F-600 Ford-Engesa (VTE)

Historia e Desenvolvimento.
A Ford Motor Company, uma das mais icônicas e prestigiadas montadoras norte-americanas, foi fundada em 16 de junho de 1903, em modestas instalações situadas no subúrbio de Detroit, no estado de Michigan. Liderada pelo engenheiro e visionário Henry Ford, a empresa teve início com um investimento inicial de US$ 28.000, aportados por doze investidores, entre os quais se destacavam os irmãos John e Horace Dodge, que posteriormente deixariam a companhia para fundar a Dodge Motors Company. Este documento apresenta uma análise formal e estruturada da trajetória inicial da Ford, seu impacto na indústria automotiva e o legado de suas inovações. Nos primeiros anos de operação, a Ford Motor Company produzia veículos de forma quase artesanal em sua fábrica localizada na Avenida Mack, em Detroit. Pequenos grupos de dois ou três trabalhadores montavam cada automóvel, utilizando componentes majoritariamente fornecidos por terceiros. Apesar da escala limitada, os produtos da Ford rapidamente conquistaram a confiança dos consumidores norte-americanos, posicionando a empresa como líder no segmento de carros de passeio. Esse sucesso inicial gerou recursos que viabilizaram a expansão da companhia e o aprimoramento de seus processos industriais. Com o crescimento da demanda, a Ford optou por internalizar a fabricação de componentes críticos, adotando o conceito de integração vertical. Essa estratégia, inovadora para a época, permitiu maior controle sobre a qualidade e os custos de produção, consolidando a eficiência operacional da empresa. A integração vertical tornou-se um modelo funcional e amplamente adotado, contribuindo para a escalabilidade da Ford e sua capacidade de atender a um mercado em rápida expansão. Em 1908, Henry Ford lançou o Ford Modelo T, equipado com o primeiro motor de cabeça de cilindro removível, um marco técnico que elevou os padrões da indústria. Contudo, foi em 1914 que a Ford revolucionou a manufatura com a introdução da linha de montagem contínua, um sistema que implementou a produção em série de forma prática e eficiente. Esse método, conhecido como “Fordismo”, baseava-se na padronização de processos, na verticalização da produção e no aperfeiçoamento contínuo, encapsulado no célebre lema de Henry Ford: “Você pode comprar um Ford de qualquer cor, contanto que seja preto.” Desde seus primeiros anos, a Ford Motor Company demonstrou uma visão estratégica voltada para o mercado internacional. Em 1904, a empresa estabeleceu sua primeira linha de montagem no exterior, no Canadá, para a produção do Modelo C. Essa iniciativa marcou o início de uma política de parcerias globais, que facilitavam a fabricação local e a adaptação dos veículos às necessidades de diferentes mercados. O impacto do Fordismo transcendeu a indústria automotiva, influenciando métodos de produção em diversos setores. A combinação de eficiência, padronização e acessibilidade introduzida por Henry Ford redefiniu os paradigmas da manufatura moderna, estabelecendo um modelo que seria adotado mundialmente. Além disso, a Ford Motor Company consolidou-se como uma das pioneiras na democratização do automóvel, transformando-o de um artigo de luxo em um bem acessível a milhões de pessoas.

A expansão da Ford na América Latina teve início na Argentina, onde, em 1913, foi estabelecida uma filial. Contudo, a montagem de veículos nesse país só foi iniciada em 1921. No Brasil, a produção de automóveis Ford começou de forma pioneira em 1918, por meio de uma iniciativa do industrial baiano Antônio Navarro Lucas. Licenciado pela Ford, Lucas passou a montar, em Salvador, Bahia, dez unidades mensais do Modelo T, marcando o Brasil como o primeiro país latino-americano a fabricar veículos da montadora. Reconhecendo o potencial do mercado brasileiro, a diretoria da Ford Motor Company decidiu, em 24 de abril de 1919, criar uma filial no país. Já no início de maio do mesmo ano, foi instalada, na Rua Florêncio de Abreu, no centro de São Paulo, uma unidade que combinava um escritório administrativo e uma linha de montagem para a produção do Modelo T. Essa instalação tornou-se a primeira indústria automobilística do Brasil, um marco histórico para o setor. O Ford Modelo T destacou-se no Brasil por sua robustez, facilidade de condução e manutenção, características que o tornaram o automóvel mais popular do país na época. Com apenas 20 cavalos de potência, seu projeto simples e funcional permitia sua desmontagem para transporte em caixotes, sendo remontado em galpões próximos a portos ou estações ferroviárias, especialmente em regiões com infraestrutura rodoviária limitada. Essa versatilidade contribuiu para sua ampla aceitação no mercado brasileiro. A crescente demanda por veículos Ford no Brasil impulsionou a expansão das operações em São Paulo. Até 1921, a Ford mudou suas instalações duas vezes, ainda no centro da cidade, até se estabelecer na Rua Sólon, no bairro do Bom Retiro. Nesse endereço, a produção alcançou a capacidade de 40 unidades diárias. Em 1923, a mesma unidade montou o primeiro caminhão fabricado no Brasil, ampliando o portfólio da empresa. Durante a Segunda Guerra Mundial, a Ford priorizou a produção de veículos e componentes para uso militar. Com o fim do conflito, a montadora acelerou sua produção, atingindo, em 1948, uma cadência de 50 a 60 veículos leves por dia. Nesse período, a fábrica passou a montar uma gama diversificada de produtos, incluindo automóveis Ford, Mercury e Lincoln (de origem norte-americana), Anglia e Prefect (de origem britânica), além de veículos comerciais leves, ônibus e caminhões médios e pesados das marcas Ford e Thames. Aproximadamente 1.200 componentes já eram produzidos localmente, por meio da Ford e de cerca de cem fornecedores nacionais, enquanto cabines e carrocerias continuavam a ser importadas e montadas no Brasil. Ao completar 30 anos de operações no Brasil, em abril de 1949, a Ford já havia montado mais de 200 mil veículos. Em 1953, a empresa inaugurou uma moderna fábrica no bairro do Ipiranga, em São Paulo, com capacidade para produzir 125 veículos por dia. Essa unidade representou um salto em termos de infraestrutura e eficiência produtiva. Nesse contexto, o governo federal começou a considerar políticas de incentivo à nacionalização da indústria automotiva, embora planos concretos só fossem formalizados em 1956, com a criação do Grupo Executivo da Indústria Automobilística (GEIA).
Com a criação do Grupo Executivo da Indústria Automobilística (GEIA) em maio de 1956, o Brasil estabeleceu diretrizes para a nacionalização da indústria automotiva, exigindo que as montadoras desenvolvessem planos para a fabricação de veículos com crescente conteúdo local. A Ford do Brasil S/A, alinhada a essas metas, submeteu seu plano ao GEIA próximo ao prazo limite, consolidando um marco na história da indústria automotiva nacional. Eram três tipos: um caminhão médio, um leve e uma picape, prevendo capacidade máxima de trinta mil unidades, em 1960, com a produção de mails de oito mil caminhões já em 1957. Em coerência com as regras vigentes, o índice de nacionalização deveria aumentar progressivamente, saltando de cerca de 40%, em 1957, para 90% (em peso) em 1960. Quando o projeto da Ford foi aprovado, no final de 1956, a quase totalidade dos componentes das cabines já era estampada no Brasil; a produção de algumas partes era terceirizada, caso das caçambas de picapes, fornecidas pelas Máquinas Piratininga, e algumas centenas de itens diversos eram adquiridos junto a outros fabricantes nacionais. Em 26 de agosto de 1957 deixou a linha de montagem do Ipiranga o primeiro caminhão Ford nacional – o F-600, ainda apenas com cerca 40% de conteúdo nacional, em peso. Tratava-se de um modelo convencional, de porte médio (para 6,5 t, entre eixos de 4,37 m) e arquitetura tipicamente norte-americana, com motor V8 a gasolina (4,5 l e 161 cv) e cabine recuada; tinha caixa de quatro marchas e diferencial de duas velocidades, com reduzida de comando elétrico. Dois meses depois foi lançada a picape F-100, para 930 kg, dotada da mesma motorização e igual cabine, porém com três marchas (primeira não sincronizada). Ambos eram modelos descontinuados nos Estados Unidos – um mix de capô, para-lamas e cabine de 1953 com grade de 1956. Exatos 3.454 veículos foram concluídos no primeiro ano, 576 dos quais do modelo picape. Para atender às metas do plano, foram criados os Departamentos de Engenharia do Produto e de Ensaios e Pesquisa (alocados nas antigas instalações do Bom Retiro), construída uma fundição de motores em Osasco (SP), instaladas linhas de usinagem e montagem de motores e ampliada a estamparia do Ipiranga, as três últimas inauguradas em novembro de 1958. Em 1959, a cabine do caminhão e picape foi reestilizada, recebendo novo painel, volante “em cálice” e os para-brisas panorâmicos introduzidos em 1956, nos Estados Unidos. A picape, por sua vez, ganhou caçamba muito mais moderna, com para-lamas integrados, seguindo projeto apenas recentemente adotado na matriz. Para registrar o salto no índice de nacionalização, obtido após a inauguração da fábrica de motores, os emblemas de todos os modelos passaram a vir nas cores verde e amarela.   Em junho daquele mesmo ano seria lançado o caminhão leve F-350 (para 2,7 ton entre eixos de 3,30 m), com a mesma mecânica dos demais (este seria, por muitos anos, o único modelo brasileiro na categoria). No ano seguinte o caminhão médio ganhou a versão F-600-148″, com menor entre eixos (3,77 m), próprio para receber carroceria basculante ou quinta roda, com capacidade de tração de 12 toneladas.

Em 1961 foi também o ano em que a Ford brasileira se dobrou à realidade local, que aceleradamente se afastava dos motores a gasolina no transporte de cargas, e lançou seu primeiro veículo diesel. Equipado com motor Perkins de seis cilindros e 125 cv, o F-600 Diesel recebeu poucas modificações com relação ao modelo a gasolina: apenas reforço da suspensão dianteira e substituição do logotipo “V8”, na grade, por outro, nomeando o novo combustível.  Em abril de 1962 o estilo da linha Ford foi mais uma vez alterado, desta vez assumindo o desenho do modelo norte-americano de 1960. A nova série, chamada Super Ford, não mereceu alterações mecânicas significativas. A linha de comerciais foi renovada em maio de 1968: além das novas carrocerias com faróis retangulares para todos os modelos e do novo motor Perkins de 142 cv para o F-600 Diesel (seis cilindros, sete mancais, camisas removíveis e bomba injetora rotativa). Em julho de 1970 já apareciam os primeiros lançamentos para 1971 na linha de caminhões, trazendo faróis redondos para todos os modelos; na picape, freios, suspensão Twin-I-Bean e relação de transmissão foram modificados; a F-350 recebeu freios assistidos e o F-600 opcionalmente, tanque de combustível de maior capacidade e caixa de cinco marchas sincronizadas. Em 1976, a Ford lançou mais um caminhão diesel, o F-7000. Dispondo da mesma capacidade e iguais elementos mecânicos do F-600 Diesel, o F-7000 vinha, porém, equipado com um motor diesel diferente, o novo dois tempos Detroit (quatro cilindros em linha, injeção direta e 145 cv), cuja produção havia sido iniciada pouco antes no Brasil. Novos modelos foram lançados em 1977: em fevereiro, FT-7000, com 3º eixo de fábrica (fabricado pela Hendrickson, porém montado pela Ford); e em julho, mais dois semipesados (F-8000 e FT-8000) e o primeiro pesado da marca, o cavalo mecânico F-8500, para 30,5 t, os três últimos com motor Detroit de seis cilindros em V e 202 cv, filtro de ar montado externamente sobre o para-lama direito, freios pneumáticos, freio de estacionamento com trava de mola, embreagem dupla  e direção hidráulica opcional. Todos eles dividiam a mesma cabine, oriunda dos caminhões médios.  Na década de 1980, a Ford do Brasil S/A implementou mudanças significativas em sua linha de caminhões, promovendo a substituição dos modelos tradicionais da Série F por novos veículos mais modernos e adaptados às demandas do mercado. Este documento apresenta, de forma estruturada, a evolução da linha de caminhões Ford Série F, destacando as inovações tecnológicas, as atualizações de design e as estratégias comerciais adotadas pela empresa até o início do século XXI. No início dos anos 1980, a Ford do Brasil reformulou a nomenclatura e a oferta de sua linha de caminhões, introduzindo modelos que atendiam aos segmentos médio e semipesado. As principais novidades incluíram: Modelos Médios: F-11000, F-12000 e F-13000: Caminhões com capacidade de carga líquida entre 6,5 e 9 toneladas. Projetados para transporte de cargas intermediárias, ofereciam robustez e eficiência operacional. Modelos Semipesados: F-19000 e F-21000: Equipados com terceiro eixo (tandem ou balancim), com capacidades de carga de 13 e 15 toneladas, respectivamente.

Os novos modelos da Série F incorporaram avanços tecnológicos significativos, alinhados às necessidades do mercado brasileiro. Motores Introdução do motor MWM de seis cilindros, com maior eficiência e durabilidade Opção de motores Perkins para os modelos médios, oferecendo maior flexibilidade aos clientes Transmissão Nova caixa de cinco marchas, com a primeira marcha não sincronizada. Sistema de redução no diferencial, acionado eletricamente ou pneumaticamente, para melhor desempenho em terrenos variados..Sistemas de Freios : Freios pneumáticos nos modelos F-12000, F-13000, F-19000 e F-21000, garantindo maior segurança Modelo F-11000 equipado com freios hidráulicos a vácuo, adequados à sua capacidade. Outras Melhorias Suspensão revisada para maior conforto e estabilidade. Sistema elétrico atualizado para 12 volts, alinhado aos padrões da época Tanque de combustível cilíndrico de maior capacidade, aumentando a autonomia. Opcionais como direção hidráulica e rodas raiadas, disponíveis em alguns modelos, para atender a diferentes necessidades operacionais. Diante do aumento da concorrência no mercado brasileiro, a Ford do Brasil planejou a nacionalização da linha europeia Ford Cargo, conhecida por seu design moderno e tecnologia avançada. Em abril de 1985, os primeiros caminhões da família Cargo chegaram ao mercado, marcando uma nova fase para a empresa. A linha Cargo foi posicionada como uma alternativa mais sofisticada, voltada para os segmentos médio e pesado, e rapidamente ganhou aceitação no mercado. Para manter a competitividade da Série F, a Ford do Brasil realizou atualizações significativas ao longo dos anos: 1992 – Modernização da Cabine ("Sapão") A Série F passou por uma reformulação radical nas cabines, com design renovado e melhorias ergonômicas A nova estética, popularmente apelidada de "Sapão", reforçou a identidade visual da linha e prolongou sua relevância no mercado. 1998 – Última Atualização e Introdução do F-16000: A Ford implementou a última modernização das cabines da Série F, aprimorando conforto e funcionalidade. Lançamento do modelo F-16000, ampliando as opções disponíveis no segmento médio. No início dos anos 2000, a Ford do Brasil reavaliou sua estratégia no segmento de caminhões. A Série F, embora histórica, enfrentava dificuldades para competir com modelos mais modernos, como a linha Cargo e os produtos de concorrentes. Como resultado - A produção da Série F foi parcialmente descontinuada, com foco mantido apenas nos modelos leves.- A linha Ford Cargo assumiu a liderança no segmento de caminhões  médios e pesados, sustentando as vendas da empresa nesse mercado. A evolução da linha de caminhões Ford Série F no Brasil reflete o compromisso da Ford do Brasil em atender às demandas do mercado por meio de inovações tecnológicas e estratégias comerciais. Desde a introdução dos modelos F-11000, F-12000, F-13000, F-19000 e F-21000 na década de 1980 até a modernização das cabines nos anos 1990, a Série F desempenhou um papel central no transporte de cargas no país. Apesar de sua substituição gradual pela linha Cargo e do abandono parcial da produção, a Série F deixou um legado significativo na história da indústria automotiva brasileira, marcada por sua robustez, versatilidade e adaptação às necessidades do mercado.

Emprego nas Forças Armadas Brasileiras.
Durante a Segunda Guerra Mundial, o Exército Brasileiro experimentou um avanço significativo em sua capacidade de mobilização, impulsionado pelo recebimento de caminhões militares fornecidos pelos Estados Unidos sob a Lei de Empréstimos e Arrendamentos (Lend-Lease Act). No entanto, na década de 1950, a frota enfrentou desafios operacionais devido ao desgaste e à dificuldade de obtenção de peças de reposição. Este relatório analisa o impacto dessas questões, as soluções propostas pelo comando do Exército Brasileiro e os desafios associados à sua implementação. Com a adesão do Brasil ao esforço de guerra aliado em 1942, as Forças Armadas Brasileiras receberam, até o final de 1945, mais de 5.000 caminhões militares das séries GMC CCKW, Corbitt, Diamond e Studebaker US6G, fornecidos por meio do programa Lend-Lease Act. Esses veículos foram fundamentais para a mobilização de tropas e cargas durante o conflito. Contudo, no final da década de 1950, a operacionalidade da frota foi gravemente comprometida por dois fatores principais: Desgaste Natural: Resultante do uso intensivo durante e após a guerra; Dificuldade na Obtenção de Peças: A descontinuação da produção desses modelos nos Estados Unidos, há mais de uma década, dificultava a importação de componentes essenciais. Esse cenário gerou preocupação no comando do Exército Brasileiro, pois comprometia a capacidade operacional da Força Terrestre, exigindo soluções urgentes para restaurar sua prontidão logística. A solução ideal para manter a capacidade operacional envolvia a substituição da frota por um número equivalente de caminhões modernos com tração 4x4 e 6x6, sendo os modelos REO M-34 e M-35 os mais indicados devido à sua robustez e tecnologia avançada. No entanto, o elevado custo de aquisição de uma frota desse porte excedia as limitações orçamentárias do Exército Brasileiro na época, tornando essa opção inviável. Diante das restrições financeiras, o comando do Exército elaborou três soluções complementares para enfrentar o problema: Aquisição Limitada de Caminhões Modernos: Compra de um pequeno número de caminhões REO M-34 e M-35 para atender às necessidades mais críticas, priorizando missões estratégicas. Repotencialização da Frota Existente: Estudos para a modernização dos caminhões GMC CCKW e Studebaker US6G, visando prolongar sua vida útil por meio de atualizações técnicas. Adoção de Caminhões Comerciais Militarizados: Incorporação de caminhões produzidos nacionalmente, adaptados para missões secundárias, como transporte de cargas leves e outras funções de apoio. A combinação dessas estratégias tinha o potencial de restaurar a operacionalidade da Força Terrestre de maneira sustentável e economicamente viável. Os estudos para a repotencialização dos caminhões GMC CCKW e Studebaker US6G foram minuciosamente analisados, mas não receberam recomendação para implementação. As principais razões incluíam: Alto Custo: O investimento necessário para modernizar a frota era elevado, especialmente considerando a necessidade de importar componentes ou desenvolver substitutos localmente. Falta de Capacidade Técnica: Naquela época, o Brasil carecia de um corpo técnico com a expertise necessária para executar um programa de repotencialização em escala, envolvendo reengenharia e adaptação de sistemas complexos. Esses fatores inviabilizaram a modernização da frota existente, direcionando o foco para as demais soluções propostas.

O cancelamento da repotencialização dos caminhões GMC CCKW e Studebaker US6G evidenciou a necessidade de soluções alternativas para restaurar a operacionalidade da frota do Exército Brasileiro. A adoção de caminhões comerciais militarizados foi identificada como uma abordagem viável, permitindo: Substituição em Missões Básicas: Utilização de veículos comerciais em tarefas de transporte básico, liberando os caminhões militares com tração 6x6 para operações táticas e estratégicas em ambientes fora de estrada. Otimização da Frota Existente: Concentração dos veículos militares remanescentes em melhor estado para missões críticas. Essa estratégia, já implementada desde a década de 1930 com caminhões comerciais de pequeno porte, beneficiava-se do baixo custo de aquisição e operação dos veículos produzidos localmente, alinhando-se às prioridades orçamentárias da Força Terrestre. Para atender à demanda por caminhões médios, o Ministério do Exército optou por veículos fabricados pela Fábrica Nacional de Motores (FNM), uma empresa estratégica no fortalecimento da indústria automotiva brasileira. Dois modelos foram selecionados: FNM D-9500: Caminhão médio com características adequadas para adaptação militar. FNM D-11000: Modelo destacado por sua robustez estrutural, capaz de atender, em teoria, aos parâmetros exigidos para o processo de militarização. A escolha dos caminhões FNM refletiu o compromisso do governo em fomentar a indústria nacional, aproveitando a capacidade produtiva local para suprir as necessidades do Exército. Apesar do avanço na substituição dos caminhões médios, a frota de caminhões leves permanecia obsoleta, composta majoritariamente por modelos como: Opel Blitz II Comercial; Chevrolet 157 Gigante 1937; General Motors G7106, G7107 e G-617M, recebidos entre 1935 e 1942. Esses veículos desempenhavam um papel central na estrutura de transporte do Exército Brasileiro, mas seu desgaste e a dificuldade de manutenção exigiam um programa urgente de renovação. A substituição dessa frota representava uma oportunidade significativa para as montadoras nacionais, incentivadas pelo Governo Federal por meio do Grupo Executivo da Indústria Automobilística (GEIA), instituído em 1956. O GEIA foi criado para promover o desenvolvimento da indústria automotiva brasileira, oferecendo incentivos fiscais e financeiros às montadoras que investissem na produção local. Esse programa alinhava-se aos objetivos do Exército Brasileiro, pois: Estimulava a fabricação de veículos robustos e acessíveis, adequados à militarização; Reduzia a dependência de importações, mitigando os problemas de fornecimento de peças observados com a frota legada da Segunda Guerra Mundial; Fortalecia a economia nacional, gerando empregos e capacidade industrial. A aquisição de caminhões FNM e a perspectiva de renovação da frota de caminhões leves foram, portanto, estratégias alinhadas aos objetivos do GEIA, promovendo a integração entre as necessidades militares e o desenvolvimento industrial.
A Ford do Brasil iniciou sua trajetória como fornecedora de veículos militares na década de 1920, com a incorporação dos caminhões Ford Modelo T pelo Exército Brasileiro. Esses veículos foram fundamentais no processo de expansão das fronteiras nacionais, demonstrando a confiabilidade e a versatilidade dos produtos da empresa. A sólida reputação construída ao longo dos anos posicionou a Ford como uma candidata natural para atender às demandas não apenas do Exército, mas também da Força Aérea Brasileira e da Marinha do Brasil. No mesmo período, a Ford lançou no mercado comercial brasileiro o Ford F-600, seu primeiro caminhão de fabricação nacional. Projetado para o transporte de cargas, o F-600 apresentava características que permitiam sua militarização, tornando-o uma opção viável para atender às necessidades das Forças Armadas. Prototipagem e Avaliação : Em meados da década de 1950, a Ford do Brasil apresentou ao Exército Brasileiro os primeiros protótipos do Ford F-600 adaptados para uso militar, nas configurações de tração 4x2 e 6x2. Esses veículos foram submetidos a avaliações rigorosas, mas a preferência inicial recaiu sobre a versão militarizada do Chevrolet Brasil 6500, que foi selecionada para atender às necessidades imediatas do Exército. Primeiro Contrato com a Aeronáutica: Em 1958, o Ministério da Aeronáutica (MAer) marcou um marco significativo ao celebrar o primeiro contrato para aquisição de 20 caminhões Ford F-600 militarizados. Esses veículos foram configurados com a carroceria do tipo “Espinha de Peixe”, projetada especificamente para o transporte de tropas de choque, e destinados às unidades da Polícia da Aeronáutica (PA). A carroceria, caracterizada por sua estrutura de aço com bancos longitudinais e cobertura de lona militar, permitia o transporte eficiente e seguro de soldados em operações táticas. Adoção pelo Exército Brasileiro : A experiência positiva da Aeronáutica com o Ford F-600 abriu caminho para sua adoção pelo Exército Brasileiro. Em outubro de 1959, o Exército adquiriu um número significativo de caminhões F-600, majoritariamente na configuração de tração 4x2, para uso em tarefas de transporte de tropas de choque e cargas. Esses veículos passaram por um processo de militarização que incluiu: Reforços Estruturais: Para-choques reforçados para maior resistência em operações de campo. Guinchos mecânicos dianteiro e traseiro, com capacidade para tração de cargas leves. Grades de proteção para faróis e lanternas, garantindo durabilidade em ambientes adversos. Gancho de reboque traseiro para operações logísticas. Carroceria: Estrutura de aço com cobertura de lona no padrão militar, inspirada no design dos caminhões GMC CCKW 352/353, amplamente utilizados na Segunda Guerra Mundial. Configuração que facilitava o embarque e desembarque rápido de tropas, essencial para operações de choque. A entrega dos caminhões Ford F-600 às unidades operativas do Exército Brasileiro teve início em 1960. Ao longo das décadas seguintes, esses veículos prestaram serviços de excelência, sendo empregados em diversas missões, incluindo: Transporte de tropas de choque em operações de garantia da lei e da ordem (GLO). Movimentação de cargas em apoio logístico às unidades militares.

Operações táticas em ambientes urbanos e rurais, onde sua robustez e simplicidade mecânica foram amplamente valorizadas. Novos Contratos com o Exército Brasileiro : O desempenho positivo dos caminhões Ford F-600 adquiridos em 1959 incentivou o Comando do Exército Brasileiro a formalizar novos contratos de aquisição. Esses contratos incluíram a versão com tração 6x2, configurada com a carroceria do tipo “Espinha de Peixe”, projetada para o transporte de tropas de choque. Essa configuração foi destinada principalmente aos batalhões da Polícia do Exército (P.E.), reforçando a capacidade operacional em operações de garantia da lei e da ordem (GLO) e controle de distúrbios. Características da Configuração 6x2: Carroceria de aço com bancos longitudinais, coberta por lona militar, otimizada para embarque e desembarque rápido. Capacidade para transportar até 20-30 soldados, dependendo da configuração. Estrutura reforçada para suportar operações táticas em ambientes urbanos e rurais. Em 1966, a Engesa lançou no mercado um sistema de tração 4x4, projetado para conferir capacidade off-road a veículos comerciais leves e médios. Denominado “Tração Total”, o sistema era oferecido como um kit, composto por: Caixa de transferência com duas tomadas de força. Eixo dianteiro direcional. Guincho (opcional), para operações de resgate e tração. Essa solução permitiu que veículos comerciais, como o Ford F-600, adquirissem características operacionais de veículos fora-de-estrada, ampliando sua versatilidade em terrenos acidentados. Em 1969, a Engesa introduziu o sistema de tração dupla traseira, conhecido como “Boomerang”. Esse sistema foi um marco no desenvolvimento de veículos militares, oferecendo maior tração e estabilidade em condições adversas. O sucesso comercial do Boomerang no mercado internacional atraiu a atenção do Exército Brasileiro, que identificou no sistema uma solução estratégica para a modernização de sua frota de caminhões militares. Relevância Estratégica: Em 1967, o programa de renovação da frota militar com tração integral foi classificado como “De Interesse para a Segurança Nacional”, destacando sua importância para a defesa do país. O sistema Boomerang tornou-se a base para o desenvolvimento de veículos militares com tração 6x6, fundamentais para operações em terrenos variados. A partir do final de 1971, as unidades de infantaria motorizada do Exército Brasileiro começaram a receber os primeiros caminhões Ford F-600 equipados com tração 4x4 e 6x6, desenvolvidos em parceria com a Engesa. Esses veículos representaram um avanço significativo na modernização da frota militar, permitindo a substituição gradual de modelos obsoletos, como: GMC Série CCKW 352/353 6x6. Studebaker USG-6 6x6. GMC G-7107 4x4. Características Operacionais. Os Ford F-600 com tração integral apresentaram as seguintes vantagens: Capacidade Off-Road: Os sistemas 4x4 e 6x6, combinados com o sistema Boomerang, garantiam desempenho superior em terrenos acidentados, como os encontrados nas regiões amazônica e pantaneira. Versatilidade: Utilizados tanto para transporte de tropas quanto de cargas, os veículos atenderam às necessidades logísticas e táticas do Exército. Manutenção Simplificada: Mais de 80% dos componentes dos caminhões eram compartilhados com o mercado comercial, reduzindo significativamente os custos de manutenção preventiva e corretiva. Durabilidade: A construção robusta e os reforços militares, como para-choques e guinchos, asseguravam longa vida útil mesmo em condições operacionais intensas.
Durante as décadas de 1970 e 1980, as três Forças Armadas Brasileiras adquiriram centenas de caminhões Ford F-600, com diferentes níveis de militarização. Esses veículos foram configurados para atender a uma ampla gama de funções operacionais, disponíveis nas trações 4x2, 4x4 e 6x2, e equipados com carrocerias especializadas, incluindo: Carga Seca: Disponível em versões comercial e militar, para transporte de suprimentos e equipamentos. Cisterna: Modelos para transporte de combustível ou água, essenciais para operações logísticas. Bombeiro: Adaptados para combate a incêndios em instalações militares. Basculante: Utilizados em tarefas de construção e engenharia. Oficina: Equipados para manutenção em campo. Baú de Carga: Para transporte de materiais sensíveis ou protegidos. Frigorífico: Destinados ao transporte de alimentos perecíveis. Posto de Comando: Configurados como centros de coordenação tática. Socorro Mecânico (Guincho): Produzidos pela Bisseli Viaturas e Equipamentos Ltda., para recuperação de veículos em operações. A versatilidade e a robustez do Ford F-600 fizeram dele o principal componente da frota de transporte militar para todos os terrenos do Exército Brasileiro. Sua capacidade de operar em ambientes variados, aliada à simplicidade mecânica e à disponibilidade de peças no mercado comercial, garantiu alta confiabilidade e baixos custos de manutenção. Essas características consolidaram o F-600 como um ativo essencial para missões logísticas, táticas e de apoio, incluindo transporte de tropas de choque, suprimentos e equipamentos. A partir de meados da década de 1980, a frota de caminhões Ford F-600 começou a apresentar sinais de desgaste operacional, decorrentes do uso intensivo e da idade dos veículos. A necessidade de modernização da frota tornou-se evidente, exigindo a substituição dos F-600 por modelos mais avançados, capazes de atender às demandas operacionais contemporâneas. Naquele momento, a Ford do Brasil S/A não dispunha em seu portfólio comercial de um modelo que pudesse substituir o F-600 de maneira competitiva. A ausência de uma alternativa moderna limitou a capacidade da empresa de manter sua posição como principal fornecedora de caminhões militares. O vácuo deixado pela Ford abriu espaço para a Mercedes-Benz do Brasil S/A, que, com uma estratégia eficaz, assumiu a liderança no fornecimento de caminhões militares para as Forças Armadas Brasileiras. A Mercedes-Benz ofereceu veículos mais modernos, com maior capacidade tecnológica e operacional, atendendo às necessidades de renovação da frota. Apesar do declínio no fornecimento de caminhões militares, a Ford do Brasil conseguiu manter uma participação limitada no mercado por meio de pequenos contratos para os modelos F-6000, F-12000, F-14000 e Ford Cargo nas décadas seguintes. Esses contratos, embora de menor escala, permitiram à empresa permanecer ativa no segmento militar, ainda que em um papel secundário. A partir da década de 1990, o Exército Brasileiro iniciou um processo gradual de desativação dos caminhões Ford F-600, à medida que novos veículos, principalmente da Mercedes-Benz. O processo de desativação foi concluído em 2004, quando as últimas unidades do Ford F-600 foram retiradas de serviço.

Em Escala.
Para retratar o Ford-Engesa F-600 VTE Oficina “EB21-4131”, foi selecionado um modelo de resina impresso de alta qualidade, produzido pela 3D Scale Models. O modelo foi adquirido na escala 1/48, que oferece um equilíbrio entre detalhes minuciosos e praticidade de construção. A 3D Scale Models também disponibiliza o mesmo modelo nas escalas 1/72 e 1/35, permitindo que os modelistas escolham a opção mais adequada às suas necessidades. Os decais utilizados no modelo a foram confeccionados  pela Decals e Books, extraídos do conjunto temático “Forças Armadas do Brasil 1983 a 2002".
Inicialmente todos os caminhões Ford-Engesa F-600 VTE, foram recebidos ostentando o padrão de pintura tático em verde oliva adotado pelo Exército Brasileiro desde a Segunda Guerra Mundial. A partir de 1982, o Exército Brasileiro introduziu um novo esquema de pintura para o Ford F-600 VTE, adotando um padrão de camuflagem em dois tons. Esse esquema permaneceu em uso até a desativação final das viaturas em 2004.  Empregamos tintas e vernizes produzidos pela Tom Colors. 
Bibliografia :
- História da Ford no Brasil - www.ford.com.br
Primórdios da Motorização no Exército Brasileiro 1919-1940 - Expedito Carlos Stephani Bastos
- Motorização no Exército Brasileiro 1906 a 1941 - Expedito Carlos Stephani Bastos
- Ford do Brasil Lexicar - www.lexicar.com.br/ford

Schneider C-17S - M1919 (155 mm)

História e Desenvolvimento.
Em 1836, os irmãos Adolphe Schneider (1802–1845) e Joseph Eugène Schneider (1805–1875), oriundos de uma família da região da Lorena, fundaram a empresa Schneider, Frères & Cie. na cidade de Le Creusot, situada na região da Borgonha, na França. Estruturada como uma sociedade em comandita por ações, a empresa nasceu a partir da aquisição das forjas e fundições locais, então em situação de falência. A operação contou com o apoio financeiro do banqueiro François-Alexandre Seillière e do industrial Louis Boigues, proprietário das Forges de Fourchambault, que viam no empreendimento uma oportunidade de revitalizar a atividade metalúrgica na região. A localidade situava-se próxima a importantes reservas de carvão e minério de ferro, matérias-primas essenciais para a indústria siderúrgica, além de contar com acesso ao Canal du Centre.  Esse contexto geográfico favorável somava-se ao ambiente de transformação econômica vivido pela França na primeira metade do século XIX, marcado pela expansão da Revolução Industrial e pelo rápido desenvolvimento das ferrovias, criando condições propícias para o florescimento de novos empreendimentos industriais. Embora não possuíssem formação técnica formal, os irmãos Schneider demonstraram notável visão empresarial e capacidade administrativa. Dentro da empresa, estabeleceram uma divisão clara de responsabilidades: Adolphe dedicava-se à gestão administrativa e comercial, enquanto Eugène concentrava-se nos aspectos técnicos e operacionais da produção. Essa complementaridade de funções revelou-se decisiva para o rápido desenvolvimento da companhia. Desde sua fundação, a Schneider, Frères & Cie. foi concebida com a ambição de modernizar a indústria metalúrgica francesa, inspirando-se em inovações tecnológicas já consolidadas no Reino Unido, então líder mundial no setor. A partir de 1837, a empresa iniciou um amplo processo de modernização de suas instalações industriais, introduzindo altos-fornos alimentados a coque, fornos de pudlagem mecanizados e equipamentos de forjamento de grande porte. Entre as inovações adotadas destacava-se o emprego do chamado marteau-pilon (martelo-pilão), uma poderosa máquina de forjamento desenvolvida pelo engenheiro François Bourdon. Esse equipamento permitia a fabricação de peças metálicas de grandes dimensões com maior precisão e eficiência, representando um avanço significativo para a siderurgia da época. O dinamismo industrial da empresa rapidamente produziu resultados notáveis. Em 1838, a Schneider, Frères & Cie. fabricou a primeira locomotiva a vapor construída em território francês, denominada La Gironde, destinada à Compagnie du Chemin de Fer Paris–Versailles.  Além da fabricação de locomotivas, a empresa passou a produzir trilhos, pontes metálicas e estruturas destinadas a estações ferroviárias, atendendo à crescente demanda por infraestrutura ferroviária tanto na França quanto em outros países europeus. Ao longo das décadas seguintes, seus produtos seriam exportados para mercados internacionais, incluindo a Itália, a Espanha e o Império Russo. Paralelamente, a empresa investiu em uma estratégia de integração vertical de sua cadeia produtiva.

Esse modelo permitia controlar todas as etapas do processo industrial, desde a extração de matérias-primas até a fabricação final dos produtos. Para isso, foram adquiridas minas de carvão no bassin de Blanzy e depósitos de minério de ferro, garantindo segurança no abastecimento das usinas siderúrgicas. Outro fator importante para o sucesso da empresa foi a criação de modernos ateliês de mecânica e montagem em Le Creusot, apoiados por escritórios internos de engenharia e projetos. Essa estrutura permitiu à companhia desenvolver suas próprias máquinas-ferramentas e soluções industriais, um diferencial tecnológico. Em 1845, a trajetória da empresa sofreu um duro revés com a morte prematura de Adolphe Schneider, vítima de um acidente a cavalo. A perda de uma das figuras centrais do empreendimento representou um momento delicado para a jovem companhia. A partir de então, seu irmão, Joseph Eugène Schneider, assumiu integralmente a condução dos negócios, reorganizando a estrutura administrativa e renomeando a empresa como Schneider & Cie. Apesar das dificuldades iniciais, Eugène demonstrou notável capacidade de liderança e visão estratégica, garantindo não apenas a continuidade das atividades industriais em Le Creusot, mas também ampliando progressivamente o alcance econômico e político da companhia. Sob sua direção, consolidou-se como um dos mais importantes grupos industriais da França ao longo do século XIX. A empresa diversificou suas atividades, expandindo-se para setores estratégicos como engenharia pesada, construção naval e, posteriormente, a indústria de armamentos. Um dos momentos decisivos para essa transformação ocorreu após a derrota francesa na Guerra Franco-Prussiana. O conflito evidenciou a superioridade tecnológica da artilharia prussiana, especialmente no uso de canhões de aço produzidos pela indústria alemã. Diante desse cenário, o governo francês passou a incentivar o fortalecimento de sua própria base industrial militar, estimulando empresas nacionais a investir no desenvolvimento de novos armamentos. A Schneider & Cie. respondeu prontamente a essa demanda estratégica. A empresa passou a produzir canhões, blindagens e ligas metálicas avançadas, incluindo o aço ao níquel, material particularmente adequado para aplicações militares e construção naval. Paralelamente, o grupo expandiu suas atividades no setor naval, participando da produção de navios de guerra e componentes estruturais destinados a grandes estaleiros.  No campo ferroviário, a Schneider & Cie. manteve igualmente posição de destaque, exportando locomotivas e equipamentos para diversos mercados internacionais. Entre os projetos de maior relevância esteve sua participação no fornecimento de material ferroviário para a construção da Ferrovia Transiberiana, no Império Russo, uma das mais ambiciosas obras de infraestrutura do final do século XIX. A capacidade produtiva da empresa também foi ampliada com a aquisição, em 1876, de um gigantesco marteau-pilon de 100 toneladas. Esse equipamento permitia o forjamento de peças metálicas de grande porte, como eixos de navios, componentes estruturais e tubos de artilharia pesada, reforçando a posição da empresa como uma das mais avançadas siderúrgicas da Europa. 
No plano social, Eugène Schneider implementou em Le Creusot uma política de caráter paternalista voltada para a organização da vida operária. No auge do desenvolvimento industrial da cidade, a empresa chegou a empregar cerca de 10 mil trabalhadores.  Após a morte de Eugène Schneider, em 1875, a direção da empresa foi assumida por seu filho, Henri Schneider, e durante sua gestão, foram introduzidos processos siderúrgicos mais avançados, como os convertidores,  processo Bessemer e os fornos Processo Siemens-Martin, que permitiam produzir aço em maior escala e com qualidade superior Aproveitando a legislação francesa de 1884, que autorizava a exportação de material militar, a empresa. passou a fornecer artilharia para diversos países. Entre os modelos estavam os canhões Long Tom, desenvolvidos a partir de projetos da escola técnica associada ao engenheiro Gustave Canet. Essas peças foram empregadas por diferentes exércitos estrangeiros, incluindo forças do Transvaal, onde demonstraram grande eficácia em combates contra tropas britânicas no sul da África. Foi justamente nesse contexto, após o término da Guerra Franco-Prussiana, que o setor militar passou a ocupar um papel cada vez mais central nas atividades da corporação Schneider–Creusot. Sob a liderança de Henri Schneider, foram estabelecidas linhas industriais dedicadas ao desenvolvimento e à produção de uma ampla variedade de canhões e morteiros, consolidando definitivamente a empresa como um dos principais polos de engenharia de artilharia. Esse processo de expansão atingiu um novo patamar em 1897, quando a empresa adquiriu as instalações das Forges et Chantiers de la Méditerranée, localizadas na cidade de Le Havre. A incorporação dessas oficinas especializadas em engenharia naval e produção de armamentos trouxe para o grupo uma equipe altamente qualificada de engenheiros e técnicos, além de conhecimentos avançados no desenvolvimento de sistemas de artilharia moderna, fortalecendo ainda mais a posição da empresa no cenário internacional. Ao incorporar aos seus quadros toda a equipe de engenheiros e projetistas o grupo absorveria um amplo know how neste segmento, se destacando principalmente a tecnologia de produção de canhões sem recuo.  Neste momento o principal trunfo da corporação era proporcionado pela atuação do engenheiro Gustave Canet, que ao longo dos anos alçaria os postos de diretor de artilharia no Creusot e diretor honorário da Artilharia de Schneider. Ele seria o principal responsável pelo desenvolvimento da família de canhões Canet Schneider, produzida em uma variada gama de calibres, para as mais diversas aplicações em âmbito terrestre e naval.  No início do ano de 1909 a Schneider Fréres & Cie seria procurada pelo governo imperial russo, visando o desenvolvimento de um obuseiro pesado de campanha, resultando na proposta de uma arma de  152 mm, que seria aceito, recebendo a designação de Modelo 1910  Nos anos seguintes, este projeto passaria a despertar o interesse por parte do Exército Frances (Armée de Terre), levando a criação de uma versão customizada, contando agora com o calibre padrão de 155 mm, passando a ser denominado como "Canon de 155 C modèle 1915 Schneider". 

Este obuseiro apresentava uma concepção convencional envolvendo um sistema de recuo hidropneumático montado sob o cano de disparo e um escudo de arma para proteger a tripulação. Todo o conjunto estava disposto em uma carruagem com rodas de madeira. Empregava ainda uma culatra de parafuso interrompido com munição de carga separada; o projétil sendo carregado primeiro seguido pela quantidade adequada de propelente em uma caixa de cartucho de latão. Uma bandeja de carregamento seria articulada ao lado esquerdo do berço, e seria colocado na posição após a culatra se abrir para segurar o projétil antes de ser empurrado para dentro da câmara, mantendo o projetil na posição até que pudesse ser acionado.  A peça seria tracionada por um conjunto de oito cavalos mediante o acoplamento de um suporte com duas rodas. Diferentemente do canhão Modelo 1910 russo, contava com um cano mais longo e maior velocidade de saída, projetando um alcance de 2.500 metros, porém apresentava um peso extra na ordem de 1.100 kg . Rapidamente este modelo se tornaria a principal arma de artilharia pesada de campanha das forças francesas, em seguida contratos de exportação seriam firmados, com o governo espanhol com os primeiros canhões sendo entregues em 1917, e posteriormente em novembro declarada padrão para uso do Exército Espanhol (Ejército de Tierra), embora seu primeiro uso militar tenha sido na África em 1921, durante o assalto a Turiet Hamed.  Curiosamente este armamento seria largamente operado pelos dois lados durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939).  Operacionalmente o Exército Frances (Armée de Terre) preferia o emprego cargas ensacadas para suas munições em detrimento aos cartuchos de latão usados pelo Canon de 155 C modèle 1915, principalmente em função do custo de produção e alta necessidade de latão (um material estratégico) utilizado neste processo. Esta exigência se mostraria um problemas real durante o início da Primeira Guerra Mundial, dado o grande número de projéteis gastos. Neste contexto seria solicitado a Schneider Fréres & Cie um redesenho de seu projeto original , permitindo assim o uso de pólvora ensacada. A empresa atenderia a esta demanda passando a fazer uso de um novo obturador, adaptando um a nova culatra para o cano original. Muitas armas armas tiveram suas bandejas de carregamento removidas porque isso diminuiu a taxa de tiro, uma bandeja portátil foi usada pelos carregadores.  No entanto este processo enfrentaria problemas de ordem técnica, com a arma que receberia a designação de Canon de 155 C modèle 1917 Schneider, sendo colocada em serviço somente no final de 1916. Ao todo até o termino do conflito 3.000 canhões deste seriam entregues, com muitas centenas do Canon de 155 C modèle 1915 sendo atualizados para o modelo 1917.  No decorrer da Primeira Guerra Mundial, este modelo seria adotado como obuseiro padrão pela Força Expedicionária Americana - AEF, sendo adquiridos maios de 1.500 peças. O último tiro americano disparado durante o conflito seria realizado pelo obuseiro  chamado "Calamity Jane", do 11º Regimento de Artilharia de Campanha. Seriam adquiridos os diretos  não exclusivos sobre o design e projetos, resultando na produção local. Estes diferiam um pouco dos modelos franceses, apresentando um escudo reto em vez de curvo, pneus de borracha em vez de aço em rodas raiadas de madeira, uma pá giratória e um mecanismo de disparo ligeiramente diferente. 
Contratos de exportação seriam firmados, com centenas de peças sendo incorporadas as forças terrestres da Grécia, Romênia, Polônia, Portugal, Espanha, Finlândia, Argentina, Iugoslávia, Brasil, Sérvia e Rússia. Ao longo da década de 1920 os investimentos mundiais destinados a defesa permaneceriam estagnados, não havendo neste período nenhum desenvolvimento significativo de novas armas de artilharia desta categoria, com os canhões Schneider Modelos 1917 e 1918 se mantendo como arma padrão em diversos exércitos europeus. Nos Estados Unidos, entre os anos de 1934 e 1936, uma grande parte destas peças seriam modernizadas, recebendo vagões de transporte equipados com freios a ar, novas rodas metálicas e pneus pneumáticos de borracha para tração de motores de alta velocidade, adaptando os assim a tração mecanizada de alta velocidade.  Este programa permitiria que estes canhões  permanecessem como arma padrão de artilharia, até começarem a ser substituídos pelos novos obuseiros M-1 de 155 mm a partir do final de 1942.  Com a queda da França em junho de 1940, um número significativo de canhões Schneider M-1917 e M-1918 foi capturado pelo Exército Alemão (Wehrmacht).  Essas peças foram rapidamente incorporadas ao serviço ativo, recebendo a designação alemã SFH 414 15,5 cm, sendo empregados  em diversas frentes. Na Muralha do Atlântico, os canhões Schneider reforçaram posições defensivas ao longo do litoral francês. Além disso, foram alocados a divisões de infantaria de segunda linha estacionadas na França ocupada e empregados na Campanha do Norte da África, onde apoiaram as forças do Afrika Korps. Durante a Guerra de Continuação (1941-1944),  cerca de 160 obuses Schneider foram fornecidos ao Exército Finlandês pelas forças alemãs. Essas peças foram intensivamente utilizadas contra as tropas soviéticas, especialmente em operações defensivas na Frente da Carélia. A capacidade dos M-1917 e M-1918 de operar em terrenos acidentados e condições climáticas adversas, como os rigorosos invernos finlandeses, tornou-os valiosos.  O Exército Real Italiano (Regio Esercito Italiano) também se beneficiou da captura de canhões Schneider durante o conflito. Durante a Batalha da França em 1940, os italianos tomaram oito peças, e, posteriormente, na Campanha dos Balcãs, em outubro de 1940, capturaram 96 obuses na Grécia. Essas armas foram redesignadas como Obice da 155/14 PB e integradas ao arsenal italiano, sendo empregadas em operações nos Balcãs e no Norte da África. O Exército dos Estados Unidos (U.S. Army) fez uso limitado dos obuses Schneider M-1917 e M-1918 nas fases iniciais da Segunda Guerra Mundial, sendo   empregadas em combates iniciais, com destaque para a invasão japonesa das Filipinas . Durante a defesa de Bataan, o 301º Regimento de Artilharia do Exército Colonial Filipino, equipado com obuses Schneider, utilizou essas peças contra as forças japonesas, marcando seu batismo de fogo no conflito. Cerca de cem obuseiros M-1918 modernizados seriam fornecidos ao Reino Unido sob o programa Lend-Lease Act Bill (Lei de Empréstimos e Arrendamentos), passando a ser empregados no final de 1941 no teatro de operações do norte da África. Após o término do conflito, muitos destes canhões permaneceriam em serviço até a década e 1960. Já o Exército Boliviano, receberia em 1976 uma doação de dezesseis obuses do Exército Argentino pertencentes aos modelos Schneider L.15.05 e L.30.05, com estes se mantendo em serviço até o início do século XXI. 

Emprego no Exército Brasileiro.
A artilharia brasileira, enraizada nas lutas coloniais e consolidada após a Independência de 1822, é um pilar da história militar do país, marcada por momentos de bravura, inovação e resiliência. As origens da artilharia brasileira remontam ao período colonial, quando brasileiros se mobilizaram em conflitos como as Batalhas de Guararapes, enfrentando forças holandesas em Pernambuco com táticas rudimentares, mas corajosas. Após a Independência, em 1822, a artilharia de campanha começou a se estruturar como uma arma organizada, ganhando prestígio no Império do Brasil. Diferentemente da infantaria e da cavalaria, que exigiam menos anos de formação, a artilharia demandava treinamento completo na Academia Militar do Império, refletindo sua complexidade técnica. Os artilheiros, muitas vezes jovens oficiais, dedicavam-se a dominar cálculos balísticos e manobras táticas, forjando uma tradição de excelência que marcaria gerações. O auge desse período foi a Guerra da Tríplice Aliança (1864-1870), onde a artilharia brasileira, sob o comando do Marechal Emílio Luís Mallet, se destacou na Batalha de Tuiuti (1866), a maior batalha campal da América do Sul. Apelidada de “Artilharia Revólver” por sua precisão e rapidez, a força brasileira, protegida por um fosso tático inovador, resistiu a ataques paraguaios com uma determinação eternizada na frase de Mallet: “Eles que venham! Por aqui não passam!”. Nascido na França em 1801 e naturalizado brasileiro, Mallet comandou com destreza, sendo promovido a brigadeiro por mérito e agraciado com o título de Barão de Itapevi em 1878, ascendendo a marechal em 1885. Sua liderança transformou a artilharia em um símbolo de orgulho nacional, inspirando gerações de artilheiros. A influência da Friedrich Krupp AG no Brasil começou em 1872, com a aquisição dos primeiros canhões de campanha de 75 mm, destinados aos Regimentos de Artilharia a Cavalo. Essas peças, fabricadas em Essen, Alemanha, representavam o auge da tecnologia bélica, superando os canhões franceses La Hitte, que até então equipavam o arsenal brasileiro. Na década de 1880, o Exército Imperial recebeu mais três dezenas de canhões Krupp 75 mm Modelo 1895, recomendados pelo Conde d’Eu, Comandante Geral da Artilharia e presidente da Comissão de Melhoramento de Material do Exército. Como genro do Imperador Dom Pedro II, o Conde d’Eu desempenhava um papel central como conselheiro militar, defendendo a superioridade dos canhões alemães, que alcançavam até 12.000 metros, uma melhoria significativa em relação aos modelos anteriores. A adoção em larga escala dos canhões Krupp marcou uma virada na modernização do Exército Brasileiro, recuperando o potencial militar após anos de estagnação. Para os artilheiros, operar essas armas era um desafio que exigia precisão e treinamento. Em exercícios nos campos de treinamento do Rio de Janeiro, equipes de cinco a sete homens carregavam projéteis de 6,5 kg, ajustavam sistemas de mira e disparavam sob o calor carioca, fortalecendo a camaradagem. Ironicamente, os canhões recomendados pelo Conde d’Eu foram usados contra uma rebelião monarquista na Guerra de Canudos (1896-1897), onde provaram sua eficácia em combates reais, apesar das condições adversas do sertão baiano.

No início do século XX, o Exército Brasileiro enfrentava desafios significativos decorrentes da obsolescência de seus armamentos e doutrinas militares. As limitações técnicas haviam sido expostas durante a Guerra da Tríplice Aliança (1864-1870), o maior conflito da América do Sul, e confirmadas na Campanha de Canudos (1896-1897), que revelou a inadequação do arsenal brasileiro frente às demandas de combates modernos. Os canhões Krupp de 75 mm, adquiridos em 1872 e 1895, embora inovadores em sua época, já não acompanhavam os avanços tecnológicos da artilharia global, como os sistemas de recuo hidropneumático e a maior mobilidade exigida pelas táticas contemporâneas. Este cenário refletia não apenas a ausência de uma indústria bélica nacional, mas também a dependência de importações e a necessidade urgente de modernização para alinhar o Brasil às potências militares da época. A transformação do Exército Brasileiro ganhou impulso com a liderança de figuras visionárias, como os Marechais João Nepomuceno de Medeiros Mallet, Francisco de Paula Argolo e, sobretudo, Hermes da Fonseca, que, com o apoio do Barão do Rio Branco, então Ministro das Relações Exteriores, impulsionaram a chamada Reforma Hermes (1900-1908). Este processo de reestruturação, conduzido durante o governo de Rodrigues Alves e intensificado sob a presidência de Afonso Pena, buscava reposicionar o Exército como uma força moderna, capaz de responder aos desafios estratégicos do novo século. Inspirado pelo modelo do Exército Prussiano, particularmente pelo sistema de Estado-Maior desenvolvido por Helmuth von Moltke, Hermes da Fonseca defendia a necessidade de equipar o Brasil com armamentos de ponta e adotar uma organização militar baseada na disciplina, na eficiência e na inovação tecnológica. A Reforma Hermes incluiu a reorganização territorial do país, com a divisão em 21 regiões para alistamento militar e 13 para inspeção, além da criação e regulamentação do Estado-Maior do Exército, um órgão central para planejamento estratégico e coordenação operacional. Essas medidas visavam não apenas modernizar a estrutura militar, mas também fortalecer a soberania nacional em um contexto de crescente influência geopolítica do Brasil na América do Sul. Reconhecendo a inexistência de uma indústria bélica nacional capaz de suprir as necessidades do Exército, Hermes da Fonseca organizou, em agosto de 1908, uma missão militar à Europa, com destino à Alemanha e à França, dois dos principais centros de tecnologia militar da época. A missão, composta por oficiais de alto escalão, tinha como objetivo identificar fornecedores de armamentos modernos e estabelecer parcerias para a transferência de conhecimentos técnicos e profissionais, essenciais para a capacitação do Exército Brasileiro. Os resultados dessa missão foram expressivos, culminando na aquisição de um vasto arsenal de equipamentos destinados a renovar as capacidades da infantaria, cavalaria e artilharia. Para a infantaria, foram adquiridos 400.000 fuzis Mauser de calibre 7 mm, fabricados na Alemanha, reconhecidos por sua precisão e confiabilidade. A cavalaria foi equipada com 10.000 lanças Ehrhardt, 20.000 espadas e 10.000 mosquetões, adaptados às táticas de combate montado. 
O início da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) marcou uma transformação profunda na arte da guerra, com avanços significativos em tecnologia de armamentos e doutrinas militares. A introdução de tanques, aviação militar, artilharia pesada e táticas de guerra de trincheiras elevou os padrões da guerra moderna, expondo a obsolescência de muitas forças armadas ao redor do mundo. No Brasil, o Exército, apesar dos avanços promovidos pela Reforma Hermes (1900-1908), viu-se rapidamente superado a partir de 1918, tanto em termos de equipamentos quanto de organização doutrinária. Os canhões Schneider-Canet de 75 mm e Krupp de mesmo calibre, adquiridos no início do século XX, embora robustos, não acompanhavam as inovações tecnológicas, como os sistemas de recuo mais avançados e a mobilidade exigida pelas novas táticas de combate. Essa obsolescência era agravada pelo contexto geopolítico da América do Sul, onde a Argentina experimentava um rápido desenvolvimento econômico e militar, emergindo como a principal ameaça hipotética ao Brasil. A rivalidade histórico-estratégica entre os dois países, intensificada desde a Guerra da Tríplice Aliança (1864-1870), motivou o governo brasileiro a buscar soluções urgentes para reequilibrar a balança militar na região. A partir do segundo semestre de 1918, sob a presidência de Delfim Moreira e com o apoio do Ministro da Guerra, General Alberto Cardoso de Aguiar, o Brasil iniciou esforços para implementar um novo ciclo de modernização militar, visando recuperar sua capacidade defensiva e projeção regional. Reconhecendo a necessidade de expertise externa para conduzir esse processo, o governo brasileiro abriu negociações com a França, uma potência militar reconhecida por sua avançada indústria bélica e doutrina de combate, especialmente após seu desempenho na Primeira Guerra Mundial. Em 1918, diálogos avançados foram conduzidos em Paris entre o adido militar brasileiro na França, Coronel Malan d’Angrogne, e o Ministro da Guerra francês, Georges Clemenceau, uma figura central na vitória aliada. Paralelamente, o General Maurice Gamelin, que mais tarde se tornaria comandante-chefe do Exército Francês, foi enviado ao Brasil em uma missão de avaliação. Sua tarefa era analisar o estado das Forças Armadas Brasileiras, identificando deficiências em equipamentos, treinamento e organização, para embasar uma proposta francesa de cooperação. As negociações culminaram na assinatura de um contrato em Paris, ratificado meses depois no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, em 1919, durante o governo de Epitácio Pessoa. Este acordo criou oficialmente a Missão Militar Francesa, um marco na história militar brasileira. Pelo contrato, oficiais franceses assumiriam, por quatro anos, o comando de instituições-chave, como a Escola de Estado-Maior (EEM), a Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO), a Escola de Intendência e a Escola de Veterinária.  Em contrapartida, o Brasil comprometeu-se a priorizar a indústria militar francesa em suas aquisições de armas e equipamentos, desde que as propostas francesas fossem competitivas em preço e prazo de entrega em relação a outros fornecedores internacionais.  A chegada da Missão Militar Francesa, liderada por oficiais experientes como o General Louis Gillet, marcou o início de uma transformação profunda no Exército Brasileiro. 

A partir de 1921, novos regulamentos foram adotados, alinhados às doutrinas francesas, incluindo normas para a Direção e Emprego das Grandes Unidades, o Exercício e Emprego da Artilharia e o Serviço de Estado-Maior em Campanha. Essas mudanças modernizaram a organização tática e logística, introduzindo conceitos de mobilidade, coordenação interarmas e planejamento estratégico, inspirados nas lições da Primeira Guerra Mundial.  As avaliações iniciais dos oficiais franceses identificaram a urgência de atualizar o arsenal brasileiro, com ênfase na substituição de equipamentos obsoletos. Uma concorrência internacional foi aberta, e, conforme estipulado no contrato, as propostas da indústria francesa, lideradas pela Schneider & Cie., foram priorizadas devido a custos competitivos e qualidade técnica. Entre os armamentos adquiridos, destacaram-se: Canhões Schneider C-50 1902 de 150 mm: Utilizados em aplicações terrestres e ferroviárias, reforçando a artilharia de costa e de campanha. Canhões Schneider 75/28 Modelo 1906 de 75 mm: Peças de tiro rápido, ideais para apoio tático em operações móveis. Canhões Schneider C-18-6 Modelo 1919 de 75 mm: Modelos de montanha, leves e adaptados para terrenos acidentados. Obuses Schneider C-17S de 155 mm: Peças pesadas, destinadas a equipar unidades de artilharia de fronteira, com entregas realizadas em 1923. Os obuses Schneider C-17S de 155 mm, projetados para atender às necessidades de artilharia pesada, foram adaptados ao contexto do Exército Brasileiro, que na década de 1920 era predominantemente hipomóvel, ou seja, dependente de tração animal. Essas peças foram entregues com rodas de madeira, adequadas ao transporte por cavalos e muares, mas que limitavam sua mobilidade em terrenos irregulares. Destinados às unidades de artilharia de fronteira, os C-17S ofereciam maior poder de fogo em comparação com os canhões de montanha Schneider-Canet de 75 mm, que eram leves e facilmente transportáveis, mas apresentavam restrições devido ao seu peso e dimensões. Seguindo o padrão francês, as baterias de artilharia equipadas com os Schneider C-17S eram organizadas com: Quatro canhões de 155 mm por bateria. Quatro carros de munição, cada um transportando 38 munições por canhão, complementados por 60 unidades adicionais em carros de apoio. Um carro de apoio com ferramental para manutenção. Um carro-forja, responsável por reparos em campanha, incluindo consertos nas rodas de madeira e nos carros de tração. Cada bateria era operada por um efetivo de três oficiais, dez sargentos e 121 praças, mobilizando 39 cavalos e 96 muares para a tração das peças, munições e pessoal.  Em comparação com os canhões de montanha Schneider-Canet 75 mm Mountain Gun, notabilizados por sua leveza e relativa facilidade de transporte em terrenos acidentados, os obuses Schneider C-17S 155 mm apresentavam desafios operacionais mais significativos. Seu elevado peso, associado ao uso de rodas de madeira  características comuns à artilharia pesada do início do século XX restringia sensivelmente sua mobilidade. Em consequência, essas peças mostravam-se mais adequadas ao emprego em posições defensivas relativamente fixas ou em áreas de terreno regular, como nas extensas regiões de fronteira do território brasileiro. 
Ao todo, oitenta unidades do modelo seriam incorporadas ao Exército Brasileiro. Por se tratar de sistemas de artilharia considerados modernos para a época, apresentaram desempenho operacional satisfatório e, a exemplo dos canhões Schneider-Canet de 75 mm, estiveram presentes em diversos episódios de conflito interno que marcaram o país nas primeiras décadas do século XX. Essas peças de artilharia participaram, direta ou indiretamente, de acontecimentos como a Revolução de 1930 e a Revolução Constitucionalista de 1932, sendo neste último conflito empregadas por forças em ambos os lados da contenda. Tal presença evidencia o papel central que esses obuseiros desempenharam na estrutura de artilharia do Exército Brasileiro durante o período entre guerras. Os obuses Schneider C-17S de 155 mm permaneceriam como um dos principais meios de artilharia pesada do país até o final da década de 1930. A partir de 1940, entretanto, iniciou-se um processo gradual de modernização com a introdução dos canhões britânicos Vickers Armstrong 152.4 mm Gun, cujo principal avanço residia no alcance significativamente superior  cerca de 18.400 metros  aliado a uma cadência de tiro de aproximadamente três disparos por minuto. Esse desempenho superava amplamente o das peças então em serviço, cujo alcance máximo situava-se em torno de 9.000 metros. No ano seguinte, esse processo de modernização seria reforçado com a chegada dos canhões alemães Krupp Flak 88 mm C/56 Modelo 18, amplamente reconhecidos por sua versatilidade e eficiência. Diferentemente das peças mais antigas, esses sistemas já eram concebidos para tração motorizada, passando a equipar unidades de artilharia de costa e defesa antiaérea do Exército Brasileiro. A modernização do parque de artilharia nacional ganharia novo impulso a partir de 1942, quando o Brasil passou a integrar o programa norte-americano Lend-Lease Act. Por meio desse acordo, o país recebeu, entre diversos equipamentos militares, os obuseiros norte-americanos M1 155 mm Howitzer, que representavam um padrão mais avançado de artilharia de campanha. Durante a Segunda Guerra Mundial, embora já não representassem o estado da arte da artilharia moderna, os obuses Schneider C-17S de 155 mm continuaram a desempenhar papel relevante em manobras e exercícios de defesa, equipando especialmente regimentos de artilharia a cavalo. Com a gradual ampliação da motorização  a partir do final da década de 1930, essas peças passaram por um processo de modernização realizado nos arsenais de guerra localizados no Rio de Janeiro e em General Câmara, no Rio Grande do Sul. Nessas instalações, os obuseiros receberam novas rodas metálicas com pneus, substituindo as antigas rodas de madeira, o que possibilitou sua tração por caminhões alemães produzidos pela empresa Henschel & Sohn. Graças a essas adaptações, os obuses Schneider C-17S permaneceram em serviço por várias décadas, integrando o sistema de artilharia do Exército Brasileiro até a segunda metade da década de 1960, quando foram finalmente retirados de operação. Algumas dessas peças foram preservadas, permanecendo atualmente como importantes testemunhos materiais da evolução histórica da artilharia no Brasil.

Em Escala.
Para recriar o canhão Schneider C-17S de 155 mm em escala, foi selecionado o  kit produzido pela Das Werk na escala 1/35. Este modelo destaca-se pela excepcional qualidade de seus componentes, incluindo um conjunto de peças em photo-etched que reproduzem com precisão os detalhes técnicos do obuseiro, como o sistema hidropneumático de recuo, o berço de aço cromo-níquel e os cilindros do freio e recuperador. 
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura com que estes canhões foram recebidos no pais em 1923, e seguem o esquema de camuflagem tática aplicada aos canhões Schneider  C-17S 155 mm empregados pela Força Expedicionária Americana - AEF durante a Primeira Guerra Mundial. No Brasil estas peças receberiam posteriormente uma pintura total em verde oliva, a exemplo dos canhões norte-americanos recebidos durante a Segunda Guerra Mundial. 

Bibliografia: 
- Schneider Frères et Compagnie - https://www.lesechos.fr
- Schneider-Canet - https://pt.wikipedia.org/wiki/Schneider-Canet
- Missão Militar Francesa por Rodrigo N. Araujo -  https://cpdoc.fgv.br/
- Arquivos do Museu Militar de Conde de Linhares – Rio de Janeiro

CV3-35 Ansaldo II (Carro de Assalto)


História e Desenvolvimento.
A Gio. Società Giovanni Ansaldo & Compagnia, uma das mais emblemáticas indústrias italianas do período moderno, teve sua origem no século XIX, fundada por um grupo de proeminentes empreendedores genoveses — Raffaele Rubattino, Giacomo Filippo Penco, Carlo Bombrini e Giovanni Ansaldo. Este último, personalidade de destacada relevância histórica, imprimiu à empresa uma visão inovadora e empreendedora que viria a definir sua trajetória nas décadas seguintes. De formação humanista e com interesses que se estendiam das artes e ciências à engenharia industrial, Ansaldo tornou-se um verdadeiro símbolo do espírito de modernização que caracterizava a Itália unificada e em processo de industrialização. Nos primeiros anos de existência, até o final do século XIX, a Gio. Ansaldo & C. concentrou suas atividades no setor ferroviário, dedicando-se à fabricação e ao reparo de locomotivas, vagões, caldeiras, guindastes e equipamentos metalúrgicos. Essa especialização refletia as necessidades de uma Itália em transformação, cujo desenvolvimento econômico dependia fortemente da expansão da malha ferroviária e da modernização de sua infraestrutura. Durante esse período, a empresa conheceu um crescimento expressivo, alcançando um contingente de dez mil empregados distribuídos em sete unidades fabris, o que a posicionou entre as maiores organizações industriais do país. Com o avanço do século XX, a companhia iniciou uma fase de diversificação de atividades, expandindo-se para os setores de construção naval e obras mecânicas de grande porte. Essa estratégia visava reduzir a dependência do setor ferroviário e consolidar sua presença em áreas estratégicas para o desenvolvimento nacional italiano. Em 1904, a empresa passaria por um momento de inflexão em sua história, ao ser adquirida por Ferdinando Maria Perrone, figura influente da indústria e das finanças italianas. Sob sua liderança — e posteriormente com o apoio de seus filhos, Mário e Pio Perrone —, a Gio. Ansaldo & C. entrou em um processo de reorganização e modernização empresarial, pautado pela busca da autossuficiência industrial. Para tanto, implementou-se uma ampla integração vertical, abrangendo todas as etapas do processo produtivo, desde a siderurgia básica até a fabricação de armamentos e material bélico. Essa estratégia transformou a Ansaldo em um verdadeiro conglomerado industrial, capaz de competir com os maiores grupos europeus da época. O início da Primeira Guerra Mundial (1914–1918) representou uma virada decisiva para a empresa. Embora a Itália tenha inicialmente mantido uma posição de neutralidade, os dirigentes da Ansaldo desempenharam papel ativo na defesa da entrada do país no conflito. Por meio de lobby político e financiamento de grupos nacionalistas e beligerantes, entre os quais se destacava o movimento protofascista liderado por Benito Mussolini, a companhia alinhou-se aos interesses expansionistas e industriais da elite italiana. Com a entrada efetiva da Itália na guerra, a Gio. Ansaldo & C. vivenciou um surto de prosperidade sem precedentes. A demanda por armamentos, locomotivas, motores e embarcações impulsionou exponencialmente seu crescimento. O valor de mercado da empresa, que em 1914 era de cerca de 30 milhões de liras, ultrapassou 500 milhões de liras ao término do conflito — um aumento de mais de 1.500% em apenas quatro anos.

No auge de sua expansão, durante o verão de 1918, a Ansaldo empregava aproximadamente 80 mil trabalhadores em dezenas de complexos industriais distribuídos por toda a Itália. Nesse período, o grupo controlava uma vasta rede de subsidiárias e empresas associadas, entre as quais se destacavam a A. Cerpelli & C., Banca Industriale Italiana, Cantieri Officine Savoia, Dynamit Nobel, Gio. Fossati & C., Lloyd Italico, Nazionale di Navigazione, Pomilio, Società Idroelettrica Negri e Transatlantica Italiana, consolidando-se como um dos maiores conglomerados industriais e financeiros da Europa. Entretanto, o rápido crescimento, sustentado sobretudo pela economia de guerra, revelou-se insustentável no período pós-conflito. Já a partir de 1910, a empresa enfrentava tensões financeiras estruturais, especialmente em sua relação com o Banco Italiano di Sconto, seu principal credor. Com o fim da guerra e o colapso da demanda militar, essas fragilidades tornaram-se evidentes, levando a Gio. Ansaldo & C. a uma crise de liquidez e endividamento, que ameaçou a continuidade de suas operações e marcou o início de um longo processo de reestruturação e declínio. Em 1921, a família Perrone retirou-se da direção da Gio. Ansaldo & Compagnia, deixando para trás uma das maiores indústrias italianas em meio a uma grave crise financeira que ameaçava sua solvência. Para evitar a falência, formou-se um consórcio liderado pelo Banco Italiana di Sconto, que assumiu a missão de reestruturar a empresa e preservar um dos pilares da indústria nacional. Durante a década de 1920, a Ansaldo adotou uma postura mais conservadora, marcada pela retração de suas operações e pela busca de estabilidade econômica. Embora o setor eletromecânico tenha apresentado sinais modestos de crescimento, o conjunto da companhia permaneceu fragilizado, lutando para recuperar o dinamismo e a rentabilidade do período anterior à Primeira Guerra Mundial. A crise estrutural que assolava a economia italiana — agravada pela instabilidade política e pelas transformações do período entre guerras — levou, na década de 1930, à intervenção do Istituto per la Ricostruzione Industriale (IRI), criado pelo governo para salvar conglomerados estratégicos em dificuldades. Sob a administração do IRI, a Gio. Ansaldo & C. viveu um processo de revitalização, impulsionado pelo programa de rearmamento e pela política autárquica do regime fascista, que visava à autossuficiência nacional em setores essenciais, especialmente o militar e o energético. Nesse contexto, a fábrica Ansaldo de Gênova recebeu uma importante encomenda do Regio Esercito Italiano (Exército Real Italiano): o desenvolvimento de um carro de combate leve sobre lagartas, que combinasse mobilidade, simplicidade construtiva e baixo custo operacional. O projeto foi inspirado no bem-sucedido Carden-Loyd Mk VI, blindado britânico projetado pela Vickers-Armstrongs no início da década de 1920 para o Exército Real Britânico. Esse veículo multifuncional era utilizado tanto para tracionar peças de artilharia quanto para realizar missões de reconhecimento, sendo considerado um dos primeiros tanques leves modernos.
Os engenheiros italianos da Ansaldo e da Fiat Automobiles S.p.A. trabalharam em conjunto na adaptação do modelo britânico às necessidades locais. Em janeiro de 1929, o governo italiano celebrou um contrato de licença com a Vickers-Armstrongs, autorizando a produção nacional do Carden-Loyd Mk VI. As unidades fabricadas na Itália receberam modificações, como a instalação de metralhadoras aeronáuticas de 8 mm e, em alguns casos, lança-chamas Fiat OCI, resultando em um veículo versátil e adequado às exigências do exército. No serviço italiano, o modelo foi designado CV-29, sigla de Carro Veloce 1929, refletindo sua natureza de “tanque rápido” e o ano de introdução em serviço. Durante os primeiros anos de operação, o CV-29 foi amplamente elogiado por suas qualidades técnicas — especialmente sua agilidade, leveza e confiabilidade —, tornando-se uma referência no segmento de veículos blindados leves. O sucesso do projeto italiano ultrapassou fronteiras. Mais de 450 unidades derivadas do conceito original foram exportadas para mais de vinte países, consolidando a reputação técnica da Ansaldo no mercado internacional. O modelo também exerceu forte influência sobre o desenvolvimento de outros carros de combate leves, como o japonês Type 92 Jyū-Sokosha, o polonês TKS e o italiano CV3-33, evidenciando o papel da indústria bélica italiana como vetor de modernização tecnológica no período entre guerras. Com o propósito de racionalizar custos e acelerar o desenvolvimento tecnológico, o novo modelo de carro blindado leve foi projetado tomando como base o bem-sucedido Fiat CV-29, resultando em uma colaboração estratégica entre as equipes de engenharia da Fiat Automobiles S.p.A. e da Gio. Ansaldo & Compagnia. Essa parceria representou um marco importante na integração da indústria bélica italiana, permitindo a conjugação de recursos técnicos, experiência produtiva e capacidade industrial, em consonância com as diretrizes de autossuficiência estabelecidas pelo regime fascista. Em maio de 1933, o primeiro protótipo funcional do novo blindado foi concluído e submetido a um rigoroso programa de testes e avaliações de campo. Os resultados revelaram desempenho satisfatório em termos de mobilidade, confiabilidade e potência de fogo, levando o governo fascista italiano a firmar um contrato inicial para a aquisição de 300 unidades. A produção foi dividida entre as duas empresas: a Fiat, em sua planta de Turim, e a Ansaldo, em suas instalações de Gênova. O veículo recebeu a designação oficial de Fiat-Ansaldo CV-33, sendo incorporado ao Regio Esercito Italiano (Exército Real Italiano) como o principal carro leve de reconhecimento da década. Pouco tempo depois, atendendo às solicitações de oficiais do exército e com base nas experiências operacionais iniciais, foi iniciado, em 1934, o desenvolvimento de uma versão aprimorada do modelo. O projeto foi finalizado em 1935, resultando na criação do Tankette CV-35 (Carro Veloce 1935), um veículo de pequeno porte, destinado a missões de reconhecimento, apoio à infantaria e transporte leve de armamento.

O CV-35 possuía tripulação de dois homens — motorista e artilheiro — e destacava-se por suas dimensões compactas (3,15 metros de comprimento, 1,28 metro de altura e 1,40 metro de largura) e peso aproximado de 3.100 kg, características que lhe conferiam excelente mobilidade. Equipado com um motor Fiat-Spa CV3, de 43 cavalos de potência e 2.746 cm³, refrigerado a água, o blindado podia alcançar velocidades de até 42 km/h em estrada e 12 km/h em terrenos acidentados, com autonomia média de 140 km, desempenho notável para um veículo de sua categoria. Entre as principais inovações técnicas, destacavam-se a adoção de chapas de blindagem aparafusadas — substituindo o método tradicional de rebitagem ou soldagem —, que simplificava a manutenção e reduzia custos, e a introdução de metralhadoras gêmeas Fiat Mod. 14/35 de 8 mm, que substituíram as antigas Fiat-Revelli Mod. 1914 de 6,5 mm, proporcionando maior poder de fogo e confiabilidade em combate. Em 1935, foram autorizadas a construção e entrega de cinco unidades pré-série do CV-35, destinadas a um novo ciclo de testes e avaliações operacionais, conduzidos ao longo de quatro meses. Os resultados foram altamente promissores, demonstrando significativa melhoria em desempenho e robustez. O sucesso desses ensaios consolidou o potencial militar e industrial do CV-35, assegurando à Fiat e à Ansaldo uma posição de destaque no emergente complexo industrial de defesa italiano, fortemente apoiado pelo governo de Benito Mussolini. Em 1935, o Comando do Regio Esercito Italiano (Exército Real Italiano) oficializou uma encomenda de 1.300 unidades do carro blindado leve Fiat-Ansaldo CV-35, consolidando o modelo como o principal veículo de reconhecimento e apoio da força terrestre italiana. As entregas iniciaram-se no começo de 1936, em paralelo à assinatura de um contrato complementar com a Gio. Ansaldo & Compagnia, destinado à modernização dos carros Fiat CV-33 já em serviço. Após as atualizações — que incluíram melhorias na blindagem, no sistema de ventilação e na adequação para armamento duplo —, os veículos modernizados receberam a nova designação L3/33, em que “L” significa Leggero (leve). Esses tanques ligeiros, além de sua função de reconhecimento, foram empregados em tarefas de tração de peças de artilharia leve e adaptados em versões lança-chamas, demonstrando a versatilidade e o valor tático do projeto. Os Fiat-Ansaldo CV-35 entraram em serviço ativo ainda em 1935 e tiveram seu batismo de fogo durante a Segunda Guerra Ítalo-Abissínia (1935–1936), conflito que marcou o auge do expansionismo colonial promovido pelo regime de Benito Mussolini. Sob o comando do marechal Emilio De Bono, aproximadamente 200 mil soldados italianos partiram da Eritreia, então colônia italiana, rumo ao território da Abissínia (atual Etiópia), sem declaração formal de guerra. Os CV-35 desempenharam papel crucial no avanço das forças italianas, oferecendo apoio direto à infantaria e contribuindo para o êxito das operações ofensivas em terreno montanhoso e irregular, ainda que dentro de um cenário de guerra assimétrica. Durante a década de 1930, o CV-35 ganhou amplo reconhecimento internacional, sendo exportado para diversos países da Europa, da América Latina e da Ásia, o que o transformou em um dos veículos blindados mais difundidos de sua época. Seu desempenho prático o levou a ser empregado em múltiplos conflitos, refletindo a política italiana de projeção de influência militar por meio da exportação de armamentos.
Um dos episódios mais notáveis de sua carreira internacional ocorreu na Guerra Civil Espanhola, onde o CV-35 foi amplamente utilizado pelo Corpo de Tropas Voluntárias (Corpo Truppe Volontarie, CTV), enviado pela Itália em apoio às forças nacionalistas lideradas por Francisco Franco. Embora inicialmente eficaz contra forças mal equipadas, o CV-35 mostrou-se vulnerável nos combates diretos, sendo frequentemente destruído por contra-ataques de infantaria e canhões antitanque soviéticos de 37 mm, além de superado pelos tanques leves T-26 e BT-5, fornecidos às forças republicanas. Além do teatro espanhol, o CV-35 foi empregado em diversos outros conflitos internacionais, incluindo a Segunda Guerra Sino-Japonesa, a Guerra Eslovaco-Húngara e a Guerra Anglo-Iraquiana , consolidando sua presença global em diferentes frentes. No momento em que a Itália ingressou na Segunda Guerra Mundial, em 10 de junho de 1940, o Regio Esercito dispunha de cerca de 100 unidades do L3/33, organizadas em dois batalhões blindados, enquanto os  CV-35 equipavam as três divisões blindadas italianas, atuando ao lado de carros médios e veículos de apoio mecanizado. Eles também integravam os batalhões de tanques das divisões motorizadas, as esquadras de tanques leves das divisões “Rápidas” (Celere) e uma série de batalhões independentes destacados para operações de apoio direto. Contudo, apesar de sua ampla presença nos teatros de operação do Norte da África, dos Bálcãs e do Mediterrâneo, o CV-35 revelou-se obsoleto já nos primeiros anos do conflito mundial. Sua blindagem delgada, eficaz apenas contra armas leves, mostrou-se incapaz de resistir aos canhões antitanque de 37 mm utilizados pelas forças britânicas e francesas, evidenciando a defasagem tecnológica e doutrinária das forças blindadas italianas diante das exigências do combate moderno. Após a Campanha dos Bálcãs (1940–1941), a maioria dos carros de combate leves CV3-35 foi realocada para tarefas secundárias, com poucas unidades permanecendo em serviço na linha de frente. Durante a Guerra Greco-Italiana (1940–1941), aproximadamente 40 blindados CV3-35 foram capturados e utilizados pelo Exército Grego (Ελληνικός Στρατός) na 19ª Divisão Mecanizada, desempenhando um papel significativo nos combates. Após a invasão da Iugoslávia e da Grécia em abril de 1941, mais unidades dos modelos CV3-35 e L3/33 foram capturadas e empregadas pelas forças de resistência iugoslavas e gregas. Com a assinatura do armistício em 1943, grande parte da frota remanescente dos blindados CV3-33 e CV3-35 foi incorporada pelas tropas de ocupação do Exército Alemão (Wehrmacht) e pelo Exército Republicano Nacional da República Social Italiana (Esercito Nazionale Repubblicano). Essas unidades permaneceram em operação até a rendição final em 8 de maio de 1945. Entre os anos de 1933 e 1943, aproximadamente 2.500 unidades do CV3-33 e CV3-35 foram produzidas. Esses blindados foram fabricados em diversas variantes, incluindo:  L3 CC: Versão antitanque equipada com um canhão Solothurn de 20 mm, instalado no lugar da metralhadora. L3 LF: Versão lança-chamas, que tracionava um tanque de combustível blindado com capacidade de 500 litros. L3 Lança-Pontes: Configuração projetada para o transporte e lançamento de pontes.  L3 Radio Comando: Equipado com um rádio Marelli RF1 CA de alta potência para funções de comando e comunicação. Uma parcela significativa dos blindados CV3-33 e CV3-35 foi exportada para países como China Nacionalista, Afeganistão, Albânia, Áustria, Bolívia, Brasil, Bulgária, Croácia, Hungria, Iraque e Espanha Nacionalista. Os últimos operadores dos modelos CV3-33 e CV3-35 mantiveram esses blindados em serviço até meados da década de 1950, principalmente em funções de apoio e segurança.

Emprego no Exército Brasileiro.
Durante a Primeira Guerra Mundial, o Ministério da Guerra brasileiro enviou o 1º Tenente de Cavalaria José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque à França, como parte de um programa de intercâmbio militar e educacional. Na Escola de Carros de Combate de Versalhes, o tenente dedicou-se ao estudo das especialidades de motorização e mecanização. Em abril de 1919, foi designado como observador no 503º Regimento de Artilharia de Carros-de-Assalto, onde teve contato direto com a operação dos carros de combate Renault FT-17, adquirindo valiosa experiência prática. José Pessoa destacou-se como autor do tratado Os "Tanks" na Guerra Europeia, publicado em 1921 no Rio de Janeiro. A obra analisava o desenvolvimento e o emprego de veículos blindados no teatro de operações europeu durante a Primeira Guerra Mundial, consolidando seu papel como um dos principais pensadores militares brasileiros sobre o tema. Além disso, foi um dos idealizadores da Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), em Resende, Rio de Janeiro, e fundador do Centro de Instrução de Artilharia de Costa, que em 1942 foi transformado em escola. Ao retornar ao Brasil, a experiência do Tenente José Pessoa exerceu significativa influência no comando do Exército Brasileiro, incentivando a aquisição de carros de combate. A escolha recaiu sobre o Renault FT-17, impulsionada por uma aproximação político-militar entre os governos brasileiro e francês. Contudo, o próprio José Pessoa expressava ressalvas quanto à adequação do modelo para as necessidades da futura força blindada brasileira, considerando-o menos que ideal. Por meio do Decreto nº 15.235, de 31 de dezembro de 1921, foi criada a Companhia de Carros de Assalto, sediada na Vila Militar, no Rio de Janeiro. Com isso, o Exército Brasileiro tornou-se pioneiro no uso de armas blindadas na América do Sul, embora a operacionalidade dessas forças já existisse antes de sua formalização. A introdução dos Renault FT-17 representou uma inovação significativa, mas enfrentou resistência entre oficiais mais antigos, devido à ausência de uma visão estratégica clara e à falta de uma cultura de inovação. A resistência à adoção dos carros de combate gerou deficiências doutrinárias no Exército Brasileiro, que comprometeram o desenvolvimento e a eficácia da Companhia de Carros de Assalto. Essas limitações persistiram, dificultando o emprego efetivo dos blindados durante as crises políticas e militares das décadas de 1920 e 1930. O uso operacional dos Renault FT-17 ocorreu durante a Revolução Constitucionalista de 1932, em que os blindados foram empregados em missões de defesa de pontes e neutralização de ninhos de metralhadoras. Apesar de seu papel limitado, essas operações marcaram a primeira utilização prática de carros de combate pelo Exército Brasileiro em um conflito interno.

Em 22 de abril de 1935, por meio do Aviso nº 248, foi criada a Seção de Carros-de-Combate no Batalhão de Guardas, utilizando os carros de combate já existentes no Batalhão Escola de Infantaria. No mesmo período, sob a influência direta do chefe da Missão Militar Francesa, General Paul Noel, foi instituída a Seção de Motomecanização no Estado-Maior do Exército. Essas iniciativas representaram um avanço significativo na modernização das forças terrestres brasileiras, sinalizando um esforço para integrar a motomecanização na doutrina militar. A criação da Companhia de Carros de Assalto em 1921, sob a liderança do Capitão José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, foi uma tentativa pioneira de introduzir a arma blindada no Exército Brasileiro. Contudo, a falta de visão estratégica por parte de setores conservadores da oficialidade resultou no abandono progressivo dessa iniciativa. A resistência à motomecanização revelou deficiências doutrinárias que comprometeram a continuidade do projeto, evidenciando a necessidade de uma mudança cultural para evitar o atraso operacional da Força Terrestre. Em 1938, o General Waldomiro Castilho de Lima, inspirado pelas operações militares italianas na Segunda Guerra Ítalo-Abissínia (1935–1936), trouxe novo ímpeto à discussão sobre a motomecanização no Ministério da Guerra. Reconhecendo a obsolescência dos carros de combate Renault FT-17, utilizados pelo Exército Brasileiro desde os anos 1920, foi decidida a substituição desses veículos por modelos modernos. A escolha recaiu sobre os carros de combate Fiat-Ansaldo CV3-35 II, que haviam demonstrado desempenho satisfatório em terrenos montanhosos durante a Guerra Civil Espanhola (1936–1939) e nas regiões áridas da Etiópia. Os Fiat-Ansaldo CV3-35 II representavam o auge do sucesso comercial da indústria bélica italiana, sendo adquiridos por diversos exércitos ao redor do mundo. Seguindo essa tendência, o governo brasileiro celebrou um contrato com o fabricante italiano para a compra de um lote desses veículos blindados. Apesar da relevância dessa decisão, a eficácia operacional dos novos carros de combate ainda enfrentava desafios devido a preconceitos persistentes entre a oficialidade mais tradicional do Exército Brasileiro em relação à adoção de armas blindadas. As ideias visionárias do Capitão José Pessoa, que defendia a importância da motomecanização desde os anos 1920, foram retomadas com entusiasmo pelo Capitão Carlos Flores de Paiva Chaves. Sua dedicação foi fundamental para a consolidação da arma blindada no Brasil, superando resistências internas e promovendo a modernização da doutrina militar. A iniciativa de Flores marcou um ponto de inflexão, pavimentando o caminho para o fortalecimento das capacidades operacionais do Exército Brasileiro no campo da motomecanização.
Em 1938, o Exército Brasileiro iniciou um novo e decisivo capítulo em sua trajetória de modernização militar. Por determinação do Alto-Comando, a Seção de Carros-de-Combate do Batalhão de Guardas, sediada no Rio de Janeiro, passou a ser responsável pela operação dos recém-adquiridos carros de combate leves Fiat-Ansaldo CV3-35 II. Coube à mesma unidade reunir o efetivo e os equipamentos remanescentes da antiga força de blindados, incluindo os veteranos Renault FT-17, ainda em serviço. Essa reorganização teve como objetivo centralizar os recursos de motomecanização, conferindo maior eficiência operacional, administrativa e doutrinária à nascente arma blindada nacional. No final de abril de 1938, o Brasil recebeu 23 unidades dos Fiat-Ansaldo CV3-35 II, transportadas por via terrestre até o Depósito de Material Bélico de Deodoro, no Rio de Janeiro. Entre esses veículos, cinco eram equipados com metralhadoras Breda de calibre 13,2 mm, enquanto os dezoito restantes traziam metralhadoras duplas Madsen de 7 mm, de origem dinamarquesa. A chegada desses blindados simbolizou o início concreto da mecanização da Cavalaria brasileira, em sintonia com as tendências militares internacionais da década de 1930, marcadas pela valorização da mobilidade e da potência de fogo. Por meio do Aviso nº 400, de 25 de maio de 1938, foi criado o Esquadrão de Auto-Metralhadoras, incorporado ao Centro de Instrução de Motorização e Mecanização, como parte da recém-fundada Subunidade-Escola de Motomecanização. A nova organização foi aquartelada em Deodoro, em um edifício originalmente projetado para abrigar a Escola de Engenharia — estrutura que mais tarde daria origem à Escola de Material Bélico (EsMB). Essa medida consolidou o esforço institucional do Exército em integrar o ensino técnico e a experimentação prática no processo de modernização militar. A implantação do Esquadrão de Auto-Metralhadoras contou com o empenho notável do Capitão Carlos Flores de Paiva Chaves, oficial de reconhecida competência e dedicação. Com o auxílio de um sargento mecânico da Escola de Aviação Militar, o capitão coordenou a complexa transferência dos 23 blindados do Depósito de Material Bélico para as novas instalações da unidade, demonstrando notável espírito de iniciativa e compromisso com a consolidação da arma blindada no Brasil. Os Fiat-Ansaldo CV3-35 II foram apresentados oficialmente ao público em 7 de setembro de 1938, durante a tradicional parada militar do Dia da Independência, realizada no Rio de Janeiro. O desfile marcou o surgimento da primeira subunidade mecanizada da Cavalaria brasileira, o Esquadrão de Auto-Metralhadoras, representando um marco simbólico na história militar nacional. O advento dessa unidade mecanizada refletiu o esforço do Exército Brasileiro em harmonizar a tradição da cavalaria hipomóvel — profundamente enraizada em sua cultura militar — com as demandas tecnológicas e estratégicas da motomecanização moderna. Assim, o ano de 1938 consolidou-se como um divisor de águas, em que tradição e inovação se uniram para moldar o futuro das forças blindadas no Brasil.

O Esquadrão de Auto-Metralhadoras, sediado em Deodoro, no Rio de Janeiro, consolidou-se, a partir de 1938, como o núcleo inicial da Cavalaria mecanizada brasileira. Seus 23 carros blindados leves Fiat-Ansaldo CV3-35 II foram organizados em quatro pelotões, cada um composto por cinco veículos, além de três unidades de reserva. Em uma solução prática e simbólica, cada pelotão recebeu insígnias representando os naipes de baralho — copas, espadas, paus e ouros — pintadas em círculos brancos nas laterais dos blindados, sistema que facilitava a identificação tática e expressava o espírito de unidade e distinção entre as frações. Do ponto de vista técnico, quatro veículos de cada pelotão estavam armados com duas metralhadoras dinamarquesas Madsen de 7 mm, enquanto o quinto blindado, reservado ao comandante do esquadrão ou do pelotão, era equipado com uma metralhadora italiana Breda de 13,2 mm, de maior calibre e poder de fogo. A estrutura de apoio da unidade incluía duas viaturas de turismo, nove caminhões leves, sete motocicletas e oito motocicletas com sidecar, compondo o pelotão de apoio logístico e administrativo. O efetivo total atingia 102 militares, dos quais sete oficiais e noventa e cinco praças, com dois tripulantes designados para cada blindado Fiat-Ansaldo. Em um gesto de continuidade histórica, o esquadrão incorporou também os cinco últimos carros de combate Renault FT-17 ainda operacionais — símbolos da primeira experiência brasileira com forças blindadas, iniciada na década de 1920. Assim, a unidade reunia, em um mesmo aquartelamento, dois momentos distintos da evolução da motomecanização nacional: o experimentalismo dos anos pós-Primeira Guerra Mundial e a modernização impulsionada pelas transformações da década de 1930. A partir de 1939, o Esquadrão de Auto-Metralhadoras alcançou plena operacionalidade, assumindo um papel central na formação doutrinária e técnica da futura força blindada brasileira. O emprego dos Fiat-Ansaldo CV3-35 II, aliado à introdução de novos métodos de instrução, transformou gradualmente a mentalidade da oficialidade do Exército, ainda fortemente vinculada à tradição da cavalaria montada. Essa transição conceitual foi decisiva para consolidar os fundamentos táticos e organizacionais da Cavalaria Mecanizada, promovendo uma integração mais eficiente entre veículos blindados e unidades de infantaria. Entretanto, as limitações materiais logo se tornaram evidentes. O reduzido número de carros — apenas 23 unidades — impedia qualquer emprego operacional em larga escala, restringindo-os às atividades de ensino e adestramento. Além disso, sua obsolescência técnica tornava-os inadequados para os padrões bélicos emergentes na Europa, onde o poder de fogo e a blindagem dos tanques evoluíam rapidamente. Com o aprofundamento das relações diplomáticas entre o Brasil e os Estados Unidos, no contexto da Segunda Guerra Mundial, o país passou a integrar programas de cooperação e assistência militar. Em agosto de 1941, chegaram os dez primeiros carros de combate leves M-3 Stuart, armados com canhões de 37 mm  um salto tecnológico significativo em relação aos antigos modelos italianos.
Esse fluxo de material ampliou-se em 1942, com a chegada de centenas de carros de combate M-3A3 e M-3A5 Lee, além dos M-3 e M-3A1 Stuart, consolidando a modernização da frota blindada nacional. Com a introdução desses novos veículos, os Fiat-Ansaldo CV3-35 II foram gradualmente retirados de serviço, encerrando uma fase pioneira da história da blindagem no Brasil. Embora tecnologicamente superados, esses blindados italianos cumpriram um papel fundamental como instrumento de formação, experimentação e transição, preparando o Exército Brasileiro para ingressar na era moderna da guerra mecanizada — uma etapa decisiva para o fortalecimento da Doutrina Blindada Nacional nas décadas seguintes. Em meados de 1942, os carros blindados Fiat-Ansaldo CV3-35 II, embora substituídos por modelos mais modernos, não foram imediatamente retirados de serviço. Eles foram transferidos para Recife, Pernambuco, onde passaram a integrar o Esquadrão de Reconhecimento da Ala Motomecanizada do 7º Regimento de Cavalaria Divisionário. Essa unidade ficou sob o comando do 1º Tenente Plínio Pitaluga, que posteriormente lideraria o 1º Esquadrão de Reconhecimento da Força Expedicionária Brasileira (FEB), a única unidade de Cavalaria do Exército Brasileiro a atuar no teatro de operações europeu durante a Segunda Guerra Mundial. Em agosto de 1944, os Fiat-Ansaldo CV3-35 II foram transferidos de volta ao Rio de Janeiro, então Distrito Federal. Até o término da Segunda Guerra Mundial, em maio de 1945, esses blindados foram empregados em missões de patrulha em bases militares. Após o conflito, foram formalmente desativados e armazenados no Depósito Central de Material de Motomecanização, localizado no Rio de Janeiro. Em 1948, pelo menos cinco unidades dos Fiat-Ansaldo CV3-35 II foram transferidas para a Polícia Militar do Distrito Federal, onde permaneceram em operação até meados da década de 1950. Após esse período, foram recolhidas ao depósito. No mesmo ano, parte da frota foi doada ao governo da República Dominicana. Nos anos subsequentes, alguns desses veículos foram utilizados como alvos em exercícios de artilharia e lança-chamas, refletindo sua obsolescência operacional. Em reconhecimento à importância histórica dos Fiat-Ansaldo CV3-35 II, alguns exemplares foram preservados para fins museológicos e cerimoniais. Dois veículos estão em exposição no Museu Militar Conde de Linhares e no 15º Regimento de Cavalaria Mecanizada, ambos localizados no bairro de Campinho, Rio de Janeiro. Além disso, dois outros blindados, equipados com metralhadoras Madsen de calibre 7 mm e mantidos em condições operacionais, são utilizados em eventos e cerimônias na Escola de Material Bélico (EsMB), no Rio de Janeiro, e na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), em Resende, RJ. Essas iniciativas asseguram a preservação da memória militar brasileira e o legado dos primeiros esforços de motomecanização no Exército Brasileiro.

Em Escala.
Para a representação do carro blindado Fiat-Ansaldo CV3-35 Modelo II, foi selecionado o kit da Bronco Models na escala 1/35. Este modelo destaca-se pelo elevado nível de detalhamento, incluindo componentes em photo-etched, que conferem maior realismo à maquete. Não foram necessárias modificações adicionais para reproduzir fielmente a versão utilizada pelo Exército Brasileiro, dado que o kit já atende às especificações históricas do veículo. Os emblemas e marcações do Fiat-Ansaldo CV3-35 Modelo II foram representados por meio de decais personalizados, desenvolvidos com base em diversos conjuntos produzidos pela FCM Decais. Essa customização garantiu a precisão histórica das insígnias e símbolos empregados pelo Exército Brasileiro, assegurando uma reprodução autêntica do veículo em sua configuração operacional.
O esquema de cores descrito, conforme o padrão Federal Standard (FS), foi adotado pelo Exército Brasileiro para todos os seus veículos militares nas décadas de 1920 e 1930. Inicialmente, os carros blindados Fiat-Ansaldo CV3-35 foram recebidos com o padrão de camuflagem utilizado pelo Exército Real Italiano (Regio Esercito Italiano). Contudo, esse esquema foi prontamente substituído para adequar os veículos ao padrão estipulado pelo Exército Brasileiro, garantindo uniformidade e conformidade com as normas nacionais.

Bibliografia :
- Carro Veloce L3/35 (CV-35) - http://www.tanks-encyclopedia.com
- CV33 Ansaldo Wikipédia - https://it.wikipedia.org/wiki/CV33
- CV35 Ansaldo Wikipédia - https://it.wikipedia.org/wiki/CV35
- Consolidação dos Blindados no Brasil - Expedito Carlos Stephani Bastos - www.ecsbdefesa.com.br/defesa/fts/DC3.PDF