PT-19A/B e PT-3FG Fairchild M62

História e Desenvolvimento.
A Fairchild Aviation Corporation figura entre as mais emblemáticas fabricantes aeronáuticas da história do século XX. A empresa foi fundada em 1924 pelo visionário empreendedor norte-americano Sherman Fairchild, um prolífico industrial que, ao longo de sua vida, esteve diretamente envolvido na criação de mais de setenta empresas nos setores aeronáutico, fotográfico e eletrônico. Inicialmente estabelecida nas localidades de Farmingdale e East Farmingdale, no estado de Nova York, a Fairchild Aviation surgiu como a companhia-mãe destinada a coordenar e integrar os diversos interesses aeronáuticos de Fairchild, servindo como eixo central de um ambicioso conglomerado industrial. Desde seus primeiros anos, a empresa destacou-se pela inovação tecnológica. Entre suas realizações pioneiras esteve o desenvolvimento da Fairchild FC-1, reconhecida como a primeira aeronave norte-americana a incorporar uma cabine de pilotagem totalmente fechada, além de um sistema de trem de pouso com acionamento hidráulico  avanços significativos em uma época em que a maioria das aeronaves ainda operava com cockpits abertos e soluções mecânicas rudimentares. Essas inovações refletiam a preocupação da empresa com segurança, conforto e eficiência operacional, características que se tornariam marcas registradas de seus projetos. Dando continuidade à sua estratégia de crescimento e consolidação industrial, a Fairchild Aviation expandiu-se por meio da aquisição e incorporação de outras empresas relevantes do setor. Em 1925, integrou ao grupo a Caminez Engine Company, ampliando sua capacidade no desenvolvimento de motores aeronáuticos. Poucos anos depois, em 1929, adquiriu a Kreider-Reisner Aircraft Company, sediada em Hagerstown, no estado de Maryland, fortalecendo sua base produtiva e diversificando ainda mais seu portfólio de aeronaves. Em consonância com sua visão internacional e com a crescente demanda por aeronaves no mercado global, a Fairchild estabeleceu, ainda na década de 1920, sua primeira planta industrial fora dos Estados Unidos, criando a subsidiária Fairchild Aircraft Ltd. na cidade de Longueuil, na província de Quebec, Canadá. Essa unidade desempenharia papel fundamental na produção de aeronaves civis e militares, mantendo-se ativa até o início da década de 1950 e contribuindo significativamente para o esforço industrial norte-americano e aliado durante períodos críticos, como a Segunda Guerra Mundial. Além da FC-1, a Fairchild alcançou grande notoriedade com o lançamento do modelo Fairchild 71, uma aeronave projetada especificamente para missões de fotografia aérea. Diferentemente dos aviões então em serviço, o Fairchild 71 possuía desempenho e estabilidade suficientes para voar de forma contínua em altitudes mais elevadas, superando limitações operacionais que comprometiam a qualidade dos levantamentos fotográficos. Sua robustez, alcance e capacidade de carga rapidamente o tornaram um dos aviões mais populares de sua época. O prestígio do Fairchild 71 foi ainda reforçado por sua associação a feitos históricos, como sua utilização pelo explorador polar Richard E. Byrd durante a célebre expedição ao Polo Sul, realizada entre 1928 e 1929. Esse episódio projetou internacionalmente a reputação da empresa, demonstrando a confiabilidade de seus projetos em condições extremas. 

O reconhecimento governamental não tardaria: em 1935, a Fairchild firmou seu primeiro grande contrato oficial ao ser selecionada pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos para o desenvolvimento de pesquisas baseadas em fotografia aérea, destinadas ao mapeamento da erosão do solo e à análise de seus impactos ambientais. Nesse contexto de expansão e consolidação institucional, a empresa passou a adotar oficialmente a denominação Fairchild Aircraft Manufacturing Company, reafirmando sua posição de destaque na indústria aeronáutica norte-americana. Apesar de deter uma participação relevante no mercado civil norte-americano especialmente no segmento de aeronaves destinadas ao treinamento básico e a usos utilitários, a presença da empresa no setor militar permanecia até o final da década de 1930, relativamente modesta. Sua atuação restringia-se, em grande medida, ao fornecimento de componentes e subconjuntos para outros fabricantes responsáveis pela produção de aeronaves militares destinadas as forças armadas. Tal cenário, contudo, começaria a se transformar à medida que o poder aéreo assumia papel central no pensamento estratégico das forças armadas norte-americanas, em um contexto internacional marcado pela crescente instabilidade política e militar que precedeu a Segunda Guerra Mundial. Naquele período, o treinamento básico dos futuros pilotos do Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (United States Army Air Corps – USAAC) era realizado quase exclusivamente com o emprego dos biplanos Boeing PT-17 Stearman. Embora robusta e confiável, essa aeronave apresentava uma concepção já ultrapassada, típica da aviação dos anos 1920. Seus comandos dóceis e comportamento previsível facilitavam o aprendizado inicial, mas não exigiam dos cadetes o desenvolvimento pleno das habilidades de pilotagem avançadas que seriam indispensáveis na operação das modernas aeronaves de combate, cada vez mais rápidas, pesadas e complexas. A percepção dessa lacuna formativa levou o comando militar, em 1939, a reconhecer a necessidade urgente de substituir seus obsoletos treinadores biplanos por uma aeronave mais representativa das características de voo dos caças e bombardeiros contemporâneos. Assim, ainda naquele ano, foi lançada uma concorrência oficial para o desenvolvimento de um novo treinador básico: um monomotor monoplano de asa baixa, capaz de oferecer aos futuros pilotos uma progressão gradual de aprendizado, estimulando o domínio de técnicas mais refinadas de controle, navegação e consciência situacional. Como requisito fundamental, a nova aeronave deveria apresentar baixos custos de aquisição, operação e manutenção, refletindo a necessidade de produção em larga escala em um cenário de rápida expansão das forças aéreas. O certame despertou grande interesse na indústria aeronáutica norte-americana. Oito fabricantes responderam ao chamado, submetendo um total de dezoito propostas distintas de aeronaves de treinamento. Entre os concorrentes encontrava-se a Fairchild Aircraft Manufacturing Company, que apresentou o modelo M-62. Diferentemente de algumas propostas concebidas exclusivamente para a competição, este modelo era fruto de um esforço de desenvolvimento interno da empresa, financiado com recursos próprios. 
Seus estudos preliminares haviam sido iniciados ainda em 1933, sob a liderança do engenheiro-chefe Armand Thiebolt, e tinham como princípios fundamentais o emprego de componentes mecânicos amplamente disponíveis no mercado, com elevada intercambiabilidade, bem como a utilização de materiais não estratégicos, reduzindo custos e facilitando a produção em grande escala. O primeiro protótipo do Fairchild M-62 realizou seu voo inaugural em 15 de maio de 1939, a partir das instalações da empresa em Hagerstown, no estado de Maryland. A aeronave era propulsionada por um motor Fairchild Ranger L-440, de seis cilindros em linha e 175 cavalos de potência, combinação que oferecia desempenho adequado às exigências do treinamento inicial, ao mesmo tempo em que mantinha a simplicidade mecânica e a confiabilidade desejadas pelo Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC). Esse voo inaugural marcaria o início de um processo que não apenas redefiniria o papel da Fairchild no setor militar, mas também contribuiria de forma decisiva para a formação de toda uma geração de pilotos militares norte-americanos. Todas as propostas apresentadas foram submetidas a um amplo e rigoroso programa de avaliações comparativas e ensaios em voo, conduzidos sob a supervisão militar. Ao término desse processo, a decisão final recaiu sobre o modelo M-62, desenvolvido pela Fairchild Aircraft Manufacturing Company, considerado o mais equilibrado em termos de desempenho, custo, robustez e adequação pedagógica às exigências do treinamento militar moderno. A aeronave selecionada era um monomotor biplace, com assentos dispostos em tandem e cockpit aberto, adotando uma configuração monoplana de asa baixa cantiléver — uma solução contemporânea que aproximava o aluno das características de voo dos caças então em desenvolvimento. O trem de pouso fixo, de bitola ampla, aliado ao tradicional volante de cauda, proporcionava excelente estabilidade durante as operações em solo, reduzindo a incidência de acidentes nas fases mais críticas do aprendizado. Seu projeto estrutural refletia uma filosofia de simplicidade aliada à robustez. A fuselagem era construída em tubos de aço soldados, revestidos em tecido, enquanto as asas e superfícies de cauda empregavam extensivamente compensado de madeira. A seção central das asas possuía revestimento em madeira compensada, assim como os painéis externos e a estrutura da empenagem. Essa solução construtiva, além de resistente, permitia a utilização de materiais não estratégicos, aspecto considerado fundamental diante da crescente mobilização industrial norte-americana. A propulsão ficava a cargo do motor Ranger L-440-3, com seis cilindros em linha invertido, com potência inicial de 175 hp. Essa configuração proporcionava uma seção frontal estreita, garantindo excelente visibilidade para instrutor e aluno uma característica altamente valorizada em uma aeronave de treinamento básico. O conjunto, aliado ao trem de pouso robusto e amplamente espaçado, resultava em uma plataforma estável e previsível, ideal para a formação inicial de pilotos militares. Em 22 de setembro de 1939, foi celebrado o primeiro contrato oficial entre a Fairchild Aircraft Manufacturing Company e o Exército dos Estados Unidos (U.S Army), prevendo a aquisição de 270 aeronaves.  

Em virtude do elevado emprego de madeira em sua estrutura, o acordo envolveu uma ampla rede de subcontratações, abrangendo 27 empresas especializadas em marcenaria, fábricas de móveis e indústrias correlatas, além de uma fundição dedicada à produção dos componentes metálicos. Essa estratégia não apenas acelerou a produção como também contribuiu para a mobilização do parque industrial civil em apoio ao esforço de defesa nacional. As primeiras aeronaves começaram a ser entregues às escolas de aviação em meados de 1940, recebendo a designação militar PT-19. Rapidamente, o modelo conquistou a confiança e a simpatia tanto dos instrutores quanto dos alunos, destacando-se por suas qualidades de voo, resistência estrutural e baixo custo operacional. O sucesso inicial levou, naturalmente, à intenção de formalizar novas encomendas. Entretanto, o agravamento da situação internacional com a intensificação da guerra na Europa e o avanço do expansionismo japonês no Sudeste Asiático impôs uma aceleração sem precedentes nos programas de fortalecimento das forças armadas norte-americanas. Nesse contexto, o poder aéreo assumiu papel central, ampliando de forma exponencial a necessidade de formação de pilotos militares. Como resposta direta a essa demanda urgente, em janeiro de 1941 foi firmado um contrato emergencial para a produção de mais de 3.000 aeronaves da versão aprimorada PT-19A, agora equipadas com o motor Ranger L-440-3 de 200 hp, consolidando definitivamente o treinador da Fairchild como um dos pilares da formação aérea dos Estados Unidos às vésperas da Segunda Guerra Mundial. A capacidade industrial instalada da Fairchild Aircraft Manufacturing Company revelou-se insuficiente para atender, nos prazos estipulados, ao ambicioso cronograma de entregas imposto pela rápida expansão do programa de treinamento aéreo norte-americano. Diante dessa limitação, decidiu-se pelo licenciamento da produção da aeronave a outras empresas do setor, entre elas a Howard Aircraft Corporation, a St. Louis Aircraft Corporation, a Aeronca Aircraft e, por fim, a fabricante canadense Fleet Aircraft. Essa medida permitiu a rápida ampliação da capacidade produtiva, ao mesmo tempo em que integrava diferentes polos industriais ao esforço de mobilização aeronáutica aliado. Paralelamente, a crescente necessidade de capacitar os futuros pilotos para o voo por instrumentos uma habilidade cada vez mais essencial em um cenário operacional moderno e de guerra total levou à adaptação de parte da linha de produção. Inicialmente, seis aeronaves foram convertidas mediante a incorporação de uma capota de lona móvel, que podia ser estendida sobre o cockpit dianteiro, permitindo que o cadete realizasse o voo completamente sem referências externas, orientando-se exclusivamente pelos instrumentos de bordo. Essa variante experimental demonstrou desempenho plenamente satisfatório e passou a ser designada PT-19B. O sucesso do conceito resultou na adoção da versão para produção em série, conduzida pela Fairchild Aircraft Manufacturing Company e pela Aeronca Aircraft, totalizando cerca de 900 aeronaves construídas nessa configuração. Com frequência, o PT-19B é confundido com o PT-26, embora se trate de modelos distintos. O PT-26 foi desenvolvido especificamente para as Forças Armadas Canadenses e possuía cabine de pilotagem totalmente fechada, uma adaptação voltada a oferecer maior conforto e proteção às tripulações, especialmente em função das severas condições climáticas predominantes no Canadá. 
À medida que a produção das células passou a superar a disponibilidade de motores Ranger em linha, a equipe de engenharia desenvolveu uma nova variante, designada PT-23. Essa versão era equipada com o motor radial Continental R-670, com potência de 220 hp, solução que permitiu manter o ritmo de entregas sem comprometer a padronização do treinamento. No total, foram produzidas 869 aeronaves do modelo PT-23 e outras 250 da versão PT-23A, esta última adaptada especificamente para o treinamento de voo por instrumentos. Todas essas unidades foram construídas pelas linhas de montagem das empresas originalmente envolvidas no programa de produção da família PT-19. Entretanto, em 1943, o Comando de Treinamento passou a registrar um número crescente de reclamações relacionadas à durabilidade das asas de compensado dos modelos PT-19 e PT-23. Os problemas tornaram-se particularmente evidentes nas bases de treinamento localizadas nos estados do Texas e da Flórida, onde as aeronaves eram submetidas a elevadas temperaturas e altos índices de umidade. Nessas condições, verificaram-se casos recorrentes de deterioração da madeira, apodrecimento estrutural e separação das camadas de compensado. Como solução paliativa, adotou-se a substituição periódica das seções de asa em madeira após apenas dois a três meses de serviço ativo. Comparado aos antigos treinadores biplanos anteriores, o Fairchild PT-19 pode ser considerado um divisor de águas, pois pela primeira vez no estágio de treinamento básico os cadetes tinham acesso a uma aeronave de bom desempenho em altas velocidades e o carregamento das asas aproximava-se mais do das aeronaves de combate, com as características de voo exigindo mais precisão e cuidado, resultando assim na formação das habilidades e melhor rendimento dos alunos.  Desta maneira ao longo do conflito, o PT-19 realmente faria jus ao seu apelido, o "Berço dos Heróis". Suas principais virtudes estavam baseadas em sua simplicidade, baixo custo de aquisição e operação além de confiabilidade e segurança em voo. Vale citar que os Fairchild PT-19 foram a principal aeronave de treinamento das Mulheres Pilotos de Serviço da Força Aérea - WASP (Women's Airforce Service Pilots), organizações civis destinadas especificamente a formação de aviadoras, principalmente entre os anos de 1942 a 1944, liberando assim os homens para atuar nas missões de combate. Suas características positivas como treinador básico seriam notadas por outros países, sendo inclusive produzido sob licença no Canada e Brasil, com o objetivo de se desafogar as linhas de produção norte-americanas durante o conflito. Ao todo seriam entregues 7.742 unidades dispostas em dez versões, que seriam empregadas pelas forças aéreas dos. Estados Unidos, Canada, Brasil, Chile, China, Colômbia, Equador, Haiti, Índia, México, Nicarágua, Noruega, Paraguai, Peru, Filipinas, África do Sul, Rodésia, Reino Unido, Venezuela e Uruguai. Mesmo após sua aposentadoria no final da década de 1940, um número substancial encontraria seu caminho no meio civil, atualmente existem ainda centenas de aeronaves em condições de voo sendo mantidas por museus ou colecionadores. 

Emprego na Força Aérea Brasileira.
No início da Segunda Guerra Mundial, o governo norte-americano passaria a considerar com extrema preocupação uma possível ameaça de invasão no continente americano por parte das forças do Eixo (Alemanha – Itália – Japão). Quando a França capitulou em junho de 1940, o perigo nazista a América se tornaria claro se este país estabelecer bases operacionais nas ilhas Canárias, Dacar e outras colônias francesas. Neste contexto o Brasil seria o local mais provável de invasão ao continente pelas potencias do Eixo, principalmente devido a sua proximidade com o continente africano que neste momento também passava a figurar nos planos de expansão territorial do governo alemão. Além disso, no início da Segunda Guerra Mundial, o governo dos Estados Unidos passou a encarar com crescente apreensão a possibilidade de uma ameaça direta ao continente americano, decorrente de uma eventual expansão das potências do Eixo — Alemanha, Itália e Japão para o hemisfério ocidental. A capitulação da França, em junho de 1940, representou um ponto de inflexão decisivo nesse cenário, ao evidenciar o risco concreto de que forças alemãs viessem a utilizar possessões francesas estratégicas, como as ilhas Canárias, Dacar e outras colônias no Atlântico e na África, como bases avançadas de operações. Nesse contexto, o Brasil passou a ser identificado como o ponto mais vulnerável para uma eventual tentativa de penetração do Eixo no continente sul-americano. Tal percepção decorria, sobretudo, de sua posição geográfica privilegiada, marcada pela relativa proximidade entre o Nordeste brasileiro e a costa ocidental africana região que, naquele momento, também figurava nos planos de expansão territorial e estratégica do governo alemão. A curta distância entre os dois continentes transformava o litoral nordestino em um elo natural entre os teatros de operações do Atlântico, da África e da Europa. Somava-se a essa vulnerabilidade estratégica a relevância econômica do Brasil no esforço de guerra aliado. Com o avanço japonês no Sudeste Asiático e no Pacífico Sul, as tradicionais fontes de látex matéria-prima essencial para a produção de borracha tornaram-se inacessíveis. Nesse cenário, o Brasil emergiu como o principal fornecedor desse insumo vital para a indústria de guerra aliada, reforçando ainda mais sua importância geopolítica e logística. Do ponto de vista militar e operacional, a extensa costa brasileira assumiu papel central na estratégia aliada. O litoral do Nordeste, em especial, apresentava condições ideais para o estabelecimento de bases aéreas e a operação de portos estratégicos, fundamentais para o translado de tropas, aeronaves, veículos e suprimentos rumo aos teatros de operações europeu e norte-africano. Tratava-se, na prática, do ponto de ligação aérea mais curto entre as Américas e o continente africano, conferindo ao Brasil um papel logístico insubstituível. Esse conjunto de fatores levou, de forma quase imediata, a um processo de intensificação das relações políticas, econômicas e militares entre o Brasil e os Estados Unidos. Tal aproximação materializou-se por meio de uma série de acordos de cooperação e investimentos estratégicos, entre os quais se destacou a adesão brasileira ao programa de ajuda militar conhecido como Lend-Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos). O principal objetivo desse programa era promover a modernização das Forças Armadas Brasileiras, que à época se encontravam próximas da obsolescência, tanto no que se referia a equipamentos e armamentos quanto, de forma igualmente crítica, à doutrina operacional. 

Os termos estabelecidos pelo acordo garantiram ao Brasil uma linha inicial de crédito da ordem de 100 milhões de dólares, destinada à aquisição de material bélico moderno. Por meio desses recursos, o país passou a ter acesso a aeronaves, armamentos, veículos militares, blindados e carros de combate compatíveis com os padrões tecnológicos então vigentes nas forças aliadas. Tal aporte revelou-se essencial para capacitar o Brasil a enfrentar as crescentes ameaças representadas pelas ações de submarinos alemães contra a navegação civil e militar ao longo de seu vasto litoral. No âmbito do poder aéreo, a recém-criada Força Aérea Brasileira (FAB) figurava como o ramo das Forças Armadas que mais urgentemente demandava modernização. Sua frota era composta, em grande medida, por aeronaves já obsoletas, e carecia, de forma particularmente crítica, de meios adequados para o treinamento básico e avançado de pilotos. Tal deficiência comprometia não apenas a formação quantitativa de aviadores militares, mas, sobretudo, a qualidade técnica necessária à consolidação de uma força aérea moderna, eficiente e apta a responder às exigências impostas pelo contexto da guerra. No que se refere às aeronaves de instrução disponíveis à época, o quadro era limitado e heterogêneo. Encontravam-se em serviço pequenas quantidades de modelos como os Stearman Boeing A75, A76 e B76, os De Havilland DH-60T Moth Trainer e DH-82 Tiger Moth, o alemão Focke-Wulf FW-44J Stieglitz, além de pouquíssimas aeronaves de concepção mais moderna, como os North American BT-9 e NA-72. Esse conjunto era claramente insuficiente para sustentar um programa abrangente de formação de pilotos militares, especialmente diante da expansão acelerada das necessidades operacionais. Esse cenário começou a ser gradualmente revertido a partir de meados de 1942, quando o programa de apoio militar norte-americano passou a prever a entrega, em lotes sucessivos, de grandes quantidades de aeronaves de treinamento básico e avançado ao Brasil. No pacote inicial desse esforço de modernização estava incluídas cem células novas de fábrica do Fairchild PT-19 Cornell, destinadas ao emprego na instrução primária de voo. Entretanto, o desafio de transferir essas aeronaves para o território brasileiro revelou-se de elevada complexidade. O agravamento da Batalha do Atlântico, marcado pela intensificação das ações de submarinos alemães e italianos, tornava extremamente arriscado e, em muitos casos, inviável o transporte marítimo das aeronaves desmontadas. Diante dessa ameaça, optou-se por uma solução audaciosa: todas as aeronaves seriam trasladadas em voo desde os Estados Unidos, a partir das instalações do fabricante, até o Brasil, sendo pilotadas por oficiais da própria Força Aérea Brasileira (FAB). Tratava-se, sem dúvida, de uma missão de altíssimo risco. Na década de 1940, a infraestrutura aeronáutica na América Central e no norte da América do Sul era bastante precária. Existiam poucos campos de pouso adequados, os auxílios rádio à navegação eram escassos ou inexistentes, e o suporte logístico e de manutenção ao longo da rota era extremamente limitado. Ademais, o Fairchild PT-19, concebido para o treinamento primário, não era uma aeronave ideal para uma travessia de tal envergadura. Construído em grande parte em madeira, o modelo possuía cockpit aberto, oferecendo reduzido conforto à tripulação, além de apresentar autonomia limitada.
Essas restrições eram ainda agravadas por um fator adicional: o motor Ranger L-440, de seis cilindros em linha invertida, consumia quantidades consideráveis de óleo lubrificante. Em um percurso longo e repleto de incertezas, no qual os pontos de reabastecimento eram raros e pouco estruturados, a disponibilidade desse insumo tornava-se um elemento crítico para o sucesso da missão. Ainda assim, conscientes da importância estratégica daquela transferência, os aviadores brasileiros assumiram o desafio, demonstrando elevado grau de coragem, profissionalismo e comprometimento com a consolidação da aviação militar nacional. Assim, as aeronaves recebidas nas instalações da Fairchild Aircraft Manufacturing Company, na cidade de Hagerstown, Maryland, eram normalmente organizadas em esquadrilhas compostas por cinco aviões, cada qual pilotado por um único oficial aviador da Força Aérea Brasileira (FAB). Na seção dianteira da fuselagem  junto à nacele do motor  era instalado um tanque suplementar de combustível, medida indispensável para ampliar o alcance operacional do pequeno treinador e viabilizar as longas etapas do translado. A cada uma dessas primeiras esquadrilhas era incorporada uma aeronave de apoio do tipo Fairchild UC-61, monomotor de asa alta e cabine fechada, com capacidade para quatro tripulantes. Nesse avião de acompanhamento viajavam o comandante da esquadrilha, um sargento mecânico e um piloto reserva, além de ferramentas básicas e suprimentos indispensáveis à manutenção de campanha. A quantidade de bagagem transportada era deliberadamente reduzida, uma vez que parte significativa da capacidade disponível precisava ser destinada ao transporte de latas de óleo lubrificante, item crítico para o funcionamento dos motores Ranger L-440. Entre os meses de julho e agosto de 1942, trinta aeronaves Fairchild PT-19 foram trasladadas em voo desde Hagerstown até o Campo dos Afonsos, no Rio de Janeiro, seguindo uma rota que atravessava a América Central continental e acompanhava o litoral norte da América do Sul. À época, sobrevoar o interior da Amazônia era praticamente inviável, em razão da inexistência de campos de pouso, da precariedade das comunicações e das severas limitações de navegação aérea na região. Essas primeiras esquadrilhas protagonizaram uma travessia verdadeiramente épica. O Brasil encontrava-se às vésperas de sua entrada formal na guerra, e não havia margem para postergar a missão à espera de condições meteorológicas mais favoráveis. As etapas foram realizadas sob circunstâncias climáticas extremamente adversas. Enquanto as aeronaves voavam sobre o território dos Estados Unidos, predominavam massas de ar quente e seco, com extensas áreas cobertas por névoa seca. A partir da América Central, contudo, o cenário mudava drasticamente: o ar tornava-se permanentemente úmido, com formação frequente de nuvens do tipo cumulonimbus e sucessivas pancadas de chuva, condições que se estenderiam até o litoral brasileiro e o Rio de Janeiro. Os pilotos brasileiros voavam em cockpits totalmente abertos, protegidos apenas por capacetes de couro e óculos de aviação, enfrentando longas horas de voo sob chuva, turbulência e calor intenso. Nos Estados Unidos, ainda era possível obter previsões meteorológicas relativamente confiáveis para a etapa seguinte. Entretanto, a partir do México e, sobretudo, na América Central, os voos eram realizados praticamente às cegas do ponto de vista meteorológico, sem qualquer garantia quanto às condições que seriam encontradas adiante. 

Os campos de pouso disponíveis ao longo da rota eram escassos e muito distantes entre si, e quase inexistiam aeródromos intermediários de alternativa. Em inúmeras etapas, após percorrida aproximadamente metade da distância prevista, tornava-se impossível retornar ao ponto de origem, pois o combustível restante já não permitia o regresso. Nessas circunstâncias, a única opção era prosseguir, independentemente do tempo à frente ou de eventuais problemas mecânicos. Não por acaso, oficiais do Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC), ao tomarem conhecimento da intenção dos aviadores brasileiros de trasladar os Fairchild PT-19 em voo até o Brasil, fizeram previsões sombrias. Segundo suas estimativas, ao menos 40% das aeronaves ficariam pelo caminho, vítimas das condições imprevisíveis e das limitações inerentes a um avião de treinamento primário, claramente não concebido para deslocamentos de tão longa distância. O sucesso dessas travessias, portanto, representaria não apenas uma vitória logística, mas também um testemunho eloquente da determinação e da coragem dos pilotos brasileiros naquele momento decisivo de sua história aeronáutica. Embora o risco da viagem fosse óbvio, houve problemas de diversa ordem, com várias aeronaves realizando pousos emergências em praias, à espera de condições meteorológicas mais favoráveis. Apesar de todos os prognósticos negativos, só houve uma perda de vida em todas as viagens durante esta megaoperação de translado aéreo: o Primeiro-Tenente Aviador QO Auxiliar Kenneth Lindsay Molineaux, acidentou-se com o seu Fairchild PT-19 quando sobrevoava o Território do Amapá, sob forte chuva. O seu avião chocou-se com as árvores, sendo totalmente destruído. Além dessa aeronave, houve somente mais duas perdas de aviões Fairchild PT-19, mas ambos os pilotos sobreviveram. Isso dá um índice de perda de menos de 3 % do total de cento e seis aeronaves, que foram transladadas em voo dos Estados Unidos ao Brasil, durante toda a Segunda Guerra Mundial. Os motores Ranger L-440 por sua vez, revelaram-se extremamente confiáveis, ocorrendo relativamente, pouca incidência de panes de motor. As perdas de outros tipos de aeronaves em outros traslados seriam ainda menores, furando as terríveis previsões iniciais dos oficiais norte-americanos.  Esses primeiros voos eram feitos em 46 etapas, da fábrica até os Afonsos: Hagerstown, Washington, Greensboro, Atlanta, Mobile, New Orleans, Beaumont, San Antonio, Brownsville, Tampico (México), Vera Cruz, Minatitlan, Tapacula, El Salvador, Manágua (Nicarágua), San Jose da Costa Rica, Golfito, David, Rio Hato, Turbo (Colômbia), Barranquilha, Maracaibo (Venezuela), Coro, La Guaíra, Barcelona, Ciudad Bolivar, Tumereno, Georgetown (Guiana Inglesa), Panamaribo (Guiana Holandesa), Caiena (Guiana Francesa), Oiapoque (Brasil), Amapá, Macapá, Belém, Bragança, São Luiz, Parnaíba, Fortaleza, Mossoró, Natal, Recife, Maceió, Salvador, Ilhéus, Caravelas, Vitória, e, finalmente, Rio de Janeiro (Campo dos Afonsos). Essas etapas eram cumpridas, normalmente, com 110 horas de voo, quinze mil quilometros, percorridos e em 25 dias de missão. A partir de 1943, a viagem ficou mais curta, pois todos os aviões destinados ao Brasil passaram a ser entregues em Kelly Field, em San Antonio, Texas. 
Logo após a chegada das primeiras esquadrilhas ao Brasil, os Fairchild PT-19  foram destinados à Escola de Aeronáutica (EAer), sediada no tradicional Campo dos Afonsos, na cidade do Rio de Janeiro. Ali passaram a desempenhar papel central no estágio básico de formação dos futuros pilotos militares da recém-criada Força Aérea Brasileira, em um momento em que a consolidação da instrução aérea representava uma prioridade estratégica nacional. A exemplo do que ocorrera nas instituições de ensino do Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC), o Fairchild PT-19 rapidamente conquistou a confiança de alunos e instrutores brasileiros. Sua robustez estrutural, comportamento previsível em voo e adequação às exigências do treinamento primário despertaram o interesse do Ministério da Aeronáutica (MAer) na ampliação da frota disponível. Nesse contexto, foram iniciadas negociações com o governo norte-americano que culminariam na obtenção de uma licença para a produção da aeronave em território nacional. O programa industrial foi direcionado às instalações da Fábrica do Galeão, no Rio de Janeiro, marco inicial da indústria aeronáutica militar brasileira. O plano previa a montagem de vinte aeronaves de pré-série com componentes integralmente importados. Nos lotes subsequentes, adotou-se uma política de nacionalização progressiva, com o objetivo de produzir localmente a maior parte dos componentes  à exceção do motor Ranger L-440  reduzindo a dependência externa e fomentando o desenvolvimento tecnológico e industrial do país. Após os necessários ajustes de ferramental e processos produtivos, a fabricação teve início em 1944, estendendo-se até meados de 1947. Ao longo desse período, foram entregues 234 aeronaves, que receberam a designação local de 3-FG (Modelo 3 – Fábrica do Galeão). Em anos posteriores, uma solução técnica desenvolvida no próprio país resultou na adoção de uma cabine fechada, visando maior conforto e proteção aos tripulantes; essas aeronaves passaram a ser designadas como T-19. Durante toda a sua carreira operacional, os Fairchild PT-19 e PT-3FG foram responsáveis pela formação de mais de 2.500 pilotos militares brasileiros, desempenhando papel decisivo na consolidação da doutrina de instrução aérea no pós-guerra. Contudo, a partir de meados da década de 1950, tornou-se evidente a necessidade de substituição do modelo por aeronaves de concepção mais moderna, capazes de atender às novas exigências operacionais e pedagógicas. Essa demanda conduziu à criação de um novo programa de produção sob licença de um treinador primário mais avançado, culminando na contratação para a fabricação dos modelos holandeses Fokker S.11 e S.12. O avanço desse projeto determinou, a partir de 1956, o início do processo de retirada gradual dos Fairchild PT-19 do serviço ativo, processo este que se encerraria em 1963. Nessa fase final, as células em melhor estado de conservação foram transferidas ao Departamento de Aviação Civil (DAC), para posterior doação a aeroclubes distribuídos por todo o território nacional. Cabe ao Fairchild PT-19 e à sua variante nacional PT-3FG o registro histórico de terem sido as aeronaves militares empregadas em maior número pela Força Aérea Brasileira (FAB), alcançando a expressiva marca de 404 células incorporadas ao longo de sua trajetória, um testemunho inequívoco de sua relevância na formação da aviação militar brasileira.

Em Escala.
Para representarmos o Fairchild PT-19B "FAB 0310" pertencente a Escola de Aeronáutica (EAer), fizemos uso do kit em resina na escala 1/48 do fabricante GIIC Models. Modelo este que apresenta facilidade de montagem e opções de detalhamentos interessantes, procedemos como alteração apenas a inclusão dos tripulantes. Empregamos decais confeccionados pela GIIC Models, com numerais que permitem montar três aeronaves empregadas pela  Escola de Aeronáutica (EAer).
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o  segundo padrão de aeronaves de instrução empregadas pela Escola de Aeronáutica (EAer), salientando que as primeiras células recebidas ostentavam  um padrão de pintura em metal natural. Já todas as aeronaves produzidas no Brasil receberam este esquema de pintura. Registros fotográficos apresentam pequenas alterações neste padrão, como a inclusão de identificação numérica de esquadrilhas de adestramento e  marcações tipo "Shark Mouth" (bocas de tubarão).

Bibliografia :
- Fairchild PT-19 - Wikipedia - http://en.wikipedia.org/wiki/Fairchild_PT-19
- História da Força Aérea Brasileira, Prof Rudnei Dias Cunha- http://www.rudnei.cunha.nom.br/FAB/index.html
- Aeronaves Militares Brasileiras  1916 – 2015 Jackson Flores Jr
- Fairchild  M-62 Cornell | Fábrica do Galeão – Brasil - https://www2.fab.mil.br/musal/
- A grande epopéia dos PT-19 - https://culturaaeronautica.blogspot.com/2010/12/grande-epopeia-dos-pt-19-da-fab-25-dias.html