FT-17 Renault M1917 (CCL)

História e Desenvolvimento.
Em 15 de setembro de 1916, a história militar mundial testemunharia um marco sem precedentes: o emprego do primeiro carro de combate em uma frente de batalha, no norte da França. A estreia coube ao tanque britânico Mark I, conduzido pelo Capitão H. W. Mortimore, da Marinha Real Britânica, durante a sangrenta Batalha do Somme, nas imediações de Delville Wood. Naquele cenário devastado pela guerra de trincheiras, alemães e aliados se enfrentavam há semanas em uma linha de frente que se estendia por mais de quarenta quilômetros, caracterizada por enormes perdas humanas e mínimas conquistas territoriais. Na manhã daquele dia histórico, os soldados alemães aguardavam mais um ataque convencional da infantaria britânica, semelhante aos que vinham repelindo com metralhadoras e artilharia. Entretanto, ao longe, surgiram figuras metálicas movendo-se lentamente pelo campo lamacento — muitos acreditaram, a princípio, tratar-se de tratores agrícolas. Em pouco tempo, contudo, compreendeu-se que se tratava de algo inédito: “monstros de aço” que avançavam impassíveis sobre crateras, trincheiras e cercas de arame farpado, superando obstáculos que até então ceifavam milhares de vidas. O impacto psicológico foi imediato. As tropas alemãs, surpresas e desorganizadas, assistiram aos primeiros “tanques de guerra” rompendo suas defesas e alterando o paradigma do combate terrestre. Apesar de revolucionários, os primeiros blindados apresentavam severas limitações técnicas — deslocavam-se a pouco mais de seis quilômetros por hora, eram extremamente pesados e difíceis de manobrar, e sofriam constantes falhas mecânicas. Dos 49 tanques Mark I empregados naquela ofensiva inicial, apenas uma fração conseguiu retornar às linhas de origem. Muitos foram abandonados devido a pane no motor, rompimento das esteiras ou atolamento nos terrenos encharcados, enquanto nove foram destruídos pela artilharia alemã durante os combates. O sucesso simbólico, porém, já estava garantido. A introdução do carro de combate demonstrou que a tecnologia poderia romper o impasse das trincheiras e modificar profundamente a natureza da guerra. Inspirada por esse avanço, a França rapidamente iniciou seu próprio programa de desenvolvimento de tanques, sob a liderança visionária do coronel Jean-Baptiste Eugène Estienne, frequentemente lembrado como o “pai da arma blindada francesa”. Em julho de 1915, Estienne reuniu-se com Louis Renault, buscando que a renomada fabricante projetasse um modelo leve de lagartas inspirado no trator Holt americano. A proposta, entretanto, foi inicialmente recusada: a Renault alegava estar sobrecarregada na produção bélica e carecia de experiência técnica em veículos deste tipo. Determinado a levar adiante o conceito, Estienne apresentou o projeto à empresa Schneider, que aceitou o desafio. O resultado foi o Schneider CA, o primeiro carro de combate operacional francês moderno, introduzido em 16 de abril de 1917 na frente ocidental, consolidando o papel da França como pioneira no desenvolvimento e emprego tático de blindados no campo de batalha.

Embora Louis Renault tenha inicialmente recusado a proposta de projetar um carro de combate, a ideia não lhe saiu da mente. Movido por sua curiosidade técnica e visão industrial, ele passou a estudar, por conta própria, as possibilidades de conceber um tanque leve, que fosse simples de fabricar, confiável e eficiente no campo de batalha. Ao analisar o contexto tecnológico da época, Renault identificou uma limitação crucial: os motores disponíveis ainda não ofereciam a relação potência-peso necessária para permitir que veículos blindados atravessassem, com segurança, trincheiras, crateras de artilharia e outros obstáculos típicos da guerra de posições. Ciente disso, impôs a si mesmo uma restrição — o veículo não deveria ultrapassar sete toneladas, garantindo assim a mobilidade essencial a seu propósito. Em julho de 1916, o coronel Jean-Baptiste Eugène Estienne, já convencido de que tanques menores e mais ágeis poderiam atuar de forma mais eficaz que os pesados e lentos modelos então em uso, voltou a se reunir com Renault. Ambos compartilhavam agora a mesma convicção: o futuro do combate blindado passaria por veículos leves, rápidos e de fácil produção em série. O apoio de Estienne foi decisivo, mas Renault ainda enfrentaria resistência política e institucional. O ministro das Munições, Albert Thomas, e o Alto Comando francês mostravam-se céticos quanto à utilidade de um tanque tão pequeno. Após semanas de insistência e intensas negociações, Renault obteve autorização e recursos para construir um protótipo experimental. Trabalhando ao lado de seu engenheiro-chefe, o talentoso Rodolphe Ernst-Metzmaier, Renault transformou suas ideias em realidade. Para atender às exigências de desempenho, desenvolveu-se um novo motor Renault de 4 cilindros e 4,5 litros, refrigerado a água, capaz de produzir 32 hp. O propulsor foi projetado para operar sob inclinações extremas, mantendo a potência mesmo em terrenos acidentados  uma inovação essencial para o sucesso do projeto. Outro avanço notável foi o sistema de ventilação interna, concebido para proteger a tripulação do calor e dos gases do motor. Um ventilador instalado junto ao radiador aspirava o ar pela dianteira do veículo e o expelia pela traseira, garantindo uma circulação constante dentro do compartimento. O resultado foi um design revolucionário que estabeleceu as bases para todos os carros de combate posteriores. Pela primeira vez, um tanque incorporava uma torre totalmente giratória, elemento que se tornaria padrão em blindados modernos. Essa inovação permitiu que o pequeno veículo utilizasse uma única arma com liberdade total de rotação, dispensando as múltiplas metralhadoras fixas dos tanques anteriores, que possuíam campos de tiro muito limitados. O novo tanque, que mais tarde seria conhecido como Renault FT, podia ser armado com um canhão Puteaux SA 18 de 37 mm ou, alternativamente, com uma metralhadora Hotchkiss de 7,92 mm. 
Compacto, versátil e engenhosamente projetado, o FT representava uma verdadeira revolução na engenharia militar, marcando a transição do improviso da Primeira Guerra Mundial para o conceito moderno de carro de combate — um veículo com mobilidade, proteção e poder de fogo integrados em perfeita harmonia. Este projeto também estabeleceria um marco conceitual na história da engenharia militar, ao definir a disposição estrutural que se tornaria padrão em praticamente todos os carros de combate modernos: o motor instalado na parte traseira e o posto do motorista localizado na seção frontal do veículo. A combinação dessas inovações, somada à adoção de uma torre totalmente giratória, tornava o novo tanque uma ruptura completa com os modelos franceses anteriores, como o Schneider CA1 e o Saint-Chamond, que mais se assemelhavam a tratores pesadamente blindados do que a veículos de combate verdadeiramente funcionais. Os ensaios de campo do protótipo tiveram início em abril de 1917, revelando resultados promissores e conduzindo a um processo de aperfeiçoamento contínuo ao longo da segunda metade daquele ano. O modelo final recebeu a designação oficial de Renault FT-17, consolidando o nome que ficaria registrado na história como o primeiro carro de combate moderno. Apesar das qualidades notáveis evidenciadas durante as avaliações, o projeto enfrentou resistências iniciais dentro do Alto Comando francês. Muitos oficiais ainda defendiam a doutrina tradicional de que tanques pesados e fortemente blindados — como os Schneider e Saint-Chamond — seriam mais eficazes do que veículos leves produzidos em maior número. A mudança de mentalidade exigiu persistência e influência política, papel que seria novamente desempenhado com maestria pelo coronel Jean-Baptiste Eugène Estienne, considerado o “pai dos blindados franceses”. Convencido da importância estratégica do Renault FT-17, Estienne enviou um memorando pessoal ao comando francês, defendendo com veemência a adoção imediata e a produção em massa do novo modelo. O apelo de Estienne surtiu efeito. Um primeiro contrato de produção foi firmado ainda em 1917, e até o final daquele ano oitenta unidades já haviam sido entregues ao Exército Francês (Armée de Terre). A partir de 1918, com a intensificação dos combates e a necessidade de maior mobilidade no campo de batalha, a produção foi significativamente ampliada, e o FT-17 começou a equipar diversas unidades de linha de frente, especialmente na Frente Ocidental. O batismo de fogo do Renault FT-17 ocorreu em 31 de maio de 1918, nas imediações da Floresta de Retz, entre Ploisy e Chazelles, durante a Segunda Batalha do Marne. Ali, atuando sob o comando do 10º Exército francês, o pequeno blindado teve papel decisivo na contenção da ofensiva alemã rumo a Paris, marcando sua estreia triunfante no campo de batalha.

A partir dessa experiência, o Renault FT-17 passou a ser empregado em conjunto com os tanques mais pesados, como o Schneider CA1 e o Saint-Chamond, estabelecendo as bases da motomecanização do combate. Em meio à crescente mobilidade da guerra, o FT-17 demonstrou sua versatilidade e capacidade de adaptação, sendo frequentemente transportado por caminhões pesados ou reboques especiais, o que lhe conferia maior rapidez e segurança em deslocamentos. Essa prática se tornaria comum, sobretudo durante a Ofensiva dos Cem Dias (agosto a novembro de 1918), quando o modelo desempenhou um papel fundamental nas operações finais que conduziriam ao fim da Primeira Guerra Mundial. Quando os Estados Unidos ingressaram na Primeira Guerra Mundial, em abril de 1917, o país se deparou com uma realidade preocupante: o seu Exército não possuía carros de combate. Enquanto as potências europeias já haviam desenvolvido e testado diversos modelos, os norte-americanos ainda não dispunham de experiência prática nesse campo. Diante dessa lacuna tecnológica e operacional, decidiu-se que a forma mais rápida e eficiente de equipar as forças terrestres seria mediante a produção sob licença de um modelo estrangeiro já comprovadamente eficaz. A escolha natural recaiu sobre o Renault FT-17, cuja concepção inovadora havia transformado a guerra mecanizada. Assim, foi iniciado o desenvolvimento de uma versão norte-americana do tanque, que receberia a designação oficial de M1917. O plano original previa a produção em larga escala, ultrapassando a marca de quatro mil unidades, em um regime de urgência destinado a atender o recém-criado corpo blindado do Exército dos Estados Unidos (US Army). Entretanto, o programa enfrentou sérios obstáculos industriais. As fábricas norte-americanas, já sobrecarregadas pelo esforço de guerra e dedicadas à produção de armamentos, munições e veículos logísticos, não dispunham de capacidade ociosa suficiente para iniciar uma nova linha de montagem de blindados. Essa limitação levaria ao adiamento e, posteriormente, à suspensão temporária do programa M1917. Com o objetivo de suprir essa carência imediata, o governo francês cedeu aos Estados Unidos, em regime de comodato, um total de 144 tanques Renault FT-17. Essa frota permitiria a organização completa de dois batalhões blindados, possibilitando o treinamento e a formação das primeiras unidades norte-americanas de carros de combate. Contudo, nenhum desses veículos seria empregado em combate real pelas forças da American Expeditionary Force (AEF) antes do término do conflito em novembro de 1918. Enquanto isso, os Aliados planejam uma massiva expansão de suas forças blindadas. A França, em especial, tinha a ambiciosa meta de produzir mais de 12 mil tanques FT-17 (incluindo as versões M1917 norte-americanas) até o final de 1919. Contudo, o fim da guerra com o Armistício de 11 de novembro de 1918 interromperia esses planos, deixando a meta inatingida.



Ainda assim, o Renault FT-17 desempenhou um papel decisivo e duradouro nas operações finais da guerra. Amplamente empregado nas frentes ocidentais, participou de mais de quatro mil combates, com 746 unidades perdidas em ação. Até o Armistício, o Exército Francês (Armée de Terre) havia recebido 2.697 exemplares do modelo, cerca de metade deles produzidos diretamente nas instalações da Renault em Boulogne-Billancourt, nos arredores de Paris. O restante foi subcontratado a outras empresas, o que permitiu à França atingir um ritmo de produção sem precedentes para a época. No período pós-guerra, os contratos remanescentes foram reorganizados, impulsionados pelos resultados extraordinários obtidos em combate. Assim, a produção total alcançaria 7.280 unidades, divididas entre os fabricantes Renault (52%), Somua-Schneider & Cie (23%), Berliet (23%) e Delaunay-Belleville (8%). Em um gesto notável de patriotismo e cooperação industrial, Louis Renault renunciou aos royalties de patente, permitindo que todos os fabricantes franceses pudessem produzir livremente o tanque.A partir de meados de 1919 uma grande quantidade seria exportada, passando a equipar as forças armadas Bélgica, Brasil, Checoslováquia, Estônia, Finlândia, Irã, Japão, Lituânia, Holanda, Polônia, Romênia, Espanha, Suíça, Turquia, Uniao Soviética e Iugoslávia. E durante os anos seguintes se manteria como o esteio da força blindada do Exército dos Estados Unidos (US Army). Os Renault FT-17 veriam açao real ainda em muitas ocasiões como Guerra Civil Russa, a Guerra Polaco-Soviética, a Guerra Civil Chinesa, a Guerra Rif, a Guerra Civil Espanhola e a Guerra da Independência da Estónia. Sua longevidade seria notória, com milhares de modelos permanecendo em serviço ativo nas unidades de primeira linha em diversos países até o final da década de 1930. No início do ano de 1940, o exército francês ainda dispunha de oito batalhões, cada um equipado com sessenta e três Renaut FT-17, além de três divisões independentes, cada uma com dez blindados, com uma força orgânica totalizando quinhentos e trinta e quatro veículos, todos equipados com metralhadoras. Além destes havia ainda uma grande quantidade mantida como reserva técnica. Os efeitos da devastadora campanha Blitzkrieg reduziria rapidamente a frota de modernos carros de combate franceses, levando a reativação os Renault FT-17 que se encontravam na reserva, porém pouco podiam fazer para deter o avanço alemão. Com a queda da França, o Exército Alemão capturaria mil e setecentos Reunault FT-17, com uma grande parte destes sendo redistribuídos em toda a Europa ocupada, para serem empregados na defesa de bases aéreas e campos de prisioneiros da Força Aérea Alemã (Luftwaffe). Pelo menos quinhentos destes seriam empregados pelas forças armadas francesas de Vichy dispostas no norte da África. Estes seriam empregados contra as forças norte-americanas e britânicas durante os desembarques decorrente da Operação Tocha no Marrocos e na Argélia no final do ano de 1942. No entanto não seriam páreo para os carros de combate M-3 Lee, M-3 Stuart e M-4 Sherman, sendo facilmente destruídos.

Emprego no Exército Brasileiro
Durante a primeira metade de século XX, os sistemas militares alemães, franceses e norte-americanos influíram no Exército Brasileiro. Cada qual teve o seu período: os alemães antes da Primeira Guerra Mundial, os franceses nos anos entre os dois grandes conflitos mundiais e os norte-americanos durante e após a Segunda Guerra. O fascínio pela modernização (às vezes confundido com europeização) levou o Exército Brasileiro a buscar assistência externa. Após a administração de João Nepomuceno de Medeiros Mallet (Ministro da Guerra entre 1898 e 1902), quando foram equacionados os aspectos essenciais à vitalidade da nossa força terrestre, completou-se uma etapa de transformações de base com a lei de 4 de agosto de 1908. Foi quando se criou, entre outras coisas, o alistamento e o serviço militar obrigatórios e ainda, a organização militar regional, calcada na existência de grandes unidades permanentes, dando aos oficiais gerais a oportunidade de exercerem o comando e a administração. Em paralelo, armamentos e equipamentos foram sendo adquiridos, renascendo o entusiasmo entre os oficiais, estimulando os estudos e debates em torno desses meios e de novas ideias. As potências europeias e, mais tarde, os norte-americanos, passaram a ver as missões militares de instrução como parte de sua política externa, pois incentivavam a aquisição de equipamentos e armas semelhantes às usadas pelos instrutores, o que aumentava o seu comércio exterior e atraía as nações atendidas para as suas esferas de influência, o que prevalece até hoje. Entretanto, os brasileiros foram mais bem sucedidos que os chilenos, turcos, tchecos ou poloneses, à medida que conseguiram preservar a sua integridade de comando. Enquanto esses quatro exércitos, em determinadas épocas, estiveram sob as ordens de alemães e franceses, os brasileiros mantiveram suas forças sob controle próprio e limitaram a ação dos oficiais estrangeiros às funções de instrutores e assessores. Durante a Primeira Guerra Mundial, o Ministério da Guerra do Brasil incluiu em seu programa de intercâmbio militar o envio do 1.º Tenente de Cavalaria José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque à França, com o objetivo de capacitar oficiais brasileiros nas novas especialidades de motorização e mecanização. Na Escola de Carros de Combate de Versalhes, o tenente aprofundou conhecimentos técnicos e doutrinários que, ao cabo da experiência, seriam decisivos para a futura organização blindada do Exército Brasileiro. Em abril de 1919, no âmbito desse mesmo programa, José Pessoa foi designado observador no 503.º Regimento de Artilharia de Carros-de-Assalto, oportunidade em que teve contato direto com a rotina operacional e os procedimentos de emprego dos carros de combate Renault FT-17. A vivência em linha e a observação das táticas ali empregadas providenciaram-lhe um repertório prático raro naqueles anos, combinação de técnica e reflexão que marcaria toda a sua trajetória subsequente. 

Ao retornar ao Brasil, a experiência do tenente exerceu influência significativa sobre o Alto Comando do Exército, contribuindo para a decisão política e técnica de adquirir blindados para a Força Terrestre. Embora a escolha oficial tenha recaído sobre o Renault FT-17 — em parte motivada pela aproximação técnico-militar com a França — o próprio José Pessoa manifestou reservas quanto à total adequação daquele modelo às condições e necessidades brasileiras. Ainda assim, seu empenho intelectual e institucional foi notório: em 1921, publicou no Rio de Janeiro o estudo Os “Tanks” na Guerra Europeia, tratado pioneiro em língua portuguesa que analisava o desenvolvimento e o emprego dos veículos blindados no teatro europeu.  A contribuição de José Pessoa à modernização do Exército brasileiro não se limitou à doutrina. Foi um dos idealizadores da Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), em Resende (RJ), e fundador do Centro de Instrução de Artilharia de Costa, unidade que viria a ser elevada à categoria de escola em 1942, reforçando seu legado na formação e institucionalização do ensino militar técnico no país. A negociação para aquisição dos blindados precedeu a chegada dos técnicos da Missão Militar Francesa, contratada para a modernização das Forças Armadas brasileiras. Em conformidade com o cronograma contratual, em abril de 1920 desembarcaram no porto do Rio de Janeiro doze veículos Renault FT-17, frescos das linhas de montagem da Delaunay-Belleville. A composição desse lote refletia a diversidade de necessidades operacionais: seis unidades foram entregues com a torre fundida Berliet, armadas com o canhão Puteaux de 37 mm; cinco apresentavam a torre octogonal rebitada Renault, equipada com metralhadoras Hotchkiss de 7 mm; e uma unidade foi destinada à Telegrafia sem Fio (TSF), desprovida de torre giratória e preparada como veículo-estação de comunicações para emprego conjunto com as forças de ataque. Para que os novos veículos blindados de combate Renault FT-17 pudessem ser operados de maneira eficiente e sistemática, o Exército Brasileiro instituiu, por meio do Decreto nº 15.235, de 31 de dezembro de 1921, a Companhia de Carros de Assalto, sediada na Vila Militar, no então Distrito Federal (Rio de Janeiro). Com essa iniciativa, o Brasil tornou-se pioneiro na introdução da arma blindada na América do Sul, ainda que a unidade já viesse operando informalmente antes de sua oficialização. Apesar de seu caráter inovador, a nova companhia enfrentava sérias limitações estruturais e operacionais. Conforme relatado no Boletim nº 55, de 7 de dezembro de 1921, o seu comandante, Capitão José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, comunicou diretamente ao Ministro da Guerra que o efetivo disponível era de apenas sete oficiais e cento e vinte e três praças, sendo que metade destes estava prestes a ser licenciada. 
Tal condição comprometia significativamente a capacidade de instrução, manutenção e, sobretudo, a operacionalidade bélica da unidade recém-criada. Um aspecto digno de nota é o longo intervalo entre a aquisição dos blindados e o início efetivo de suas atividades. Os Renault FT-17 haviam sido entregues ao chefe da Missão Militar Brasileira em Paris, em maio de 1919, e chegaram ao Brasil no início do ano seguinte. Contudo, permaneceram armazenados no 1º Regimento de Infantaria, no Rio de Janeiro, até 28 de setembro de 1921, quando foram finalmente disponibilizados ao Capitão José Pessoa. Poucos dias depois, em 1º de outubro, o Boletim nº 223 oficializou o início da organização da Companhia de Carros de Assalto, marco institucional que simbolizava o ingresso definitivo do Exército Brasileiro na era da mecanização militar. Entretanto, a introdução dos blindados encontrou resistência entre oficiais mais antigos, habituados a uma doutrina fortemente calcada em tradições da cavalaria e da infantaria convencional. Essa reticência doutrinária dificultou a assimilação do novo conceito de guerra mecanizada, gerando deficiências estruturais e culturais que se perpetuariam por anos. Tal quadro explicaria, em parte, o limitado emprego da Companhia de Carros de Assalto durante as crises políticas e militares das décadas de 1920 e 1930, período marcado por levantes e revoluções internas que, em tese, poderiam ter se beneficiado do uso mais efetivo desses meios. O primeiro exercício prático com carros de combate no pais ocorreu em 3 de novembro de 1921, na colina Boscosa, na Vila Militar, em operação conjunta com a Aviação Militar do Exército. A manobra, realizada no então Distrito Federal, marcou simbolicamente o nascimento da era blindada no Brasil, representando não apenas um avanço tecnológico, mas também o início de uma nova concepção de mobilidade e poder de fogo no campo de batalha nacional. Em 3 de novembro de 1921, seria realizado o primeiro exercício de carros-de-combate, operando em conjunto com Aviação Militar no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, na colina Boscosa, na Vila Militar. Sua primeira aparição pública se daria em 25 de agosto de 1922, quando toda a Companhia se apresentou no Campo de São Cristóvão, Rio de Janeiro, ocasião em que recebeu o Pavilhão Nacional e foi aberta à visitação pública, gerando grande interesse por parte da população em conhecer a novidade chamada de “carros de combate”. Em registros fotográficos de época, observa-se sempre no máximo seis carros operacionais, nunca mais do que isso o que pode denotar uma frequente baixa disponibilidade. Sobre o modelo de Telegrafia Sem Fio (TSF), tudo indica que nunca foi totalmente operacional, tendo sido retirado do serviço ativo em 1925 e armazenado pelo menos até o ano de 1932. Seu primeiro emprego operacional efetivo ocorreria durante os eventos da Revolução de 1924, quando a Companhia de Carros de Assalto foi designada para ocupar a cidade de São Paulo, logo após a retirada das forças rebeldes. Essa operação marcou a estreia prática do uso de blindados pelo Exército Brasileiro em território nacional, ainda que em um contexto limitado e de caráter essencialmente simbólico. O episódio representou, contudo, um marco histórico, demonstrando o potencial dos carros de combate Renault FT-17 como instrumentos de apoio tático em missões de restabelecimento da ordem interna, num período de intensas transformações políticas e militares no país.

Em 18 de maio de 1925, o aviso nª 254, mudou a designação para Companhia de Carros-de-Combate, porém ainda o emprego dos Renault FT-17 ainda não havia conseguido motivar a oficialidade da Força Terrestre, com os carros de combate sendo negligenciados não só na operação, mas também nos processos de manutenção. Assim em 21 de janeiro de 1932, o Decreto nª 20.986, de 21 de janeiro de 1932, extinguiria oficialmente a Companhia de Carros-de-Combate; com seus veiculos em precário estado de conservação sendo transferidos para o Batalhão Escola de Infantaria. Meses mais tarde, estes seriam recolocados em operação para serem empregados em virtude da eclosão da Revolução Constitucionalista levada a cabo por São Paulo em 9 de julho. Vale ressaltar que alguns foram recuperados na Oficina Ferroviária de Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, onde também modelo de Telegrafia sem Fio (TSF) seria incluso neste processo, porém estranhamente não seria reincorporado ao serviço ativo. Estes veículos, provavelmente meia dúzia deles, foram empregados separadamente ou em duplas, em alguns setores onde ocorreram combates entre tropas rebeldes e legalistas, sendo usados para manter pontes, atacar ninhos de metralhadoras e em locais montanhosos, como a divisa de Minas Gerais com São Paulo. Estes cenários de emprego, no entanto não eram apropriados para seu uso e desta forma não foram decisivos como instrumento para definir a superioridade e até mesmo garantir a vitória das forças legalistas naquele conflito.  Em 1935, por meio do Aviso nº 248, de 22 de abril, foi criada a Seção de Carros de Combate no Batalhão de Guardas, a qual passou a empregar os veículos blindados remanescentes do Batalhão Escola de Infantaria. Na mesma ocasião, instituiu-se também a Seção de Motomecanização no Estado-Maior do Exército, sob influência direta do chefe da Missão Militar Francesa, General Paul Noël, cuja atuação foi determinante para o avanço da modernização do Exército Brasileiro naquele período. De modo geral, a criação da Companhia de Carros de Assalto, idealizada pelo Capitão José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, representou um esforço pioneiro e visionário no campo da mecanização do Exército. Contudo, tal iniciativa acabou por ser negligenciada, vítima da resistência da antiga oficialidade, ainda presa a concepções tradicionais de guerra e pouco receptiva à introdução de novas tecnologias e doutrinas operacionais. Essa falta de continuidade retardou o amadurecimento da doutrina blindada nacional, evidenciando a necessidade de uma mudança de mentalidade dentro da Força Terrestre. Esse quadro começaria a se modificar alguns anos depois, em 1938, quando o General Waldomiro Castilho de Lima, após observar de perto o emprego de forças mecanizadas italianas na campanha da Abissínia, trouxe novamente o tema da motomecanização à pauta do Ministério da Guerra. A partir dessas observações, decidiu-se pela substituição dos já obsoletos Renault FT-17, que datavam da Primeira Guerra Mundial, por modernos carros de combate Fiat-Ansaldo CV-3/35 II, então considerados avançados e de comprovada eficácia nas operações em terrenos montanhosos da Guerra Civil Espanhola e nas regiões áridas da Etiópia. 
Assim, as ideias originais de José Pessoa encontrariam nova vida pelas mãos do Capitão Carlos Flores de Paiva Chaves, um dos principais entusiastas da modernização da Força Terrestre. Seus esforços culminaram na consolidação da Arma Blindada no Brasil. Em 25 de maio de 1938, por meio do Aviso nº 400, foi criado o Esquadrão de Autometralhadoras do Centro de Instrução de Motorização e Mecanização, no Rio de Janeiro. Essa nova unidade incorporava não apenas os veículos recém-adquiridos na Itália, mas também o pessoal e os equipamentos anteriormente pertencentes à Seção de Carros de Combate do Batalhão de Guardas, marcando o renascimento efetivo das forças blindadas brasileiras e o início de uma nova era na história militar nacional. A introdução dos novos carros de combate italianos Fiat-Ansaldo CV-3/35 II não representaria, de imediato, a completa desativação dos veteranos Renault FT-17 no Exército Brasileiro. Os últimos cinco exemplares desse modelo seriam incorporados à Seção de Carros de Combate do Batalhão de Guardas, unidade que, à época, passaria a concentrar a operação dos blindados remanescentes. Apesar disso, tais veículos continuariam enfrentando sérias limitações operacionais, em grande parte decorrentes da escassez de peças de reposição e da manutenção inadequada, fatores que comprometiam sua disponibilidade e eficiência em instruções e exercícios militares. Em 1941, o estreitamento das relações diplomáticas e militares entre o Brasil e os Estados Unidos proporcionaria um salto qualitativo no processo de modernização das Forças Armadas. A adesão ao programa Lend & Lease Act Bill (Lei de Empréstimos e Arrendamentos) abriria caminho para o reequipamento de diversas unidades com material moderno de fabricação norte-americana. Antes mesmo da formalização desse acordo, o Exército já havia recebido, em agosto de 1941, os primeiros dez carros de combate leves M3 Stuart, que representavam um avanço significativo em termos de mobilidade, potência de fogo e confiabilidade mecânica. Pouco tempo depois, o Decreto-Lei Reservado nº 4.130, de 26 de fevereiro de 1942, transformaria o Pelotão de Carros de Combate do Centro de Instrução de Motorização e Mecanização na Companhia Escola de Carros de Combate, consolidando o processo de renovação da força blindada nacional. Nesse contexto, ocorreria a desativação definitiva dos últimos Renault FT-17 operacionais, os quais seriam substituídos pelos modernos M-3 e M-3A1 Stuart, encerrando assim um importante ciclo histórico da mecanização militar brasileira.Os blindados remanescentes seriam posteriormente armazenados e preservados como patrimônio histórico do Exército.  Décadas mais tarde, em 2011, uma iniciativa conjunta entre o Centro de Instrução de Blindados (CIBld) e o Parque Regional de Manutenção da 3ª Região Militar, sediado em Santa Maria (RS), resultaria na restauração completa de um desses exemplares, que foi devolvido à condição operacional.

Em Escala.
Para representarmos o carro de combate leve Renault FT-17, fizemos uso do excelente kit da Meng  na escala 1/35, modelo este que prima pelo detalhamento, apresentando set em photo etched para refinamento. Não há necessidade de se promover nenhuma alteração para se representar a versão empregada pelo Exército Brasileiro, podendo se optar pela versão armada com canhão Puteaux de 37 mm ou equipada com metralhadoras Hotchkiss de calibre 7 mm. 
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o segundo padrão de pintura aplicado aos Renault FT-17, inicialmente os carros foram recebidos em um esquema na cor marrom terra (Flat Earth), momento no qual receberam algumas identificações especificas. Este padrão se manteria até o ano de 1925, quando foram repintados nas cores normativas adotadas pelo Exército Brasileiro naquele período, mantendo este esquema até sua desativação em 1942.

Bibliografia :
- O Brasil na Era dos Blindados  por Expedito Carlos S. Bastos - http://www.ecsbdefesa.com.br/fts/DC2.PDF
- Renault Ft-17 O Primeiro Carro De Combate Do Exército Brasileiro - por Expedito Carlos S. Bastos
- Consolidação dos Blindados no Brasil - Expedito Carlos Stephani Bastos - www.ecsbdefesa.com.br/defesa/fts/DC3.PDF

IH-6A, VH-4, OH-4 Bell 206 Jet Ranger

História e Desenvolvimento. 
A Segunda Guerra Mundial (1939–1945), não apenas acelerou inovações em armamentos convencionais, mas também catalisou o nascimento da aviação de asas rotativas para fins militares. Embora seu emprego tenha sido limitado devido à imaturidade da tecnologia e às prioridades de produção em massa, esses primeiros modelos pavimentaram o caminho para a revolução rotativa pós-guerra. A Alemanha nazista,  liderou os primeiros passos práticos no uso militar de helicópteros, em  meados de 1940, a Flettner Flugzeugbau GmbH, introduziu o Flettner Fl 282 “Kolibri” (beija-flor, em alemão). Esse helicóptero monoplace, com cockpit aberto exposto aos elementos, rotores interlaced (que se entrelaçavam sem colisão, reduzindo vibrações) e um motor Bramo Sh 14A de 150 cavalos, era uma maravilha de engenharia compacta para a época, pesando apenas 1.000 kg e capaz de velocidades de até 150 km/h. Inicialmente concebido para missões logísticas navais, o “Kolibri” foi planejado para transportar cargas leves e passageiros entre navios da Kriegsmarine (Marinha Alemã). Uma versão aprimorada, o Fl 282 B-2, adicionou um segundo assento para um observador, transformando-o em plataforma de reconhecimento avançado. Contudo, a intensificação dos bombardeios aliados contra a infraestrutura industrial alemã, especialmente a partir de 1943, devastou grande parte do parque fabril aeronáutico do país. Como resultado, os recursos foram redirecionados para a produção de aeronaves de combate convencionais, limitando a fabricação do Fl 282 a apenas 24 unidades entregues. Apesar do número reduzido, o “Kolibri” representou um marco no uso militar de helicópteros, evidenciando sua versatilidade em missões de observação e transporte. Do lado dos Aliados, o desenvolvimento de aeronaves de asas rotativas ganhou impulso significativo nos estágios finais da guerra. O Sikorsky R-4, projetado pela Sikorsky Aircraft Corporation sob a liderança do engenheiro Igor Sikorsky, tornou-se o primeiro helicóptero verdadeiramente funcional empregado em operações militares. Em junho de 1945, o R-4 foi destacado para o teatro de operações do Pacífico, demonstrando, mesmo em um curto período, o potencial transformador dos helicópteros em cenários de combate. Sua capacidade de realizar missões de resgate, transporte e reconhecimento abriu novas perspectivas para o futuro da aviação militar.  Paralelamente, outros fabricantes norte-americanos começaram a explorar esse emergente nicho tecnológico. Entre eles, destacou-se a Bell Aircraft Company, que, sob a liderança do engenheiro aeronáutico Arthur Young, iniciou o desenvolvimento de um projeto ambicioso de aeronave de asas rotativas de pequeno porte. Apresentado em 3 de setembro de 1941, o projeto culminou na criação do Bell Model 30. Com um robusto financiamento governamental, dois protótipos foram construídos, e o primeiro voo ocorreu em 26 de junho de 1943. 

Após um extenso programa de ensaios e testes de voo, o projeto evoluiu para uma versão aprimorada, o Bell Model 47, que se tornaria um dos helicópteros mais icônicos da história da aviação. O sucesso inicial do Bell Model 30 e as crescentes expectativas em torno do potencial das aeronaves de asas rotativas impulsionaram a Bell Aircraft Company a dar um passo estratégico na consolidação de sua expertise nesse campo emergente. Em resposta, a empresa fundou a Bell Helicopter Company, uma divisão industrial especializada dedicada exclusivamente ao desenvolvimento e produção de helicópteros. Com suas instalações estabelecidas em Fort Worth, no estado do Texas.  Foi nesse contexto que o Bell Model 47, um marco na história da aviação, realizou seu voo inaugural em 8 de junho de 1945, consolidando os avanços tecnológicos e as ambições da empresa. O Bell Model 47 era uma aeronave de design inovador, caracterizada por um sistema de rotor principal simples, composto por duas pás de madeira, e alimentada por um motor convencional Franklin. A primeira versão de produção, o Bell Helicopter Model 47A, alcançou um feito histórico ao receber a homologação para o mercado civil (classificação H1) em 8 de março de 1946, tornando-se oficialmente o primeiro helicóptero comercial de asas rotativas do mundo. Com capacidade para transportar um piloto e até dois passageiros, aliado a uma confiabilidade mecânica notável, o Model 47 rapidamente conquistou sucesso no mercado civil e governamental. Sua versatilidade, facilidade de operação e robustez o tornaram uma escolha ideal para uma ampla gama de aplicações, incluindo transporte, serviços de emergência e operações comerciais, consolidando a reputação da Bell como líder no setor. Paralelamente a empresa voltou sua atenção para o desenvolvimento de uma variante militar, atendendo às crescentes demandas das Forças Armadas dos Estados Unidos, que buscavam incorporar uma aeronave leve de asas rotativas para missões de ligação, observação e reconhecimento. Baseada no modelo civil, a versão militar apresentava diferenças visuais e técnicas significativas. Desse processo emergiu a versão militar inicial de produção, designada Bell H-13 Sioux. Em dezembro de 1946, um contrato inicial foi firmado para a entrega de 28 unidades do H-13 Sioux, marcando o início de sua integração nas operações militares americanas. Após definida sua doutrina operacional, os primeiros Bell H-13 seriam colocados em serviço ativo atuando em tarefas de ligação e observação, e seus excelentes resultados em açao despertariam a atenção do comando da aviação naval da  Marinha dos Estados Unidos (US Navy) e da Guarda Costeira dos Estados Unidos (US Coast Guard). Seu batismo de fogo ocorreria na Guerra da Coreia (1950 a 1953), nos meses iniciais do conflito, particularmente durante a defesa do Perímetro de Pusan, entre agosto e setembro de 1950. Nessa fase crítica, quando as tropas da ONU foram encurraladas em uma bolsa costeira no sudeste da península, os primeiros H-13 foram destacados para missões de ligação e observação.  A produção do Bell 47D, abrangendo tanto as versões militares quanto civis, alcançou a expressiva marca de mil unidades fabricadas até 1953, refletindo o sucesso comercial e a confiança depositada no projeto pela Bell Helicopter Company.
Atravessando seu melhor momento, a empresa continuaria a investir em pesquisa e desenvolvimento, o que lhe seria muito útil, pois em 14 de outubro de 1960 o Exército dos Estados Unidos (US Army), lançaria uma concorrência denominada como Helicóptero Leve de Observação - LOH (Ligh Observation Helicopter). Este programa tinha por objetivo o desenvolvimento de um novo helicóptero leve destinado a missões de treinamento, transporte e ligação, que teria por missão possuir uma única plataforma para substituir uma grande frota de helicópteros dos modelos Bell OH-13 e Hiller OH-23  e aviões leves Cessna L-19 Bird Dog. Esta concorrência previa a aquisição de três mil e seiscentas células, despertando o interesse de um grande número de fabricantes, pois o vencedor receberia o maior contrato militar para a fabricação de aeronaves de asas rotativas já efetivado no mundo. Em maio do ano seguinte a lista de concorrentes seria reduzida para cinco empresas, se destacando os modelos Bell 250 e o Hughes YHO-6. O primeiro protótipo da  Bell Helicopter Company , alçaria voo em 08 de dezembro de 1962, sendo seguido por mais quatro células pré-série, que seriam submetidos dois programas de ensaios comparativos contra os protótipos do Hughes YHO-6, coordenados pelo Exército dos Estados Unidos (US Army) no Forte Rucker no Alabama,   e pela Força Aérea dos Estados Unidos (USAF) na Base Aérea de Edwards na Califórnia. Neste mesmo período, os protótipos do Hughes YHO-6. Deste processo o modelo produzido pela Hughes Aircraft Company, seria declarado vencedor. Apesar desta derrota, a diretoria desta empresa, vislumbraria no conceito de seu projeto uma oportunidade no mercado civil, tendo como vantagem o custeamento inicial do projeto ter sido pago pelo governo norte-americano. Assim com base no projeto Bell YHO-4A a equipe de projetos iniciaria o desenvolvimento, com helicóptero passando a ser designado internamente como “Desing D-250”. A construção do primeiro protótipo seria iniciada em julho de 1965, com seu primeiro voo ocorrendo em dezembro do mesmo ano, agora sobre a denominação comercial de Bell 206. Nos primeiros estágios do programa de ensaio em voo, seriam identificados com principais pontos negativos, sua baixa capacidade de carga e limitado espaço interno, limitantes estes que afetariam sua competividade no mercado civil. A solução a estas demandas surgiria em um redesenho do projeto original, nascendo assim o modelo 206A de maior porte e melhor performance. Seu protótipo realizaria seu primeiro voo de avaliação no dia 20 de abril de 1965. E logo após seguiria para o processo de homologação junto Administração Federal de Aviação - FAA (Federal Aviation Adminstration), recebendo sua certificação em outubro do mesmo ano.  O modelo seria apresentado oficialmente no dia 10 de janeiro de 1966 durante a convenção da Associação de Helicópteros da América - HAA  (Helicopter Association of America), ostentando seu a designação comercial de Bell 206A Jet Ranger (nome dado pelo presidente da empresa Edwin J. Ducayet, denotando uma evolução do popular Bell 47J Ranger). 

Logo o modelo despertaria grande interesse por parte de potenciais operadores executivos e empresas de taxi aéreo, com a primeira aeronave de série sendo adquirida pela empresa  Hollymatic Corporation,  para uso de seu presidente executivo Harry Holly, tradicional usuário do modelo  Bell 47J Ranger. A esta logo se seguiriam mais entregas, com o modelo atingindo um sucesso comercial meteórico no mercado da América do Norte, com o Bell 206A Jet Ranger, passando a liderar esta categoria em vendas nos Estados Unidos em um curto período de tempo. Nesta mesma época o programa do Helicóptero Leve de Observação - LOH (Ligh Observation Helicopter) estava enfrentando preocupantes atrasos e aumentos de custos, devidos principalmente a problemas relacionados ao projeto da aeronave Hughes OH-6A. Assim desta maneira o comando do Exército dos Estados Unidos (US Army), a considerar a aquisição de uma versão militarizada do Bell 206A Jet Ranger. Desta maneira uma consulta oficial com este objetivo seria realizada, visando o desenvolvimento de uma versão destinada a execução de   missões de observação e ligação no campo de batalha.  Prontamente a empresa atenderia à solicitação, apresentando em um curto espaço de tempo uma proposta comercial e técnica. A proposta apresentada atendia aos anseios, culminado em outubro de 1967 na celebração de um contrato entre a empresa e o Exército dos Estados Unidos (US Army), visando a aquisição de  duas mil e duzentas células da versão militar, agora oficialmente designada como Bell OH-58A Kiowa. Além a atender aos parâmetros operacionais das tarefas de observação e ligação poderiam também ser empregadas no programa de formação e treinamento de pilotos de aeronaves de asas rotativas.  Esta nova aplicação despertaria atenção do comando da Aviação Naval da Marinha dos Estados Unidos (US Navy), que vislumbraria na aeronave, uma promissora plataforma para treinamento primário de seus pilotos navais, principalmente devido a relação de custo-benefício operacional. Uma versão navalizada seria então desenvolvida pela Bell Helicopter Company, resultando no modelo TH-57A Sea Ranger, recebendo um contrato inicial para a produção de duzentas células. Uma parte destas aeronaves seriam utilizadas no programa de formação de pilotos da Guarda Costeira dos Estados Unidos (US Cost Guard). Aprimoramentos seriam solicitados a empresa, que responderia logo em seguida com as versões TH-57B e TH-57C Sea Ranger, conquistando mais contratos de fornecimento. O sucesso se notabilizaria internacional, sendo então firmado um primeiro acordo de produção sob licença na Itália com a empresa Augusta Spa, resultando na produção dos modelos civis Agusta-Sino 206A, Agusta-Bell 206A-1, Agusta-Bell 206B e miliares como o Sino 206AS. 
Esta última seria adquirida pela Marinha do Chile para emprego em missões de transporte e ligação. Já em 1969 seria firmado um acordo envolvendo a venda de trinta e duas células de uma versão militarizada do modelo Bell 206 Long Ranger, que seriam produzidas na Itália para atendimento as demandas das forças armadas da Suécia, com o modelo  Hkp 6A destinado ao exército e o Hkp 6B para a marinha com este destinado a missões de guerra antissubmarino (ASW), equipada com flutuadores infláveis de emergência e armadas com cargas de profundidade dos tipos SJB 11 ou SJB 45. A experiência obtida na produção e operação das versões do Bell 206A criaram o caminho para o desenvolvimento de uma versão aprimorada destinada a suceder os primeiros modelos produzidos. Esta nova versão passaria a ser disponibilizada no mercado civil a partir de setembro de 1971, sendo denominado Bell 206B Jet Ranger II. Até meados do ano de 1977 seriam entregues mais de mil e seiscentas células a diversos operadores civis e militares. Seu considerável sucesso instigaria a Bell Helicopter Company a aplicar melhorias no projeto para o atendimento das sugestões fornecidas por diversos operadores. Assim itens como sistemas de navegação e comunicação foram modernizados, porém as alterações mais marcantes foram baseadas na adoção de novo motor turboeixo Allisson 250-C20J com 420 shp e na instalação de um rotor de cauda de maior diâmetro e de desenho mais refinado do que as versões anteriores do Jet Ranger.  Estas alterações trouxeram uma significativa melhora em seus parâmetros de desempenho e confiabilidade. A nova versão foi produzida em seis sub variantes entre elas destacamos a elas o Bell 206L LongRanger destinado ao transporte de até sete passageiros, Bell 206LT TwinRanger envolvendo a conversão de modelos 206L para o uso de dois motores. Já as versões militares como a  Bell 206AS, CH-139, OH-58 Kiowa, TH-57A Sea Ranger, TH-67 Creek e OH-58D Combat Scout seriam exportados a partir da década de 1970 para a Argentina, Brasil, Albânia, Austrália, Bangladesh, Bulgária, Chile, Colômbia, Croácia, Equador, Finlândia, Guatemala, Guiana, Irã, Iraque, Israel, Itália, Jamaica, Japão, Letônia, Lesoto, Macedônia, México, Marrocos, Paquistão, Peru, Servia, Eslovênia, Sri Lanka, Peru, Uganda, Suécia, Canada, Malta e Venezuela. A produção foi descontinuada em fins do ano 2010, quando haviam sido produzidas sete mil e trezentas aeronaves dispostas em todas as versões.

Emprego nas Forças Armadas Brasileiras.
A incorporação de aeronaves de asas rotativas pela Força Aérea Brasileira (FAB) marcou um capítulo significativo na evolução de suas capacidades operacionais, com raízes que remontam ao final de 1952. Nesse período, a Força Aérea Brasileira (FAB)  recebeu suas primeiras quatro unidades do helicóptero Bell Model 47D1, designado como H-13D, que se tornariam peças fundamentais em missões de ligação, treinamento e busca e salvamento (SAR). Operando a partir do Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, onde estavam sediadas as estruturas da Seção de Aeronaves de Comando (SAC), esses helicópteros rapidamente assumiram um papel estratégico ao serem utilizados para o transporte de autoridades do governo brasileiro, sob a égide do Quartel General da III Zona Aérea. Com o passar do tempo, a unidade responsável por essas operações evoluiu, culminando na formação do Esquadrão de Transporte Especial (ETE), vinculado ao 2º Esquadrão, dedicado à operação de aeronaves de asas rotativas. Contudo, a capacidade limitada do Bell Model 47D1, que transportava apenas um passageiro além do piloto, logo revelou-se insuficiente para atender às crescentes demandas do transporte de autoridades. Em resposta, o Ministério da Aeronáutica (MAer) decidiu buscar no mercado internacional uma aeronave com maior capacidade e desempenho. Após avaliações, a escolha recaiu sobre o Bell Model 47J H-13J, capaz de transportar até três passageiros. Em meados de 1958, foi negociada a aquisição de cinco unidades novas diretamente do fabricante, ampliando as capacidades operacionais da Força Aérea Brasileira (FAB) . Apesar do avanço representado pelo H-13J, o progresso tecnológico da aviação de asas rotativas na década de 1960 trouxe novos desafios. Comparados aos modernos helicópteros equipados com motores turboeixo, os modelos H-13J começaram a ser considerados obsoletos, especialmente para missões de transporte especial de altas autoridades, como o Presidente da República e membros do primeiro escalão do governo federal. Além de limitações em segurança operacional, essas aeronaves também careciam do conforto necessário para tais funções. Diante desse cenário, o Ministério da Aeronáutica criou uma comissão de especialistas para conduzir um estudo detalhado, com o objetivo de selecionar um novo vetor de asas rotativas que atendesse às exigências de transporte especial, além de suprir necessidades em missões de treinamento, ligação e observação. Após uma análise rigorosa, a escolha recaiu sobre o Bell 206A Jet Ranger, um modelo norte-americano reconhecido por sua versatilidade e desempenho. Em maio de 1967, foi formalizado o contrato nº 07/67 entre a Diretoria de Material da Aeronáutica (DIRMA) e o fabricante, estipulando a aquisição de sete unidades.

As entregas das novas aeronaves encomendadas começaram em 15 de julho de 1968. Dessas, três foram configuradas para transporte especial de autoridades (VIP), recebendo a designação VH-4 e as matrículas FAB 8570 a 8572. As quatro unidades restantes foram destinadas a missões de contra-insurgência (COIN), com a designação OH-4 e matrículas de FAB 8580 a 8583. A introdução do Bell 206A Jet Ranger representou um marco na modernização da frota de helicópteros da Força Aérea Brasileira (FAB) , alinhando-a aos padrões tecnológicos e operacionais da época e consolidando sua capacidade de cumprir missões estratégicas com maior eficiência e segurança. A partir de 21 de maio de 1969, as sete unidades adquiridas em 1967 passaram a desempenhar papéis distintos, começando pelo Centro de Instrução de Helicópteros (CIH), sediado em Santos, São Paulo. Nesse centro, as aeronaves foram fundamentais para complementar a formação de pilotos de asas rotativas, oferecendo treinamento prático essencial para o domínio das complexidades da aviação de helicópteros. Posteriormente, as células Bell OH-4 Jet Ranger, matrículas FAB 8582 e 8583, foram transferidas para a 1ª Esquadrilha de Ligação e Observação (1º ELO), baseada no Campo dos Afonsos, no Rio de Janeiro. Essa unidade, voltada para missões de ligação e observação, aproveitou as capacidades versáteis dessas aeronaves. Enquanto isso, as unidades com matrículas FAB 8580 e 8581 foram destinadas aos 2º e 5º Esquadrões Mistos de Reconhecimento e Ataque (EMRA), localizados em Recife e Santa Maria, respectivamente. Durante dois anos, essas aeronaves operaram em missões de reconhecimento e ataque, demonstrando a flexibilidade do modelo Bell 206A em diferentes contextos operacionais. Infelizmente, a trajetória dessas aeronaves foi marcada por incidentes trágicos que alterariam seu destino. Em 12 de março de 1974, o Bell OH-4 FAB 8580, pertencente ao 2º EMRA, sofreu o primeiro acidente fatal registrado com essa frota. A sequência de infortúnios continuou com outros dois acidentes: o primeiro, em 4 de janeiro de 1977, envolveu o Bell VH-4 FAB 8570, em Brasília; o segundo, em 17 de abril de 1978, ocorreu com o Bell OH-4 FAB 8583, em São Paulo. Esses eventos expuseram as limitações operacionais e de segurança das aeronaves, impulsionando a Força Aérea Brasileira (FAB) a reavaliar sua frota de helicópteros. Com o objetivo de recompor a capacidade operacional do Grupo de Transporte Especial (GTE) e melhorar os índices de disponibilidade, decidiu-se converter as células remanescentes dos Bell OH-4 para o padrão VH-4, otimizado para transporte especial de autoridades. Esse processo de conversão foi concluído em maio de 1980, permitindo que as duas aeronaves remanescentes fossem incorporadas ao Grupo de Transporte Especial (GTE).
Contudo, em setembro de 1984, a perda do Bell VH-4 FAB 8582 representou mais um revés, levando à realocação das células sobreviventes para o Centro Técnico Aeroespacial (CTA), em São José dos Campos, São Paulo. Nesse novo contexto, as aeronaves foram redesignadas como UH-4, destinadas a funções técnicas e de suporte. Essa redesignação, no entanto, teve curta duração. Em 1986, as aeronaves retornaram ao GTE, retomando suas funções em missões de transporte especial. A chegada, em 1988, dos modernos helicópteros Helibras VH-55 Esquilo Bi marcou o início de uma nova fase, permitindo a substituição gradual dos Bell VH-4 Jet Ranger nas missões de transporte executivo de autoridades. Com isso, as unidades remanescentes foram transferidas ao Parque de Material Aeronáutico dos Afonsos (PAMAAF), no Rio de Janeiro, onde passaram por revisões e preparações para uma nova etapa operacional. Entre 1989 e 1995, as células remanescentes dos Bell UH-4 foram empregadas pelo Grupo de Implantação do Centro de Lançamento de Alcântara (GICLA), no Maranhão, em missões de apoio logístico e técnico. Em 1995, o Bell UH-4 FAB 8571 foi transferido para a Escola de Especialistas da Aeronáutica (EEAer), em Guaratinguetá, São Paulo, onde passou a ser utilizado como ferramenta de instrução em solo, contribuindo para a formação técnica de novos especialistas. Já o Bell UH-4 FAB 8581 teve um destino diferente: em 30 de novembro de 1995, foi leiloado e adquirido por um operador privado, que o manteve em serviço até o final daquela década, encerrando assim a trajetória operacional desse modelo na FAB. A história da aviação de asas rotativas no Brasil ganhou um novo capítulo em 1987, com a incorporação de duas unidades do helicóptero Bell 206B Jet Ranger II à Força Aérea Brasileira (FAB), recebidas por meio de uma doação do Ministério da Marinha. Essas aeronaves, inicialmente designadas como VH-4B e posteriormente como UH-4B, receberam as matrículas FAB 8590 e 8991. Alocadas ao Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), no Maranhão, elas desempenharam um papel crucial em missões de transporte de pessoal, vigilância patrimonial e busca e salvamento (SAR). Essas atividades se estenderam até 2007, quando as células foram transladadas para o Parque de Material Aeronáutico dos Afonsos (PAMAAF), no Rio de Janeiro, onde permaneceram armazenadas. Em 29 de abril de 2013, as duas unidades foram devolvidas à Marinha do Brasil, passando a servir como fonte de peças de reposição para a frota de Bell 206B Jet Ranger II (IH-6B) operada pela Aviação Naval. Paralelamente, a trajetória do Bell 206B Jet Ranger II na Marinha do Brasil reflete a busca por modernização e eficiência operacional no início da década de 1970. Naquela época, a Aviação Naval contava com helicópteros Hughes 269A-A1 e 269B, utilizados principalmente na formação de pilotos. Embora essas aeronaves tenham prestado serviços valiosos, seus motores convencionais a pistão já se mostravam inadequados para as crescentes demandas operacionais. Diante disso, o comando da Aviação Naval reconheceu a necessidade de incorporar helicópteros equipados com motores turboeixo, que ofereciam maior potência, confiabilidade e versatilidade.

Nesse contexto, foi iniciado um processo de estudos para selecionar uma aeronave de asas rotativas capaz de atender às exigências do Curso de Aperfeiçoamento de Aviação para Oficiais (CAAVO). O modelo escolhido deveria ser suficientemente flexível para cumprir tanto os ciclos de instrução básica e avançada quanto missões de transporte e emprego geral. Em agosto de 1971, a Marinha lançou uma concorrência internacional, recebendo propostas de diversos fabricantes norte-americanos e europeus. Após uma análise comparativa detalhada, a proposta da Bell Helicopter Company para o modelo Bell 206B Jet Ranger II destacou-se como a mais vantajosa em termos de custo-benefício. A decisão pela aquisição do Bell 206B foi reforçada por sua compatibilidade com a frota da Força Aérea Brasileira (FAB), que já operava o modelo desde 1967. Essa sinergia facilitava os processos de manutenção e a obtenção de peças de reposição, reduzindo custos logísticos e aumentando a eficiência operacional. A escolha do Bell 206B Jet Ranger II representou, portanto, um marco na modernização da Aviação Naval, consolidando sua capacidade de formar pilotos qualificados e atender às demandas operacionais com uma aeronave robusta e versátil. Em 19 de dezembro de 1973, a Marinha do Brasil formalizou um marco significativo em sua modernização aeronáutica ao assinar um contrato com a Bell Helicopter Company, no valor de US$ 9.067.264. Este acordo contemplava a aquisição de dezoito helicópteros Bell 206B Jet Ranger II novos de fábrica, acompanhados de ferramental, manuais, acessórios e treinamento para pessoal técnico, tanto na área de manutenção quanto de voo. O contrato estipulava a entrega de cinco aeronaves configuradas para instrução primária, cinco para treinamento básico e oito para missões de emprego geral, atendendo às necessidades estratégicas da Aviação Naval. As aeronaves destinadas à instrução primária e ao treinamento básico, designadas respectivamente como UH-6 e IH-6A, apresentavam mínimas diferenças externas. As dez unidades IH-6A podiam ser equipadas com um guincho hidráulico externo e preparadas para portar armamentos, como casulos de metralhadoras MAG de 7,62 mm e lançadores de foguetes não guiados SBAT-70/7, ampliando sua versatilidade para missões operacionais. Já as oito células UH-6, destinadas a tarefas de emprego geral, incorporavam tanques de combustível autovedáveis, equipamentos para instalação de macas e sistemas de radionavegação mais avançados, otimizando-as para missões de transporte e apoio logístico. Visualmente, as UH-6 eram distinguíveis por sua pintura em tons de cinza escuro e claro, enquanto as IH-6A adotavam um esquema predominantemente branco.
O processo de recebimento e incorporação das aeronaves foi conduzido com notável eficiência. O curso de voo teve início em fevereiro de 1974, e, em apenas sessenta dias, duas células já estavam plenamente operacionais, demonstrando a agilidade da Marinha em integrar os novos helicópteros. A produção das aeronaves, realizada na fábrica da Bell Helicopter em Fort Worth, Texas, seguiu rigorosamente o cronograma contratual. As células eram desmontadas e preparadas para transporte terrestre até Houston, de onde eram embarcadas em navios mercantes de bandeira brasileira, garantindo a entrega ao Brasil. Finalmente em 23 Outubro de 1974 seria dado como pronto e aceito o último exemplar do Bell IH-6 destinado , destinado ao 1º Esquadrão de Helicópteros de Instrução (HI-1). As dez células desse modelo foram alocadas ao esquadrão, onde, por um breve período, operaram em conjunto com os últimos helicópteros Hughes 269A, que estavam em fase de desativação. Já as oito unidades Bell UH-6 foram destinadas ao 1º Esquadrão de Helicópteros de Emprego Geral (HU-1), com algumas delas posteriormente transferidas para equipar o Destacamento Aéreo Embarcado da Flotilha do Amazonas (DAE FLOTAM), ampliando a capacidade operacional da Marinha em regiões estratégicas. Com a chegada dos helicópteros Helibras HB350B-BA Esquilo a partir de 1979, a Marinha iniciou uma transição significativa em sua frota de asas rotativas. As células Bell UH-6 remanescentes foram redirecionadas para missões de treinamento e formação no HI-1. Essa mudança de perfil operacional não demandou alterações estruturais complexas, sendo necessário apenas remover equipamentos específicos, como os flutuadores de emergência, para adequar as aeronaves às novas funções. A versatilidade do Bell 206B Jet Ranger II permitiu que essa transição ocorresse de forma fluida, mantendo a eficácia do treinamento de pilotos. No entanto, em meados da década de 1980, o desgaste natural das células, intensificado pelo rigoroso perfil de treinamento, começou a comprometer sua disponibilidade operacional. Esse cenário motivou a realização de estudos emergenciais para identificar no mercado internacional novos modelos voltados à instrução. Após avaliações, a escolha recaiu sobre o Bell 206B Jet Ranger III, uma versão aprimorada que prometia atender às demandas de modernização da Aviação Naval. Paralelamente, a Marinha iniciou um processo de alienação, promovendo a venda das aeronaves Bell 206B ainda em condições de voo para operadores civis, marcando o gradual encerramento de seu ciclo operacional na força. O último registro operacional das células Bell 206B na Marinha ocorreu durante a Operação Dragão de 1985, um exercício que destacou a robustez e a confiabilidade dessas aeronaves em missões variadas. 


Em Escala.
Para representarmos o Bell JetRanger OH-04 "FAB 8580" utilizado em missões de contra insurgência (COIN) pelo 5º Esquadrão Misto de Reconhecimento e Ataque (EMRA) empregamos um antigo modelo do fabricante ESCI na escala 1/48. Para se compor a versão empregada pela Força Aérea Brasileira (FAB) não é necessário proceder nenhuma alteração. Fizemos uso de decais produzidos pela FCM Decals, oriundos de diversos sets.
O esquema de cores descrito abaixo representa um dos três padrões de pintura empregados nos OH-4 da Força Aérea Brasileira (FAB) durante seu emprego junto aos Esquadrões Mistos de Reconhecimento e Ataque (EMRA). Ja os VH-4 e VH-4B receberam o padrão de pintura adotado em todas as aeronaves do Grupo de Transporte Especial (GTE). Uma variação deste último esquema seria aplicado nos UH-4 em serviço junto ao Centro Técnico Aeroespacial (CTA) e ao Centro de Lançamento de Alcantara (GICLA). As células empregadas pela Aviação Naval  receberiam durante toda sua carreira três tipos de esquema de pintura de alta visibilidade.

Bibliografia :
- Bell 206 JetRanger  - Wikipedia - http://en.wikipedia.org/wiki/Bell_206
- Asas Sobre os Mares - Aviação Naval Brasileira , Prof Rudnei Dias Cunha
- História da Força Aérea Brasileira por, Prof. Rudnei Dias Cunha - http://www.rudnei.cunha.nom.br/FAB/index.html
- Aeronaves Militares Brasileiras 1916 – 2015 Jackson Flores Jr

Classes Tupi & Tikuna - IKL 209

História e Desenvolvimento.
A Alemanha detém há mais de um século, o domínio no desenvolvimento, construção e emprego de submarinos, com estes apresentando um impacto significativo na Primeira Guerra Mundial. Os esquadrões de U-boats do Império Alemão entraram em ação na Primeira Batalha do Atlântico e foram responsáveis pelo afundamento de vários navios mercantes, de passageiros e de guerra durante a campanha de guerra submarina irrestrita que promoveram contra a navegação dos países Aliados. A capacidade dos U-boats de funcionar como máquinas de guerra dependia de novas táticas, do número de atacantes e do desenvolvimento de tecnologias submarinas, como o sistema de energia diesel-elétrico, baterias, aeroscópios, torpedos, sonar, radar etc. Ao longo dos quatro anos de campanha na Primeira Guerra Mundial, os U-boats afundaram mais de cinco mil navios aliados. O Tratado de Versalhes limitou a força de superfície da Marinha Alemã (Reichmarine)  a seis encouraçado, seis cruzadores e doze contratorpedeiros. Para compensar esta limitação o governo alemão, passaria a investir no aperfeiçoamento tecnológico dos submarinos, na formação dos tripulantes e no desenvolvimento de táticas de combate. A situação estratégica no mar não mudaria no início da Segunda Guerra Mundial, e os submarinos foram utilizados pelos nazistas para compensar as fragilidades da Marinha Alemã (Kriegsmarine) em relação as Marinhas de Guerra Aliadas. A Batalha do Atlântico seria a maior, mais longa e complexo enfrentamento naval da História. Os embates teriam início no dia 03 Setembro de 1939, quando os britânicos e franceses estabeleceriam o bloqueio naval da Alemanha, que posteriormente seria estendido a todo Eixo, e foi até 8 de maio de 1945, quando da rendição do III Reich, durando cinco anos oito meses e cinco dias. A batalha envolveu centenas de navios de guerra e mercantes em uma luta pela sobrevivência contra a maior Força de Submarinos da História. Ao longo de toda a guerra, os alemães estavam continuamente aprimorando as máquinas, baterias, periscópios, sistemas de detecção, sistemas de comunicação, radares, sonares, os torpedos e os cascos dos submarinos a fim de dar-lhes mais velocidade submerso e reduzir as possibilidades de detecção. Neste contexto os submarinos alemães se destacariam de seus inimigos por apresentarem um patamar tecnológico superior, com destaque para os modelos Type VII, de curto alcance e destinados a operar a partir das bases alemães e o Type IX de longo alcance.   

Logo após o término da Segunda Guerra Mundial, a nova Marinha Alemã (Bundesmarine), passaria a ser precariamente equipada com submarinos veteranos do conflito como os Type XXI e Type XXIII, estes últimos pequenos submarinos costeiros projetados para operar nas águas rasas do Mar do Norte, Mar Negro e Mar Mediterrâneo. Em 1956 a a Alemanha Ocidental ingressaria como membro efetivo da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), o que descortinaria o renascimento da indústria naval alemã. Em 1958 seria batida a quilha do primeiro submarino alemão construído no pós-guerra o Tipo 201. Esta nova classe seria produzida nos estaleiros da Howaldtswerke, Kiel, porém em operação real apresentaria vários problemas de projeto, levando ao cancelamento de nove dos doze submarinos encomendados e a reconstrução dos dois primeiros barcos como submarinos Tipo 205. Esta nova classe apresentava embarcações de casco simples, maiores e equipados com novos sistemas e sensores, sendo otimizados para o uso no raso Mar Báltico. Um total de treze destes submarinos seriam produzidos a partir do ano de 1962. Seu sucessor o Tipo 206, seria desenvolvido  Howaldtswerke-Deutsche Werft (HDW).  Estes pequenos e ágeis submarinos foram construídos durante a Guerra Fria para operar no raso Mar Báltico e atacar navios do Pacto de Varsóvia em caso de confronto militar. Introduzido em serviço a partir de 1969, seriam construídos dezoito navios, com dois deles se mantendo em atividade até hoje junto a Marinha da Colômbia. No início da década de 1970, muitas marinhas ao redor do mundo, vislumbrariam a necessidade de substituição de submarinos norte-americanos e britânicos, veteranos da Segunda Guerra Mundial. Neste momento poucos projetos de submarinos ocidentais estavam disponíveis para exportação, pois a maioria era grande, cara, sofisticada e difícil de operar, sendo projetados para o ambiente da Guerra Fria. No ocidente, as poucas opções se limitavam a classe francesa Daphné francês e classe Oberon britânico, neste contexto a indústria naval alemã identificaria um novo nicho de mercado, visando o desenvolvimento de um submarino que fornecesse a combinação de tamanho, desempenho, relativa facilidade de operação para marinhas pequenas ou inexperientes, preço razoável e economia de operação.   
Este projeto seria capitaneado pelo Ministério de Defesa Alemão (Bundesministerium der Verteidigung), sendo direcionado a empresa construtora naval  Ingenieurkontor Lübeck (IKL), com o engenheiro alemão Ulrich Gabler liderando a equipe de desenvolvimento. Este novo submarino seria baseado em projetos de sucessos anteriores, em particular o modelo costeiro Tipo 206. Seu casco seria de configuração única, permitindo assim ao comandante visualizar todo o navio da proa à popa enquanto estivesse no periscópio. Este desing concederia a embarcação uma baixa assinatura de detecção por sonar. Estaria ainda equipado com quatro baterias de cento e vinte células, localizadas à frente e atrás do centro de comando no convés inferior e representando cerca de 25% do deslocamento do barco. Para seu grupo propulsor seriam escolhidos quatro motores a diesel MTU 12V493 TY60 de 800 hp cada, operando em conjunto com quatro geradores elétricos AEG, com este sendo ligado diretamente a uma hélice de cinco ou sete pás. Apesar destes parâmetros básicos, o projeto deste novo submarino deveria ser extremamente customizável, podendo assim atender a vários requisitos e diferentes áreas de operação de seus potenciais clientes navais. Um exemplo claro desta versatilidade seria sua capacidade de deslocamento, partindo do padrão de mil toneladas, podendo ser aumentando em alguns casos em até 50%.  Devido aos variados perfis de missão, que também podiam incluir teatros de águas azuis, este deslocamento adicional seria necessário para aumentar o alcance e a profundidade do mergulho, aprimorando também o equipamento eletrônico e melhorar as condições de vida a bordo. Atendendo ao parâmetro original do projeto de alta versatilidade de customização, estes novos submarinos deveriam ser facilmente integrados a uma variada gama de armamentos, sendo dimensionados para operar com oito tubos de torpedo de proa de 533 mm (21 pol). Sua capacidade de transporte poderia oscilar de quatorze torpedos a vinte e quatro minas, além de serem passiveis de integração e operação de misseis anti navios (ASM) norte-americanos UGM-84 Harpoon. Em termos de sistemas de combate, o projeto permitiria a implementação de variados sistemas integrados de comando e controle de armas, aliando capacidades avançadas de sonar para detecção de baixa frequência (sonar de flanco). 

Destes parâmetros nasceria a classe de submarinos compactos diesel elétricos HDW Classe 209, sendo destinados a operar uma grande variedade de perfis de missão, incluindo negação de mar, controle de mar, vigilância e coleta de informações, bem como tarefas de operações especiais. Entre seus principais atributos se destacavam alta força de combate, longo alcance submerso, altas velocidades submersas, baixas assinaturas e excelentes características de manuseio. A estratégia comercial de exportação empregada pelo consórcio alemão estava baseada na possibilidade de adequação do projeto, as exigências de cada cliente permitindo ainda a implementação de futuras atualizações locais. O primeiro contrato seria celebrado em 1972 com a Marinha Helênica da Grécia, compreendo quatro submarinos Type 209/1100, que receberiam a designação local de classe Glafkos. Em 1974 a Argentina se tornaria o segundo cliente da família, contratando a construção de duas embarcações do Tipo 209/1200 - Classe Salta. O excelente desempenho operacional e sua relação de custo-benefício, logo despertaria a atenção de mais marinhas ao redor do mundo, com novos contratos de exportação sendo celebrados a partir de 1976, envolvendo Colômbia - Type 209/1200 Classe Pijao, Perú -Type 209/11S Classe Islay, Venezuela -  Type 209/1300 Classe Sabalo, Equador - Type 209/1700 Classe Shyri, Chile -  Type 209/1400 Classe Thomson e Indonésia - Type 209/1300 Classe Cakra. Em seguida seriam assinados contratos entre o estaleiro alemão e governo turco, envolvendo a construção de seis  Type 209/1200s - Classe Atılay, entre os anos de 1989 e 2007 mais oito submarinos da família HDW Classe 209 (classes Preveze e Gür), com a Marinha Turca (Türk Donanması), se tornando o maior operador não só desta família, mas também a maior usuária de submarinos de design alemão do mundo. Ao longo dos anos seguintes o projeto seria aprimorado gerando mais contratos de exportação para as marinhas de Israel, África do Sul, Brasil, Coreia do Sul e Egito.  Em 1977, o  governo do Irã formalizaria  uma encomenda de seis submarinos Tipo 209, que seria cancelada pelo Aiatolá Khomeini em 1979, após a Revolução Iraniana. 
O único registro oficial de envolvimento em um cenário de conflagração real ocorreria durante a Guerra das Falklans - Malvinas (1982), quando o Type 209/1200 ARA San Luis , ao executar uma missão de patrulha disparou três torpedos SST-4 0 guiados por fio contra a frota britânica. No entanto devido a problemas de ordem técnica na montagem estes torpedos foram acometidos por vários problemas, saindo do curso designado.  Apesar desta grave falha os submarinos argentinos desta classe lograram grande êxito ao não serem detectados pelo sistema de guerra antissubmarino britânico. A partir do final da década de 1990 seriam implementados por seus usuários, uma série programas de modernização, envolvendo destes sistemas de armas, eletrônica embarca a conjuntos de propulsão. Como destaques citamos o processo implementado na Classe Sabalo venezuelana, que seria ligeiramente alongada, para poder assim acomodar uma nova cúpula de sonar que é semelhante ao modelo encontrado no Type 206 alemão e o programa aplicado no Tipo 209/1300 - classe Cakra da Indonésia, pelo estaleiro sul-coreano Daewoo Shipbuilding & Marine Engineering, no qual seriam adicionadas novas baterias, motores revisados e sistemas de combate modernizados.  Também seria possível atualizar esses submarinos com os mais recentes sistemas de propulsão independente do ar - AIP (Air-independent propulsion). Com os primeiros navios a receber esta atualização pertencendo a  Classe grega Poseidon Tipo 209/1200 sob o programa de atualização Neptune II. Os submarinos sul-coreanos da classe Jang Bog, seriam profundamente atualizados no século 21, incluindo neste processo o aumento do trecho do casco doméstico de 1.200 toneladas para 1.400 toneladas e a instalação de Medidas Acústicas de Torpedo (TACM) desenvolvidas localmente. Sem dúvida o que impressiona na família de submarinos HDW Classe 209 é a longevidade do projeto, o que tem demandado encomendas de novos navios e a aplicação de constantes programas de modernização. Ao todo seriam construídos setenta e dois navios, com a grande maioria destes se mantendo em operação até os dias atuais, com muitos destes sendo mantidos em status de prontidão como reserva naval. 

Emprego na Marinha do Brasil.
No final da década de 1970, o Ministério da Marinha procurava obter sua independência na construção e manutenção de submarinos. Durante décadas o país esteve na dependência dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha na aquisição de navios usados deste tipo. Este cenário começaria a mudar no ano de 1979, quando seria lançado um ambicioso programa de reaparelhamento da Marinha do Brasil, e no contexto da força de submarinos, seria necessário proceder a substituição dos modelos norte-americanos das classes Guanabara (Guppy II/III) e Humaitá (Gato). Uma comissão técnica seria formada para se buscar no mercado internacional um projeto que pudesse ser facilmente produzido no país. Esse esforço identificaria na Alemanha a Classe U-209 IKL-1400, com tratativas sendo iniciadas junto ao  estaleiro Howaldtswerke Deutsche Werft (HDW) visando a construção de uma ou mais unidade no Brasil. Em dezembro de 1982, a Marinha do Brasil assinaria dois contratos com o Consórcio HDW-Ferrostaal, envolvendo a a construção de um submarino IKL-1400 na Alemanha; e outro para o fornecimento de equipamentos, materiais, documentação e assistência técnica destinados a construir um segundo submarino IKL-209 no pais. Esses contratos, designados como Boat e Package 1, montando respectivamente a 268 e 186 milhões de marcos da época, passariam a vigorar a partir de julho de1984. Em março de 1985, aproveitando um novo financiamento no exterior, seria assinado um contrato semelhante ao Package 1, destinado à construção de mais dois submarinos IKL-1400 no Brasil. Os parâmetros de desempenho desta classe projetavam um raio de açao de 10.000 milhas náuticas à 8 nós (superfície ou com snorkel), ou 25mn a 21.5 nós, 50mn a 16 nós, 230mn a 8 nós, e 400mn a 4 nós mergulhado usando o motor elétrico; e cinquenta dias de autonomia. Podendo ainda atender a uma profundidade máxima de mergulho de duzentos e cinquenta metros.  Estes navios apresentavam como grande diferencial uma avançada suíte eletrônica envolvendo sistemas de contramedidas ESM  Thomson-CSF DR-4000, controle de armas Ferranti KAFS-A10, radares de navegação: Thomson-CSF Calypso III,  sonares de busca e ataque passivo/ativo Atlas Elektronik CSU-83/1, periscópios Kollmorgen Mod.76 e sistema de navegação inercial Sperry Mk 29 mod.2. Como armamento principal a Marinha do Brasil escolheria os eficientes torpedos britânicos fioguiados Marconi Underwater Systems Ltd Mk 24 Tigerfish Mod.1, que já estavam em uso no país, equipando os novos submarinos da classe Humaitá - Oberon. 

A construção na Alemanha iniciou-se efetivamente em novembro de 1984, prevendo-se a incorporação do primeiro submarino em agosto de 1988. Durante esse período, dezenas de engenheiros e técnicos da Marinha prepararam-se na Alemanha. Este navio batizado como Tupi - S30, teria sua quilha batida 8 de março de 1985, junto ao estaleiro Howaldtswerke Deutsche Werft, em Kiel. Seria entregue a Marinha do Brasil em 20 de dezembro de 1988, depois de realizar provas de mar e treinamento da tripulação no Báltico, foi submetido a Mostra de Armamento e incorporado a Armada em 6 de maio de 1989. Logo em seguida, suspendeu de Kiel com destino ao Brasil, escalando em Lisboa e Recife, chegando ao Rio de Janeiro em 27 de junho. Sua estreia operacional ocorreria em julho de 1990, participando da Operação TROPICALEX-II/90, integrando a Força-Tarefa 78. Ao longo dos anos seguintes participaria ativamente de um grande número de exercícios navais de grande monta, se mantendo em atividade até os dias atuais. Seguindo os termos do contrato, o segundo navio designado como Tamoio - S 31, seria ordenado junto ao Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro. Teve sua quilha batida em 15 de julho de 1986, e seria lançado e batizado em 18 de novembro de 1993. Em 14 de julho de 1994, se fez ao mar pela primeira vez para ajuste da propulsão, na superfície. No dia 15 de fevereiro de 1995, dando prosseguimento as provas de mar, realizou o teste de máxima profundidade de imersão, atingindo uma profundidade superior a 300 metros, até então nunca atingida por um submarino brasileiro. Em março, iniciou as provas relativas aos equipamentos eletrônicos, quando serão testados os sensores de bordo, os sistemas de navegação e o sistema de direção de tiro, culminando com o lançamento de dois torpedos Mk-24 Tigerfish. Depois de realizar as provas de mar, foi entregue ao setor operativo e incorporado a Esquadra em 17 de julho de 1995. Em 12 de dezembro, completaria um ano de incorporação, tendo até até essa data atingido as marcas de 118 dias de mar e 12.500 milhas navegadas e 1.196 horas de imersão, tendo participado das Operações UNITAS, FRATERNO e DRAGÃO.  Em 1996, o Tamoio, em um exercício de tiro, afundou o casco do contratorpedeiro Marcilio Dias com um torpedo Mark 24 Tigerfish. No mês de maio de 1997, integraria um grupo tarefa brasileiro, participando a convite de Portugal da Operação LINKED SEAS 97 da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), realizado ao largo da Península Ibérica, entre a costa portuguesa e o Estreito de Gibraltar. Nessa operação, o Tamoio conseguiu "afundar" o Porta-Aviões espanhol SMS Príncipe de Asturias - R 11, furando o bloqueio da escolta composto por mais de dez fragatas e contratorpedeiros, demonstrando as grandes qualidades desta classe de submersíveis. Em 11 de Setembro de 2023 seria publicada a Portaria Nº 224/MB/MD, dando baixa do serviço ativo da Armada. 
O Submarino Timbira - S32, seria o terceiro navio contratado, tendo sua quilha batida (casco 116) no AMRJ - Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro em 15 de setembro de 1987. Em 14 de novembro de 1996, realizaria a primeira saída para o mar para testes de máquinas, realizados ao largo da praia de Copacabana no Rio de Janeiro. Em 22 de novembro, suspendeu para testes de imersão estática, atingindo a cota de 30 metros. Em 16 de dezembro de 1996, seria submetido a Mostra de Armamento. Depois de ser entregue pelo Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro, suspendeu do Rio de Janeiro em 20 de janeiro de 1997, para realizar as provas de mar na região de Arraial do Cabo-RJ, com técnicos alemães a bordo. Em 22 de outubro, após ter concluído o período de testes de mar, foi entregue pela DGMM ao Comando-em-Chefe da Esquadra, em cerimônia realizada no cais leste do AMRJ. Sua estreia operacional ocorreria entre os dias 23 e 31 de março de 1998, integrando um Grupo-Tarefa sob o comando do Comandante da 1ª Divisão da Esquadra, participou da Operação ADEREX-I/98, na área marítima compreendida entre o Rio de Janeiro e Santos. No início do ano seguinte, realizaria exercício de tiro real com torpedo Mk-24 Tigerfish, afundando o casco do ex-contratorpedeiro Espírito Santo - D 38. Durante os anos seguintes prestaria relevantes serviços ao Comando da Força de Submarinos (ComForS), sua baixa do serviço ativo da frota, seria publicada em 17 de fevereiro de 2023 em atendimento a Portaria Nº 37/MB/MD. O quarto submarino da Classe Tupi, o Tapajó - S 33, teria sua quilha batida em agosto de 1992, sendo lançado ao mar em 5 de junho de 1998. Em 24 de março de 2000, seria entregue ao setor operativo. No final de setembro, partiu para viagem ao exterior, integrando o Grupo-Tarefa brasileiro, sob o comando do Contra-Almirante Reginaldo Gomes Garcia dos Reis, ComDiv2E, que se juntou a Força-Tarefa 13 em Ushuaia para participar da Operação UNITAS XLI. Após quase vinte e quatro anos servindo na Marinha do Brasil, o Submarino Tapajó S33, quarta unidade da Classe Tupi (IKL 209), seria retirado do Serviço Ativo da Armada em agosto de 2023, mediante publicação da Portaria Nº 195/MB/MD do Comandante da Marinha. Após a Mostra de Desarmamento, o casco do ex-Submarino “Tapajó” ficou sob a guarda do Comando da Força de Submarinos (ComForS), até a destinação definitiva do mesmo. 

A experiência obtida na construção desta classe de submarinos traria uma grande expertise (know how) a indústria de construção naval no país, ensinamentos estes que logo seriam aplicados na concepção de uma nova classe que teria por objetivo complementar e posteriormente substituir a Classe Tupi. O ponto de partida seria o próprio do IKL 209, almejando um submersível de maior deslocamento e capacidade operacional, devendo ai ser equipado com sensores mais avançados, como controles eletrônicos para tiro, radar de superfície e torpedos mais atualizados como os  Bofors T2000 ou Westinghouse Naval Systems MK-48. Deste conceito nasceria um navio apresentando um deslocamento de 1.400 toneladas (padrão) e 1.550 toneladas (carregado em mergulho), com 62,05 metros de comprimento, 6,20 metros de boca (7,60 metros, incluindo os hidroplanos da popa) e 5,50 metros de calado. Este novo submarino classificado como modelo IKL 209/1500 Mod. (modificado), receberia a designação de Tikuna - S34, criando uma nova classe nomeada como Tikuna, com planos para a construção futura de mais um navio o  S35 Tapuia. Este primeiro navio seria ordenado junto ao Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro - AMRJ em junho de 1996, sendo contratada a empresa Nuclebrás Equipamentos Pesados S/A, para a construção das seções do casco resistente do navio. Teve sua quilha batida em dezembro de 1998 e foi batizado e lançado ao mar às 10:30h do dia 9 de março de 2005. Às 10:00hs do dia 16 de dezembro de 2005, seria realizada, no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro, a Cerimônia de Mostra de Armamento e Incorporação a Armada, em cumprimento a Portaria N.º 313 de 05/12/2005 do CM e a OD N.º5/2005 do CEMA, iniciando logo em seguida sua fase de provas no mar e posterior entrada em serviço oficial. Seria ainda o primeiro submarino da esquadra a ser equipado com os modernos torpedos MK-48 Mod 6AT ADCAP, com o S34 Tikuna lançando as duas primeiras unidades desta arma em um exercício operacional no dia 12 de novembro de 2008. Ao longo dos anos seguinte o S 34 Tikuna teria grande destaque na participação de inúmeros exercícios operacionais nacionais e internacionais de grande porte. Merece especial destaque a realização, no dia 2 de maio de 2012, de uma faina de transferência de carga entre o Tikuna e helicópteros, denominada VERTREP (Vertical Replenishment). O exercício foi realizado com aeronaves SH-60B Seahawk do Esquadrão HSL-42 “Proud Warriors”, da Marinha dos Estados Unidos (U.S.Navy). 
Ao longo dos anos durante os Períodos de Manutenção Geral (PMG), estes submarinos foram recebendo significativas melhorias, como o moderno Sistema de Combate Integrado AN/BYG 501 MOD 1D, que possibilitava o emprego dos modernos torpedos pesados MK-48 Mod 6AT ADCAP, que já se encontravam em operação na classe Tikuna. Apesar da excelente folha de serviços, ficaria nítido que a médio prazo esta classe de submarinos deveria ser substituída, este entendimento resultaria em 2008 na criação do Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB). Negociações seriam conduzidas em âmbito internacional, com este processo se concretizando em um acordo com governo francês para um programa de transferência de tecnologia para construção de quatros submarinos convencionais da classe Scorpene. A concentração de recursos financeiros neste novo processo logo levaria ao cancelamento da segunda unidade da Classe Tikuna, o S 35 Tapuia. Porém atrasos neste novo programa poderiam gerar uma lacuna entre a eminente desativação da Classe Tupi e a entrada em serviço dos nos submarinos da Classe Humaitá. Assim no ano de 2019 seriam realizados estudos visando a remotorizaçao dos submarinos Timbira S32 e Tapajó S33, implementado os motores MTU Série 396, atualizando assim sua propulsão no nível da classe Tikuna, permitindo que estes se mantivessem sem serviço até fins da década de 2023. No entanto restrições orçamentarias levariam ao posterior cancelamento desta importante iniciativa. Os submarinos da classe Tupi, significaram a principal da estratégia de aquisição do domínio completo do ciclo "Projeto, Construção e Reparação" desses meios no país. Seria sobretudo esta experiencia obtida, que possibilitaria a perspectiva de autonomia na construção do submarino nuclear nacional. 

Em Escala.
Para representar o submarino IKL-209 Classe Tupi  - S30 Tupi, fizemos uso do novo kit em resina na escala 1/350 do fabricante brasileiro Argus Model. Empregamos alguns detalhamentos em scratch e photo etched (estes oriundos de outros modelos). Decais impressos pelo fabricante, presentes no modelo completam o conjunto. 
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão aplicado aos quatro submarinos da classe IKL-209 Tupi e ao único IKL 209 Mod Tikuna, operados pela Marinha do Brasil. Este esquema com variações na identificação dos navios  seria utilizado em todos os submarinos destas classes até ao seu descomissionamento, ou até os dias de hoje dos navios que ainda se mantém na ativa.  Empregamos tintas e vernizes produzidos pela Tom Colors. 



Bibliografia
- Os U-boot na Segunda Guerra Mundial (1939-1942) – Parte 1- https://historiamilitaremdebate.com.br/
Submarino Tipo 206 - Wikipedia https://en.wikipedia.org/wiki/Type_206_submarine
- Submarino Tipo 209 - Wikipedia https://en.wikipedia.org/wiki/Type_209_submarine
- Força da Submarinos 90 Anos - 1914-2004; Niterói; ComFors; 2004.
- Cem anos da Força de Submarinos – Marinha do Brasil