História e desenvolvimento.
Em 23 de maio de 1923, o engenheiro e inventor Igor Sikorsky, natural de Kiev então integrante do Império Russo fundou, nas proximidades do aeródromo de Roosevelt Field, em Nova York, a Sikorsky Aero Engineering Corporation. Recém-estabelecido no pais desde 1919, após deixar sua terra natal em decorrência das transformações políticas provocadas pela Revolução Russa, Sikorsky trouxe consigo uma sólida bagagem técnica e uma visão singular sobre o futuro da aviação. Ainda em território russo, destacara-se pelo desenvolvimento de aeronaves inovadoras, entre as quais o Ilya Muromets, um dos primeiros bombardeiros quadrimotores da história, que evidenciava sua inclinação para projetos de grande porte e soluções técnicas arrojadas. Nos Estados Unidos, inserido em um contexto de expansão econômica e crescente interesse pela aviação civil durante a década de 1920, ele direcionou seus esforços à concepção de aeronaves voltadas ao treinamento e ao transporte leve, atendendo à demanda emergente por voos comerciais e recreativos. Em 1925, a empresa foi rebatizada como Sikorsky Manufacturing Company, refletindo uma orientação mais clara para a produção em escala. Três anos depois, em 1928, transferiu suas instalações industriais para Stratford, no estado de Connecticut, em uma decisão estratégica destinada a ampliar sua capacidade produtiva e consolidar sua presença no setor aeronáutico. No ano seguinte, passou a integrar a United Aircraft and Transport Corporation, importante conglomerado que reunia diversas empresas da indústria aeroespacial. Sob essa nova estrutura corporativa, Igor Sikorsky e sua equipe concentraram-se no desenvolvimento de aeronaves multimotoras e anfíbias, capazes de operar tanto em terra quanto na água característica particularmente valiosa em regiões com infraestrutura aeroportuária limitada. Contudo, ao final da década de 1930, esse segmento enfrentou uma retração significativa, influenciada tanto por mudanças nas demandas do mercado quanto pela instabilidade econômica internacional do período entre guerras. Diante desse cenário, a direção da United Aircraft promoveu uma reorganização interna, resultando na fusão das operações com a Vought Aircraft Company, dando origem à Vought-Sikorsky Division. Esse rearranjo institucional revelou-se decisivo para o redirecionamento das atividades de Sikorsky, que passou a dedicar-se de forma mais intensa a um antigo interesse: o desenvolvimento de aeronaves de asas rotativas. Movido por uma fascinação que remontava à sua juventude, Sikorsky empenhou-se na criação de um helicóptero funcional, culminando no projeto do Vought-Sikorsky VS-300. Em 13 de maio de 1940, a aeronave realizou seu primeiro voo, demonstrando de maneira inequívoca a viabilidade de um helicóptero de rotor principal único com capacidade de decolagem e pouso vertical controlados. A evolução desse projeto levou ao desenvolvimento do Sikorsky XR-4 (designação VS-316), que realizou seu primeiro voo bem-sucedido em 14 de janeiro de 1942. Poucos meses depois, em maio do mesmo ano, o modelo foi oficialmente aceito pela Força Aérea do Exército dos Estados Unidos (USAAF). O XR-4 tornou-se, assim, o primeiro helicóptero de rotor único plenamente controlável a entrar em produção em série.
Durante o conflito, o Sikorsky R-4 desempenhou um papel pioneiro e decisivo na consolidação do emprego militar de helicópteros. Suas primeiras operações ocorreram no complexo teatro China–Birmânia–Índia, uma região caracterizada por terreno acidentado, densa vegetação e infraestrutura limitada. Nesse contexto, o R-4 revelou-se particularmente valioso em missões de busca e salvamento, possibilitando o resgate de pilotos abatidos em áreas até então inacessíveis por meios convencionais. No teatro do Pacífico Sul, a aeronave ampliou seu espectro de atuação ao ser empregada no transporte de componentes essenciais à manutenção de aeronaves, demonstrando notável versatilidade operacional e confiabilidade mecânica. O êxito dessas missões gerou crescente interesse por parte dos militares, resultando em contratos que, até o final de 1944, permitiram um ritmo de produção expressivo, com a entrega de aproximadamente cinco unidades a cada seis dias. Encerrado o conflito, no final da década de 1940, a Sikorsky Manufacturing Company já desfrutava de reconhecimento internacional por sua contribuição pioneira ao desenvolvimento de aeronaves de asas rotativas. O desempenho do R-4 durante a guerra consolidara o helicóptero como um recurso indispensável em operações militares sobretudo em missões de resgate, mas também evidenciara seu potencial para aplicações além do campo bélico. Atenta a esse novo cenário, a diretoria da empresa passou a vislumbrar oportunidades significativas no mercado civil, particularmente em áreas como transporte regional, evacuação aeromédica e serviços especializados. Essa percepção estratégica levou a investir recursos próprios no desenvolvimento de um helicóptero de médio porte, concebido para atender simultaneamente às demandas dos setores militar e civil. O objetivo central era criar uma aeronave versátil, capaz de combinar maior capacidade de carga e transporte de passageiros com simplicidade de manutenção e custos operacionais reduzidos. Sob a liderança do engenheiro Edward F. Katzenberger, a equipe técnica da empresa deu início ao desenvolvimento do Sikorsky S-55, uma plataforma concebida não apenas como um novo modelo operacional, mas também como um campo de validação para conceitos inovadores de engenharia aeronáutica. O progresso do projeto foi notavelmente rápido: em menos de um ano, foram concluídos mockups e protótipos funcionais, culminando na realização dos primeiros voos experimentais em novembro de 1949. O S-55 incorporava soluções técnicas que o distinguiam de seus contemporâneos, entre suas inovações destacava-se a instalação do grupo motopropulsor na seção frontal da aeronave, uma configuração que liberava espaço útil para uma cabine de carga e passageiros posicionada diretamente sob o rotor principal. Essa disposição permitia não apenas uma otimização do volume interno, mas também contribuía para a manutenção de um centro de gravidade estável, independentemente da distribuição da carga. Adicionalmente, o projeto contemplava soluções voltadas à eficiência operacional em solo. O acesso ao motor por meio de portas duplas facilitava intervenções técnicas, possibilitando a substituição completa do grupo motriz em aproximadamente duas horas um avanço significativo para os padrões da época.
Paralelamente ao desenvolvimento do Sikorsky S-55, a Força Aérea dos Estados Unidos (USAF) iniciou, em 1949, um programa de avaliação com o objetivo de selecionar um helicóptero de transporte capaz de acomodar até dez soldados totalmente equipados, além de dois pilotos. Inserido em um contexto de transição doutrinária no pós-guerra no qual as forças armadas buscavam maior mobilidade tática e flexibilidade logística esse requisito refletia a crescente importância atribuída às aeronaves de asas rotativas. A Sikorsky apresentou o S-55 como sua proposta para a concorrência, enfrentando projetos de outros fabricantes que, em muitos casos, adotavam configurações mais complexas, frequentemente baseadas em rotores duplos. Em contraste, o conceito defendido pela empresa destacava-se pela simplicidade estrutural e eficiência operacional. O emprego de um rotor principal único, aliado a um arranjo interno cuidadosamente otimizado, revelou-se particularmente adequado às exigências da força área. A inovadora disposição do grupo motopropulsor na seção frontal liberava uma cabine ampla e funcional, permitindo o transporte de diferentes tipos de carga sem comprometer a estabilidade da aeronave fator decisivo para sua competitividade. A versão de avaliação militar, designada Sikorsky YH-19, incorporava avanços técnicos que a colocavam entre os helicópteros mais sofisticados de sua época. Entre esses aprimoramentos destacavam-se os flaps de compensação e a introdução de servomecanismos hidráulicos, que proporcionavam maior precisão e estabilidade no controle de voo, mesmo sob condições variáveis de carga. Esses sistemas contribuíam significativamente para a redução de vibrações no conjunto de comando, diminuindo o esforço físico exigido do piloto. Como resultado, o YH-19 apresentava uma pilotagem surpreendentemente leve e responsiva frequentemente descrita como possível de ser conduzida com apenas dois dedos no manche característica que impressionou tanto pilotos quanto engenheiros. Essa combinação de simplicidade construtiva, desempenho consistente e facilidade de operação consolidou o YH-19 como um marco na evolução dos helicópteros utilitários. Ao final do processo competitivo, a proposta da Sikorsky foi considerada superior, levando à sua seleção. Em março de 1950, a empresa entregou 05 aeronaves de pré-série para um abrangente programa de ensaios em voo, cujos resultados confirmaram plenamente as qualidades do projeto. O sucesso dessas avaliações culminou na assinatura do primeiro contrato de produção, contemplando cinquenta unidades da versão Sikorsky H-19A. Essas aeronaves eram equipadas com o motor radial Pratt & Whitney R-1340 Wasp, capaz de gerar aproximadamente 600 hp, fornecendo a potência necessária para missões de transporte, busca e salvamento e evacuação aeromédica. A robustez, confiabilidade e versatilidade do H-19A rapidamente despertaram o interesse de outros ramos das forças armadas norte-americanas. Nesse contexto, a Marinha dos Estados Unidos, o Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos e a Guarda Costeira dos Estados Unidos passaram a incorporar o modelo em suas frotas, encomendando variantes customizadas HO4S-1, HO4S-2 e HO4S-2G às suas necessidades específicas.
Essas variantes incorporavam pequenas modificações para atender às especificidades de cada força, como adaptações para operações em ambientes marítimos, incluindo missões de resgate no mar e transporte de suprimentos. O H-19, conhecido como H-19 Chickasaw no serviço militar, tornou-se uma ferramenta indispensável, demonstrando sua versatilidade em uma ampla gama de cenários operacionais. Apesar de seu sucesso, o Sikorsky HO4S enfrentou desafios em operações marítimas, onde o motor Pratt & Whitney R-1340-57 de 600 hp revelou-se insuficiente para as condições exigentes de voo sobre o mar. A Sikorsky respondeu rapidamente a essa limitação, reequipando as aeronaves já entregues com o motor radial Curtiss-Wright R-1300-3 de 700 hp. Essa atualização, implementada com eficiência, melhorou significativamente o desempenho do helicóptero, garantindo maior potência e confiabilidade. A partir de então, o motor Curtiss-Wright tornou-se o padrão para todas as versões subsequentes do H-19, reforçando sua capacidade de atender às demandas operacionais. O Sikorsky H-19 Chickasaw possui a distinção de ser o primeiro helicóptero de transporte efetivo do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army) e, como tal, desempenharia um papel importante na formulação inicial da doutrina do exército em relação à mobilidade aérea e ao emprego no campo de batalha de helicópteros que transportam tropas. Com o estágio pleno operacional atingido foi decidido imergir o modelo em um cenário real de emprego, com várias aeronaves pertencentes ao 6 ª Companhia de Transporte do Exército, sendo deslocadas para a península coreana, onde seriam empregadas na Guerra da Coreia (1950 - 1953). As missões tiveram início em meados de 1951, atuando em tarefas de transporte desarmado, evacuação médica, controle tático e suporte de carga na linha de frente. E nestas tarefas, a nova aeronave conseguiria superar admiravelmente as capacidades do Sikorsky H-5 Dragonfly, usado durante a guerra pelo Exército dos Estados Unidos (U.S. Army). Já o Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos (USMC) também faria uso extensivo do modelo neste mesmo conflito, com as primeiras quinze aeronaves da versão, pertencentes ao esquadrão HMR-161 “Greyhawks”, chegando no país em 2 de setembro de 1951. A primeira surtida operacional real, ocorreria no dia 13 de setembro, durante a Operação Moinho de Vento I, quando os Sikorsky HRS-1 transportariam 8.527 kg de equipamento e setenta e quatro fuzileiros navais para uma cordilheira na área de Punchbowl. Na semana seguinte seriam transportados mais duzentos fuzileiros navais e mais 8.000 kg de equipamento para locais próximos a este. Os helicópteros Sikorsky HRS-1 também seriam usados para realocar as baterias dos lançadores de foguetes. A aeronave provaria ser durável e confiável em situações reais de conflito, registra-se o fato de que um deles voou para casa, depois de perder 46 cm da lâmina do rotor principal após um choque com uma árvore. Ainda neste aspecto de robustez e operacionalidade o esquadrão HMR-161“Greyhawks”, relataria durante a campanha da Coréia, índices de 90% de disponibilidade de aeronaves.
Emprego na Força Aérea Brasileira.
No contexto da modernização institucional da Força Aérea Brasileira (FAB) no início da década de 1950, o Ministério da Aeronáutica deu início, ao final de 1951, a um programa estratégico voltado à incorporação de aeronaves de asas rotativas. Essa iniciativa representava não apenas a adoção de uma tecnologia emergente, mas também uma mudança significativa na doutrina operacional da força, alinhando-a às tendências observadas nas principais potências militares do pós-guerra. Após um criterioso processo de avaliação técnica, a escolha recaiu sobre o Bell 47D-1, produzido pela Bell Helicopter, então referência mundial no desenvolvimento de helicópteros. Equipado com o motor Franklin O-335, de aproximadamente 178 cavalos de potência, o modelo representava, à época, um dos mais avançados helicópteros leves disponíveis, amplamente empregado pelas forças armadas dos Estados Unidos em diferentes funções. Uma vez aprovadas, as aeronaves foram desmontadas e preparadas para transporte marítimo ao Brasil. Nos primeiros dias de 1953, chegaram ao porto do Rio de Janeiro, sendo posteriormente trasladadas por via terrestre até o Aeroporto do Galeão, onde seriam montadas e integradas à estrutura operacional. Embora constituíssem uma frota inicial reduzida, esses helicópteros passaram a ser intensamente empregados em uma ampla gama de missões, incluindo tarefas de ligação, observação e, de maneira particularmente relevante, operações de busca e salvamento. Nesse contexto, a possibilidade de operar em ambiente marítimo viabilizada pela utilização de kits de flutuação ampliava significativamente o espectro de atuação dessas aeronaves. Assim, estabelecia-se o embrião doutrinário para a condução de missões de Busca e Salvamento (SAR) no âmbito da Força Aérea Brasileira (FAB). Essa evolução estava diretamente relacionada aos compromissos internacionais assumidos pelo Brasil em 1944, ao aderir à Convenção sobre Aviação Civil Internacional, que estabelecia que os países signatários manterem uma infraestrutura eficiente e abrangente para operações de busca e salvamento, cobrindo tanto áreas continentais quanto marítimas sob sua responsabilidade. Em consonância com essas diretrizes, o Ministério da Aeronáutica (MAer) havia criado, em 16 de novembro de 1950, o Serviço de Busca e Salvamento, estrutura destinada a coordenar e executar esse tipo de missão em território nacional. Como componente aéreo desse sistema, foram incorporadas aeronaves especializadas, como o Boeing SB-17G e o Consolidated PBY-5A Catalina, ambos dotados de grande autonomia e capacidade de operação sobre o mar. Entretanto, apesar de suas qualidades, essas aeronaves não supriam plenamente uma lacuna operacional crítica: a ausência de meios de asas rotativas, considerados essenciais para a localização precisa e o resgate direto de sobreviventes em áreas de difícil acesso. O helicóptero, nesse sentido, configurava-se como o vetor ideal para complementar e tornar efetivo o sistema SAR. Os primeiros avanços concretos rumo à consolidação dessa capacidade ocorreram em setembro de 1957, com a criação de um grupo de trabalho encarregado de conduzir estudos para a ativação e instalação de um esquadrão dedicado à busca e salvamento.
Esse esforço baseou-se na análise de modelos organizacionais adotados por outras nações, refletindo uma abordagem sistemática e alinhada às melhores práticas internacionais na estruturação de unidades especializadas em operações dessa natureza. Nesse contexto, a partir de 1956, o comando da Força Aérea Brasileira (FAB) passou a conduzir estudos voltados à seleção e aquisição de um lote de helicópteros destinados exclusivamente a missões de Busca e Salvamento (SAR). Os requisitos estabelecidos evidenciavam a necessidade de aeronaves de maior porte, dotadas de autonomia e robustez suficientes para operar em condições adversas como resgates em regiões remotas ou sobre o mar , reduzindo a sobrecarga até então suportada pelos limitados Bell H-13D, modelos leves introduzidos na década anterior e pouco adequados a operações de maior complexidade. Para viabilizar essa modernização, recorreu-se aos dispositivos previstos no acordo de assistência militar firmado entre Brasil e Estados Unidos, inserido no âmbito do Mutual Defense Assistance Program (MDAP). Esse programa, concebido no contexto da Guerra Fria, permitia a transferência de equipamentos militares sob condições favorecidas, incluindo doações ou aquisições a custos reduzidos. Diversos modelos de aeronaves de asas rotativas disponíveis no excedente militar norte-americano foram então avaliados com base em critérios rigorosos de custo-benefício, desempenho e viabilidade operacional. Ao término desse processo, a escolha recaiu sobre o Sikorsky H-19D Chickasaw, variante originalmente desenvolvida para o Exército dos Estados Unidos (U.S. Army) e amplamente comprovada em operações reais durante a Guerra da Coreia. Nesse cenário, o modelo destacou-se por seu emprego pioneiro em evacuações aeromédicas e no transporte de tropas sob condições hostis, evidenciando elevada robustez e confiabilidade. A decisão de aquisição foi consolidada no último trimestre de 1957, culminando, em dezembro, com a emissão de instruções à Diretoria de Material da Aeronáutica (DirMA) para dar prosseguimento aos trâmites de seleção e recebimento das aeronaves. Embora se tratassem de unidades usadas, essas células eram relativamente recentes muitas com menos de uma década de serviço e apresentavam excelente estado de conservação, com baixa carga de horas de voo e significativa vida útil remanescente. Definidos os vetores a serem incorporados, o passo seguinte consistiu na criação de uma unidade especializada capaz de integrar essas novas capacidades à doutrina de Busca e Salvamento (SAR). Assim, em 6 de dezembro de 1957, por meio da Portaria nº 60/GM2, foi criado o Segundo Esquadrão do Décimo Grupo de Aviação (2º/10º GAv), conhecido como Esquadrão Pelicano, sediado na Base Aérea de São Paulo, em Guarulhos, no estado de São Paulo. Essa unidade, que posteriormente se tornaria uma das mais emblemáticas da aviação militar brasileira em operações de resgate, recebeu como dotação inicial os Grumman SA-16A Albatross particularmente adequados para missões marítimas e os helicópteros H-19D Chickasaw. A incorporação desses meios marcou o início de uma nova fase na capacidade operacional , caracterizada por maior mobilidade e eficiência no cumprimento de missões de busca e salvamento.
Com o objetivo de assegurar elevados níveis de proficiência operacional, um grupo seleto de oficiais e mecânicos da Força Aérea Brasileira (FAB) foi enviado aos Estados Unidos, onde participou de um programa de treinamento conduzido pela equipe da Sikorsky Aircraft Corporation. Nesse estágio, os militares brasileiros não apenas adquiriram conhecimentos técnicos relativos à operação e manutenção dos Sikorsky H-19D Chickasaw, mas também assimilaram a doutrina norte-americana de Busca e Salvamento (SAR). Essa doutrina, fortemente influenciada pelas experiências acumuladas durante a Guerra da Coreia, enfatizava a coordenação precisa entre meios aéreos e terrestres, o emprego adequado de equipamentos de sobrevivência e a execução de resgates em ambientes hostis conhecimentos posteriormente adaptados às particularidades geográficas e operacionais do território brasileiro. Os quatro helicópteros destinados à Força Aérea Brasileira (FAB) foram desmontados e transportados por aeronaves Douglas C-124 Globemaster II da Força Aérea dos Estados Unidos (USAF), sendo recebidos individualmente ao longo do mês de fevereiro de 1958 na Base Aérea do Galeão (BAGL). Uma vez descarregadas, as células foram encaminhadas a um hangar próximo ao prédio de comando, onde se iniciou o processo de montagem sob responsabilidade de uma equipe técnica composta majoritariamente por sargentos mecânicos, sob a liderança dos tenentes Lemar Gonçalves e José Marioto Ferreira, ambos pertencentes ao 2º/10º Grupo de Aviação - “Esquadrão Pelicano”. Concluídas as etapas de montagem e realizados os ensaios em voo, as aeronaves agora matriculadas como "FAB 8504 a FAB 8507" foram oficialmente liberadas para operação. A partir de 2 de maio de 1958, iniciou-se o translado gradual dessas unidades para a Base Aérea de São Paulo (BASP), sede do esquadrão. Porém, mal ficara pronto e ensaiado o primeiro desses H-19D quando o novo Esquadrão foi convocado para sua primeira missão de busca e salvamento (SAR). Durante oito dias a contar de 21 de março de 1958, o H-19D 8506 realizou missões de busca aos sobreviventes de uma lancha que explodira entre a Ilha de São Sebastião (SP) e Santos (SP). Encerrada a missão e com aquele helicóptero tendo sido já recebido na Base Aérea de São Paulo (BASP), o 2º/10º GAV trouxe à sede da unidade os demais helicópteros à medida que iam ficando prontos na Base Aérea do Galeão (BAGL), uma tarefa que foi finalmente concluída em meados de abril. Após o início da instrução dos integrantes do quadro de tripulantes que não estavam qualificados no novo helicóptero, as circunstâncias fizeram com que o 2º/10º GAV ingressasse em um período de grande atividade, mesmo contando somente com um punhado de helicópteros e sem que suas equipagens estivessem completamente prontas. Primeiro foi a busca e salvamento da tripulação e de passageiros de um Curtiss C-46A que realizara um pouso de emergência em uma das praias do litoral paulista. Em seguida, veio o resgate dos passageiros de um Douglas DC-6 da Aerolineas Argentinas que havia se acidentado nas vizinhanças da Ilha Grande (RJ), um arquipélago de mata atlântica densa e águas traiçíveis que exigiu coordenação precisa com os anfíbios SA-16A Albatross,
Não bastassem as inúmeras missões de Busca e Salvamento (SAR) já atribuídas à unidade, um dos Sikorsky H-19D Chickasaw do 2º/10º GAv foi também designado, ainda antes de setembro de 1958, para cumprir uma missão de transporte presidencial com destino à futura capital federal, Brasília. Tal emprego evidenciava não apenas a versatilidade do vetor, mas também o grau de confiança já depositado na recém-criada unidade, mesmo em sua fase inicial de consolidação. Apesar das limitações inerentes notadamente o reduzido número de aeronaves e um efetivo ainda em processo de qualificação , as crescentes demandas operacionais impuseram ao Esquadrão Pelicano um ritmo intenso de atividades desde seus primeiros meses de existência. Esse cenário contribuiu decisivamente para a rápida maturação da unidade, que, mesmo em condições incipientes, passou a desempenhar papel central nas operações de resgate da Força Aérea Brasileira (FAB). Curiosamente, os H-19D somente foram oficialmente incluídos em carga em janeiro de 1960, mais de 22 meses após sua chegada ao Brasil. Tal formalidade administrativa, contudo, não impediu sua ampla utilização operacional. Durante esse período, os helicópteros atuaram tanto em missões de caráter humanitário frequentemente descritas como “missões de misericórdia” quanto em apoio aos Grumman SA-16A Albatross, igualmente pertencentes ao esquadrão, além de participarem de inúmeras surtidas de busca e salvamento. Em virtude de concentrar um número considerável de helicópteros de médio porte, o Esquadrão Pelicano passou também a ser frequentemente requisitado para prestar apoio a organizações externas ao Ministério da Aeronáutica (MAer) , ampliando significativamente o escopo de sua atuação institucional. Entretanto, essa trajetória inicial foi marcada por um episódio trágico. Em 25 de outubro de 1960, o H-19D matriculado como FAB 8504, empregado em missão de apoio à Comissão Nacional de Energia Nuclear na região de Barra do Piraí em um período no qual o Brasil iniciava sua era nuclear sob o governo de Juscelino Kubitschek sofreu um acidente fatal ao colidir com o solo. A ocorrência resultou na perda do piloto e do mecânico, constituindo-se no primeiro e único acidente fatal envolvendo os H-19D do esquadrão. Além do impacto humano irreparável, o acidente reduziu ainda mais a já limitada disponibilidade operacional da frota, suscitando preocupações no comando da unidade e evidenciando vulnerabilidades inerentes ao emprego de motores radiais a pistão em operações prolongadas, especialmente em regiões montanhosas. Somente em junho de 1967, em reconhecimento formal ao papel desempenhado por essas aeronaves em missões de resgate, a Diretoria de Material da Aeronáutica (DIRMA) determinou a redesignação dos H-19D para SH-19, identificando-os oficialmente como helicópteros dedicados a operações de busca e salvamento. Com a frota já reduzida e diante do avanço tecnológico observado ao longo da década de 1960 marcado pela introdução de helicópteros equipados com motores a turbina, mais potentes e confiáveis , a aquisição de novas células do H-19D foi descartada. Esse processo refletia uma tendência mais ampla da aviação de asas rotativas, fortemente influenciada pelos desenvolvimentos tecnológicos associados impulsionaram a transição para uma nova geração de helicópteros, mais eficientes .
Em Escala.
Para representarmos o Sikorsky H-19D Chickasaw "FAB 8506" quando em serviço junto a 2º/10º Grupo de Aviação “Esquadrão Pelicano” , fizemos uso do antigo kit da Revell na escala 1/48 (única opção existente no mercado nesta escala). Apesar do modelo apresentar um despojamento total no detalhamento interno da cabine (o qual deve ser todo realizado em scratch), o kit traz a opção de apresentarmos aeronave com o compartimento do motor radial aberto, o que sem dúvida compensa o conjunto final. Para compormos as marcações nacionais empregamos decais diversos produzidos pela FCM Decais, as marcações seriais foram feitas usando os decais presentes em set para a escala 1/72 do mesmo fabricante Set 72/13 .
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o segundo padrão de pintura empregado nos H-19D, pois foram originalmente recebidos com as faixas de alta visibilidade na cor laranja, recebendo após as revisões em âmbito de parque as marcações em amarelo. Quando de sua transferência em 1967 para o Centro de Instrução e Emprego de Helicópteros (CIEH), estas aeronaves receberam um nova padrão de pintura totalmente em cor de metal natural, recebendo a identificação da unidade nas laterais da fuselagem em letras pretas.
Bibliografia :
- Esquadrão Pelicano 50 anos de História - Mauro Lins Barros & Oswaldo Cruz
- Aeronaves Militares Brasileiras 1916 – 2015 – Jackson Flores Jr
- Sikorsky H-19 Chicksaw - Wikipedia - https://en.wikipedia.org/wiki/Sikorsky_H-19_Chickasaw
- História da Força Aérea Brasileira – Prof Rudnei Dias Cunha
- História da Força Aérea Brasileira – Prof Rudnei Dias Cunha
- Sikorsky H-19D Na FAB, por Aparecido Camazano Alamino - Revista Asas Nº 32
