B-17G, SB-17G e RB-17G Boeing

Historia e Desenvolvimento.
A Boeing Airplane Company, fundada em 9 de maio de 1917 por William Edward Boeing, marcou o início de uma nova era de inovação na aviação norte-americana. Sob a liderança de seu fundador  já atuante no setor aeronáutico desde o início da década de 1910  a empresa rapidamente se consolidou como um dos pilares da indústria, contribuindo tanto para o esforço militar quanto para o desenvolvimento da aviação civil. Com a entrada dos Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial, em abril de 1917, a jovem companhia identificou uma oportunidade estratégica ao perceber a crescente necessidade da aviaçao naval da Marinha dos Estados Unidos (U.S. Navy) de expandir sua frota de hidroaviões destinados ao treinamento de pilotos navais. Nesse contexto, a Boeing apresentou dois projetos que, após avaliações preliminares, foram considerados promissores pelas autoridades militares. Em decorrência disso, a empresa recebeu seu primeiro grande contrato, envolvendo a produção de cinquenta aeronaves, as quais, uma vez incorporadas ao serviço ativo, obtiveram avaliações bastante positivas por parte de seus operadores. Paralelamente ao segmento militar, a Boeing Airplane Company passou a ampliar sua atuação no mercado civil, destacando-se sobretudo na produção de aeronaves voltadas ao treinamento e ao transporte leve. Contudo, com o término da Primeira Guerra Mundial, em 1918, o mercado aeronáutico foi impactado por uma grande oferta de aeronaves militares excedentes do conflito, vendidas a preços reduzidos. Esse cenário dificultou a comercialização de novos modelos e levou diversas empresas  incluindo a Boeing Airplane Company, a buscar alternativas para manter sua sustentabilidade financeira. Nesse contexto, a companhia diversificou suas atividades, passando a produzir móveis residenciais e embarcações de fundo plano conhecidas como Sea Sleds. Simultaneamente, o mercado militar também atravessava um período de retração com as forças armadas reduzindo significativamente a aquisição de novas aeronaves ao longo da década de 1920. Entretanto, ao final dessa década, rápidos avanços tecnológicos na aviação tornaram obsoletas muitas aeronaves então em serviço. Entre elas destacavam-se os caças embarcados Boeing F2B (Model 69) e Boeing F3B (Model 69B), introduzidos no início dos anos 1920. Embora representassem melhorias em relação aos modelos anteriores, suas limitações em velocidade, alcance e desempenho geral já não atendiam às exigências operacionais da Marinha dos Estados Unidos (U.S Navy), resultando na redução de encomendas com produção total inferior a cinquenta unidades. Diante desse cenário, a Boeing Aircraft Corporation direcionou seus esforços para o desenvolvimento de um novo caça que pudesse substituir os modelos navais em serviço. A estratégia incluía, ainda, a concepção de uma plataforma comum capaz de atender também às necessidades do Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC), particularmente na substituição dos caças-bombardeiros Boeing PW-9 (Model 15), em operação desde 1923 e já considerados ultrapassados . No final da década de 1920, os Estados Unidos enfrentavam os primeiros sinais da crise econômica que culminaria na Grande Depressão de 1929. 

Esse período desafiador trouxe severas restrições orçamentárias, com o governo federal adotando medidas rigorosas para conter os gastos públicos. O setor militar foi diretamente afetado, enfrentando cortes que limitaram o desenvolvimento de novos projetos aeronáuticos, impactando fornecedores estratégicos, como a Boeing. A redução drástica de contratos militares, combinada com a obsolescência de aeronaves como os  F-2B, F-3B e PW-9, colocou a indústria aeronáutica sob enorme pressão para inovar em um contexto de recursos escassos. Ainda assim, a Boeing enxergou uma oportunidade no horizonte da aviação militar, que começava a demandar modernização.  Na primeira metade da década de 1930, o Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC) lançou um ambicioso plano de renovação de sua frota, com o objetivo de substituir equipamentos ultrapassados, como o bombardeiro de médio porte Martin B-10. Em 1934, foi aberta uma concorrência para o desenvolvimento de um novo bombardeiro bimotor de configuração monoplano, capaz de transportar pelo menos uma tonelada de bombas, atingir 354 km/h a 3.000 metros de altitude, alcançar um alcance superior a 3.218 km e manter uma autonomia de voo de mais de dez horas. Diversos fabricantes apresentaram propostas, e três projetos destacaram-se como finalistas: o Martin Model 146, uma evolução do B-10; o Boeing Model 299, que daria origem ao lendário B-17 Fortaleza Voadora; e o Douglas DB-1, conhecido como Douglas Bomber 1. Na avaliação inicial, o Martin Model 146 foi eliminado por se basear em uma plataforma considerada obsoleta, com a  competição final ficou entre os projetos da Boeing e da Douglas. Embora o Boeing Model 299 se destacasse por sua inovação e desempenho superior, seu custo elevado por unidade não atendia às expectativas conservadoras do comando militar. A situação se complicou ainda mais quando o protótipo do Model 299 sofreu um trágico acidente durante um voo de avaliação, o que praticamente selou seu destino na concorrência. Assim, o Douglas DB-1 foi escolhido como vencedor, obtendo um contrato para produção em série, com as primeiras unidades entrando em serviço a partir de meados de 1937.  Contudo, o potencial do Boeing Model 299 não foi ignorado, e reconhecendo suas características revolucionárias, o comando do Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC) decidiu investir no projeto, firmando, no final de 1936, um contrato para a produção de 13aeronaves pré-série, destinadas a um extenso programa de testes em voo.  Essas aeronaves, redesignadas YB-17, incorporavam avanços significativos em relação ao protótipo do Model 299 , incluindo motores Wright R-1820-39 Cyclone mais potentes. Desta maneira entre 1º de março e 4 de agosto de 1937, o 2º Grupo de Bombardeio, sediado em Langley Field, Virgínia, recebeu 12 aeronaves YB-17 para intensos testes operacionais e de voo. Uma décima terceira unidade, destinada a ensaios de resistência estrutural em solo, foi equipada com turbo compressores General Electric, recebendo a designação Y1B-17A. Esses testes representaram um passo crucial para validar o potencial do projeto, culminando na entrega oficial das aeronaves em 31 de janeiro de 1939, redesignadas como B-17 e B-17A. 
Com o sucesso do projeto, o fabricante avançou para a produção da versão B-17B, que incorporava melhorias significativas nos sistemas mecânicos e hidráulicos, refletindo o contínuo amadurecimento técnico da aeronave. Em 3 de agosto de 1939, o Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC) formalizou um contrato para a aquisição de 39 aeronaves, destinadas a equipar dois esquadrões de bombardeio baseados na costa oeste dos Estados Unidos. Apesar do desempenho promissor, a rápida evolução das ameaças militares impôs a necessidade de novos aperfeiçoamentos, especialmente no campo da autodefesa. Nesse contexto, surgiu o B-17C, equipada com três metralhadoras calibre .50, ampliando sua capacidade defensiva. Logo em seguida, foi firmado um pedido para 38 aeronaves desse modelo, seguido por um novo contrato para a produção de 40 unidades da versão B-17D. O cenário internacional, entretanto, sofreu uma transformação radical com a intensificação da Segunda Guerra Mundial na Europa. O avanço das forças da Luftwaffe, a força aérea da Alemanha Nazista, demonstrou a elevada capacidade ofensiva dos caças alemães, colocando em xeque as estratégias aéreas até então adotadas pelos Aliados. Essa nova realidade reforçou a necessidade de aeronaves mais bem preparadas para operar em ambientes altamente hostis. Em resposta, o governo norte-americano, valendo-se de legislações emergenciais de defesa, firmou um contrato com a Boeing Airplane Company para a produção de 500 unidades da versão B-17E, marcando o início da produção em larga escala. Diferentemente das versões anteriores, este  foi concebido com maior ênfase na guerra ofensiva, ao mesmo tempo em que ampliava substancialmente sua capacidade de sobrevivência frente à interceptação inimiga  consolidando a célebre denominação de “Fortaleza Voadora”. Do ponto de vista estrutural, o modelo apresentava importantes inovações, incluindo uma nova barbatana dorsal, estabilizadores redesenhados e uma fuselagem alongada em aproximadamente três metros. Entre os avanços mais notáveis destacava-se a introdução da torreta ventral Sperry Ball Turret, equipada com duas metralhadoras Browning M2 calibre .50, que proporcionava cobertura defensiva em ângulos anteriormente vulneráveis. Além disso, o modelo incorporava motores Wright R-1820 Cyclone, capazes de desenvolver cerca de 1.200 hp cada, dotados de turbocompressores que melhoravam significativamente o desempenho em grandes altitudes  uma característica essencial para missões estratégicas de bombardeio. Embora frequentemente associado às campanhas no teatro europeu, o batismo de fogo do Boeing B-17 ocorreu no Teatro do Pacífico, logo após o ataque japonês a Ataque a Pearl Harbor, em 7 de dezembro de 1941. Naquele momento, mantinha-se  um contingente limitado de aeronaves B-17D  e B-17E nas  Filipinas, operadas pelo 19th Bombardment Group. Em 8 de dezembro, em razão da diferença de fuso horário, essas aeronaves enfrentaram seu primeiro grande teste operacional. Após um ataque surpresa japonês a Clark Field, que destruiu diversas aeronaves ainda em solo, os bombardeiros sobreviventes foram rapidamente mobilizados para missões de reconhecimento e ataques contra alvos navais japoneses.

Contudo o verdadeiro batismo de fogo em larga escala  ocorreu no Teatro Europeu, onde a Oitava Força Aérea, começou a empregar a aeronave em missões de bombardeio estratégico contra alvos na Europa ocupada pelos nazistas. A primeira operação significativa com o B-17E ocorreu em 17 de agosto de 1942, quando 12 aeronaves do 97º Grupo de Bombardeio atacaram os pátios ferroviários de Rouen-Sotteville, na França. Essa missão, realizada à luz do dia, marcou o início da campanha de bombardeio estratégico diurno dos Aliados, uma abordagem ousada que contrastava com as operações noturnas conduzidas pela Força Aérea Real (RAF). A medida que o conflito  avançava, a experiência operacional acumulada com o Boeing B-17D/E  nos diversos teatros de operações evidenciou tanto suas qualidades quanto a necessidade de constantes aprimoramentos frente às táticas cada vez mais sofisticadas do inimigo. Essas lições moldaram a evolução do bombardeiro, consolidando-o como um dos pilares do esforço de guerra aliado. Entre as modificações mais relevantes esteve a introdução da chamada “torre do queixo”, inicialmente na versão B-17F, equipada com duas metralhadoras Browning M2 calibre .50. Essa solução foi desenvolvida em resposta aos recorrentes ataques frontais realizados por caças da alemães, aumentando significativamente a capacidade de autodefesa da aeronave. A produção do modelo B-17F atingiu a expressiva marca de 3.045 unidades, refletindo a confiança depositada nesse padrão. O ápice da família, contudo, foi alcançado com o B-17G, introduzido no final de 1943. Dotado de treze metralhadoras Browning M2, esse modelo tornou-se a personificação do apelido “Fortaleza Voadora”. Até o início de 1945, mais de 8.000 unidades haviam sido produzidas, evidenciando a escala industrial do esforço de guerra aliado. Embora o mais avançado Boeing B-29 tenha começado a assumir papéis de destaque a partir de 1944 no Pacifico, o B-17G  permaneceu essencial no Teatro Europeu. Sua atuação em missões de bombardeio estratégico diurno foi determinante para degradar a infraestrutura industrial alemã, comprometendo a capacidade produtiva do Terceiro Reich e contribuindo de forma decisiva para a vitória aliada. Nos estágios finais do conflito, o B-17 também protagonizou uma iniciativa inovadora, ainda que de resultados limitados: a Operação Afrodite. Pelo menos 25 aeronaves das versões B-17E/F   foram convertidas em drones experimentais, designados BQ-7, equipados com sistemas de controle remoto, câmeras de televisão e carregados com aproximadamente 9.100 kg de explosivos. Essas aeronaves eram guiadas à distância por aviões de controle até alvos estratégicos, incluindo instalações de produção e lançamento das bombas voadoras V-1. Aprovada em junho de 1944 e conduzida pelo 388º Grupo de Bombardeio, as primeiras missões ocorreram a partir de 4 de agosto de 1944, direcionadas a alvos como Mimoyecques, Siracourt, Watten e Wizernes. Entretanto, os resultados obtidos foram modestos, influenciados por problemas técnicos, especialmente na condução remota das aeronaves, limitaram a eficácia das missões. Um acidente fatal somado às dificuldades operacionais, levou ao cancelamento do programa no início de 1945.
Com o término do conflito o modelo foi retirado da missão de bombardeio estratégico, neste período a Força Aérea do Exército dos Estados Unidos (USAAF) dispunha ainda de milhares de células em bom estado, a grande maioria teve como destino a desmontagem e sucateamento. Porém uma grande parte das aeronaves passaria a desempenhar novas funções especializadas, entre estas transporte, busca e salvamento, aerofotogrametria, inteligência e alvo aéreo. Nesta nova fase operacional se destacaria o desenvolvimento do B-17H, uma versão dedicada a missões de busca e salvamento, especialmente para apoiar operações de bombardeiros de longo alcance, como os  Boeing B-29. A conversão de B-17Gs para a função de resgate foi planejada para aproximadamente 130 aeronaves, embora haja divergências entre fontes sobre o número exato de conversões realizadas. Algumas indicam que apenas 12 aeronaves foram redesignadas como B-17H, enquanto outras sugerem que todas as 130 unidades previstas foram convertidas, com algumas mantendo a designação original de B-17G. As principais modificações do B-17H incluíam a adoção  de um barco de resgate A-1, fabricado pela Higgins Industries, radar de busca e  tanques de combustível adicionais para maior alcance e, em certos casos, equipamentos de comunicação e localização, como transmissores de emergência.  Em 1948, com a revisão do sistema de designação da Força Aérea dos Estados Unidos (USAF), os B-17Hs foram redesignados como SB-17G, com o prefixo "S" indicando sua função primária de busca e salvamento. Algumas unidades também foram redesignadas como TB-17H, indicando uso em treinamento. os SB-17Gs foram integrados ao Serviço de Resgate Aéreo da USAF, parte do Comando de Transporte Aéreo Militar (MATS). Durante a Guerra da Coreia (1950 - 1953), essas aeronaves operaram em águas coreanas, muitas vezes com armamento defensivo restaurado para proteção em áreas de combate. Além de missões de resgate, os SB-17Gs foram utilizados em funções como controle de alcance em testes de mísseis e, em alguns casos, como aeronaves de coleta de dados atmosféricos durante testes nucleares, como a Operação Crossroads. a Marinha dos Estados Unidos (U.S. Navy) adquiriu 48 B-17s ex-USAAF para missões de patrulha e resgate, designando-os como PB-1 (e posteriormente PB-1W para alerta aéreo antecipado). A Guarda Costeira dos Estados Unidos operou 16 unidades, designadas como PB-1G, a partir de 1946, em bases como Elizabeth City, Carolina do Norte, e San Francisco. Essas aeronaves realizaram missões de resgate aéreo-marítimo, patrulha de icebergs e mapeamento fotográfico até 1959. Os SB-17Gs permaneceram em serviço com a Força Aérea dos Estados Unidos (USAF) até meados da década de 1950, quando foram substituídos por aeronaves mais modernas, como o SB-29, que utilizava barcos de resgate A-3. Neste momento boa parte desta frota seria cedida a nações amigas como  Argentina, Áustria, Alemanha, Bolívia, Brasil, Canada, Colômbia, Dinamarca, Republicana Dominicana, Dinamarca, França, Irã, Arábia Saudita, Israel, México, Nicarágua, Peru, Portugal, África do Sul, Suécia e Reino Unido.

Emprego na Força Aérea Brasileira
Em 7 de dezembro de 1944, a cidade de Chicago, nos Estados Unidos, sediou a histórica Conferência de Chicago sobre Aviação Civil Internacional, culminando na assinatura da Convenção sobre Aviação Civil Internacional. Ratificado por 54 nações  entre elas o Brasil, esse tratado estabeleceu os fundamentos do Direito Aeronáutico Internacional, permanecendo como a base normativa da aviação civil até os dias atuais. A convenção instituiu a Organização da Aviação Civil Internacional (OACI), com sede em Montreal, no Canadá, além de definir padrões globais relativos ao uso do espaço aéreo, registro de aeronaves, segurança operacional e direitos e deveres dos Estados no transporte aéreo internacional. Elaborada nos estágios finais da Segunda Guerra Mundial, a convenção refletia a necessidade urgente de regulamentar um setor em rápida expansão. A conferência, realizada entre 1º de novembro e 7 de dezembro de 1944, reuniu representantes de 54 países com o objetivo de estabelecer um arcabouço normativo universal. O tratado entrou em vigor em 4 de abril de 1947, após a ratificação pelos Estados signatários. Entre os principais pilares estabelecidos pela convenção, destacam-se: Regulamentação do Espaço Aéreo: consagração do princípio da soberania dos Estados sobre seu espaço aéreo; Registro de Aeronaves: padronização internacional para identificação e certificação; Segurança de Voo: definição de normas técnicas e operacionais globais; Acordos Bilaterais: estruturação do transporte aéreo internacional entre países; Criação da OACI: órgão responsável por coordenar e supervisionar a aplicação dessas normas. No que se refere ao Artigo 25, a convenção estabeleceu diretrizes essenciais para as operações de Busca e Salvamento (SAR – Search and Rescue), atribuindo aos Estados signatários responsabilidades claras dentro de suas áreas de jurisdição. Entre elas: Prover assistência a aeronaves em situação de emergência, seja sobre território continental, costeiro ou marítimo; Organizar e coordenar operações SAR, visando localizar e resgatar tripulações e passageiros; Assegurar cobertura em áreas oceânicas, especialmente em rotas transoceânicas sob sua responsabilidade. No caso do Brasil, essas diretrizes implicaram a necessidade de estruturar um sistema abrangente de busca e salvamento, capaz de atender não apenas seu vasto território continental, mas também seu extenso litoral e áreas marítimas no Atlântico Sul. Essa responsabilidade inclui ainda o suporte a aeronaves em rotas transoceânicas que cruzam a região, consolidando o papel estratégico do país no contexto da aviação internacional. Dessa forma, a Convenção sobre Aviação Civil Internacional não apenas estabeleceu as bases regulatórias da aviação moderna, como também definiu princípios fundamentais de cooperação internacional  entre eles, a salvaguarda da vida humana no ar  que permanecem centrais nas operações aeronáuticas contemporâneas. Em 1944, a Força Aérea Brasileira (FAB), criada em 20 de janeiro de 1941, ainda se encontrava em fase inicial de consolidação como força independente. Durante o conflito, suas atividades concentraram-se prioritariamente em missões de patrulhamento costeiro e guerra antissubmarino ao longo do litoral brasileiro, com o objetivo de proteger as rotas marítimas aliadas contra a ação de submarinos do Eixo. 

Esse foco operacional, embora estratégico, limitou sua capacidade de desenvolver, naquele momento, uma estrutura dedicada às missões de busca e salvamento (Search and Rescue – SAR). Com o término do conflito, em 1945, o Brasil passou a direcionar esforços para cumprir as obrigações estabelecidas pela Convenção sobre Aviação Civil Internacional, que atribuía aos países signatários responsabilidades no campo da segurança da navegação aérea, incluindo operações SAR. A primeira medida concreta adotada  consistiu na adaptação de aeronaves Consolidated PBY-5A Catalina para essas novas funções. Originalmente concebidos para patrulhamento marítimo e missões antissubmarino, esses hidroaviões passaram a ser empregados, ainda que de forma limitada, em operações de busca e salvamento. Suas capacidades incluíam a realização de buscas com auxílio de radar e observação visual, além do lançamento de botes salva-vidas e suprimentos para tripulações em situação de emergência. Gradualmente, esses vetores foram sendo retirados das missões de patrulha e guerra antissubmarino, sendo redirecionados para tarefas de transporte, ligação e, sobretudo, SAR. Em janeiro de 1946, a Força Aérea Brasileira (FAB) passou a dispor de sua primeira aeronave dedicada exclusivamente a esse tipo de missão: o Consolidated PBY-5A Catalina, pertencente ao 1º Grupo de Patrulha (1º GpP), sediado na Base Aérea de Belém. Esse marco representou o início da especialização das operações de busca e salvamento no âmbito da aviação militar brasileira, sendo posteriormente ampliado com a designação de outras células para a mesma função. Entretanto, as limitações operacionais do Catalina especialmente em termos de alcance e autonomia  tornaram-se evidentes, sobretudo diante da necessidade de cobrir extensas áreas do Atlântico Sul e do interior do território brasileiro. Diante desse cenário, o Ministério da Aeronáutica (MAer) passou a buscar soluções mais adequadas. Em 1950, o governo brasileiro formalizou junto ao Departamento de Estado dos Estados Unidos um pedido para a cessão de aeronaves com maior autonomia e capacidade operacional, capazes de atender às exigências do artigo 25 da Convenção. À época, a Força Aérea dos Estados Unidos (USAF) dispunha de um significativo excedente de aeronaves Boeing B-17, muitas das quais haviam sido convertidas para a versão de busca e salvamento B-17H  (posteriormente redesignada Boeing SB-17G). Essas aeronaves  adaptadas para missões SAR, estavam equipadas com embarcações de resgate do tipo A-1, além de sistemas  de comunicação e localização. Reconhecendo a adequação desse vetor às necessidades brasileiras, o governo norte-americano aprovou, ainda em fins de 1950, sua transferência. Uma comissão de oficiais  foi enviada aos Estados Unidos com a missão de selecionar os exemplares a serem recebidos. O acordo inicial previa a cessão de 06 aeronaves, das quais 05 configuradas especificamente para missões de busca e salvamento e uma destinada a tarefas de mapeamento aéreo.
A incorporação das aeronaves SB-17G e RB-17G representou um marco decisivo na consolidação do Serviço de Busca e Salvamento (SAR) no Brasil, estruturado em consonância com as diretrizes da Convenção sobre Aviação Civil Internacional.  A formalização desse serviço ocorreu por meio da Portaria Ministerial nº 324, de 16 de novembro de 1950, expedida pelo Ministério da Aeronáutica (MAer), que instituiu oficialmente o sistema SAR no pais. A  estrutura foi concebida para coordenar operações de busca e resgate de aeronaves em situação de emergência, tanto no território nacional quanto em amplas áreas do Atlântico Sul. Nesse contexto, a introdução dos destas aeronaves foi fundamental para ampliar significativamente o alcance e a capacidade operacional deste tipo de missão. Com o objetivo de preparar tripulações para a operação desses vetores, foi criado, em 24 de janeiro de 1951, o Centro de Treinamento de Quadrimotores (CTQ), inicialmente sediado na Base Aérea do Galeão. A unidade contava com o apoio de instrutores norte-americanos e desenvolvia um programa abrangente de formação, que incluía: Instrução teórica, voltada aos fundamentos de navegação aérea, operação de sistemas SAR e manutenção das aeronaves; Treinamento prático, com ênfase em simulações de missões reais, incluindo o lançamento de botes salva-vidas e a familiarização com os equipamentos especializados embarcados. Em junho de 1951, o CTQ foi transferido para a Base Aérea de Recife, cuja localização estratégica favorecia as operações sobre o Atlântico Sul. A partir de então, a unidade passou a acumular, além das atividades de instrução, missões operacionais de busca e salvamento, transporte e aerofotogrametria. A consolidação definitiva dessas capacidades ocorreu em 15 de outubro de 1953, com a desativação do CTQ e a transferência de suas atribuições para o 1º Esquadrão do 6º Grupo de Aviação (1º/6º GAv), também sediado em Recife. Essa unidade assumiu integralmente a operação dos B-17, tornando-se o principal vetor das missões de busca e salvamento (SAR) da Força Aérea Brasileira (FAB) naquele período. Do ponto de vista técnico, as aeronaves da versão SB-17G apresentavam importantes adaptações para o cumprimento de suas missões. Entre elas, destacava-se a instalação de radar de busca aérea (ASR) na seção frontal da fuselagem (posição anteriormente ocupada pela torre ventral), com exceção do exemplar matriculado como FAB 5409. Outro elemento essencial era o emprego do barco salva-vidas do tipo “Higgins”, um recurso inovador para operações de resgate marítimo. Com aproximadamente 27 pés (cerca de 8 metros) de comprimento e peso em torno de 1.500 kg, essa embarcação era construída em madeira laminada de mogno e subdividida em 20 compartimentos estanques, garantindo elevada flutuabilidade mesmo em condições adversas. Pintado em amarelo para facilitar sua visualização, o bote era lançado por paraquedas nas proximidades de sobreviventes, podendo sustentar até 12 pessoas por cerca de 20 dias, graças aos suprimentos embarcados.

Um dos episódios mais marcantes  e trágicos  no início da operação dos quadrimotores de busca e salvamento ocorreu em 23 de julho de 1952. Naquela ocasião, um  SB-17G, ainda ostentando a matrícula norte-americana “44-85579”, envolveu-se em um acidente fatal durante uma missão de treinamento. Enquanto realizava exercícios de lançamento do bote salva-vidas, a aeronave colidiu em voo com um T-6 Texan que a acompanhava com a finalidade de registrar a operação. Em 1º de setembro de 1953, um  SB-17G realizou a primeira travessia transoceânica conduzida por uma aeronave militar brasileira, cumprindo o trajeto entre Recife e Dakar, com retorno ao ponto de origem. Essa missão demonstrou, de forma inequívoca, a capacidade  de operar em longas distâncias sobre o Atlântico Sul, atendendo plenamente às exigências estabelecidas pela Convenção sobre Aviação Civil Internacional no que tange à cobertura de áreas marítimas remotas. Paralelamente, a variante RB-17G desempenhava papel fundamental no campo da aerofotogrametria, essa versão possuía um compartimento específico na seção frontal anteriormente ocupado por armamento  destinado à instalação de câmeras de mapeamento aéreo. Tal configuração permitiu a produção de cartas aeronáuticas e o levantamento sistemático de áreas estratégicas do território brasileiro, contribuindo para o planejamento militar e o desenvolvimento da infraestrutura nacional. Em 1954 a frota foi ampliada  com a incorporação de mais seis SB-17G e um RB-17G , totalizando doze aeronaves, recebendo com toda a frota recebendo as matriculas de FAB 5400 a FAB 5411. A evolução organizacional dessas capacidades culminou na criação, em 20 de novembro de 1957, do 6º Grupo de Aviação (6º GAv), conhecido como Esquadrão Carcará. Essa unidade foi estruturada em dois esquadrões com atribuições distintas e complementares: O 1º Esquadrão (1º/6º GAv), responsável pelas missões de busca e salvamento, operando aeronaves Boeing SB-17G equipadas com radares de busca aérea e botes de resgate Higgins A-1; e o  2º Esquadrão (2º/6º GAv), dedicado às missões de aerofotogrametria, utilizando aeronaves Boeing RB-17G adaptadas com sistemas fotográficos especializados. Essa estrutura permaneceu em vigor até meados de 1967, quando ambos os esquadrões foram unificados, refletindo a evolução organizacional e a racionalização dos meios disponíveis. No mesmo ano de 1957, o Brasil ampliou sua projeção internacional ao participar de operações de paz no âmbito da Organização das Nações Unidas. O Batalhão Suez, pertencente ao Exército Brasileiro, foi desdobrado para a Faixa de Gaza como parte da Força de Emergência das Nações Unidas (UNEF), criada após a Crise de Suez. Para assegurar o suporte logístico a esse contingente, foi estabelecida uma linha regular do Correio Aéreo Nacional (CAN) entre Recife e Suez. A escolha do B-17  para essa missão baseou-se em sua elevada autonomia e capacidade de operar em longas distâncias, características essenciais para a manutenção do fluxo logístico entre o Brasil e o teatro de operações no Oriente Médio.
A primeira missão da ponte aérea estratégica para o Oriente Médio, denominada “1º CAN Suez”, teve início em 20 de março de 1957, marcando um momento de elevada relevância operacional. Nessa ocasião, foi empregada a aeronave de matrícula FAB 5405, que decolou do Rio de Janeiro com destino ao Oriente Médio, transportando carga leve e correspondência destinada ao Batalhão Suez, então desdobrado na Faixa de Gaza. O itinerário cumprido refletia a complexidade logística da missão, compreendendo escalas sucessivas em Recife, Dakar, Lisboa e Roma, até alcançar Abusir, no Egito. A partir da segunda missão, o ponto final foi transferido para El Arish, mais próximo da área de operações das forças brasileiras. Ao longo de sua execução, a linha do Correio Aéreo Nacional (CAN) para Suez totalizou 24 missões, nas quais foram transportados aproximadamente 50.856 kg de cargas e malas postais, acumulando 2.071 horas de voo. Notavelmente, essas operações transcorreram sem o registro de acidentes ou incidentes, evidenciando o elevado grau de profissionalismo das tripulações e a confiabilidade operacional dos vetores empregados. A última missão do CAN Suez conduzida pelo 6º Grupo de Aviação  ocorreu em 14 de maio de 1960. A partir de então, a responsabilidade pela rota foi transferida ao 2º Grupo de Transporte (2º GT), que passou a operar aeronaves mais modernas, como o Douglas C-54 Skymaster. Essa substituição refletiu o processo natural de modernização da frota e o incremento da capacidade logística. Apesar dos relevantes serviços prestados, as aeronaves das versões Boeing SB-17G, RB-17G e B-17G já acumulavam mais de duas décadas de uso, enfrentando crescentes dificuldades logísticas. A produção do modelo havia sido encerrada havia mais de vinte anos, o que resultava em escassez de peças de reposição e comprometia seriamente a disponibilidade operacional da frota. Esse cenário era agravado por perdas operacionais, como as ocorridas com as aeronaves FAB 5404, em 1952, FAB 5405, em 1962, e FAB 5409, em 1964. Diante dessas limitações, entre 1965 e 1968, as aeronaves remanescentes foram progressivamente recolhidas ao Parque de Aeronáutica de São Paulo (PqAerSP), onde passaram por rigorosos processos de inspeção técnica. Essas avaliações tinham como objetivo determinar os níveis de desgaste estrutural e mecânico, definindo a viabilidade de sua continuidade em operação ou sua retirada definitiva do serviço. Como resultado, houve uma significativa redução do número de aeronaves disponíveis, o que levou à reorganização das unidades operacionais. O 2º Esquadrão do 6º Grupo de Aviação (2º/6º GAv) foi absorvido pelo 1º Esquadrão do 6º Grupo de Aviação (1º/6º GAv), o tradicional Esquadrão Carcará, concentrando as atividades remanescentes. As últimas células permaneceram em operação até 1969, quando foram finalmente substituídas nas missões de busca e salvamento pelos mais modernos Lockheed SC-130E Hercules. Esse momento marcou o encerramento de um ciclo de aproximadamente dezessete anos de relevantes serviços prestados à Força Aérea Brasileira (FAB), consolidando seu legado como um dos mais importantes vetores na história do SAR e da projeção estratégica do Brasil no pós-guerra.

Em Escala.
Para representarmos o Boeing SB-17G "FAB 5402" optamos pelo kit da Revell na escala 1/48 do modelo B-17G Flying Fortress. Para se representar a versão operada pela Força Aérea Brasileira (FAB), é necessário remover todo o sistema de  armamento defensivo (metralhadoras e torretas), a seguir procedemos a remodelagem do nariz da aeronave. Nesta etapa retiramos  o anteparo aerodinâmico da torreta inferior e procedendo a  inclusão do domo do radar de busca marítimo, (confeccionado a partir de um  conta gotas de remédio infantil). Fizemos uso de decais confeccionados pela FCM Decais, presentes no set 48/11.
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o primeiro padrão para aeronaves de Busca e Salvamento (SAR) aplicado nas aeronaves da Força Aérea dos Estados Unidos (USAF) na da década de 1950, as células brasileiras SB-17G foram recebidas neste esquema recebendo posteriormente as marcações nacionais e as matrículas. As aeronaves do modeo RB-17G não dispunham das faixas de alta visibilidade em amarelo e durante sua carreira receberam algumas modificações em seu esquema original, incluindo o painel antiglare a frente do para-brisa em verde fosco, tendo também os cowlings dos motores pintados de vermelho.

Bibliografia :
- Boeing B-17 Flying Fortress na FAB - Revista ASAS nº 42  - Aparecido Camazano Alamino
- Aviação Militar Brasileira 1916 -/ 1984 - Francisco C. Pereira Netto
- Boeing B-17 Wikipedia - https://en.wikipedia.org/wiki/Boeing_B-17_Flying_Fortress
- História da Força Aérea Brasileira , Professor Rudnei Dias Cunha - http://www.rudnei.cunha.nom.br/FAB/index.html