Piranha IIIC Mowag 8X8 (VtrBldEspSR )

História e Desenvolvimento.
A Mowag GmbH, originalmente denominada Mowag Motorwagenfabrik AG, foi fundada em 1950 na cidade de Kreuzlingen, no cantão de Turgóvia (TG), Suíça, pelo engenheiro Walter Ruf. Nos anos subsequentes, a empresa desenvolveu uma ampla gama de veículos destinados tanto aos mercados civil quanto militar, incluindo ambulâncias, caminhões de combate a incêndios, veículos elétricos, scooters, tratores aeronáuticos, blindados sobre rodas e lagartas, além de equipamentos especializados para treinamento militar. Seu primeiro grande sucesso comercial foi o veículo utilitário militar Mowag T1 4×4, produzido em diversas configurações, incluindo versões abertas para transporte de carga e tropas, bem como variantes fechadas destinadas a comunicações e comando. Ao todo, cerca de 1.600 exemplares foram entregues ao Exército Suíço (Schweizer Armee), consolidando a reputação da empresa como fornecedora de veículos militares robustos e confiáveis. Nos anos seguintes, a Mowag ampliou sua presença internacional ao firmar contratos com a Alemanha Ocidental para a produção da série de veículos blindados sobre rodas Mowag MR 8, destinados à Bundesgrenzschutz (Guarda Federal de Fronteiras Alemã). Aproximadamente 750 unidades foram produzidas, sendo posteriormente exportadas para outros países e fabricadas sob licença em território alemão. Esse programa contribuiu significativamente para projetar a empresa no mercado internacional de veículos blindados. Ao longo das décadas de 1950 e 1960, tornou-se amplamente reconhecida pelo desenvolvimento de veículos militares com tração integral, incluindo modelos produzidos sob licença de fabricantes alemães como Thyssen e Büssing-Henschel. Paralelamente, a empresa lançou diversas famílias de veículos utilitários e militares de alta mobilidade, destinados tanto ao mercado doméstico quanto à exportação. No segmento civil, destacou-se pela produção de veículos especializados para a empresa estatal Swiss Post, entre eles o singular Mowag Einsatzfourgon. Este modelo possuía como característica marcante a instalação de um motor V8 a gasolina sob o piso do veículo, propulsor originalmente concebido para aplicações militares blindadas. A empresa também alcançou considerável sucesso na fabricação de caminhões de combate a incêndios, produzindo diversas gerações de veículos baseados em chassis e conjuntos mecânicos fornecidos pela Dodge Motor Company. Durante a década de 1960, expandiu suas atividades para o segmento de caminhões pesados, lançando modelos como o M5-16F, com capacidade de carga de 16 toneladas. Pouco depois, foi contratada pela Força Aérea Suíça (Schweizer Luftwaffe) para desenvolver um trator de reboque destinado a atender às necessidades operacionais dos caças franceses Mirage IIIS e RS. Esse programa resultou no desenvolvimento do robusto trator aeronáutico Mowag-AEG, que permaneceu em serviço por muitos anos. Outro aspecto pouco conhecido da história da empresa foi sua atuação como principal importadora e distribuidora dos utilitários norte-americanos Dodge Ram Wagon para o mercado suíço. Os veículos eram adaptados para aplicações especializadas, incluindo combate a incêndios, policiamento, serviços médicos de emergência e apoio logístico. Todos os modelos convertidos eram comercializados sob a marca Mowag, enquanto a empresa também assegurava o fornecimento de peças de reposição e suporte técnico para os produtos Dodge em território suíço.

No início da década de 1970,  passou a antecipar as futuras demandas das Forças Armadas Suíças e do mercado internacional de defesa, direcionando recursos próprios para o desenvolvimento de uma nova família de veículos blindados modulares sobre rodas. O projeto tinha como objetivos principais a redução dos custos do ciclo de vida, a elevada confiabilidade mecânica e a obtenção de altos índices de disponibilidade operacional. O primeiro protótipo do Piranha Modelo IB, na configuração 6x6, foi concluído em maio de 1972, incorporando diversas soluções técnicas inovadoras para a época. Entre elas destacavam-se a suspensão independente, o grupo motopropulsor compacto instalado na porção dianteira direita do casco e um sistema de propulsão anfíbia composto por duas hélices. O casco, construído integralmente em aço blindado soldado do tipo RHA (Rolled Homogeneous Armor), foi concebido para receber proteção NBQ (Nuclear, Biológica e Química), ampliando sua capacidade de sobrevivência. O desenho da seção frontal apresentava linhas multifacetadas, com uma coluna central e painéis laterais inclinados que se integravam harmoniosamente ao restante da estrutura. A parte traseira possuía uma leve inclinação descendente, acomodando as portas principais de acesso ao compartimento de tropas. A blindagem básica, com espessura estimada entre 6 e 8 mm, garantia proteção contra munições de armas leves e estilhaços de artilharia. O compartimento do motor localizava-se no lado direito da dianteira do veículo, dispondo de grelhas de ventilação e exaustão posicionadas na parte superior do casco. A transmissão e a caixa de câmbio encontravam-se instaladas na seção frontal, enquanto o compartimento de combate e transporte de tropas ocupava a parte traseira da viatura, onde também podiam ser instalados diferentes sistemas de armamento operados pela tripulação. O Piranha IB possuía capacidade de carga aproximada de 03 ton, podendo transportar entre 05 e 06 soldados completamente equipados. Sua motorização era composta pelo  Mowag de seis cilindros, refrigerado a água, desenvolvendo 275 hp (202 kW), acoplado a uma transmissão automática Allison MT-653 de seis velocidades com conjunto planetário. Para maximizar a mobilidade em terrenos adversos, o veículo utilizava pneus 13.00 x 20 equipados com tecnologia run-flat. Dependendo da configuração escolhida pelo operador, o sistema de direção podia atuar em um único eixo  normalmente o dianteiro  ou em dois eixos, geralmente o primeiro e o último. Nas gerações posteriores da família, como o Piranha III, foram incorporados sistemas de suspensão hidropneumática ativa, elevando significativamente o desempenho em terrenos irregulares. A velocidade máxima em estrada alcançava  100 km/h, enquanto em operações anfíbias o veículo podia atingir cerca de 10 km/h. Seu tanque de combustível, com capacidade para 300 litros, proporcionava uma autonomia operacional situada entre 750 e 800 km. Desde sua concepção, a  foi projetado para oferecer elevada flexibilidade de emprego. Em função das necessidades de cada cliente, podia receber diferentes motores, transmissões, armamentos e sistemas eletrônicos. Essa versatilidade permitiu o desenvolvimento de uma ampla gama de variantes, incluindo, postos de comando, ambulâncias blindadas, porta-morteiros, veículos de reconhecimento, guerra eletrônica, defesa antiaérea, anticarro, recuperação e socorro, apoio de fogo e segurança interna.
Naturalmente, o Mowag Piranha I 6x6 seria adotado pelas Forças Armadas Suíças, sendo empregado em diversas versões destinadas às missões de transporte de tropas, ambulância, posto de comando e caça-tanques. Nesta última configuração, armada com o míssil anticarro BGM-71 TOW, o veículo receberia a designação de Mowag Grenadier. O primeiro contrato de exportação da família Piranha seria celebrado com o governo canadense, que selecionaria a plataforma para produção sob licença local. O programa resultaria no desenvolvimento dos veículos AVGP Grizzly, destinado ao transporte de tropas, e AVGP Cougar, voltado para missões de reconhecimento e apoio de fogo, equipado com uma torre Vickers armada com um canhão de 76 mm. A adoção pelo Canadá representaria um importante marco comercial  contribuindo decisivamente para a consolidação internacional do projeto. Em 1983, seria firmado um acordo com o governo chileno para a produção sob licença da versão 6x6. Esse contrato seria seguido por outras encomendas internacionais, ampliando significativamente a presença da família Piranha no mercado mundial. Em poucos anos, o modelo alcançaria expressivo sucesso comercial, registrando mais de duas mil unidades entre veículos entregues e contratos em carteira. Os recursos gerados pelas exportações permitiriam expandir o conceito original, desenvolvendo novas variantes com diferentes configurações de mobilidade. A primeira delas foi o Mowag Piranha 4x4 IB, apresentado em 1974. Concebido como um veículo leve, ágil e de elevada mobilidade, destinava-se principalmente às missões de reconhecimento, segurança interna e combate anticarro, incluindo versões especializadas como o Grenadier e o Spy. O projeto também contemplava aplicações policiais, especialmente para operações de controle de distúrbios urbanos e segurança pública. O protótipo do Piranha 4x4 foi submetido a uma extensa campanha de testes, recebendo diferentes conjuntos motopropulsores, armamentos e equipamentos eletrônicos. Contudo, o acelerado avanço tecnológico da época, aliado à evolução dos requisitos operacionais dos potenciais clientes, reduziu o interesse comercial pelo modelo. Como consequência, o programa acabaria sendo descontinuado antes de alcançar a produção em série. A variante mais bem-sucedida da família surgiria a partir da necessidade de um veículo com maior capacidade de carga útil e potencial de crescimento. A oportunidade para seu desenvolvimento surgiu durante uma concorrência promovida pelo governo canadense em 1974, denominada Light Armoured Vehicle (LAV). As especificações exigiam uma plataforma altamente versátil, capaz de desempenhar múltiplas funções em diferentes cenários operacionais, devendo ser produzida em grande quantidade e em diversas versões especializadas. Para atender a essa demanda,  associou-se à General Motors Diesel Division, apresentando uma proposta que previa a produção local dos veículos na província de Ontário. A solução oferecida destacou-se pelos custos competitivos, elevado índice de nacionalização e ampla capacidade de adaptação às necessidades das Forças Armadas Canadenses. Como resultado, a proposta foi declarada vencedora em março de 1976. O sucesso obtido com a versão 8x8 levaria, no início da década seguinte, ao investimento continuo no aperfeiçoamento. 

Entre as melhorias implementadas destacava-se o alongamento do casco em aproximadamente 290 mm, proporcionando maior volume interno para tripulação, equipamentos e sistemas de missão. Também a nova versão, já designada como Piranha II receberia uma blindagem atualizada, um compartimento do motor mais modular, transmissão revisada, pneus mais fortes e maiores e melhor sistema de frenagem. As extensões laterais garantiriam mais espaço interno, portas adicionais para pistolas e proteção.  Para mobilidade, o blindado poderia ser equipado com os motores Detroit Diesel 6V-53T Silver (275 hp), 6V-53TA Silver (350 hp) ou ainda Cummins 6 CTA 8.3 (300 hp). Há também um sistema automático de detector/extintor de incêndio. As suspensões incluíam molas helicoidais independentes nos dois eixos dianteiros direcionais e amortecedores nos dois traseiros. O equipamento opcional incluía um revestimento NBC (Nuclear, biological, chemical) coletivo completo, ar-condicionado e dispositivos de visão noturna. A estação de armas Giat Industries TS 90 desenvolvidas para o Mowag revelada na Eurosatory 1986, compreendia um canhão principal de média velocidade de 90 mm capaz de disparar cartuchos APFSDS-T, HEAT-T, HE, fumaça e cartuchos com um total de 43, incluindo 18 prontos na torre. Foi acoplado a um coaxial de 7,62 mm. As especificações são: 6,98 m x 2,63 x 1,83 m para 14 toneladas. Neste mesmo período o Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha dos Estados Unidos (USMC) começaria a buscar um veículo blindado leve para dar maior mobilidade às suas divisões. Em uma concorrência internacional a proposta vencedora seria representada pelo consórcio General Motors Diesel & Mowag GmbH, com o modelo LAV-25, tendo seu projeto sendo baseado no Veículo Blindado de Uso Geral (LAV I) do Exército Canadense, neste momento seria celebrado um acordo para a aquisição inicial de 969 veículos de todas as variantes. Seu batismo de fogo se daria durante a invasão do Panamá em 1989 e continuaram servindo na Guerra do Golfo, na Guerra do Iraque e na Guerra do Afeganistão. Versões atualizadas como o LAV-25A2 e LAV-25A3 devem permanecer em serviço até o ano de 2035, quando devem passar a ser substituídos pelos novos veículos de reconhecimento avançado. Em 1994 a empresa apresentaria ao mercado o Piranha III 8x8, que seria conhecido com o principal veículo da família, recebendo o maior número de contratos de exportação, neste momento a   configuração 4 x 4 seria descartada, mas a 6x6 foi mantida e nova 10x10 seria desenvolvida. Como carro-chefe da empresa a versão 8X8 , seria totalmente reformulado, com ênfase em uma construção composta, casco mais leve e compacto, mas mais bem protegido para maior mobilidade. O volume interno e a carga útil também são amplamente otimizados em comparação com o casco (11,8 m3), e a modularidade seria levada adiante. O Piranha III poderia ser aerotransportável, principalmente pelos C-130 Hércules, o que lhe conferiria uma grande variedade de possibilidades de implantação estratégica. Além de diversas inovações estes veículos poderiam operar com uma gama cada vez maior de armamento, culminando com uma torre de 105 mm operada remotamente que fornece uma capacidade clara de caçador de tanques, fazendo uso de diversas munições padronizadas pela OTAN. 
Em janeiro de 2004, a empresa foi adquirida pela General Dynamics European Land Systems (GDELS), tornando-se a quarta fabricante europeia a compor o consórcio, que passou a concentrar suas operações continentais sob coordenação da sede da GDELS na Espanha. Essa aquisição ampliou significativamente os recursos disponíveis para pesquisa e desenvolvimento. Paralelamente, diversas versões da família passaram a ser produzidas sob licença em outros países. No Canadá, a fabricação ficou a cargo da General Dynamics Land Systems–Canada, responsável pelo desenvolvimento da família LAV III, enquanto no Reino Unido determinadas variantes foram produzidas pela BAE Systems . O Piranha IIIC introduziu importantes avanços em proteção e sobrevivência. Entre eles destacava-se a possibilidade de integração do sistema de proteção ativa Saab Avitronics LEDS, composto por sensores de alerta e dispensadores de contramedidas destinados a aumentar a proteção contra foguetes anticarro do tipo RPG e artefatos explosivos improvisados (IED).  O compartimento modular do motor permitia a instalação de diferentes grupos propulsores conforme as necessidades do operador.  O veículo também podia receber suspensão hidropneumática com controle eletrônico adaptativo, sistema central de enchimento de pneus (CTIS) e sistema de freios antitravamento (ABS). Em 2007 seria lançado o Piranha IV,  que priorizava níveis superiores de proteção balística e antiminas. Com peso de combate de aproximadamente 25 toneladas, era normalmente equipado com uma estação de armas armada com canhão automático de 30 mm e metralhadora coaxial de 7,62 mm. Seu casco, construído em aço blindado de elevada dureza, podia receber kits modulares adicionais de blindagem, garantindo proteção contra munições perfurantes de 14,5 mm em todos os quadrantes, resistência a projéteis de 30 mm no arco frontal e proteção contra explosões equivalentes a até 8 kg de TNT sob o casco. Incorporava ainda  proteção NBQ (Nuclear, Biológica e Química) e podia receber revestimentos especiais para redução da assinatura térmica.  Dependendo da configuração adotada, podia transportar entre 06 e 10 soldados completamente equipados.  Sua propulsão era garantida por um motor diesel turboalimentado MTU de 544 hp, associado a uma transmissão automática ZF de sete velocidades, permitindo atingir velocidades de até 100 km/h e autonomia aproximada de 750 km. A evolução da plataforma culminaria no lançamento do Piranha V, esta nova geração apresentava peso bruto variando entre 25 e 30 ton, maior volume interno e uma arquitetura eletrônica aberta, concebida para facilitar futuras modernizações e integrações de sistemas. As experiências operacionais adquiridas nos conflitos do Iraque e do Afeganistão influenciaram diretamente seu desenvolvimento, resultando na adoção de assentos suspensos com proteção antiminas, reforços estruturais no casco e sistemas avançados de proteção balística. O veículo oferece proteção contra foguetes RPG, munições perfurantes de 14,5 mm em todo o perímetro e projéteis de 30 mm no arco frontal, podendo ainda receber sistemas ativos de proteção e contramedidas contra IEDs. Sua motorização é composta por um motor diesel MTU 6V199 TE20 de 550 hp, garantindo elevados níveis de mobilidade mesmo em terrenos adversos. Ao longo de mais de cinco décadas de evolução contínua,  consolidou-se como uma das mais bem-sucedidas plataformas blindadas sobre rodas do mundo. Encontram-se em serviço em diversos países, incluindo Arábia Saudita, Austrália, Bélgica, Botsuana, Brasil, Canadá, Chile, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos, Gana, Irlanda, Libéria, Nova Zelândia, Nigéria, Omã, Catar, Romênia, Serra Leoa, Suécia, Suíça e Uruguai.

Emprego na Marinha do Brasil.
A utilização de veículos blindados sobre rodas no Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil (CFN) teve início em 1973, com a incorporação dos primeiros blindados Engesa EE-11 Urutu destinados a equipar o recém-criado Batalhão de Transporte Motorizado (BtlTrnpMtz). Três anos mais tarde, seria celebrado um contrato para a aquisição de seis veículos Engesa EE-9 Cascavel, classificados como "Carro de Combate Leve Sobre Rodas" (CCL-SR). Essas viaturas passaram a ser concentradas na Companhia de Viaturas Anfíbias do Batalhão de Transporte Motorizado, unidade subordinada diretamente ao Comando da Divisão Anfíbia. Entretanto, durante sua operação, constatou-se que essas viaturas apresentavam limitações significativas para as missões de desembarque anfíbio, principalmente em razão de sua tração sobre rodas, que comprometia a mobilidade em determinados tipos de terreno, especialmente nas faixas de praia. Apesar dessas restrições, tanto o EE-9 Cascavel quanto o EE-11 Urutu desempenharam papel fundamental na formação da doutrina de emprego de veículos blindados no Corpo de Fuzileiros Navais. Como solução para essas limitações operacionais, os EE-11 Urutu começaram a ser gradualmente substituídos, a partir de 1978, pelas novas Viaturas Blindadas Especiais Sobre Lagartas M-113A1 de Transporte de Pessoal. Dessa forma, a Marinha do Brasil passaria, temporariamente, a concentrar seus esforços no emprego de veículos blindados sobre esteiras junto à Força de Fuzileiros da Esquadra (FFE), reduzindo significativamente a utilização de blindados sobre rodas em suas unidades operativas. O retorno do interesse por uma viatura blindada sobre rodas ocorreria somente três décadas mais tarde, em decorrência da participação brasileira na Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (MINUSTAH), iniciada em 2004. Nesse contexto, os contingentes do Exército Brasileiro empregavam os blindados Engesa EE-11 Urutu em missões de patrulhamento, escolta e transporte de tropas em áreas urbanas dominadas por grupos armados. Nessas circunstâncias, os confrontos tornaram-se frequentes, expondo as viaturas a constantes ataques com armamento leve e médio. A experiência operacional adquirida no Haiti evidenciou a necessidade de adaptações nos veículos, entre elas a instalação de torres blindadas para proteção dos operadores de metralhadoras e o reforço da proteção do compartimento do motorista. Contudo, mesmo após essas modificações, tornou-se evidente que o sistema de blindagem original do EE-11 Urutu já não oferecia níveis adequados de proteção contra munições perfurantes modernas, especialmente em ambientes urbanos de alta intensidade. Diante desse cenário, surgiu a necessidade de substituir o emprego dessas veteranas viaturas nas áreas de maior risco por um modelo mais moderno, capaz de proporcionar maior proteção à integridade física dos militares brasileiros. Inicialmente, cogitou-se a utilização das viaturas blindadas de transporte de pessoal M-113 pertencentes tanto ao Exército Brasileiro quanto ao Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil. No entanto, em razão das precárias condições da infraestrutura viária haitiana e do potencial desgaste que os veículos sobre lagartas poderiam causar às vias urbanas, decidiu-se não empregar esse tipo de blindado na Área de Operações. Essa decisão levou à busca por uma plataforma blindada sobre rodas que reunisse elevada mobilidade, adequada proteção balística e reduzido impacto sobre a infraestrutura viária local, estabelecendo as bases para a incorporação de uma nova geração de veículos blindados.

Dessa forma, caberia à Marinha do Brasil identificar uma solução compatível com os requisitos operacionais então estabelecidos. Como não existiam, naquele momento, veículos blindados sobre rodas com configuração 8×8 e tecnologia de última geração produzidos pela indústria nacional, estudos passaram a ser conduzidos junto ao mercado internacional em busca de alternativas disponíveis. Nesse contexto, em novembro de 2005, teve início o processo de obtenção de uma nova Viatura Blindada Sobre Rodas (VBSR), que deveria reunir características consideradas essenciais, como elevado nível tecnológico, disponibilidade para pronta entrega, comprovada eficácia operacional e ampla utilização por forças armadas de outros países. Ressalta-se que um processo de aquisição dessa magnitude demandava a elaboração detalhada dos requisitos operacionais, bem como a observância rigorosa dos dispositivos legais que regulamentam licitações internacionais no âmbito da administração pública. No início de 2006 foi deflagrada a concorrência internacional, na qual a proposta apresentada pela Mowag GmbH, então integrante da General Dynamics European Land Systems, destacou-se pelos menores custos de aquisição e pelo reduzido prazo de entrega. O modelo selecionado foi o Piranha IIIC, culminando na celebração de um primeiro contrato para o fornecimento de quatro viaturas de transporte de pessoal e uma viatura de socorro, ao custo total de US$ 8.512.240,00. O acordo incluía ainda um completo pacote logístico, treinamento de tripulações e formação de equipes de manutenção. Na configuração adotada pelo Corpo de Fuzileiros Navais, a blindagem do Piranha IIIC oferecia proteção contra estilhaços de artilharia, minas antipessoal e projéteis de até 12,7 mm disparados a médias distâncias, podendo ainda receber módulos adicionais de blindagem para ampliação da proteção lateral. Em termos de poder de fogo, a viatura podia ser equipada com metralhadoras Browning M2HB calibre .50, FN MAG 7,62 mm, FN Minimi 5,56 mm ou lançadores automáticos de granadas LAG SB-M2 de 40 mm, todos instalados na estação de armas multifuncional Platt MR550 Basic Turret. Essa configuração permitia fornecer apoio de fogo direto à infantaria durante operações ofensivas, bem como executar fogos defensivos de interdição e flanqueamento sobre prováveis eixos de progressão inimigos. Apesar de se tratar de uma viatura sobre rodas, o Piranha IIIC demonstrava excelente mobilidade fora de estrada, graças à adoção do Sistema Central de Calibragem dos Pneus (Central Tire Inflation System – CTIS), que permitia ajustar automaticamente a pressão dos pneus conforme as características do terreno. Sua elevada mobilidade tática era complementada pela tração integral 8×8, pelos dois eixos direcionais e pelo potente conjunto motriz. A viatura era equipada com um motor diesel Caterpillar C9, desenvolvendo 400 hp de potência, o que lhe permitia atingir velocidades de até 100 km/h em estradas e autonomia aproximada de 800 quilômetros. Além disso, possuía capacidade anfíbia limitada para a travessia de pequenos cursos d'água, alcançando velocidades de até 10 km/h nesse ambiente. O conjunto era complementado por um eficiente sistema de ar-condicionado, proporcionando melhores condições de operação para a tripulação e para a tropa embarcada, especialmente em ambientes tropicais, ampliando significativamente as capacidades operacionais da Força de Fuzileiros da Esquadra (FFE).
As dimensões, peso, armamento e equipamentos de comunicações da versão de socorro eram essencialmente idênticos aos da variante de transporte de pessoal, incluindo a adoção dos sistemas NAP5-11 e LIRD. A viatura era guarnecida por quatro militares, sendo dois operadores e dois mecânicos especializados. Seu guincho principal possuía capacidade de tração de até 8 toneladas, podendo atingir 16 toneladas quando operado à frente e 7 toneladas à retaguarda. Já o guindaste hidráulico apresentava capacidade máxima de elevação de 3,75 toneladas, permitindo a realização de diversas tarefas de manutenção e recuperação em campo. As primeiras 04 viaturas foram oficialmente incorporadas ao Batalhão de Blindados de Fuzileiros Navais (BtlBldFuzNav) em 20 de agosto de 2007, permanecendo inicialmente subordinadas à Companhia de Viaturas Blindadas (CiaVtrBld). No início de 2008, foi recebida no Brasil a quinta viatura, correspondente à versão de socorro. Cabe destacar que todos os veículos foram entregues com o esquema de pintura integral na cor branca, padrão empregado pelas forças da ONU em operações de manutenção da paz. A disponibilidade de viaturas próprias trouxe importantes benefícios operacionais. Entre eles, destacou-se a ampliação das possibilidades de realização de adestramentos pré-operacionais ainda em território nacional, permitindo a familiarização das guarnições e da tropa embarcada com os procedimentos de emprego, manutenção e operação do novo sistema de armas. Anteriormente, as forças brasileiras dependiam frequentemente do apoio de blindados pertencentes a outros contingentes ou mesmo a outras nações participantes da missão, situação que gerava dificuldades relacionadas à interoperabilidade, comunicações e padronização de procedimentos. Como consequência, tornava-se necessária a realização constante de instruções e briefings específicos antes de cada operação, consumindo tempo valioso e reduzindo a eficiência das ações planejadas. Em fevereiro de 2008,  agora oficialmente designadas como Viatura Blindada Especial Sobre Rodas (VtrBldEspSR) 8×8 Piranha IIIC, foram embarcadas para o Haiti, destinadas a reforçar o Grupamento Operativo de Fuzileiros Navais-Haiti (GptOpFuzNav-Haiti) no âmbito da missão para a Estabilização do Haiti (MINUSTAH). Seu batismo operacional ocorreria em 8 de março de 2008, quando foram acionadas com urgência para apoiar operações de patrulhamento e reforço ao Ponto Forte 16, localizado em Cité Soleil, um dos bairros mais populosos e conflagrados da capital haitiana. Durante essa missão, participaram da evacuação de integrantes da Embaixada do Brasil que se encontravam no Aeroporto Internacional Toussaint Louverture, conduzindo-os em segurança para uma área protegida. Ainda naquele mesmo dia, 03 viaturas foram deslocadas para a região do Palácio Nacional, onde passaram a apoiar tropas brasileiras, jordanianas e integrantes da Polícia Nacional Haitiana, que enfrentavam uma grande manifestação popular. Os blindados estabeleceram um perímetro de proteção ao redor do objetivo, contribuindo para a contenção da situação e para a segurança.. A operação estendeu-se até o dia seguinte, com as viaturas desempenhando diversas missões de apoio, incluindo transporte de tropas, evacuação de feridos, reabastecimento de munição e proteção de pontos sensíveis. Nessas circunstâncias, demonstrou elevados índices de confiabilidade, mobilidade e proteção, proporcionando à tropa a capacidade de reagir com rapidez e segurança em um ambiente operacional  altamente instável.

A incorporação dessas viaturas blindadas  representou um importante incremento das capacidades operacionais brasileiras na MINUSTAH, e seu excelente desempenho  levaria a Marinha do Brasil a ampliar sua frota já em 2007, por meio da aquisição de mais 08 viaturas na versão de transporte de pessoal. Essas unidades seriam recebidas entre os anos de 2008 e 2009, possibilitando a implementação de um sistema de rodízio entre os veículos empregados no Haiti, reduzindo o desgaste operacional e garantindo elevados índices de disponibilidade. Mesmo antes do recebimento desse novo lote,  já havia definido que o Mowag Piranha IIIC 8×8 passaria a constituir o principal veículo blindado sobre rodas do Corpo de Fuzileiros Navais (CFN). Como consequência dessa decisão, em 28 de outubro de 2008 foi publicado no Diário Oficial da União o Extrato de Dispensa de Licitação referente ao Processo nº 10/08, oficializando a aquisição de mais 18 viaturas. Durante a fase de contratação foram solicitadas diversas customizações específicas, baseadas principalmente nas experiências operacionais acumuladas com os blindados  EE-11 Urutu. Entre elas destacava-se a instalação de uma bacia coletora de lona destinada a recolher os cartuchos ejetados durante o disparo das armas de bordo, minimizando os riscos de acidentes para os militares que eventualmente necessitassem deslocar-se sobre o teto da viatura durante as operações. Outra modificação importante consistiu na instalação de uma base metálica cilíndrica na lateral da estação de armas, destinada ao emprego de um holofote removível para operações urbanas noturnas. O equipamento deveria possuir bateria própria recarregável, permitindo até duas horas de operação autônoma, podendo posteriormente ser recarregado no interior da viatura. Das 18 viaturas adquiridas, 05 receberam um suplemento de blindagem balística para a estação de armas Allan Platt MR550, proporcionando proteção integral ao operador sem comprometer o emprego dos armamentos padrão da plataforma, incluindo a metralhadora Browning M2HB calibre .50, a metralhadora FN MAG calibre 7,62 mm e o lançador automático de granadas Santa Bárbara de 40 mm. Três veículos foram configurados com lâminas frontais do tipo "bulldozer", destinadas à remoção de obstáculos e abertura de passagens em ambientes urbanos. As demais viaturas passaram a receber de fábrica os pontos estruturais necessários para a futura instalação de um kit nacional de características semelhantes. A composição final do lote incluiu ainda duas viaturas de socorro, uma viatura ambulância  a primeira desse tipo incorporada por uma força militar na América Latina, caracterizada por seu casco elevado  e duas viaturas de comando, baseadas em configuração semelhante à empregada pelo Exército da Espanha. O modelo representou um significativo avanço nas capacidades de comando e controle, pois seu compartimento de Estado-Maior permitia a operação simultânea de até seis redes de comunicações em VHF, uma rede em HF e uma rede em VHF/UHF. Adicionalmente, uma estação de rádio VHF era dedicada exclusivamente à coordenação e ao controle dos demais veículos da força. Essa arquitetura de comunicações permitia plena interoperabilidade com meios navais, aeronavais e terrestres , possibilitando o emprego da viatura em operações de elevada complexidade. 
Complementando essas capacidades, as viaturas foram integradas ao sistema de navegação e posicionamento global (GPS) adotado pela Marinha do Brasil, permitindo a transmissão e recepção remota de dados de localização em tempo real. Essa capacidade revelou-se fundamental para a coordenação de forças dispersas, ampliando significativamente a consciência situacional e a eficiência operacional. O cronograma de entregas foi estabelecido para o período compreendido entre 2010 e 2014, com as viaturas sendo recebidas já no padrão de camuflagem tática empregado pelo Corpo de Fuzileiros Navais (CFN), diferentemente dos exemplares pertencentes ao primeiro e ao segundo lotes, que haviam sido fornecidos com a pintura branca característica dos veículos destinados às operações da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (MINUSTAH). Cabe destacar também o emprego dos Mowag Piranha IIIC VtrBldEspSR 8x8 em território nacional. Sua primeira participação ocorreu no final de 2008, durante a Operação Voto Livre, realizada no estado do Rio de Janeiro. Na ocasião, as viaturas integraram um Grupamento Operativo de Fuzileiros Navais (GptOpFuzNav) encarregado de prover segurança em áreas definidas pela Justiça Eleitoral, incluindo Vila do João, Comunidade do Salgueiro, São Gonçalo e o Complexo do Alemão, contribuindo para garantir a normalidade e a segurança do processo eleitoral. Em 2010, os blindados voltariam a atuar em um cenário de conflito urbano, durante as operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) conduzidas na Vila Cruzeiro e no Complexo do Alemão, na cidade do Rio de Janeiro. Nesse contexto, quatro viaturas foram empregadas, e as imagens dos Piranha IIIC ultrapassando barricadas e obstáculos erguidos por traficantes de drogas tornaram-se um dos símbolos mais marcantes da operação de retomada e ocupação dessas comunidades, então consideradas alguns dos principais redutos da organização criminosa conhecida como Comando Vermelho. Ao longo dos anos seguintes, foram intensamente empregados em exercícios operacionais conduzidos pela Marinha do Brasil, tanto de forma independente quanto em operações conjuntas com o Exército Brasileiro e a Força Aérea Brasileira. Em 2015, a empresa Ares Aeroespacial e Defesa Ltda. apresentou ao Batalhão de Blindados de Fuzileiros Navais (BtlBldFuzNav) uma proposta para a instalação do Sistema de Armas Remotamente Controlado (SARC) REMAX 3 em uma viatura Mowag Piranha IIIC VtrBldEspSR 8x8, com o objetivo de aumentar a eficiência e a segurança no emprego do armamento de autodefesa. Entretanto, como os veículos ainda se encontravam cobertos pela garantia do fabricante, não foi possível realizar uma integração completa e definitiva do sistema, uma vez que isso exigiria modificações estruturais no casco. Como solução provisória, a instalação foi realizada utilizando os pontos de fixação originalmente destinados ao lançador de granadas fumígenas. Embora essa configuração não proporcionasse a posição ideal para a operação do sistema, ela permitiu demonstrar a elevada versatilidade e adaptabilidade da plataforma. Apesar dos resultados positivos obtidos durante as avaliações, a proposta não teve prosseguimento, em razão das restrições contratuais impostas pelo fabricante, que vedavam a instalação de equipamentos ou acessórios não homologados durante o período de garantia.

Em Escala.
Para representarmos o Mowag Piranha IIIC VtrBldEspSR  8x8 pertencente ao Batalhão de Blindados de Fuzileiros Navais (BtlBldFuzNav) da Marinha do Brasil, fizemos uso de um kit experimental injetado em resina 3D a ser lançado pela Todo Modelismo na escala 1/35. Este modelo ainda necessita de ajustes, com muito do detalhamento sendo feito em scratch building. Fizemos uso de decais confeccionados pela Decals e Books presentes no set " Forças Armadas do Brasil".
O primeiro e segundo lotes recebidos portava o esquema padrão dos veículos a serviço das forças de paz da Organização das Nações Unidas (ONU), já as viaturas recebidas a partir de 2009 receberiam o padrão tático de camuflagem empregado em todas os veículos em uso Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil (CFN). Salientamos que existem diferenças entre os tons de tinta presentes na frota dos Mowag Piranha IIIC VtrBldEspSR  8x8 camuflados, indicando possivelmente o emprego de outros códigos FS ou fabricantes.
Bibliografia : 
- Mowag Piranha - www.tank-afv.com
- Fuzileiros Blindados - Operacional - http://www.operacional.pt/fuzileiros-blindados-i/
- Piranha IIIC Uma realidade no CFN  – Expedito Carlos Stephani Bastos-  https://www.ecsbdefesa.com.br
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