História e Desenvolvimento.
A Segunda Guerra Mundial (1939–1945) não apenas impulsionou avanços significativos em armamentos convencionais, como também desempenhou papel decisivo no surgimento da aviação de asas rotativas para fins militares. Embora o emprego de helicópteros nesse conflito tenha sido ainda limitado em razão da relativa imaturidade tecnológica e das prioridades industriais voltadas à produção em massa de aeronaves já consolidadas, os primeiros modelos desenvolvidos nesse período estabeleceram as bases para a revolução que se consolidaria no pós-guerra. Nesse contexto, a Alemanha Nazista destacou-se por conduzir as primeiras experiências práticas com o uso militar de helicópteros, explorando conceitos inovadores ainda em estágio embrionário. Paralelamente, do lado dos Aliados, o desenvolvimento de aeronaves de asas rotativas ganhou impulso sobretudo nos estágios finais do conflito, quando os avanços tecnológicos começaram a tornar viável sua aplicação operacional. Um marco fundamental nesse processo foi o desenvolvimento do R-4, projetado pela Sikorsky Aircraft Corporation. Considerado o primeiro helicóptero verdadeiramente funcional empregado em operações militares, o R-4 foi introduzido em serviço ativo nos últimos meses da guerra. Em junho de 1945, a aeronave foi destacada para o teatro de operações do Pacífico, onde, mesmo em um período relativamente curto de emprego, demonstrou de forma inequívoca o potencial transformador dos helicópteros. Sua capacidade de executar missões de resgate, transporte e reconhecimento inaugurou novas possibilidades táticas e operacionais para a aviação militar. Simultaneamente, outros fabricantes norte-americanos passaram a investir nesse promissor segmento tecnológico. Entre eles, destacou-se a Bell Aircraft Company, que, antecipando o potencial de mercado, estabeleceu em Fort Worth, no estado do Texas, uma unidade dedicada ao desenvolvimento e produção de helicópteros. Sob a liderança do engenheiro aeronáutico Arthur Young, a empresa iniciou o desenvolvimento de um projeto inovador de aeronave leve de asas rotativas. Esses esforços culminaram no Model 30, que, após um extenso programa de ensaios e testes, evoluiu para o Model 47. Este último realizou seu voo inaugural em 8 de junho de 1945, tornando-se rapidamente um dos helicópteros mais bem-sucedidos de sua geração. Suas versões militares, como o OH-13, foram incorporadas às forças armadas norte-americanas já no final da década de 1940. Dotado de capacidade para transportar um piloto e até dois passageiros, aliado a uma notável confiabilidade mecânica, o Model 47 conquistou ampla aceitação tanto no meio civil quanto governamental. Durante a década seguinte, a Bell consolidou expressivo sucesso comercial com o modelo, cuja produção ultrapassou a marca de cinco mil unidades. Esse êxito foi amplamente reforçado durante a Guerra da Coreia (1950–1953), quando o helicóptero passou a ser empregado em larga escala em missões de ligação, observação e, sobretudo, evacuação aeromédica. Nesse último papel, destacou-se pela capacidade de transportar rapidamente feridos da linha de frente para unidades médicas de campanha, consolidando o conceito de MEDEVAC (Medical Evacuation) e evidenciando, de forma definitiva, o valor operacional dos helicópteros no ambiente de combate.
Em 1952, o comando do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army) identificou a necessidade de desenvolver um novo helicóptero dedicado a missões de evacuação aeromédica, com o objetivo de superar as limitações apresentadas pelos primeiros modelos então em operação. Entre os principais requisitos estabelecidos, destacava-se a adoção de um sistema de propulsão baseado em turbina, substituindo os motores a pistão utilizados em aeronaves como o H-13 e os helicópteros de médio porte, a exemplo do UH-34. Em novembro de 1953, os parâmetros do projeto foram revisados, resultando no lançamento de uma concorrência nacional que atraiu propostas técnicas e comerciais de cerca de vinte fabricantes. Após um criterioso processo de avaliação comparativa, dois projetos foram selecionados como finalistas, sendo então contemplados com recursos governamentais para a construção de protótipos. Nesse contexto, a Bell Helicopter Company desenvolveu o modelo que viria a ser conhecido como Model 204. Seu protótipo, designado XH-40, realizou seu primeiro voo em 20 de outubro de 1956. A aeronave incorporava soluções inovadoras para a época, como o rotor principal bipá semirrígido e a utilização de um motor turboeixo Lycoming T53-L1, com potência de aproximadamente 700 shp, características que lhe conferiam desempenho superior em comparação aos helicópteros convencionais então disponíveis. Paralelamente, foi conduzido um programa comparativo envolvendo o modelo da Bell e o Kaman H-43, com o objetivo de avaliar seu desempenho operacional e adequação aos requisitos estabelecidos. Ao final desse processo, em 23 de fevereiro de 1955, o projeto da Bell foi declarado vencedor. A aeronave passou então a ser designada XH-40 pela Força Aérea dos Estados Unidos (USAF) e XHU-1 pelo Exército dos Estados Unidos (U.S. Army). Em seguida, foi firmado um contrato inicial para a construção de 03 protótipos, destinados a um programa ampliado de desenvolvimento e testes. Os resultados obtidos durante essa fase mostraram-se altamente satisfatórios, levando à encomenda de mais três aeronaves de pré-série, incorporando melhorias significativas e aperfeiçoamentos estruturais e de sistemas. Essas unidades foram entregues e avaliadas entre 1957 e 1959. O sucesso do programa culminou, em março de 1960, na assinatura do primeiro contrato de produção em série com o Exército dos Estados Unidos. O modelo recebeu a designação militar HU-1A e o nome “Iroquois”, em referência às tribos indígenas do nordeste da América do Norte. Com o tempo, contudo, a aeronave passaria a ser amplamente conhecida pelo apelido “Huey”, derivado de sua designação original. As primeiras unidades de produção começaram a ser entregues em janeiro de 1961 a diversas unidades de aviação do Exército, marcando o início do processo de substituição de modelos anteriores, como o UH-34 e o H-19D. Assim, o HU-1A Iroquois inaugurava uma nova geração de helicópteros utilitários, estabelecendo um padrão que influenciaria profundamente o emprego de aeronaves de asas rotativas em conflitos nas décadas seguintes.
As versões especializadas na missão de evacuação aeromédica designadas SHU-1A foram inicialmente alocadas a unidades de elite do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army), incluindo a 101ª Divisão Aerotransportada, a 82ª Divisão Aerotransportada e o 57º Destacamento Médico. Essas aeronaves desempenhariam um papel crucial no desenvolvimento da doutrina moderna de evacuação em combate, ao possibilitar a remoção rápida de feridos diretamente da linha de frente para instalações médicas avançadas. O primeiro emprego em um cenário real de conflito ocorreu em meados de 1964, durante as fases iniciais do envolvimento norte-americano na Guerra do Vietnã. A experiência acumulada nesse ambiente revelou, contudo, limitações importantes, especialmente no que se refere à sua potência disponível, considerada insuficiente para atender plenamente às exigências do teatro de operações, caracterizado por altas temperaturas, elevada umidade e terrenos desafiadores. Com o objetivo de superar essas restrições, foi introduzido um motor mais potente, o Lycoming T53-L-5, com 960 shp. Essa modificação deu origem à versão UH-1B, que incorporava não apenas melhorias no desempenho, mas também um aumento nas dimensões da fuselagem, permitindo ampliar sua capacidade de transporte para até sete soldados completamente equipados ou quatro macas acompanhadas por um médico. A primeira unidade de produção dessa versão foi entregue em março de 1965, sendo igualmente implementado um programa de atualização que elevou diversas células anteriores ao novo padrão. Apesar dos avanços alcançados, o processo de aperfeiçoamento da aeronave prosseguiu de forma contínua. Ainda no segundo semestre de 1965, o corpo técnico da aviação do exército apresentou ao fabricante uma série de recomendações, muitas delas decorrentes de deficiências aerodinâmicas identificadas, sobretudo nas versões adaptadas como plataformas de armas. Nesse contexto, o grupo propulsor voltou a ser objeto de aprimoramento, com a adoção do motor Lycoming T53-L-11, com 1.100 shp de potência. Paralelamente, foram introduzidas modificações estruturais significativas, incluindo um novo desenho da seção de cauda, dotado de estabilizador redesenhado, destinado a melhorar a estabilidade e a eficiência aerodinâmica, especialmente em condições de voo com elevada carga de armamentos. O aumento da potência e a adoção de um rotor de maior diâmetro exigiram ainda o desenvolvimento de uma nova lança traseira, incorporando uma aleta vertical de maior corda no pilão do rotor de cauda, bem como superfícies horizontais ampliadas e sincronizadas. Essas alterações resultaram na versão UH-1C, que apresentava desempenho superior em termos de velocidade de cruzeiro, manobrabilidade e capacidade de carga. O novo sistema de rotor contribuiu para reduzir a incidência do fenômeno de estol da pá em retirada durante manobras de alta demanda, especialmente em mergulhos, além de proporcionar maior estabilidade e controle em voo. Além das novas encomendas, o fabricante foi contemplado com contratos adicionais para a modernização de aeronaves UH-1B já existentes, elevando-as ao padrão UH-1C.Apesar da satisfação com os resultados operacionais alcançados pelas versões iniciais do Huey, os militares norte-americanos passaram a demandar uma aeronave com maior capacidade de transporte de tropas, em consonância com a evolução das doutrinas de mobilidade aérea que se consolidavam no contexto da Guerra do Vietnã. Em resposta o fabricante optou por promover uma ampliação significativa da fuselagem da versão anterior, estendendo-a em aproximadamente 104 cm. Essa modificação estrutural foi acompanhada pela adoção de portas laterais deslizantes de maiores dimensões, dotadas de duas janelas, o que facilitava o embarque e desembarque rápido de tropas. Como resultado, passou a oferecer capacidade para até 15 ocupantes, entre tripulantes e soldados equipados. O protótipo agora designado UH-1D, realizou seu voo inaugural em 16 de agosto de 1965. Em seguida, foi submetido a um abrangente programa de ensaios em voo, cujos resultados confirmaram sua adequação operacional e viabilizaram sua entrada em produção seriada. Ainda em dezembro daquele ano, foi celebrado um contrato inicial para a fabricação de 200 unidades, com as primeiras entregas ocorrendo a partir de março de 1966, destinadas às principais unidades de aviação do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army). Posteriormente, o modelo também seria incorporado pela Força Aérea dos Estados Unidos (USAF) e pelo Corpo de Fuzileiros Navais (U.S. Marine Corps), ampliando seu espectro de emprego. A partir de meados de 1967, o UH-1D passou a ser empregado em larga escala no conflito do Vietnã, com mais de três mil aeronaves destacadas para o teatro de operações, incluindo unidades operadas pela Força Aérea do Vietnã do Sul (VNAF). A experiência adquirida nesse cenário contribuiu decisivamente para a consolidação de uma nova doutrina de emprego de aeronaves de asas rotativas, abrangendo uma ampla gama de missões, como evacuação aeromédica (MEDEVAC), busca e salvamento (SAR), assalto aéreo, transporte de tropas, apoio aéreo aproximado, comando e controle, além de transporte logístico. Entretanto, foi sobretudo como plataforma de ataque e apoio aproximado que o UH-1D se notabilizou, desempenhando um papel central na introdução e difusão desse conceito no campo de batalha moderno. Para tal, a aeronave passou a ser equipada com um variado conjunto de armamentos, incluindo metralhadoras laterais M-60D, instaladas nas portas, metralhadoras frontais montadas em casulos M-59, canhões de 20 mm, lançadores de foguetes não guiados de 70 mm ou 40 mm, além de sistemas de mísseis ar terra guiados por fio, como os modelos M-11 e M-22. Nessa configuração, os helicópteros eram empregados, sobretudo, em missões de escolta armada, abrindo caminho e protegendo o desembarque de tropas aerotransportadas em zonas hostis. Esse perfil operacional acabaria por imortalizar o Huey no imaginário coletivo, sendo amplamente retratado em produções cinematográficas e televisivas nas décadas seguintes, tornando-se um dos símbolos mais emblemáticos da Guerra do Vietnã.

Apesar de sua extensa lista de qualidades e dos expressivos êxitos operacionais, o UH-1D ainda apresentava limitações relacionadas à potência disponível, fator que continuava a impactar seu desempenho, especialmente em condições ambientais adversas e em missões que exigiam elevada carga útil. Novamente estudos seriam conduzidos pela equipe de engenharia, resultando na adoção do novo modelo um novo modelo de motor, o Lycoming T53-L-13 (LTC1K-4) que passava a oferecer 1.400 shp de potência ao helicóptero. Neste mesmo processo, o tubo de pitot seria transferido do nariz da aeronave para o teto da cabine, no intuito de se evitar danos durante as operações de pouso em terrenos de difícil acesso. Estas mudanças gerariam uma nova versão, que passaria a ser designada como UH-1H, que além de apresentar maior potência, passava a dispor maior capacidade de transporte de carga útil. Neste momento a existência de muitas células da versão do UH-1D em carga nas forças armadas norte-americanas, seria criado um programa de modernização elevando assim todas as aeronaves para o modelo UH-1H. Até o ano de 1987, seriam produzidas mais de 16.000 células dispostas desta família de aeronaves, dispostas em várias versões, incluindo aeronaves montadas sob licença pelas empresas italiana Augusta Spa., alemã Dornier Flugzeugwerke e japonea Fuji Heavy Co. Apesar da excelente e longa folha de serviços, em meados da década de 1970 seria lançado pelo comando do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army), o programa “Sistema de Aeronave de Tático Utilitário e Transporte UTTAS”, que visava desenvolver um substituto, que culminaria na criação do projeto Sikorsky S-70A . Estes novos helicópteros passariam a ser entregues na primeira metade da década de 1980, gerando assim uma grande quantidade de aeronaves excedentes do modelo Bell UH-1H, que passariam a ser disponibilizadas em programa de ajuda militar a diversos países como Argentina, Brasil, Alemanha, El Salvador, Israel, Líbano, Nova Zelândia, Filipinas, Rodésia, Espanha, Portugal e Yemen. Já no início do ano de 1989, o Exército dos Estados Unidos (US Army), daria início ao processo de retirada destas aeronaves das unidades de primeira linha, transferindo cerca de setecentas células para o emprego em tarefas de treinamento. Com os Bel UH-1H se mantendo em operação neste escopo de missão até o início do ano de 2005, quando foram substituídos pelos Eurocopeter UH-72 Lakota. Junto a Força Aérea dos Estados Unidos (USAF) o modelo se manteria em operação até meados do ano de 2016 sendo totalmente substituídos pelos novos UH-60L Blackhawk. Atualmente somente o Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos (USMC), mantém em operação, algumas centenas de células da versão UH-1N. Muitas aeronaves do modelo UH-1H ainda se encontram em operação ao redor do mundo, porém dificilmente deverão estar se manter em uso ainda nos primeiros anos da década de 2030.
Emprego na Força Aérea Brasileira.
No contexto do processo de modernização da Força Aérea Brasileira (FAB) no início da década de 1950, o Ministério da Aeronáutica (MAer) deu início, no final de 1951, a um programa estratégico voltado à aquisição de aeronaves de asas rotativas, marcando um avanço significativo na incorporação de novas tecnologias às operações aéreas militares no país. Após criteriosa avaliação técnica, a escolha recaiu sobre o modelo Bell 47D1, fabricado pela Bell Helicopter Company, à época uma das principais referências mundiais no desenvolvimento de helicópteros. Equipado com o motor Franklin O-335, de 178 cavalos de potência, o Bell 47D1 representava um dos mais avançados helicópteros disponíveis naquele período, sendo amplamente empregado pelas forças armadas dos Estados Unidos. Após sua aquisição, as aeronaves foram desmontadas e transportadas por via marítima ao Brasil, chegando ao porto do Rio de Janeiro nos primeiros dias de 1953. Embora constituíssem uma frota reduzida, esses helicópteros passaram a ser intensamente utilizados em uma ampla gama de missões, incluindo transporte leve, apoio logístico e, sobretudo, operações de busca e salvamento. Nesse contexto, destacava-se sua capacidade de operar em ambiente marítimo, graças à possibilidade de instalação de kits de flutuação, ampliando significativamente seu espectro de emprego. A introdução dessas aeronaves representou o embrião doutrinário para o desenvolvimento das missões de busca e salvamento (SAR). Tal iniciativa estava diretamente relacionada aos compromissos internacionais assumidos pelo Brasil em 1944, ao aderir à “Convenção sobre Aviação Civil Internacional”, que estabelecia a obrigatoriedade de os países signatários manterem uma estrutura eficiente de busca e salvamento, capaz de cobrir suas áreas de responsabilidade, tanto em território continental quanto em zonas marítimas. Em atendimento a essas diretrizes, o Ministério da Aeronáutica (MAer) havia criado, em 16 de novembro de 1950, o Serviço de Busca e Salvamento, responsável por coordenar e executar operações dessa natureza em âmbito nacional. Como parte de sua estrutura inicial, foram incorporadas aeronaves de grande alcance e comprovada capacidade operacional, como os quadrimotores SB-17G e os anfíbios bimotores PBY-5A Catalina, ambos adequados a missões de longa duração sobre o mar. Todavia, apesar de sua autonomia e robustez, essas aeronaves não eram capazes de suprir plenamente todas as demandas operacionais inerentes às missões SAR, especialmente no que se refere à recuperação direta de sobreviventes em áreas de difícil acesso. Nesse sentido, tornava-se evidente a necessidade de incorporar aeronaves de asas rotativas. Os primeiros passos formais para a estruturação dessa capacidade ocorreram em setembro de 1957, com a criação de um grupo de trabalho encarregado de estudar a ativação e a organização de um esquadrão especializado em busca e salvamento. Para tanto, foram analisados modelos organizacionais e doutrinários adotados por outros países, permitindo estabelecer as bases de uma estrutura moderna e eficiente, alinhada às melhores práticas internacionais no campo das operações SAR.
Para atender a essa demanda emergente, foram conduzidos, a partir de 1956, estudos voltados à seleção e aquisição de um pequeno lote de helicópteros especificamente destinados às missões de Busca e Salvamento (SAR). Os requisitos estabelecidos previam aeronaves de maior porte, dotadas de robustez e capacidade para operar em condições adversas, incluindo resgates em áreas remotas e operações sobre o mar. Nesse contexto, diversos modelos disponíveis no excedente militar norte-americano foram avaliados sob critérios rigorosos de custo-benefício, abrangendo não apenas a aquisição, mas também a operação e manutenção. Após análises criteriosas, a escolha recaiu sobre o Sikorsky H-19D, cuja incorporação representou um avanço significativo na consolidação da capacidade SAR. Paralelamente, foi criada uma unidade especializada nesse tipo de missão, o 2º/10º Grupo de Aviação - Esquadrão Pelicano, sediado na Base Aérea de São Paulo (BASP). Ao longo dos anos seguintes, os H-19D desempenharam papel central na estruturação e no amadurecimento da doutrina operacional de busca e salvamento no Brasil, estabelecendo procedimentos e práticas que se tornariam referência. Entretanto, o número reduzido de aeronaves disponível, aliado ao seu emprego intensivo, rapidamente resultou em elevado desgaste das células, impactando negativamente a disponibilidade operacional do esquadrão. Esse cenário evidenciou a necessidade de, em curto prazo, incorporar um novo vetor de asas rotativas, mais moderno e com maior capacidade operacional. Paralelamente, o Ministério da Aeronáutica (MAer) passou a desenvolver estudos mais abrangentes visando à aquisição de helicópteros capazes de atender a múltiplas funções, incluindo transporte de tropas, ligação, apoio e, eventualmente, missões de ataque. Nesse contexto, em meados da década de 1960, a Diretoria de Material da Aeronáutica (DIRMA) lançou uma concorrência internacional para a aquisição de um helicóptero de médio porte, estabelecendo como requisito essencial a utilização de motores turboeixo, em consonância com os avanços tecnológicos da época. Diversas propostas foram apresentadas, destacando-se a da Bell Helicopter Company, que oferecia o modelo 205, na sua versão militar mais avançada, o UH-1D Huey. A proposta norte-americana apresentava não apenas vantagens técnicas, mas também condições favoráveis de financiamento e um pacote logístico considerado altamente competitivo. As negociações evoluíram de forma célere, culminando, em maio de 1964, na assinatura do contrato para a aquisição de seis aeronaves novas de fábrica, especialmente configuradas para missões de busca e salvamento (SAR) e evacuação aeromédica (MEDEVAC). As entregas tiveram início em 1967, quando os helicópteros foram incorporados à Força Aérea Brasileira (FAB) sob a designação SH-1D, recebendo as matrículas FAB 8530 a 8535. Destinadas ao Esquadrão Pelicano, essas aeronaves representaram um salto qualitativo significativo na capacidade operacional, introduzindo um vetor moderno, versátil e de elevado desempenho, capaz de atender de forma mais eficiente às crescentes demandas das missões de busca e salvamento em território nacional.
Esses helicópteros foram recebidos ostentando um esquema de pintura de alta visibilidade, em conformidade com os padrões internacionais adotados para missões de busca e salvamento, o que favorecia sua identificação em operações reais, especialmente em ambientes marítimos ou de difícil acesso. A incorporação desses novos vetores permitiu promover uma importante reorganização de seus meios, realocando as aeronaves remanescentes dos modelos H-13D, H-13H e H-19D para o recém-criado Centro de Instrução e Emprego de Helicópteros (CIEH), sediado na cidade de Santos (SP), destinado à formação e ao aprimoramento de tripulações. A entrada em operação dos SH-1D, a partir de meados de 1967, representou um marco na aviação de asas rotativas, por se tratar das primeiras aeronaves equipadas com motores turboeixo a integrar sua frota. Essa nova geração oferecia ganhos substanciais em desempenho, confiabilidade e autonomia, além de incorporar aviônicos e sistemas de comunicação significativamente mais avançados em comparação aos modelos anteriores. Nesse contexto, destacou-se o binômio operacional formado pelas aeronaves anfíbias SA-16 Albatross e pelos helicópteros SH-1D Huey, cuja atuação conjunta se tornaria emblemática . O 2º/10º GAv assumiria protagonismo em uma das mais complexas operações SAR já realizadas no Brasil, desencadeada após o desaparecimento de uma aeronave Douglas C-47, matrícula FAB 2068, ocorrido em 17 de junho de 1967, na região amazônica. A bordo encontravam-se 24 ocupantes, entre tripulantes, militares e civis. Diante da gravidade da ocorrência, foi mobilizada uma estrutura logística de grandes proporções, envolvendo o emprego integral dos meios do Esquadrão Pelicano, além da participação de outras 33 aeronaves pertencentes a diferentes unidades. Essa operação destacou-se pela sua extensão, intensidade e complexidade, sendo frequentemente citada como uma das mais amplas missões de busca e salvamento conduzidas no mundo ao longo do século XX. Após onze dias de buscas ininterruptas, em 26 de junho de 1967, a tripulação de um Grumman SA-16 Albatross (FAB 6539) localizou os destroços da aeronave em uma área de floresta densa, nas proximidades do rio Juruá, no estado do Acre. Imediatamente, foi acionado o Esquadrão Aeroterrestre de Salvamento (EAS), conhecido como PARA-SAR, unidade de elite criada em 1963 e especializada em operações em ambientes extremos, incluindo saltos em selva. Os militares foram transportados até a área do acidente por um helicóptero SH-1D FAB 8530, realizando o acesso aos destroços em condições extremamente adversas. No local, os paraquedistas prestaram socorro imediato às vítimas, conduzindo a evacuação dos sobreviventes por meio de técnicas de içamento aéreo e progressão terrestre em meio à mata fechada. Apesar dos esforços empreendidos, apenas 05 sobreviventes foram encontrados. Em reconhecimento à relevância histórica dessa operação e ao papel desempenhado pelas unidades envolvidas, o dia 26 de junho foi posteriormente instituído como o Dia da Aviação de Busca e Salvamento no Brasil, simbolizando o compromisso permanente com a preservação da vida humana em quaisquer circunstâncias.Na primeira metade da década de 1970, os helicópteros Bell SH-1D Huey assumiram um papel central no processo de modernização operacional da aviação de asas rotativas no país. Nesse período, consolidaram-se como a principal plataforma na introdução e desenvolvimento da doutrina de Combate – Busca e Salvamento (C-SAR, Combat Search and Rescue), representando um avanço significativo na capacidade de atuação em cenários de risco elevado. Tal protagonismo decorreu do fato de esses helicópteros constituírem, à época, os únicos vetores rotativos no inventário nacional com capacidade de operar armados. Para tanto, foram configurados em um arranjo híbrido, incorporando metralhadoras M60 de 7,62 mm, instaladas tanto em montagens laterais quanto frontais, além de lançadores de foguetes não guiados de 2,75 polegadas. Essa configuração proporcionava às tripulações uma capacidade inédita de autodefesa, ampliando significativamente as condições de sobrevivência em ambientes hostis e permitindo a execução de missões de resgate em áreas potencialmente sob ameaça conceito diretamente influenciado pelas experiências operacionais da Guerra do Vietnã. A partir de 1970, observou-se a ampliação da frota com a incorporação de novas células, possibilitando a disseminação da doutrina C-SAR em diferentes regiões do país. Esse movimento culminou na criação dos Esquadrões Mistos de Reconhecimento e Ataque (EMRA), unidades concebidas para operar de forma multifuncional, integrando missões de apoio aéreo aproximado, reconhecimento armado e salvamento em combate. Como desdobramento desse processo, foram ativadas diversas unidades ao longo da década de 1970 e início dos anos 1980, entre as quais s o 1º/8º Grupo de Aviação – Esquadrão “Falcão” (1975, em Belém-PA), o 2º/8º GAv – Esquadrão “Poti” (1976, em Natal-RN), o 3º/8º GAv – Esquadrão “Puma” (1978, em Santa Maria-RS), o 5º/8º GAv – Esquadrão “Pantera” (1980, em Santa Cruz-RJ) e o 7º/8º GAv – Esquadrão “Harpia” (1982, em Manaus-AM). Equipadas inicialmente com células armadas, essas unidades simbolizaram o amadurecimento como uma força capaz de atuar em cenários de maior complexidade e intensidade, sem abdicar de sua tradicional vocação humanitária. Paralelamente ao emprego tático-militar, essas aeronaves também construíram um histórico expressivo em missões de caráter humanitário e de apoio à população civil. Destaca-se, nesse contexto, a participação brasileira nas operações de socorro às vítimas do terremoto de Ancash, no Peru, em maio de 1970. Nos anos seguintes, entre 1971 e 1973, os helicópteros foram amplamente empregados no apoio às populações atingidas por enchentes de grandes proporções nas cidades de Tubarão e Florianópolis, no estado de Santa Catarina. Décadas mais tarde, em setembro de 1989, essas aeronaves voltariam a desempenhar papel relevante em operações de busca, como no caso do voo RG-254, um Boeing 737-200 da Varig que sofreu um acidente na região amazônica, nas proximidades de São José do Xingu (MT). Dessa forma, ao longo de sua trajetória, o SH-1D Huey não apenas introduziu novos paradigmas operacionais no campo militar, como também se consolidou como um instrumento essencial na preservação de vidas, tanto em cenários de conflito quanto em situações de emergência humanitária.

Na execução de suas atribuições, o Esquadrão Pelicano manteve seus helicópteros SH-1D em regime permanente de prontidão, operando ininterruptamente, 24 horas por dia, 07 dias por semana. Essa capacidade de resposta imediata com decolagens realizadas em questão de minutos. Tal princípio seria sintetizado no lema “Para que outros possam viver”, adotado oficialmente pelo PARA-SAR em 1968, e que se consolidaria como o verdadeiro ethos da aviação de busca e salvamento no Brasil. Esse compromisso seria dramaticamente evidenciado em dois dos mais marcantes desastres urbanos do século XX na cidade de São Paulo: os incêndios dos edifícios Andraus, em 24 de fevereiro de 1972, e Joelma, em 1º de fevereiro de 1974. No caso do Andraus, um arranha-céu de 32 andares localizado na região central, o ifogo teve início em um dos pavimentos inferiores e rapidamente se propagou, aprisionando centenas de pessoas nos andares superiores. Diante da gravidade da situação, os helicópteros SH-1D realizaram sucessivas e arriscadas aproximações a um heliponto improvisado no topo da edificação, conseguindo resgatar 65 pessoas diretamente do terraço em meio às chamas. Dois anos mais tarde, no incêndio do Edifício Joelma, a tragédia assumiria proporções ainda mais severas, resultando em 179 vítimas fatais e mais de 300 feridos. Novamente, os helicópteros desempenharam papel decisivo, sendo praticamente os únicos meios capazes de acessar o topo do prédio. Em condições extremamente adversas, marcadas por intensa fumaça e calor, as tripulações conseguiram resgatar 44 pessoas, em uma operação que se tornaria símbolo da coragem e da eficiência da aviação de salvamento brasileira. No âmbito da modernização da frota, o ano de 1972 marcou a incorporação de 32 células usadas do modelo UH-1H. Com o objetivo de otimizar a distribuição dos meios aéreos, o 4º Esquadrão Misto de Reconhecimento e Ataque (EMRA), sediado em Santa Maria (RS), transferiu suas aeronaves SH-1D para o 5º EMRA. Essa decisão foi fundamentada em critérios ambientais, uma vez que o motor Lycoming T53-L-11 apresentava melhor desempenho em regiões de clima frio e ventoso, como o sul, enquanto o T53-L-13, do UH-1H, mostrava-se mais adequado a ambientes quentes e úmidos. A partir de 1973, teve início um abrangente programa nacional de modernização das células remanescentes dos modelos SH-1D e UH-1D, com o objetivo de elevá-las ao padrão UH-1H. Coordenado pelo Parque de Material Aeronáutico de Lagoa Santa (PAMA-LS), esse esforço envolveu a substituição dos motores originais pelo T53-L-13B, com 1.400 shp, além da atualização dos sistemas aviônicos, incluindo a incorporação de rádios táticos VHF/FM, equipamentos de navegação VOR/ILS e instrumentos de voo (IFR). Foram realizados reforços estruturais nos sistemas de rotor principal e transmissão, ampliando a durabilidade das aeronaves sob condições de uso intensivo. Concluído em meados da década de 1980, esse programa permitiu estender a vida útil, permanecendo em serviço ativo por mais de duas décadas adicionais. As últimas células modernizadas continuaram em operação até o final da década de 1990, quando passaram gradualmente a ser substituídas por novos exemplares do UH-1H, adquiridos diretamente dos estoques norte-americanos.
Em Escala.
Para representarmos o Bell SH-1D Huey "FAB 8531” pertencente ao 2º/10º Grupo de Aviação – Esquadrão Pelicano, fizemos uso do antigo kit AMT, na escala 1/48 na versão “MEDVAC" (socorro médico). Este modelo já apresenta um completo detalhamento interior, compatível com os opcionais constantes nas aeronaves recebidas pela Forca Aérea Brasileira (FAB). Empregamos decais confeccionados pela FCM Decals presentes no set 72/13 (somente matriculas) e decais oriundos de diversos outros sets.
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o terceiro padrão de pintura empregado, pelas aeronaves pertencentes ao 2º/10º Grupo de Aviação – Esquadrão Pelicano, o primeiro padrão não portava faixas de alta visibilidade, sendo as mesmas acrescidas na cor amarela e posteriormente em laranja. Um novo padrão seria implementado logo após a conversão para a versão Bell UH-1H empregando as cores branca e laranja, mais tarde estas aeronaves adotariam o padrão de camuflagem tática norte-americano “Sudeste Asiático”.
Bibliografia:
- Bell UH-1D/H Wikipédia - https://en.wikipedia.org/wiki/Bell_UH-1_Iroquois
- 2º/10º GAV Esquadrão Pelicano 50 anos, por Mauro Lins de Barros e Oswaldo Claro Junior
- Aeronaves Militares Brasileiras 1916 – 2015, por Jacson Flores Jr
- História da Força Aérea Brasileira por, Prof. Rudnei Dias Cunha - http://www.rudnei.cunha.nom.br/FAB/index.html





