História e Desenvolvimento.
A trajetória da Clyde Vernon Cessna, fundador da Cessna Aircraft Company, teve início em junho de 1911, em um contexto marcado pelos primeiros e ainda incertos passos da aviação mundial. Natural de Rago, no estado do Kansas, Cessna era um fazendeiro movido por grande curiosidade técnica e entusiasmo pelo recém-nascido campo da aeronáutica. Autodidata, dedicou-se à construção artesanal de sua primeira aeronave, projetando e montando um monoplano de estrutura em madeira revestida de tecido materiais típicos das aeronaves pioneiras do início do século XX. Após concluir o aparelho, Cessna não apenas o construiu, mas também assumiu a tarefa de pilotá-lo. Demonstrando notável ousadia para a época, realizou voos experimentais que o levaram a tornar-se a primeira pessoa a sobrevoar tanto o rio Mississippi quanto as Montanhas Rochosas. Em uma fase em que a aviação ainda se encontrava em estágio essencialmente experimental, tais realizações representaram marcos importantes e contribuíram para consolidar sua reputação como aviador e construtor. Esse período inicial moldou sua convicção de que o futuro da aviação passaria pela produção sistemática de aeronaves. Com o objetivo de aperfeiçoar seus projetos e encontrar condições mais adequadas para testes de voo, Cessna transferiu suas atividades para a cidade de Enid, no estado de Oklahoma. A região possuía extensas áreas salinas planas, que ofereciam terreno ideal para as delicadas operações de decolagem e pouso exigidas pelas aeronaves primitivas da época. Seus primeiros modelos biplanos de estrutura simples em madeira e tecido refletiam as limitações tecnológicas e, ao mesmo tempo, a engenhosidade característica dos pioneiros da aviação. À medida que sua ambição empresarial crescia, Cessna passou a buscar financiamento junto a instituições bancárias locais, na tentativa de transformar suas experiências aeronáuticas em um empreendimento industrial. As dificuldades para obter capital, entretanto, mostraram-se um obstáculo significativo. Determinado a prosseguir, mudou-se em 1924 para Wichita, Kansas, cidade que começava a consolidar-se como um dos principais centros da indústria aeronáutica norte-americana. Em Wichita, Cessna associou-se a dois outros importantes pioneiros da aviação: Walter H. Beech e Lloyd Stearman. Juntos fundaram a Travel Air Manufacturing Company, que rapidamente conquistou reconhecimento no mercado por meio de aeronaves robustas e confiáveis, como os biplanos Travel Air 2000, 5000 e 500. Apesar do êxito comercial alcançado, divergências internas quanto à orientação estratégica da empresa acabaram levando Cessna a se desligar da sociedade. Seu espírito empreendedor, entretanto, permaneceu inabalável. Em 7 de setembro de 1927, em parceria com Victor H. Roos, fundou em Wichita a Cessna‑Roos Aircraft Company. A associação, contudo, teve curta duração: Roos retirou-se do empreendimento em 22 de dezembro do mesmo ano, o que resultou na reorganização da empresa sob a denominação definitiva de Cessna Aircraft Corporation. Buscando afirmar-se em um mercado aeronáutico cada vez mais competitivo, a empresa iniciou o desenvolvimento do Cessna DC-6, um monoplano de asa alta concebido para aliar bom desempenho a custos relativamente acessíveis uma proposta inovadora para o período. O protótipo realizou seu voo inaugural em 14 de maio de 1929 e obteve certificação de aeronavegabilidade em 29 de outubro do mesmo ano. Entretanto, o momento de sua introdução no mercado coincidiu com um dos eventos mais dramáticos da história econômica mundial: o Crash da Bolsa de Nova York de 1929, que desencadeou a Grande Depressão. A crise provocou uma abrupta retração na indústria aeronáutica, com a queda acentuada da demanda por aeronaves civis.
Como muitas empresas do setor, a Cessna enfrentou sérias dificuldades financeiras. Nesse cenário adverso, um segmento específico da aviação acabou desempenhando papel crucial para a sobrevivência da empresa: as corridas aéreas, extremamente populares nos Estados Unidos durante a década de 1930. A linha de aeronaves da série “CR”, desenvolvida especialmente para esse tipo de competição, revelou-se uma importante vitrine tecnológica para a marca. Em junho de 1933, um Cessna CR‑3, pilotado por um aviador profissional, venceu a American Air Race em Chicago, estabelecendo um recorde mundial de velocidade em sua categoria. A conquista projetou o nome da Cessna no cenário aeronáutico internacional e reforçou sua reputação como fabricante capaz de aliar inovação, desempenho e eficiência. Apesar desse reconhecimento, as severas dificuldades econômicas impostas pela Grande Depressão acabaram levando Clyde Cessna a afastar-se gradualmente da direção da empresa que havia fundado, encerrando um dos capítulos mais pioneiros de sua atuação na história da aviação. Apesar das dificuldades enfrentadas durante os anos mais severos da crise econômica, o legado empreendedor de Clyde Vernon Cessna não se perdeu. Em 1934, seus sobrinhos, Dwane Wallace e Dwight Wallace, assumiram o controle administrativo da empresa, inaugurando uma nova fase de reorganização e crescimento para a empresa. Sob a liderança dos irmãos Wallace, a companhia passou por um processo de reestruturação estratégica, orientado por estudos de mercado que indicavam uma demanda crescente por aeronaves leves destinadas ao transporte civil e a aplicações utilitárias, com capacidade para quatro a seis passageiros. Nesse contexto de expansão, em 1937 a empresa iniciou o desenvolvimento do projeto do Cessna T-50, uma aeronave bimotora de pequeno porte concebida para competir diretamente com o então consagrado Beechcraft Model 18, que dominava o mercado civil norte-americano na categoria de transporte leve. O T-50 apresentava soluções técnicas avançadas para sua época. Tratava-se de um monoplano cantilever de asa baixa, dotado de trem de pouso retrátil, configuração que contribuía para reduzir o arrasto aerodinâmico e melhorar o desempenho geral da aeronave. O modelo era equipado com dois motores radiais Jacobs L-4MB, cada um capaz de desenvolver 225 cavalos de potência, acionando hélices de passo fixo Curtiss Reed. Sua estrutura incorporava asas construídas em madeira laminada com cavernas de compensado, uma solução que conciliava leveza estrutural e resistência. Além disso, o projeto incluía um sistema de ignição desenvolvido pela Delco Automotive Company e flaps acionados eletricamente, características que contribuíam para um desempenho satisfatório aliado a custos operacionais relativamente reduzidos. Essas qualidades, combinadas a um preço mais acessível em comparação com seu principal concorrente, tornaram o T-50 particularmente atrativo para operadores comerciais e privados. O protótipo realizou seu voo inaugural em 26 de março de 1939, sendo posteriormente submetido a um rigoroso programa de ensaios em voo e avaliações técnicas. Esse processo culminou na concessão do certificado de aeronavegabilidade (TC 722) em 24 de março de 1940, etapa fundamental para sua introdução no mercado. Amparado por uma campanha de marketing eficiente e pela reputação crescente da Cessna, o T-50 rapidamente conquistou popularidade. A aeronave passou a ser empregada em diversas funções, incluindo transporte leve de passageiros e carga, treinamento de pilotos em aeronaves multimotoras e missões de ligação, tanto no setor civil quanto em aplicações militares.

Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, o potencial do T-50 foi rapidamente reconhecido pelas forças armadas dos Estados Unidos. A aeronave foi adaptada para uso militar, recebendo a designação AT-17 Bobcat, e passou a desempenhar um papel fundamental no treinamento de pilotos destinados a operar aeronaves multimotoras. Ao todo, mais de 5.400 unidades foram produzidas durante o conflito, contribuindo significativamente para o esforço de formação de tripulações da aviação militar norte-americana. Nos anos que se seguiram ao término da guerra, a Cessna manteve uma trajetória de crescimento constante, especialmente no setor civil. Suas aeronaves passaram a operar em diversos continentes, consolidando a empresa como uma das principais referências mundiais na produção de aeronaves leves e utilitárias. Em agosto de 1949, o comando das forças armadas identificou a necessidade de adquirir uma nova aeronave de observação leve que atendesse às exigências operacionais do pós-guerra. O projeto previa um monomotor de construção metálica, com capacidade para dois tripulantes e apto a operar a partir de pistas não preparadas ou de terreno rudimentar. A aeronave deveria desempenhar principalmente missões de observação, ligação e controle aéreo avançado, particularmente na correção e ajuste do fogo de artilharia. Essa nova plataforma destinava-se a substituir aeronaves que haviam se tornado progressivamente obsoletas desde o término do conflito, entre elas o Piper L-4H e o Stinson L-15, ambos amplamente empregados durante a guerra. O desafio apresentado aos fabricantes interessados era considerável: as empresas participantes da concorrência deveriam desenvolver e apresentar um protótipo plenamente funcional para ensaios operacionais já em março do ano seguinte, um prazo extremamente curto que exigiria soluções de engenharia rápidas, eficientes e tecnicamente confiáveis. Em resposta a esta demanda, a Cessna Aircraft Company ofereceria como proposta o Model 305, uma derivação militar da versão civil Model 170, e tinha como principais alterações, a adoção de maiores janelas laterais inclinadas(para melhorar a observação do terreno), traseira resenhada para proporcionar uma visa direta da retaguarda, painéis transparentes sobre a cabine (similares aos encontrados no Cessna 140) e inclusão de uma porta lateral compatível com emprego de uma maca para emprego em missões de evacuação aéreo medica. Atendendo ao cronograma previsto na concorrência, a empresa apresentaria seu protótipo em novembro do ano 1949, com esta aeronave de matrícula N-41694 realizando seu primeiro voo em janeiro do ano seguinte. Logo após esta aeronave seria transladada para o centro de ensaios em voo do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army) na base de Wright Field no estado de Ohio, onde durante aproximadamente seis semanas seria avaliado e testado comparativamente contra os protótipos apresentados pela Piper Aircraft , Taylorcraft Co. e Temco Aircraft Company. Em maio de 1950, a Cessna Aircraft Company foi declarada vencedora desse processo, recebendo um contrato inicial para a produção de 418 aeronaves, designadas militarmente como L-19A. Esse modelo, posteriormente batizado de Bird Dog por sua capacidade de localizar alvos com precisão, tornou-se um símbolo da versatilidade e robustez da Cessna em atender às demandas estratégicas do período. O início da produção em série do L-19A coincidiu com o eclodir da Guerra da Coreia (1950–1953), um conflito que intensificou a urgência por equipamentos militares eficazes.
A escalada das hostilidades levou o Departamento de Defesa dos Estados Unidos (Department of Defense – DoD) a expandir significativamente o contrato original, elevando o pedido para 3.200 unidades, com entregas previstas entre 1950 e 1959. Além do exército e da força aérea, o Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos (U.S. Marine Corps) também adotou a aeronave, designando-a como OE-1. Essa ampliação refletiu a confiança na capacidade do Bird Dog de operar em condições adversas e cumprir uma ampla gama de missões. O Cessna L-19A Bird Dog teve seu batismo de fogo na Guerra da Coreia, onde demonstrou sua eficácia em um teatro de operações marcado por terrenos acidentados e combates intensos. Projetado como um monoplano de asa alta com trem de pouso fixo, equipado com um motor Continental O-470 de 213 cavalos de potência, o Bird Dog era notável por sua simplicidade, robustez e capacidade de operar em pistas improvisadas, muitas vezes meros descampados de terra batida. Suas principais missões incluíam: Controle Aéreo Avançado: Os L-19A eram usados para coordenar ataques aéreos, identificando alvos inimigos e transmitindo informações às forças terrestres e aéreas via rádio, garantindo maior precisão nas operações. Comunicações na Linha de Frente: A aeronave facilitava a troca de mensagens entre unidades, essencial para manter a coordenação em um campo de batalha dinâmico. Evacuação Aeromédica (Medevac): Em emergências, o Bird Dog transportava feridos leves de áreas próximas à linha de frente para postos médicos, aproveitando sua capacidade de pouso e decolagem em espaços reduzidos. Treinamento: Sua facilidade de operação e baixo custo tornavam-no ideal para o treinamento de pilotos em missões de observação e ligação. Apesar de sua aparência frágil, típica de aeronaves leves, o L-19A demonstrou notável resistência. Não eram raras as ocasiões em que os Bird Dogs retornavam às suas bases com danos significativos causados por armas de pequeno calibre, como fuzis e metralhadoras, mas continuavam operacionais graças à sua construção robusta e à habilidade das equipes de manutenção. As lições da Guerra da Coreia (1950–1953) levaram a Cessna a desenvolver, a partir de 1953, as variantes TL-19D (Model 305B) e L-19E (Model 305C) do Bird Dog. Essas versões incorporaram hélices de velocidade constante, sistemas avançados de navegação e comunicações, maior peso bruto e reforços estruturais, aumentando a eficiência em missões de observação e ligação. Em 1962, as aeronaves do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army) e do Corpo de Fuzileiros Navais (U.S. Marine Corps) foram redesignadas O-1, enquanto a Força Aérea dos Estados Unidos (USAF) converteu L-19A em O-1D, O-1F e O-1G, especializadas como Controladores Aéreos Avançados (Forward Air Controller – FAC). Com a escalada da Guerra do Vietnã (1965–1975), centenas de Bird Dogs foram enviados ao Sudeste Asiático, operados pela Força Aérea dos Estados Unidos (USAF) e pela Força Aérea do Vietnã do Sul (VNAF). Sua capacidade STOL permitia operações em pistas rudimentares, sendo empregado em: Controle Aéreo Avançado: Coordenava ataques aéreos, guiando caças e bombardeiros táticos. Reconhecimento e Aquisição de Alvos: Localizava posições inimigas em terrenos desafiadores. Ajuste de Artilharia: Transmitia coordenadas para disparos precisos. Revezamento por Rádio: Facilitava comunicações entre unidades. de Comboios: Monitorava estradas contra emboscadas. Busca e Salvamento: Guiava helicópteros para resgatar pilotos abatidos.

Durante a década de 1960, os territórios do Laos e do Camboja, países vizinhos do Vietnã, passaram a desempenhar um papel estratégico no contexto da Guerra do Vietnã. Embora ambos mantivessem oficialmente uma posição de neutralidade, sua localização ao longo da chamada Trilha Ho Chi Minh transformou essas regiões em importantes cenários de operações militares clandestinas. Nesse ambiente de guerra não declarada, desenvolveram-se intensas atividades encobertas destinadas a interromper as linhas de suprimento do inimigo, coletar informações estratégicas e realizar ações de sabotagem. Muitas dessas missões foram conduzidas sob coordenação da , frequentemente com o apoio de forças aliadas e grupos locais. A natureza dessas operações exigia meios aéreos discretos, capazes de operar em regiões remotas e com infraestrutura extremamente limitada. Nesse contexto, o Cessna L-19/O-1 Bird Dog revelou-se particularmente adequado para tais missões, pois podia operar a partir de pistas improvisadas, como clareiras abertas na selva, trechos de estradas rudimentares ou pequenas faixas de terreno preparadas de forma precária. As atividades clandestinas realizadas no Laos e no Camboja frequentemente envolviam a infiltração e extração de pequenas equipes operacionais, entre as quais se destacavam os chamados Green Berets do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army), além de agentes e unidades de reconhecimento vinculadas à CIA. Nessas missões, os Bird Dogs eram empregados para transportar discretamente pequenos grupos de operativos a regiões isoladas, onde estes realizavam tarefas de reconhecimento, sabotagem de infraestruturas logísticas ou treinamento de forças locais aliadas. Entre esses aliados, destacaram-se os guerrilheiros Hmong no Laos, que desempenharam papel significativo nas operações apoiadas pelos Estados Unidos. O Bird Dog também cumpria funções de apoio essenciais, como o reconhecimento prévio de zonas de pouso, a vigilância aérea durante as operações e a coordenação de movimentos das equipes em terra. Equipadas com sistemas de rádio relativamente avançados para a época, as aeronaves da série O-1 atuavam como plataformas de comunicação aérea, retransmitindo mensagens entre as equipes em solo e as bases operacionais. Em determinadas ocasiões, os Bird Dogs também eram empregados para lançar suprimentos como alimentos, munições ou material médico destinados a apoiar equipes isoladas em território hostil. Entretanto, à medida que o conflito no Sudeste Asiático evoluía e novas demandas operacionais surgiam, o L-19/O-1 Bird Dog começou a ser considerado gradualmente obsoleto ao longo da década de 1960. Nas forças norte-americanas a aeronave passou a ser progressivamente substituída por modelos mais modernos e capazes, como o Cessna O-2 Skymaster e o Rockwell OV-10 Bronco, ambos projetados especificamente para missões de observação avançada e controle aéreo aproximado. Contudo cerca de onze esquadrões ainda manteriam até final do conflito versões do L-19 em serviço, operando diversas áreas sensíveis do teatro de operações, incluindo o Vietnã do Sul, a Zona Desmilitarizada da Coreia e regiões meridionais do Vietnã do Norte. O intenso emprego operacional teve um custo elevado: ao todo, 469 aeronaves foram perdidas ao longo do conflito, seja em decorrência de acidentes operacionais, seja devido ao fogo antiaéreo inimigo. Após sua desativação, diversas células remanescentes foram mantidas em reserva técnica e posteriormente transferidas a países aliados por meio de programas de assistência militar. A produção até 1959, atingiria a cifra de 3.413 células, consolidando-se como uma das aeronaves de observação leve mais importantes do período da Guerra Fria.
Emprego na Força Aérea Brasileira.
Ao término da Segunda Guerra Mundial, a Força Aérea Brasileira (FAB) encontrava-se entre as forças aéreas mais bem equipadas do continente americano. Seu inventário ultrapassava mil e quinhentas aeronaves militares modernas, recebidas em sua quase totalidade a partir de 1942 no âmbito do Lend-Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos), programa implementado pelo governo dos Estados Unidos para apoiar os países aliados durante o conflito. No que se referia à capacidade ofensiva, dispunha de um expressivo número de aeronaves de primeira linha, entre as quais se destacavam os caças-bombardeiros Republic P-47D Thunderbolt e Curtiss P-40 Warhawk, além das aeronaves de ataque Douglas A-20 Havoc e North American B-25 Mitchell. Esse conjunto de meios de combate, complementado por aeronaves de transporte, patrulha marítima e guerra antissubmarino (ASW), conferia ao Brasil uma posição singular no cenário regional, constituindo a segunda maior força aérea das Américas e a maior do hemisfério sul naquele momento histórico. Apesar desse panorama amplamente favorável, persistiam algumas lacunas em áreas operacionais especializadas, o que levou à realização de estudos doutrinários com o objetivo de aperfeiçoar a integração entre as diferentes forças armadas. Nesse contexto, no início da década de 1950 o Ministério da Aeronáutica (MAer) encontrava-se profundamente empenhado em um processo de reestruturação organizacional e operacional, destinado a ampliar a eficiência das atividades de apoio aéreo em cooperação com o Exército Brasileiro e a Marinha do Brasil, fortalecendo, assim, as capacidades de dissuasão e defesa nacional. Nesse período, a Força Terrestre ainda carecia de meios próprios adequados para a execução de missões de observação do campo de batalha e de regulagem do tiro da artilharia de campanha. Diante dessa necessidade, buscava-se retomar e aperfeiçoar uma capacidade que havia demonstrado grande eficácia durante o conflito mundial: a cooperação direta entre aviação de observação e unidades de artilharia. Tal iniciativa inspirava-se no notável desempenho obtido pela 1ª Esquadrilha de Ligação e Observação (1ª ELO) em apoio às unidades de Artilharia Divisionária da Força Expedicionária Brasileira (FEB) durante a campanha da Itália. Naquela ocasião, aeronaves leves de observação foram empregadas com grande eficácia para a identificação de alvos, correção de tiro de artilharia e reconhecimento do campo de batalha. Curiosamente, apesar da valiosa experiência operacional adquirida nesse contexto, as aeronaves utilizadas pela 1ª ELO dez exemplares do Piper L-4H Grasshopper foram desmontadas ao final da guerra e transportadas de volta ao Brasil. Ao chegarem ao Rio de Janeiro, foram armazenadas no Depósito Central de Armamentos do Exército Brasileiro, onde permaneceram esquecidas por vários anos. Somente em 1954 essas aeronaves foram redescobertas e submetidas a um processo de remontagem. Uma vez reativadas, passaram a ostentar cocares e matrículas do Exército Brasileiro, sendo rapidamente empregadas em missões de transporte leve, ligação, observação aérea e orientação do tiro da artilharia de campanha. Contudo, essa iniciativa teve vida relativamente breve. As dificuldades decorrentes da ausência de uma doutrina operacional plenamente desenvolvida para esse tipo de emprego, somadas a limitações estruturais e organizacionais, acabaram por comprometer a continuidade do programa.
Como resultado, essas aeronaves foram posteriormente devolvidas à Força Aérea Brasileira (FAB), que as reintegrou ao seu inventário e passou a empregá-las imediatamente em missões de apoio às unidades de artilharia do Exército Brasileiro, retomando, assim, a cooperação aérea-terrestre que havia demonstrado sua eficácia no campo de batalha durante a guerra. Assim o comando do Ministério da Aeronáutica (MAer) reconheceu a necessidade de reestruturar suas capacidades de ligação e observação para atender às demandas do Exército Brasileiro. Em 12 de dezembro de 1955, o Decreto-Lei Federal nº 38.295 foi promulgado, recriando a 1ª Esquadrilha de Ligação e Observação, sediada no Rio de Janeiro, no Campo dos Afonsos. Neste momento ficaria definido que temporiamente esta unidade ficaria subordinada a Escola de Aeronáutica (EAer), instituição que poderia dar o apoio necessário a nova esquadrilha. Apesar de atenderam aos padrões mínimos exigidos para estas tarefas, ficava claro que as aeronaves Piper L-4 Grasshopper além de sua natural obsolescência, se encontravam no limiar de sua vida útil. Desta maneira seria necessário proceder a aquisição de novos vetores para a execução destas tarefas, e neste contexto o Cessna L-19 Bird Dog representava a melhor escolha. Desta maneira o Ministério da Aeronáutica (MAer), fazendo uso dos termos do Programa de Assistência Militar (Military Assistance Program - MAP) passaria a negociar a aquisição de células usadas do Cessna L-19 Bird Dog, oriundas dos estoques de reserva da aviação do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army). Esta demanda seria prontamente atendida com a cessão de oito células da versão Cessna 305A L-19A Bird Dog, que após selecionadas in loco por uma comitiva de oficiais da Força Aérea Brasileira (FAB), seriam transportadas por via naval, sendo recebidas em dezembro de 1955. Estas aeronaves seriam montadas e receberiam as matrículas de FAB 3062 a 3069 e após ensaiadas pela equipe da 1ª Esquadrilha de Ligação e Observação (ELO, logo seriam postas em operação. Durante os dois primeiros anos de atividade, os Cessna L-19A foram dedicados a formação e adestramento do pessoal aeronavegante, com foco na instrução de diversas tarefas como, o sistema “apanha-mensagem”, reconhecimento, instrução de regulagem de tiro de artilharia e treinamento dos observadores aéreos do Exército Brasileiro. Estas aeronaves dispunham ainda, de quatro cabides subalares, possibilitando o treinamento de lançamento de fardos com viveres e emprego de foguetes fumígenos de fosforo branco SCAR de 2.25 polegadas para a marcação de alvos. Esse período foi caracterizado por intensa atividade aérea e nele registraram-se duas perdas uma em outubro de 1957 e outra em julho de 1959. De fato, ante as exigências que cercavam as operações com os L-19A, bem como os L-19E que chegariam em 1963, a taxa de atrito dessas aeronaves foi bastante alta. A partir de 1959, a 1ª Esquadrilha de Ligação e Observação (1ª ELO), equipada com aeronaves Cessna L-19A Bird Dog, passou a participar com frequência crescente dos exercícios e manobras organizados pelo Exército Brasileiro. Em geral, a unidade destacava dois de seus aviões para cumprir um amplo leque de tarefas, que incluíam observação aérea do campo de batalha, regulagem de tiro de artilharia, missões de ligação e reconhecimento tático.

À medida que os pilotos da 1ª ELO adquiriam maior familiaridade com as características operacionais do Bird Dog, e paralelamente o Exército recuperava o conhecimento doutrinário relativo ao emprego de aeronaves de observação, aumentava também a frequência com que esses aviões eram deslocados para participar das manobras e exercícios periódicos. Em novembro de 1961, chegou ao Parque de Aeronáutica dos Afonsos (PqAerAF) um exemplar de L-19A que se encontrava desmontado em um depósito do Exército. A trajetória dessa célula revelou-se particularmente curiosa, pois estava diretamente ligada ao período posterior a 1959, quando algumas dessas aeronaves passaram temporariamente pelas mãos do Exército Brasileiro. Após detalhada inspeção técnica, constatou-se que o parque possuía condições de realizar não apenas a revisão geral da aeronave, mas também de fabricar localmente determinadas peças e componentes necessários à sua recuperação. Embora o processo de restauração apresentasse dificuldades técnicas consideráveis, tais desafios eram mitigados pelo fato de que, naquele momento, apenas cinco aeronaves L-19A permaneciam em operação, uma vez que as demais haviam sido perdidas em acidentes. Entretanto, o Exército Brasileiro acabaria por proporcionar uma nova surpresa. No início de 1963, o Depósito Central de Armamentos encaminhou diretamente à 1ª ELO um exemplar do L-19E. Além de representar o primeiro L-19E recebido e operado, essa aeronave apresentou condições técnicas significativamente superiores às do L-19A enviado pouco mais de um ano antes, não demandando o mesmo nível de intervenção estrutural. Embora o Programa de Assistência Militar Brasil–Estados Unidos previsse a possibilidade de fornecimento adicional de aeronaves desse tipo, o Estado-Maior da Aeronáutica (EMAer) formalizou um pedido para ampliar a frota de Bird Dogs em operação no país. Como resultado, foi autorizada a transferência de exemplares da versão L-19E que se encontravam armazenados em depósitos militares norte-americanos. Os caixotes contendo dez aeronaves chegaram ao Brasil entre outubro e novembro de 1963 e foram imediatamente encaminhados ao Parque de Aeronáutica dos Afonsos para montagem e preparação operacional. Concluída essa etapa, seis aeronaves foram destinadas à 3ª Esquadrilha de Ligação e Observação (3ª ELO), sediada na Base Aérea de Canoas, enquanto as quatro células restantes foram incorporadas ao inventário da 1ª ELO, juntando-se aos cinco L-19A e ao único L-19E então em operação na unidade. Externamente, as versões L-19A e L-19E apresentavam diferenças bastante sutis, exigindo observação atenta para distinguir uma da outra. A principal distinção estava associada ao conjunto de comunicações. O L-19E possuía uma suíte de rádio significativamente mais moderna e sofisticada, sendo a forma mais simples de identificar essa versão a presença das antenas do sistema FM AN/ARC-44 instaladas no bordo de ataque de cada estabilizador horizontal. No caso específico da 1ª ELO, não foram raras as missões que levaram um ou mais de seus aviões a operar em regiões distantes. Um exemplo significativo ocorreu em janeiro de 1965, quando um dos L-19 da unidade foi deslocado para Cuiabá, no estado de Mato Grosso, a fim de colaborar nas operações de busca por uma aeronave civil desaparecida durante um voo entre Cuiabá e Vilhena.
Missões desse tipo envolvendo deslocamentos para localidades como Belém, no Pará, Caravelas, na Bahia, ou Itapeva, no São Paulo tornaram-se relativamente frequentes ao longo da década de 1960. A partir de 1966, os L-19A/E passaram a realizar surtidas de reconhecimento visual em proveito dos trabalhos realizados por unidades do Exército Brasileiro que estavam engajadas em missões antiguerrilha. Em abril de 1967, na Serra do Caparaó (MG), um L-19E acidentou-se, com perda total, durante um “pente fino”, como eram denominadas essas operações do Exército que buscavam focos guerrilheiros. Até o fim da década, os L-19A/E deram continuidade aos trabalhos que realizavam desde que chegaram a essas unidades, acrescidos ainda pelos periódicos deslocamentos em apoio ao Exército Brasileiro, quer participando nas primeiras manobras conjuntas de grande envergadura, quer em apoio às operações antiguerrilha. Mas na virada da década já estavam em andamento algumas mudanças no que tange à organização da Força Aérea Brasileira (FAB). Para dar maior flexibilidade e funcionalidade aos meios empenhados em missões de contrainsurgência, em março de 1970, foram criados os Esquadrões Mistos de Reconhecimento e Ataque, os quais efetivamente tomaram o lugar das Esquadrilhas de Ligação e Observação, com destaque para os Esquadrões de Reconhecimento e Ataque. Em atenção a essas mudanças, entre maio de 1970 e dezembro de 1971, os L-19A/E pertencentes à 3ª ELO deixaram aquela unidade, sendo transferidas para a 1ª ELO. Em consequência e salvo duas aeronaves ainda revisadas para sofrer reparos e revisão geral, em janeiro de 1972, a 1ª ELO contava com 11 aviões L-19A/E. Essa aeronaves permaneceriam com a unidade até agosto daquele ano, quando foi dada a ordem para que todas fossem transferidas para a Base Aérea de Santa Cruz para serem integradas ao 3º Esquadrão Misto de Reconhecimento e Ataque (3º EMRA). Ativado em novembro daquele ano, a associação entre o 3º EMRA e os L-19A/E foi extremamente breve, pois nova ordem determinou que todos esses aviões fossem transferidos para o 1º Esquadrão Misto de Reconhecimento e Ataque (1º EMRA), que fora ativado na Base Aérea de Belém, em novembro de 1972. Assim, a Base Aérea de Belém passou a ser a última moradia dos Cessna L-19A/E, o que marcou uma nova etapa na vida operacional dessas aeronaves. Tendo como principais atribuições a execução de missões de ligação e observação, o reconhecimento fotográfico e visual, as operações especiais e a realização de operações antiguerrilha, coube ainda ao 1º EMRA dar apoio a um vasto leque de programas em andamento na Região Amazônica, os mais conhecidos sendo os Projetos DINCART (Dinamização da Cartografia) e RADAM. No entanto, as ações antiguerrilha do Exército Brasileiro caminhavam para um desfecho final ao ser iniciada a Campanha do Araguaia, em 1972. Em distintas fases da campanha, que foi encerrada em Xambioá, os L-19A/E do 1º EMRA figuraram, a partir de 1973, como um dos principais elementos da ofensiva contra a guerrilha ao executar surtidas de reconhecimento visual e fotográfico. São desconhecidos quantos desses aviões efetivamente participaram das operações no Araguaia, mas evidências fotográficas mostram que as aeronaves destacadas para a região foram descaracterizadas quanto a sua origem militar através da remoção de insígnias e emblemas os Cessnas L-19A/E receberam matrículas falsas na faixa PP-Dxx.

Operar na Região Amazônica cobrou um alto preço à reduzida frota de aviões L-19A/E, diversos pequenos acidentes registrados em 1974 serviram de prenúncio para a perda de três aviões entre março e setembro de 1975, episódios nos quais as condições do campo de pouso estavam longe de ser adequadas, o que contribuiu para o acidente. Outros quatro foram perdidos em acidentes registrados em 1977 e 1978 e, ao iniciar o ano de 1979, a frota de aviões L-19A/E estava reduzida a quatro exemplares. Essas aeronaves continuaram operando de forma contínua até a extinção do 1º EMRA, em setembro de 1980, e a criação do 1º/8º Grupo de Aviação, que nominalmente herdou todo o acervo material do 1º EMRA. Não se sabe ao certo se o 1º/8º GAV fez uso dos últimos L-19A/E, apesar de que existem claras indicações de que ao menos uma célula continuou em atividade naquele esquadrão até o final de 1980, quando foi recolhido ao Parque de Material Aeronáutico de Belém. Das quatro aeronaves existentes, três foram entregues ao Departamento de Aviação Civil a fim de serem distribuídas para clubes de planadores apoiados por aquela organização, enquanto uma foi encaminhada ao Museu Aeroespacial do Campo dos Afonsos, onde se encontra em exposição. No entanto, as ações antiguerrilha do Exército Brasileiro caminhavam para um desfecho final ao ser iniciada a Campanha do Araguaia, em 1972. Em distintas fases da campanha, que foi encerrada em Xambioá, os L-19A/E do 1º EMRA figuraram, a partir de 1973, como um dos principais elementos da ofensiva contra a guerrilha ao executar surtidas de reconhecimento visual e fotográfico. São desconhecidos quantos desses aviões efetivamente participaram das operações no Araguaia, mas evidências fotográficas mostram que as aeronaves destacadas para a região foram descaracterizadas quanto a sua origem militar através da remoção de insígnias e emblemas os L-19A/E receberam matrículas falsas na faixa PP-Dxx. Operar na Região Amazônica cobrou um alto preço à reduzida frota de aviões L-19A/E. Diversos pequenos acidentes registrados em 1974 serviram de prenúncio para a perda de três aviões entre março e setembro de 1975, episódios nos quais as condições do campo de pouso estavam longe de ser adequadas, o que contribuiu para o acidente. Outros quatro foram perdidos em acidentes registrados em 1977 e 1978 e, ao iniciar o ano de 1979, a frota de aviões L-19A/E estava reduzida a quatro exemplares. Essas aeronaves continuaram operando de forma contínua até a extinção do 1º EMRA, em setembro de 1980, e a criação do 1º/8º Grupo de Aviação (1º/8º GAV), que nominalmente herdou todo o acervo material do 1º EMRA. Não se sabe ao certo se o 1º/8º GAV fez uso dos últimos L-19A/E da FAB, apesar de que existem claras indicações de que ao menos uma célula continuou em atividade naquele esquadrão até o final de 1980, quando foi recolhido ao Parque de Material Aeronáutico de Belém. Das quatro aeronaves existentes, três foram entregues ao Departamento de Aviação Civil a fim de serem distribuídas para clubes de planadores apoiados por aquela organização, enquanto uma foi encaminhada ao Museu Aeroespacial do Campo dos Afonsos, onde se encontra em exposição.
Em Escala.
Para representarmos o Cessna L-19E Bird Dog "FAB 3154" pertencente ao 1º Esquadrão Misto de Reconhecimento e Ataque (EMRA) – Esquadrão “Falcão” da Força Aérea Brasileira (FAB), empregamos o antigo kit produzido pela Model USA na escala 1/48 (única opção existente nesta escala). Apesar da montagem acessível, as rebarbas de injeção exigiram cuidadoso acabamento com lixas e polimento para garantir superfícies lisas.. Para maior realismo, foram confeccionados em scratch cabides subalares e foguetes fumígenos de fósforo branco, representando a capacidade das aeronaves L-19A e L-19E para marcação de alvos. Fizemos uso de decais impressos pela FCM Decais presentes no antigo e descontinuado set 48/09. Quando os Cessna L-19A Bird Dog foram recebidos na década de 1950, provenientes dos estoques do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army), as aeronaves chegaram com um esquema de pintura padrão , amplamente utilizado pelas forças armadas dos Estados Unidos. Esse padrão inicial, característico da Guerra da Coreia, consistia em uma pintura predominantemente em tons de verde-oliva fosco. Na década de 1960, com a consolidação das operações, foram modificações no esquema de pintura para atender às necessidades de segurança e visibilidade em operações de treinamento e patrulha. Durante esse período, foram incorporadas marcações de alta visibilidade em laranja brilhante (FS 12197) nas extremidades das asas e em faixas ao longo da fuselagem, complementadas por áreas em amarelo vivo (FS 13538) nas asas.
Bibliografia :
- Cessna 01 Bird Dog Wikipédia
- http://en.wikipedia.org/wiki/Cessna_O-1_Bird_Dog
- História da Força Aérea Brasileira - Prof. Rudnei Dias Cunha
- http://www.rudnei.cunha.nom.br/FAB/index.html
- Nas Garras do Puma – Oswaldo Claro Junior
- Aeronaves Militares Brasileiras 1916 - 2015 por Jackson Flores Junior





