Cessna L-19A e L-19E Bird Dog

História e Desenvolvimento.

A gênese da Cessna Aircraft Company, tem início em junho de 1911, quando o Clyde Cessna, um fazendeiro residente na cidade de Rago, Kansas construiu sua própria aeronave, sendo a primeira pessoa a voar entre o rio Mississippi e as montanhas rochosas. Seus aeroplanos seguintes empregavam estrutura básica de madeira e tecido, sendo produzidos na cidade de Enid, Oklahoma, sendo submetidos a testes nas salinas. Visando ampliar seu empreendimento, Clyde fez um pedido de empréstimo aos banqueiros de sua cidade, solicitação esta que lhe foi negada, levando assim o empresário a se mudar para a cidade de Wichita. Dispondo de financiamento se associaria a Victor Roos fundando a Cessna Aircraft (ou Companhia de Aeronaves Cessna - Ross) em 1927, porém o novo sócio se retiraria da empresa em pouco tempo deixando o comando sobre o controle com Clyde. Buscando se estabelecer no mercado de forma solida a empresa iniciou o desenvolvimento de um ousado projeto denominado como Cessna DC-6, com a nova aeronave recebendo a certificação oficial no mesmo dia do crash da bolsa de 1929, 29 de outubro de 1929. Apesar de lutar com o cenário de crise provocado pela depressão a empresa fecharia as portas em 1932. O rumo da empresa seria alterado em 1933 quando um piloto profissional fazendo uso de um Cessna CR-3 venceu a American Air Race em Chicago, estabelecendo um novo recorde mundial de velocidade para aeronaves daquela categoria. Antevendo o possível sucesso comercial da marca, os sobrinhos de Clyde, Dwane Wallace e Dwight Wallace compraram a empresa no ano seguinte e iniciaram um processo que transformaria a empresa ao longo dos anos em um sucesso global. Durante a Segunda Guerra Mundial a empresa se dedicaria a fabricação de componentes estratégicos e aeronaves de treinamento como o Cessna T-50 ou Bobcat.

Em agosto de 1949 o comando do Exército Americano emitiu junto indústria aeronáutica dos Estados Unidos, parâmetros para o desenvolvimento de uma nova aeronave leve monomotora para dois tripulantes com a finalidade de desempenhar missões de ligação, observação e controle aéreo avançado para ajuste de fogo de artilharia. Esta nova aeronave teria por missão substituir nestas atividades os já obsoletos Pipers L-4H e Stinsons  L15 em operação desde a Segunda Guerra Mundial. O desafio proposto aos participantes desta concorrência era o de apresentar um protótipo pronto para ensaio operacional em março do ano seguinte. Umas das empresas a Cessna  Aircraft Company  apresentou como proposta o Model 305 , que era uma derivação militar da versão civil Model 170, e tinha como principais alterações, a adoção de maiores janelas laterais inclinadas(para melhorar a observação do terreno), traseira resenhada para proporcionar uma visa direta da retaguarda, painéis transparentes sobre a cabine (similares aos encontrados no Cessna 140)e inclusão de uma porta lateral compatível com emprego de uma maca para emprego em missões de evacuação aéreo medica. O primeiro protótipo matriculado N41694, alçou voo em dezembro de 1949, sendo imediatamente levado para o centro de ensaios em voo do exército em Wright Field no estado de Ohio, onde durante seis semanas foi testado comparativamente contra os protótipos apresentados pela Piper, Taylorcraft e Temco, neste processo a Cessna foi declarada vencedora em maio de 1950, gerando assim contrato inicial para o fornecimento de 418 células do modelo 305A que recebeu a designação de L-19A .
O início da produção em série pela Cessna, coincidiu com o início da Guerra da Coreia, criando assim um sentimento de urgência nos comandos da Força Aérea e Exercito Norte Americano, incrementando significativamente os volumes de aeronaves inicialmente contratadas, com o Departamento de Defesa dos Estados Unidos (DOD) aumentando 3.200 células a serem entregues com previsão de entrega entre 1950 e 1959. As aeronaves passaram a ser entregues também ao Corpo de Fuzileiros Navais onde receberam a designação de OE-1. Naturalmente seu batismo de fogo se deu na Guerra da Coreia, onde foram empregados em missões de controle aéreo avançado, comunicações na linha de frente, remoção aeromédica (Medvac) e treinamento, obtendo resultados excelentes mesmo apesar de possuir uma aparência frágil típica de aviões de pequeno porte. Neste cenário de real de combate os Cessna L-19A / OE-1 operaram frequentemente em pistas que eram pouco mais do que áreas descampadas de terra batida, e não foram raras as ocasiões em que estas aeronaves voltavam a suas bases com dados de grande monta provocados por armas de pequeno calibre.

A partir de 1953 foram desenvolvidas novas versões incluindo melhoramentos como, hélices de velocidade constante, sistemas de navegação e comunicações aprimorados, peso bruto maior e reforços estruturais. Em 1962, o Exército L-19 e o Corpo de Fuzileiros Navais OE-1 foram redesignados OE-1 (Observação) Bird Dog, se especializando em missões de observação e controle aéreo. Centenas de aeronaves foram deslocadas para o Vietnã onde além de serem operados pelas forças militares norte americanas foram transferidos a Força Aérea Sul Vietnamita. Existem registros de operações especiais clandestinas de infiltração nos territórios do Laos e Camboja. Sua capacidade de pouso e decolagem em curtas distancia lhe tornaram apto a ser empregado pela Força Aérea Americana como aeronave Forward Air Controller (FAC) para vetorizar aeronaves de caça e ataque mais rápidas e apoiar operações de busca e salvamento em combate que recuperam tripulações aéreas derrubadas. Durante a Guerra do Vietnã, o Dog Bird foi usado principalmente para reconhecimento, aquisição de alvos, ajuste de artilharia, revezamento por rádio, escolta de comboio e controle aéreo avançado de aeronaves táticas, para incluir bombardeiros que operavam em um papel tático.
Suplementando o O-1 Bird Dog e substituindo-o gradualmente, a Força Aérea Americana (USAF) e o Corpo de Fuzileiros Navais (USMC) passaram a adotar a dupla Cessna O-2 Skymaster e North American Rockwell OV-10 Bronco. O Exército Americano (US Army) manteve o Bird Dog durante toda a guerra em 11 unidades de aviões de reconhecimento (RACs) distribuídas para cobrir todo o Vietnã do Sul, a Zona Desmilitarizada do Vietnã (DMZ) e a extremidade sul do Vietnã do Norte. Um total de 469 células foram perdidas neste conflito sendo vítimas de acidentes ou artilharia antiaérea inimiga. As últimas aeronaves em serviço no Exército Americano (US Army) foram oficialmente aposentadas em 1974. Dispondo de um grande número excedente de células em bom estado, o modelo foi incluído nos programas de ajuda militar do Departamento de Estado Norte Americano, sendo cedidos a Áustria, Chile, Brasil, Canada, França, Indonésia, Itália, Malta, Noruega, Paquistão, Coreia do Sul, Espanha, Taiwan e Tailândia, o modelo ainda seria produzido sob licença no Japão pela Fuji e também muitas unidades foram transferidas para operadores civis. Ao todo foram produzidas 3.413 células até o ano de 1959, sendo dispostas em 15 versões.

Emprego no Brasil.

No início da década de 1950 a Força Aérea Brasileira estava desenvolvendo um processo de restruturação com a finalidade de potencializar suas atividades de suporte as demais forças armadas. Entre elas o Exército Brasileiro que neste período carecia dos meios para a realização de missões de regulagem de tiro de artilharia e observação visual, a fim de se atender a esta demanda em 12 de dezembro de 1955 o decreto lei nº 38.295 recriou a 1º ELO (Esquadrilha de Ligação e Observação). As aeronaves disponíveis no inventário da FAB neste período os Piper LH-4 Grass Hoper encontravam-se no limiar de sua vida útil pois eram células veteranas da campanha da Itália onde foram operadas pela mesma unidade, e não poderiam ser empregadas neste novo cenário. O sucessor natural o Cessna L-19 Bird Dog era a melhor escolha para o atendimento desta necessidade, desta maneira o Ministério da Aeronáutica fazendo uso dos termos do Programa de Assistência e Defesa Mutua (PADM) negociou a aquisição de oito células usadas do Cessna 305A L-19A Bird Dog, oriundas dos estoques da aviação do Exército Americano (US Army). Estas aeronaves receberam as matriculas FAB 3062 a 3069 e foram recebidas em dezembro de 1955 no Campo dos Afonsos no Rio de Janeiro, sendo entregues imediatamente a 1º ELO, unidade que neste período estava subordinada a Escola de Aeronáutica e ficou encarregada de dar o apoio necessário a incorporação do modelo.

Durante os dois primeiros anos de atividade os L-19A foram dedicados a formação e adestramento do pessoal aeronavegante, instrução com sistema “apanha-mensagem”, treinamento nas várias modalidades de reconhecimento, instrução de regulagem de tiro de artilharia e treinamento dos observadores aéreos do Exército. Estas aeronaves dispunham ainda de quatro cabides subalares, possibilitando o treinamento de lançamento de fardos com viveres e emprego de foguetes fumígenos de fosforo branco SCAR de 2.25 polegadas para a marcação de alvos. Este período foi caracterizado por intensa atividade aérea e nele registraram-se duas perdas, uma em outubro de 1957 e outra em julho de 1959. De fato, ante as exigências que cercavam as operações com os L-19A bem como o L-19E que chegariam em 1963, a taxa de atrito dessas aeronaves foi bastante alta. A partir de fins de 1959 , a 1º ELO e seus L-19A passaram a participar cada vez mais dos exercícios organizados pelo Exército Brasileiro. Em geral aquela unidade despachava duas aeronaves para cumprirem um variado leque de trabalho. Conforme os pilotos iam ganhando mais experiência com seus aviões e o Exército readquirindo conhecimento acerca do valor de uma aeronave de observação , aumentava frequência com que os L-19A eram deslocados para suas periódicas manobras e exercícios . 
Em novembro de 1961, chegou ao Parque de Aeronáutica dos Afonsos (PqAerAF), unidade que prestava apoio de manutenção de quarto nível aos L-19A, uma célula que se encontrava desmontada e estava anteriormente armazenada em deposito de materiais do Exército. Após ser examinada foi necessário não só a aplicação de uma completa revisão geral, bem como a produção de algumas peças e componentes. As dificuldades em se preparar esta aeronave se justificavam pelo fato que, naquele momento, existirem apenas cinco células em condições de voo. No entanto o Exército, reservaria outra surpresa, posto que no início de 1963, o Depósito Central de Armamentos remeteu diretamente a 1º ELO um Cessna 305E (L-19E). Além de ser o primeiro L-19E a ser operado pela FAB esta aeronave não apresentou os mesmos problemas do L-19A enviado anteriormente pelo Exército. Visando recompor as perdas em meados de 1963 a FAB fazendo uso dos termos do Programa de Assistência Militar Brasil-Estados Unidos, negociou a aquisição de dez aeronaves usadas do modelo L-19E pertencentes a  Força Aérea Americana (USAF). As aeronaves foram entregues desmontadas entre outubro e novembro de 1963, e foram montadas nas instalações do Parque de Aeronáutica dos Afonsos (PqAerAF). Encerrada este etala, seis exemplares foram destinados a 3º Esquadrilha de Ligação e Observação (ELO), com sede na Base Aérea de Canoas , e as quatro aeronaves restantes foram distribuídas ao 1º ELO. Externamente, os L-19E eram praticamente idênticos aos L-19A, sendo necessário possuir um olho clinico para distinguir as diferenças entre estas duas versões. Este novo modelo dispunha de uma suíte de comunicações mais moderna com sistema FM AN/AR, sendo distinguido visivelmente do modelo anterior pela presença das antenas no bordo de ataque de cada estabilizador horizontal.

A partir de 1966, os L-19A/E passaram a realizar surtidas de reconhecimento visual em proveito dos trabalhos realizados por unidades do Exército Brasileiro que estavam engajadas em missões antiguerrilha, e o evoluir dos nos movimentos comunistas no Brasil, levaria a um crescente aumento destas missões. Os Bird Dogs da FAB foram empregados nestas missões em distintas regiões do território nacional. De fato, em abril de 1967, na Serra do Caparó (MG) um L-19E acidentou-se com perda total, durante um “pente fino”, como eram denominadas as operações do Exército que buscava focos guerrilheiros.  Até o fim da década os L-19A/E pertencentes a 1º e 3º ELO deram continuidade aos trabalhos que realizavam desde que chegaram a estas unidades, acrescidos ainda dos periódicos deslocamentos em apoio ao Exército Brasileiro, quer participando nas primeiras manobras conjuntas de grande envergadura, quer em operações antiguerrilha. Mas na virada da década já estavam em andamento algumas mudanças na organização da FAB, para se garantir maior funcionalidade e flexibilidade aos meios empenhados em missões de contra insurgência, seriam criados os Esquadrões de Mistos de Reconhecimento e Ataque (EMRA), os quais tomariam os lugares das Esquadrões de Reconhecimento e Ataque (ERA) e das Esquadrilhas de Ligação e Observação. Em atendimento a estas mudanças as aeronaves passaram gradativamente a ser transferidas para 3º EMRA e 1º EMRA na Base Aérea de Belém PA.
A operação no ambiente amazônico cobrou um alto preço a reduzida frota de aeronaves L-19A/E, pois, diversos pequenos acidentes registrados em 1974, servindo de prenuncio para a perda de três aeronaves entre março de setembro de 1975, outros foram perdidos em acidentes registrados entre 1977 e 1978. Ao iniciar o ano seguinte a frota de Birds Dog estava reduzida a quatro exemplares, que continuaram operando até a extinção do 1º EMRA, em setembro de 1980, e a criação do 1º/8º Grupo de Aviação (1º/8º GAv), onde operaram até pelo menos o fim deste mesmo ano. Assim então as três células remanescentes foram entregues ao Departamento de Aviação Civil (DAC) a fim de serem distribuídas para clubes de planadores, uma última aeronave foi encaminhada ao Museu da Aeronáutica (MUSAL), para restauro e exposição.  

Em Escala.

Para representarmos o L-19E Bird Dog "FAB 3154" pertencente ao 1º EMRA, empregamos o kit da Model USA na escala 1/48 (única opção existente nesta escala). Trata-se de um modelo de fácil montagem, porém requer paciência no acabamento das peças devido ao alto índice de rebarbas de injeção. Para melhoria no detalhamento confeccionamos em scratch os cabides subalares e foguetes fumígenos de fosforo branco. Fizemos uso de decais impressos pela FCM presentes no set 48/09.

O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o primeiro padrão de pintura dos L-19A/E, quando do recebimento dos primeiros L-19A em 1955, posteriormente foram aplicadas marcações de alta visibilidade em laranja nas asas e fuselagem e também marcações em amarelo nas asas, esquemas que foram retirados posteriormente, retomando o padrão inicial até sua desativação em 1980.


Bibliografia :

- Cessna 01 Bird Dog Wikipédia - http://en.wikipedia.org/wiki/Cessna_O-1_Bird_Dog
- História da Força Aérea Brasileira - Prof. Rudnei Dias Cunha - http://www.rudnei.cunha.nom.br/FAB/index.html
- Nas Garras do Puma – Oswaldo Claro Junior
- Aeronaves Militares Brasileiras 1916 - 2015  por Jackson Flores Junior