T-23 Aerotec Uirapuru

História e Desenvolvimento.
O marco inicial da construção aeronáutica no Brasil remonta a 1910, com a concepção do denominado “Avião São Paulo”, considerado a primeira aeronave integralmente projetada e construída em território nacional. O projeto contou com a colaboração de Alberto Santos-Dumont, cuja projeção internacional já se encontrava consolidada em razão de suas realizações com o 14-bis e o Demoiselle. Em parceria com o aviador francês Dimitri Sensaud de Lavaud, a aeronave foi construída na região de Osasco, realizando seu voo inaugural em 7 de janeiro de 1910. Ainda que rudimentar sob o ponto de vista técnico, o empreendimento simbolizou o esforço inicial do país em acompanhar o acelerado desenvolvimento da aviação mundial. Todavia, a carência de infraestrutura industrial e de financiamento adequado impediu sua continuidade em escala produtiva. O término da Primeira Guerra Mundial trouxe novo impulso ao setor aeronáutico em âmbito global, criando condições para o surgimento de iniciativas mais estruturadas também no Brasil. Nesse cenário, destacou-se a atuação do industrial Henrique Lage, que, em 1927, fundou a Companhia Nacional de Navegação Aérea (CNNA), no Rio de Janeiro. A criação da CNNA representou um avanço significativo ao estabelecer as bases da produção industrial de aeronaves e motores no país, superando a fase predominantemente artesanal que caracterizara os esforços anteriores. Ainda que em escala limitada, a empresa produziu aeronaves voltadas tanto ao mercado interno quanto a contratos externos, marcando o início de uma incipiente capacidade industrial aeronáutica nacional. A década de 1920 foi marcada por iniciativas que buscavam consolidar essa capacidade. Em 1920, foi concluído o biplano “Rio de Janeiro”, um monomotor inspirado no Caudron G.3, desenvolvido nas oficinas de Henrique Lage sob a liderança do capitão francês Etienne Lafay e do engenheiro Braconnot. O projeto representou um dos primeiros esforços de adaptação tecnológica às condições locais, com o uso de materiais disponíveis no país. Em 1922, outro marco relevante foi o voo inaugural do biplano bimotor “Independência”, também concebido por Lafay, cuja configuração trator-empurrador e emprego de motores rotativos  já então considerados obsoletos  evidenciavam tanto a criatividade quanto as limitações tecnológicas enfrentadas. Apesar de demonstrarem potencial técnico, ambos os projetos não avançaram para a produção em série, refletindo a ausência de uma política industrial consistente e de incentivos governamentais estruturados. A década de 1930 representaria uma inflexão nesse processo, com o surgimento de propostas mais alinhadas a uma visão estratégica de desenvolvimento. Nesse contexto, destacou-se a atuação do engenheiro Guedez Muniz, que, após formação na Europa, retornou ao Brasil em 1931 trazendo consigo a perspectiva de criação de uma indústria aeronáutica autônoma e tecnicamente consistente. Muniz defendia a utilização de recursos nacionais  como madeiras, ligas metálicas e alumínio  associada à necessidade de apoio estatal por meio de incentivos à pesquisa, ao desenvolvimento e à produção. Sua atuação simboliza a transição de iniciativas isoladas e experimentais para um esforço mais estruturado de construção de uma base industrial aeronáutica no Brasil.

Em 1935, o engenheiro Guedez Muniz liderou, no Campo dos Afonsos, a construção de dois protótipos do treinador biplano Muniz M-7, então uma das principais iniciativas nacionais voltadas à formação de pilotos militares. Esse projeto constituiu um marco relevante ao incorporar, de forma deliberada, componentes produzidos no Brasil, como ligas metálicas aplicadas ao trem de pouso e revestimentos têxteis nas asas, evidenciando uma preocupação crescente com a nacionalização de insumos e a redução da dependência externa. No ano seguinte, em 1936, a Companhia Nacional de Navegação Aérea, sob a direção de Henrique Lage, assumiu a produção do M-7, entregando os primeiros exemplares de uma série que totalizaria 26 aeronaves. Tal realização é frequentemente apontada como a primeira produção em série de aeronaves no Brasil, consolidando, ainda que em escala inicial, a capacidade industrial do país e demonstrando o potencial da articulação entre iniciativa privada e apoio governamental. Paralelamente, o ano de 1936 também foi significativo pela implantação das Oficinas Gerais da Aviação Naval, na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro, estrutura que posteriormente se tornaria conhecida como Fábrica do Galeão. Esse complexo industrial viria a desempenhar papel central no desenvolvimento da indústria aeronáutica brasileira nas décadas seguintes. Em 1938, a unidade celebrou acordo para produção sob licença de aeronaves da empresa alemã Focke-Wulf, incluindo o treinador  Fw 44 Stieglitz e o bimotor Fw 58 Weihe, este último designado no Brasil como Galeão 2FG. Entre 1938 e 1942, foram produzidas 25 células desse modelo, considerado o primeiro avião de transporte de passageiros montado no país. Sua fabricação envolveu crescente nacionalização de componentes, como estruturas em madeira e revestimentos, representando um avanço técnico expressivo. Ainda em 1938, foi concluído o desenvolvimento do Muniz M-9, evolução direta do M-7, incorporando melhorias aerodinâmicas e operacionais que ampliaram sua confiabilidade. Em maio de 1939, o Exército Brasileiro encomendou 20 unidades do modelo, das quais cinco foram exportadas  um feito notável para a indústria nacional naquele período. A CNNA prosseguiu com a produção até 1943, totalizando 40 aeronaves. A exportação do M-9 evidenciou o potencial competitivo dos projetos brasileiros, embora ainda limitado por fatores estruturais, reforçando a importância do apoio estatal contínuo para a consolidação do setor. Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, a Fábrica do Galeão enfrentou desafios decorrentes das mudanças geopolíticas, especialmente em função da inicial cooperação com a indústria alemã. Contudo, após a entrada do Brasil no conflito ao lado dos Aliados, em 1942, a produção de modelos germânicos foi interrompida, sendo substituída pela fabricação sob licença de aeronaves norte-americanas, como o Fairchild PT-19, designado localmente como PT-3FG. Durante o auge do esforço de guerra, a fábrica chegou a empregar cerca de 2.000 trabalhadores, operando em regime contínuo. Nesse período, destacaram-se iniciativas de engenharia reversa e adaptação industrial, permitindo a produção local de componentes essenciais como tanques de combustível e suportes para armamentos  utilizando materiais disponíveis no país, incluindo ligas de alumínio de origem nacional.
Em paralelo a esse processo de expansão industrial, foi fundada, em agosto de 1942, a Companhia Aeronáutica Paulista, sediada em Santo André, sob a liderança do industrial Francisco Pignatari. Sua criação ocorreu em um contexto de crescente mobilização nacional em torno da aviação, impulsionada pela Campanha Nacional de Aviação, idealizada por Assis Chateaubriand, que difundiu o lema “Dêem asas ao Brasil”. Essa campanha desempenhou papel fundamental ao estimular a formação de pilotos e a expansão dos aeroclubes em todo o país, criando uma demanda concreta por aeronaves de treinamento acessíveis e confiáveis. Nesse ambiente de efervescência, consolidavam-se as bases sociais, industriais e institucionais que sustentariam, nas décadas seguintes, o desenvolvimento da aviação brasileira. A Companhia Aeronáutica Paulista (CAP), ainda em 1942, adquiriu os ativos da Empresa Aeronáutica Ypiranga (EAY), incluindo os direitos do projeto do EAY-201 Ypiranga. Esse modelo serviria de base para o desenvolvimento do consagrado CAP-4 Paulistinha, uma das aeronaves mais emblemáticas da aviação civil brasileira. O CAP-4  foi concebido como um monoplano de asa alta, biposto, destinado à formação básica de pilotos. Seu desenvolvimento contou com a colaboração do Instituto de Pesquisas Tecnológicas e de engenheiros como Romeu Corsini e Clay Presgrave. Embora inspirado no projeto norte-americano Taylor Cub, o Paulistinha foi adaptado às condições operacionais brasileiras, incorporando soluções construtivas simples e eficientes, como fuselagem em tubos de aço, revestimento em tecido e motorização Continental A-65-8 de 65 hp. Realizando seu primeiro voo em 2 de abril de 1943, o CAP-4 rapidamente se destacou por sua robustez, baixo custo operacional e facilidade de manutenção. Produzido em cerca de 780 exemplares até 1949, tornou-se amplamente utilizado por aeroclubes e instituições militares, desempenhando papel fundamental na formação de pilotos em todo o país e consolidando-se como um verdadeiro ícone da aviação brasileira. Em 1943, foi firmado um acordo com a North American Aviation para a produção sob licença do treinador avançado  T-6 Texan na Fábrica de Aviões de Lagoa Santa, em Minas Gerais. O objetivo era suprir a demanda da Força Aérea Brasileira por aeronaves capazes de preparar pilotos para operações mais complexas, incluindo aquelas realizadas no Atlântico Sul e na campanha italiana. Inicialmente sob gestão estatal, o projeto foi posteriormente transferido ao grupo liderado por Francisco Pignatari, responsável pela empresa, em uma tentativa de elevar a eficiência produtiva. Ainda que a empresa tenha contribuído para a montagem de aproximadamente 50 células do T-6 Texan, o programa enfrentou dificuldades decorrentes da complexidade técnica do modelo e da dependência de componentes importados, o que limitou seu pleno sucesso industrial. No imediato pós-guerra, surgiram iniciativas voltadas à organização mais estruturada do setor aeronáutico nacional. Em 1946, foi criado o Comitê para a Organização do Centro Técnico de Aeronáutica, sob a liderança de Casimiro Montenegro Filho, figura central na concepção de um sistema integrado de pesquisa, desenvolvimento e formação de recursos humanos, que futuramente daria origem ao Centro Técnico de Aeronáutica (CTA) e ao Instituto de Tecnologia da Aeronáutica (ITA).

Apesar dessas iniciativas promissoras, o ano de 1948 marcou um período de profunda crise para a indústria aeronáutica brasileira. O mercado foi inundado por aeronaves excedentes de guerra provenientes dos Estados Unidos, vendidas a preços extremamente baixos, o que reduziu drasticamente a competitividade dos produtos nacionais. Nesse contexto adverso, empresas como a Companhia Nacional de Navegação Aérea  responsável pelos treinadores Muniz M-7 e M-9  e a própria Companhia Aeronáutica Paulista enfrentaram severas dificuldades financeiras, culminando no encerramento de suas atividades. A Fábrica do Galeão também foi impactada, tendo suas linhas de produção praticamente paralisadas, passando a se dedicar majoritariamente a atividades de manutenção e reparo de aeronaves, como o Consolidated PBY Catalina e o T-6 Texan. Esse cenário evidenciou, de forma clara, as limitações estruturais da indústria aeronáutica nacional à época, fortemente dependente de contratos governamentais e carente de uma política industrial consistente que assegurasse sua sustentabilidade em um ambiente competitivo internacional. Apesar dos reveses enfrentados no imediato pós-guerra, o início da década de 1950 marcou uma retomada gradual dos esforços voltados à produção seriada de aeronaves militares no Brasil. Nesse contexto, o Estado-Maior da Aeronáutica (EMAer) identificou a necessidade premente de substituir a frota de treinamento básico da Escola de Aeronáutica (EAer), então composta por aeronaves já consideradas obsoletas diante dos novos padrões operacionais. Como resposta a essa demanda, foi celebrado, em 1953, um acordo com a Fokker para a produção sob licença do treinador  S.11  no Brasil, por meio de sua subsidiária local, a Fokker Indústria Aeronáutica S/A, utilizando as instalações da Fábrica do Galeão. Até o final de 1957, foram entregues cerca de 150 aeronaves,  desempenhando papel essencial na modernização do processo de formação de pilotos.  Todavia, a execução desse programa esteve longe de ser linear. A produção enfrentou uma série de dificuldades, incluindo atrasos nos cronogramas, entraves logísticos e limitações no processo de nacionalização de componentes. A forte dependência de tecnologia estrangeira e a complexidade de estruturar uma cadeia de suprimentos local evidenciaram uma lacuna crítica: a carência de recursos humanos altamente qualificados. Tornava-se evidente que engenheiros e técnicos brasileiros precisariam não apenas absorver o conhecimento técnico internacional, mas também adaptá-lo às condições específicas do país seja no emprego de materiais disponíveis localmente, seja na adequação dos projetos às realidades operacionais brasileiras. Foi nesse ambiente que amadureceu a concepção de um sistema integrado de formação e pesquisa em engenharia aeronáutica. Tal visão materializou-se com a criação do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em 1950, e do Centro Técnico de Aeronáutica (CTA), em 1953, ambos estabelecidos em São José dos Campos. Essas instituições tornaram-se pilares fundamentais para o desenvolvimento científico, tecnológico e industrial da aviação nacional, formando gerações de engenheiros e promovendo pesquisa aplicada de alto nível. Antes mesmo da formação das primeiras turmas de engenheiros pelo ITA, já surgiam iniciativas impulsionadas pelo interesse em consolidar uma indústria aeronáutica de maior complexidade tecnológica. 
Entre essas, destacou-se a fundação da Indústria Aeronáutica Aerotec S/A, em 1962, também em São José dos Campos. A empresa foi criada pelo empresário Carlos Gonçalves, em associação com os engenheiros Wladimir Monteiro Carneiro e Michel Cury. Inicialmente, a Aerotec tinha como objetivo a produção de componentes de reposição para aeronaves civis de treinamento e turismo segmento que experimentava significativa expansão naquele período. Essa iniciativa refletia não apenas a crescente demanda por suporte técnico à aviação leve, mas também a consolidação de um ambiente industrial mais favorável ao desenvolvimento de competências locais, preparando o terreno para avanços mais ambiciosos na indústria aeronáutica No entanto seus fundadores estavam atentos a todas as novas oportunidades de mercado, e entre estas vislumbrava-se a possível necessidade futura em proceder a modernização de suas aeronaves de treinamento básico Fokker T-21 e T-22, que neste momento sofriam com problemas de disponibilidade de frota.  Esta demanda seria destinada a reequipar em curto prazo a Escola de Aeronáutica (EAer), e deveria representar algo na ordem de pelo menos uma centena de novas aeronaves de treinamento básico a serem adquiridas. Este vultuoso possível contrato, viria a  despertar o interesse da diretoria da Aerotec S/A. Assim com base nesta  oportunidade mercadológica, a equipe de projetos da empresa elucidaria esforços para o desenvolvimento de uma nova aeronave destinada a instrução primária. Seguindo a diretiva estratégica do Governo Federal em se fomentar o desenvolvimento de uma indústria de defesa nacional, decidiu-se que o substituto dos treinadores holandeses deveria ser projetado e fabricado no Brasil. Os parâmetros básicos para o desenvolvimento deste modelo deviam conceber uma aeronave de asa baixa de pequeno porte, com sua construção sendo totalmente composta em alumínio, com assentos lado a lado, alta manobrabilidade e trem de pouso triciclo. Este projeto tinha ainda por principal objetivo aliar características ideais de simplicidade, robustez e principalmente apresentar um baixo custo de operação.  Ciente desta necessidade e primícias básicas de desenvolvimento, a empresa, apresentaria em fins de 1964,  o projeto  A-122, que fora concebido pelos engenheiros Carlos Gonçalves e José Carlos de Sousa Reis. O conceito inicial da aeronave foi rapidamente validado, sendo financiada  a construção do primeiro protótipo que seria concluído em abril de 1965.  Sob a matrícula PP-ZTF, esta aeronave alçaria o primeiro voo em 02 de junho do mesmo ano. Tratava-se de uma aeronave monomotora, metálica, biplace com assentos a lado a lado, duplo comando, asa baixa, trem de pouso triciclo e empenagem convencional, e estava equipado com um motor Lycoming O-300-B1, com quatro cilindros opostos horizontalmente, gerando uma potência de 100 hp. As primeiras avaliações indicariam a necessidade de se melhorar suas características aerodinâmicas, que resultavam em uma grande dificuldade para a aeronave sair de parafusos, característica essa que acabaria resultando em um acidente fatal, vitimando o piloto de testes.  A fim de se sanar está a falha o projeto seria profundamente revisto, culminando na inclusão de uma quilha na parte posterior da fuselagem. Neste processo verificou-se também necessidade de se aumentar a potência , resultando na troca do motor original por outro do mesmo fabricante agora na versão 0-320-B1B, passando a  desenvolver 160 hp.  

Emprego na Força Aérea Brasileira.
Concluída a fase inicial de avaliação em voo, o programa evoluiu para uma etapa decisiva com a celebração de um primeiro contrato envolvendo duas aeronaves de pré-série. Esses exemplares realizaram seus voos entre janeiro e abril de 1968, sendo imediatamente integrados a um amplo programa de ensaios conduzido ao longo desse mesmo período. Ao término dessa fase, os resultados obtidos permitiram a homologação oficial do projeto pelo Centro Técnico de Aeronáutica (CTA), validando suas características operacionais e estruturais. Nesse momento, a aeronave, até então identificada como A-122, passou a receber a designação militar T-23, sendo também batizada como “Uirapuru”  em referência à ave amazônica de canto singular, símbolo de harmonia e precisão. A consolidação dessa etapa abriu caminho para a formalização de um contrato de aquisição inicial, contemplando 30 aeronaves de série. O acordo foi oficialmente firmado em setembro de 1968 entre a Indústria Aeronáutica Aerotec S/A e o Ministério da Aeronáutica (MAer), incluindo, além das aeronaves de produção, o segundo protótipo  anteriormente registrado como PP-ZTT, atualmente preservado no Museu Aeroespacial (MUSAL)  e os dois exemplares de pré-série. As primeiras quatro células do lote de produção foram concluídas em fevereiro de 1970, sendo preparadas para entrega oficial à Força Aérea Brasileira (FAB). A cerimônia ocorreu em 6 de março de 1970, nas instalações da Academia da Força Aérea (AFA), em Pirassununga, ocasião em que as aeronaves receberam as matrículas FAB 0940 a 0943. Após um breve período dedicado à adaptação operacional e à formação de instrutores, o T-23 Uirapuru foi gradualmente incorporado ao programa de instrução básica de voo, desempenhando papel fundamental na reformulação da doutrina de formação de pilotos militares. Sua introdução visava suprir a lacuna deixada desde 1962, quando os Fokker T-21 e T-22 foram retirados do processo formativo da antiga Escola de Aeronáutica (EAr). A retirada relativamente precoce desses treinadores de origem holandesa esteve associada, em parte, a limitações observadas em determinados regimes de voo, nos quais apresentavam características indesejáveis de manobrabilidade e comportamento aerodinâmico, impactando negativamente a qualidade da instrução básica. Em contraste, o T-23 Uirapuru, equipado com motor Lycoming O-320-B1B de 160 hp, oferecia desempenho significativamente superior. Entre suas principais características destacavam-se velocidade máxima de aproximadamente 225 km/h, velocidade de cruzeiro em torno de 190 km/h, teto de serviço de 4.500 metros e autonomia próxima de quatro horas. Além dos ganhos em desempenho, a aeronave apresentava melhores qualidades de voo e maior previsibilidade em manobras, fatores essenciais para a formação segura e eficiente de novos pilotos militares. Dessa forma, a introdução do T-23 representou não apenas a substituição de um vetor de treinamento, mas um avanço qualitativo na doutrina de instrução, alinhando-a às exigências de uma aviação militar cada vez mais sofisticada.

Em 1969, a Força Aérea Brasileira (FAB) intensificou o processo de incorporação do Aerotec T-23 Uirapuru na Academia da Força Aérea (AFA), situada em Pirassununga. A chegada contínua de novas células ao longo daquele ano possibilitou não apenas a consolidação do modelo como vetor principal de instrução primária, mas também a reestruturação orgânica do ensino de voo na instituição. Nesse contexto, foram ativados dois esquadrões dedicados exclusivamente à instrução aérea: o 1º Esquadrão de Instrução Aérea  (EIA) – Esquadrilha Antares e o 2º Esquadrão de Instrução Aérea (EIA) – Esquadrilha Castor. Essas unidades foram concebidas para oferecer treinamento primário-básico aos cadetes, constituindo a base da formação operacional dos futuros oficiais aviadores. O programa de instrução adotado na Academia da Força Aérea (AFA) previa uma carga média de aproximadamente 75 horas de voo no T-23, abrangendo um conjunto abrangente de atividades essenciais à formação inicial, entre as quais se destacavam: manobras de precisão, voltadas ao desenvolvimento do controle fino da aeronave e da navegação; exercícios acrobáticos, destinados a aprimorar a confiança e a capacidade de resposta em situações críticas; voos em formação, fundamentais para operações coordenadas em ambiente militar; e instrução básica por instrumentos, introduzindo os fundamentos da navegação em condições adversas. A configuração biplace com assentos lado a lado e duplo comando do Aerotec T-23 Uirapuru revelou-se particularmente adequada a esse conjunto de missões, facilitando a interação entre instrutor e aluno. Aliada a isso, sua robustez estrutural, simplicidade de manutenção e baixo custo operacional contribuíram para sua ampla aceitação. Não por acaso, a aeronave passou a ser carinhosamente apelidada de “Zarapa” por instrutores e cadetes, refletindo o grau de familiaridade e confiança conquistado no ambiente operacional. Do ponto de vista técnico, o Aerotec T-23 Uirapuru demonstrou excelente desempenho em manobras e comportamento previsível em voo, qualidades que foram ainda mais aprimoradas após as revisões aerodinâmicas realizadas entre 1966 e 1968  dentre as quais se destaca a incorporação de uma quilha ventral, responsável por melhorar a estabilidade direcional. Esses fatores consolidaram sua reputação como um treinador confiável e eficiente. O êxito operacional do modelo levou o Ministério da Aeronáutica (MAer) a firmar, ainda em 1969, um segundo contrato com a Indústria Aeronáutica Aerotec S/A, prevendo a aquisição de mais 27 aeronaves, que receberam as matrículas FAB 0972 a 0999. As entregas desse novo lote tiveram início a partir de 1971, ampliando significativamente a frota disponível para instrução e outras tarefas de apoio. Por sua vez, as aeronaves pertencentes ao lote de pré-produção  anteriormente utilizadas nos ensaios e na fase inicial de integração  foram transferidas para o Parque de Material Aeronáutico de Lagoa Santa (PAMALS), em Minas Gerais . Nessa unidade, passaram a desempenhar funções orgânicas, incluindo missões de ligação e transporte leve, evidenciando a versatilidade do projeto.
O Parque de Material Aeronáutico de Lagoa Santa (PAMALS) desempenhou, ademais, papel central na sustentação logística da frota, atuando como principal centro de manutenção e apoio ao T-23 Uirapuru. Sua atuação foi fundamental para garantir elevados índices de disponibilidade operacional, assegurando a continuidade e a eficiência do processo de formação de pilotos  ao longo das décadas seguintes. A incorporação do segundo lote do Aerotec T-23 Uirapuru possibilitou a ampliação de seu emprego para além da Academia da Força Aérea, estendendo sua utilização a outras organizações da Força Aérea Brasileira (FAB). Entre essas, destacou-se o Centro de Formação de Pilotos Militares (CFPM), sediado na Base Aérea de Natal, que passou a desempenhar papel relevante na descentralização da formação de pilotos militares. A partir de março de 1971, o Centro de Formação de Pilotos Militares (CFPM), integrou o T-23 ao seu programa de instrução, estruturado no âmbito do Curso de Piloto Militar, com duração aproximada de dez meses. Esse curso era organizado em duas fases distintas e complementares. O estágio básico, conduzido no T-23 Uirapuru, concentrava-se no desenvolvimento das competências fundamentais de pilotagem, navegação e execução de manobras. Já o estágio avançado era realizado no Cessna T-37 Tweet, aeronave a jato de origem norte-americana, responsável por introduzir os cadetes às exigências operacionais de plataformas de maior desempenho e complexidade. Nesse contexto, o T-23 revelou-se elemento central na formação inicial, graças à sua simplicidade construtiva, confiabilidade e características de voo previsíveis, permitindo aos alunos consolidar uma base técnica sólida antes da transição para aeronaves a jato. Sua introdução no Centro de Formação de Pilotos Militares (CFPM) não apenas ampliou a capacidade formativa, como também contribuiu para a descentralização do ensino, possibilitando a formação de pilotos em diferentes regiões do país. A crescente demanda por novos aviadores levou o Estado-Maior da Aeronáutica (EMAer) a adotar medidas para acelerar a disponibilização das aeronaves. Por meio do Aviso Ministerial nº R-033/GM4, de 22 de novembro de 1971, foi recomendada a entrega prioritária de todos os exemplares do T-23 ao CFPM, a fim de atender à necessidade imediata de ampliação dos efetivos em formação. A única exceção prevista foi a manutenção de uma aeronave junto ao Centro Técnico de Aeronáutica (CTA), em São José dos Campos, destinada à continuidade dos ensaios em voo e ao aperfeiçoamento técnico do projeto. Essa diretriz foi prontamente implementada e, a partir de janeiro de 1972, o CFPM recebeu um reforço significativo de meios aéreos, incluindo as 27 aeronaves do segundo lote  matrículas FAB 0972 a 0999 cuja entrega teve início em 1971. O aumento da disponibilidade de aeronaves permitiu a condução das atividades de instrução sem restrições relevantes, consolidando o papel do T-23 Uirapuru como pilar da formação básica de pilotos militares no Brasil e fortalecendo, de maneira decisiva, a capacidade operacional da Força Aérea Brasileira naquele período.

A conclusão da infraestrutura da Academia da Força Aérea (AFA), em 1973, permitiu a centralização de todas as atividades de formação de oficiais aviadores em Pirassununga. Essa decisão, de caráter estratégico, visava não apenas otimizar recursos e padronizar procedimentos, mas também elevar a eficiência do treinamento por meio da concentração das atividades em um único centro de excelência, dotado de instalações modernas e de uma frota diversificada de aeronaves de instrução. Com essa reestruturação, a Academia da Força Aérea (AFA) assumiu integralmente as atribuições até então desempenhadas pelo Centro de Formação de Pilotos Militares, sediado na Base Aérea de Natal, o qual havia exercido papel fundamental na formação de pilotos desde o início da década. Como consequência direta desse processo, o Centro de Formação de Pilotos Militares (CFPM) foi oficialmente desativado em 1974, marcando o encerramento de suas operações. A transferência dos meios aéreos  incluindo os  T-23 Uirapuru,  T-25 Universal e  T-37 Tweet  assegurou a continuidade do processo de instrução sem descontinuidades. A partir desse momento, a academia passou a concentrar a totalidade da frota de T-23, que constituía o principal vetor da instrução primária. Entretanto, a frota remanescente começava a apresentar sinais de desgaste, atingindo níveis considerados críticos em termos de disponibilidade de células para sustentar o fluxo contínuo de formação de cadetes. Diante desse cenário, o Ministério da Aeronáutica (MAer) optou por exercer, em 1974, uma cláusula contratual que previa a aquisição adicional de 42 aeronaves. Essas novas unidades passaram a ser entregues a partir de 1975, sendo incorporadas às atividades de instrução junto ao 1º Esquadrão de Instrução Aérea – Esquadrilha Antares e ao 2º Esquadrão de Instrução Aérea – Esquadrilha Castor. Ao longo desse período, a frota do T-23 foi submetida a sucessivos programas de modernização e revisão, conduzidos pelo Parque de Material Aeronáutico de Lagoa Santa (PAMALS). Essas intervenções permitiram manter elevados índices de disponibilidade operacional, prolongando a vida útil das aeronaves e assegurando sua adequação às exigências do treinamento. Em 1977, a Força Aérea Brasileira (FAB) avaliou que, apesar das limitações inerentes ao seu envelope de voo e à sua manobrabilidade, o T-23 ainda poderia continuar contribuindo de forma relevante para a formação básica de pilotos, uma vez que tais restrições não comprometiam as fases iniciais do treinamento. Contudo, tornou-se evidente a necessidade de atualização de seus sistemas, especialmente no que se referia aos equipamentos de navegação e comunicação. Nesse sentido, foram iniciados estudos visando à implementação de um programa mais abrangente de modernização, incluindo retrofit estrutural e a incorporação de novos sistemas aviônicos. O objetivo era proporcionar aos cadetes um primeiro contato com tecnologias mais próximas daquelas encontradas em aeronaves operacionais de linha, reduzindo a lacuna entre as fases básica e avançada da instrução. 
Entre as propostas em análise, destacava-se a introdução de sistemas mais modernos de navegação  incluindo, em perspectiva, tecnologias que evoluiriam posteriormente para o uso de sistemas como o Global Positioning System (GPS) refletindo a preocupação  em alinhar sua doutrina de ensino às transformações tecnológicas da aviação contemporânea. O programa de modernização foi aprovado pelo Ministério da Aeronáutica (MAer), que determinou a seleção de 45 células do Aerotec T-23 Uirapuru em melhores condições estruturais e com menor número de horas de voo. Essas aeronaves foram então submetidas a um processo de atualização nas instalações da Indústria Aeronáutica Aerotec S/A. Do ponto de vista visual e aerodinâmico, a principal modificação introduzida foi a substituição da cobertura original da nacele por um conjunto mais moderno e eficiente, conferindo à aeronave um perfil mais refinado. Como resultado dessas alterações, surgiu a versão designada T-23B Uirapuru, que incorporava melhorias estruturais e atualizações em sistemas. Entretanto, já no início da década de 1980, a introdução de aeronaves mais modernas de caça, ataque e transporte nas unidades operacionais da Força Aérea Brasileira (FAB) evidenciou a necessidade de uma reformulação mais profunda na doutrina de formação de pilotos. Nesse novo contexto, avaliações técnicas passaram a considerar o T-23B como progressivamente inadequado para a instrução básica, não apenas em função do desgaste acumulado de suas células, mas também por suas limitações em termos de envelope de voo frente às crescentes exigências operacionais. Na tentativa de oferecer uma solução nacional, a própria Aerotec apresentou o projeto A-132 Tangará, designado YT-17 pela Força Aérea Brasileira (FAB), concebido como potencial substituto. Embora seu protótipo tenha sido amplamente testado, o Comando da Aeronáutica (COMAER) optou por direcionar sua preferência para aeronaves de treinamento com configuração de assentos em tandem, consideradas mais adequadas à progressão pedagógica dos pilotos militares. Diante desse cenário, iniciou-se o processo de retirada gradual dos T-23B do serviço ativo. Paralelamente, a Academia da Força Aérea (AFA), em Pirassununga, passou a receber o Embraer T-27 Tucano, aeronave significativamente mais moderna, o que permitiu a reorganização do sistema de instrução: os Neiva T-25 Universal passaram a assumir o estágio básico, enquanto o Tucano ocupava níveis mais avançados da formação. A desativação oficial do T-23B como aeronave de instrução ocorreu em 1º de outubro de 1984, em cerimônia realizada na própria Academia da Força Aérea (AFA), encerrando um ciclo de mais de uma década de relevante contribuição à formação de pilotos militares no Brasil. Mesmo após sua retirada do serviço ativo, algumas aeronaves continuaram a desempenhar funções auxiliares. Quatro células foram adaptadas para missões de reboque de planadores, operando por longo período em apoio ao Clube de Voo a Vela da AFA, até serem substituídas por aeronaves como o Embraer EMB-202 Ipanema. Adicionalmente, cerca de 20 exemplares foram transferidos ao Departamento de Aviação Civil (DAC), que promoveu sua redistribuição a diversos aeroclubes pelo país. Muitos desses aviões permaneceram em operação por anos, prolongando, no âmbito civil, a trajetória de uma aeronave que marcou profundamente a história da formação aeronáutica brasileira.

Em Escala.
Para a representação do Aerotec T-23 Uirapuru, matrícula "FAB 1739", pertencente à Academia da Força Aérea (AFA), foi utilizado o kit em resina produzido pela GIIC Modelos, na escala 1/48. Este modelo é reconhecido por sua facilidade de construção e pelo alto nível de detalhamento.  Com o objetivo de enriquecer a representação do modelo, foi incorporada a figura de um piloto, obtida a partir de outro kit na mesma escala.  Os decais utilizados foram aqueles fornecidos no conjunto original do kit da GIIC Modelos. Produzidos pela própria fabricante, os decais apresentaram boa qualidade e adequação ao modelo, garantindo a correta representação das marcações.
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura de alta visibilidade empregado nas aeronaves de instrução primaria e básica da Forca Aérea Brasileira (FAB), sendo empregado no Centro de Formação de Pilotos Militares (CFPM) e na Academia da Força Aérea (AFA). Em toda a sua carreira os T-23 Uirapuru ostentaram apenas este padrão de pintura, desde seu recebimento em 1970 até sua retirada de serviço ativo em 1984.
Bibliografia:
- Aerotec T-23 Uirapuru   Wikipédia - http://pt.wikipedia.org/wiki/Neiva_T-25
- Centro de Formação de Pilotos Militares – Instituto Histórico Cultural da Aeronáutica
- Aeronaves Militares Brasileiras – Jackson Flores Junior
- História da Força Aérea Brasileira - Prof. Rudnei Dias Cunha