História e Desenvolvimento.
Fundada em 1º de janeiro de 1910, em Manchester, pelos irmãos Alliott Verdon Roe e Humphrey Verdon Roe, a A.V. Roe and Company destacou-se como uma das empresas pioneiras na fabricação seriada de aeronaves, contribuindo significativamente para o desenvolvimento da indústria aeronáutica britânica. Sua história é, acima de tudo, uma narrativa de visão, perseverança e colaboração fraterna, que transformou os sonhos de voo de Alliott em uma realidade comercial e militar, deixando um legado duradouro na aviação. Ele liderou o desenvolvimento técnico e a construção das aeronaves, enquanto seu irmão Humphrey contribuiu com o financiamento, proveniente do negócio familiar de teares, e assumiu a administração da empresa até 1917, quando ingressou no Corpo Aéreo Real (RFC). Antes mesmo da fundação da companhia, Alliott já havia demonstrado sua genialidade, no inicio de 1908, seu primeiro aeroplano, o Roe I Triplane, apelidado de The Bullseye, realizou seu voo inaugural nos campos de Manchester. Este modelo, projetado e construído artesanalmente, é amplamente reconhecido como a primeira aeronave de projeto integralmente britânico, um feito que colocou a Inglaterra na vanguarda da aviação em seus primórdios. Com o estabelecimento formal da A.V. Roe and Company, a operação foi estruturada para atender ao novo porém crescente mercado de aviação. Um galpão foi alugado no Brooklands Flying Grounds, onde as aeronaves finalizadas eram exibidas e comercializadas por £450, um preço acessível para a época. As vendas começaram a ganhar tração, impulsionadas pela evolução constante dos projetos de Alliott. No final de 1912, o negócio não apenas se provou financeiramente viável, mas também revelou um potencial promissor, com perspectivas de crescimento a curto e médio prazo. Em 1913, a empresa alcançou autonomia financeira e tornou-se altamente lucrativa, consolidando sua posição em um mercado que, embora vibrante, começava a atrair concorrentes, desafiando a A.V. Roe a inovar continuamente para manter sua competitividade. Um marco significativo na trajetória da empresa foi a construção, em 1912, do monoplano Tipo F e do biplano Avro Tipo G, as primeiras aeronaves do mundo com cabine fechada para a tripulação. Embora esses modelos não tenham avançado além do estágio de protótipo, eles demonstraram a ousadia e a visão inovadora da companhia. O verdadeiro impulso para o futuro da empresa veio com o lançamento do modelo Avro E, também mais conhecido como Avro 500, uma aeronave que se destacou por seu desempenho excepcional. Este modelo atraiu a atenção do Corpo Aéreo Real (RFC), resultando, no final de 1913, no primeiro contrato militar da empresa, envolvendo a encomenda de 18 células destinadas aos Esquadrões de Treinamento nº 3, nº 4 e nº 5.
As entregas começaram no início de 1914, e, em março do mesmo ano, foram declaradas plenamente operacionais, marcando a entrada definitiva da empresa no setor de defesa e consolidando sua reputação como uma fabricante confiável. O Avro E 500, lançado em 1913, conquistou ampla aceitação entre pilotos e instrutores do Corpo Aéreo Real recebendo elogios do comando por seu desempenho confiável e design robusto. Esse sucesso motivou a diretoria da empresa, a investir recursos próprios no desenvolvimento de uma versão aprimorada, resultando no Avro 504. Apesar de derivado de seu antecessor, incorporava melhorias significativas em aerodinâmica e desempenho. Em julho de 1913, dois protótipos foram fabricados, e o primeiro voo ocorreu em 5 de setembro, a tempo de participar da Feira Aérea Internacional de Farnborough. O design avançado e a performance impressionante atraíram imediatamente a atenção do comando das forças armadas britânicas, que reconheceram seu potencial para atender às crescentes demandas militares. As negociações com o Corpo Aéreo Real e o Real Serviço Aéreo Naval resultaram na assinatura de contratos para a produção de um número substancial de aeronaves, marcando um momento de virada para a empresa No entanto, a capacidade produtiva da fábrica original, localizada em Brownsfield Mill, Manchester, revelou-se insuficiente para atender à demanda. Em resposta, a empresa transferiu suas operações para instalações maiores em Clifton Street, Miles Platting, ainda em Manchester. Mesmo essa medida se mostrou temporária, pois o aumento contínuo dos pedidos levou a um novo estrangulamento produtivo, forçando a migração para as instalações da Mather & Platt Works, em Newton Heath. Essas expansões refletem o dinamismo em adaptar-se às exigências de um mercado em rápida expansão, bem como a dedicação de seus funcionários, que trabalharam arduamente para manter a produção em ritmo acelerado. As primeiras unidades do Avro 504 foram declaradas operacionais em março de 1914, sendo inicialmente destinadas a missões de treinamento e observação. Sua versatilidade e confiabilidade tornaram-no um pilar dos esquadrões de instrução das forças armadas britânicas, preparando pilotos para os desafios da aviação militar. Contudo, o eclodir da Primeira Guerra Mundial, em 28 de julho de 1914, transformou profundamente o destino deste fabricante e do Avro 504. O conflito, que envolveu as principais potências europeias em uma escala sem precedentes, elevou a aeronave a um novo patamar operacional. Além de seu papel em treinamento, foi empregado em missões de combate, incluindo reconhecimento, bombardeio leve e até ataques improvisados. Essa adaptação às exigências da guerra destacou a robustez do projeto e a capacidade da empresa de responder rapidamente às necessidades militares.
Em 14 de agosto de 1914, apenas duas semanas após o início do conflito, o Avro 504 fez história de maneira trágica ao se tornar a primeira aeronave britânica abatida pelo fogo antiaéreo alemão. Pilotada pelo 2º Tenente Vincent Waterfall, com o Tenente Charles George Gordon Bayly como navegador, a aeronave pertencia ao 5º Esquadrão do Corpo Aéreo Real (RFC). Apesar dessa perda, o Avro 504 logo demonstrou sua versatilidade em uma missão notável conduzida pelo Real Serviço Aéreo Naval (RNAS) em 21 de novembro de 1914. Três aeronaves, partindo de Belfort, no nordeste da França, realizaram um audacioso ataque às instalações alemãs de produção e manutenção de dirigíveis Zeppelin em Friedrichshafen, nas margens do Lago de Constança. Carregando quatro bombas de 20 libras (9 kg) cada, as aeronaves enfrentaram condições adversas, com uma sendo abatida próximo ao alvo. As demais, no entanto, lograram êxito, atingindo diretamente os galpões dos dirigíveis e destruindo uma usina geradora de hidrogênio, em uma operação que demonstrou o potencial estratégico da aviação em alvos de alto valor. Conforme a Primeira Guerra Mundial ganhava intensidade, a tecnologia aeronáutica avançava em um ritmo frenético, com o surgimento de novas gerações de caças, bombardeiros e aeronaves de observação mais avançados. Esse progresso tornou o ambiente de combate cada vez mais hostil para o Avro 504, cujas capacidades, embora notáveis para sua época, foram superadas por modelos mais modernos. Assim, a aeronave foi rapidamente relegada a missões de segunda linha, sendo transferida para esquadrões de treinamento na Inglaterra, onde continuou a desempenhar um papel crucial na formação de pilotos. Até então, a produção do Avro 504 já alcançava milhares de unidades, abrangendo versões que evoluíram do modelo Avro 504A ao Avro 504J, com motores que progrediram de 60 hp para 80 hp, refletindo o esforço contínuo do departamento de engenharia do fabricante no aprimoramento sua criação. No inverno de 1917 e 1918, a escassez de aeronaves de caça no continente europeu e a necessidade urgente de substituir os obsoletos interceptadores Vickers B.E.2c nos esquadrões de defesa doméstica levaram o comando britânico a uma decisão inovadora: converter os Avro 504J e 504K para missões de caça. Essas versões foram adaptadas para um único assento, equipadas com uma metralhadora leve Lewis .303 (7,62 mm), montada acima da asa, e padronizadas com motores Gnome Monosoupape de 100 hp. Um total de 274 células foram modificadas, sendo distribuídas a oito esquadrões de defesa doméstica. Essa conversão, embora improvisada, demonstrou a versatilidade do Avro 504 e a capacidade do fabricante de responder às demandas emergentes da guerra, mesmo em um contexto de recursos limitados.Sua trajetória como a principal aeronave de instrução primária da aviação britânica é uma história de longevidade, versatilidade e impacto global, que reflete o talento de seus criadores e a dedicação de gerações de pilotos, instrutores e técnicos que confiaram em suas qualidades para formar aviadores em todo o mundo. Após a Primeira Guerra Mundial, encerrada em novembro de 1918, consolidou-se como o “treinador padrão” britânico, uma conquista atribuída à sua estabilidade, facilidade de manuseio e robustez. Com a criação da Força Aérea Real (RAF) em 1918, continuou a desempenhar um papel central nos esquadrões de treinamento, formando milhares de pilotos que seriam a espinha dorsal da aviação militar britânica. A abundância de aeronaves consideradas “excedentes de guerra” permitiu que cerca de 300 Avro 504 fossem transferidos para escolas civis de pilotagem na Grã-Bretanha, onde receberam registros civis. Nessas instituições, foram empregadas não apenas no treinamento de pilotos, mas também em tarefas inovadoras, como o reboque de faixas publicitárias, uma prática que demonstrava sua versatilidade. Muitas dessas aeronaves permaneceram em uso até o início da década de 1940, um testemunho de sua durabilidade em uma era de rápidos avanços tecnológicos. A influência do transcendeu as fronteiras britânicas. Na nascente força aérea da União Soviética, formada após a Revolução de 1917, foi adotado tanto em sua forma original quanto em uma versão local, conhecida como Avrushka (Little Avro). Equipadas com cópias russas do motor rotativo Gnome Monosoupape, essas aeronaves foram amplamente utilizadas no treinamento primário até o final da década de 1920, contribuindo para a consolidação da aviação militar soviética em seus primeiros anos. Na China Nacionalista, durante o mesmo período, o Avro 504 foi adquirido em grande quantidade, inicialmente para treinamento. No entanto, em meio às guerras regionais que marcaram a década de 1920, essas aeronaves foram adaptadas para missões de combate, com pilotos lançando granadas de mão e morteiros modificados em ataques improvisados. Esses usos, destacam a adaptabilidade do Avro 504 em contextos de recursos limitados. Em 1925, o fabricante buscando manter a relevância do modelo em um cenário constantes de avanços tecnológicos, apresentou o Avro 504N, uma versão modernizada do modelo original. Dois protótipos foram construídos para avaliação, um equipado com o motor Bristol Lucifer e outro com o Armstrong-Siddeley Lynx. O desempenho superior do motor Siddeley levou à sua seleção pela Força Aérea Real (RAF), que encomendou 592 células entre os anos de 1925 e 1932. Equiparam 05 esquadrões de instrução e também desempenharam missões de ligação e comunicação, consolidando o Avro 504N como um importante instrumento na formação de pilotos militares. 

Conquistou igualmente o mercado internacional, sendo exportada para as forças armadas de países como Bélgica, Brasil, Chile, Dinamarca, Grécia, Sião (atual Tailândia) e África do Sul. Sua reputação também favoreceu a produção sob licença em diferentes países, entre eles Dinamarca, Bélgica, Canadá e Japão, demonstrando a ampla aceitação do projeto e sua capacidade de atender às necessidades de diferentes forças aéreas. Na Força Aérea Real (RAF), começaram a ser substituídos, a partir de 1933, pelo mais moderno Avro Tutor, desenvolvido para a instrução primária de pilotos. Ao final de 1935, restavam apenas 07 exemplares em serviço operacional, alguns dos quais foram posteriormente adaptados para o reboque de alvos e planadores. Parte das aeronaves que ainda apresentavam boas condições de conservação foi transferida para escolas civis de aviação, recebendo matrículas civis e prolongando sua carreira até o início da década de 1940. Entre 1914 e 1928, foram produzidas aproximadamente 11.484 aeronaves, distribuídas por 29 versões, em 13 fábricas britânicas. Foi fabricado ou montado sob licença em diversos países, incluindo Argentina, Bélgica, União Soviética, Japão, Canadá, Dinamarca e França. Em alguns desses mercados, serviu de base para variantes desenvolvidas de acordo com requisitos locais, como os treinadores japoneses Yokosuka K2Y1 e K2Y2, os modelos soviéticos U-1 (Uchebnyi-1) e MU-1 (Morskoy Uchebnyi-1), além do dinamarquês LB.I, produzido pelas oficinas aeronáuticas da Orlogsværftet. Na Austrália, também surgiram desenvolvimentos locais associados à família, como os modelos conhecidos como Warregull. A ampla difusão da família Avro 504 também se refletiu na diversidade de seus operadores militares. Além do Brasil, o modelo esteve a serviço de forças armadas da Argentina, do Canadá, da Estônia, da Finlândia, da Grécia, da Guatemala, da Índia Britânica, do Irã, da Irlanda, do Japão, da Letônia, da Malaia, do México, da Mongólia, da Noruega, do Peru, da África do Sul, do Sião, da Polônia, de Portugal, da Espanha, da Suécia, da Suíça, da Tailândia, do Uruguai e dos Estados Unidos, entre outros países. Essa presença internacional evidencia a importância do projeto em uma época na qual a aviação militar ainda se encontrava em pleno processo de desenvolvimento e consolidação. O modelo ficou ainda associado ao lançamento de tropas por via aérea e a operações de bombardeio contra alvos em território alemão, além de figurar entre as primeiras aeronaves britânicas abatidas pelo fogo antiaéreo inimigo. Ao longo de sua carreira, também contribuiu para a formação de numerosos aviadores que posteriormente se destacariam nos combates aéreos, entre eles o canadense Billy Bishop, que se tornaria um dos mais conhecidos ases aliados do conflito.
Emprego na Marinha do Brasil.
O desenvolvimento da aviação militar no Brasil teve suas raízes no início do século XX, um período marcado por avanços tecnológicos revolucionários desencadeados pelo primeiro voo controlado de uma aeronave mais pesada que o ar, realizado pelo inventor brasileiro Alberto Santos-Dumont em 1906 com o 14-bis, em Paris. Inspirado por esse marco e pela crescente relevância da aviação nos conflitos globais, o Brasil buscou estruturar sua capacidade aérea militar. Em fevereiro de 1914, foi fundada a Escola Brasileira de Aviação no Campo dos Afonsos, Rio de Janeiro, por meio de uma parceria entre o Ministério da Guerra e a empresa italiana Gino, Buccelli & Cia. Essa colaboração envolveu o fornecimento de equipamentos e instrutores estrangeiros para formar os primeiros aviadores militares do Exército Brasileiro, estabelecendo as bases para a Aviação Militar. Paralelamente, a Marinha do Brasil, reconhecendo o potencial estratégico da aviação em operações marítimas, demonstrou pioneirismo ao criar a Escola de Aviação Naval (EAvN) em 23 de agosto de 1916. Essa iniciativa foi impulsionada pela visão de líderes navais, como o então Ministro da Marinha, Almirante Alexandrino de Alencar, que se inspirou no uso de aeronaves durante a Primeira Guerra Mundial (1914–1918). A guerra destacou o valor dos hidroaviões em missões de reconhecimento, patrulha e apoio naval, motivando a Marinha a adquirir suas primeiras aeronaves. Sob a liderança do Almirante Protógenes Pereira Guimarães, patrono da Aviação Naval Brasileira, a escola foi incumbida de desenvolver a doutrina de emprego aéreo e preparar pessoal qualificado para operar essas plataformas. As primeiras aeronaves adquiridas pela Marinha foram três aerobotes Curtiss Model F, o primeiro realizou seu voo operacional em 1916, enquanto os outros dois foram montados até outubro do mesmo ano na Carreira Tamandaré, localizada no Arsenal de Marinha, próximo ao Morro de São Bento, no Rio de Janeiro. Essa área, situada nas proximidades da antiga ponte para a Ilha das Cobras, é hoje ocupada pelo rancho do 1º Distrito Naval. Pouco depois, a escola foi transferida para a Ilha das Enxadas, onde foram construídos dois hangares com capacidade para abrigar quatro aeronaves cada, consolidando a infraestrutura inicial para a formação de aviadores navais. Nos anos seguintes, com o apoio de instrutores norte-americanos, concentrou-se na formação dos primeiros aviadores navais brasileiros, desenvolvendo competências essenciais para operações aéreas marítimas. Contudo, o aumento da complexidade das missões navais, que incluíam observação, caça e bombardeio, revelou a necessidade de modernizar a frota e as práticas de instrução. Muitos dos hidroaviões utilizados, que compunham uma coleção variada de modelos, estavam alcançando o fim de sua vida útil operacional no final da década de 1910.
A obsolescência dos equipamentos e a evolução tecnológica da aviação militar levaram a Marinha do Brasil a padronizar sua frota e uniformizar os métodos de instrução, buscando aumentar a eficiência do treinamento, simplificar a manutenção e preparar a Aviação Naval para operar aeronaves mais modernas. Nesse processo de modernização, o comando voltou sua atenção para os métodos de instrução desenvolvidos pelas principais potências aeronáuticas da época. Entre eles, destacava-se o Sistema Gosport, associado às práticas de treinamento adotadas pela aviação militar britânica durante a Primeira Guerra Mundial. Desenvolvido na Inglaterra e difundido a partir de 1916, esse método valorizava a padronização do ensino, a progressão gradual dos exercícios e a utilização de aeronaves terrestres nas etapas iniciais da formação. Seriam envidados oficiais para estudar os métodos de instrução e a organização das escolas de aviação britânicas, buscando aprimorar a formação de seus pilotos. Durante a missão, os militares conheceram o Avro 504, reconhecido por suas qualidades como aeronave de treinamento militar, que permitia desenvolver os fundamentos do voo antes de avançar para operações mais complexas, como a de hidroaviões. A robustez estrutural, a facilidade de manutenção e a versatilidade do Avro 504 tornaram-no especialmente adequado à formação de pilotos, despertando o interesse e contribuindo para sua posterior incorporação. Em maio de 1920, o primeiro Avro 504K chegou à Marinha do Brasil em decorrência do encerramento das atividades da Handley Page Limited no país. A companhia britânica havia trazido 04 aeronaves para explorar rotas aéreas comerciais, iniciativa favorecida pela disponibilidade de excedentes aeronáuticos após a Primeira Guerra Mundial. Com o encerramento das atividades da empresa, suas aeronaves remanescentes foram transferidas ao governo brasileiro, possibilitando seu aproveitamento em outras atividades. Entre os aviões recebidos encontrava-se o Avro 504K, de matrícula 46, que foi destinado à Escola de Aviação Naval (EAvN). A utilização do aparelho, contudo, trouxe um desafio de ordem prática. Naquele momento, a Escola de Aviação Naval ainda funcionava na Ilha das Enxadas, na Baía de Guanabara, em instalações voltadas principalmente às atividades com hidroaviões. A ausência de uma pista adequada para operações com aeronaves terrestres exigia adaptações e soluções para viabilizar o emprego do Avro 504K. Esse obstáculo evidenciava as dificuldades enfrentadas pela Marinha do Brasil na transição para métodos de instrução mais diversificados e modernos, em um período no qual a estrutura da Aviação Naval ainda precisava acompanhar o ritmo das transformações técnicas e doutrinárias da aviação militar internacional.

Não há registros claro se o Avro 504K foi desmontado e armazenado ou mantido em outro local. Contudo, esse evento marcou o início da transição da Aviação Naval para o uso de aviões terrestres, alinhando-se ao Sistema Gosport. Para atender à crescente demanda por aeronaves de treinamento modernas, foram destinado recursos para ampliar sua frota. Em 1921, foram adquiridas 04 células usadas, equipadas com o motor rotativo Gnome Monosoupape de 100 hp. As duas primeiras unidades chegaram ao Brasil no final do primeiro semestre de 1921, sendo montadas em agosto e enviadas ao Campo dos Afonsos, no Rio de Janeiro, onde operaram temporariamente até a conclusão de uma pista na nova base da Escola de Aviação Naval (EAvN), na Ponta do Galeão. Um acidente resultou na perda de uma dessas aeronaves, levando à montagem das 02 células restantes entre novembro e dezembro de 1921. A frota foi reforçada com a celebração de um contrato em 23 de maio de 1922 com a Curtiss Aeroplane Export Corporation, para a aquisição de mais 12 células usadas, configuradas com motores radiais Le Rhône de 110 hp. Essas aeronaves, embora de segunda mão, representavam um avanço em relação aos hidroaviões iniciais, oferecendo maior desempenho e adequação às práticas de treinamento sistematizadas. Até o final de 1923, a Aviação Naval operava 16 aeronaves Avro 504K, alocadas à 3ª Esquadrilha da Flotilha de Treinamento, sediada na Ilha das Enxadas e, posteriormente, na Ponta do Galeão. Apesar do número considerável, a disponibilidade operacional era severamente limitada devido a pequenos acidentes e à falta de manutenção adequada. Durante os tumultos políticos de 1924, as atividades da Escola de Aviação Naval (EAvN) foram significativamente reduzidas, resultando em uma queda de 50% no número de alunos formados em 1925. Em momentos de maior tensão revolucionária, algumas aeronaves Avro 504K foram armadas com metralhadoras Lewis calibre .303 (7,62 mm × 54 mm) para missões de apoio tático, evidenciando a versatilidade do modelo em cenários de crise. As restrições orçamentárias impostas pelo contexto político limitaram o fluxo de peças de reposição, levando a índices alarmantes de indisponibilidade. Em 1925, apenas 04 células estavam operacionais, com as demais armazenadas ou em manutenção prolongada. No ano seguinte, o Centro de Aviação Naval do Rio de Janeiro (CAvNRJ) conseguiu recuperar uma aeronave adicional, mas os desafios persistiram. Em 1926, três Avro 504K realizaram um feito notável para a época: um raid aéreo entre o Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Contudo, duas aeronaves foram perdidas durante a missão, reduzindo ainda mais a frota operacional. Até o final de 1927, apenas 03 Avro 504K permaneciam disponíveis, com as demais perdidas em acidentes ou em reparos de grande escala.
Reconhecendo a necessidade de modernizar sua frota de treinamento, a Diretoria Geral de Aeronáutica da Marinha avaliou propostas para aquisição de novas aeronaves. Embora inicialmente considerasse a compra de células usadas do Avro 504K, a atenção voltou-se para a variante mais moderna, o Avro 504N/O, equipada com melhorias significativas, como o motor radial Armstrong Siddeley Lynx de 180 hp. Em janeiro de 1927, foi celebrado um contrato para a aquisição de 06 células novas de fábrica, acompanhadas de um amplo pacote de peças de reposição, visando mitigar os problemas de manutenção enfrentados anteriormente. As novas aeronaves foram recebidas e colocadas em condições de voo durante o primeiro semestre de 1928. Elas passaram a compartilhar as tarefas de treinamento com os Avro 504K remanescentes. Sua introdução representou um avanço na padronização do treinamento, alinhando aos padrões internacionais de formação de pilotos. A operação das novas aeronaves não foi isenta de dificuldades. Apenas três dias após o primeiro voo de um Avro 504N/O, em julho de 1928, uma das células sofreu uma pane no motor e caiu nas proximidades do Centro de Aviação Naval do Rio de Janeiro (CAvNRJ). No mês seguinte, outra aeronave realizou um pouso forçado no mar. Ambas foram resgatadas e enviadas para reparos, mas uma delas permaneceu em manutenção por um período prolongado, refletindo os desafios logísticos enfrentados pela Aviação Naval em um contexto de recursos limitados. Em 1929, o ano letivo foi iniciado com apenas cinco aeronaves Avro 504N/O, das quais duas estavam equipadas com flutuadores. Desempenharam um papel crucial no treinamento de pilotos, contribuindo para a formação de aviadores navais em 1929 e 1930. Paralelamente, as 03 últimas células operacionais do Avro 504K, já desgastadas por anos de uso intensivo, foram submetidas a um programa de modernização iniciado em maio de 1929. O foco principal foi a substituição do motor rotativo Gnome Monosoupape, pelo motor radial fixo Armstrong Siddeley Lynx IVC, mais confiável e eficiente. Algumas dessas aeronaves também foram adaptadas para operar com flutuadores, visando atender às necessidades de operações marítimas. O processo foi concluído em janeiro de 1930, mas os resultados não atenderam às expectativas. A performance das aeronaves não alcançou os objetivos desejados, e a frota remanescente enfrentava desafios logísticos crescentes. Como resultado, a Diretoria Geral de Aeronáutica da Marinha decidiu desativar os Avro 504K em junho de 1930, encerrando sua carreira na Aviação Naval Brasileira. Apesar do número reduzido de aeronaves, devido a acidentes que exigiam reparos prolongados, os Avro 504 foram fundamentais para a formação da maior turma de aviadores navais até então, com 07 oficiais recebendo o brevê de aviador naval em 1931.

O ano de 1931 prometia intensificar as atividades de treinamento, com a Escola de Aviação Naval (EAvN) planejando formar a maior turma de aviadores navais desde sua criação em 1916, incluindo a primeira turma de aviadores da Reserva Naval Aérea. No entanto, esses planos foram interrompidos pela Revolução Constitucionalista de 1932, um conflito civil liderado pelo estado de São Paulo contra o governo de Getúlio Vargas, que buscava a redemocratização do país após o golpe de 1930. A revolta, que durou de julho a outubro de 1932, resultou na suspensão de praticamente todas as atividades de instrução aérea, redirecionando recursos e esforços para operações de apoio tático. Nesse período, os Avro 504N/O já não eram mais utilizados na formação inicial de pilotos, mas continuavam desempenhando um papel essencial no adestramento do pessoal do Centro de Aviação Naval do Rio de Janeiro (CAvNRJ). Essas aeronaves, embora limitadas em número, foram empregadas em tarefas de treinamento avançado e manutenção das habilidades de voo, garantindo a continuidade das operações da Aviação Naval em um contexto de crise. O início das hostilidades faria com que a Aviação Naval reunisse todos os seus recursos de material e pessoal para o esforço de guerra, e entre as aeronaves convocadas estavam os Avro 504N/O Lince. Entre outras necessidades das forças legalistas encontrava-se o patrulhamento fluvial na região do pantanal, na tentativa de inibir qualquer atividade das forças Constitucionalistas. Para dar apoio direto às unidades de superfície, em agosto 02 Avro 504N/O receberiam metralhadoras Vickers .303 de calibre 7,62 mm × 54 mm e foram enviados à Base Naval de Ladário. Equipados com flutuadores, esses aviões regularmente realizavam missões de vigilância nos longos cursos fluviais da região, executando ainda o patrulhamento de fronteira. Ao término da Revolução Constitucionalista, estes dois aviões que se encontravam no Pantanal regressariam ao Centro de Aviação Naval do Rio de Janeiro - CAvN RJ e foram aparentemente recolhidas as Oficinas Gerais de Aviação Naval (OGAN) a fim de sofrerem uma revisão geral. Por sua vez, em setembro de 1932, um Avro 504N/O seria dado como pronto entregue após uma revisão completa. Porém essa aeronave teria uma vida efêmera, acidentando-se com perda total de material e infelizmente de pessoal em dezembro daquele mesmo ano. A partir de então, a historia dos Avro 504N/O torna-se nebulosa. Existem indicações de que os aviões que estiveram no Pantanal, junto com mais outra célula, permaneceriam nas Oficinas Gerais de Aviação Naval (OGAN) e de lá não sairiam mais. O certo é que, em 1934, seria dada baixa aos Avro 504N/O Lince, encerrando, assim definitivamente, a carreira destas aeronaves no Brasil.
Em Escala.
Para representarmos o Avro 504K “A7” pertencente a Marinha do Brasil, a serviço da Escola de Aviação Naval - EAvN, empregamos o antigo kit da Airfix na escala 1/72. Modelo este de fácil montagem, porém apresentando baixo detalhamento, exigindo ainda confecção em scratch dos para-brisas. Fizemos uso de decais confeccionados pela FCM Decals presentes no antigo set 72/09.
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o segundo padrão de pintura empregado pelos Avro 504K da Aviação Naval, inicialmente as aeronaves foram recebidas em uma tonalidade de amarelo denominada "clear dope linen" com o FS 33695. Já as células do modelo Avro 504N/O receberam padrões de pintura em metal natural com as marcações nacionais.
Bibliografia :
- Avro 504 – Wikipedia https://en.wikipedia.org/wiki/Avro_504
- Aeronaves Militares Brasileiras 1916 – 2015 – Jackson Flores
- 100 anos da Aviação Naval - Marinha do Brasil & Fundação Getulio Vargas
- Asas sob os Mares , Prof Rudnei Dias Cunha - http://www.rudnei.cunha.nom.br/Asas%20sobre%20os%20mares/index.html





