Curtiss C-46A Commando na FAB

História e Desenvolvimento.

A Curtiss-Wright Corporation foi criada em 1929 a partir da consolidação da Curtiss Airplane and Motor Company (fundada em 1916 por Glenn Hammond Curtiss), a Wright Aeronautical (fundada por Glenn L. Martin e Orville Wright como Wright-Martin), agregando neste processo diversas empresas menores. Esta corporação teria destaca participação no esforço aliado durante a Segunda Guerra Mundial, se tornando a maior fabricante de aviões e componentes aeronáuticos dos Estados Unidos. Este resultado seria fruto do esforço da empresa que em inúmeras ocasiões empregou recursos próprios no desenvolvimento de seus projetos, um destes exemplos pode ser representado na aeronave Curtiss Model 75, uma aeronave de caça concebida com investimento privada da Curtiss-Wright Corporation, visando assim antever possíveis demandas das forças armadas norte americanas. Este avião foi projetado pelo engenheiro aeronáutico   Don R. Berlin, que trazia grandes experiencia obtida junto a  Northrop Aircraft Company. O primeiro protótipo foi concluído em 1934, apresentava uma moderna construção toda em metal com superfícies de controle cobertas de tecido, um motor radial Wright XR-1670-5 desenvolvendo 900 hp (670 kW) Estava armado com duas metralhadoras 7,62 mm instaladas nas asas e uma metralhadora de 12,7 mm disparando através do arco da hélice,  nesta fase inicial a aeronave não dispunha de blindagem de cabine ou tanques de combustível auto vedantes. 

Em 1936 alimentada com recursos provenientes dos contratos governamentais de defesa a empresa decidiu empreender no segmento de aeronaves comerciais que poderiam também atender a propósitos militares. Assim no mesmo ano foi formada uma equipe de desenvolvimento liderada pelo engenheiro aeronáutico George W. Page que deu início ao projeto de uma nova aeronave de transporte civil de passageiros designada CW-20. Como ponto de orientação principal buscou se definir primícias que deveria resultar em um avião maior e mais eficiente que o principal concorrente Douglas DC-3. Para o atendimento desta demanda básica, objetiva-se aumentar o volume útil da fuselagem com o intuito também de se pressurizar a cabine de passageiros e pilotos, este conceito de formatação da secção principal era denominado double-bubble (bolha dupla) e por se tratar de um conceito novo aplicado a aeronaves comerciais o projeto ao longo dos anos foi recebendo melhorias e refinamentos que levaram a definição de uma versão denominada CW-20T. O voo inaugural do primeiro protótipo matriculado NX-19436 ocorreu em 26 de março de 1940 nas instalações da Curtiss Wright Corporation, em Saint Louis no estado do Missouri. Após validações iniciais sobre a segurança e desempenho da aeronave, o fabricante deu início à larga campanha de divulgação de seu mais novo aviação comercial, visando assim se antecipar as concorrências junto as empresas áreas com o Douglas DC-3, paralelamente a este processo a aeronave continuava a ser submetida a campanha de ensaios. 
Nesta fase uma das mais significativas alterações se deu na mudança do conjunto de cauda que originalmente apresentava uma configuração de duas empenagens verticais, que passaria a ser de concepção convencional, sendo composta na forma de uma única peça, buscando assim uma significativa melhoria da estabilidade em baixas velocidades. Além de perspectivas positivas junto ao mercado civil de transporte de passageiros, o agravamento das tensões na Europa e no Pacífico, levou o comando do Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC) a empreender esforços para o aumento emergencial de sua frota de aeronaves de transporte. O projeto básico foi apresentado aos militares pela Curtiss Wright Corporation, inicialmente as características do modelo despertaram o interesse da USAAC. Após tratativas iniciais e exigências de pequenas modificações o primeiro protótipo foi adquirido para um programa de ensaios em voo recebendo a designação de C-55, após este processo a aeronave foi devolvida a Curtiss, sendo o mesmo posteriormente revendido a empresa aérea British Overseas Airways Corporation (BOAC). Durante os testes, o General Henry H. "Hap" Arnold responsável pelo processo de seleção de aeronaves, ficou interessado no potencial do avião como transporte de carga militar, sendo assim celebrado em 13 de setembro de 1940, um primeiro contrato de produção englobando uma encomenda de 46 células da versão militarizada CW-20A que receberam a designação militar de C-46-CU Commando e as 21 últimas aeronaves nesta ordem foram entregues como Modelo CW-20Bs, chamado C-46A-1-CU.

Nenhum dos C-46 adquiridos pela USAAC recebeu o sistema de pressurização,  e as primeiras 30 aeronaves entregues tiveram de ser remetidas a fábrica para a implementação de cerca de cinquenta e três alterações urgências de projeto O projeto foi então modificado para a configuração do C-46A, recebendo portas de carga ampliadas, um piso de carga reforçado e uma cabine conversível que acelerou as mudanças no transporte de carga e tropas. O C-46A foi apresentado ao público em uma cerimônia em maio de 1942, com a presença de seu criador, George A. Page Jr.  Um total de 200 C-46As em dois lotes iniciais foram encomendados em 1940, embora apenas dois tenham sido entregues até 7 de dezembro de 1941. Neste momento, uma outra mudança importante foi feita com a troca dos motores originais Wright Twin Cyclones, por dois novos e mais potentes motores Pratt & Whitney R-2800 Double Wasp de 2.000 hp cada. Até novembro de 1943, mais de 721 modificações haviam sido feitas em modelos de produção, embora muitas fossem pequenas, como mudanças no sistema de combustível e redução de janelas de cabine. Contratos militares subseqüentes para o C-46A estenderam a produção para 1.454 aeronaves, quarenta dos quais foram destinados ao Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA, onde foram designados como R5C-1. O modelo militar foi equipado com portas duplas de carga, um piso reforçado e um guincho de movimentação de carga operado hidraulicamente; 40 assentos dobráveis eram a única acomodação de passageiros para o que era essencialmente um transportador de carga.
Durante o transcorrer da Segunda Guerra Mundial, foram produzidas 3.140 células de diversas versões do C-46 Curtiss Commando, sendo empregados em todos os teatros de operações sendo destinados a missões de transporte de carga, transporte VIP, transporte de tropas e pessoal e remoção aero médica. O modelo teve destaca atuação nos teatros da China, Burma e Índia. No subcontinente o C-46 foi essencial nas tarefas de ressuprimento das tropas aliadas na China, em face de suas características de desempenho superior ao C-47 em voos de grande altitude, tendo em vista que umas principais rotas de abastecimento exigiam o sobrevoo do Himalaia. No teatro de operações do Pacifico seu grande raio de alcance o tornaram ideal nas missões de ressuprimento das unidades militares espalhadas por centenas de ilha no pacifico. Na Europa sua atuação foi extremamente tímida quando comparada ao maciço emprego dos Douglas C-47 que praticamente foi o esteio da aviação de transporte aliada. Após o fim do conflito a USAF promoveu a retirada e desativação de milhares de aeronaves veteranas, entre elas centenas de C-46 em ótimo estado que começaram a ser cedidas a nações alinhadas com os Estados Unidos, entre elas Argentina, Bolívia, Columbia, Republica da China, Cuba, Equador, Republica Dominicana, Egito, Haiti, Honduras, Israel, Coreia do Sul, Japão, México, Laos e Peru. O emergente mercado civil no pós-guerra também foi um mercado interessante que passaria a empregar o modelo em larga escala.

Emprego no Brasil.

Após o termino da Segunda Guerra Mundial, o governo norte americano, no intuito de manter sua influência geopolítica começou a fornecer material bélico usado para nações alinhadas, entre estes estavam centenas de aeronaves Curtiss C-46 comando de transporte. No entanto o numero de aeronaves que fora desmobilizado logo após ao fim do conflito era de proporções gigantescas, mais notadamente no segmento de aeronaves de transporte, representando assim milhares de Douglas C-47 Sky Train, Consolidated C-87 Liberator e Curtiss C-46 Commando, estando a estando a maioria em excelente estado de conservação com poucas horas de voo. Assim o comando das forças armadas norte americanas procedeu a alienação das aeronaves de transporte (ao contrario das aeronaves de caça e bombardeiro que foram sucateados), a ideia inicial era dar vazão a esta demanda mediante oferta ao mercado de transporte civil nos Estados Unidos e demais países. Os preços e partida para venda geraram uma grande oportunidade para as empresas aéreas e investidores, pois as aeronaves de transporte foram oferecidas ao mercado civil por valores irrisórios que oscilavam entre US$ 40 e US$ 50 mil dólares. Rapidamente milhares de células foram adquiridas por operadores civis de todo o mundo, este visível sucesso traria consequências econômicas serias para a indústria aeronáutica daquele pais, pois criou se um efeito colateral, prejudicando as vendas de novas aeronaves, a Curtiss-Wright Corporation foi atingida diretamente impedindo assim o desenvolvimento de uma nova versão do modelo.Curiosamente este fenômeno seria o fato gerador da cultura de reciclagem de matérias, passando as aeronaves restantes a serem desmontadas sistematicamente para o aproveitamento de matéria prima.

O Brasil pós-guerra se encontrava em um período de efervescência no que tange aos esforços de integração nacional e este processo de alienação de aeronaves de transporte ao mercado civil representava uma verdadeira “pechincha” e também passaria a seduzir também vários empresários investidores brasileiros que vinham neste negócio uma grande oportunidade de alavancar novas empresas aéreas no país. As inúmeras empresas de transporte aéreo que surgiram neste período no Brasil, tiveram em sua maioria vidas efêmeras, tinham em comum a participação do empresário Vinicius Valadares Vasconcellos, que se especializou na importação e revenda de aeronaves usadas dos Estados Unidos, entre seus principais produtos estavam o Douglas C-47 Sky Train e o Curtiss C-46 Commando que foram fornecidas as dezenas ao mercado brasileiro. Na aviação civil brasileira o papel da aeronave da Curtiss foi muito importante no processo de integração nacional, principalmente pelo seu longo alcance. Sua aquisição pela Varig no final do ano de 1948 permitiu a empresa a atingir a região nordeste do país, empregando essas aeronaves as configurações: Luxo (só passageiros), Mista (passageiros e carga) e Cargueiro (interior transformado para esse fim). A versão Luxo tinha apenas 36 assentos, as poltronas estavam dispostas numa configuração 2+2, eram mais largas do que na configuração original e a cabine de passageiro possuía ventiladores. Já a versão Mista tinha 46 assentos e as poltronas estavam dispostas em configuração 2+3. O modelo seria empregado com ênfase também pela Real-Aerovias-Nacional.
Em fins de 1948 a empresa gerida por Vinicius Valadares Vasconcellos atravessou um período de dificuldade financeira e passou a não dispor de fluxo de caixa para honrar seus compromissos, neste período estavam em estoque duas células do Curtiss Comando C-46A que eram recém-chegados ao Brasil e portavam as matriculas PP-XBR e PP-XBX. A fim de fazer caixa para a empresa as duas aeronaves foram negociadas junto ao Ministério da Aeronáutica, culminando em sua aquisição para emprego em missões de transporte. Os aviões foram ao 2º Grupo de Transporte baseado no Galeão (2º GT), no dia 15 de outubro de 1948, onde passariam a ser designados como C-46 recebendo as matriculas militares FAB 2057 e FAB 2058. Nesta unidade os C-46 GT passaram a realizar tarefas de transporte de carga e passageiros, sendo as empregados em maior frequência nas missões em apoio ao governo federal, principalmente devido a volumosa capacidade de transporte interna. Estas aeronaves também eram oriundas das forças armadas americanas, sendo que o C-46 FAB 2057 serviu na USAAF (United States Army Air Force) em missões de transporte nos Estados Unidos. Já o FAB 2058 serviu no front de batalha, operando anteriormente junto ao Corpo de Fuzileiros Navais com a designação R5C-1 com a matricula BuaAer 50711, sendo empregado no esquadrão VMR-252 que estava sediado na ilha Kwajalein, unidade esta que estava encarregada diretamente do ressuprimento das tropas e evacuação aero médica nas operações táticas destinadas a invasão da ilha de Okinawa.

Apesar de registrar excelente desempenho em suas missões junto ao 2º Grupo de Transporte (2º GT) principalmente nas linhas do Correio Aéreo Nacional (CAN), no Brasil e para o exterior, o modelo registraria um sinistro, pois infelizmente em 13 de outubro de 1949 o C-46 Commando FAB 2057 apenas  onze meses após ter sido incorporado a aeronave se acidentou na cidade boliviana de Oruro com perda total quando estava operando em uma linha internacional do CAN. Mais afortunado, o FAB 2058 seguiu desempenhando as mesmas missões atribuídas ao 2º GT. Esta unidade possuía sua dotação formada em sua maioria pelos Douglas C-47 Sky Train, ao longo do tempo verificou se que em virtude de padronização dos processos de manutenção e gestão do fluxo de peças de reposição não era aconselhável operar somente com uma unidade de um modelo específico de aeronave. Assim em novembro de 1952 o C-46 FAB 2058 foi transferido para 2º/2º Grupo de Transporte Esquadrão Corsário onde serviria até fins de 1956. Em janeiro do ano seguinte a aeronave foi transferida para o  Parque de Aeronáutica dos Afonsos (PAAF),onde foi utilizado como aeronave orgânica, realizando missões de apoio às Unidades da FAB cujos aviões eram revisados em tal Parque. Infelizmente dificuldades na obtenção de peças de reposição (devido a descontinuação da produção modelo há muitos anos) levariam a desativação da aeronave, sendo a mesma excluída do serviço ativo da Força Aérea Brasileira em 17 de abril de 1968, encerrando assim a sua carreira militar no Brasil.
Após a sua desativação, o C-46 FAB 2058 permaneceu estacionado no pátio do Parque de Aeronáutica dos Afonsos (PAAF), sendo até temporariamente incluído no acervo do recém-criado Museu Aeroespacial em 1973 no aguardo de ser preservado. Infelizmente, o parecer da época foi desfavorável, pois foi julgado de valor insignificante para a Força Aérea Brasileira, que só havia operado duas unidades. Em fins de 1980, a aeronave foi trasladada para o Aeroporto Santos-Dumont no Rio de Janeiro, onde permaneceu por cerca de oito anos abandonada no tempo e na maresia, quando foi recuperada novamente e deslocada para Belém no estado do Para , onde operou na Taxi Aéreo Royal até meados de 1996, quando foi quando foi desativada e abandonada neste mesmo aeroporto. Já com nova filosofia, em meados de 1997, o Museu Aeroespacial - MUSAL, iniciou gestões junto aos seus proprietários, com a finalidade de adquirir o C-46 PP-LBP e trazê-lo para o Rio de Janeiro, para que fosse preservado. A aeronave foi novamente adquirida e trasladada em vôo para as oficinas da VARIG, no Aeroporto Internacional Tom Jobim (Galeão), no Rio de Janeiro, onde recebeu a pintura da FAB, em seu último esquema, que foi utilizado no PAAF no final de sua operação, e preparou-o para o seu último vôo, que ocorreu em 03 de julho de 1998, na rota Galeão - Campo dos Afonsos, sendo pilotado pelos Comandantes José Jaú Margalho e Elizeu Fernandes, sendo assim finalmente incorporado ao acervo do Museu Aeroespacial.

Em Escala.

Para representarmos o C-46 Commando "FAB 2058" utilizamos o antigo kit do fabricante Willian Bross na escala 1/72, modelo este que demanda extrema paciência e perseverança do modelista dado o nível de qualidade do mesmo, porém esta é a única opção para se representar esta aeronave. Decais confeccionados pela FCM Decais de vários sets compuseram a finalização do modelo.

O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o terceiro padrão de pintura empregado pela aeronave, sendo inicialmente recebidas em um esquema de metal natural, que foi alterada em 1953 com marcações em day glo de alta visibilidade, e em 1958 após uma revisão em âmbito de parque viria a receber o mesmo esquema padrão dos Douglas C-47.



Bibliografia :

- Curtiss C-46 na Varig -  https://www.varig-airlines.com/pt/c46.htm
- Aeronaves Militares Brasileiras 1916 / 2015  - Jackson Flores Jr
- Curtiss C-46 Commando   Wikipedia - http://pt.wikipedia.org/wiki/Curtiss_C-46_Commando
História da Força Aérea Brasileira , Prof Rudnei Dias Cunha -  http://www.rudnei.cunha.nom.br/FAB/index.html