História e Desenvolvimento.
A Segunda Guerra Mundial representou um divisor de águas na história do combate terrestre, ao introduzir um novo paradigma operacional pautado pela alta mobilidade das forças de infantaria e pela integração efetiva entre diferentes armas do exército. Essa transformação impôs uma profunda revisão doutrinária às forças armadas de todo o mundo, exigindo delas a adaptação a uma filosofia de guerra dinâmica e mecanizada. O principal agente dessa revolução tática foi o Exército Alemão (Wehrmacht), que, por meio da estratégia Blitzkrieg (guerra-relâmpago), demonstrou o poder devastador da combinação entre velocidade, surpresa e concentração de força. Essa doutrina inovadora uniu, de forma coordenada, tanques, infantaria motorizada, artilharia móvel e apoio aéreo tático, redefinindo os conceitos de ofensiva mecanizada e de guerra de movimento. Para sustentar essa mobilidade sem sacrificar o poder de fogo, os alemães investiram fortemente no desenvolvimento de veículos de artilharia autopropulsada, que permitiam acompanhar as colunas blindadas em avanço. Modelos dessa categoria incluíam o Sd.Kfz. 165 Hummel, armado com um obuseiro de 150 mm; o Sturmtiger 606/4, equipado com um canhão de 380 mm; e o Sturmgeschütz III (StuG III), amplamente utilizados tanto em funções de apoio direto quanto como caça tanques. Observando o impacto dessas inovações nos campos de batalha europeus, o Exército dos Estados Unidos (U.S. Army) reconheceu a necessidade estratégica de incorporar à sua própria doutrina veículos de artilharia autopropulsada capazes de prover apoio contínuo às forças blindadas. Os primeiros experimentos bem-sucedidos foram conduzidos com plataformas adaptadas de veículos meia-lagarta M-3, culminando no desenvolvimento do T-19 Howitzer Motor Carriage, armado com um canhão de 105 mm. O sucesso obtido com esses protótipos levou, em fevereiro de 1942, à introdução do M-7 Priest, o primeiro obuseiro autopropulsado totalmente blindado do arsenal norte-americano. Montado inicialmente sobre o chassi do tanque médio M-3 Lee e, posteriormente, sobre o do M-4 Sherman, o M-7 destacou-se por sua robustez, confiabilidade mecânica e facilidade de manutenção em campanha. Seu batismo de fogo ocorreu durante a Segunda Batalha de El Alamein, onde comprovou sua eficácia no apoio às forças aliadas. Entre 1942 e 1945, foram produzidas 4.315 unidades do M-7 Priest, que serviram amplamente em todas as frentes do conflito, consolidando-se como um dos principais vetores de fogo indireto da Segunda Guerra Mundial. Após o término do conflito, o modelo continuou em serviço ativo, desempenhando papel relevante durante a Guerra da Coreia, ao lado do M-37. Apesar de sua comprovada eficiência, as operações na península coreana revelaram uma limitação tática importante: a elevação máxima de 35° do canhão, que restringia o engajamento de alvos em posições elevadas, especialmente em terrenos montanhosos. Essa deficiência operacional evidenciou a necessidade de desenvolver uma nova geração de obuseiros autopropulsados, dotados de maior ângulo de tiro e alcance estendido.
Diante do novo cenário estratégico do pós-guerra, o Exército dos Estados Unidos (U.S. Army) iniciou, no início da década de 1950, um ambicioso programa de modernização de sua artilharia autopropulsada, com o objetivo de desenvolver veículos capazes de combinar mobilidade estratégica, elevado poder de fogo e proteção NBC (nuclear, biológica e química). Essa iniciativa marcou o início de uma nova era na concepção de sistemas de artilharia móvel, ajustados às exigências tecnológicas e operacionais impostas pela Guerra Fria. A experiência adquirida durante a Guerra da Coreia expôs limitações significativas nos obuseiros autopropulsados então em serviço, como o M-7 Priest e o M-52, sobretudo em terrenos montanhosos. A elevação restrita dos canhões dificultava o engajamento de alvos em posições elevadas, reduzindo a eficácia tática e a flexibilidade operacional dessas plataformas. Com base nessas lições de combate, o Exército dos Estados Unidos buscou desenvolver uma nova geração de veículos de artilharia autopropulsada que atendesse plenamente às necessidades do campo de batalha moderno. Em 1953, foi introduzido o M-52, construído sobre o chassi do tanque leve M-41 Walker Bulldog. Apesar dos avanços obtidos como a ampliação do arco de elevação do canhão, de +65° a -10°, o modelo apresentou diversos problemas técnicos e limitações estruturais, levando ao encerramento de sua produção em curto prazo. Em resposta, seria lançado em 1959, um novo programa competitivo para o desenvolvimento de um sistema de artilharia padronizado, delegando a responsabilidade de projeto à Cadillac Motor Car Division, da General Motors, em cooperação com o Detroit Arsenal Tank Plant. O programa previa a criação de duas versões de obuseiros autopropulsados, ambas baseadas em um mesmo chassi modular, um de 105 mm, designado M-108 (T-195); e outro de 155 mm. Essa abordagem buscava reduzir custos logísticos e de manutenção, além de facilitar o treinamento das tripulações por meio da padronização de componentes mecânicos e estruturais. Em 1960, o primeiro mock-up foi apresentado, seguido pela construção de 05 protótipos submetidos a extensos testes no segundo semestre do mesmo ano. As avaliações, conduzidas pelo Aberdeen Proving Ground, resultaram em uma série de aprimoramentos técnicos que culminaram na versão final adotada oficialmente em 1963 sob a designação M-108 Self-Propelled Howitzer (SPH). Incorporava um conjunto equilibrado de mobilidade, proteção e poder de fogo, apresentando as seguintes características principais: Armamento: equipado com um obuseiro M-103 de 105 mm, capaz de empregar uma ampla gama de munições, incluindo alto explosivo (HE), fumígena e anticarro, compatíveis com o padrão da OTAN. O alcance máximo era de 11,5 km, podendo ser ampliado com o uso de munições assistidas por foguete. Blindagem: a torre totalmente fechada era construída em liga de alumínio, reduzindo o peso sem comprometer a proteção contra estilhaços e fogo de armas leves.

Compartilhava sua base mecânica com o M-109, incorporando diversos componentes comuns que simplificavam a logística de manutenção e reduziam custos operacionais. Destacavam-se o sistema de suspensão por barras de torção e as largas esteiras de baixa pressão sobre o solo, características que garantiam elevada mobilidade tática e capacidade de operação em uma ampla variedade de terrenos. O sistema de propulsão era composto por um motor Detroit Diesel 8V-71T turboalimentado com 405 hp, permitindo atingir velocidades de até 56 km/h em estradas e garantir uma autonomia operacional próxima de 350 km. Após a incorporação das modificações técnicas recomendadas durante os programas de avaliação e testes de campo, foi firmado, em 1962, o primeiro contrato de produção em série. A responsabilidade principal pela fabricação foi atribuída à Pacific Car and Foundry Company. A produção teve início ainda naquele ano, e as primeiras unidades começaram a ser entregues às unidades de artilharia de campanha a partir de abril de 1963, marcando o início de sua efetiva incorporação operacional. Sua principal característica era o canhão M103 de 105 mm, instalado em uma torre totalmente giratória, capaz de realizar rotação de 360 graus. Essa configuração proporcionava uma significativa vantagem operacional em relação aos sistemas rebocados convencionais, permitindo o engajamento de alvos em qualquer direção sem a necessidade de reposicionar fisicamente o veículo. Essa capacidade reduzia o tempo de reação e aumentava a flexibilidade tática das unidades de artilharia em combate. O armamento principal possuía ângulos de elevação compreendidos entre +75° e -6°, possibilitando a execução de disparos em trajetória altamente curva para apoio indireto, bem como o engajamento de alvos localizados em terrenos elevados ou em depressões topográficas. Essa versatilidade permitia operar eficazmente em diferentes cenários de combate, desde ambientes montanhosos até extensas áreas abertas. A tripulação era composta por comandante, artilheiro, carregador, motorista e operador de rádio. O desempenho eficiente da viatura dependia da integração e coordenação desses especialistas, responsáveis por funções distintas, mas complementares. Enquanto o comandante supervisionava a missão e mantinha contato com os escalões superiores, o artilheiro executava o apontamento da peça, o carregador preparava e introduzia as munições, o motorista assegurava a mobilidade do veículo e o operador de rádio mantinha as comunicações com os centros de direção de tiro e observadores avançados. A formação das tripulações exigia um elevado nível de capacitação técnica. Os militares recebiam treinamento intensivo em balística, cálculo de tiro, trigonometria aplicada, procedimentos de direção de fogo, operação dos sistemas hidráulicos e manutenção dos diversos componentes mecânicos e eletrônicos. Além disso, eram instruídos nos complexos protocolos de comunicação empregados pelas unidades de artilharia de campanha, para garantir a rapidez e precisão na execução das missões de apoio de fogo.
Sua introdução no teatro de operações do Sudeste Asiático pelo Exército dos Estados Unidos (U.S. Army) teve início em 1965, as condições encontradas no Vietnã apresentavam desafios substancialmente distintos daqueles previstos para um eventual confronto convencional na Europa. O terreno, composto por extensas áreas de selva tropical, regiões montanhosas, solos sujeitos a alagamentos e uma complexa rede hidrográfica, impunha severas limitações à mobilidade das forças mecanizadas. Além disso, o clima quente e extremamente úmido acelerava o desgaste dos equipamentos e aumentava as exigências de manutenção preventiva. Diante desse cenário, promoveu-se ajustes em seus métodos operacionais, adaptando seu emprego às necessidades específicas das operações de contrainsurgência e apoio direto às tropas. Em 17 de junho de 1966, unidades equipadas com o M-108 pertencentes ao 6º Regimento de Artilharia de Campanha foram posicionadas na região de Pleiku. Sua missão consistia em fornecer apoio de fogo indireto às forças engajadas em operações contra unidades do Exército do Vietnã do Norte (NVA) e guerrilheiros da Frente Nacional de Libertação do Vietnã, mais conhecida como Vietcong (VC). Os resultados obtidos durante as primeiras operações foram considerados altamente satisfatórios. A combinação entre mobilidade, proteção blindada e rapidez na execução das missões de tiro permitiu que o sistema respondesse com eficiência às demandas de apoio de fogo em um ambiente operacional caracterizado por deslocamentos frequentes e ameaças imprevisíveis. Como consequência, o emprego foi gradualmente ampliado para outras formações de artilharia presentes no teatro de operações. Posteriormente, o sistema passou a equipar unidades pertencentes ao 1º e ao 40º Regimentos de Artilharia de Campanha, que atuavam em apoio às forças norte-americanas estacionadas na região de Đông Hà, próximo à Zona Desmilitarizada (DMZ). Nessa região, participaram de inúmeras missões de apoio de fogo indireto, defesa de bases avançadas e ações de contra-bateria destinadas a neutralizar posições de artilharia inimigas. As operações em Đông Hà foram intensas, com suas posições sendo frequentemente submetidas a bombardeios de morteiros, foguetes e peças de artilharia do Exército do Vietnã do Norte. Um dos fatores que mais contribuíram para seu sucesso foi a combinação entre elevada mobilidade e a torre com capacidade de rotação integral de 360 graus, permitindo que se engajasse alvos em qualquer direção sem a necessidade de reposicionar o veículo, reduzindo o tempo de reação diante de ameaças emergentes. Em um ambiente de combate assimétrico, no qual ataques podiam ocorrer de múltiplas direções e com pouco aviso prévio, essa flexibilidade representava uma vantagem considerável em relação aos sistemas rebocados tradicionais. A possibilidade de realizar deslocamentos rápidos após a execução das missões de tiro também aumentava sua capacidade de sobrevivência, dificultando a localização e o engajamento por parte da artilharia inimiga.
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Frequentemente empregado em bases de fogo fortificadas, o obuseiro oferecia suporte de artilharia indispensável às unidades em operações de campo, reforçando sua relevância tática. Contudo, à medida que o conflito avançava, tornou-se evidente que o calibre de 105 mm limitava sua eficácia em operações de apoio de fogo de longo alcance e destruição de fortificações. Assim, em 1969, iniciou-se um processo gradual de substituição nas unidades de artilharia de campanha pelo M-109 de 155 mm, dotado de maior alcance e capacidade de carga explosiva. Adicionalmente, sua blindagem tornava vulnerável a ataques diretos, especialmente em combates de curta distância, o que restringia seu uso às linhas de retaguarda. Assim, a partir de meados de 1976, os batalhões de artilharia equipados com o M-108 foram gradualmente retirados do Vietnã. Na segunda metade da década de 1960, teve início um processo gradual de reorganização das unidades de artilharia autopropulsada, no qual os M-108 foram progressivamente transferidos dos Regimentos de Artilharia de Campo para as unidades da Guarda Nacional. Em instalações de treinamento como Camp Atterbury, no estado de Indiana, e Fort Sill, em Oklahoma considerado o principal centro de doutrina e instrução de artilharia, os M-108 foram amplamente empregados em exercícios de formação e capacitação técnica. Nessas atividades, os artilheiros puderam aperfeiçoar-se no manuseio de sistemas autopropulsados, abrangendo desde a operação do canhão e a execução de cálculos balísticos até a manutenção preventiva e corretiva dos veículos, além da coordenação tática de fogo em conjunto com unidades mecanizadas. Apesar de compartilhar uma série de componentes estruturais e mecânicos com o M-109, o modelo apresentou desafios de manutenção específicos, sobretudo para as unidades da Guarda Nacional, que frequentemente dispunham de recursos logísticos e técnicos mais restritos do que as formações regulares. A crescente padronização doutrinária e logística em torno do M-109 acelerou esse processo. Como resultado, parte significativa da frota de M-108 foi retirada de serviço e armazenada como reserva estratégica, permanecendo disponível para eventual mobilização ou transferência a países aliados. No contexto da política externa norte-americana da Guerra Fria marcada pela concessão de equipamentos militares a países aliados, parte desses obuseiros foi cedida ou vendida a nações parceiras no âmbito de acordos bilaterais de defesa e programas de assistência militar. Entre os principais beneficiários figuraram Bélgica, Brasil, Espanha, República da China (Taiwan), Turquia e Tunísia, todos integrantes do bloco ocidental ou de alianças estratégicas sob influência dos Estados Unidos. A produção do M-108 Howitzer foi oficialmente encerrada em setembro de 1963, totalizando aproximadamente 950 unidades fabricadas, além de 230 veículos da variante M-992, destinada ao transporte e reabastecimento de munição.
Emprego no Exército Brasileiro.
As origens da Artilharia Brasileira remontam ao período colonial, quando as primeiras mobilizações de combatentes locais ocorreram em conflitos decisivos, como as Batalhas dos Guararapes (1648–1649). Embora a artilharia ainda não se apresentasse como um ramo estruturado, seu emprego rudimentar já evidenciava a importância do fogo indireto no campo de batalha. Com a Independência do Brasil, em 1822, a Artilharia de Campanha passou a constituir-se de forma institucionalizada, integrando o recém-organizado Exército Imperial. Durante o Período do Império (1822–1889), a Arma de Artilharia consolidou-se como uma das mais prestigiadas da Força Terrestre. Seu corpo de oficiais era formado por profissionais altamente qualificados, oriundos da Academia Militar do Império, onde o curso de artilharia exigia longa e rigorosa formação técnica e científica superior à demandada pelas armas de Infantaria e Cavalaria. Um dos marcos mais expressivos da artilharia imperial ocorreu durante a Guerra da Tríplice Aliança (1864–1870), quando o Brasil, aliado à Argentina e ao Uruguai, enfrentou o Paraguai. Nesse conflito, destacou-se o Marechal Emílio Luís Mallet, Patrono da Arma de Artilharia, cuja liderança e competência tática foram decisivas. À frente de suas baterias na Batalha de Tuiuti (1866) a maior batalha campal da história da América do Sul , Mallet comandou a célebre “Artilharia Revólver”, assim apelidada pela cadência e precisão de seus tiros. Foi promovido a brigadeiro por mérito durante a guerra, agraciado com o título de Barão de Itapevi em 1878 e ascendeu ao posto de marechal em 1885, tornando-se um símbolo do profissionalismo e da bravura dos artilheiros brasileiros. Durante o século XIX, a artilharia de campanha era essencialmente composta por canhões e obuseiros de calibres médios, transportados por tração animal a chamada “artilharia montada”. Sua missão principal consistia em acompanhar a infantaria e fornecer apoio de fogo direto ou indireto, neutralizando posições inimigas e desorganizando formações adversárias. Com a Proclamação da República (1889), o Exército Brasileiro passou por uma profunda reorganização administrativa e doutrinária, influenciada pelos modelos europeus, especialmente o francês e o alemão. Nesse contexto, a Artilharia manteve sua relevância, ainda que enfrentando limitações tecnológicas, já que, até as primeiras décadas do século XX, o país operava predominantemente canhões Krupp de 75 mm, de tração animal, que permaneceram em serviço até o limiar da Segunda Guerra Mundial. Durante o conflito global (1942–1945), a Artilharia Divisionária da Força Expedicionária Brasileira (FEB) sob o comando do General Cordeiro de Farias teve papel de destaque na Campanha da Itália. Empregando técnicas modernas de tiro indireto e coordenação com observadores avançados, os artilheiros brasileiros demonstraram elevada precisão e disciplina de fogo. Suas ações foram decisivas nas vitórias de Monte Castelo (1945) e Montese.
Paralelamente, unidades de artilharia de costa e antiaérea desempenharam papel fundamental na defesa do Arquipélago de Fernando de Noronha , estabelecendo um dispositivo defensivo eficaz para proteger o Atlântico Sul de possíveis incursões navais ou aéreas inimigas. No contexto geopolítico da Guerra Fria, o Brasil buscou modernizar suas Forças Armadas por meio de acordos de cooperação com os Estados Unidos. Um marco fundamental nesse processo foi o Acordo de Assistência Militar Brasil–Estados Unidos, firmado em 1952, complementado posteriormente pelo Military Assistance Program (MAP), instrumento que visava fortalecer as capacidades defensivas de nações aliadas no hemisfério ocidental. A partir de agosto de 1960, o Exército Brasileiro passou a ser contemplado com um expressivo volume de equipamentos militares, abrangendo carros de combate, viaturas blindadas de transporte de tropas, obuseiros autopropulsados e caminhões logísticos de diversos modelos. Essa iniciativa, implementada de forma progressiva ao longo da década de 1960, representou um salto qualitativo na modernização da Força Terrestre, reforçando sua capacidade operacional e assegurando um patamar de prontidão compatível com os desafios estratégicos da época. No âmbito desse programa seriam cedidos 72 obuseiros autopropulsados M-108, provenientes dos estoques do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army). A operação foi conduzida com rigor técnico e administrativo, refletindo a importância estratégica atribuída ao projeto. Para garantir a qualidade e a confiabilidade do material a ser incorporado, foi designada uma comissão de oficiais brasileiros encarregada de deslocar-se aos Estados Unidos, com a missão de selecionar, junto à reserva técnica da Guarda Nacional , as viaturas que se encontravam em melhores condições de conservação. As inspeções realizadas pela comissão constataram que os M-108 disponíveis fabricados entre 1963 e 1964 apresentavam baixo índice de desgaste operacional, uma vez que haviam permanecido em serviço ativo por um período relativamente curto, antes de serem substituídos pelos mais modernos M-109, de calibre 155 mm, nas unidades de artilharia de campo. Após sua substituição, foram cuidadosamente armazenados, o que preservou suas condições técnicas e estruturais, tornando-os plenamente aptos para a reutilização por forças aliadas. O pacote de cessão incluía, além das viaturas, um substancial volume de munições do tipo HE (High Explosive), modelo M1 e equivalentes, adequadas às missões de apoio de fogo indireto típicas da artilharia de campanha. Também foram fornecidos kits de flutuação, que ampliavam a capacidade anfíbia das viaturas, permitindo-lhes transpor cursos d’água e operar em ambientes de terreno alagadiço característica particularmente útil no teatro operacional brasileiro. O acordo contemplava ainda um estoque de peças de reposição, assegurando a manutenção autônoma dos sistemas e a continuidade de suas operações em médio prazo.
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Antes de serem embarcadas para o Brasil, as viaturas passaram por um processo completo de revisão e recondicionamento mecânico, conduzido por empresas contratadas pelo governo norte-americano. Esse procedimento tinha como objetivo restabelecer integralmente os padrões de desempenho originais do equipamento, garantindo que as unidades chegassem ao Brasil em perfeito estado de funcionamento. As primeiras entregas foram realizadas no início de 1972, ocasião em que oficializou-se sua designação como Viatura Blindada de Combate Obuseiro Autopropulsado (VBCOAP) M-108. Por se tratar de um sistema de armas inédito até então no país, sua introdução exigiu uma reorganização estrutural e doutrinária no seio da Artilharia Divisionária, incluindo a criação de novas tabelas de organização, fluxos logísticos e programas de formação específicos. Sua incorporação representou, portanto, um marco na evolução da artilharia brasileira, inserindo o Exército Brasileiro no seleto grupo de forças armadas dotadas de artilharia autopropulsada moderna. O sistema simbolizava não apenas o avanço tecnológico, mas também a consolidação de uma nova doutrina de emprego de fogo móvel e de alta prontidão, alinhada às exigências táticas e estratégicas do ambiente militar contemporâneo. Em dezembro de 1971, seria iniciado um dos mais significativos processos de modernização de sua Artilharia de Campanha, com a criação de quatro Grupamentos de Artilharia de Campanha Autopropulsados (GAC Ap). Essa reestruturação representou a transição definitiva de um sistema de artilharia predominantemente rebocado para um modelo de operação baseado em viaturas autopropulsadas blindadas, compatíveis com as exigências de mobilidade e prontidão impostas pela doutrina militar contemporânea. O novo material, prestes a ser incorporado, recebeu oficialmente a designação de Viatura Blindada de Combate Obuseiro Autopropulsado (VBCOAP) M-108. Coube à Diretoria de Material do Exército (DMat) a elaboração e a difusão do documento doutrinário “Manual de Campanha Artilharia Obus 105 mm M-108”, que regulamentava os procedimentos operacionais, técnicos e logísticos. A introdução operacional ocorreu de forma gradual. Em abril de 1972, o 5º Grupamento de Artilharia de Campanha Autopropulsado (5º GAC Ap), sediado em Curitiba (PR), tornou-se a primeira unidade a receber as viaturas. No mês seguinte, em maio de 1972, o 3º GAC Ap, localizado em Cachoeira do Sul (RS), passou a operar o novo sistema. Já no início de 1973, o 6º GAC Ap, com sede no Rio de Janeiro (RJ), e o 16º GAC Ap, sediado em São Leopoldo (RS), completaram o quadro das unidades equipadas. Cada grupamento foi estruturado em baterias de tiro compostas, em média, por 06 viaturas M-108, organizadas para assegurar mobilidade, flexibilidade e alta capacidade de apoio de fogo em operações de campanha. A concentração de três dos quatro grupamentos na Região Sul do país refletia as considerações estratégicas, dada a rivalidade histórica com a Argentina, então considerada um potencial adversário regional.
Além das unidades operacionais, dois M-108 foram designados à Escola de Material Bélico (EsMB), no Rio de Janeiro, com a finalidade de servir ao treinamento técnico e à formação de artilheiros, mecânicos e especialistas em manutenção, assegurando a capacitação do pessoal em todos os níveis operacionais do novo sistema. Seu canhão M-103 de 105 mm, com tubo de 30 calibres, proporcionava cadência de tiro de até 10 disparos por minuto em rajadas curtas e cerca de 3 disparos por minuto em fogo sustentado. Seu alcance máximo de 11,5 km, utilizando munição HE (High Explosive), era plenamente adequado para missões de apoio de fogo próximo e interdição de áreas. A munição HE, com massa aproximada de 15 kg por projétil, era armazenada em quantidade limitada no interior, cerca de 86 disparos, conforme a configuração interna da viatura. Essa limitação impunha dependência logística significativa para reabastecimento durante operações prolongadas. A ausência, naquele período, de um veículo transportador blindado de munições como o M-992 Field Artillery Ammunition Support Vehicle, constituía uma vulnerabilidade logística importante. Em consequência, as baterias autopropulsadas dependiam de caminhões de apoio para o transporte de projéteis e cargas propelentes, o que expunha as linhas de suprimento a riscos em ambientes operacionais hostis, exigindo planejamento logístico rigoroso e a adoção de escoltas de segurança. Embora o Brasil tenha recebido munições de 105 mm na década de 1970, a produção local foi gradualmente desenvolvida pela Imbel (Indústria de Material Bélico do Brasil). Os M-108 VBC OAP ao longo dos anos prestariam excelentes serviços, no entanto a partir de meados da década de 1970, passaria-se a enfrentar dificuldades na gestão do fluxo de peças de reposição, mais notadamente os componentes críticos do do Detroit Diesel 8V71T, resultando nos primeiros problemas de disponibilidade da frota. Este cenário seria agravado a partir de março de 1977 após o rompimento do Acordo Militar Brasil - Estados Unidos, com este evento determinaria a interrupção de toda financeira e linhas de abastecimentos de peças de reposição para os veículos militares. Buscando restaurar a capacidade operacional destes veículos, seriam desenvolvidos estudos para nacionalização do maior índice possível de componentes críticos, este processo se materializaria em um programa de modernização proposto pela empresa paulista Motopeças S/A. Neste escopo, a principal alteração consistia na remoção do motor de origem norte-americana, e sua substituição por um motor nacional fabricado pela Scania do modelo DS-14 com 385 cv. Esta mudança implicaria em alterações, que foram aplicadas no sistema de acionamento dos ventiladores de arrefecimento, que passou a ser feito por correias, no lugar do caro e complicado sistema de transmissão angular. Outros itens críticos foram também nacionalizados neste processo. Este programa trouxe aos M-108 um conjunto motriz de robustez superior ao original, resultando em uma maior vida útil, reduzindo muito os custos de manutenção e as frequentes paradas para reparo, prolongado a vida do veículo.

Esse processo demandou não apenas expertise técnica, mas também a colaboração entre militares e engenheiros civis, que trabalharam incansavelmente para adaptar o M-108 V às realidades brasileiras. No final da década de 1980, o Exército Brasileiro lançou o programa Força Terrestre 90 (FT-90), uma iniciativa visionária do Estado-Maior do Exército (EME) para modernizar suas estruturas, equipamentos e doutrinas, com especial atenção à arma blindada. Este programa priorizou a modernização da cavalaria blindada e da artilharia, reconhecendo a importância estratégica dessas armas em um contexto geopolítico marcado pela rivalidade com a Argentina e pela crescente relevância da Amazônia. Um marco significativo ocorreu em 1999, quando foram incorporados 37 obuseiros autopropulsados M109A3. Pela primeira vez, a Artilharia de Campanha Autopropulsada tornou-se completa, combinando peças de 105 mm e 155 mm, oferecendo maior poder de fogo e flexibilidade tática. A introdução do M-109A3VBC OAP representou um salto qualitativo. Com um canhão de 155 mm capaz de atingir até 18 km com munição convencional e maior capacidade de armazenamento de projéteis, o M-109 complementava o M-108, que, embora confiável, começava a mostrar sinais de obsolescência. A partir de 2013, intensificaram-se os esforços para substituir o M-108 VBC OAP , culminando na celebração de um contrato sob o programa Foreign Military Sales (FMS) para a aquisição e modernização de um lote de obuseiros M-109A5VBC OAP . As primeiras viaturas novas começaram a ser recebidas em 2016, iniciando um processo gradual de substituição. A frota remanescente de M-108 VBC OAP foi concentrada nos 3º e 22º Grupamentos de Artilharia de Campanha Autopropulsados, sediados na região Sul. Em 29 de março de 2017, o Exército Brasileiro formalizou a desativação do M-108 VBC OAP por meio da Portaria nº 193-EME. Os últimos disparos operacionais ocorreram em 11 de setembro de 2019, realizados pelo 3º GAC Ap em Uruguaiana (RS). Logo a seguir o Parque Regional de Manutenção da 5ª Região Militar (PqRMM/5) liderou um programa inovador para transformar alguns M-108 em viaturas especializadas de transporte e reabastecimento de munição, uma solução que prometia conferir mobilidade tática e proteção blindada às unidades de artilharia. Um protótipo foi desenvolvido e testado, apresentando resultados promissores. No entanto, em 2018, o projeto foi interrompido com a aquisição de 40 Viaturas Blindadas de Transporte Especial Remuniciadora (VBTE Rem) M992A2 FAASV, projetado especificamente para reabastecer obuseiros de 155 mm. O destino dos M-108 ganhou um capítulo inesperado em 2019, quando o Ministério da Defesa do Uruguai expressou interesse em adquirir as viaturas remanescentes. Após negociações, o Congresso Nacional brasileiro aprovou, em 4 de agosto de 2022, a doação de dez M-108, acompanhados de peças de reposição.
Em Escala.
Para representar o M-108 VBC OAP "EB12-912" pertencente ao 3º Grupamento de Artilharia de Campanha Autopropulsado (3º GAC AP) com fidelidade, foi utilizado o único kit disponível na escala 1:35, fabricado pela Italeri. Esse modelo, projetado com detalhes precisos, captura a essência do M-108 tal como operado pelo Exército Brasileiro, dispensando a necessidade de modificações significativas, podendo a montagem ser feita no modo "out of the box". A personalização do modelo foi alcançada com a aplicação de decais do conjunto "Veículos Militares Brasileiros 1944-1982", produzido pela Eletric Products.
O esquema de cores adotado pelo Exército Brasileiro desde a Segunda Guerra Mundial, e mantido até dezembro de 1982, baseava-se em um padrão monocromático de verde-oliva, frequentemente associado ao Federal Standard (FS) 34087, um tom escuro e fosco projetado para camuflagem em ambientes variados, como florestas, campos e áreas urbanas. Em 1982, o Exército Brasileiro introduziu um novo padrão de pintura tático em dois tons, com todos os M-108 VBC OAP passando a partir do ano seguinte a ostentar este esquema.
Bibliografia
- Blindados no Brasil - Um Longo e Árduo Aprendizado - Volume I , por Expedito Carlos Stephani Bastos
- Blindados no Brasil - Um Longo e Árduo Aprendizado - Volume II , por Expedito Carlos Stephani Bastos
- M108 105 mm Self-Propelled Howitzer http://www.military-today.com/artillery/m108.htm
- M108 Howitzer – Wikipedia https://en.wikipedia.org/wiki/M108_howitzer

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