M-114 L/23 (M-1) 155 mm


História e Desenvolvimento.
No início do século XIX, a artilharia ainda se encontrava fortemente vinculada a concepções técnicas herdadas dos séculos anteriores. A maioria das peças empregadas nos campos de batalha consistia em canhões de alma lisa, geralmente fundidos em bronze ou ferro, que disparavam projéteis esféricos com alcance relativamente limitado e precisão reduzida. Embora a Pólvora fosse conhecida e empregada desde a Idade Média, somente com os progressos verificados nas técnicas de fundição e metalurgia, ao longo do século XIX, tornou-se possível produzir peças de artilharia mais robustas e confiáveis. Esses avanços permitiram o desenvolvimento de canhões capazes de suportar pressões internas mais elevadas, possibilitando o emprego de projéteis mais pesados e a obtenção de maiores distâncias de tiro. Uma das transformações mais significativas na evolução da artilharia ocorreu com a introdução do raiamento dos canos, processo que passou a ser amplamente adotado a partir da década de 1850. As ranhuras helicoidais no interior do tubo imprimiam rotação ao projétil durante o disparo, aumentando sua estabilidade em voo e, consequentemente, sua precisão e alcance. Para as peças de maior calibre, como as de 155 mm, essa inovação representou profunda mudança conceitual: os antigos projéteis esféricos deram lugar a granadas de formato cilíndrico-ogival, mais aerodinâmicas e muito mais eficazes em termos balísticos. Outro avanço tecnológico fundamental foi a introdução do sistema de carregamento pela culatra, que gradualmente substituiu o tradicional carregamento pela boca do cano. A adoção desse sistema permitiu reduzir o tempo de recarga, aumentar a cadência de tiro e melhorar a segurança das guarnições, ao mesmo tempo em que diminuía o risco de escape de gases durante o disparo. Na Europa, potências militares como a França e a Prússia destacaram-se no desenvolvimento de peças de grande calibre com sistemas de culatra mais eficientes. Nesse contexto, a França desempenhou papel particularmente relevante, com projetos que culminariam, já no início do século XX, em modelos consagrados como o Canon de 155 C Modèle 1917 Schneider, cuja concepção influenciaria profundamente a artilharia moderna. A partir da década de 1890, novos aperfeiçoamentos consolidaram o progresso técnico da artilharia de campanha. Entre eles, destacou-se o desenvolvimento dos sistemas de freio e recuperação, destinados a absorver o recuo gerado pelo disparo. Utilizando mecanismos baseados em molas, sistemas hidráulicos ou cilindros de gás, esses dispositivos permitiam que a peça permanecesse praticamente na mesma posição após cada tiro. Tal inovação reduziu drasticamente a necessidade de reposicionamento da arma e aumentou significativamente a cadência de fogo. Em combinação com reparos e carretas mais robustos, esses sistemas ampliaram a mobilidade e a eficiência das baterias de artilharia em operações de campanha. As peças de 155 mm passaram então a ocupar posição intermediária entre a artilharia de campanha leve e a artilharia pesada de sítio, sendo empregadas tanto em operações contra fortificações quanto em apoio às forças em campo aberto. Durante a Guerra Russo-Turca (1877–1878), por exemplo, obuses desse calibre demonstraram notável capacidade destrutiva ao empregar projéteis explosivos com massa aproximada de 43 kg, capazes de atingir fortificações a distâncias consideráveis. De forma semelhante, durante a Guerra Civil Americana, peças de calibre próximo  como os canhões-obuses de 12 cm evidenciaram grande versatilidade ao disparar tanto projéteis explosivos quanto munições de efeito antipessoal.

Na Europa, especialmente a partir da década de 1890, a França e a Alemanha lideraram o desenvolvimento de obuses pesados de campanha, consolidando o calibre 155 mm como padrão em diversos exércitos. Esse processo prepararia o terreno para o papel decisivo que tais peças desempenhariam nas grandes guerras do século XX. Durante a Primeira Guerra Mundial, os obuses de 155 mm tornaram-se instrumentos fundamentais na condução das operações militares. Sua capacidade de produzir destruição em larga escala contribuiu para transformar profundamente a natureza do combate, favorecendo a guerra de posições e levando os exércitos a investir em fortificações cada vez mais robustas, como abrigos subterrâneos e bunkers de concreto armado. Na Batalha de Passchendaele, por exemplo, obuses desse calibre foram utilizados intensivamente nas tentativas aliadas de romper as linhas alemãs, ainda que as condições extremas do terreno  caracterizadas por lama profunda e clima adverso tenham limitado a eficácia dos bombardeios. Paralelamente, a introdução de munições especializadas ampliou o poder destrutivo dessas armas. Granadas de estilhaços, destinadas a atingir tropas expostas, e projéteis químicos passaram a integrar o arsenal de muitas nações, aumentando significativamente a letalidade da artilharia. Dessa forma, o calibre 155 mm consolidou-se como um dos pilares da artilharia moderna, desempenhando papel decisivo na evolução das táticas militares e na configuração dos conflitos contemporâneos. Os  Estados Unidos, ao entrarem no conflito em 1917, enfrentaram uma carência de artilharia moderna, com sua força dependendo de  equipamentos obsoletos ou importados, especialmente de aliados como a França.  O canhão de 155 mm 155 C Modelo 1917 Schneider, projetado pelo coronel francês Louis Filloux, era uma peça de artilharia pesada de longo alcance, amplamente utilizada pelo exército francês. Sua eficácia em bombardeios de longo alcance e operações contra-bateria impressionou os norte-americanos, que decidiram adotá-lo e adaptá-lo para suas necessidades, resultando no M-1918. Sua produção em massa começou em 1918, mas enfrentou atrasos devido à falta de experiência industrial em fabricar artilharia pesada.  No período que se seguiu à Primeira Guerra Mundial, os Estados Unidos passaram por um amplo processo de reflexão estratégica acerca da organização e da modernização de suas forças armadas. As lições extraídas do conflito evidenciaram a importância decisiva da artilharia pesada no campo de batalha moderno, bem como a necessidade de peças com maior alcance, mobilidade e capacidade de apoio às manobras das tropas terrestres. Nesse contexto, reconheceu-se que seu principal canhão de 155 mm da época, o M1918, embora eficaz, apresentava limitações significativas em termos de mobilidade e alcance quando comparado aos sistemas europeus mais recentes. Diante desse cenário, ao longo da década de 1920 o Departamento de Guerra (United States Department of War) iniciou estudos destinados ao desenvolvimento de um novo sistema de artilharia pesada de 155 mm que pudesse reunir maior potência de fogo, alcance superior e melhores condições de transporte e emprego tático. O desenvolvimento da nova peça, que posteriormente seria conhecida como 155 mm Gun M1, teve início formal em 1920 sob a supervisão do Westervelt Board, comissão criada para revisar as necessidades de artilharia do Exército norte-americano à luz das experiências da guerra recém-encerrada.
O projeto buscava superar as limitações observadas no modelo anterior, inspirando-se tanto no próprio M1918 quanto no conceituado canhão francês Canon GPF, amplamente reconhecido por seu desempenho durante o conflito. Entre as principais inovações adotadas estava o emprego de um cano significativamente mais longo, com 45 calibres aproximadamente 6,97 metros  solução destinada a aumentar a velocidade inicial do projétil e, consequentemente, o alcance e a precisão do tiro. Além disso, o novo sistema incorporou um avançado mecanismo de recuo hidropneumático. Esse dispositivo tinha a função de absorver a energia gerada pelo disparo, permitindo maior estabilidade da peça e favorecendo uma cadência de tiro mais elevada sem a necessidade constante de reposicionamento do armamento. Paralelamente, a carreta foi completamente redesenhada para facilitar o transporte estratégico e tático. A estrutura passou a ser dividida em duas cargas principais  o tubo e a base  possibilitando deslocamentos mais eficientes. A adoção de pneus de borracha e de um sistema de suspensão reforçado também representou um avanço importante, permitindo melhor adaptação a diferentes tipos de terreno. Os primeiros protótipos do sistema, designados T4, começaram a ser avaliados ao longo da década de 1920. Essas versões iniciais incorporavam um novo mecanismo de culatra e diferentes configurações estruturais, porém ainda apresentavam desafios técnicos, especialmente relacionados ao peso elevado e à estabilidade durante o tiro. Um aspecto singular do projeto foi a adoção de um mecanismo de culatra de parafuso interrompido do tipo “cone lento”, característica pouco comum nos sistemas norte-americanos posteriores. Esse mecanismo exigia dois movimentos distintos para a abertura da culatra, diferentemente do sistema de “cone íngreme”, no qual a rotação e a extração ocorriam simultaneamente em um único movimento. Apesar dos avanços técnicos obtidos durante o período de desenvolvimento, o progresso do programa sofreu sérias interrupções em decorrência da crise econômica, com a eclosão da Grande Depressão, iniciada em 1929. As severas restrições orçamentárias impostas ao setor militar reduziram drasticamente os recursos disponíveis para pesquisa, testes e produção de novos equipamentos. Como resultado, o desenvolvimento do novo canhão de 155 mm avançou de forma lenta ao longo da década de 1930, sendo que o modelo definitivo somente viria a ser aprovado oficialmente em 1938. A produção  M-1 155 mm teve início em 1940, com destaque para o Watervliet Arsenal e American Locomotive Company. Com o avanço do conflito na Europa e o crescente agravamento das tensões no Oceano Pacífico, foram assinados contratos de produção em larga escala em 1941. Esse ritmo acelerado permitiu que o  M-1 155 mm equipasse todos os regimentos de artilharia de campanha, consolidando-se como uma peça essencial. Dentre as melhorias em relação aos canhões da Primeira Guerra Mundial, destaca-se a introdução de uma nova "carreta", que evoluiu ao longo da produção. Na versão inicial, os freios elétricos da Warner foram substituídos por freios a ar Westinghouse no modelo M-1A1, refletindo um aprimoramento significativo. Tanto o vagão de transporte do M-1 quanto do M-1A1 utilizaram um pedestal de disparo central, equipado com um mecanismo de catraca, posteriormente substituído por um sistema de macaco na versão M-1A2, que também incluiu uma nova trava de deslocamento. Com um alcance máximo de 14.800 metros, o M-1 155 mm era classificado como peça de artilharia média nos regimentos. 

Operado por uma equipe de 11 soldados, era tradicionalmente tracionado por tratores de esteiras, como os M-4 e M-5 High Speed Tractor. Capaz de disparar projéteis a uma velocidade inicial de 564 metros por segundo, utilizava munição de "carregamento separado", composta por quatro elementos: projétil, carga propulsora ensacada (ajustável com sacos individuais de pó), fusível e primer. Os projéteis, pesando 43 quilos, recebiam o fusível na base após a remoção de um anel de transporte. A variedade de munições incluía explosivos como HE M102 Shell e HE M107 Shell, fósforo branco (FS M105 Shell e WP M105 Shell), químicas (CNS M110 Shell e H M110 Shell, nunca empregadas devido a tratados internacionais), luminosas (Illuminating M118 Shell) e perfurantes (Dummy Mk I Projectile e Dummy M7 Projectile). Seu batismo de fogo ocorreu durante a Operação Tocha, iniciada em 8 de novembro de 1942, com o desembarque aliado no Norte da África, marcando sua presença em todos os fronts da Segunda Guerra Mundial. Ao término do conflito, em agosto de 1945, cerca de 4.000 unidades haviam sido entregues às forças armadas norte-americanas. Diferentemente de outros armamentos, a produção do M-1 155 mm prosseguiu continuamente até o final de 1953, alcançando um total superior a 10.300 peças concluídas. O M-1s também se fariam presentes também na Guerra da Coreia,  neste período o Exercito dos Estados Unidos (U.S. Arny) estava passando por um período de desmobilização e não dispunha dos mesmos efetivos para artilharia de campanha, a exemplo do que possuía no final da Segunda Guerra Mundial. Assim  somente 21 obuseiros M-1 foram empregados nas primeiras fases do conflito. Apesar de serem reforçados por novas peças de artilharia, muitas destas se perderam em combate, sendo abandonadas perante o avanço das forças inimigas. Mesmo assim  provaria novamente seu valor no campo de batalha, introduzido como uma peça de artilharia pesada de longo alcance, o M-1 desempenhou um papel crucial no apoio às tropas terrestres, especialmente em combates intensos como a Batalha do Rio Imjin e a defesa do perímetro de Pusan. Sua capacidade de disparar projéteis a até 23,5 km, com precisão e poder destrutivo, foi essencial para neutralizar posições fortificadas norte-coreanas e chinesas. A partir de 1962 o modelo seria renomeado atendendo ao nova padrão de designação, passando a ser conhecido como M-114, época no qual passaram a dotar também os grupos de artilharia do Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha do Estados Unidos (USMC).  Ao final da década de  1960, dentro dos esforços de apoio à Coreia do Sul, o M-114A1 passou a ser produzido sob licença, contribuindo significativamente para o fortalecimento do arsenal daquele país. A versão local, designada KM114-A1, foi adaptada para disparar munições de alcance estendido (RAP), alcançando até 19,5 km, e representou um marco no desenvolvimento da indústria de defesa sul-coreana, alinhando-se às necessidades estratégicas de defesa contra as ameaças regionais. O início da Guerra do Vietnã, marcou o retorno do obuseiro M-114 e sua variante M-114A1 à ação real, consolidando-se como a peça de artilharia padrão de calibre 155 mm para operações de médio alcance. Esses obuseiros,  também foram fornecidos em grande quantidade ao Vietnã do Sul como parte do apoio militar americano. O M-114A1, com alcance aprimorado e capacidade de disparar munições de carregamento separado, incluindo projéteis explosivos e iluminantes, tornou-se uma ferramenta essencial no suporte às forças do Exército da República do Vietnã (ARVN), especialmente em combates contra a guerrilha do Viet Cong e as forças do Exército Popular do Vietnã (PAVN).
Com o término da Guerra do Vietnã, uma quantidade expressiva de equipamentos militares de origem norte-americana foi capturada pelas forças vencedoras do norte. Entre esses materiais encontravam-se diversos exemplares M-114 155 mm, que haviam sido amplamente utilizados durante o conflito. Estes seriam  incorporadas ao inventário militar do novo Estado vietnamita e permaneceram em operação ao longo da década de 1980, após adaptações e adequações às necessidades locais. Paralelamente à utilização operacional dessas peças, ao longo da evolução da artilharia norte-americana foram conduzidos diversos estudos e experimentos destinados a aumentar a mobilidade dos sistemas de 155 mm por meio da adoção de plataformas autopropulsadas. Um dos primeiros esforços nesse sentido resultou no projeto 155 mm Howitzer Motor Carriage T64, iniciado em dezembro de 1942, que previa a instalação do obuseiro em um chassi derivado do tanque leve M5 Stuart. Entretanto, após a construção de apenas um protótipo, o programa foi interrompido, sendo substituído por uma versão aperfeiçoada, o T64E1, que empregava o chassi alongado do tanque leve M-24 Chaffee. Esse novo desenvolvimento culminaria na padronização do sistema como M41 Howitzer Motor Carriage, conhecido pelo apelido de “Gorilla”. A produção teve início em 1945; contudo, das 250 unidades inicialmente planejadas, apenas 85 foram efetivamente concluídas antes do cancelamento do programa, decisão diretamente relacionada ao término da Segunda Guerra Mundial. Já no final da década de 1960, diante do progressivo envelhecimento do M-114, seriam iniciados para o desenvolvimento de um novo obuseiro rebocado de 155 mm que apresentasse melhores características de mobilidade, alcance e capacidade de emprego aerotransportado. O projeto resultante, denominado M198 155 mm Howitzer, foi desenvolvido no Rock Island Arsenal a partir de 1969, com os primeiros testes de tiro realizados em 1970. A produção em série teve início em 1978, e o sistema entrou oficialmente em serviço no ano seguinte. O novo obuseiro apresentava peso inferior a aproximadamente 7.200 kg, característica que permitia seu transporte aéreo por helicópteros como o CH‑53E Super Stallion e o CH‑47 Chinook, além da possibilidade de lançamento por paraquedas em operações aerotransportadas. Em termos de desempenho balístico, o sistema oferecia alcance de cerca de 18 km com munições convencionais e até aproximadamente 30 km quando empregadas munições assistidas por foguete (RAP), representando um avanço significativo em relação ao seu antecessor. A partir de 1979, o M-198 começou a ser distribuído às unidades de artilharia de campanha, substituindo gradualmente os obuseiros M-114 em serviço ativo. Inicialmente, a substituição concentrou-se nas peças mais desgastadas ou tecnicamente ultrapassadas, enquanto parte dos sistemas remanescentes foi transferida para unidades de reserva da Guarda Nacional dos Estados Unidos, onde permaneceram em operação até meados da década de 1980. O processo de retirada do M-114 do serviço ativo norte-americano, iniciado no final da década de 1970, gerou um considerável excedente desse equipamento. Como parte da política de cooperação militar e de apoio estratégico a países aliados durante o contexto geopolítico da Guerra Fria, muitos desses foram transferidos a nações parceiras em diferentes regiões do mundo, alcançando cerca de quatro dezenas de operadores. Mesmo após décadas de serviço, o M114 permanece em operação em diversos países, evidenciando a robustez de seu projeto e a durabilidade de sistemas de artilharia dessa categoria. Em várias forças armadas, especialmente em nações em desenvolvimento, essas peças continuam desempenhando funções relevantes no apoio de fogo de campanha, havendo indícios de que algumas delas ainda permanecerão em uso por muitos anos.

Emprego nas Forças Armadas Brasileiras.
No início da Segunda Guerra Mundial, o governo dos Estados Unidos passou a considerar com crescente preocupação a possibilidade de que o conflito ultrapassasse os limites tradicionais do teatro europeu e ameaçasse diretamente o continente americano. Tal apreensão intensificou-se após a capitulação da França em junho de 1940, durante a chamada Batalha da França. Com a derrota francesa e a expansão da influência da Alemanha Nazista sobre territórios coloniais, surgia o risco de que instalações estratégicas situadas no Atlântico  como Ilhas Canárias e Dacar pudessem servir de base para operações militares projetadas em direção ao continente americano. Nesse contexto geopolítico, o Brasil passou a ser considerado pelos estrategistas aliados como um ponto de elevada importância estratégica. Sua posição geográfica, especialmente no chamado “saliente nordestino”, reduzia significativamente a distância entre a América do Sul e o continente africano, o que transformava o território brasileiro em um possível alvo ou, alternativamente, em uma base essencial para operações militares no Oceano Atlântico. A eventual presença de forças do Eixo na costa ocidental da África ampliava ainda mais essa preocupação, uma vez que poderia facilitar ações ofensivas ou operações de interdição marítima na região. Ao mesmo tempo, os avanços militares do Império do Japão no Sudeste Asiático e no Pacífico Sul comprometeram o acesso dos Aliados às tradicionais áreas produtoras de borracha natural. Nesse cenário, o Brasil passou a desempenhar papel fundamental como fornecedor de látex, matéria-prima indispensável para a produção de borracha utilizada em pneus, equipamentos militares e inúmeros componentes da indústria de guerra aliada. Além do valor econômico de seus recursos naturais, o litoral brasileiro  particularmente a região Nordeste  apresentava condições geográficas extremamente favoráveis para o estabelecimento de bases aéreas e instalações logísticas. Cidades como Recife destacavam-se como pontos estratégicos, por constituírem uma das menores distâncias entre os continentes americano e africano. Dessa forma, essas localidades poderiam servir como uma verdadeira ponte logística para o deslocamento de tropas, aeronaves e suprimentos destinados aos teatros de operações no Norte da África e na Europa. Diante desse cenário internacional marcado por intensas transformações geopolíticas, observou-se, em um curto espaço de tempo, um significativo processo de aproximação política, econômica e militar entre o Brasil e os Estados Unidos. Essa cooperação materializou-se por meio de investimentos em infraestrutura estratégica, acordos diplomáticos e programas de assistência militar. Entre as iniciativas mais relevantes destacou-se a adesão brasileira ao Lend‑Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos). Criado pelo governo norte-americano para fortalecer países aliados na luta contra o Eixo, esse programa permitiu ao Brasil obter uma linha inicial de crédito estimada em aproximadamente 100 milhões de dólares, destinada à aquisição de equipamentos militares modernos. Por meio desse acordo, as Forças Armadas Brasileiras tiveram acesso a armamentos, aeronaves, veículos militares e carros de combate que contribuíram significativamente para a modernização de sua estrutura operacional. Esses recursos revelaram-se particularmente importantes diante do agravamento da guerra no Atlântico Sul. A intensificação das operações de submarinos alemães passou a representar uma ameaça direta à navegação mercante brasileira e às rotas marítimas que conectavam o país aos Estados Unidos. Essas linhas de comunicação marítima eram fundamentais para o transporte de matérias-primas estratégicas destinadas à indústria de guerra norte-americana.

Nesse contexto, a participação brasileira no esforço de guerra aliado gradualmente se ampliou. O então presidente Getúlio Vargas declarou que o Brasil não se limitaria apenas ao fornecimento de recursos estratégicos, sinalizando a disposição do país em assumir um papel mais ativo no conflito.  Na década de 1940, a artilharia de campanha do Exército Brasileiro enfrentava desafios significativos decorrentes da obsolescência de grande parte de seu material bélico. À época, a força encontrava-se equipada predominantemente com peças de origem europeia concebidas ainda no início do século XX, como os canhões alemães Krupp 75 mm Modelo 1908 e os franceses Schneider-Canet 75 mm. Projetados para tração hipomóvel e concebidos segundo os padrões tecnológicos anteriores à Primeira Guerra Mundial, esses armamentos, embora robustos e confiáveis em seu contexto original, já não atendiam plenamente às exigências impostas pelo campo de batalha moderno. A conjuntura internacional que se formou com o avanço da Segunda Guerra Mundial acabaria por impulsionar uma profunda transformação na estrutura e nos meios do Exército Brasileiro. A partir de meados de 1942, sucessivos navios de transporte começaram a chegar ao Porto do Rio de Janeiro trazendo uma ampla gama de equipamentos modernos. Entre esses materiais encontravam-se armas de infantaria, canhões anticarro de 37 mm, além de obuseiros de campanha de 105 mm e 155 mm. A incorporação desses sistemas de artilharia representou um salto qualitativo significativo para as forças brasileiras, ampliando substancialmente sua capacidade de fogo, alcance e precisão. O comprometimento brasileiro com o esforço de guerra aliado seria formalizado em 9 de agosto de 1943, com a criação da Força Expedicionária Brasileira (FEB), instituída por meio da Portaria Ministerial nº 4.744, posteriormente publicada em boletim reservado no dia 13 do mesmo mês. Estruturada como a 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária (1ª DIE), a nova força expedicionária foi colocada sob o comando do João Batista Mascarenhas de Morais e concebida para integrar o dispositivo aliado no teatro de operações europeu. Ao todo, previa-se que a força fosse composta por aproximadamente 25 mil soldados. A organização incluía, além da divisão principal, uma série de unidades de apoio e serviços essenciais ao funcionamento de uma força expedicionária moderna. No campo da artilharia, a estrutura previa quatro grupos de artilharia  três equipados com obuseiros de 105 mm e um com peças de 155 mm  responsáveis por fornecer apoio de fogo às operações terrestres. A força contava ainda com uma esquadrilha de ligação e observação da Força Aérea Brasileira, além de um batalhão de engenharia, um batalhão de saúde, um esquadrão de reconhecimento e uma companhia de comunicações. Complementavam essa estrutura diversas unidades logísticas e administrativas, incluindo um comando próprio, um comando de quartel-general, destacamentos de saúde, companhias de manutenção e intendência, além de elementos especializados como pelotões de polícia e de sepultamento. Após o desembarque no porto de Nápoles e um período de intensivo treinamento conduzido por instrutores norte-americanos, as unidades de artilharia brasileiras foram posicionadas para apoiar as operações do V Exército na campanha da Itália. Nesse teatro de operações, as forças aliadas enfrentavam complexos sistemas defensivos estabelecidos pelas tropas alemãs, entre os quais se destacavam a Linha Gustav e a Linha Gótica. O batismo de fogo da artilharia brasileira ocorreria em 16 de setembro de 1944, nas encostas do Monte Bastione, ao norte da cidade de Lucca, na região da Toscana. Naquela tarde, sob um vento frio que já prenunciava os rigores do inverno europeu, às 14 horas e 22 minutos foi disparado o primeiro tiro da artilharia brasileira em solo estrangeiro. O projétil, lançado contra posições alemãs na localidade de Massarosa, atingiu com precisão o objetivo designado.
Ao longo da campanha da Itália, no contexto da Segunda Guerra Mundial, os obuseiros de 155 mm desempenharam papel decisivo no apoio de fogo às operações conduzidas pelas forças aliadas. Essas peças de artilharia foram amplamente empregadas em missões de bombardeio contra posições defensivas alemãs, na neutralização de contra-ataques inimigos e na proteção dos flancos das unidades em avanço. Dotados de elevado alcance e grande poder destrutivo, os obuseiros revelaram-se particularmente eficazes no terreno montanhoso e nas condições climáticas adversas que caracterizaram grande parte da campanha italiana. Demonstrando notável confiabilidade e precisão, esses sistemas de artilharia tornaram-se elementos fundamentais no dispositivo de apoio de fogo aliado, contribuindo diretamente para o êxito das operações terrestres. Durante seus deslocamentos táticos e logísticos, as peças eram normalmente tracionadas por tratores de esteira M-5 High-Speed Tractor, veículos especialmente concebidos para garantir mobilidade às unidades de artilharia pesada em terrenos difíceis. Ainda durante o conflito, um número adicional de obuseiros desse modelo foi enviado ao Brasil, passando a equipar novas unidades de artilharia divisionária. Entre essas formações destacava-se um agrupamento constituído por três grupos armados com obuseiros M-2A1 105 mm Howitzer e um grupo equipado com os obuseiros M-1 155 mm todos sediados no Rio de Janeiro, então principal centro administrativo e militar do país. Com o término da guerra na Europa, em maio de 1945, os obuseiros M-1 e diversos outros equipamentos utilizados pela Força Expedicionária Brasileira (FEB) foram transferidos ao comando logístico do Exército dos Estados Unidos, instalado em Roma. Nesse processo de reorganização do material de guerra, os equipamentos que se encontravam em melhores condições operacionais foram cuidadosamente selecionados, acondicionados e posteriormente enviados ao Brasil por via marítima. Após sua chegada ao território nacional, essas peças foram distribuídas entre diferentes Grupos de Artilharia de Campanha do Exército Brasileiro, onde continuaram a desempenhar papel relevante na estrutura de apoio de fogo da força terrestre. Nessas unidades, os obuseiros eram normalmente tracionados pelos tratores de esteira M-4- e M-5-que asseguravam mobilidade às baterias de artilharia pesada. A partir da década de 1950, no contexto da Guerra Fria e das iniciativas de modernização das forças armadas nacionais, o Brasil intensificou seus esforços para atualizar seus meios militares. Um marco importante desse processo foi a assinatura do Acordo de Assistência Militar Brasil–Estados Unidos, que ampliou a cooperação estratégica entre os dois países e facilitou a transferência de equipamentos militares norte-americanos para o Exército Brasileiro e para o Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil. No âmbito desse acordo, o Brasil recebeu pelo menos 90 obuseiros do modelo M-114A2 155 mm, uma versão aperfeiçoada do sistema original. Essas peças, produzidas sob licença na Coreia do Sul, apresentavam melhorias estruturais e operacionais em relação aos exemplares fabricados durante a década de 1940. A chegada desses novos sistemas permitiu substituir as unidades mais desgastadas e, ao mesmo tempo, redistribuir os obuseiros mais antigos para outras formações do Exército. Entre as unidades beneficiadas por esse processo destacaram-se o 13º Grupo de Artilharia de Campanha conhecido como Grupo General Polidoro e o 11º Grupo de Artilharia de Campanha, tradicionalmente denominado Grupo Montese. Nesse mesmo período, ocorreu também uma significativa modernização dos meios de tração das peças de artilharia. Os antigos tratores sobre esteiras começaram gradualmente a ser substituídos pelos caminhões militares MB Engesa LG-1519 e LG-1819 Mamute.

Paralelamente, uma pequena quantidade desses obuseiros foi também incorporada, na década de 1970, ao Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil. Essas peças foram destinadas ao Batalhão de Artilharia do Corpo de Fuzileiros Navais, reforçando significativamente a capacidade de apoio de fogo nas operações anfíbias e terrestres conduzidas pela força naval. Nessas unidades, os obuseiros eram organizados em baterias  geralmente compostas por duas peças cada  e tracionados por veículos como os caminhões militares REO M-35.  Ao longo das últimas décadas, a munição de 155 mm empregada pelas unidades de artilharia brasileiras passou por um processo gradual de nacionalização, refletindo o esforço do país em consolidar sua autonomia estratégica no campo da defesa. Esse processo envolveu a participação de importantes organizações da Base Industrial de Defesa brasileira, como a Indústria de Material Bélico do Brasil (IMBEL), a Mac Jee, a CSD – Componentes e Sistemas de Defesa e a Empresa Gerencial de Projetos Navais (EMGEPRON). Entre essas iniciativas, destaca-se o papel desempenhado pela Indústria de Material Bélico do Brasil, cuja unidade industrial localizada em Juiz de Fora consolidou a nacionalização do processo produtivo do tiro de artilharia M-107 155 mm. Em 2022, a empresa passou a entregar componentes inteiramente fabricados no país, incluindo o corpo da granada e as cargas de projeção, alcançando um nível de produção plenamente capaz de atender às necessidades operacionais do Exército Brasileiro. Essa conquista representa um passo significativo no fortalecimento da Base Industrial de Defesa, reduzindo a dependência externa e ampliando a capacidade nacional de sustentação logística. No âmbito operacional, os obuseiros M-114 AR 155 mm e M-114A2 AR 155 mm permanecem em serviço no Exército Brasileiro, integrando a dotação dos Grupos de Artilharia de Campanha orgânicos à Artilharia Divisionária.  Seu poder de fogo permanece expressivo, sustentado pela ampla variedade de munições de 155 mm disponíveis no país, muitas das quais atualmente produzidas por empresas brasileiras. Essa capacidade garante às unidades de artilharia um importante instrumento de apoio de fogo indireto, essencial para a manobra das forças terrestres. Paralelamente, os sistemas de direção e controle de tiro da artilharia brasileira vêm passando por um processo de modernização tecnológica, acompanhando a evolução dos conceitos operacionais contemporâneos. Nesse contexto, tanto os obuseiros rebocados M-114 AR 155 mm quanto os autopropulsados M109 A5+BR passaram a operar com sistemas digitais destinados a aumentar a precisão, a rapidez de resposta e a integração entre as unidades de artilharia. Um dos principais avanços nesse campo foi o desenvolvimento do Sistema de Controle de Tiro Gênesis pela Indústria de Material Bélico do Brasil. Esse sistema introduziu a digitalização dos processos de planejamento, coordenação e execução do tiro de artilharia em nível de brigada, substituindo gradualmente métodos tradicionais baseados em cálculos manuais. A integração de dados topográficos, observação de alvos e informações provenientes de sensores modernos permite realizar ajustes em tempo real, elevando significativamente a precisão e a eficiência do apoio de fogo. Apesar dessas melhorias, os obuseiros da família M-114 enfrentam desafios operacionais consideráveis diante das exigências do campo de batalha contemporâneo. Um dos principais fatores limitantes é o peso elevado do sistema, que pode alcançar aproximadamente 5.700 kg em deslocamento, impondo significativa carga às viaturas tratoras e reduzindo sua mobilidade em determinados tipos de terreno.
Além disso, suas dimensões e características estruturais geram dificuldades logísticas, aumentando o tempo necessário para o posicionamento da peça em bateria e para sua retirada após o cumprimento da missão. Outro fator crítico é o alcance relativamente limitado, o que restringe a capacidade de executar fogos em profundidade, realizar missões eficazes de contrabateria e garantir maior sobrevivência em ambientes de combate modernos. A principal limitação técnica, entretanto, reside no comprimento do tubo de apenas 24 calibres. Essa característica impede a plena utilização de munições mais avançadas, frequentemente projetadas para sistemas de artilharia com tubos mais longos, o que reduz o potencial de modernização e a eficiência operacional dessas peças. Como tentativa de mitigar essa limitação, foi proposto no passado um programa de modernização que previa a adoção do sistema RDM 155 mm de 30 calibres, cuja principal vantagem seria o aumento significativo do alcance da peça. Contudo, apenas uma unidade desse modelo foi efetivamente incorporada ao Exército Brasileiro. Atualmente, esse exemplar encontra-se desativado e preservado como monumento histórico, fato que ilustra as limitações orçamentárias e as prioridades estratégicas que marcaram o processo de renovação da artilharia brasileira ao longo das últimas décadas. Apesar de os cerca de 92 obuseiros M-114  1 e M-114A2 ainda em serviço, apresentarem elevados índices de disponibilidade operacional resultado de programas regulares de manutenção, atualizações técnicas periódicas e da continuidade da produção nacional de peças de reposição  tornou-se cada vez mais evidente que esses sistemas de artilharia já não atendem plenamente às exigências do campo de batalha contemporâneo. Concebidos em um contexto tecnológico da década de 1940, esses apresentam limitações importantes em aspectos fundamentais como mobilidade tática, alcance efetivo e amplitude do setor de tiro. Diante desse cenário, o Ministério da Defesa do Brasil iniciou, em 2018, estudos destinados à substituição progressiva desses sistemas na Força Terrestre. As análises conduzidas no âmbito do Exército Brasileiro resultaram na definição de duas linhas principais de modernização da artilharia de campanha. A primeira vertente contempla a introdução de um moderno sistema de artilharia autopropulsada sobre rodas, inserido no projeto denominado VBCOAP 155 mm SR (Viatura Blindada de Combate Obuseiro Autopropulsado sobre Rodas). Como etapa inicial do programa, prevê-se a aquisição de duas viaturas destinadas à avaliação operacional no Centro de Avaliações do Exército. Após essa fase de testes, o planejamento prevê a aquisição adicional de 34 sistemas, totalizando 36 unidades destinadas a equipar três grupos de artilharia. Paralelamente, uma segunda linha de ação foi estruturada no âmbito do subprograma de modernização da artilharia de campanha inserido no Programa Estratégico do Exército para a obtenção de Capacidade Operacional Plena. Essa iniciativa tem como objetivo reestruturar o portfólio de sistemas de artilharia da Força Terrestre, assegurando às tropas brasileiras um poder de fogo adequado, preciso e compatível com as exigências operacionais previstas até o horizonte de 2031. Dentro desse contexto, passou-se a considerar a possível aquisição de até 80 M-198 155 mm usados, por meio do programa Excess Defense Articles, mecanismo que permite a transferência de equipamentos militares excedentes para países aliados. Independentemente da solução final adotada, a introdução gradual de novos sistemas de artilharia permitirá, no futuro, a retirada progressiva dos  M-114  do serviço ativo. Esse processo marcará o encerramento de uma longa e notável trajetória operacional,

Em Escala:
Para representarmos o M-114 L/23 155 mm fizemos uso do excelente kit da Bronco Models na escala 1/35, modelo que prima pela qualidade e detalhamento, combinado peças em metal e photo etched. Para se representar a versão usada pelo Exército Brasileiro, não há necessidade de se realizar nenhuma alteração, bastando montar o modelo direto da caixa.
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o primeiro padrão de pintura empregado desde o recebimento das primeiras peças em 1942 e nos lotes subsequentes, após o ano de 1983 os M-114 AR e M-114A2  AR 155 passaram a ostentar o novo esquema de camuflagem tática em dois tons, mantendo este padrão até a atualidade.

Bibliografia: 
- M114 Howitzer Wilipedia - https://en.wikipedia.org/wiki/M114_155_mm_howitzer
- M114A2 Towed 155mm Howitzer - https://www.hmdb.org/
- Artilharia de Campanha no Exército Brasileiro – Cezar Carriel Benetti - http://www.ecsbdefesa.com.br/fts/ACEB.pdf

AT-26 Embraer Xavante

História e Desenvolvimento. 
No início da década de 1950, a rápida incorporação de caças a jato de desempenho cada vez mais elevado, culminando com o advento dos primeiros vetores supersônicos, evidenciou de forma inequívoca a necessidade de revisão e aprimoramento dos processos de formação e conversão de pilotos militares. A crescente disparidade tecnológica e operacional entre as aeronaves de treinamento avançado então em serviço em sua maioria ainda equipadas com motores a pistão  e os modernos caças de primeira linha impunha riscos à segurança de voo e comprometia a eficiência da transição operacional. Diante desse cenário, diversas forças aéreas passaram a reconhecer que a simples progressão direta do treinamento avançado convencional para aeronaves supersônicas já não era suficiente. Tornou-se, assim, imprescindível a adoção de uma etapa intermediária de transição, baseada em aeronaves equipadas com motores a reação, capazes de familiarizar os pilotos com velocidades mais elevadas, novas características de resposta aos comandos, procedimentos específicos de voo a jato e maior complexidade dos sistemas de bordo. Após estudos criteriosos que consideraram aspectos doutrinários, operacionais e de custo-benefício, consolidou-se a opção pelo desenvolvimento e pela aquisição de treinadores a jato dedicados, concebidos especificamente para o treinamento avançado e a transição operacional. Nesse contexto, várias nações lançaram projetos próprios, resultando em aeronaves que se tornariam referências internacionais nesse segmento. Entre os modelos mais representativos destacaram-se o Fouga CM.170 Magister, de origem francesa; o Cessna T-37 Tweet, desenvolvido nos Estados Unidos; o BAC Jet Provost, do Reino Unido; e o Aero L-29 Delfín, da então Tchecoslováquia. Paralelamente, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) promoveu uma concorrência internacional de grande relevância estratégica, com o objetivo de selecionar um treinador a jato padrão para equipar as forças aéreas de seus países-membros na Europa. A iniciativa visava não apenas à modernização dos sistemas de instrução, mas também à padronização de doutrinas, à racionalização logística e à otimização de recursos financeiros no âmbito da Aliança. Atenta a essa oportunidade e buscando ampliar sua presença no mercado internacional, a Aermacchi – Aeronautica Macchi, da Itália, iniciou o desenvolvimento de um novo treinador a jato, designado M.B. 326, concebido para atender aos exigentes requisitos da concorrência da OTAN. Embora o projeto italiano não tenha sido selecionado nesse certame específico, suas qualidades técnicas despertaram considerável interesse em outros ambientes operacionais. Simultaneamente, a própria Força Aérea Italiana (Aeronautica Militare Italiana – AMI) enfrentava a necessidade de modernizar seu sistema de formação de pilotos e identificava na proposta da Aermacchi uma solução alinhada às suas demandas. 

O Ministério do Ar Italiano estabeleceu, então, um conjunto rigoroso de requisitos operacionais para o novo treinador avançado, que deveria: Suportar cargas de até 7 G durante manobras de instrução; Decolar com carga útil máxima de aproximadamente 1.600 kg em pistas de apenas 800 metros, superando obstáculos de até 16 metros; Pousar em uma distância não superior a 450 metros; Alcançar velocidade máxima da ordem de 700 km/h; Apresentar uma taxa de subida mínima de 15 metros por segundo. Além do desempenho, exigia-se que a aeronave apresentasse custos reduzidos de aquisição e operação, elevada confiabilidade e facilidade de manutenção, assegurando alta disponibilidade e excelente relação custo-benefício ao longo de sua vida operacional. Atendendo às exigentes especificações estabelecidas pelo Ministério da Aeronáutica Italiano (Aeronautica Militare Italiana – AMI), a equipe de engenharia da Aermacchi, sob a liderança do renomado engenheiro Ermanno Bazzocchi, deu início ao desenvolvimento de uma aeronave de treinamento a jato concebida segundo princípios de simplicidade construtiva, robustez estrutural e elevada eficiência operacional. O projeto refletia a clara intenção de criar um treinador avançado capaz de preparar pilotos para a operação segura e eficaz das modernas aeronaves a jato então em incorporação ao serviço ativo. O resultado desse esforço foi uma aeronave monomotora de asas baixas, dotada de uma configuração aerodinâmica limpa e racional. O sistema de combustível foi distribuído de forma a otimizar o alcance e o equilíbrio da aeronave, com tanques instalados na fuselagem e tanques suplementares posicionados nas pontas das asas. A cabine, disposta em tandem, acomodava instrutor e aluno em assentos ejetáveis, sendo protegida por um canopy único em forma de bolha, solução que proporcionava excelente visibilidade externa, fator essencial para a instrução em voo e para a consciência situacional dos tripulantes. A propulsão era assegurada pelo turbojato britânico Armstrong Siddeley Viper Mk.8, capaz de desenvolver cerca de 1.750 libras de empuxo. Originalmente projetado para emprego em drones-alvo descartáveis, o Viper revelou-se, durante sua evolução, um motor notavelmente confiável, econômico e de manutenção simplificada. Essas características favoreceram sua adaptação para uso em aeronaves tripuladas, tornando-o uma escolha particularmente adequada para um treinador avançado, no qual a disponibilidade e os custos operacionais eram fatores determinantes. A estrutura da aeronave, inteiramente metálica, foi concebida para combinar leveza, resistência e facilidade de manutenção, atributos que se traduziram em elevada robustez e longa vida útil. Essa filosofia construtiva contribuiu decisivamente para a ampla aceitação do projeto por diversas forças aéreas ao redor do mundo, que buscavam soluções eficazes e sustentáveis para seus sistemas de formação de pilotos. Em 1954, Ermanno Bazzocchi apresentou formalmente os primeiros estudos conceituais da aeronave ao Ministério da Aeronáutica Italiano, que prontamente reconheceu o potencial do projeto. 
Esse interesse resultou na assinatura de um contrato para a construção de três protótipos, destinados a um extenso programa de ensaios em voo. O primeiro deles, registrado como MM.57-1, realizou seu voo inaugural em 10 de dezembro de 1957, sob o comando do experiente piloto de provas Guido Carestiato. Durante a campanha de testes, a aeronave superou as expectativas iniciais, demonstrando excelente comportamento em voo e destacando-se pela capacidade de suportar cargas estruturais de até +7,6 G e -3,3 G. Esses resultados confirmaram sua adequação como plataforma de treinamento avançado, capaz de expor os futuros pilotos da Aeronautica Militare Italiana a regimes de voo compatíveis com aqueles encontrados em aeronaves de combate a jato. O êxito do programa consolidou definitivamente a reputação de Ermanno Bazzocchi como um dos mais destacados engenheiros aeronáuticos da Itália no pós-guerra. Ao longo de sua carreira, Bazzocchi desempenhou papel central no desenvolvimento de diversas aeronaves de relevância, entre elas os modelos MB-308, MB-323, MB-326 e MB-339, que marcaram gerações e exerceram influência significativa na aviação militar italiana e internacional. Apesar das elevadas expectativas iniciais, as análises finais do programa de ensaios em voo revelaram a existência de falhas a serem corrigidas e a necessidade de diversas melhorias. Dentre as modificações realizadas, destaca-se a substituição do motor turbojato original pelo novo modelo Rolls-Royce Viper 9 MK-22 540, com empuxo de 2.500 libras, cujo objetivo era sanar as deficiências de desempenho observadas na aeronave. Outras alterações significativas incluíram a eliminação do ângulo diedro negativo nas superfícies horizontais da cauda e a substituição do sistema de freios aerodinâmicos duplos, anteriormente instalados nas asas, por um único freio localizado na parte ventral da fuselagem. O segundo protótipo, já incorporando essas melhorias, realizou seu voo inaugural em 22 de setembro de 1958. Contudo, enfrentava a concorrência direta do Fiat G.80, um modelo com desempenho superior ao da aeronave desenvolvida pela Aermacchi (Aeronautica Macchi). O Fiat G.80 detinha ainda a distinção de ser o primeiro jato genuinamente italiano, tendo realizado seu primeiro voo cinco anos antes do Aermachi MB-326. Entretanto, o Fiat G.80 apresentava diversas desvantagens relevantes, como maior peso, dimensões significativamente superiores e um custo mais elevado em comparação ao MB-326. Esses fatores foram determinantes para a escolha do modelo da Aeronautica Macchi. Como resultado, em 15 de dezembro de 1958, o governo italiano firmou um contrato para a produção de um lote inicial de quinze aeronaves pré-série, que seriam montadas nas novas instalações da empresa na cidade de Masnago, em Varese, no norte da Itália.  A entrega dessas aeronaves ocorreu logo em seguida, permitindo a homologação oficial do modelo para operação. 

Neste momento seria realizadas as negociações comerciais entre o governo e o fabricante, e  posteriormente, em setembro de 1959, foi celebrado o primeiro contrato de produção em série, envolvendo um pedido inicial de cinquenta aeronaves a fim de todas as unidades de formação e treinamento. No ano seguinte, foi aprovado um aditivo para a fabricação de mais cem células, tendo em vista as excelentes expectativas operacionais apresentadas. A primeira aeronave de série destinada à Força Aérea Italiana (Aeronautica Militare Italiana – AMI) realizou seu voo inaugural em 5 de outubro de 1960. As primeiras células do Aermacchi MB-326 foram entregues no final do ano de 1961 à Escola de Voo Básico Inicial em Jatos – SVBIA "Lecce-Galatina", passando a equipar o 214º Gruppo, unidade encarregada da formulação da doutrina operacional do novo modelo. Inicialmente, todo o efetivo do grupo foi temporariamente alocado na Base Aérea de Brindisi, localizada na região da Apúlia. Em 22 de março de 1962, o Aermacchi MB-326 foi oficialmente incorporado ao serviço ativo, sendo empregado em tarefas de instrução junto ao 43º Gruppo de Instrução, onde passou a substituir os já obsoletos treinadores North American T-6 Texan. Pouco tempo depois, novas unidades foram adicionadas à frota, possibilitando a ampliação do escopo de instrução para missões de treinamento intermediário e avançado. Como treinador, o MB-326 era consideravelmente mais caro, mas foi recebido com entusiasmo entre os alunos; além disso, quando usado em combinação com o treinador avançado Fiat G.91T, permitiu a promulgação de um curso de treinamento "totalmente a jato" para pilotos italianos, além disso, eram aeronaves projetadas e produzidas nacionalmente De acordo com a publicação aeroespacial Flight International, durante o início dos anos 1960, o programa de treinamento de voo da Força Aérea Italiana (Aeronautica Militare Italiana – AMI) foi fortemente influenciado pela iminente entrada em serviço do Lockheed F-104G Starfighter.  Destaca-se que, ao menos cinco aeronaves pertencentes ao último lote de produção foram entregues configuradas para instrução de ataque equipados com o   motor  Viper 11 Mk 200 e não o Viper 20 Mk 540 original. Essas aeronaves estavam equipadas com quatro pontos duros sob as asas, permitindo o emprego de armamentos como casulos de metralhadoras, bombas de queda livre e foguetes não guiados. Essa configuração ampliava a versatilidade do MB-326, possibilitando seu uso também como aeronave de ataque ao solo. As excelentes características de desempenho, manobrabilidade e confiabilidade operacional do MB-326 despertaram amplo interesse internacional, levando à sua adoção por diversas forças aéreas ao redor do mundo, em distintas versões. O primeiro contrato de exportação foi firmado com o governo da Tunísia, envolvendo a aquisição de oito aeronaves configuradas para ataque a solo. Em seguida, novas exportações foram realizadas: nove unidades MB-326F para a Força Aérea de Gana e oito aeronaves da versão MB-326GG para a Aviação Naval da Marinha Argentina (ARMADA). 
As condições favoráveis à produção sob licença abriram caminho para a fabricação em larga escala do Aermacchi MB-326 por diversos países. O primeiro acordo nesse sentido foi firmado em 1966 com o governo da África do Sul, prevendo a produção local de 150 unidades da versão MB-326M (designada Impala Mk I) e 100 unidades da versão MB-326K (Impala Mk II), sob responsabilidade da empresa Atlas Aircraft Corporation. No ano seguinte, a australiana Commonwealth Aircraft Corporation celebrou contrato para a produção de 97 aeronaves da versão MB-326H (CA-30). Em 1969, um novo e significativo acordo foi estabelecido com o Governo Brasileiro, autorizando a fabricação local do modelo MB-326G pela empresa estatal Embraer S/A, com o objetivo de atender às demandas operacionais da Força Aérea Brasileira (FAB). Na Itália, o Aermacchi MB-326 permaneceu em serviço ativo junto à Força Aérea Italiana (Aeronautica Militare Italiana – AMI) até o final de 1981, quando começou a ser gradualmente substituído pelos novos jatos de treinamento avançado Aermacchi MB-339. A produção total do MB-326 alcançou 761 unidades até o ano de 1981, consolidando-se como um dos treinadores a jato mais bem-sucedidos de sua época. Graças à sua robustez, confiabilidade e baixo custo operacional, o MB-326 manteve-se em operação em diversas forças aéreas ao redor do mundo, desempenhando missões de treinamento, conversão operacional e ataque leve até o início do século XXI. Entre os países operadores destacam-se: Austrália, África do Sul, Argentina, Congo, Camarões, Emirados Árabes Unidos, Dubai, Togo, Tunísia, Zaire, Zâmbia, Brasil e Paraguai. O modelo também teve participação destacada em operações reais de combate. As aeronaves Atlas Impala Mk II foram empregadas em missões de ataque a alvos terrestres durante os conflitos regionais em Angola e Namíbia com relativo êxito. Em 1982, o  Aermacchi MB-326 voltou a ver ação durante a Guerra das Falklands/Malvinas, quando unidades da versão MB-326GG da Aviação Naval da Marinha Argentina (ARMADA) foram utilizadas em ataques contra forças e embarcações da Marinha Real Britânica (Royal Navy). Curiosamente, o modelo também foi adotado pela companhia aérea italiana Alitalia, que adquiriu quatro unidades especialmente configuradas com painéis de instrumentos similares aos de aeronaves comerciais. O objetivo era proporcionar treinamento econômico para seus futuros pilotos de linha aérea. Essas aeronaves entraram em serviço em 27 de maio de 1963.

Emprego na Força Aérea Brasileira.
Na segunda metade da década de 1960, a Força Aérea Brasileira (FAB) atravessava uma grave crise operacional, decorrente, sobretudo, da desativação precoce de sua frota de caças de primeira geração, os Gloster Meteor F-8 e TF-7, entre os anos de 1966 e 1968. Tal desmobilização gerou uma lacuna preocupante na capacidade de defesa aérea do país, restando somente poucos Lockheed F-80C Shooting Star que equipavam o  1º/4º Grupo de Aviação (1º/4º GAv) – Esquadrão “Pacau” que se encontrava baseado no nordeste do pais. Diante das persistentes limitações orçamentárias, a aquisição de caças supersônicos modernos revelou-se inviável, e no  intuito de suprir essa deficiência, o Ministério da Aeronáutica (MAer), valendo-se dos dispositivos do Programa de Assistência Militar (Military Assistance Program - MAP), solicitou ao governo dos Estados Unidos a cessão de mais células de Lockheed AT-33A e TF-33A Thunderbird, aeronaves de treinamento adaptadas para missões de ataque. Além de serem modelos usados (oriundas dos estoques da Força Aérea dos Estados Unidos - USAF), já apresentavam sinais claros de obsolescência e aproximavam-se do final de sua vida útil, tornando evidente a necessidade de uma substituição em curto prazo. Paralelamente a esse cenário, o país encontrava-se no processo de aquisição de sua primeira aeronave supersônica, que culminaria na escolha do Dassault Mirage IIIEBR (designado F-103E na Força Aérea Brasileira), cuja introdução exigiria a implementação de novos padrões de treinamento. Diante disso, tornou-se imprescindível selecionar uma aeronave intermediária que viabilizasse a transição operacional dos pilotos brasileiros para os modernos interceptadores franceses, em especial no que tange ao domínio de aeronaves de alta performance. Além da demanda por uma aeronave de transição, as condições de segurança nacional vigentes naquele período também impunham a necessidade de substituição dos monomotores North American AT-6 Texan. Esses modelos equipavam as Esquadrilhas de Reconhecimento e Ataque (ERA) e os Esquadrões Mistos de Reconhecimento e Ataque (EMRA), envolvidos em operações de combate a movimentos de guerrilha interna de orientação comunista. A soma desses fatores levou à especificação de uma aeronave versátil, capaz de cumprir missões de ataque leve e reconhecimento, com baixa complexidade operacional e que exigisse mínima adaptação por parte de pilotos recém-formados nos jatos de treinamento Cessna T-37C da Academia da Força Aérea (AFA). Em resposta a essas necessidades, foi lançada, em 1968, uma concorrência internacional visando à aquisição de uma aeronave com tais características. De forma inédita, o edital previa como critério diferenciador a apresentação, por parte dos fabricantes, de propostas que incluíssem condições econômicas e contratuais favoráveis podendo até serem eventualmente produzidas sob licença no Brasil. Tal possibilidade visava fomentar a autonomia tecnológica nacional, transferir tecnologia de engenharia de processos em produção seriada  e consolidar a capacidade industrial aeronáutica brasileira, representada pela recém criada empresa estatal Embraer S/A.

A concorrência internacional aberta pelo Ministério da Aeronáutica (MAer), em 1968, atraiu ampla atenção da indústria aeronáutica global, dada sua magnitude e potencial estratégico. O processo previa a aquisição de 10 a 20 interceptadores supersônicos e até 100 aeronaves de treinamento avançado, o que motivou diversos fabricantes a apresentarem propostas, compondo um amplo leque de opções a serem avaliadas pelas autoridades brasileiras. Uma comissão técnica foi formada para a análise dos modelos oferecidos, sendo composta por oficiais brasileiros, entre os quais se destacava o Coronel Ozires Silva. Firme defensor da industrialização nacional, o coronel via na possível produção sob licença uma oportunidade crucial para consolidar a estrutura de montagem seriada na recém-criada Embraer S/A, especialmente em função da iminência da produção do transporte leve C-95 Bandeirante. Dentre os modelos avaliados no processo, figuravam os seguintes pares de aeronaves: o Saab 35 Draken e o treinador Saab SK 60, o Dassault Mirage IIIE e o Fouga CM.170 Super Magister, o English Electric Lightning F.6 e o BAC Jet Provost, bem como o Aeritalia F-104S Starfighter em conjunto com o Aermacchi MB-326. Desde as fases iniciais da análise, tornou-se evidente que a aquisição de dois modelos distintos de um mesmo país fornecedor não atenderia, de forma eficaz, às necessidades operacionais integradas da Força Aérea Brasileira (FAB). Assim, a escolha do interceptador recaiu sobre o Mirage IIIE, em razão de sua superioridade técnica e alinhamento com os objetivos estratégicos da defesa aérea brasileira. No que se refere à seleção do treinador avançado, a proposta apresentada pela Aermacchi mostrou-se particularmente atraente. O plano italiano previa uma abordagem em duas etapas para a produção sob licença: na primeira fase, seriam fornecidos kits para montagem local das aeronaves; na segunda, ocorreria a nacionalização progressiva da fabricação das células e de seus componentes. Este modelo de transferência tecnológica era considerado ideal para a consolidação da capacidade industrial da Embraer. Outro fator decisivo foi a experiência bem-sucedida da Força Aérea Sul-Africana (SAAF), que em 1967 optou pela adoção do Aermacchi MB-326GB, com produção sob licença conduzida pela Atlas Aircraft Corporation. Relatos positivos sobre o desempenho operacional do MB-326 por parte de diversas forças aéreas reforçaram ainda mais a confiança na escolha da aeronave italiana. Além disso, o acordo previa o envio de um contingente significativo de técnicos italianos ao Brasil, com o objetivo de colaborar diretamente com a Embraer na estruturação do processo de produção seriada do treinador. Esta colaboração técnica contribuiria não apenas para o sucesso do programa do MB-326 no Brasil, mas também fortaleceria a linha de montagem do C-95. Como parte da estratégia de divulgação, em 1969 foi assinada uma carta de intenções entre o Governo Brasileiro e a Aermacchi-Aeronautica Macchi. Em seguida, empreendeu-se uma ação de marketing institucional, que consistiu no envio ao Brasil de uma célula do MB-326 pertencente à Força Aérea Italiana, especialmente pintada com as marcações brasileiras. A aeronave foi utilizada em demonstrações e avaliações operacionais em diversas bases aéreas do país.
A aeronave em questão atendia satisfatoriamente aos requisitos operacionais estipulados pela Força Aérea Brasileira (FAB), sendo considerada ideal para as necessidades da época em razão de suas características aerodinâmicas e versatilidade de emprego. O modelo permitia o transporte de dois tripulantes em configuração tandem (com os assentos dispostos em linha, um atrás do outro), e era capaz de operar com cargas externas em até seis pontos de fixação sob as asas, totalizando uma capacidade máxima de 2.500 kg de armamentos. Adicionalmente, havia a possibilidade de instalação de um casulo para reconhecimento fotográfico sob a asa direita. O desempenho da aeronave incluía uma velocidade máxima de Mach 0.82 e capacidade de suportar cargas estruturais de +7,5G e -3G, atributos que, aliados à sua longa vida útil, consolidavam sua adequação ao cenário operacional brasileiro. A moderna concepção de seus sistemas, com ênfase na modularidade e concentração dos componentes, também conferia facilidade de manutenção, fator estratégico para as operações militares e logísticas da FAB. Nesse contexto, foi celebrado em 1970, na cidade de Varese, Itália, um contrato entre o Governo Brasileiro e a Aermacchi-Aeronautica Macchi, prevendo a fabricação sob licença, pela Embraer S/A, de 112 unidades da versão MB-326GB, que receberia a designação local de EMB-326GB Xavante, em homenagem às tribos indígenas guerreiras do Brasil. Neste processo a Embraer S/A enviou engenheiros para fazer cursos na cidade de Varese, onde ficava a Macchi, enquanto técnicos italianos vieram para o Brasil. Essa variante foi adaptada para atender às especificações da Força Aérea Brasileira (FAB), estando equipada com sistemas completos de comunicação e navegação, incluindo VOR/ILS da Collins e ADF da Bendix. O contrato também contemplava a capacidade de emprego de uma ampla gama de armamentos de origem nacional, como bombas de uso geral de 113 kg e 227 kg, casulos de metralhadoras calibre 7,62 mm, casulos lançadores de foguetes não guiados SBAT de 37 mm e 70 mm, além de casulos de reconhecimento fotográfico. Em 3 de setembro de 1971, o AT-26 Xavante fez o primeiro voo teste, comandado pelo Major Aviador Carlos Rubens Resende e pelo piloto de provas Brasílico Freire Neto. O voo durou cerca de 90 minutos e percorreu a região de São José dos Campos, com grande entusiasmo da mídia brasileira, que cobria o “primeiro jato totalmente fabricado no pais" No dia 7 daquele mês, fez o primeiro voo oficial, durante as comemorações da Independência do Brasil.  No dia seguinte, foram entregues ao Ministério da Aeronáutica (MAer) os três primeiros aviões, e até  dezembro de 1976, a Força Aérea Brasileira (FAB) já havia adquirido 119 Xavantes. O contrato inicial foi cumprido integralmente até o início de 1977, incluindo ainda a exportação de seis unidades para o Togo. Posteriormente, novos contratos foram firmados com a Força Aérea Brasileira (FAB), elevando o número total de células entregues a 168 até o ano de 1983.  

A primeira unidade operacional da Força Aérea Brasileira (FAB) a empregar o AT-26 Xavante foi o 1º Grupo de Aviação de Caça (GAvC), que começou a receber suas aeronaves em 1972. Isso possibilitou a substituição gradual dos desgastados Lockheed AT-33A e TF-33, que foram desativados até o final de 1975, quando o esquadrão passou a operar os novos caças bombardeiros supersônicos Northrop F-5E Tiger II. A segunda unidade a adotar o AT-26 Xavante foi o 1º/4º Grupo de Aviação – Esquadrão Pacau, que, a partir de 1973, passou a utilizá-lo em substituição aos Lockheed AT-33A e TF-33, desempenhando funções de instrução e formação de pilotos de caça. Em seguida, o Centro de Aplicações Táticas e Recompletamento de Equipagens (CATRE) incorporou o modelo, voltando-se para a formação específica de pilotos de ataque. O AT-26 Xavante consolidou-se como plataforma essencial na doutrina de formação de pilotos de combate, sendo igualmente empregado em ações de patrulha armada, dissuasão aérea e missões voltadas à segurança nacional. Ainda na primeira metade da década de 1970, o modelo foi distribuído aos 3º, 4º e 5º Esquadrões Mistos de Reconhecimento e Ataque (EMRA), para atuar em operações de contra-insurgência. Posteriormente, o 1º/10º Grupo de Aviação – Esquadrão Poker passou a operar o Xavante em substituição aos bombardeiros Douglas A-26 Invader. Nessa unidade, além das funções de caça, o modelo foi adaptado para executar missões de reconhecimento fotográfico, sendo equipado com um casulo contendo quatro câmeras Vinten, marcando a introdução da capacidade de reconhecimento aéreo a jato na Força Aérea Brasileira (FAB). Destaca-se ainda que, nesta mesma unidade, a aeronave de matrícula FAB 4600 foi equipada com um sistema de reabastecimento em voo (probe), desenvolvido pelo Centro Tecnológico da Aeronáutica (CTA). A modificação, que visava aumentar a autonomia operacional do modelo em missões de ataque, teve êxito técnico, porém não foi estendida a outras aeronaves devido a restrições orçamentárias. A célula modificada foi empregada no treinamento de pilotos de reabastecimento em voo para os caças Northrop F-5E Tiger II.  Além das unidades mencionadas, o AT-26 Xavante foi ainda utilizado pelo 3º/10º Grupo de Aviação – Esquadrão Centauro, pelo 2º/5º Grupo de Aviação – Esquadrão Joker, pelo Grupo de Ensaios em Voo (GEV), e de forma provisória pelo 1º Grupo de Defesa Aérea (1º GDA), durante a transição de desativação dos interceptadores Dassault Mirage IIIEBR (F-103E). A partir de 1988, com o início da entrega das novas aeronaves Embraer A-1A AMX, os Xavante remanescentes foram concentrados no 1º/4º Grupo de Aviação – Esquadrão Pacau e no 2º/5º Grupo de Aviação – Esquadrão Joker.
O  AT-26 Xavante também foi empregado, ainda que temporariamente, como aeronave de demonstração. Em 1981, durante o período de inatividade da Esquadrilha da Fumaça, o Centro de Aplicações Táticas e Recompletamento de Equipagens (CATRE), por iniciativa de seu comandante, autorizou, no final daquele ano, a formação e treinamento de uma nova esquadrilha de demonstração aérea. Essa unidade, batizada de Esquadrilha "Alouette", foi composta por sete aeronaves AT-26 Xavante oriundas do 2º/5º Grupo de Aviação (Esquadrão Joker). Os aviões receberam modificações específicas, como a instalação de sistemas de liberação de fumaça e pintura personalizada, com o objetivo de distingui-los das demais aeronaves operacionais da unidade. A esquadrilha realizou diversas apresentações públicas em cidades como Natal, Fortaleza e São José dos Campos, sendo amplamente elogiada pela ousadia das manobras e pela habilidade de seus pilotos. Com a reativação do Esquadrão de Demonstração Aérea (EDA), popularmente conhecido como Esquadrilha da Fumaça, em outubro de 1983, a Esquadrilha Alouette perdeu sua principal finalidade, sendo gradativamente desativada. Esse episódio marcou um capítulo singular e interessante no emprego do AT-26 Xavante, demonstrando também sua versatilidade como aeronave de demonstração. Apesar de sua destacada atuação operacional, por volta da década de 1990, o modelo encontrava-se tecnicamente defasado e apresentava crescente dificuldade de disponibilidade, em decorrência da crônica escassez de peças de reposição. Mesmo com o suporte do fabricante, diversos componentes do sistema haviam tido sua produção descontinuada há anos. Para manter a frota em condições operacionais, as equipes técnicas do Parque de Material Aeronáutico de Recife (PAMARF) foram frequentemente forçadas a recorrer ao canibalismo de células — ou seja, à retirada de peças de aeronaves inativas para manter outras em voo. Em 2002, visando mitigar esses desafios logísticos, foi adquirido, junto à Força Aérea Sul-Africana (SAAF), um lote de células da versão Atlas Impala MB-326K, bem como 48 motores Rolls-Royce Viper 20 Mk540, que serviram como fonte de componentes sobressalentes, representando um importante reforço para a manutenção da frota. O processo de substituição gradual do AT-26 teve início em 2004, com a incorporação dos primeiros exemplares do  A-29 Super Tucano ao 2º/5º Grupo de Aviação – Esquadrão Joker, unidade responsável pelo Curso de Formação de Pilotos de Caça (CFPC), que progressivamente os substituiu nas funções de instrução avançada. A despedida oficial do AT-26, ocorreu em 3 de dezembro de 2010, quando as últimas células ainda em serviço no 1º/4º Grupo de Aviação – Esquadrão Pacau foram retiradas de operação. Em abril de 2011, as três células em melhores condições operacionais  de matrículas FAB 4467, 4509 e 4516  foram transferidas para o Grupo Especial de Ensaios em Voo (GEEV), para utilização em missões técnicas e de testes. Essas aeronaves permaneceram em serviço até setembro de 2013, quando foram finalmente substituídas pelos A-29, encerrando definitivamente o ciclo operacional do AT-26 na Força Aérea Brasileira (FAB).

Em Escala.
Para a representação do Embraer AT-26 Xavante "FAB 4527", optou-se pelo kit da Italeri na escala 1/48. Durante o processo de montagem, foi necessário substituir os tanques auxiliares das asas pelos que são utilizados no kit do Atlas Impala MK-2 da Italeri. É importante ressaltar que os casulos de metralhadoras e os tanques auxiliares fixados sob as asas também foram extraídos deste último kit, que podem ser oriundos dos modelos da Esci ou da Italeri. Utilizou-se, ainda, os excelentes decais produzidos pelo fabricante FCM Decals, os quais estão disponíveis no conjunto 48/37.
O esquema de cores (FS) detalhado a seguir representa o padrão de pintura tático norte-americano em três tons “Sudeste Asiático”, que foi adotado para todas as aeronaves operacionais de linha de frente da Força Aérea Brasileira a partir da década de 1970. Este padrão foi mantido ao longo de toda a carreira da aeronave, ocorrendo somente pequenas alterações relacionadas à identificação das unidades que as operaram. A desativação final dessas aeronaves ocorreu em 2013.

Bibliografia :
- Aermacchi MB-326 Wikipédia - https://en.wikipedia.org/wiki/Aermacchi_MB-326
- História da Força Aérea Brasileira por :  Prof. Rudnei Dias Cunha - http://www.rudnei.cunha.nom.br/FAB/index.html
- AT-26A Atlas Impala - http://freepages.military.rootsweb.ancestry.com/~otranto/fab/impala.htm


AT-25 e T-25 Neiva Universal

História e Desenvolvimento. 
A Indústria Aeronáutica Neiva Ltda. constitui um dos marcos mais relevantes da história da aviação brasileira, tendo desempenhado papel fundamental no desenvolvimento e na consolidação da indústria aeronáutica nacional no período do pós-guerra. A empresa foi fundada em 12 de outubro de 1945, na cidade do Rio de Janeiro, por José Carlos de Barros Neiva, em um contexto marcado pela necessidade de modernização dos meios de instrução aeronáutica do país. À época, a frota de planadores em operação no Brasil era composta majoritariamente por aeronaves de origem alemã, incorporadas aos aeroclubes nacionais ao longo da década de 1930. Com o término da Segunda Guerra Mundial, a manutenção e a reposição dessas aeronaves tornaram-se cada vez mais complexas, o que evidenciou a necessidade de soluções de produção local. Nesse cenário, a criação da Neiva alinhou-se diretamente aos objetivos da Campanha Nacional de Aviação, programa governamental destinado a estimular a formação de pilotos e a fomentar o surgimento de uma indústria aeronáutica genuinamente brasileira. A estratégia adotada por José Carlos de Barros Neiva concentrou-se no desenvolvimento de um planador que reproduzisse, em termos de desempenho e características de voo, as qualidades consagradas do Grunau Baby, amplamente utilizado no Brasil, especialmente em sua configuração biplace. Como resultado desse esforço surgiu o protótipo Neiva B. Monitor, registrado sob a matrícula PP-PCB, que realizou seu primeiro voo em dezembro de 1945. Após a obtenção da certificação oficial no início do ano seguinte, a aeronave foi incorporada ao programa governamental de incentivo, o que viabilizou a celebração de um contrato inicial para a aquisição do protótipo e de mais vinte unidades de produção. Essas aeronaves, após o recebimento pelo Departamento de Aviação Civil (DAC), foram distribuídas a diversos aeroclubes em todo o território nacional, desempenhando papel decisivo na formação de novos aviadores. O Neiva B. Monitor destacou-se como um instrumento essencial para o treinamento na aviação civil brasileira, contribuindo de maneira significativa para a expansão e o fortalecimento da cultura aeronáutica no país. Ao final da década de 1950, a empresa desenvolveu uma variante aperfeiçoada, denominada Neiva B “Monitor Modificado”, que introduziu o emprego de materiais alternativos em substituição à tradicional estrutura em madeira, refletindo a busca contínua por maior durabilidade e eficiência construtiva. Nos anos subsequentes, novos modelos de planadores foram lançados no mercado; entretanto, um ponto de inflexão na trajetória da empresa ocorreu em 1956, quando a Neiva adquiriu os direitos de fabricação do treinador Paulistinha CAP-4. Esse movimento marcou a ampliação de seu portfólio e levou à transferência de sua linha de produção para a cidade de Botucatu, no interior do estado de São Paulo. Nas novas instalações, a empresa alcançou um expressivo volume produtivo, superando a marca de duzentas e sessenta aeronaves, distribuídas em diversas versões aprimoradas, entre as quais se destacou o Neiva Paulistinha 56.

Já na década de 1960, em consonância com as diretrizes do Programa de Fortalecimento da Indústria de Defesa Nacional, a Indústria Aeronáutica Neiva foi contratada pelo Ministério da Aeronáutica (MAer) para desenvolver uma aeronave leve destinada a missões de ligação e observação, com a finalidade de substituir modelos então em uso na Força Aérea Brasileira (FAB), como o Piper L-4 Cub e o Cessna 305 Bird Dog. Esse esforço culminou no desenvolvimento dos modelos U-42 e L-42 Neiva Regente, aeronaves que representaram um marco tecnológico ao se tornarem os primeiros aviões totalmente metálicos projetados e produzidos no Brasil, consolidando definitivamente a Neiva como um dos pilares da indústria aeronáutica nacional. Neste mesmo periodo, o processo de formação e treinamento de novos pilotos militares da Força Aérea Brasileira era conduzido pela Escola de Aeronáutica (EAER), então sediada no Rio de Janeiro. A instrução de voo baseava-se, essencialmente, na utilização das aeronaves Fokker T-21 e North American T-6 Texan, modelos consagrados por sua robustez, confiabilidade e comprovado histórico operacional. Entretanto, apesar dessas qualidades, tais aeronaves já se encontravam tecnologicamente defasadas, revelando-se inadequadas para preparar, de forma plena, cadetes destinados a operar vetores de primeira linha, cada vez mais complexos e sofisticados. A situação era agravada por restrições logísticas e de manutenção, decorrentes da crescente dificuldade na obtenção de peças de reposição. Esse fator impactava negativamente os índices de disponibilidade operacional da frota, comprometendo a regularidade do treinamento e impondo limitações adicionais à formação dos futuros oficiais aviadores. Diante desse cenário, em janeiro de 1962, o Ministério da Aeronáutica (MAer) estabeleceu um conjunto de especificações técnicas com vistas ao desenvolvimento e à aquisição de novas aeronaves destinadas aos estágios de treinamento primário e avançado. O programa foi classificado como prioritário, estruturado dentro de um cronograma de curto e médio prazo, refletindo a urgência em substituir os vetores obsoletos e em sanar as deficiências operacionais então identificadas. Para o treinamento primário, optou-se por uma solução de origem nacional, o que culminou no desenvolvimento do Aerotec T-23 Uirapuru, aeronave concebida para atender aos requisitos básicos de instrução e cuja incorporação à Força Aérea Brasileira (FAB) se daria a partir de 1969. Já no tocante ao treinamento avançado, a preferência inicial dos oficiais brasileiros recaiu sobre o Beechcraft T-34 Mentor, modelo reconhecido por seu elevado desempenho e ampla utilização em forças aéreas estrangeiras. Todavia, os custos associados à aquisição de um lote significativo dessa aeronave superavam a dotação orçamentária disponível à época, tornando inviável sua adoção imediata. Em face dessas restrições, o Ministério da Aeronáutica (MAer) direcionou seus esforços para o desenvolvimento de uma alternativa nacional destinada ao treinamento avançado. 
A nova aeronave deveria apresentar concepção mais simples, custos de aquisição e operação reduzidos e plena adequação às limitações financeiras do programa, sem prejuízo à qualidade da formação dos pilotos. Nesse contexto, a Sociedade Construtora Aeronáutica Neiva Ltda. foi convidada a participar do projeto, apresentando estudos compatíveis com os objetivos estratégicos estabelecidos pelo MAer. Antecipando-se às demandas do mercado e buscando ampliar seu portfólio de produtos, a empresa já conduzia, por iniciativa própria, um programa de desenvolvimento com características semelhantes. Esse esforço era liderado por uma equipe técnica sob a coordenação do engenheiro Joseph Kovacks, profissional húngaro radicado no Brasil, cuja experiência e talento seriam decisivos para o avanço do projeto. Esse movimento conjunto representou um marco relevante na busca por autonomia tecnológica, consolidando a participação da indústria aeronáutica nacional na modernização do sistema de treinamento da Força Aérea Brasileira (FAB) e pavimentando o caminho para uma nova geração de aeronaves de instrução militar no país. Com base nas especificações técnicas estabelecidas pelo Ministério da Aeronáutica (MAer), a Sociedade Construtora Aeronáutica Neiva Ltda. deu início ao desenvolvimento de uma nova aeronave de treinamento avançado, denominada Neiva N-621. O projeto refletia uma clara inspiração nos cânones clássicos do design aeronáutico difundidos pelo consagrado projetista italiano Stelio Frati, notabilizando-se por linhas elegantes, aerodinamicamente eficientes e funcionalmente equilibradas. Nesse contexto, o N-621 consolidou-se como o primeiro monomotor de alto desempenho concebido e produzido em série no Brasil, representando um marco relevante para a indústria aeronáutica nacional. O protótipo da aeronave, registrado com o prefixo experimental PP-ZTW, realizou seu voo inaugural em 9 de abril de 1966, a partir de São José dos Campos, no interior do estado de São Paulo. A decolagem foi conduzida pelo experiente piloto de ensaios Brasílico Freire Neto, cuja atuação foi decisiva para a avaliação inicial do comportamento da aeronave.  Desde os primeiros minutos em voo, o N-621 demonstrou características promissoras, confirmando a solidez conceitual do projeto. Concebido como um monoplano de asa baixa, monomotor e biplace, com assentos dispostos lado a lado, o N-621 apresentava ainda a possibilidade de acomodar um terceiro tripulante na porção traseira da cabine, ampliando sua flexibilidade operacional. Suas principais características técnicas incluíam a  Configuração: Monomotor, biplace (com capacidade para um terceiro tripulante na parte traseira da cabine); Trem de pouso: Triciclo retrátil; Dimensões: Envergadura: 11,00 m, Comprimento: 8,60 metros Altura: 3,00 metros e Superfície alar: 17,20 metros²; Pesos: vazio: 1.150 kg - máximo: 1.700 kg;  Propulsão: Motor a pistão Lycoming IO-540-G1A5, de 290 HP, com seis cilindros opostos horizontalmente, movido a gasolina, acoplado a uma hélice tripá de velocidade variável, Desempenho: Velocidade máxima: 250 km/h, Razão de ascensão: 300 m/min, Teto operacional: 5.000 m e Autonomia: 1.150 km; Cabine: Ampla, com assentos lado a lado para piloto e instrutor, coberta por um canopy de plexiglass de peça única, deslizante para trás, proporcionando excelente visibilidade externa. 

A configuração do N-621 foi projetada para atender às exigências de treinamento avançado, destacando-se pela ampla cabine que facilitava a interação entre piloto e instrutor. O canopy de plexiglass, além de otimizar a visibilidade, contribuía para a experiência de instrução.  A aeronave exibia comandos dóceis, alta manobrabilidade e desempenho satisfatório, características que a tornavam ideal para a formação de pilotos militares. As primeiras impressões em voo foram positivas, com o protótipo demonstrando um equilíbrio entre desempenho, manobrabilidade e facilidade de operação. Após os voos iniciais de aceitação e aprovação, o Neiva N-621 PP-ZTW foi encaminhado ao Centro Técnico Aeroespacial (CTA), onde foi submetido a um rigoroso programa de ensaios em voo. Esses testes visavam validar a aeronave em diversas condições operacionais, garantindo sua adequação às especificações do Ministério da Aeronáutica (MAer) e sua prontidão para integração ao programa de treinamento da Força Aérea Brasileira (FAB). O programa de desenvolvimento do Neiva N-621 seguiria para a fase de testes, e esta fase revelou que o desempenho inicial da aeronave não atendia integralmente às especificações estabelecidas  para uma aeronave de treinamento avançado. A principal deficiência identificada foi a baixa potência do motor Lycoming IO-540-G1A5, originalmente instalado. Para superar essa limitação, a Sociedade Construtora Aeronáutica Neiva Ltda. implementou uma solução técnica que envolveu a substituição do grupo propulsor por um motor radial Lycoming IO-540-K1D5, com 300 HP de potência, acoplado a uma hélice bipá de velocidade constante. O protótipo modificado foi submetido a um novo ciclo de ensaios em voo, conduzido pelo CTA. Os resultados demonstraram melhorias significativas, com a aeronave atingindo: Velocidade máxima: 275 km/h, Razão de ascensão: 320 metros/minito, Teto operacional: 5.000 metros e Autonomia: 1.150 km. Esses novos parâmetros atenderam às exigências, culminando na homologação da aeronave pela diretoria de voo do CTA. Em dezembro de 1967, o Ministério da Aeronáutica (MAer) formalizou um contrato com a Indústria Aeronáutica Neiva Ltda para a aquisição de 150 células do N-621, destinadas ao treinamento avançado de pilotos. A execução do contrato enfrentou desafios significativos devido à capacidade limitada da planta industrial da Neiva em Botucatu, que já estava comprometida com outros projetos, incluindo a produção do Neiva L-42 Regente. Para atender à demanda e ao cronograma estipulado, a empresa decidiu construir uma segunda fábrica em São José dos Campos, estrategicamente localizada próxima ao CTA. Contudo, atrasos burocráticos e problemas nos processos fabris impactaram o planejamento inicial, adiando a entrega do primeiro exemplar de produção em série para 7 de abril de 1971. Nesse ano, apenas quatro aeronaves foram entregues. A Neiva implementou melhorias na engenharia de processos da nova planta, o que resultou em um aumento gradual da capacidade produtiva. Em 1972, a produção alcançou 29 aeronaves, um número ainda insuficiente para atender à urgência  na substituição dos obsoletos North American T-6 Texan. No ano seguinte, 1973, a entrega de 45 aeronaves marcou um avanço significativo. Em 1974, foram produzidas 50 unidades, seguidas por 14 em 1975, completando assim o total de 150 células previstas no contrato.
O contrato celebrado em 1967 entre o Ministério da Aeronáutica (MAer) e a Sociedade Construtora Aeronáutica Neiva estabelecia a produção de 150 aeronaves do modelo Neiva N-621, posteriormente designadas T-25 Universal, destinadas à Força Aérea Brasileira (FAB). O programa representava um marco para a indústria aeronáutica nacional, inserindo-se no contexto mais amplo de fortalecimento da capacidade tecnológica brasileira no setor aeroespacial durante o período de modernização das Forças Armadas. Entretanto, ao longo do processo produtivo, contingenciamentos orçamentários impostos pelo próprio Ministério da Aeronáutica (MAer)  levaram à redução do número efetivamente incorporado pela FAB, que recebeu apenas 140 aeronaves. Como as 150 células originalmente contratadas já haviam sido concluídas pela Neiva, dez unidades permaneceram armazenadas, impondo à fabricante a necessidade de buscar alternativas comerciais para esse excedente. Em um movimento alinhado à política de projeção da indústria aeronáutica brasileira no exterior, a Neiva direcionou esforços ao mercado latino-americano de defesa. A iniciativa mostrou-se bem-sucedida em meados de 1976, quando as dez aeronaves remanescentes foram adquiridas pelo governo do Chile para emprego na aviação militar do Exército daquele país. Integradas às atividades operacionais, as células foram utilizadas intensivamente em missões de instrução e ligação até o final da década de 1990, evidenciando a robustez estrutural e a versatilidade do projeto. Pouco depois, a Força Aérea Paraguaia (FAP) tornou-se o terceiro operador militar do T-25 Universal ao adquirir aeronaves excedentes oriundas brasileiras. Esse inventário seria ampliado em 1997, quando o governo chileno doou seis exemplares que haviam sido desativados no início da década de 1990 e mantidos em armazenamento. Tal movimentação refletia não apenas a longevidade do modelo, mas também o dinamismo das relações de cooperação militar na região. Em 2005, inserido em uma política mais ampla de fortalecimento dos laços regionais, o governo brasileiro promoveu a doação de doze aeronaves T-25 Universal, previamente revisadas pelo Parque de Material Aeronáutico de Lagoa Santa (PAMA-LS). Seis unidades foram destinadas à Força Aérea Boliviana (FAB) e outras seis à Força Aérea Paraguaia (FAP). Antes da transferência, as aeronaves passaram por inspeções estruturais e manutenção completa, assegurando plenas condições de aeronavegabilidade. Até o presente, as células transferidas à Bolívia e ao Paraguai permanecem em operação, cumprindo missões de treinamento e apoio, o que atesta não apenas a qualidade do projeto original, mas também a eficácia das revisões técnicas realizadas ao longo de sua vida útil. A durabilidade operacional do T-25 Universal consolidou sua presença como vetor de formação de pilotos militares em diversos países da América do Sul.

Emprego na Força Aérea Brasileira.
Em conformidade com o cronograma estabelecido entre a Sociedade Construtora Aeronáutica Neiva e o Ministério da Aeronáutica (MAer), as primeiras unidades do T-25 Universal começaram a ser entregues a partir de maio de 1971 ao Centro de Formação de Pilotos Militares (CFPM), sediado em Natal, no Rio Grande do Norte. A incorporação da aeronave inseria-se em um momento de consolidação do sistema de formação da Força Aérea Brasileira, que buscava estruturar um fluxo pedagógico progressivo e tecnicamente coerente. Nesse arranjo, o T-25 passou a ocupar o estágio intermediário da instrução aérea, operando de forma integrada com o Aerotec T-23 Uirapuru, empregado no treinamento primário, e com o Cessna T-37C Tweet, responsável pela fase avançada. Essa combinação permitia ao aluno aviador evoluir de aeronaves de menor complexidade para vetores mais exigentes, consolidando habilidades técnicas e disciplina operacional. Durante o período em que permaneceu em operação no Centro de Formação de Pilotos Militares (CFPM), o T-25 Universal destacou-se pela regularidade de desempenho e elevada confiabilidade mecânica, acumulando aproximadamente 7.000 horas de voo dedicadas exclusivamente à instrução. Tal desempenho confirmou a adequação do projeto às demandas do ambiente de formação militar, fortalecendo a confiança da Força Aérea Brasileira (FAB) na capacidade da indústria aeronáutica nacional. Em 1973, no âmbito de um processo mais amplo de reorganização administrativa e estrutural conduzido pelo Ministério da Aeronáutica (MAer), o  Centro de Formação de Pilotos Militares (CFPM) foi oficialmente desativado. Como consequência, as aeronaves T-25 foram transferidas para a Academia da Força Aérea (AFA), localizada em Pirassununga, São Paulo. Na nova sede, o T-25 consolidou-se como treinador básico padrão da instituição, função que exerceu de maneira contínua até 1978. Nesse mesmo período, a instrução avançada permaneceu sob responsabilidade do T-37C, que complementava o ciclo de formação dos cadetes aviadores. Entretanto, a partir de 1979, a Força Aérea Brasileira (FAB) iniciou uma avaliação criteriosa quanto à viabilidade do emprego de aeronaves a jato na fase avançada da instrução. A frota de T-37C enfrentava desafios significativos: redução da disponibilidade operacional em decorrência de acidentes graves, indícios de fadiga estrutural acumulada e crescente dificuldade na obtenção de peças de reposição. Somavam-se a esses fatores os elevados custos operacionais, associados ao consumo de combustível e à complexidade de manutenção inerente aos dois motores a jato. Diante desse quadro, decidiu-se  retirar o T-37C do estágio avançado de formação, adotando o T-25 Universal como solução substitutiva de caráter inicialmente transitório. Embora concebido como treinador básico, o T-25 demonstrou notável capacidade de adaptação, desempenhando com eficiência e segurança as atribuições do treinamento avançado. Tal desempenho evidenciou a solidez do projeto, sua versatilidade operacional e a maturidade técnica alcançada pela indústria aeronáutica brasileira naquele período.

O emprego do T-25 Universal no estágio avançado da formação de pilotos manteve-se como solução de caráter provisório até a incorporação do novo treinador turboélice Embraer EMB-312 Tucano, designado na Força Aérea Brasileira (FAB) como T-27. As primeiras entregas dessa aeronave ocorreram no final de 1983, inaugurando uma etapa decisiva na modernização do sistema de instrução aérea militar brasileiro. A entrada em serviço do T-27 representou uma inflexão qualitativa no processo formativo, ao oferecer desempenho superior, maior eficiência pedagógica e sensível redução dos custos operacionais quando comparado aos jatos então empregados. Com isso, encerrava-se o ciclo do T-25 Universal como treinador avançado, ao mesmo tempo em que se consolidava seu legado como um dos principais pilares da instrução aérea nacional nas décadas anteriores. A partir de 1984, o T-25 foi definitivamente retirado das funções de treinamento avançado, passando a atuar exclusivamente no estágio básico no processo de formação . Nesse novo arranjo, a aeronave assumiu progressivamente o espaço antes ocupado pelo Aerotec T-23 Uirapuru, processo formalmente concluído em 1º de outubro de 1984. Essa transição consolidou o T-25 como principal plataforma de instrução básica brasileira, explorando plenamente suas qualidades de manobrabilidade equilibrada, elevada confiabilidade mecânica e características de voo particularmente adequadas à formação inicial de aviadores militares. Paralelamente, desde 1974, o T-25 já vinha desempenhando papel relevante na formação de oficiais da reserva de 2ª categoria, atividade conduzida pelo Centro de Aplicações Táticas e Recomplementação de Equipagens (CATRE), sediado em Natal, no Rio Grande do Norte. No âmbito dessa organização, as aeronaves foram atribuídas ao 2º Esquadrão de Instrução Aérea (2º EIA), onde passaram a cumprir funções amplas e diversificadas, abrangendo instrução primária, básica e avançada, além do treinamento operacional de pilotos em fase final de formação. Essa versatilidade reforçou o valor estratégico do T-25 Universal como plataforma multifuncional, capaz de atender a distintas etapas do processo de ensino e adaptação à atividade aérea militar. Mais do que um simples treinador, o modelo revelou-se instrumento de transição doutrinária e de consolidação de práticas operacionais. Durante sua utilização no Centro de Aplicações Táticas e Recomplementação de Equipagens (CATRE), o T-25 passou ainda a servir como plataforma para ensaios e desenvolvimento de doutrina básica de emprego armado, antecipando eventual aplicação em missões operacionais. Essa iniciativa estava diretamente vinculada à necessidade de substituir os já obsoletos North American AT-6 Texan, que ainda desempenhavam missões de contra-insurgência nos Esquadrões Mistos de Reconhecimento e Ataque (EMRA). Com o propósito de atender a essa demanda emergente,  incluiu-se no contrato original que fora firmado com a Sociedade Construtora Aeronáutica Neiva, a programação de entrega de 25 células do T-25 Universal adaptadas para missões de ataque ao solo. 
Tal decisão evidenciava não apenas a flexibilidade do projeto, mas também a busca por soluções nacionais capazes de responder às necessidades operacionais da Força Aérea em um período de transição tecnológica e doutrinária. Essas aeronaves foram concebidas para operar segundo um novo conceito organizacional e doutrinário, estruturado em torno dos Esquadrões Mistos de Operações Aéreas Especiais. Essas unidades tinham como propósito integrar, de maneira coordenada e flexível, aeronaves de ataque ao solo, vetores de ligação e observação, além de helicópteros destinados ao apoio tático. Tratava-se de uma evolução natural das antigas Esquadrilhas de Reconhecimento e Ataque (ERA), agora reformuladas para atender às demandas contemporâneas de mobilidade, versatilidade e resposta rápida. Essa nova concepção operacional refletia as transformações do pensamento militar brasileiro no período, especialmente no que se referia à atuação em cenários de baixa intensidade e em regiões remotas do território nacional, como áreas de fronteira e zonas de difícil acesso logístico. A ênfase deslocava-se para operações combinadas, com maior integração entre meios aéreos e forças terrestres, ampliando a eficácia do emprego do poder aéreo em missões de apoio tático. Nesse contexto, o T-25 Universal ultrapassou sua condição original de aeronave exclusivamente destinada à instrução, consolidando-se como instrumento de transição doutrinária e elemento relevante no processo de modernização operacional da Força Aérea Brasileira (FAB). Sua adaptação às novas exigências evidenciava não apenas a flexibilidade do projeto, mas também a busca por soluções nacionais compatíveis com as necessidades estratégicas do período. Com o objetivo de atender às especificações estabelecidas pelo Ministério da Aeronáutica (MAer) para missões de ataque ao solo, a Sociedade Construtora Aeronáutica Neiva desenvolveu uma versão modificada do modelo, designada extraoficialmente como AT-25 Universal. Essa variante representou um avanço significativo na ampliação das capacidades operacionais da aeronave, preservando, contudo, suas características essenciais de robustez estrutural, confiabilidade mecânica e simplicidade de manutenção atributos fundamentais para operações em bases avançadas e ambientes austero. O AT-25 incorporou um conjunto de aprimoramentos técnicos e estruturais, entre os quais se destacavam: Sistemas de mira e disparo – instalação de visor de tiro e dispositivos de acionamento produzidos pela empresa paulista DF Vasconcelos Ltda., posicionados à frente do assento do piloto, no lado esquerdo da cabine. Essa configuração permitia maior precisão no emprego do armamento, adequando a aeronave a missões de apoio aéreo aproximado e ataque leve. Ampliação da capacidade de armamento – inclusão de quatro pontos fixos subalares, possibilitando variadas configurações de carga bélica, tais como: Casulos subalares equipados com metralhadoras calibre 12,7 mm; Cabides para o emprego de bombas de exercício ou de uso geral do tipo MK.76; Casulos lançadores de foguetes não guiados Avibras, nos calibres de 37 mm ou 70 mm.

Essas modificações converteram o T-25 em uma plataforma versátil de ataque leve e apoio aéreo aproximado, plenamente adequada às operações de baixa intensidade então previstas no planejamento estratégico.  Ao adaptar uma aeronave originalmente concebida para instrução às demandas operacionais emergentes, a Força Aérea Brasileira (FAB) demonstrava capacidade de inovação doutrinária e racionalização de recursos, reforçando a importância do T-25 Universal como vetor multifacetado dentro da evolução histórica do poder aéreo nacional. As primeiras unidades do Neiva AT-25 Universal foram entregues, conforme o cronograma contratual, ao Centro de Aplicações Táticas e Recomplementação de Equipagens (CATRE), sediado na Base Aérea de Natal (BANT). Nesse ambiente, voltado à experimentação e consolidação de conceitos operacionais, a aeronave passou a ser intensamente empregada no desenvolvimento e na validação da doutrina de emprego armado da Força Aérea Brasileira. Os resultados iniciais foram considerados amplamente satisfatórios. Os ensaios operacionais demonstraram que o AT-25 possuía desempenho adequado e confiável em missões de ataque ao solo, especialmente no contexto de operações de baixa intensidade. Diante dessas evidências, a Força Aérea Brasileira passou a planejar a substituição progressiva dos veteranos North American AT-6 Texan (nas versões D e G), ainda em serviço nos Esquadrões Mistos de Reconhecimento e Ataque (EMRA). Paralelamente, decidiu-se pela adoção do AT-25 também na 2ª Esquadrilha de Ligação e Observação (2ª ELO), onde substituiu aeronaves mais antigas, como o Pilatus L-3 e o North American T-28. Essa medida contribuiu para a padronização do AT-25 como principal aeronave nacional destinada às missões de ataque leve, apoio aéreo aproximado, ligação e observação, racionalizando a cadeia logística e simplificando tanto a instrução quanto a manutenção. A incorporação do AT-25 às unidades operacionais ocorreu de maneira gradual e planejada: 1975 – o 1º Esquadrão Misto de Reconhecimento e Ataque (EMRA) – Esquadrão Falcão, sediado em Belém (PA), tornou-se a primeira unidade a operar o novo vetor; 1976 – o modelo passou a equipar o 2º EMRA – Esquadrão Poti, em Recife (PE), e o 5º EMRA – Esquadrão Pantera, em Santa Maria (RS). Nestes esquadrões, as missões conduzidas pelo AT-25 eram realizadas por uma tripulação composta por dois militares: o piloto, responsável pela condução da aeronave e pelo emprego do armamento, e o observador aéreo, incumbido de auxiliar na navegação, identificação de alvos e coordenação tática com forças terrestres. Essa configuração refletia a doutrina então vigente para operações de apoio aéreo em ambientes de baixa intensidade, reforçando o caráter polivalente do modelo. Para o emprego operacional, foram definidas diversas configurações de armamento, entre as quais se destacavam: Casulos subalares equipados com duas metralhadoras calibre 12,7 mm, utilizadas em ataques rasantes e na supressão de alvos leves; Bombas de emprego geral do tipo MK.76, destinadas a bombardeios em mergulho moderado ou nivelado; Foguetes não guiados SBAT, nos calibres de 37 mm ou 70 mm, eficazes contra alvos de área e posições entrincheiradas.
O emprego dessas armas seguia procedimentos padronizados, com ataques executados preferencialmente em picadas suaves ou voos rasantes, explorando a excelente visibilidade proporcionada pelo canopy em peça única e a boa resposta aos comandos em baixas altitudes  características que tornavam o AT-25 particularmente adequado às missões de apoio aéreo aproximado. Durante o período em que estiveram em operação nos Esquadrões Mistos de Reconhecimento e Ataque (EMRA), os Neiva T-25 Universal  incluindo sua versão armada, designada AT-25  assumiram papel de destacada relevância no âmbito das missões conduzidas pela Força Aérea Brasileira (FAB). A atuação dessas aeronaves foi particularmente expressiva na região Nordeste do país, onde as características geográficas e as demandas operacionais exigiam vetores leves, versáteis e de fácil manutenção. Entre as atividades de maior projeção estiveram as operações de segurança interna realizadas em cooperação com a Polícia Federal, especialmente no combate e na erradicação de plantações ilícitas de maconha no chamado “Polígono da Maconha”, situado no estado de Pernambuco. Nessas ações, o T-25 demonstrou notável adequação às missões de vigilância, reconhecimento armado e apoio aéreo aproximado, operando em ambientes de baixa intensidade e contribuindo para a presença dissuasória do Estado em áreas de difícil acesso. No campo do adestramento operacional, a aeronave também teve participação relevante nas Manobras Reais, realizadas em 1977 e 1978. Nessas ocasiões, os T-25 e AT-25 atuaram em conjunto com helicópteros Bell UH-1H, integrando cenários de operações combinadas que simulavam situações táticas complexas. Tal emprego evidenciou a flexibilidade do modelo, capaz de transitar entre funções de instrução avançada, ataque leve e coordenação aérea, consolidando-se como plataforma eficaz de apoio às unidades operacionais. A partir de 1980, contudo, a progressiva desativação dos EMRA provocou uma reorganização na distribuição dessas aeronaves. O T-25 Universal passou, então, por um processo de redistribuição interna, sendo incorporado a outras unidades. Destaca-se, nesse contexto, sua reintegração à Academia da Força Aérea (AFA), em Pirassununga (SP), onde retomou com maior ênfase sua vocação original de treinador básico. Essa transição marcou simbolicamente o encerramento de sua fase mais intensamente operacional e o retorno ao papel formador de gerações de aviadores militares. Na década de 1990, buscando prolongar a vida útil da frota e adequá-la às novas exigências de treinamento, foi introduzida uma versão modernizada, conhecida como T-25C ou AT-25C. Essa variante incorporou aprimoramentos técnicos que garantiram maior confiabilidade e compatibilidade com os padrões operacionais então vigentes. O T-25C foi empregado por diversas unidades, destacando-se o 2º/8º Grupo de Aviação – Esquadrão Poti, onde participou de treinamentos de combate aéreo dissimilar, inclusive em exercícios contra helicópteros Helibras UH-50 Esquilo, prática que se estendeu por vários anos. Também foi utilizado pela 2ª Esquadrilha de Ligação e Observação (2ª ELO), desempenhando missões de ligação e observação até a incorporação dos Embraer AT-27 Tucano, e pelo 3º/8º Grupo de Aviação – Esquadrão Puma, onde permaneceu em serviço até sua desativação em 2008.

Em Escala.
Para a representação do Neiva AT-25A Universal, "FAB 1893", foi utilizado o kit em resina produzido pela GIIC Models na escala 1/48. Essa escolha proporcionou uma base detalhada para a construção de um modelo fiel à aeronave armada operada. Com o objetivo de configurar a variante armada (AT-25A), foram acrescidos lançadores de foguetes oriundos de outros kits da mesma escala.  Para a finalização do modelo, foi empregada uma combinação de decais de diferentes fontes, assegurando a autenticidade das marcações, incluindo itens extraídos conjunto 48/08, complementando as marcações específicas do Neiva T-25 Universal. Decais Duarte Models: Produzidos originalmente para a escala 1/72, adaptados para representar detalhes adicionais. 
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o segundo padrão de pintura tático empregado nas aeronaves AT-25A, onde podemos observar por registros histórico a existência de pelo menos cinco esquemas de camuflagem. Já as aeronaves em serviço na  2º Esquadrilha de Ligação e Observação (2º ELO), empregariam  durante toda sua carreira o padrão em amarelo FS 13655. Vale salientar também que no CATRE as primeiras aeronaves empregadas  mantiveram o esquema padrão de aeronaves de treinamento.  Um ultimo esquema de pintura seria adotado por células do 3º/8º Grupo de Aviação -  Esquadrão Puma,  representando o padrão atual de camuflagem das aeronaves táticas da Força Aérea Brasileira (FAB).
Bibliografia:
- Neiva T-25  Wikipédia - http://pt.wikipedia.org/wiki/Neiva_T-25
- História da Força Aérea Brasileira por :  Prof. Rudnei Dias Cunha - http://www.rudnei.cunha.nom.br/FAB/index.html
- A Flecha de Poti - Revista Força Aérea - Nº 3 Action Editora
- A Saga dos Guerreiros Polivalentes – Incaer  por Aparecido Camazano Alamino
- Um Peixe Fora D Agua – Neiva T-25 Universal - Prof. Rudnei Dias Cunha – Revista Força Aérea N 79