História e Desenvolvimento.
A Gio. Società Giovanni Ansaldo & Compagnia, uma das mais emblemáticas indústrias italianas do período moderno, teve sua origem no século XIX, fundada por um grupo de proeminentes empreendedores genoveses Raffaele Rubattino, Giacomo Filippo Penco, Carlo Bombrini e Giovanni Ansaldo. Este último, personalidade de destacada relevância histórica, imprimiu à empresa uma visão inovadora e empreendedora que viria a definir sua trajetória nas décadas seguintes. De formação humanista e com interesses que se estendiam das artes e ciências à engenharia industrial, Ansaldo tornou-se um verdadeiro símbolo do espírito de modernização que caracterizava a Itália unificada e em processo de industrialização. Nos primeiros anos de existência, até o final do século XIX, a Gio. Ansaldo & C. concentrou suas atividades no setor ferroviário, dedicando-se à fabricação e ao reparo de locomotivas, vagões, caldeiras, guindastes e equipamentos metalúrgicos. Essa especialização refletia as necessidades de uma Itália em transformação, cujo desenvolvimento econômico dependia fortemente da expansão da malha ferroviária e da modernização de sua infraestrutura. Durante esse período, a empresa conheceu um crescimento expressivo, alcançando um contingente de dez mil empregados distribuídos em sete unidades fabris, o que a posicionou entre as maiores organizações industriais do país. Com o avanço do século XX, a companhia iniciou uma fase de diversificação de atividades, expandindo-se para os setores de construção naval e obras mecânicas de grande porte. Essa estratégia visava reduzir a dependência do setor ferroviário e consolidar sua presença em áreas estratégicas para o desenvolvimento nacional italiano. Em 1904, a empresa passaria por um momento de inflexão em sua história, ao ser adquirida por Ferdinando Maria Perrone, figura influente da indústria e das finanças italianas. Sob sua liderança e posteriormente com o apoio de seus filhos, Mário e Pio Perrone , a Gio. Ansaldo & C. entrou em um processo de reorganização e modernização empresarial, pautado pela busca da autossuficiência industrial. Para tanto, implementou-se uma ampla integração vertical, abrangendo todas as etapas do processo produtivo, desde a siderurgia básica até a fabricação de armamentos e material bélico. Essa estratégia transformou a Ansaldo em um verdadeiro conglomerado industrial, capaz de competir com os maiores grupos europeus da época. O início da Primeira Guerra Mundial representou uma virada decisiva para a empresa. Embora a Itália tenha inicialmente mantido uma posição de neutralidade, os dirigentes da Ansaldo desempenharam papel ativo na defesa da entrada do país no conflito. Por meio de lobby político e financiamento de grupos nacionalistas e beligerantes, entre os quais se destacava o movimento protofascista liderado por Benito Mussolini, a companhia alinhou-se aos interesses expansionistas e industriais da elite italiana. Com a entrada efetiva da Itália na guerra, vivenciou um surto de prosperidade sem precedentes. A demanda por armamentos, locomotivas, motores e embarcações impulsionou exponencialmente seu crescimento. O valor de mercado da empresa, que em 1914 era de cerca de 30 milhões de liras, ultrapassou 500 milhões de liras ao término do conflito um aumento de mais de 1.500% em apenas 4 anos.
No auge de sua expansão, durante o verão de 1918, a Ansaldo empregava aproximadamente 80 mil trabalhadores em dezenas de complexos industriais distribuídos por toda a Itália. Nesse período, o grupo controlava uma vasta rede de subsidiárias e empresas associadas, entre as quais se destacavam a A. Cerpelli & C., Banca Industriale Italiana, Cantieri Officine Savoia, Dynamit Nobel, Gio. Fossati & C., Lloyd Italico, Nazionale di Navigazione, Pomilio, Società Idroelettrica Negri e Transatlantica Italiana, consolidando-se como um dos maiores conglomerados industriais e financeiros da Europa. Entretanto, o rápido crescimento, sustentado sobretudo pela economia de guerra, revelou-se insustentável no período pós-conflito. Já a partir de 1910, a empresa enfrentava tensões financeiras estruturais, especialmente em sua relação com o Banco Italiano di Sconto, seu principal credor. Com o fim da guerra e o colapso da demanda militar, essas fragilidades tornaram-se evidentes, levando a Gio. Ansaldo & C. a uma crise de liquidez e endividamento, que ameaçou a continuidade de suas operações e marcou o início de um longo processo de reestruturação e declínio. Em 1921, a família Perrone retirou-se da direção da Gio. Ansaldo & Compagnia, deixando para trás uma das maiores indústrias italianas em meio a uma grave crise financeira que ameaçava sua solvência. Para evitar a falência, formou-se um consórcio liderado pelo Banco Italiana di Sconto, que assumiu a missão de reestruturar a empresa e preservar um dos pilares da indústria nacional. Durante a década de 1920, a Ansaldo adotou uma postura mais conservadora, marcada pela retração de suas operações e pela busca de estabilidade econômica. Embora o setor eletromecânico tenha apresentado sinais modestos de crescimento, o conjunto da companhia permaneceu fragilizado, lutando para recuperar o dinamismo e a rentabilidade do período anterior à Primeira Guerra Mundial. A crise estrutural que assolava a economia italiana agravada pela instabilidade política e pelas transformações do período entre guerras levou, na década de 1930, à intervenção do Istituto per la Ricostruzione Industriale (IRI), criado pelo governo para salvar conglomerados estratégicos em dificuldades. Sob a administração do IRI, a Gio. Ansaldo & C. viveu um processo de revitalização, impulsionado pelo programa de rearmamento e pela política autárquica do regime fascista, que visava à autossuficiência nacional em setores essenciais, especialmente o militar e o energético. Nesse contexto, a fábrica Ansaldo de Gênova recebeu uma importante encomenda do Regio Esercito Italiano (Exército Real Italiano): o desenvolvimento de um carro de combate leve sobre lagartas, que combinasse mobilidade, simplicidade construtiva e baixo custo operacional. O projeto foi inspirado no bem-sucedido Carden-Loyd Mk VI, blindado britânico projetado pela Vickers-Armstrongs no início da década de 1920 para o Exército Real Britânico. Esse veículo multifuncional era utilizado tanto para tracionar peças de artilharia quanto para realizar missões de reconhecimento, sendo considerado um dos primeiros tanques leves modernos.

Os engenheiros italianos da Ansaldo e da Fiat Automobiles S.p.A. trabalharam em conjunto na adaptação do modelo britânico às necessidades locais. Em janeiro de 1929, o governo italiano celebrou um contrato de licença com a Vickers-Armstrongs, autorizando a produção nacional do Carden-Loyd Mk VI. As unidades fabricadas na Itália receberam modificações, como a instalação de metralhadoras aeronáuticas de 8 mm e, em alguns casos, lança-chamas Fiat OCI, resultando em um veículo versátil e adequado às exigências do exército. No serviço italiano, o modelo foi designado CV-29, sigla de Carro Veloce 1929, refletindo sua natureza de “tanque rápido” e o ano de introdução em serviço. Durante os primeiros anos de operação, o CV-29 foi amplamente elogiado por suas qualidades técnicas especialmente sua agilidade, leveza e confiabilidade , tornando-se uma referência no segmento de veículos blindados leves. O sucesso do projeto italiano ultrapassou fronteiras. Mais de 450 unidades derivadas do conceito original foram exportadas para mais de vinte países, consolidando a reputação técnica da Ansaldo no mercado internacional. O modelo também exerceu forte influência sobre o desenvolvimento de outros carros de combate leves, como o japonês Type 92 Jyū-Sokosha, o polonês TKS e o italiano CV3-33, evidenciando o papel da indústria bélica italiana como vetor de modernização tecnológica no período entre guerras. Com o propósito de racionalizar custos e acelerar o desenvolvimento tecnológico, o novo modelo de carro blindado leve foi projetado tomando como base o bem-sucedido Fiat CV-29, resultando em uma colaboração estratégica entre as equipes de engenharia da Fiat Automobiles S.p.A. e da Gio. Ansaldo & Compagnia. Essa parceria representou um marco importante na integração da indústria bélica italiana, permitindo a conjugação de recursos técnicos, experiência produtiva e capacidade industrial, em consonância com as diretrizes de autossuficiência estabelecidas pelo regime fascista. Em maio de 1933, o primeiro protótipo funcional do novo blindado foi concluído e submetido a um rigoroso programa de testes e avaliações de campo. Os resultados revelaram desempenho satisfatório em termos de mobilidade, confiabilidade e potência de fogo, levando o governo fascista italiano a firmar um contrato inicial para a aquisição de 300 unidades. A produção foi dividida entre as duas empresas: a Fiat, em sua planta de Turim, e a Ansaldo, em suas instalações de Gênova. O veículo recebeu a designação oficial de Fiat-Ansaldo CV-33, sendo incorporado ao Regio Esercito Italiano (Exército Real Italiano) como o principal carro leve de reconhecimento da década. Pouco tempo depois, atendendo às solicitações de oficiais do exército e com base nas experiências operacionais iniciais, foi iniciado, em 1934, o desenvolvimento de uma versão aprimorada do modelo. O projeto foi finalizado em 1935, resultando na criação do Tankette CV-35 (Carro Veloce 1935), um veículo de pequeno porte, destinado a missões de reconhecimento, apoio à infantaria e transporte leve de armamento.
O CV-35 possuía tripulação de dois homens motorista e artilheiro e destacava-se por suas dimensões compactas (3,15 metros de comprimento, 1,28 metro de altura e 1,40 metro de largura) e peso aproximado de 3.100 kg, características que lhe conferiam excelente mobilidade. Equipado com um motor Fiat-Spa CV3, de 43hp, refrigerado a água, o blindado podia alcançar velocidades de até 42 km/h em estrada e 12 km/h em terrenos acidentados, com autonomia média de 140 km, desempenho notável para um veículo de sua categoria. Entre as principais inovações técnicas, destacavam-se a adoção de chapas de blindagem aparafusadas substituindo o método tradicional de rebitagem ou soldagem , que simplificava a manutenção e reduzia custos, e a introdução de metralhadoras gêmeas Fiat Mod. 14/35 de 8 mm, que substituíram as antigas Fiat-Revelli Mod. 1914 de 6,5 mm, proporcionando maior poder de fogo e confiabilidade em combate. Em 1935, foram autorizadas a construção e entrega de 05 unidades pré-série do CV-35, destinadas a um ciclo de testes e avaliações operacionais, conduzidos ao longo de quatro meses. Os resultados foram altamente promissores, demonstrando significativa melhoria em desempenho e robustez. O sucesso desses ensaios consolidou o potencial militar e industrial do CV-35, assegurando à Fiat e à Ansaldo uma posição de destaque no emergente complexo industrial de defesa italiano, fortemente apoiado pelo governo de Benito Mussolini. Em 1935, o Comando do Regio Esercito Italiano (Exército Real Italiano) oficializou uma encomenda de 1.300 unidades blindado leve CV-35, consolidando o modelo como o principal veículo de reconhecimento e apoio da força terrestre italiana. As entregas iniciaram-se no começo de 1936, em paralelo à assinatura de um contrato complementar, destinado à modernização dos carros Fiat CV-33 já em serviço. Após as atualizações que incluíram melhorias na blindagem, no sistema de ventilação e na adequação para armamento duplo , os veículos modernizados receberam a nova designação L3/33, em que “L” significa Leggero (leve). Além de sua função de reconhecimento, foram empregados em tarefas de tração de peças de artilharia leve e adaptados em versões lança-chamas, demonstrando a versatilidade e o valor tático do projeto. Os CV-35 entraram em serviço ativo ainda em 1935 e tiveram seu batismo de fogo durante a Segunda Guerra Ítalo-Abissínia (1935–1936), conflito que marcou o auge do expansionismo promovido pelo regime de Benito Mussolini. Sob o comando do marechal Emilio De Bono, aproximadamente 200 mil soldados partiram da Eritreia, rumo ao território da Abissínia (atual Etiópia), sem declaração formal de guerra. Os CV-35 desempenharam papel crucial no avanço das forças oferecendo apoio direto à infantaria e contribuindo para o êxito das operações em terreno montanhoso e irregular, ainda que dentro de um cenário de guerra assimétrica. Durante a década de 1930, ganhou amplo reconhecimento internacional, sendo exportado para diversos países da Europa, América Latina e Ásia, o que o transformou em um dos blindados mais difundidos de sua época. Seu desempenho o levou a ser empregado em múltiplos conflitos, refletindo a política italiana de projeção de influência militar por meio da exportação de armamentos.

Um dos episódios mais notáveis de sua carreira ocorreu na Guerra Civil Espanhola, onde foi amplamente utilizado pelo Corpo de Tropas Voluntárias (Corpo Truppe Volontarie, CTV), enviado pela Itália em apoio às forças nacionalistas. Embora inicialmente eficaz contra forças mal equipadas, o CV-35 mostrou-se vulnerável nos combates diretos, sendo frequentemente destruído por contra-ataques de infantaria e canhões antitanque soviéticos de 37 mm, além de superado pelos tanques leves T-26 e BT-5, fornecidos às forças republicanas. Além do teatro espanhol, foi empregado em diversos outros conflitos internacionais, incluindo a Segunda Guerra Sino-Japonesa, a Guerra Eslovaco-Húngara e a Guerra Anglo-Iraquiana , consolidando sua presença global em diferentes frentes. No momento em que a Itália ingressou na Segunda Guerra Mundial, em 10 de junho de 1940, dispunha-se de cerca de 100 unidades do L3/33, organizadas em dois batalhões blindados, enquanto os CV-35 equipavam as três divisões blindadas , atuando ao lado de carros médios e veículos de apoio mecanizado. Eles também integravam os batalhões de tanques das divisões motorizadas, as esquadras de tanques leves das divisões “Rápidas” (Celere) e uma série de batalhões independentes destacados para operações de apoio direto. Contudo, apesar de sua ampla presença nos teatros de operação do Norte da África, dos Bálcãs e do Mediterrâneo, o CV-35 revelou-se obsoleto já nos primeiros anos. Sua blindagem delgada, eficaz apenas contra armas leves, mostrou-se incapaz de resistir aos canhões antitanque de 37 mm utilizados pelas forças britânicas e francesas, evidenciando a defasagem tecnológica e doutrinária das forças blindadas italianas diante das exigências do combate moderno. Após a Campanha dos Bálcãs (1940–1941), a maioria dos carros de combate leves CV3-35 foi realocada para tarefas secundárias, com poucas unidades permanecendo em serviço na linha de frente. Durante a Guerra Greco-Italiana (1940–1941), aproximadamente 40 foram capturados e utilizados pelo Exército Grego (Ελληνικός Στρατός) na 19ª Divisão Mecanizada, desempenhando um papel significativo nos combates. Após a invasão da Iugoslávia e da Grécia em abril de 1941, mais unidades dos modelos CV3-35 e L3/33 foram capturadas e empregadas pelas forças de resistência iugoslavas e gregas. Com a assinatura do armistício em 1943, grande parte da frota remanescente dos blindados CV3-33 e CV3-35 foi incorporada pelas tropas de ocupação alemaes pelo Exército Republicano Nacional da República Social Italiana (Esercito Nazionale Repubblicano). Essas unidades permaneceram em operação até a rendição final em 8 de maio de 1945. Entre os anos de 1933 e 1943, aproximadamente 2.500 unidades do CV3-33 e CV3-35 foram produzidas. Sendo fabricados em diversas variantes, incluindo: L3 CC: Versão antitanque equipada com um canhão Solothurn de 20 mm, instalado no lugar da metralhadora. L3 LF: Versão lança-chamas, que tracionava um tanque de combustível blindado com capacidade de 500 litros. L3 Lança-Pontes: Configuração projetada para o transporte e lançamento de pontes. L3 Radio Comando: Equipado com um rádio Marelli RF1 CA de alta potência para funções de comando e comunicação. Uma parcela significativa foi exportada para países como China Nacionalista, Afeganistão, Albânia, Áustria, Bolívia, Brasil, Bulgária, Croácia, Hungria, Iraque e Espanha Nacionalista. Os últimos operadores dos modelos mantiveram esses em serviço até meados da década de 1950, principalmente em funções de apoio e segurança.
Emprego no Exército Brasileiro.
Durante a Primeira Guerra Mundial, o Ministério da Guerra brasileiro enviou o então 1º Tenente de Cavalaria José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque à França, como parte de um programa de intercâmbio militar e aperfeiçoamento profissional. Na Escola de Carros de Combate de Versalhes, dedicou-se ao estudo das especialidades de motorização e mecanização, áreas que despontavam como elementos fundamentais para a transformação dos exércitos modernos. Em abril de 1919, foi designado como observador junto ao 503º Regimento de Artilharia de Carros de Assalto, oportunidade que lhe permitiu acompanhar de perto a operação dos carros de combate Renault FT-17 e adquirir valiosa experiência prática sobre o emprego de blindados em operações militares. As observações e conhecimentos obtidos durante sua permanência na Europa seriam posteriormente consolidados na obra Os "Tanks" na Guerra Europeia, publicada em 1921. O trabalho analisava o desenvolvimento, a evolução técnica e o emprego tático dos veículos blindados durante o conflito, tornando-se uma das primeiras publicações brasileiras dedicadas ao tema e consolidando José Pessoa como um dos pioneiros do pensamento blindado nacional. Além de sua contribuição para a mecanização do Exército Brasileiro, José Pessoa desempenharia papel relevante na modernização do ensino militar do país, destacando-se como um dos idealizadores da Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), e como fundador do Centro de Instrução de Artilharia de Costa, posteriormente transformado em escola militar em 1942. Ao retornar, sua experiência e seus estudos exerceram significativa influência sobre o alto comando do , contribuindo para o fortalecimento da corrente favorável à criação de uma força blindada nacional. Nesse contexto, a escolha recaiu sobre o FT-17, decisão favorecida tanto pelo prestígio alcançado pelo modelo durante a guerra quanto pela crescente aproximação entre os governos do Brasil e da França. Apesar disso, o próprio José Pessoa manifestava reservas quanto à adequação do veículo às necessidades futuras, considerando-o um modelo já limitado diante da rápida evolução tecnológica observada no pós-guerra. A materialização desse projeto ocorreu por meio do Decreto nº 15.235, de 31 de dezembro de 1921, que criou oficialmente a Companhia de Carros de Assalto, sediada na Vila Militar, no Rio de Janeiro. Com essa iniciativa, o Exército Brasileiro tornou-se pioneiro na América do Sul na organização de uma unidade blindada permanente, incorporando uma tecnologia que representava o estado da arte da guerra terrestre naquele período. Entretanto, a introdução dos carros de combate não ocorreu sem resistência. Parte significativa do oficialato mais antigo demonstrava ceticismo em relação ao valor militar dos blindados, reflexo da ausência de uma doutrina consolidada e de uma visão estratégica capaz de integrar adequadamente esses novos meios ao conjunto das forças. Como consequência, a Companhia de Carros de Assalto enfrentou dificuldades relacionadas à formação de pessoal, manutenção, logística e desenvolvimento doutrinário, limitações que retardariam a evolução da arma blindada ao longo das décadas seguintes. Apesar dessas dificuldades, os FT-17 seriam empregados operacionalmente durante a Revolução Constitucionalista de 1932, quando participaram de missões de apoio, atuando na proteção de pontos sensíveis, além de prestar apoio de fogo contra posições defensivas e ninhos de metralhadoras.
Em 22 de abril de 1935, por intermédio do Aviso nº 248, foi criada a Seção de Carros de Combate do Batalhão de Guardas, utilizando os veículos blindados então existentes no Batalhão-Escola de Infantaria. No mesmo período, sob a influência direta do chefe da Missão Militar Francesa no Brasil, o General Paul Noel, foi instituída a Seção de Motomecanização. A criação da Companhia de Carros de Assalto, em 1921, sob a inspiração do então Capitão José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, havia representado a primeira tentativa concreta de introduzir a arma blindada no Exército Brasileiro. Entretanto, a ausência de uma visão estratégica consolidada e a resistência de setores mais conservadores da oficialidade acabaram comprometendo a continuidade desse esforço pioneiro. A limitada compreensão do potencial dos blindados e da guerra mecanizada resultou em deficiências doutrinárias que retardaram o desenvolvimento da motomecanização, evidenciando a necessidade de profundas mudanças conceituais para evitar o atraso operacional diante das transformações observadas nos exércitos mais modernos do mundo. A partir de 1938, o tema voltaria a ganhar relevância no âmbito do Ministério da Guerra, impulsionado pelo General Waldomiro Castilho de Lima. As lições observadas durante a Segunda Guerra Ítalo-Etíope e os conflitos em curso na Europa reforçaram a percepção de que os veículos blindados desempenhariam papel decisivo nos campos de batalha. Tornava-se evidente, naquele momento, a completa obsolescência dos carros de combate Renault FT-17, que constituíam a espinha dorsal das forças blindadas brasileiras desde o início da década de 1920. Diante desse cenário, decidiu-se promover a substituição dos veteranos blindados franceses por um modelo mais moderno. A escolha recaiu sobre o Fiat-Ansaldo CV3/35 II, veículo que vinha obtendo considerável projeção após sua utilização na Etiópia e durante a Guerra Civil Espanhola. Embora sua eficácia em combate viesse a ser questionada, o modelo era então considerado uma solução moderna, econômica e adequada às necessidades. Inserido nesse contexto, o governo brasileiro celebrou um contrato para a aquisição de um lote dessas viaturas, visando dotar o Exército Brasileiro de um meio blindado mais moderno e compatível com as tendências militares da época. Todavia, a incorporação dos novos blindados não eliminou imediatamente os obstáculos enfrentados pela motomecanização. Persistiam, em diferentes níveis da estrutura militar, resistências conceituais quanto ao emprego de carros de combate e unidades mecanizadas, dificultando a plena exploração de suas capacidades operacionais. Ainda assim, as ideias defendidas por José Pessoa desde a década de 1920 encontrariam novos defensores entre os oficiais mais jovens. Entre eles destacou-se o Capitão Carlos Flores de Paiva Chaves, cuja atuação foi decisiva para a consolidação da arma blindada. Inspirado pelos conceitos modernos de guerra mecanizada, dedicou-se à difusão do emprego de blindados, à formação de pessoal especializado e ao aperfeiçoamento doutrinário. Seu trabalho contribuiu significativamente para superar resistências internas e estabelecer as bases que permitiriam, nos anos seguintes, o fortalecimento das capacidades blindadas do Exército Brasileiro.
Em 1938, o Exército Brasileiro iniciou um novo e decisivo capítulo em seu processo de modernização militar. Por determinação do Alto-Comando, a Seção de Carros de Combate do Batalhão de Guardas, sediada no Rio de Janeiro, passou a ser responsável pela operação dos recém-adquiridos carros de combate leves Fiat-Ansaldo CV3-35 II. Coube à mesma unidade reunir o efetivo e os equipamentos remanescentes da antiga força blindada, incluindo os veteranos Renault FT-17 ainda em serviço. Essa reorganização tinha por objetivo centralizar os recursos de motomecanização, conferindo maior eficiência operacional, administrativa e doutrinária à nascente arma blindada nacional. No final de abril de 1938, o Brasil recebeu 23 carros de combate Fiat-Ansaldo CV3-35 II, transportados por via marítima e posteriormente encaminhados ao Depósito de Material Bélico de Deodoro, no Rio de Janeiro. Desses veículos, cinco estavam armados com metralhadoras Breda de 13,2 mm, enquanto os dezoito restantes eram equipados com metralhadoras duplas Madsen de 7 mm, de origem dinamarquesa. A chegada desses blindados representou um marco importante para a mecanização da Cavalaria brasileira, alinhando o país às tendências militares internacionais da década de 1930, caracterizadas pela crescente valorização da mobilidade e do emprego de meios mecanizados. Por intermédio do Aviso nº 400, de 25 de maio de 1938, foi criado o Esquadrão de Auto-Metralhadoras, subordinado ao Centro de Instrução de Motorização e Mecanização e integrante da recém-criada Subunidade-Escola de Motomecanização. A nova organização foi aquartelada em Deodoro, em instalações originalmente projetadas para abrigar a Escola de Engenharia, estrutura que posteriormente daria origem à Escola de Material Bélico (EsMB). A medida consolidou o esforço institucional do Exército Brasileiro em integrar o ensino técnico, a experimentação e a instrução prática ao processo de modernização de suas forças terrestres. A implantação do Esquadrão de Auto-Metralhadoras contou com o empenho decisivo do Capitão Carlos Flores de Paiva Chaves, oficial de reconhecida competência e visão inovadora. Com o auxílio de um sargento mecânico da Escola de Aviação Militar, coordenou a transferência dos 23 blindados do Depósito de Material Bélico para as instalações da nova unidade, demonstrando elevado espírito de iniciativa e comprometimento com a consolidação da arma blindada no Brasil. Os Fiat-Ansaldo CV3-35 II foram apresentados oficialmente ao público em 7 de setembro de 1938, durante a tradicional parada militar comemorativa ao Dia da Independência, realizada na então Capital Federal. O desfile marcou a estreia da primeira subunidade mecanizada da Cavalaria brasileira, o Esquadrão de Auto-Metralhadoras, constituindo um importante marco simbólico na história militar nacional. O surgimento dessa unidade mecanizada refletiu o esforço do Exército Brasileiro em conciliar a tradição da cavalaria hipomóvel, profundamente enraizada em sua cultura institucional, com as novas exigências tecnológicas e doutrinárias impostas pela guerra moderna. Dessa forma, o ano de 1938 consolidou-se como um verdadeiro divisor de águas na evolução da força terrestre brasileira, representando o momento em que tradição e inovação passaram a convergir na construção das futuras tropas blindadas do país.O Esquadrão de Auto-Metralhadoras, consolidou-se, a partir de 1938, como o núcleo pioneiro da Cavalaria mecanizada brasileira. Seus 23 carros blindados leves CV3-35 II foram organizados em 04 pelotões, cada um composto por cinco viaturas, permanecendo três veículos como reserva operacional. Em uma solução simultaneamente prática e simbólica, cada pelotão recebeu uma insígnia inspirada nos naipes do baralho copas, espadas, paus e ouros pintada em círculos brancos nas laterais dos blindados. Além de facilitar a identificação tática durante os exercícios e deslocamentos, esse sistema reforçava o espírito de corpo e a individualidade de cada fração. No aspecto do armamento, 04 viaturas de cada pelotão eram equipadas com duas metralhadoras Madsen calibre 7 mm, enquanto a quinta, destinada ao comandante do pelotão ou do esquadrão, recebia uma metralhadora italiana Breda calibre 13,2 mm, proporcionando maior alcance e poder de fogo. A estrutura de apoio da unidade incluía ainda duas viaturas de turismo, nove caminhões leves, sete motocicletas e oito motocicletas com sidecar, formando o núcleo logístico e administrativo necessário ao funcionamento da organização militar. O efetivo total alcançava 102 militares, sendo 07 oficiais e 95 praças. Cada blindado era operado por uma guarnição composta por dois militares, responsável pela condução e operação do armamento. Em um gesto que simbolizava a continuidade da tradição blindada nacional, o esquadrão incorporou também os 05 últimos carros de combate Renault FT-17 ainda em condições operacionais, remanescentes da primeira experiência brasileira com forças blindadas, iniciada na década de 1920. Dessa forma, a unidade reunia em um mesmo aquartelamento duas gerações distintas de veículos blindados, representando diferentes etapas da evolução da motomecanização. A partir de 1939, o Esquadrão de Auto-Metralhadoras atingiu plena capacidade operacional, assumindo papel fundamental na formação técnica e doutrinária dos futuros quadros da arma blindada. O emprego dos CV3-35 II, associado à introdução de novos métodos de instrução e adestramento, contribuiu para transformar gradualmente a mentalidade da oficialidade, ainda fortemente influenciada pelos conceitos da cavalaria hipomóvel. Essa transição conceitual revelou-se decisiva para o desenvolvimento dos fundamentos táticos e organizacionais da futura Cavalaria Mecanizada, promovendo uma integração mais eficiente entre veículos blindados, infantaria e elementos de apoio. Entretanto, as limitações logo se tornaram evidentes, o reduzido número de viaturas impossibilitava qualquer emprego operacional em larga escala, restringindo sua utilização principalmente às atividades de instrução e adestramento. Além disso, a rápida evolução tecnológica observada nos conflitos europeus da época tornava os Fiat-Ansaldo CV3-35 II progressivamente obsoletos, especialmente em aspectos como proteção blindada, mobilidade e poder de fogo. Com o estreitamento das relações diplomáticas e militares entre o Brasil e os Estados Unidos, neste contexto , o país passou a integrar programas de cooperação e assistência militar norte-americanos. Como resultado desse processo, em agosto de 1941 chegaram ao Brasil os 10 primeiros carros de combate leves M-3 Stuart, armados com canhões de 37 mm. A incorporação desses blindados representou um salto tecnológico, inaugurando uma nova etapa no processo de modernização.

Esse fluxo de material militar foi significativamente ampliado a partir de 1942, com a chegada de centenas de carros de combate médios M-3 Lee e leves M-3/A1 Stuart. A incorporação desses blindados marcou uma profunda transformação na capacidade operacional do Exército Brasileiro, consolidando o processo de modernização de sua força blindada e alinhando-a aos padrões tecnológicos então empregados pelos exércitos aliados. Com a introdução desses novos veículos, os CV3-35 II foram gradualmente relegados a funções secundárias e de instrução, encerrando o protagonismo que haviam exercido desde sua chegada ao Brasil em 1938. Embora já se encontrassem tecnologicamente superados, esses blindados desempenharam um papel fundamental como instrumentos de experimentação, formação de pessoal e desenvolvimento doutrinário. Sua contribuição foi decisiva para a consolidação dos fundamentos da futura Doutrina Blindada Nacional. Em meados de 1942, os CV3-35 II remanescentes foram transferidos para Recife, Pernambuco, onde passaram a integrar o Esquadrão de Reconhecimento da Ala Motomecanizada do 7º Regimento de Cavalaria Divisionário. A unidade encontrava-se sob o comando do 1º Tenente Plínio Pitaluga, oficial que posteriormente comandaria o 1º Esquadrão de Reconhecimento da Força Expedicionária Brasileira (FEB). Mesmo considerados obsoletos para o combate moderno, os blindados italianos continuaram sendo empregados em atividades de patrulhamento, vigilância e treinamento. Em agosto de 1944, foram transferidos novamente para o Rio de Janeiro, então Distrito Federal, permanecendo em serviço até o término da Segunda Guerra Mundial, em maio de 1945. Durante esse período, foram utilizados principalmente em missões de segurança e patrulhamento de instalações militares consideradas estratégicas. Com o fim do conflito, os CV3-35 II foram oficialmente retirados de serviço ativo e recolhidos ao Depósito Central de Material de Motomecanização, localizado no Rio de Janeiro. Entretanto, parte da frota ainda encontraria emprego em outras organizações. Em 1948, pelo menos 05 veículos foram transferidos para a Polícia Militar do Distrito Federal, permanecendo em operação até meados da década de 1950. Após sua retirada definitiva de serviço, essas viaturas também foram recolhidas para armazenamento. No mesmo período, alguns exemplares foram cedidos ao governo da República Dominicana. Nos anos subsequentes, diversos veículos remanescentes foram utilizados como alvos em exercícios de tiro de artilharia e treinamento com lança-chamas, prática comum para equipamentos considerados obsoletos e sem valor operacional. Como consequência, apenas um número reduzido de exemplares sobreviveu ao processo de desativação. Reconhecendo sua importância histórica para a evolução da motomecanização nacional, preservou-se alguns CV3-35 II. Atualmente, encontram-se expostos no Museu Militar Conde de Linhares e no 15º Regimento de Cavalaria Mecanizado. Outros veículos preservados, mantidos em condições operacionais, são empregados em eventos históricos, demonstrações e cerimônias militares na Escola de Material Bélico (EsMB), e na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN). A preservação assegura não apenas a memória material dos primeiros passos da arma blindada brasileira, mas também o reconhecimento do papel desempenhado pelos Fiat-Ansaldo CV3-35 II na formação das futuras gerações.
Em Escala.
Para a representação do carro blindado Fiat-Ansaldo CV3-35 Modelo II, foi selecionado o kit da Bronco Models na escala 1/35. Este modelo destaca-se pelo elevado nível de detalhamento, incluindo componentes em photo-etched, que conferem maior realismo à maquete. Não foram necessárias modificações adicionais para reproduzir fielmente a versão utilizada pelo Exército Brasileiro, dado que o kit já atende às especificações históricas do veículo. Os emblemas e marcações CV3-35 Modelo II foram representados por meio de decais personalizados, desenvolvidos com base em diversos conjuntos produzidos pela FCM Decais.
O esquema de cores descrito, conforme o padrão Federal Standard (FS), foi adotado pelo Exército Brasileiro para todos os seus veículos militares nas décadas de 1920 e 1930. Inicialmente, os carros blindados Fiat-Ansaldo CV3-35 foram recebidos com o padrão de camuflagem utilizado pelo Exército Real Italiano (Regio Esercito Italiano). Contudo, esse esquema foi prontamente substituído para adequar os veículos ao padrão estipulado pelo Exército Brasileiro, garantindo uniformidade e conformidade com as normas nacionais.
Bibliografia :
- Carro Veloce L3/35 (CV-35) - http://www.tanks-encyclopedia.com
- CV33 Ansaldo Wikipédia - https://it.wikipedia.org/wiki/CV33
- CV35 Ansaldo Wikipédia - https://it.wikipedia.org/wiki/CV35
- Consolidação dos Blindados no Brasil - Expedito Carlos Stephani Bastos - www.ecsbdefesa.com.br/defesa/fts/DC3.PDF





