História e Desenvolvimento.
As embarcações de desembarque do tipo Landing Craft, Vehicle, Personnel (LCVP), amplamente conhecidas como “Higgins Boats”, desempenharam um papel indispensável nas operações anfíbias aliadas durante a Segunda Guerra Mundial (1939–1945). Projetadas para transportar tropas e equipamentos diretamente às praias sem a necessidade de infraestrutura portuária, essas embarcações tornaram-se elementos fundamentais em grandes operações anfíbias, como o Dia D, parte da Operação Overlord (6 de junho de 1944), bem como nas campanhas do Pacífico, incluindo as batalhas de Batalha de Guadalcanal, Batalha de Tarawa e Batalha de Iwo Jima. O desenvolvimento do LCVP, liderado pelo engenheiro naval norte-americano Andrew Jackson Higgins, representou um avanço significativo na doutrina de guerra anfíbia. Sua criação consolidou a capacidade dos Aliados de projetar poder militar diretamente sobre territórios hostis, permitindo o desembarque rápido de tropas, veículos e suprimentos em praias desprovidas de instalações portuárias. O conceito que daria origem ao LCVP remonta à década de 1920, quando Higgins desenvolveu o barco Eureka, uma embarcação concebida inicialmente para uso civil. Empreendedor estabelecido em Nova Orleans, no estado da Luisiana, Higgins fundaria posteriormente a Higgins Industries, na década de 1930. A empresa dedicava-se inicialmente à construção de embarcações de calado raso destinadas a pescadores, caçadores e operadores da indústria petrolífera que atuavam na região do Golfo do México e ao longo do Rio Mississippi. Lançado em 1926, o Eureka apresentava soluções técnicas inovadoras para navegação em águas rasas. Seu projeto incorporava uma hélice protegida por um semi túnel no casco, permitindo que a embarcação operasse em áreas repletas de obstáculos submersos como troncos, raízes e bancos de areia sem comprometer o sistema de propulsão. Além disso, o casco possuía um arco característico em formato de “spoonbill bow”, ou “proa em colhereiro”, que facilitava o acesso às margens de rios e permitia que a embarcação se aproximasse de áreas rasas e recuasse sem risco de encalhe. Essas características técnicas, inicialmente pensadas para uso civil, revelaram-se posteriormente ideais para operações militares de desembarque. Alguns historiadores sugerem que Higgins também vislumbrava comercializar o Eureka para contrabandistas que atuavam durante a Lei Seca nos Estados Unidos (1920–1933). A capacidade da embarcação de operar em águas rasas e de difícil acesso tornava-a particularmente adequada para escapar da fiscalização das autoridades federais. Contudo, a revogação da Lei Seca em 1933 inviabilizou essa possibilidade comercial. Diante desse cenário, a Higgins Industries redirecionou suas atividades para o mercado civil, passando a produzir lanchas, rebocadores e barcaças destinadas a clientes privados e também à Guarda Costeira dos Estados Unidos. Apesar desse revés inicial, a experiência acumulada por Higgins no desenvolvimento de embarcações leves, robustas e altamente versáteis acabaria abrindo novas oportunidades no setor militar. Ao longo da década de 1930, o Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos (USMC) intensificou seus esforços para desenvolver uma doutrina anfíbia eficaz, motivado pela necessidade de realizar desembarques em praias hostis em futuros conflitos no Pacífico. Paralelamente, o Departamento de Construção e Reparação da Marinha — o Bureau of Construction and Repair conduziu uma série de experimentos com diferentes protótipos de embarcações de desembarque. Entretanto, os modelos inicialmente avaliados não conseguiram atender plenamente às exigências operacionais estabelecidas pela Marinha dos Estados Unidos (U.S. Navy).
Foi nesse contexto que, em maio de 1938, o projeto Eureka de Andrew Higgins chamou a atenção dos oficiais da marinha , graças às suas características técnicas incomuns e à sua comprovada capacidade de operar em ambientes fluviais e costeiros extremamente restritos. Impressionada com o desempenho da embarcação, a marinha norte-americana convidou Higgins a apresentar oficialmente seu projeto, iniciando assim uma colaboração que levaria ao desenvolvimento da embarcação de desembarque que se tornaria uma das mais importantes da história das operações anfíbias modernas. Em janeiro de 1939, testes operacionais conduzidos pelos militares norte-americanos demonstraram claramente a superioridade do projeto Eureka em relação aos modelos experimentais desenvolvidos pela Marinha dos Estados Unidos (U.S. Navy). Em decorrência desses resultados, a embarcação foi oficialmente redesignada como Landing Craft, Personnel (LCP) e aprovada para produção em série, com as primeiras unidades sendo entregues ao Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos (USMC) no início de 1940. Apesar da aprovação do modelo agora denominado Landing Craft Personnel (LCP) persistia uma importante limitação operacional relacionada ao processo de desembarque. As tropas e equipamentos precisavam sair da embarcação pelos lados do casco, o que, em uma situação de combate, expunha os soldados ao fogo inimigo durante a aproximação da praia. Além disso, esse método tornava o desembarque mais lento e operacionalmente complexo. Ainda assim, naquele momento, o LCP representava o melhor projeto de embarcação de desembarque disponível, razão pela qual foi decidido colocá-lo imediatamente em produção, com as primeiras unidades sendo entregues à marinha norte-americana no início de 1940. Com o início da Segunda Guerra Mundial, o Reino Unido enfrentou sérias dificuldades para conduzir operações anfíbias contra as forças do Eixo. A situação tornou-se ainda mais evidente após a Evacuação de Dunquerque, em maio de 1940, episódio que expôs a carência britânica de embarcações especializadas capazes de realizar desembarques rápidos e táticos em praias hostis. Nesse contexto, foram criados os Comandos Britânicos, unidades de elite formadas em 1940 por iniciativa do primeiro-ministro Winston Churchill. Essas forças foram concebidas para executar incursões rápidas, sabotagens e ataques costeiros contra alvos alemães na Europa ocupada. Para cumprir tais missões, tornava-se essencial dispor de embarcações leves, rápidas e capazes de operar diretamente em praias fortificadas sob fogo inimigo características que os LCP possuíam em grande medida. A partir de 1941, no âmbito do Lend-Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos), os Estados Unidos passaram a fornecer centenas dessas embarcações ao Reino Unido. No serviço britânico, os LCP foram redesignados como R-Boats (Raiding Craft) e incorporados às forças da Royal Navy e às unidades de comandos, sendo empregados em diversas operações especiais de alto risco ao longo do litoral europeu ocupado. O aperfeiçoamento definitivo do projeto surgiria a partir da observação de um conceito já utilizado por forças japonesas. Durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa (1937–1945), o Exército Imperial Japonês empregava embarcações de desembarque dotadas de rampas frontais, permitindo que tropas e equipamentos desembarcassem diretamente na praia com maior rapidez e segurança.

Essas embarcações foram cuidadosamente estudadas por observadores militares norte-americanos estacionados em Xangai, entre eles o então tenente-coronel Victor H. Krulak, que produziu relatórios detalhados acompanhados de documentação fotográfica sobre o conceito empregado pelos japoneses. Esses relatórios foram posteriormente apresentados a Andrew Jackson Higgins, que imediatamente determinou à sua equipe de engenharia que adaptasse o conceito ao casco do Eureka. O resultado desse trabalho foi a criação de um novo protótipo dotado de uma rampa frontal metálica basculante. Essa solução permitia que a embarcação encalhasse diretamente na praia, abrindo a rampa para o desembarque imediato das tropas. A inovação transformaria o antigo LCP no Landing Craft, Vehicle, Personnel (LCVP), modelo que se tornaria uma das mais importantes embarcações de desembarque da guerra. A introdução da rampa frontal reduziu significativamente o tempo de desembarque e diminuiu a exposição das tropas ao fogo inimigo, revolucionando as operações anfíbias modernas. Fazendo uso de recursos próprios, Andrew Jackson Higgins determinou a construção de três embarcações experimentais, que seriam posteriormente cedidas aos fuzileiros navais em maio de 1941. Esses protótipos foram submetidos a intensivos testes operacionais no Lago Pontchartrain, no estado da Louisiana, com o programa sendo acompanhado de perto por oficiais do Bureau of Ships, órgão responsável pela construção naval. Durante os ensaios, foram realizadas simulações completas de operações anfíbias, envolvendo o embarque e desembarque de trinta e seis funcionários da empresa representando tropas além de cargas e veículos leves. Os resultados obtidos foram considerados extremamente satisfatórios, demonstrando a eficiência do novo conceito. Como consequência direta, foi celebrado o primeiro de muitos contratos de produção em série. A embarcação recebeu então a designação oficial de Landing Craft, Vehicle, Personnel (LCVP) ou Embarcação de Desembarque de Veículo e Pessoal passando posteriormente a ser popularmente conhecida como “Higgins Boat”. A produção em série teve início em fevereiro de 1942 nas instalações da Higgins Industries, localizadas na cidade de Nova Orleans. Com pouco mais de onze metros de comprimento e menos de três metros e meio de largura, o LCVP – Higgins Boat não era uma embarcação de grande porte. Seu projeto, contudo, apresentava soluções engenhosas. As estruturas laterais e traseiras eram compostas por uma combinação de metal e placas de madeira compensada, solução que proporcionava certo nível de proteção contra o fogo inimigo ao mesmo tempo em que reduzia o consumo de aço um recurso estratégico durante a Segunda Guerra Mundial contribuindo também para diminuir os custos de produção. A embarcação era propulsionada por um motor a diesel Gray Marine 671, com cerca de 71 cavalos de potência, uma versão navalizada do Detroit Diesel 6-71, produzido pela General Motors. Esse conjunto permitia ao LCVP atingir velocidades de aproximadamente 12 nós. Entretanto, quando operava em mar agitado, a embarcação apresentava forte balanço lateral, o que frequentemente causava enjoo entre os tripulantes e soldados transportados, mesmo em deslocamentos relativamente curtos. Seu calado extremamente reduzido cerca de três pés na popa e dois pés e duas polegadas na proa permitia que a embarcação avançasse diretamente sobre a praia. Um semi-túnel integrado ao casco, localizado na parte traseira, protegia a hélice contra o contato com areia, detritos e obstáculos submersos. Na parte frontal, uma rampa metálica basculante podia ser rapidamente baixada, permitindo o desembarque imediato das tropas e equipamentos.
Esse sistema tornava possível uma operação extremamente eficiente: o LCVP podia desembarcar rapidamente homens e suprimentos, recuar da praia e retornar ao navio-mãe para novo carregamento em um intervalo de apenas três a quatro minutos. Em termos de capacidade, a embarcação podia operar em três configurações principais de transporte: um pelotão completo de trinta e seis soldados totalmente equipados; aproximadamente três toneladas e meia de carga; ou uma combinação de doze soldados e um jipe Willys MB ou Ford GPW. Apesar de sua eficiência operacional, a experiência em combate revelou limitações importantes. A proteção oferecida pela estrutura do barco era relativamente limitada, o que resultou em numerosas baixas entre os fuzileiros durante operações de desembarque sob fogo inimigo. Além disso, outras falhas conceituais de projeto foram identificadas, como a dificuldade da embarcação em operar com eficiência em áreas de águas extremamente rasas ou sobre recifes de coral. Seu batismo de fogo se daria em fevereiro de 1942, durante a realização da Operação Biting, também conhecida como Raide de Bruneval, os comandos britânicos, apoiados pela Royal Navy, realizaram uma incursão na costa norte da França para capturar componentes de um radar alemão Würzburg em Bruneval. Os LCVP foram empregados para transportar o 2º Batalhão de Paraquedistas e elementos do Comando nº 1 até a praia, permitindo um desembarque rápido e discreto. Após a captura do equipamento e a coleta de informações de inteligência, os comandos foram evacuados pelos mesmos LCVP, demonstrando a capacidade das embarcações de operar em missões de infiltração e extração sob pressão. O primeiro grande teste dos “Higgins Boats” em combate ocorreu durante a Operação Watchtower, a invasão de Guadalcanal, nas Ilhas Salomão, em 7 de agosto de 1942. Essa foi a primeira ofensiva anfíbia em larga escala liderada pelos Estados Unidos contra o Império do Japão, marcando o início da campanha do Pacífico. Aproximadamente 19.000 fuzileiros navais da 1ª Divisão de Fuzileiros Navais (USMC) foram transportados para as praias de Guadalcanal e da vizinha Tulagi, utilizando cerca de 100 LCVP, além de outras embarcações anfíbias, como os Landing Craft, Mechanized (LCM). Os “Higgins Boats” enfrentaram condições desafiadoras, incluindo recifes de coral, correntes fortes e fogo de metralhadoras e artilharia japonesa. Apesar disso, sua capacidade de desembarcar tropas rapidamente diretamente na praia foi crucial para estabelecer cabeças de praia. Em Guadalcanal, os LCVP transportaram fuzileiros e equipamentos leves, como morteiros e suprimentos, permitindo que as forças americanas superassem as defesas iniciais japonesas. A operação, que durou até fevereiro de 1943, resultou na captura do estratégico aeródromo de Henderson Field, com os LCVP desempenhando um papel vital na logística de desembarque e reabastecimento. Vale ainda destaque para seu emprego em 19 de agosto de 1942 pelo comandos britânicos no "Raide de Dieppe", uma operação anfíbia de maior escala, envolvendo principalmente forças canadenses, mas com participação significativa dos comandos britânicos. Os LCVP foram utilizados para desembarcar tropas dos Comandos nº 3 e nº 4 em praias laterais, com o objetivo de neutralizar baterias costeiras alemãs. Embora a operação tenha sido um fracasso estratégico, com cerca de 60% das 6.000 tropas aliadas mortas, feridas ou capturadas, os “Higgins Boats” provaram sua capacidade de transportar tropas rapidamente sob fogo intenso. As lições aprendidas em Dieppe, incluindo a necessidade de melhor coordenação e suporte aéreo, foram cruciais para o planejamento do Dia D.

No Teatro do Mediterrâneo, os Landing Craft, Vehicle, Personnel (LCVP) foram empregados por forças norte-americanas e britânicas durante a Operação Torch, realizada em novembro de 1942. Essa operação marcou a invasão aliada do Marrocos e da Argélia, territórios então controlados pelo regime da França de Vichy. Cerca de duzentos LCVP participaram dos desembarques iniciais, transportando tropas aliadas para praias próximas às cidades de Casablanca, Orã e Argel, frequentemente enfrentando condições marítimas adversas e a resistência das defesas costeiras locais. Nessas circunstâncias, a capacidade dos chamados “Higgins Boats” de operar em águas rasas e aproximar-se diretamente da praia revelou-se fundamental para o sucesso das primeiras fases da operação. Os LCVP, amplamente conhecidos como Higgins Boats, desempenhariam também um papel decisivo na Operação Overlord, a grande invasão aliada da Normandia, realizada em 6 de junho de 1944, data que ficaria conhecida como Dia D. Aproximadamente 1.500 embarcações desse tipo foram empregadas ao longo das cinco praias de desembarque Utah Beach, Omaha Beach, Gold Beach, Juno Beach e Sword Beach executando diversas funções operacionais, desde o transporte das primeiras ondas de tropas de assalto até o desembarque contínuo de equipamentos, munições e suprimentos. Estima-se que cada LCVP tenha realizado entre duas e quatro viagens durante as primeiras doze horas da operação, dependendo das condições marítimas com ondas que chegavam a aproximadamente 1,5 metro de altura e ventos próximos de 20 nós além da intensidade do fogo inimigo. Com base nesses fatores, historiadores calculam que os LCVP foram responsáveis por desembarcar entre 50.000 e 70.000 soldados durante o Dia D, representando cerca de 30% a 45% dos aproximadamente 156.000 militares aliados que chegaram às praias da Normandia nas primeiras 24 horas da operação. No Teatro do Pacífico, os LCVPs também desempenharam papel fundamental nas campanhas anfíbias conduzidas pelos Aliados contra o Império do Japão. Seu primeiro grande emprego operacional ocorreu durante a Campanha de Guadalcanal, iniciada em agosto de 1942. Posteriormente, essas embarcações participaram de diversas outras operações anfíbias de grande escala, incluindo as batalhas de Batalha de Tarawa, Campanha das Filipinas, Batalha de Iwo Jima e Batalha de Okinawa. O comandante supremo das forças aliadas na Europa, Dwight D. Eisenhower, chegou a declarar que o Higgins Boat foi um dos equipamentos mais decisivos para a vitória aliada nos diversos teatros de operações da guerra desde o Norte da África e a Itália até a Europa Ocidental e o Pacífico. Até o início de 1945, mais de 23.500 embarcações do tipo LCVP haviam sido produzidas, sendo empregadas com grande êxito pelas forças aliadas em praticamente todos os teatros de operações da Segunda Guerra Mundial. Após o término do conflito, milhares dessas embarcações foram retiradas de serviço ativo e transferidas para a reserva do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos. Um número significativo desses barcos também foi cedido a diversos países aliados por meio de programas de assistência militar norte-americanos. A França, por exemplo, recebeu uma quantidade considerável dessas embarcações, que seriam empregadas principalmente pela Marinha Nacional Francesa durante a Primeira Guerra da Indochina, especialmente em operações de patrulha e transporte militar no delta do Rio Mekong. Nos Estados Unidos, os LCVP – Higgins Boats começaram a ser gradualmente substituídos por modelos mais modernos de embarcações de desembarque a partir do final da década de 1950, encerrando lentamente o ciclo operacional de um dos meios anfíbios mais emblemáticos da história militar do século XX.
Emprego na Marinha do Brasil.
No início da Segunda Guerra Mundial (1939–1945), o governo dos Estados Unidos passou a considerar com crescente preocupação a possibilidade de que o conflito europeu pudesse se expandir para o continente americano. A rápida sucessão de vitórias militares do Eixo composto por Alemanha Nazista, Itália Fascista e Império do Japão levou os estrategistas norte-americanos a avaliar cenários em que potências hostis pudessem estabelecer posições avançadas no Atlântico e, a partir delas, ameaçar diretamente o hemisfério ocidental. A situação tornou-se ainda mais preocupante após a derrota e subsequente armistício da França em junho de 1940, episódio associado à chamada Batalha da França. A queda do país levantou temores de que territórios coloniais franceses na África pudessem ser utilizados pela Alemanha como bases estratégicas no Atlântico. Entre os pontos considerados de maior importância figuravam a cidade portuária de Dacar, no Senegal, e arquipélagos atlânticos próximos às rotas marítimas intercontinentais. A partir dessas posições, analistas militares norte-americanos temiam que forças do Eixo pudessem projetar poder em direção ao continente americano. Nesse contexto geopolítico, o Brasil passou a ocupar lugar central nas preocupações estratégicas dos Aliados. Sua extensa faixa litorânea voltada para o Atlântico Sul e, sobretudo, a posição do Nordeste brasileiro especialmente a região de Recife tornavam o país um ponto de ligação natural entre a América do Sul e a África Ocidental. A distância relativamente curta entre Recife e Dakar, de aproximadamente 2.000 quilômetros, conferia a essa área grande relevância estratégica, tanto para possíveis operações militares quanto para a proteção das rotas marítimas transatlânticas. Paralelamente, os acontecimentos no teatro de operações do Pacífico e do Sudeste Asiático ampliaram ainda mais a importância econômica do Brasil para o esforço de guerra aliado. A expansão japonesa sobre regiões produtoras de borracha, como a Malásia Britânica e as Índias Orientais Holandesas, comprometeu gravemente o acesso aliado a essa matéria-prima essencial. Como consequência, o Brasil passou a assumir papel central no fornecimento de látex natural, insumo indispensável para a produção de pneus, juntas de vedação, cabos elétricos e diversos componentes empregados na indústria militar. Em 1942, estima-se que o país tenha sido responsável por cerca de 90% da borracha natural utilizada pela indústria bélica norte-americana, evidenciando sua relevância econômica e estratégica no contexto global da guerra. Diante desse cenário, o governo brasileiro, liderado pelo presidente Getúlio Vargas, intensificou a aproximação diplomática, econômica e militar com os Estados Unidos. Essa aproximação resultou em uma série de acordos bilaterais voltados à cooperação estratégica e à modernização das forças armadas brasileiras. Um dos marcos mais importantes desse processo foi a inclusão do Brasil no programa estabelecido pelo Lend-Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos), promulgado pelo governo norte-americano em março de 1941 com o objetivo de fornecer assistência militar a países aliados. Por meio desse programa, o Brasil tornou-se um dos primeiros países da América Latina a receber apoio material significativo. Em 1942, foi concedida ao país uma linha inicial de crédito de aproximadamente 100 milhões de dólares. Esses recursos foram destinados à aquisição de equipamentos militares modernos, incluindo aeronaves, veículos motorizados, blindados, sistemas de artilharia e outros materiais.
Entre os ramos militares, a Marinha do Brasil enfrentava desafios particularmente complexos. A extensa costa brasileira e a importância das rotas marítimas para o comércio exterior tornavam o país vulnerável à ação de submarinos do Eixo. Entre 1941 e 1943, submarinos alemães e italianos conduziram uma intensa campanha de guerra submarina no Atlântico Sul. Durante esse período, mais de trinta navios mercantes brasileiros foram afundados, resultando na perda de cerca de mil vidas. No âmbito do Lend-Lease Act, a Marinha do Brasil recebeu uma quantidade significativa de meios navais, com ênfase quase exclusiva na guerra antissubmarino (ASW), o fato deste modal ser priorizado com concentração de recursos, acabaria por limitar o desenvolvimento de outras capacidades navais, como operações anfíbias. A estrutura de combate anfíbio, essencial para desembarques em praias e projeção de poder em ambientes costeiros, permaneceu subdesenvolvida durante o conflito. O Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil, criado em 1808, ainda não dispunha de embarcações especializadas, como os Landing Craft, Vehicle, Personnel (LCVP), ou “Higgins Boats”, amplamente utilizados pelos Aliados em importantes operações de invasão durante todo o conflito. O sucesso das operações anfíbias aliadas, particularmente na Normandia, onde cerca de 1.500 LCVP transportaram entre 50.000 e 70.000 soldados no primeiro dia, despertou grande interesse na Marinha do Brasil. A capacidade de realizar desembarques rápidos em praias, superando fortificações e obstáculos naturais, era vista como um componente essencial do poder naval moderno. Neste momento o comando da Marinha do Brasil daria os primeiros passos para o estabelecimento de uma doutrina operacional que deveria resultar na constituição de uma força de combate anfíbia nos moldes do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos (USMC). Seu grande êxito durante o conflito passaria a servir de farol para a criação de uma força anfíbia inspirada nos moldes norte-americano. A criação de uma força anfíbia inspirada exigiria grandes mudanças nos paradigmas do Corpo de Fuzileiros Navais (CFN), haja vista a tendência que os preceitos da força de infantaria eram oriundos do aprendizado obtido nos cursos de aperfeiçoamento de oficiais, realizados, naquela época, no Exército Brasileiro. A partir de 1946, a Marinha do Brasil intensificou programas de intercâmbio, enviando grupos de oficiais aos Estados Unidos para participar de cursos e estágios no Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos (USMC) Esses programas, realizados em bases como Quantico, na Virgínia, e Camp Pendleton, na Califórnia, proporcionaram aos militares brasileiros acesso à doutrina operacional anfíbia americana, que enfatizava a coordenação entre forças navais, aéreas e terrestres, o uso de embarcações especializadas e a execução de desembarques sob fogo inimigo. Os oficiais retornavam ao Brasil como multiplicadores, disseminando os conhecimentos adquiridos nas escolas de formação da Marinha, como a Escola Naval e o Centro de Instrução e Adestramento, na Ilha do Governador, Rio de Janeiro. Além disso, ainda faltava ao Corpo de Fuzileiros Navais (CFN) meios para executar os desembarques, não apenas meios para ser empregados em terra que possuíssem características anfíbias, mas principalmente os meios navais para que se pudesse cumprir uma ação essencial dessa natureza, quais sejam os navios e embarcações de desembarque.
Contudo ainda havia alguns obstáculos a serem vencidos, sendo impositivo colocar em pratica os ensinamentos aprendidos, mesmo fazendo uso improvisado dos meios de desembarque que estavam à disposição naquela época. Em agosto de 1948, a Marinha do Brasil realizou seu primeiro exercício de desembarque anfíbio, marcando um marco inicial na formação de sua doutrina anfíbia. O exercício teve como alvo as praias da Ilha de Pombeba, na Baía de Sepetiba, litoral do Rio de Janeiro. Uma Companhia de Desembarque reforçada, composta por fuzileiros navais da Guarnição Central e elementos do Exército Brasileiro, foi mobilizada. Notavelmente, a companhia incluiu militares do Exército operando lança-chamas, um equipamento não pertencente ao arsenal do CFN à época, evidenciando a necessidade de improvisação devido à escassez de recursos especializados. As tropas foram transportadas pelos contratorpedeiros de escolta Beberibe (Be-2) e Bocaina (Be-8), enquanto o desembarque foi realizado por lanchas conhecidas como “Bois”, pertencentes aos encouraçados Minas Geraes e São Paulo. Essas lanchas, originalmente destinadas a tarefas de apoio, foram adaptadas para simular embarcações de desembarque, destacando as limitações materiais do Corpo de Fuzileiros Navais (CFN) A preparação das praias foi conduzida com tiro real pelo contratorpedeiro Greenhalgh (M-3), da classe Marcílio Dias, com apoio aéreo da Força Aérea Brasileira (FAB), que forneceu cobertura e reconhecimento. Apesar de sua natureza improvisada, o exercício demonstrou o compromisso da Marinha em aplicar os ensinamentos adquiridos em intercâmbios com o Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos (USMC), realizados a partir de 1946, e marcou o início da transição para uma doutrina anfíbia. Em meados de 1950, a Marinha do Brasil aprovou uma nova regulamentação para o Corpo de Fuzileiros Navais, que representou uma mudança significativa de orientação. Essa regulamentação redefiniu a missão, enfatizando a preparação para operações anfíbias e estabelecendo as bases para uma força com plena capacidade operativa. Como resultado, foi criada a Força de Fuzileiros da Esquadra (FFE), uma estrutura organizacional dedicada ao planejamento e execução de missões anfíbias. Embora o regulamento não determinasse o início imediato das operações, ele formalizou a necessidade de desenvolver uma frota de navios e embarcações especializadas, além de treinar pessoal para atuar em ambientes costeiros e ribeirinhos. No entanto, a ausência de embarcações de desembarque, como os Landing Craft, Vehicle, Personnel (LCVP), continuou a limitar a capacidade do CFN de realizar exercícios realistas. Um avanço significativo ocorreu em março de 1952, com a celebração do Acordo Militar Brasil-Estados Unidos, no âmbito do Mutual Defense Assistance Program (MDAP). Esse acordo garantiu ao Brasil acesso a uma ampla gama de equipamentos militares, incluindo aeronaves, embarcações, veículos blindados, carros de combate e equipamentos individuais, em condições econômicas vantajosas. Para a Marinha do Brasil, o MDAP abriu caminho para a aquisição de meios navais especializados, essenciais para consolidar a capacidade anfíbia. A década de 1950 marcou um período de transformação para a Marinha do Brasil, com a consolidação de uma doutrina anfíbia inspirada no Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos (United States Marine Corps – USMC). Em 1954, a Marinha do Brasil deu um passo significativo na modernização de sua capacidade anfíbia com a incorporação dos navios de transporte de tropas Custódio de Mello (G-20) e Barroso Pereira (G-16), seguidos, em 1957, pelos Ary Parreiras (G-21) e Soares Dutra (G-22). Construídos pelo estaleiro japonês Ishikawajima Heavy Industries Company Ltd., esses navios foram projetados especificamente para missões de transporte de tropas e operações anfíbias. Com um deslocamento de aproximadamente 4.800 toneladas, cada navio podia transportar até 600 fuzileiros navais, além de veículos, peças de artilharia e suprimentos, funcionando como bases flutuantes para lançamentos anfíbios em larga escala. A aquisição desses navios marcou um avanço em relação aos meios improvisados utilizados anteriormente, como as lanchas “Bois” dos encouraçados, empregadas no primeiro exercício anfíbio brasileiro em 1948, na Ilha de Pombeba, Baía de Sepetiba. Os novos navios proporcionaram ao Corpo de Fuzileiros Navais (CFN) a capacidade de realizar operações mais complexas, coordenando desembarques com apoio naval e aéreo, e estabeleceram as bases para uma doutrina anfíbia robusta. A plena operacionalização da capacidade anfíbia exigia, além de navios de transporte, embarcações de desembarque capazes de levar tropas e equipamentos diretamente às praias. Em 1955, no âmbito do Mutual Defense Assistance Program (MDAP), a Marinha do Brasil negociou com o Departamento de Estado dos Estados Unidos a aquisição de um lote de 34 LCVP “Higgins Boats”, provenientes da reserva estratégica do USMC. Apesar de serem embarcações usadas, estavam em bom estado de conservação, tendo sido amplamente empregadas durante a Segunda Guerra Mundial em operações como Guadalcanal (1942) e Normandia (1944). Os LCVP foram transportados ao Brasil em navios de transporte de tropas da Marinha, chegando ao porto do Rio de Janeiro no final de 1956. Redesignados como Embarcações de Desembarque de Viaturas e Pessoal (EDVP), esses barcos, com capacidade para transportar 36 soldados equipados, um jipe com 12 homens ou 3,6 toneladas de carga, foram integrados à Força de Transporte da Força de Fuzileiros da Esquadra (FFE), criada no mesmo ano. Operando em conjunto com as Embarcações de Desembarque de Viaturas e Material (EDVM), os EDVP fortaleceram a capacidade do Corpo de Fuzileiros Navais (CFN) de realizar desembarques anfíbios, superando as limitações dos meios improvisados utilizados anteriormente. A incorporação dos navios de transporte e dos LCVP permitiu ao CFN intensificar seu ciclo de adestramento, focado em operações anfíbias de baixa a média complexidade. Em 1959, dois exercícios marcaram o avanço da doutrina anfíbia brasileira: Operação Brisa (outubro de 1959): Realizada no litoral do Rio de Janeiro, essa operação envolveu o desembarque de tropas, veículos leves e peças de artilharia, utilizando os LCVP e os navios de transporte Custódio de Mello e Barroso Pereira. O exercício testou a coordenação entre unidades navais e terrestres, com apoio aéreo da Força Aérea Brasileira (FAB). Operação Corvina (novembro de 1959): Também conduzida no litoral fluminense, a Operação Corvina foi notável pela ativação do primeiro Destacamento de Praia, uma unidade especializada responsável por coordenar desembarques e preparar praias para a chegada de tropas e equipamentos. Os LCVP desempenharam um papel central, transportando fuzileiros e suprimentos diretamente às praias.

Em setembro de 1960, a Operação Arfagem representou um marco no adestramento do CFN, testando a integração de unidades anfíbias em cenários de maior complexidade. Realizada no litoral do Rio de Janeiro, a operação envolveu a Força de Fuzileiros da Esquadra (FFE), criada em 1950, e utilizou os navios de transporte Custódio de Mello (G-20) e Barroso Pereira (G-16), além de 34 LCVP “Higgins Boats”, redesignados como Embarcações de Desembarque de Viaturas e Pessoal (EDVP). Esses barcos, capazes de transportar até 36 soldados equipados ou 3,6 toneladas de carga, operaram em conjunto com Embarcações de Desembarque de Viaturas e Material (EDVM), demonstrando a capacidade do CFN de coordenar desembarques com apoio naval e aéreo. Simultaneamente, a FFE participou de manobras interaliadas com forças dos Estados Unidos e outros aliados, sob acordos de cooperação militar estabelecidos pelo MDAP. Esses exercícios proporcionaram aos oficiais e praças brasileiros a oportunidade de aprimorar técnicas de guerra anfíbia, aprendendo com a experiência do USMC, que desembarcou cerca de 50.000 a 70.000 soldados no Dia D (1944) utilizando LCVP. As manobras interaliadas fortaleceram a interoperabilidade e permitiram ao CFN acumular experiência prática, essencial para operar em ambientes costeiros e fluviais, alinhando-se às necessidades estratégicas do Brasil. O esforço contínuo em exercícios de pequena escala, como a Operação Brisa (outubro de 1959) e a Operação Corvina (novembro de 1959), criou as condições operacionais para a realização de manobras de maior porte. Em 1964, a Operação Dragão, conduzida no litoral do Espírito Santo, marcou a primogênita de uma série de exercícios anfíbios de grande escala. A operação envolveu o desembarque de 800 militares, 20 viaturas leves e quatro obuseiros M-2A3 de 105 mm em uma cabeça de praia, em um período de 10 horas, incluindo a movimentação navio-terra por superfície. Pela primeira vez, a operação contou com uma tropa percussora helitransportada, lançada a partir do porta-aviões ligeiro Minas Gerais (A-11), adquirido em 1956 do Reino Unido. O desembarque principal foi realizado por 14 LCVP “Higgins Boats”, apoiados por pelo menos 20 embarcações adicionais do tipo EDVP e EDVM, transportadas pelos navios Custódio de Mello e Barroso Pereira. Os LCVP “Higgins Boats” continuaram a desempenhar um papel relevante nos anos seguintes, destacando-se na Operação FAIBRAS (Força Armada Interamericana Brasileira), conduzida entre 1965 e 1966 na República Dominicana. Sob o comando da Organização dos Estados Americanos (OEA), cerca de 4.000 militares brasileiros, incluindo fuzileiros do CFN, foram enviados para “assegurar a paz” em meio a uma crise política e conflitos internos no país caribenho. Apesar de seu papel crucial, os LCVP “Higgins Boats” começaram a apresentar sinais de obsolescência na década de 1960, devido à idade da frota – fabricada durante a Segunda Guerra Mundial – e aos avanços tecnológicos em embarcações anfíbias. A partir de meados da década de 1970, a Marinha do Brasil iniciou um processo de substituição gradual, incorporando embarcações mais modernas, algumas produzidas nacionalmente. Esse processo foi acelerado com a aquisição de veículos anfíbios sobre esteiras, como os FMC LVTP-7A1 (Clanf), na década de 1980, que ofereceram maior mobilidade e proteção em desembarques.
Em Escala.
Para representarmos o LCVP “Higgins Boat” ou Embarcação de Desembarque de Viaturas e Pessoal (EDVP), pertencente ao Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil (CFN), empregamos o kit básico da Airfix na escala 1/72. Para se compor a versão operada pelo Marinha do Brasil não é necessário proceder qualquer alteração, com o modelo podendo ser montado diretamente da caixa. Empregamos decais originais do modelo em conjunto com uma bandeira nacional impressa em papel normal. O esquema de cores (FS) descrito abaixo, representa o primeiro padrão de pintura empregado nas embarcações de desembarque de pessoal e veículos – LCVP “Higgins Boat”, quando de sua incorporação na Marinha do Brasil quando do seu recebimento. Posteriormente seriam alteradas as marcações de identificação, ocorrendo também a inclusão de uma singela faixa em verde e amarelo, a exemplo a aplicada nas demais embarcações de desembarque de pessoal (EDVP).
Bibliografia :
- LCVP Higgins Boats Wikipedia - https://en.wikipedia.org/wiki/LCVP_(United_States)
- Revista da FFE – Edição Comemorativa de aniversário da Força de Fuzileiros da Esquadra
- Poder Naval por Alexandre Galante - www.naval.com.br
- Poder Naval por Alexandre Galante - www.naval.com.br
- Marinha do Brasil - https://www.marinha.mil.br/





