helicopter com seu modelo 204 e a Kaman Aircraft com uma nova versão do modelo H-43. sagrou se vencedora em 23 de fevereiro de 1955 com a encomenda para produção de três protótipos iniciais que foram designados XH-40 pela Força Aérea Americana (USAF) e XHU-1 pelo  Exército Americano (US Army).

Umas das principais exigências desta concorrência era que nova aeronave fosse propelida com rotor acionado por turbina, substituindo assim as aeronaves com motor a pistão como o próprio Bell H-13 ou ainda os helicópteros de médio porte Sikorsky UH-34. Desenvolvido com base nestes parâmetros o primeiro protótipo do XH-40 alçou voo em 20 de outubro de 1956, sendo equipado com um rotor principal bipá semirrígido, acionado por uma única turbina Lycoming T53-L1, de 700 shp. Os primeiros resultados de voo foram promissores levando a aeronave e seu segundo protótipo o XHU-1 a serem submetidos a um intensivo programa de ensaios de voo pelo corpo de avaliação técnico das forças armadas norte americanas. Durante os dois anos seguintes mais protótipos foram encomendados, já passando a contar com inúmeras alterações de projeto, a versão final de ensaios designada pelo fabricante como Bell Model 204 receberia seu primeiro contrato de produção em série em março de 1960, como modelo recebendo a denominação militar de HU-1A  e o nome de batismo de como Iroquis em alusão as tribos indígenas norte americanas, porem posteriormente esta família de aeronaves de asas rotativas seria popularmente conhecido como Huey. Os primeiros helicópteros designados como HU-1A começaram a ser entregues ainda em janeiro 1961, os estágios iniciais de operação apontaram como principal deficiência da aeronave sua potência insatisfatória. Para sanar este problema foi desenvolvido a versão HU-1B, que passava a contar com um novo e mais potente motor o Lycoming T53-L-5 que chegava a proporcionar 960 shp de potência. Esta mudança permitiu ainda estender as dimensões da fuselagem aumentando capacidade de transporte da aeronave para 7 passageiros ou quatro macas e um médico. A primeira aeronave de produção seria entregue em março do mesmo ano e muitas células da versão original foram convertidas para o modelo HU-1B.
No entanto o ciclo da aeronave estava apenas começando, em meados de 1961 o Exército indicou a necessidade de melhorar os modelos subsequentes, sendo esta decisão tomada pela necessidade de se corrigir e corrigir deficiências aerodinâmicas do HU-1B, apresentadas em sua versão armada. Assim novamente o grupo propulsor foi alvo de estudos para melhoria com a aeronave passando a receber o motor um Lycoming  T53-L-11 com 1.100 shp, incorporando também um novo desenho de cauda com estabilizador. para fornecer a energia necessária para elevar todos os sistemas de armas em uso ou em desenvolvimento.  Este novo sistema de rotor permitia ao novo UH-1C dispor de velocidades de ar mais altas, reduzindo incidência de estolagem de lâminas em retirada durante atividades de mergulho, esta modificação ainda resultaria em melhor manobrabilidade e um ligeiro aumento de velocidade. Além de receber novas encomendas de produção a Bell foi agraciada ainda com contratos de atualização dos primeiros UH-1B para esta nova configuração. O aumento da potência e um rotor de diâmetro maior exigiram que os engenheiros da Bell projetassem uma nova lança traseira para o UH-1C. A lança de cauda mais longa incorporava uma aleta vertical de corda mais larga no pilão do rotor de cauda e elevadores sincronizados maiores. Apesar de satisfeito com os resultados operacionais dos Huey, o Exercito Americano almeja por uma aeronave com maior capacidade de transporte de tropas, visando atender a esta demanda a Bell esticou a fuselagem do UH-1B em 104 cm, e em vez de portas laterais deslizantes do modelo anterior com uma única janela, portas maiores foram equipados que tinha duas janelas, esta nova variante passava a dispor de 15 assentos. O protótipo do novo modelo agora designado 205 teve seu primeiro voo em 16 de agosto de 1961, a nova versão foi designada como UH-1D recebendo uma encomenda inicial de 205 unidades.

A partir de 1963 os UH-1D começaram a ser empregados maciçamente no conflito do Vietnã, no entanto o emprego no teatro real de operações clarificou a necessidade de se incrementar o desempenho da aeronave, resultando em estudos que levaram a adoção de um motor o Lycoming motor T53-L-13 com 1.400 shp que fornecia mais energia para a aeronave, neste processo o tubo de pitot foi transferida do nariz da aeronave para o teto da cabine, no intuito de se evitar danos durante o pouso. Estas mudanças geraram uma nova versão que passou a ser designada UH-1H, sendo detentor de maior potência e capacidade de carga esta variante recebeu um grande numero de sistema de armas, incluindo armas de grande calibre como canhão M24 de 20 mm. Testou-se uma grande variedade de armas automáticas de 7,62 mm, incluindo diferentes instalações da metralhadora M60. Os mísseis AS-10 e SS-11 foram testados em várias configurações diferentes. Lançadores de foguetes de alta capacidade também foram testados, como o lançador XM3, que tinha 24 tubos de lançamento. Rapidamente o Bell UH-1H ser tornaria a principal aeronave de asas rotativas das forças armadas norte americanas, estando presente em todos os conflitos em que este pais se envolveu nos últimos 50 anos , se tornando inclusive um ícone da historia militar moderna. Credita-se ao modelo o desenvolvimento de toda uma doutrina de deslocamento de tropas aéreo móvel, sendo ainda  primeira e efetiva plataforma de armas em aeronaves de asas rotativas. Seu sucesso operacional conquistaria logo os primeiros contratos de exportação para o Japão e a Austrália, tendo este último pais a ser o segundo operador militar em combate real da aeronave, quando em meados de 1966 os UH-1H do Squadron 9 da RAAF foram enviados para o Vietnã do Sul em apoio à 1ª Força-Tarefa Australiana.
Um total de 16.000 células dispostas em diversas versões ( com 5435 do UH-1H) foram produzidas pela Bell ou pela Augusta, Dornier Flugzeugwerke e Fuji Heavy Industries sob licença. A partir de 1979 as primeiras versões do novo helicóptero S-70A Black Hawk, começaram a entrar em serviço nas forças armadas norte americanas, iniciando assim um gradativo e lento processo de substituição dos Bell UH-1D e UH-1H, com várias dezenas de células sendo disponibilizadas a nações alinhadas dos Estados Unidos, entre elas Argentina, Brasil, Alemanha, El Salvador, Israel, Líbano, Nova Zelândia, Filipinas,  Rhodesia, Espanha , Portugal e Yemen. Em 1989 o Exercito Norte americano desativou oficialmente o modelo, mantendo porem em unidades de reserva cerca de 700 aeronaves que foram usadas principalmente em apoio ao treinamento de Aviação do Exército em Fort Rucker e em unidades selecionadas da Guarda Nacional do Exército, com as últimas células sendo desativadas em 2005, quando finalmente neste tipo de missão foram suplementos pelos novos UH-72 Lakota. Na força área as últimas aeronaves foram retiradas do serviço ativo em 2016, atualmente somente o corpo de fuzileiros navais mantem ainda em operação versões modernizadas do UH-1N. Ainda é possível encontrar os últimos UH-1H militares em operação em alguns países atualmente, porém dificilmente deverão estar operacionais ainda nos primeiros anos da década de 2020.

Emprego no Brasil. 

A gênese da carreira dos helicópteros da família Bell UH-1 no Brasil tem início na década de 1960, partindo da necessidade da Força Aérea Brasileira em aprimorar seu processo de busca e salvamento face aos compromissos assumidos junto a Convenção de Chicago. Nesta ocasião fora criada a Organização de Aviação Civil que viria a definir os procedimentos e responsabilidades relativas a estas missões, bem como a alocação de recursos para a aquisição de vetores mais adequados a estas tarefas. A introdução de uma nova aeronave que pudesse atender a esta demanda operacional era necessária, pois até então os meios empregados para este tipo de missão eram os Bell H-13H e os Sikorsky H-19D, modelos que estavam obsoletos e dispunham de pouca autonomia, salientando ainda que apesar de presentes em maior numero o Bell H-13 era completamente inadequado para este tipo de tarefa. A solução invariavelmente passava pela introdução de uma nova aeronave de asas rotativas. Uma das premissas básicas na busca de um novo vetor de asas rotativas era a possibilidade do mesmo poder ser empregado em missões de transporte de tropa, ligação e ataque, criando assim uma plataforma comum na FAB. Em 1965 uma concorrência internacional foi aberta buscando a seleção de uma aeronave de asas rotativas de médio porte, com a escolha recaindo sobre o novo modelo da Bell Helicopter, o Model 205 na variante militar UH-1D com o contrato de compra de 14 células novas de fábrica. sendo celebrado no segundo semestre do ano seguinte.  As primeiras aeronaves começaram a ser recebidas a partir do primeiro de trimestre de 1967 sendo alocadas junto ao 2º/10º GAv Esquadrão Pelicano (versão SH-1D) e aos Esquadrões Mistos de Reconhecimento e Ataque EMRA (versão UH-1D).

A exemplo do observando junto as forças armadas norte-americanos, o emprego do Bell UH-1D rendeu elogios por parte da Força Aérea Brasileira, exaltando as qualidades operacionais da aeronave, como o modelo sendo ainda utilizado em missões reais de contra insurgência  (COIN) contra a guerrilha de esquerda comunista principalmente durante o conflito do Araguaia e em exercícios como a serie Manobra Real. Este êxito levou o Ministério da Aeronáutica no ano de 1972 a realizar a aquisição de mais 24 células agora do modelo UH-1H que eram oriundas dos estoques do Exército Americano (US Army). Estas novas aeronaves passaram a ser recebidas no início de 1973 vindo  a aumentar a capacidade dos Esquadrões Mistos de Reconhecimento e Ataque, sendo distribuídos ao 1º EMRA Esquadrão Falcão baseado na Base Aérea de Belém,  2º EMRA Esquadrão Poti, na Base Aérea de Recife, 3º EMRA, os Polivalentes, na Base Aérea de Santa Cruz e no 4º EMRA Esquadrão Dragão, na Base Aérea de São Paulo – Cumbica. Posteriormente em 1976 mais duas células também da versão UH-1H seriam adquiridas dos estoques do exército norte americano, sendo destinadas a repor perdas operacionais. Apesar de se tratar de aeronaves usadas, encontravam-se em excelente estado de conservação e, alguns exemplares, permaneceram operacionais até a primeira década dos anos 2000.
No início do ano de 1979 visando uma melhoria na performance e padronização em processo de manutenção, a FAB optou por modernizar as células remanescentes dos SH-1D e UH-1D. Além de ampliar vida útil destas células, eliminou-se a necessidade de manutenção de dois tipos distintos de motores, melhorando o processo logístico no fluxo de peças de reposição. Em 9 de setembro de 1980 a portaria Nº 239/GM3 desativou todos os EMRA. No lugar do 1º,2º e 5º EMRA foram criados, com seus efetivos e material o 1º/8º GAV, 2º/8º GAV e 5º/8º GAV. Já o 3º EMRA foi desmembrado no 1º/13º GAV que passou a atuar como se fosse uma ELO (Esquadrilha de Ligação e Observação), e o 3º/8º GAV, que passou a operar com helicópteros na Base Aérea dos Afonsos, a até a chegada dos CH-33 Puma, em 1981. O 4º EMRA foi desativado sem a criação de nenhuma unidade em seu lugar, uma vez que há existia o 1º/11º GAV. Paralelamente o 1º/8º GAV foi transferido para Manaus, levando os Bell UH-1H a operar na floresta amazônica, onde permaneceram até sua desativação em 1987.  Ainda no mesmo ano de 1980 o Ministério da Aeronáutica, visando repor novas perdas operacionais, um novo lote de oito células foi adquirido dos estoques da Força Aérea de Israel (Heyl Há´Avir). Cinco destas aeronaves eram de procedências norte americana, originalmente do modelo UH-1D já modernizadas para o padrão UH-1H, e três italianas fabricadas sob licença pela Augusta. Todos os oito helicópteros possuíam os tubos de pitot no nariz, e os Augusta tinham o rotor de cauda do lado esquerdo, sendo necessária a inversão da caixa de transmissão de 90º por motivo de padronização. Como estas aeronaves foram empregadas em missões reais em Israel, foram encontrados inúmeros buracos e bala, sendo necessário promover detalhada análise e reparo. Após esta revisão completa nas oficinas do PAMA Afonsos, as células foram distribuídas para suas unidades operacionais.

Em meados da década de 1990 a Força Aérea Brasileira estudava como opção a substituição de sua frota de helicópteros Bell UH-1H pelos novos UH-60 Blackhawk, sendo esta demanda urgêncial pois em as células durante toda sua carreira foram muito exigidos operacionalmente o que elevou o número de acidentes e desgaste das células, reduzindo drasticamente os índices de disponibilidade. Porém os custos para esta substituição se mostraram foram da realidade orçamentaria do Ministério da Aeronáutica. Como solução paliativas optou se pela aquisição de 20 aeronaves usadas do modelo UH-1H, oriundas dos efetivos do Exército Americano (US Army) que estavam alocados na Alemanha. Após a seleção das células, foi acordado que estas aeronaves e seriam fornecidos nos termos do acordo FMS (Foreing Military Sales). Após seu recebimento no Brasil os “novos” UH-1H, possibilitaram a introdução e o desenvolvimento da doutrina de emprego do sistema Night Vison Goggles (NVG – Óculos de Visão Noturna) na aviação de asas rotativas da Força Aérea Brasileira, com 5º/8º GAV  Esquadrão Pantera sendo escolhido como unidade padrão para a implantação e disseminação operacional desta nova doutrina, recebendo assim inicialmente todas as aeronaves recebidas, posteriormente a este processo as células seriam distribuídas também ao 2º/10º GAV e ao 7º/8º GAV. Além de serem empregados em missões transporte de tropas e busca e salvamento (SAR) os UH-1H foram usados em inúmeras missões de apoio a população em catástrofes naturais em missões de saúde como campanhas de vacinação de populações indígenas e ribeirinhas e tarefas de apoio ao levantamento cartográfico de regiões inóspitas do pais .
Em 2006 a aeronave teria sua designação alterada para H-1H, durante muitos anos o helicóptero da Bell representou o esteio da aviação de asas rotativas da Força Aérea Brasileira, operando desde a quente e úmida floresta amazônica, até os frios e secos pampas gaúchos. O total de aeronaves empregadas na versão UH-1H (considerando as modernizações) atingiram a cifra de 62 aeronaves (seis UH-1D não chegaram a ser modernizados) e  apesar do alto nível de profissionalismo desenvolvido na manutenção das células e motores pelos Parques de Aeronáutica dos Afonsos e São Paulo, o modelo rapidamente atingia um índice de obsolescência que recomendava a troca por novas aeronave. Análises preliminares de seus possíveis substitutos apontaram a aquisição de dois modelos distintos sendo assim escolhidos os Sikorsky UH-60 Blackhawk e os Eurocopter EC725 Caracal. Um gradual processo de substituição e desativação teve início no ano de 2010, com as últimas células (todas pertencentes ao lote incorporado em 1997) sendo concentradas no 2º/10º GAV Esquadrão Pelicano. Durante este processo quatro aeronaves foram doadas a Força Aérea Boliviana e duas para a Secretaria de Segurança do Estado do Rio de Janeiro. Em 22 de outubro de 2018, após 51 anos de operação, durante uma cerimônia realizada na Base Aérea de Campo Grande – MS, foi realizado o corte de motor final, encerrando assim a gloriosa carreira do famoso “Sapão” na FAB.

Em Escala.

Para representarmos o UH-1H "FAB 8691" optamos pelo modelo da Italeri na escala 1/48 que representa inicialmente a versão “Delta”, como as diferenças externas quanto ao modelo se resumem na alteração do posicionamento do tubo de pitot, a conversão para a versão “Hotel” é simples, bastando acrescer alguns itens em scratch (dispositivos corta fios, antenas, sistema de NVG). Para finalizar o conjunto da obra empregamos decais do fabricante FCM presentes no antigo set 48/10.
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura tático de baixa visibilidade empregado pelas aeronaves de asas rotativas do Exército Americano (US Army), esquema este que foi mantido pela FAB até a gradativa desativação das células, as aeronaves pertencentes aos lotes originais recebidos ostentavam o padrão americano “Southeast Asia” em dois tons de verde e marrom.


Bibliografia:

- Bell UH-1D/H   Wikipédia - https://en.wikipedia.org/wiki/Bell_UH-1_Iroquois
- 2º/10º GAV Esquadrão Pelicano 50 anos, por Mauro Lins de Barros e Oswaldo Claro Junior
- História da Força Aérea Brasileira por, Prof. Rudnei Dias Cunha - http://www.rudnei.cunha.nom.br/FAB/index.html
- Aeronaves Militares Brasileiras 1916/ 2016 – Jackson Flores Jr