A-26C/B-26C Douglas Invader

História e Desenvolvimento.
A Douglas Aircraft Company foi fundada em 22 de julho de 1921, em Santa Monica, Califórnia, por Donald Wills Douglas, um dos mais influentes engenheiros aeronáuticos da primeira geração da aviação moderna. A criação da empresa ocorreu após a dissolução da Davis–Douglas Company, experiência que forneceu a Douglas as bases técnicas e empresariais para empreender de forma independente. O primeiro grande salto reputacional da Douglas ocorreu com sua participação no ambicioso programa World Flight, conduzido pelo Serviço Aéreo do Exército dos Estados Unidos (United States Army Air Service – USASS). Para essa missão histórica, cujo objetivo era realizar a primeira circum-navegação aérea do globo, a empresa desenvolveu o Douglas World Cruiser (DWC), derivado do bombardeiro biplano DT. Projetado sob a liderança do jovem engenheiro Jack Northrop, o DWC combinava robustez estrutural, versatilidade operacional e soluções inovadoras para longos voos sobre regiões inóspitas. Em 1924, duas das quatro aeronaves construídas completaram com êxito a volta ao mundo, percorrendo cerca de 43.500 quilômetros em 175 dias. O sucesso da missão projetou a Douglas internacionalmente e levou a empresa a adotar o lema “First Around the World”, símbolo de sua excelência técnica e pioneirismo. Ao longo da década de 1920, a Douglas consolidou-se como fornecedora de aeronaves militares, com especial ênfase nas necessidades da Marinha dos Estados Unidos (US Navy). A empresa especializou-se em bombardeiros-torpedeiros embarcados, desenvolvendo modelos como o T2D e o XT3D. Essas aeronaves estabeleceram um padrão de confiabilidade que se tornaria uma das marcas registradas da Douglas. Paralelamente, a empresa expandiu suas instalações e transferiu-se para Clover Field, em Santa Monica, que se tornaria um dos principais polos industriais e de testes da aviação norte-americana. A década de 1930 marcou uma profunda transformação na empresa,  atenta às mudanças do mercado e às oportunidades da aviação civil, diversificou-se significativamente sua linha de produtos, passando a desenvolver bombardeiros, caças, aeronaves de reconhecimento, transportes e projetos experimentais. Em 1934, a Douglas ingressou definitivamente no setor de transporte comercial com o Douglas DC-2, um bimotor moderno, eficiente e confiável, que rapidamente conquistou companhias aéreas nos Estados Unidos e na Europa. O DC-2 demonstrou que o transporte aéreo poderia ser seguro, regular e economicamente viável, abrindo caminho para uma revolução no setor. O verdadeiro ápice da Douglas ocorreu em 1936, com o lançamento do DC-3, aeronave que transformaria de forma definitiva a história da aviação mundial. O DC-3 tornou o transporte aéreo lucrativo sem subsídios governamentais, estabelecendo padrões de conforto, alcance e confiabilidade jamais vistos até então. O extraordinário sucesso principalmente no mercado civil,  forneceu à Douglas não apenas solidez financeira, mas também a confiança institucional necessária para avançar em projetos ainda mais ambiciosos no campo da aviação militar. Assim no final desta década, a  empresa voltou sua atenção ao desenvolvimento de um bombardeiro médio de alta velocidade, capaz de transportar uma carga significativa de armamentos e, ao mesmo tempo, suficientemente rápido e manobrável para reduzir sua vulnerabilidade à interceptação inimiga. 

Esse esforço, iniciado em 1936 e conduzido por uma equipe de engenheiros liderada por Donald Douglas, Jack Northrop e Ed Heinemann, culminou na concepção do Model 7A, apresentada no primeiro trimestre de 1937  um projeto que abriria caminho para uma nova geração de aeronaves de ataque e consolidaria ainda mais a posição da empresa  como protagonista da aviação militar mundial. Em 1938, oa aeronave evoluiu para o Model 7B, um projeto significativamente mais ambicioso, concebido para atender aos rigorosos requisitos estabelecidos pelo Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (United States Army Air Corps – USAAC) em uma concorrência destinada ao desenvolvimento de uma aeronave de bombardeio médio de alta velocidade. O protótipo do  Model 7B realizou seu primeiro voo em 26 de outubro de 1938, nas instalações da Douglas, em Santa Monica, Califórnia. Embora apresentasse especificações promissoras e desempenho competitivo, o projeto não foi selecionado , sendo preterido em favor do North American B-25 Mitchell, que entraria em serviço operacional a partir de 1941. À primeira vista, essa decisão poderia ter representado o fim do Model 7B; contudo, os desdobramentos do cenário internacional alterariam profundamente o destino da aeronave.  Com o agravamento das tensões globais após a Crise de Munique, em setembro de 1938, as principais potências europeias passaram a adotar programas acelerados de reaparelhamento de suas forças aéreas. A França, em particular, buscou nos Estados Unidos aeronaves modernas capazes de reforçar rapidamente sua aviação de bombardeio. Nesse contexto, o Model 7B encontrou uma nova e decisiva oportunidade. A encomenda inicial francesa de 100 aeronaves, posteriormente ampliada para 270 unidades, marcou a transformação definitiva do projeto no Douglas DB-7, um bombardeiro leve que viria a se tornar um dos modelos mais importantes da Segunda Guerra Mundial. Paralelamente, em junho de 1939, o próprio orpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC) decidiu adquirir 63 aeronaves DB-7, que receberam a designação militar A-20. Essas aeronaves eram equipadas com motores Wright R-2600-7 e apresentavam características semelhantes às versões DB-7B destinadas ao Reino Unido. Dentro dessa encomenda, 60 aeronaves seriam convertidas para a função de caça noturno, recebendo a designaçãoP-70. Essas versões foram equipadas com o radar britânico AI Mk. IV e armadas com quatro canhões de 20 mm instalados sob o ventre da fuselagem.  A queda da França em junho de 1940 interrompeu significativamente as entregas previstas aos franceses, levando à redistribuição das células já produzidas. As aeronaves remanescentes foram então incorporadas pela Força Aérea Real Britânica (Royal Air Force – RAF), que as redesignou como Boston I e Boston II. Esses aviões tornaram-se peças-chave nas operações aliadas no Norte da África, no Mediterrâneo e sobre a Europa Ocidental, destacando-se pela velocidade, robustez e versatilidade. A evolução do projeto prosseguiu com o surgimento de novas variantes. O A-20A, equipado com motores Wright R-2600-3, era equivalente ao Boston III britânico. Em seguida, o A-20B incorporou motores Wright R-2600-11 e passou a contar com armamento reforçado, incluindo metralhadoras Browning calibre 12,7 mm no nariz e nas posições defensivas. Aproximadamente 665 unidades dessa versão foram enviadas à União Soviética no âmbito do programa Lend-Lease.

Outra variante significativa foi o A-20C, equipado com motores Wright R-2600-23, tanques de combustível autos selantes e blindagem aprimorada. Embora originalmente encomendado pelos britânicos, a maior parte dessas aeronaves também foi destinada à União Soviética, enquanto algumas unidades foram incorporadas ao Exército dos Estados Unidos (U.S Army) após o ataque japonês a Pearl Harbor, em dezembro de 1941. Apesar dos resultados operacionais positivos obtidos a partir do início de 1942, tornou-se evidente a necessidade de desenvolver, em curto prazo, um substituto mais moderno, potente e versátil para o A-20. Esse novo esforço de engenharia foi confiado à renomada equipe de projetos da Douglas Aircraft Company, liderada por Edward H. Heinemann, Robert Donovan e Ted R. Smith, profissionais cuja competência técnica e criatividade moldariam o futuro da aviação de bombardeio tático norte-americana. O primeiro protótipo, designado XA-26, realizou seu voo inaugural em 10 de julho de 1942, a partir da Mines Field, na cidade de El Segundo, Califórnia. A aeronave foi imediatamente submetida a um extenso e rigoroso programa de ensaios em voo. Embora apresentasse desempenho promissor e um perfil operacional considerado adequado, o Corpo Técnico Militar,  realizou uma avaliação minuciosa, resultando em uma extensa lista de modificações e exigências, sobretudo relacionadas à configuração do armamento ofensivo e defensivo. Essas demandas provocaram um alongamento significativo do cronograma de desenvolvimento, e a configuração definitiva da aeronave somente seria aprovada no início de 1944. Poucos meses depois, o novo bombardeiro, agora oficialmente designado A-26 Invader, teve seu batismo de fogo no Teatro de Operações Europeu. Em julho de 1944, aeronaves do 553º Esquadrão de Bombardeio, baseadas na Inglaterra, realizaram ataques contra alvos alemães na França ocupada, marcando o início de sua carreira operacional. Apesar dos elogios iniciais quanto ao desempenho, alguns problemas de projeto, como fragilidade das pernas do trem de pouso e problemas no sistema de refrigeração dos motores, passariam constantemente a afligir a frota, reduzindo em muitas suas surtidas operacionais de combate.  Já no teatro de operações do Pacífico, inicialmente o modelo encontraria forte resistência a sua implantação, muito em virtude de as tripulações estarem muito bem entrosadas com a operação dos A-20 Havoc. O processo de convencimento seria árduo, porém enfim, o A-26 Invader  já disposto nas versões mais aprimoradas, acabaria por ser aceito integralmente por todas a unidades aéreas alocadas naquele teatro de operações, tendo participado das mais importantes batalhas do conflito. Originalmente conforme proposta, a aeronave seria desenvolvida em duas configurações distintas, com a primeira sendo designada como A-26B destinada a ataque a solo, que seria dotado  com um nariz sólido, prevendo a instalação de diversas combinações de armamentos fazendo uso de metralhadoras M-2 Browning calibre .50 e canhões de 20 mm, com suas configurações mais distintas recebendo os codinomes de "six-gun nose" ou "eight-gun nose (seis ou oito armas no nariz).  A segunda versão designada como A-26C, teria aplicação específica para missões de bombardeio de queda livre em média altitude, e para isto dispunha do nariz transparente em plexiglass, equipado com as sofisticadas miras Norden. 

Inicialmente para autodefesa, seriam instaladas duas metralhadoras M-2 Browning calibre .50 fixadas no nariz na fuselagem, a exemplo dos A-20 Havoc, posteriormente a partir de 1570° célula produzida esta configuração original de armas, passariam a ser substituídas por seis metralhadoras do mesmo modelo, que seriam alojadas internamente nas asas. Sua  capacidade de transporte de carga útil como bombas e foguetes não guiados de até 1.814 kg , aliada ao seu eficiente sistema de autodefesa, manobrabilidade e comando dóceis, reuniria nos  A-26, qualidades especiais que estavam separados em diversos modelos de aeronaves de ataque e caça. Além do piloto, a tripulação era composta por um navegador que também executava as tarefas de carregador de munição das armas frontais, um terceiro assento estava localizado no compartimento traseiro e tinha por função a operação de controlar remotamente as torretas elétricas de metralhadoras dorsal e ventral.   Em 1944, a Douglas  recebeu substanciais contratos para a produção do A-26  refletindo a confiança, em sua capacidade de cumprir missões de ataque e reconhecimento. Um feito extraordinário com o A-26 ocorreu nos céus da Europa em 1945, quando uma aeronave pilotada pelo  Major Myron L. Durkee, do 386º Esquadrão de Bombardeiros, A-26 envolveu-se em um confronto singular contra um grupo de jatos  Me-262 Schwalbe. Apesar dessa disparidade tecnológica, o A-26 demonstrou notável eficácia ao alvejar gravemente um dos Me-262, se configurando como um possível crédito por abate.  Neste período com a iminência do fim do conflito, o governo norte-americano reavaliou suas necessidades estratégicas, revisando todos os contratos militares pendentes, com este processo envolvendo as encomendas dos A-26 resultando na entrega de apenas aproximadamente 2.400 células até agosto daquele ano. Diferentemente da maioria das aeronaves a pistão, que foram rapidamente desativadas ou destinadas a reservas após a guerra, o  modelo destacou-se por sua longevidade. Suas versões de ataque (A-26B e A-26C) e de reconhecimento (RB-26C) continuaram em serviço ativo, operadas por unidades da Força Aérea do Exército dos Estados Unidos (USAAF) estacionadas na Europa ocupada e no Japão. A eclosão da Guerra da Coreia, em junho de 1950, marcou um novo capítulo na história do A-26 Invader. As unidades do 3º Grupo de Bombardeiros, baseadas no sul do Japão, foram das primeiras a entrar em ação, conduzindo missões sobre a Coreia do Sul nos dias 27 e 28 de junho de 1950. Essas operações precederam a primeira missão de bombardeio norte-americana na Coreia do Norte, realizada em 29 de junho, quando um campo de aviação próximo a Pyongyang foi alvo de um ataque. Durante este conflito, o Douglas A-26 demonstrou sua eficácia devastadora, sendo responsável pela destruição de aproximadamente 38.000 veículos, 406 locomotivas, 3.000 composições ferroviárias e sete aeronaves inimigas em solo. Variantes especializadas, como os WB-26 e RB-26, pertencentes à 67ª Ala de Reconhecimento Tático, desempenharam papéis cruciais em missões de observação e reconhecimento climático. Essas operações forneceram informações vitais para o planejamento de ataques aéreos, garantindo maior precisão e eficácia nas campanhas militares.
A Guerra da Coreia representou um marco na transição da aviação militar, com a introdução gradual de jatos como o F-86 Sabre e o MiG-15, que desafiavam a supremacia das aeronaves a pistão. Apesar disso, o A-26, com seus motores radiais Pratt & Whitney R-2800 Double Wasp, manteve sua relevância devido à sua capacidade de operar em baixa altitude e em missões noturnas, onde jatos ainda enfrentavam limitações. Com o término deste conflito, uma significativa parcela da frota foi classificada como "excedente de guerra", passando a serem transferidas para as unidades de Guarda Aérea Nacional (National Guard), onde seriam empregadas em tarefas de treinando, sendo posteriormente armazenadas.   Neste mesmo período, os Estados Unidos implementaram programas de assistência militar para nações amigas, e neste contexto seria decidido que o A-26 Invader seria incluído como ativo a ser destinado a estes programas.  As primeiras aeronaves seriam cedidas a França, onde seriam inclusive empregadas na Guerra da Indochina (1946-1954). Na sequencia seriam disponibilizadas mais células para Colômbia, Chile, Brasil, República Dominicana, Guatemala, Indonésia, Laos, Nicarágua, Peru, Portugal, Arábia Saudita e Turquia. Nestas nações os Douglas A-26 Invaders seriam operados em missões  de segurança interna e contra insurgência, com destaque para as aeronaves portuguesas extremamente utilizadas nas guerras coloniais na África. Na década de 1960, o A-26  foi selecionado pela CIA para missões especiais devido à sua robustez, capacidade de operar em ambientes austeros, no ano seguinte 20 células foram secretamente transferidas para uma base na Guatemala. Lá, exilados cubanos, apoiados pelos Estados Unidos, foram treinados para a tentativa de invasão da Baía dos Porcos, em 15 de abril de 1961. O capítulo final das operações da CIA com o A-26 ocorreu na Tailândia, onde células operadas por militares norte-americanos apoiaram o governo do Laos na luta contra a guerrilha comunista Pathet Lao, durante os anos 1960.  Durante a Guerra do Vietnã (1955-1975), o A-26 foi revitalizado com a introdução da variante A-26K Counter-Invader, uma versão significativamente modernizada equipada com motores mais potentes e hélices atualizadas e tanques suplementares nas pontas das asas, que estendiam o alcance e a autonomia para operações prolongadas. E por fim inclusão de sistemas avançados, como o FLIR (Forward-Looking Infrared) para visão noturna, permitindo maior precisão em missões noturnas. O A-26K foi amplamente empregado na campanha contra a Trilha Ho Chi Minh, uma rede de rotas de suprimento usada pelas forças norte vietnamitas. Operando em missões noturnas, o Counter-Invader atacava comboios, depósitos e posições inimigas, dificultando a logística do Vietnã do Norte. O 609º Esquadrão de Operações Especiais, baseado na Tailândia, foi responsável por mais de 7.000 missões de combate, totalizando 19.762,7 horas de voo ao longo de dois anos.  O A-26K Counter-Invader marcou a última fase operacional do A-26, sendo retirado do serviço ativo somente no final de 1969. Essa desativação representou um marco histórico, pois o A-26 foi a última aeronave de ataque oriunda da Segunda Guerra Mundial a permanecer em operação na Força Aérea dos Estados Unidos (USAF). Sua longevidade reflete não apenas a qualidade do projeto original da Douglas Aircraft Company, mas também a capacidade de adaptação da aeronave às demandas de conflitos modernos, desde operações clandestinas até guerras de alta intensidade.

Emprego na Força Aérea Brasileira
Ao término da Segunda Guerra Mundial, a FAB emergiu como uma potência aérea regional de primeira grandeza, consolidando-se como a maior força aérea do Hemisfério Sul e a segunda mais expressiva do continente americano. Ao final do conflito, o inventário d ultrapassava 1.500 aeronaves consideradas modernas para os padrões da época, compondo um arsenal diversificado e operacionalmente equilibrado. Entre os principais vetores de combate destacavam-se caças-bombardeiros de primeira linha, como o P-47D Thunderbolt e o  P-40 Warhawk, além de aeronaves de ataque e bombardeio médio, como o  A-20 Havoc e o B-25 Mitchell. Esse conjunto era complementado por aeronaves de transporte, patrulha marítima e guerra antissubmarino (ASW), conferindo uma capacidade multifuncional inédita na região e consolidando-a como a segunda maior força aérea das Américas e a mais poderosa do Hemisfério Sul. O período do pós-guerra foi igualmente marcado por profundas transformações no cenário geopolítico internacional. Os Estados Unidos passaram a intensificar seus esforços para expandir e consolidar sua influência no hemisfério ocidental, inicialmente por meio da Política da Boa Vizinhança, instituída ainda na década de 1930 sob a presidência de Franklin D. Roosevelt. Com o advento da Guerra Fria, essa diretriz estratégica ganhou novo ímpeto, materializando-se em amplos programas de assistência militar e econômica conduzidos pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos (DoD), voltados especialmente às nações emergentes da América Latina. O objetivo central dessas iniciativas era conter a expansão da influência soviética, ao mesmo tempo em que se fortaleciam vínculos políticos, estratégicos e militares com países considerados aliados, assegurando estabilidade regional e cooperação hemisférica. Foi nesse contexto que o governo brasileiro recebeu uma proposta considerada particularmente vantajosa para a cessão de aeronaves militares excedentes norte-americanas, abrangendo diversos modelos, entre os quais se incluíam células do bombardeiro Douglas A-26 Invader. O Ministério da Aeronáutica (MAer), contudo, optou inicialmente por rejeitar a oferta, sustentando que a frota então em serviço de B-25B e B-25J Mitchell atendia de forma satisfatória às necessidades operacionais da Força Aérea Brasileira (FAB) no papel de ataque e bombardeio. Tal decisão refletia a confiança depositada na robustez e versatilidade do B-25, aeronave amplamente empregada em missões de treinamento, patrulha e ataque desde o período da guerra. Essa posição, entretanto, começou a ser progressivamente revista diante das rápidas mudanças no cenário operacional e logístico. Em 1956, o programa de suporte norte-americano ao B-25 Mitchell foi oficialmente encerrado, em razão do término de sua produção ainda em meados da década de 1940 e da consequente extinção dos estoques estratégicos de peças de reposição. O envelhecimento natural das células, aliado a anos de emprego intensivo, resultou em uma acentuada queda nos índices de disponibilidade da frota, afetando de maneira significativa a prontidão operacional.

Diante dessa crescente crise logística, o Alto-Comando foi compelido a iniciar estudos para a incorporação de um novo vetor de ataque, capaz de assegurar a continuidade das capacidades de bombardeio e apoio aéreo.  A ambição estratégica era clara: dotar a força de uma aeronave moderna, preferencialmente dotada de propulsão a jato, e nesse cenário, o bombardeiro britânico English Electric Canberra, nas versões B.8 e T.4, destacava-se como uma alternativa tecnicamente ideal para atender às necessidades. Tratava-se de uma aeronave moderna, já comprovada em serviço na Força Aérea Argentina (FAA), todavia, as severas restrições orçamentárias que marcaram o Brasil ao longo da década de 1950 tornaram inviável a aquisição de um vetor tão sofisticado e oneroso. Diante dessa realidade, a Força Aérea Brasileira (FAB) foi compelido a reavaliar suas opções, buscando soluções mais compatíveis com os recursos disponíveis, sem abrir mão de uma capacidade militar efetiva. Nesse contexto, o governo brasileiro encaminhou nova consulta ao Departamento de Defesa dos Estados Unidos (Department of Defense – DoD), com o objetivo de identificar alternativas capazes de suprir essa lacuna operacional. Como resultado, no âmbito do Programa de Assistência Militar (Military Assistance Program – MAP), foi apresentada ao Brasil uma proposta altamente vantajosa, contemplando a transferência de um lote de vinte e oito aeronaves Douglas B-26B e B-26C Invader, com reduzidas horas de voo e então armazenadas em condições adequadas de preservação. O acordo incluía, ainda, amplo suporte logístico, assegurado pelos próprios mecanismos de assistência militar norte-americanos, o que garantiria a manutenção, a operação e a longevidade das células transferidas. Em janeiro de 1957, uma comitiva de oficiais brasileiros deslocou-se até a Base Aérea de Davis-Monthan, em Tucson, Arizona, instalação dedicada ao armazenamento e preservação de aeronaves excedentes das Forças Armadas dos Estados Unidos, entre elas diversos exemplares do B-26 Invader. A missão dos oficiais brasileiros consistia em realizar uma criteriosa avaliação técnica das células disponíveis, selecionando aquelas que apresentassem o melhor estado de conservação e maior potencial de revitalização.  Uma vez selecionadas, as aeronaves foram transladadas por pilotos norte-americanos para as instalações da Fairchild Aircraft Support Division (ASD), localizadas em St. Augustine, Flórida, e Hagerstown, Maryland. Nessas unidades, os Invader passaram por um abrangente processo de revisão estrutural e técnica, envolvendo inspeções detalhadas, correções, ajustes e atualizações necessárias para assegurar plena segurança de voo e adequação às futuras missões operacionais no Brasil. As primeiras aeronaves Douglas B-26 Invader chegaram ao território brasileiro em setembro de 1957, dando início a um processo de incorporação que se estenderia até fevereiro de 1958. Ao final desse período, a Força Aérea Brasileira (FAB) havia recebido 24 aeronaves, distribuídas em seis voos de translado, todos conduzidos com precisão por tripulações norte-americanas.
Desse total, 10 exemplares pertenciam à variante B-26C, destinadas a  missões de bombardeio de queda livre em média altitude, e para isto dispunha do nariz transparente em plexiglass, equipado com as sofisticadas miras Norden.  Cabe destacar que os Invader incorporados não dispunham da tradicional torreta ventral presente em outras versões do modelo, mantendo como armamento orgânico quatro metralhadoras calibre.50 instaladas em pods sobre as asas e duas armas do  mesmo tipo montadas em uma torreta elétrica dorsal, conferindo-lhes elevada capacidade ofensiva para missões de ataque e bombardeio tático. Os Invader foram distribuídos aos 1º e 2º Esquadrões do 5º Grupo de Aviação (5º GAv), sediados na Base Aérea de Natal, no Rio Grande do Norte. O 1º/5º GAv, conhecido como Esquadrão Rumba, assumiu a responsabilidade principal pelas missões de ataque ao solo e bombardeio, enquanto o 2º/5º GAv, o Esquadrão Joker, passou a concentrar-se na transição de pilotos para aeronaves multimotoras e no treinamento operacional. As atividades desempenhadas pelos B-26B e B-26C incluíam patrulhas em regiões de fronteira, exercícios de ataque a alvos terrestres e a formação de novas gerações de aviadores militares, refletindo o esforço em manter elevados níveis de prontidão em um cenário internacional marcado pelas tensões estratégicas da Guerra Fria. Apesar de seu inegável potencial, a operação dos B-26 Invader revelou-se progressivamente desafiadora. Desde os primeiros anos de serviço, foram identificadas dificuldades relacionadas à manutenção preventiva e à obtenção de peças de reposição, problemas agravados pela gradual interrupção do suporte logístico norte-americano, situação semelhante à enfrentada anteriormente com os B-25 Mitchell. A maior parte das aeronaves transferidas à FAB havia sido produzida entre 1944 e 1945 e, já no início da segunda metade da década de 1960, apresentava sinais evidentes de desgaste decorrente de anos de uso intensivo. Diante desse quadro, em maio de 1963, os B-26 deixaram de ser empregados em missões de treinamento, função que passou a ser desempenhada pelas aeronaves Beechcraft H-18S (TC-45T), então incorporadas ao 2º/5º GAv – Esquadrão Joker. As aeronaves Invader remanescentes foram concentradas no 1º/5º GAv – Esquadrão Rumba, passando a cumprir exclusivamente missões de ataque e bombardeio, agora sob a subordinação do Comando Aerotático Terrestre. Nesse período, não apenas os B-26 brasileiros, mas a maioria das aeronaves do tipo ainda em operação ao redor do mundo, começou a apresentar sinais significativos de fadiga estrutural. O perfil agressivo das missões, caracterizado por voos em baixa altitude, manobras intensas e elevadas cargas estruturais, resultou no surgimento de rachaduras nas longarinas das asas, comprometendo a integridade das células. Essas falhas representavam riscos crescentes à segurança das tripulações e à continuidade das operações, impondo a necessidade de medidas corretivas urgentes. 

Como resposta a esse desafio, o governo norte-americano no âmbito do Programa de Assistência Militar (Military Assistance Program – MAP), apresentou o projeto “Wing Spar”, destinado à substituição das longarinas das asas dos B-26 operados por diversas forças aéreas latino-americanas, incluindo a brasileira. Concebido para restaurar a integridade estrutural das aeronaves, o programa representou uma iniciativa fundamental para prolongar a vida útil das células. Curiosamente, a Força Aérea Brasileira (FAB) optou por não aderir, naquele momento, a este programa, decisão que pode ser compreendida à luz das restrições orçamentárias e da priorização de outros projetos estratégicos. Essa escolha, embora pragmática dentro do contexto econômico da época, teve consequências diretas sobre a longevidade operacional da frota de B-26, pois seu perfil de emprego particularmente agressivo, resultariam no aparecimento de rachaduras nas longarinas das asas, uma anomalia grave que foi identificada pela primeira vez em 1966.  A descoberta acendeu um alerta imediato quanto à segurança das tripulações e à continuidade das operações de ataque e bombardeio, diante deste cenário seriam realizadas  tratativas com a Hamilton Aircraft Company, empresa especializada em processos de modernização de aeronaves militares. O escopo do programa contratado incluía um conjunto de intervenções profundas, entre as quais se destacavam a revisão completa e reforço das longarinas das asas, além da recuperação de outros componentes críticos afetados pelo desgaste e pela fadiga do material; atualização de aviônicos e dos sistemas de comunicação, modificações na cabine de pilotagem e reconfiguração do armamento, com a remoção da torreta elétrica dorsal, mantendo-se, contudo, o poderoso armamento principal composto por seis metralhadoras Browning M2 calibre .50 (12,7 mm) instaladas no nariz. Para a participação no programa, foram cuidadosamente selecionadas 16 células em melhor estado de conservação, sendo 12 da variante B-26B e 4 da variante B-26C, com estas aeronaves sendo transladadas em voo aos Estados Unidos em junho de 1967. A seguir estas células passariam por inspeções estruturais minuciosas, conduzidas por equipes especializadas. Como resultado dessas avaliações, uma das células foi reprovada, em razão de apresentar corrosão estrutural excessiva, sendo prontamente substituída por uma aeronave obtida localmente. Além disso, outros três exemplares foram adquiridos com a finalidade de substituir aeronaves anteriormente perdidas em acidentes durante operações no Brasil. As primeiras quatro células revitalizadas do B-26B retornaram ao Brasil em 7 de setembro de 1968, retomando a seguir suas missões de ataque e bombardeio, restabelecendo uma capacidade essencial da aviação de combate brasileira. A partir de 1970, as aeronaves passariam a ser progressivamente redesignadas na Força Aérea Brasileira (FAB) como A-26B e A-26C, alinhando-se à nomenclatura original do fabricante.  
Um capítulo particularmente singular na história do B-26/A-26 Invader ocorreu em 1970, quando uma célula adicional foi incorporada à frota de maneira absolutamente inesperada. Tratava-se de uma aeronave originalmente convertida para uso civil, empregada como transporte de carga, que foi apreendida pela Polícia Federal em decorrência de seu envolvimento em atividades ilícitas, notadamente contrabando e tráfico de entorpecentes.  Após criteriosa avaliação técnica e administrativa, decidiu-se por sua incorporação ao inventário, onde recebeu a designação Douglas CB-26B e a matrícula FAB 5176, passando a integrar oficialmente a frota.  No ano seguinte, em 1971, nove aeronaves  A-26 Invader foram transferidas para o 1º/10º Grupo de Aviação (GAv) – Esquadrão Poker, então sediado na Base Aérea de São Paulo (BASP). Essa transferência marcou a substituição dos já veteranos Douglas A-20K Havok, fazendo do Esquadrão Poker a terceira unidade  a operar o Invader. A partir desse momento, o A-26 passou a ser empregado em um amplo espectro de missões, incluindo ataque ao solo, reconhecimento fotográfico, esclarecimento marítimo e operações de COIN (contra-insurgência). Essas atribuições assumiam particular relevância no contexto estratégico da década de 1970, período em que o Brasil enfrentava desafios internos relacionados a movimentos armados de inspiração ideológica, ao mesmo tempo em que buscava reforçar a vigilância sobre suas extensas fronteiras terrestres e marítimas. A notável versatilidade do A-26 Invader permitiu ao Esquadrão Poker desempenhar um papel estratégico, combinando ações ofensivas pontuais com missões de vigilância, reconhecimento e apoio às forças terrestres. Embora a carreira operacional do modelo já se aproximasse de sua fase final, há indícios de que os A-26 da Força Aérea Brasileira tenham participado de ações reais de combate entre 1972 e 1973. Nesse período, as aeronaves teriam sido empregadas em missões sigilosas de contra-insurgência e reconhecimento fotográfico, inseridas no conjunto de operações militares conduzidas contra os movimentos de luta armada liderados por integrantes do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) na região do Araguaia, situada no então Centro-Oeste do país. Tais incursões, realizadas em um ambiente operacional sensível, foram cercadas por elevado grau de sigilo, característica marcante daquele conturbado momento da história nacional. Apesar do processo de revisão e modernização, logo em 1972, seriam novamente identificadas rachaduras nas longarinas das asas de algumas aeronaves, o que levou ao seu imediato recolhimento para inspeções e avaliações de segurança. Como consequência desse desgaste progressivo, em meados de 1974, apenas doze exemplares permaneciam em condições de voo. Diante desse cenário, foi iniciado o processo de retirada gradual do A-26 do serviço ativo, encerrando-se definitivamente em 3 de setembro de 1975. Nessa data, durante uma singela solenidade militar realizada na Base Aérea de Cumbica, o pouso do Douglas A-26C FAB 5159, encerrando 28 anos de serviço. Algumas células foram preservadas como testemunhos desse legado, com destaque para o FAB 5159 (U.S. BuNo 41-39288), originalmente um Douglas B-26C, que atualmente integra o acervo do Museu Aeroespacial (MUSAL), no Rio de Janeiro.

Em Escala.
Para representar o Douglas A-26C Invader FAB 5175, foi utilizado o kit da Monogram na escala 1/48, que reutiliza os moldes clássicos da Monogram. Embora o kit seja detalhado e fiel ao design original do A-26, ele apresenta um desafio técnico comum aos moldes mais antigos: as linhas de painel em alto relevo, que contrastam com os padrões modernos de modelismo que favorecem linhas em baixo relevo para maior realismo. Para compor a versão original recebida pela Força Aérea Brasileira (FAB)  é necessário apenas remover a torreta dorsal das metralhadoras calibre .50 Fizemos uso de decais produzidos pela FCM Decals  presentes no antigo Set 48/02.
O esquema de cores (FS) mencionado abaixo refere-se ao padrão de pintura inicial das aeronaves Douglas B-26B e B-26C recebidas em 1957, refletindo o esquema adotado pela Força Aérea dos Estados Unidos (USAF) no início da Guerra Fria. Neste período o padrão de pintura mais comum para essas aeronaves, especialmente em configurações operacionais, era o metal natural polido (sem pintura ou com acabamento em alumínio natural) ou um esquema monocromático, geralmente com superfícies metálicas expostas e áreas específicas pintadas para reduzir reflexos ou identificar unidades. Na Força Aérea Brasileira (FAB),  este padrão  foi mantido até 1967, com as aeronaves revitalizadas passando a seguir a adotar  um novo padrão tático em verde e cinza.

Bibliografia :
- Douglas A-26 Invader , Wikipedia - https://en.wikipedia.org/wiki/Douglas_A-26_Invader
- Aeronaves Militares Brasileiras 1916 – 2015 – Jackson Flores
- Invader na FAB , Claudio Lucchesi e José R. Mendonça  - Revista Asas  nº 10
- História da Força Aérea Brasileira , Prof Rudnei Dias Cunha - http://www.rudnei.cunha.nom.br/FAB/index.html

G512/514 US White Corbitt (VTNE-VTTNE)

História e Desenvolvimento. 
A origem da empresa remonta a 1895, quando o empreendedor Richard Corbitt, atento às oportunidades econômicas de seu tempo, fundou o negócio na cidade de Henderson, localizada no nordeste do estado da Carolina do Norte, nos Estados Unidos. Na fase inicial, a companhia concentrou suas operações na comercialização de tabaco, setor que vivia um período de vigoroso crescimento, impulsionado por um mercado interno aquecido e, ao mesmo tempo, marcado por um acelerado processo de concentração corporativa, conduzido por grandes conglomerados nacionais. Em meio a esse ambiente de prosperidade, Richard Corbitt demonstrou visão estratégica ao perceber a necessidade de diversificar suas atividades como caminho para a sustentabilidade de longo prazo. Esse discernimento o levou, em 1899, a ingressar no segmento de fabricação de carruagens de luxo, lançando seu primeiro modelo – produto que alcançou rápida aceitação entre consumidores de perfil mais abastado, ávidos por artigos que combinassem elegância, conforto e distinção social. O sucesso comercial dessa empreitada não apenas legitimou a nova vocação industrial da empresa, como também forneceu os recursos financeiros e o impulso moral que possibilitaram a ampliação de seus investimentos. Em 1907, acompanhando a ascensão da mobilidade motorizada e os primeiros sinais de expansão do mercado automotivo, a empresa executou seu passo mais ousado até então, ao desenvolver e lançar seu primeiro automóvel, então popularmente descrito como uma “carruagem sem cavalos”, expressão que revelava tanto o encanto quanto a estranheza que a nova tecnologia despertava na sociedade tecnológica do início do século XX. Embora tecnicamente promissor, o modelo encontrou um mercado ainda imaturo e fragmentado, refletindo-se em números modestos de vendas e na dificuldade de converter inovação em escala produtiva lucrativa. Determinada a aprimorar sua proposta e aumentar a competitividade de seu produto, a organização intensificou, a partir de 1910, a contratação de especialistas e operários qualificados oriundos de Detroit, cidade já reconhecida como o principal polo industrial automotivo norte-americano, onde estavam sediadas empresas de vanguarda, infraestrutura fabril avançada e uma mão de obra altamente especializada. Ainda assim, os desafios persistiram. Em 1912, a empresa comercializou apenas 12 automóveis, número que se revelou insuficiente diante da contundente concorrência de grandes montadoras, como a Ford Motor Company e a General Motors Company, corporações que já desfrutavam de ampla credibilidade junto ao público e dominavam a produção em série, distribuição e oferta de peças de reposição elementos determinantes para a preferência dos consumidores. O período impôs não apenas a competição tecnológica, mas também fortes dificuldades financeiras, compelindo a diretoria a adotar sucessivas reduções de preços, medida que, embora necessária para manter o fluxo de vendas, restringiu margem de lucro e expôs a empresa ao risco de inviabilidade comercial em sua vertente automotiva de carros de passeio. Após avaliações estratégicas profundas e um diagnóstico realista sobre a conjuntura industrial e as projeções do setor, a liderança executiva, sob a condução de seu presidente, decidiu realocar os esforços produtivos para um segmento menos saturado e de maior tração comercial. 

Assim, a partir de 1913, a empresa encerrou a produção de automóveis de passeio e iniciou o desenvolvimento de uma nova linha de caminhões comerciais leves e médios, mercado em expansão que oferecia maiores possibilidades de participação, menor dependência da competição direta com as gigantes de Detroit e custos de manutenção mais adequados à realidade dos compradores profissionais – autônomos, comerciantes, agricultores e governos regionais. A transição exigiu um intenso empenho humano do corpo de engenharia, projetistas e trabalhadores, que, em meio às limitações materiais, dedicaram-se ao redesenho das operações industriais e ao desenvolvimento de projetos inovadores, agora direcionados à logística sobre rodas de uso comercial. No início de 1914, já consolidando sua nova vocação, a companhia lançou seu primeiro caminhão comercial leve, veículo que obteve expressivo êxito de vendas, reforçando não apenas a viabilidade da mudança estratégica, mas também a capacidade da empresa de reinventar-se perante a adversidade. Esse sucesso inicial atuou como catalisador para a ampliação de sua linha de produtos, impulsionando a organização a atender, de forma cada vez mais ampla, as crescentes demandas do setor de transportes motorizados nos Estados Unidos  movimento que redefinia a mobilidade nacional no período pós-Revolução Industrial, às vésperas da Primeira Guerra Mundial. Em 1916, a empresa ampliou seus horizontes ao ingressar no setor de transporte intermunicipal, lançando seu primeiro modelo de ônibus, iniciativa que refletiu sensibilidade às necessidades de deslocamento de pessoas entre cidades em crescimento e confirmou sua habilidade de equilibrar inovação tecnológica com demandas cotidianas. No ano seguinte, em 1917, a introdução de um caminhão dedicado à coleta de resíduos urbanos – popularmente chamado, à época, de caminhão de lixo marcou um avanço estratégico. A versatilidade de aplicação desse novo veículo viabilizou a celebração de contratos com administrações governamentais locais, fortalecendo o fluxo de caixa e proporcionando maior estabilidade financeira à companhia. Enquanto isso, no cenário internacional, a escalada das tensões na Primeira Guerra Mundial alterava não apenas a política, mas também a indústria. Com a entrada formal dos Estados Unidos  no conflito, em 1917, a empresa assumiu um papel historicamente relevante ao firmar um contrato estratégico com o governo federal, para a produção de mais de 4.000 caminhões militares, destinados à American Expeditionary Forces (AEF) no front europeu. Esses veículos eram construídos majoritariamente em configurações 4x2, com versões 4x4 ainda em número limitado  resultado de esforços de desenvolvimento técnico iniciados no começo da década de 1910, quando engenheiros da empresa trabalharam para adaptar seus caminhões ao transporte em terrenos mais exigentes, antecipando necessidades que o mercado civil e militar posteriormente confirmariam. A capacidade de carga dos caminhões fornecidos à força expedicionária variava entre 1 e 5 toneladas, atendendo à diversidade logística de um conflito caracterizado por longas cadeias de suprimentos e condições de mobilidade por vezes severas. O desempenho desses veículos em serviço militar, aliado aos lucros expressivos obtidos por meio dos contratos de guerra, assegurou à companhia reservas financeiras robustas, fator que se tornaria vital na década seguinte.
Essas reservas foram decisivas para sustentar a empresa durante a Grande Depressão,  o amparo financeiro originado na produção militar permitiu à empresa manter um núcleo técnico-operacional ativo, em um momento no qual inúmeras indústrias sucumbiam à crise. Em 1933, Richard Corbitt, tomou a decisão de adquirir as operações remanescentes da Auburn Automobile Company, indústria automotiva já em processo de encerramento. A aquisição incluiu ferramental de produção, estoques de matéria-prima e peças semiacabadas, ativos que possibilitaram a incorporação de novos componentes visuais e estruturais como para-choques, capôs e grades  em sua linha de caminhões médios. Dessa integração nasceram, posteriormente, os modelos Corbitt GVW, nas classes de 11.000 e 13.000 libras de peso bruto veicular, que rapidamente conquistaram o mercado  de transporte de cargas médias. A adoção em larga escala por transportadoras da Carolina do Norte consolidou a relevância regional da marca, convertendo aceitação comercial em reputação pública e confiança operacional. Entre os momentos mais emblemáticos da companhia, destacou-se a participação indireta  mas simbólica  em uma das maiores operações logísticas rodoviárias já executadas, quando um de seus caminhões pesados foi empregado no transporte do colossal hidroavião H‑4 Hercules até a faixa litorânea de Long Beach, no estado da Califórnia. A operação, considerada o maior transporte de carga a granel por rodovia daquele período, projetou notoriedade à empresa ao associar sua imagem à capacidade técnica, robustez e confiança logística em larga escala – características que dialogavam diretamente com expectativas nacionais e governamentais durante o pré-guerra. Poucos anos depois, ao final de 1937, a atmosfera geopolítica global se tornava novamente instável. A ascensão do expansionismo militar-industrial da Alemanha Nazista e do avanço estratégico do Império do Japão alertavam governos democráticos para a possibilidade de um novo conflito de escala mundial. Nesse contexto, o governo dos Estados Unidos da América, atento à necessidade de modernizar e reestruturar rapidamente suas forças armadas, deu início a estudos e iniciativas de reaparelhamento militar industrial. Um dos principais objetivos era aumentar a mobilidade das forças terrestres, com o Comando do Corpo de Artilharia do Exército dos Estados Unidos demandando o desenvolvimento de uma linha de caminhões táticos pesados, capazes de operar em diversos tipos de terreno e condições climáticas, especialmente para tracionar peças de artilharia de grande calibre. Entre as especificações, destacava-se a necessidade de um caminhão com tração integral 6x6 e capacidade de carga de até seis toneladas (5.400 kg), projetado não apenas para o transporte de pessoal e suprimentos, mas também para desempenhar a função prioritária de rebocar peças de artilharia antiaérea e de campanha. Para atender a essa demanda, foi aberta uma concorrência em setembro de 1938, recebendo diversas propostas de fabricantes. O projeto apresentado pela The Corbitt Company, sediada em Henderson, Carolina do Norte, destacou-se pela robustez e inovação, sendo selecionado como vencedor.  Em dezembro de 1938, a empresa assinou um contrato inicial para a produção de cinco protótipos, destinados a avaliações e testes de campo, e de 200 caminhões pré-série, com entregas previstas para iniciar em janeiro de 1940.  Os testes realizados resultaram em melhorias significativas no projeto original, culminando no modelo de produção em série, designado como Corbitt 50SD-6.  Esse caminhão incorporava um novo design de cabine e um grupo propulsor mais potente, equipado com o motor Hercules HXD, um seis cilindros a gasolina que entregava 202 cv (151 kW) a 2.100 rpm e 642 lbf⋅ft (870 N⋅m) de torque a 900 rpm.  

O conjunto mecânico incluía uma transmissão manual de quatro velocidades não sincronizada, com primeira e quarta marchas de baixa relação, acoplada a uma caixa de transferência Timken com opções de alta, baixa e neutro para operação de tomada de força (PTO). Os eixos traseiros, do tipo Timken com redução dupla ("abóbora"), garantiam robustez, enquanto as versões cavalo mecânico utilizavam eixos traseiros ainda mais reforçados.  A estrutura do chassi, em formato de escada com três eixos vivos, contava com suspensão dianteira por molas de folha e suspensão traseira em tandem com braços localizadores, proporcionando estabilidade e resistência. Uma exceção a esse padrão era a variante guindaste (wrecker truck), que utilizava uma suspensão traseira de feixe ambulante para maior estabilidade em operações específicas.  Com a escalada da Segunda Guerra Mundial e a entrada oficial dos Estados Unidos no conflito em dezembro de 1941, a demanda por veículos militares cresceu exponencialmente.  Nesse contexto, a The Corbitt Company celebrou um novo contrato com o governo norte-americano para o fornecimento de mais de cinco mil caminhões táticos 6x6, baseados no modelo Corbitt 50SD-6, projetado para atender às necessidades logísticas e operacionais militares. Contudo, a capacidade industrial limitada da empresa, sediada em Henderson, Carolina do Norte, tornou inviável atender a essa demanda em larga escala. Para superar essa restrição, a empresa tomou a decisão estratégica de ceder os projetos e os direitos de produção à White Motor Company, que se tornaria, posteriormente, o principal fabricante dessa linha de caminhões. A partir de 1943, a Brockway Motor Company foi contratada pelo governo norte-americano para ampliar a capacidade produtiva, uma iniciativa que, no início de 1945, foi estendida à The Four Wheel Drive Auto Company (FWD). Durante o mesmo período, a Ward LaFrance Corporation assumiu a responsabilidade pela fabricação do chassi, que era então enviado às montadoras para a montagem final. Os caminhões foram produzidos em 7 versões básicas, com carrocerias especializadas adaptadas a diferentes funções operacionais. Apesar de serem fabricados por diferentes empresas, os modelos apresentavam mínimas variações, mantendo um alto grau de padronização. Inicialmente, os lotes entregues utilizavam cabines comerciais com teto rígido. A partir de 1943, no entanto, as versões passaram a incorporar tetos de lona e meias portas, otimizando o transporte marítimo até a Europa.  Principais Versões do Corbitt 50SD-6 - Prime Mover: O modelo mais produzido, projetado para o transporte de cargas e pessoal, equipado com um engate traseiro capaz de rebocar cargas ou veículos de até 18.000 kg. Incluía um guincho hidráulico com capacidade de 11.000 kg, montado em um tambor no lado direito do chassi, garantindo versatilidade em operações logísticas. - Cavalo Mecânico: Desenvolvido para tracionar peças de artilharia pesadas ou rebocar pranchas para o transporte de blindados, este modelo contava com um guincho hidráulico de 11.000 kg instalado na parte frontal do veículo, reforçando sua capacidade de lidar com cargas pesadas.- Transporte de Pontões: Uma versão especializada para batalhões de engenharia, equipada com sistemas para movimentação de peças de pontões flutuantes. Incluía um compressor de ar auxiliar e grandes tanques reservatórios para inflar boias de pontão, essenciais em operações de construção de pontes temporárias.- Guindaste (Wrecker Truck): Projetado para recuperação de veículos, este modelo era equipado com um dispositivo rotativo acionado por um motor auxiliar IHC de 334 polegadas cúbicas (5.5 L), de quatro cilindros em linha, desenvolvendo 35 hp, garantindo eficiência em operações de resgate e manutenção em campo.
Por fim, produzidas em quantitativo mais restrito ao longo do conflito, destacaram-se as variantes especializadas, entre elas a viatura cisterna para transporte de água, a versão equipada com tanque de combustível, o modelo dedicado às comunicações táticas  utilizado, em um papel singular, para rebocar e prover energia ao conjunto de radares antiaéreos do sistema SCR‑545‑A, integrante da defesa aérea aliada  e, por fim, a versão de combate a incêndio empregada em bases aéreas, dotada de motores auxiliares que alimentavam dispersores de espuma química a partir de sistemas próprios de geração de força, aplicação aprimorada pela adoção de propulsores auxiliares acionando dispersores de espuma química. Do deserto às regiões de floresta densa, esses veículos vivenciaram, sob o esforço aliado, cenários de severa exigência operacional. Enfrentaram a poeira abrasiva do Norte da África, o lodaçal persistente da Europa Ocidental, como nas travessias estratégicas do Rio Reno, além da umidade extrema e terrenos instáveis das ilhas do Pacífico, onde a infraestrutura frequentemente inexistia ou havia sido devastada pelos combates. Em todas essas frentes, seu emprego revelou-se determinante para o êxito logístico e tático das operações aliadas, permitindo que tropas e suprimentos se mantivessem em movimento, mesmo quando a natureza impunha obstáculos quase intransponíveis. Na Normandia, as versões configuradas como tratores rodoviários assumiram a missão essencial de transportar munições, mantimentos e insumos críticos a partir do litoral, recém-assegurado, até as linhas avançadas, sustentando o ritmo do avanço aliado continente adentro. Do mesmo modo, as variantes destinadas ao transporte de equipamentos flutuantes modulares  incluindo conjuntos de pontões  desempenharam função vital em travessias fluviais rápidas, possibilitando a progressão acelerada das forças aliadas conforme adentravam o território alemão, muitas vezes superando posições defensivas antes que pudessem ser plenamente reorganizadas. No Teatro de Operações do Pacífico, caminhões adaptados à função de cavalo mecânico foram empregados na movimentação de equipamentos pesados em ilhas remotas, onde pistas estreitas, solo frágil e ausência de apoio mecanizado local exigiam improviso constante, habilidade e resistência humana. Até julho de 1945, a produção do modelo Corbitt 50SD‑6 alcançou a expressiva marca de mais de 200.000 unidades, resultado de uma mobilização industrial sem precedentes, conduzida pela The Corbitt Company em colaboração com empresas parceiras como a White Motor Company, a Brockway Motor Company e a Ward LaFrance. Esses caminhões estiveram presentes em praticamente todos os principais fronts de combate, provendo suporte logístico, deslocamento de cargas e tração de conjuntos críticos à defesa antiaérea e operações de manutenção, convertendo a engenharia rodoviária em vantagem estratégica no campo de batalha. Após o término do conflito, sua trajetória de serviço não se encerrou, sendo novamente empregados durante a Guerra da Coréia (1950-1953) em missões de socorro e resgate, na remoção de viaturas avariadas sob condições de extremo frio e relevo montanhoso, e na tração de peças de artilharia e equipamentos de apoio, muitas vezes sob invernos particularmente rigorosos.

Emprego no Exército Brasileiro.
No alvorecer da década de 1940, em meio ao avanço acelerado do conflito global, a ameaça estratégica percebida pela liderança da Casa Branca  sede do Executivo dos Estados Unidos  trouxe o continente americano para o centro das projeções de defesa hemisférica. O governo de Washington, conduzido sob a presidência de Franklin D. Roosevelt, passou a examinar com crescente apreensão a possibilidade de incursões diretas ou iniciativas de projeção militar das potências do Eixo  aliança formada por Alemanha, Itália e Japão. A capitulação da República Francesa, em junho de 1940, conferiu ainda maior densidade a essa preocupação, pois abriu margem para que Berlim, sob a liderança de Adolf Hitler, avaliasse a utilização de territórios insulares e enclaves coloniais no Atlântico e na África Ocidental como pontos de apoio logístico e operacional  entre eles, posições no entorno de Dacar, então parte da África colonial francesa, e possíveis articulações projetadas a partir das Ilhas Canárias, arquipélago espanhol no Atlântico. Nesse quadro geopolítico, o território brasileiro passou a figurar, nos estudos de defesa norte-americanos, como eixo crítico para a segurança do Atlântico Sul. A localização do Brasil, especialmente sua projeção oriental em direção à África, somada ao valor crescente de suas matérias-primas estratégicas, tornava-o peça essencial no equilíbrio de forças do teatro atlântico. Após as expansões territoriais do Império do Japão no Sudeste Asiático e no Pacífico Sul, o Brasil consolidou-se, para os Aliados, como principal fonte confiável de látex amazônico insumo então indispensável à produção de borracha natural, aplicada em pneus, vedações e uma vasta cadeia de artefatos necessários ao esforço de guerra. O Nordeste brasileiro, por sua vez, reunia atributos adicionais de importância estratégica. O Recife, principal núcleo urbano do Nordeste à época, localizado no estado de Pernambuco, representava o menor ponto de distância transatlântica entre a América do Sul e o litoral da África Ocidental. Essa condição o transformou em vértice preferencial para a constituição de uma “ponte logística do Atlântico”, possibilitando operações portuárias e a implantação de bases aéreas capazes de sustentar o fluxo contínuo de aeronaves, suprimentos e, posteriormente, tropas aliadas com destino ao Teatro Europeu e à campanha no Norte da África. A convergência desses fatores acelerou a aproximação político-econômica entre Brasília e Washington. Esse estreitamento materializou-se por meio de acordos de cooperação e investimentos estruturantes, entre os quais a adesão do Brasil ao Lend-Lease Act, legislação federal dos Estados Unidos sancionada em 1941, que estabelecia a concessão de crédito e o arrendamento ou transferência de material militar aos países alinhados ao esforço aliado. Nos entendimentos iniciais costurados pelo Palácio do Catete — então sede do governo brasileiro durante a presidência de Getúlio Vargas , foi estabelecida uma linha de crédito da ordem de US$ 100 milhões, destinada a reequipar e modernizar as Forças Armadas do Brasil, abrangendo a aquisição de aeronaves, blindados, carros de combate, navios, armamentos e caminhões militarizados. A intensificação do comércio exterior brasileiro, sobretudo com os Estados Unidos e o Reino Unido, aumentou o trânsito marítimo no Atlântico, expondo rotas civis e cargueiros a ações hostis de submarinos alemães no litoral acentuou o sentimento de vulnerabilidade.

Neste mesmo peridos, nos anos iniciais da Segunda Guerra Mundial, o Exército Brasileiro vivenciava um período crítico de transição. Embora contasse com o reconhecido valor e a resiliência de seu efetivo humano, a força terrestre enfrentava um cenário de acentuada defasagem tecnológica em seus armamentos e meios de apoio. Entre as lacunas mais sensíveis, destacava-se a escassez de caminhões militares dotados de tração integral, nas configurações 4x4 e 6x6 capacidades já consolidadas nas doutrinas de exércitos modernos e essenciais para a mobilidade em terrenos heterogêneos, como estradas precárias, áreas alagadiças, regiões serranas e teatros de operações sem infraestrutura. Os poucos veículos então disponíveis eram predominantemente caminhões civis adaptados, solução emergencial que refletia o esforço das equipes de manutenção e o engenho dos próprios militares em suprir, com criatividade e dedicação, aquilo que o parque industrial brasileiro ainda não conseguia oferecer em escala. Entre os principais modelos empregados nesse papel, figuravam o Chevrolet Gigante, o Chevrolet Tigre, o Dodge T‑203 e o Ford V8. Também integravam a frota um número restrito de caminhões de concepção militar importados antes do alinhamento do Brasil aos Aliados, a exemplo do Henschel 33 D1 6×6 e do Thornycroft Tartar 6×4. Apesar de valiosos, esses veículos eram numericamente insuficientes para atender às crescentes demandas operacionais e logísticas de um exército que precisava se deslocar com rapidez e autonomia em um conflito moderno. Foi nesse contexto que a adesão do Brasil ao programa Lend‑Lease instituído pelo governo dos Estados Unidos se mostrou um divisor de águas. Mais que um aporte material, a iniciativa simbolizou o reconhecimento do papel geoestratégico brasileiro e, sobretudo, a confiança no compromisso e na capacidade das Forças Armadas do país. O programa previa a transferência de aproximadamente 4.000 caminhões militares ao Governo do Brasil, a maioria equipada com tração 4x4, concebidos para proporcionar maior versatilidade, durabilidade e alcance operacional às forças terrestres brasileiras. Entre os veículos de médio e grande porte, com tração 6x6, destacaram-se os 1.445 caminhões pertencentes às famílias do GMC CCKW e do Studebaker US6, produzidos pela General Motors e pela Studebaker, além de outras montadoras norte-americanas contratadas conforme a disponibilidade industrial da época. Essas unidades foram fornecidas em versões básicas e numerosas configurações especializadas, permitindo que atividades vitais não fossem interrompidas pela falta de apoio em campo. Dentre as variantes mais relevantes para a autonomia das tropas, incluíam-se: Viaturas cisterna para transporte e distribuição de água em regiões remotas; Caminhões-tanque para o suprimento seguro de combustível; Oficinas móveis, equipadas para a manutenção e o reparo de equipamentos e veículos diretamente no teatro de operações; Unidades de socorro e recuperação, destinadas a resgatar veículos avariados e manter a continuidade do fluxo logístico; Versões com equipamentos dedicados, como compressores de ar, holofotes, telêmetros e guindastes, empregados em atividades específicas de engenharia, artilharia e movimentação de cargas pesadas.
O impacto dessa nova frota foi imediato e duradouro. A chegada dos caminhões, e posteriormente de veículos mais robustos e especializados, viabilizou a expansão da mobilidade terrestre do Exército Brasileiro sendo recebido um contingente próximo a uma centena de veículos pesados, incluindo modelos originalmente desenvolvidos pela The Corbitt Company, com produção também atribuída a outras montadoras licenciadas. Nesse pacote, merecem destaque os caminhões-trator (prime movers) de grande porte: o Corbitt 514D6, o White 666 6×6, produzido pela White Motor Company, o Mack NO 7½‑ toneladas 6×6 e o caminhão de carga pesada Brockway 6‑Toneladas 6×6 Cargo. Embora a documentação oficial sobre todos os submodelos e configurações não seja integralmente preservada, registros fotográficos de época evidenciam a existência de viaturas recebidas tanto com teto rígido (hard top) quanto com cobertura de lona (soft top), indicando a coexistência de variantes conforme a disponibilidade produtiva e as necessidades operacionais impostas pelo conflito. Esses veículos passaram a integrar o inventário do Exército Brasileiro, sendo incorporados principalmente em unidades de transporte, engenharia e apoio de manutenção em campanha. Seu emprego refletiu não apenas a ampliação das capacidades logísticas da força terrestre, mas também a valorização do fator humano  soldados, motoristas e mecânicos que, até então, operavam com meios improvisados e sob severas limitações técnicas. As novas viaturas foram destinadas a missões essenciais para a mobilidade estratégica e o suporte operacional do Exército Brasileiro, incluindo o transporte de tropas, o deslocamento de cargas gerais e o resgate de equipamentos danificados em campo. Além disso, desempenharam papel indispensável na tração de peças pesadas de artilharia  tarefa que exigia potência, estabilidade e confiabilidade, sobretudo em áreas de infraestrutura restrita ou degradada pelos efeitos da guerra. Ao serem incorporados à doutrina de emprego da força terrestre, esses caminhões receberam designações oficiais padronizadas conforme a nomenclatura logística do Exército Brasileiro, a saber: VTNE Carga – Emprego Geral 6 Toneladas 6x6 EB-21 (Viatura de Transporte Não Especializada de Carga), destinada a suprir as múltiplas demandas de transporte em campanha, com ênfase em versatilidade e desempenho em terrenos adversos; VE Socorro Pesado de Rodas 6 Toneladas 6x6 EB-22 (Viatura Especial de Socorro Pesado de Rodas), configurada para operações de recuperação e reboque de veículos avariados, frequentemente empregada em situações de alto esforço mecânico, onde a rapidez no resgate significava a preservação de vidas e a continuidade da cadeia logística; VTTNE Trator s/ Rodas – Cavalo Mecânico Emprego Geral 8 Tonenladas 6x4 EB-30 Truck (Veículo de Transporte Tático Não Especializado, tracionador tipo cavalo mecânico), utilizado principalmente no reboque e arraste de equipamentos de maior peso e volume, complementando as capacidades de tração pesada em um momento em que o Exército Brasileiro consolidava sua motorização operacional em escala nacional.

No conjunto de viaturas destinadas ao Brasil por meio do programa de cooperação militar do Lend-Lease, distinguiram-se nove caminhões da família de tratores rodoviários G-512 Model 50SD-6, fornecidos em co-produção entre a The Corbitt Company e a White Motor Company. Dotados do motor Hercules HXD, com 202 cv de potência, esses veículos evidenciavam notável capacidade de tração, atributo que os tornava particularmente adequados ao reboque e transporte de cargas de elevado peso, bem como de equipamentos militares de maior dimensão e complexidade logística. Em sua fase inicial de emprego, os caminhões Model 50SD-6 foram distribuídos aos Grupos Móveis de Artilharia de Costa (GMAC). Nesse cenário, sua robusta concepção estrutural possibilitou a movimentação de peças de grosso calibre, destacando-se os canhões britânicos de 152,4 mm Vickers-Armstrongs M-1917, armamentos essenciais à dissuasão e à proteção das rotas marítimas e da infraestrutura portuária no nordeste brasileiro  região que, à época, reunia bases, aeródromos e pontos logísticos decisivos para a defesa do Atlântico Sul e para o suprimento aliado. A chegada dessas viaturas tornou a logística mais segura, o deslocamento mais previsível e, sobretudo, a operação menos onerosa à resistência física e ao desgaste humano das guarnições. Com a evolução doutrinária e logística, a função de artilharia de costa seria gradativamente assumida pelos tratores Minneapolis Moline GTX 147 do tipo G-641, modelo de maior mobilidade e eficiência na tração de sistemas pesados, dos quais o Brasil recebeu 99 unidades. Ainda assim, a versatilidade do Model 50SD-6 garantiu que parte dos exemplares permanecesse útil à Força Terrestre: alguns foram realocados para os Regimentos de Artilharia Antiaérea (RAAAé), onde passaram a tracionar os canhões antiaéreos norte-americanos M-1A3 AA de 90 mm, incumbidos da proteção do espaço aéreo em pontos sensíveis. Nota-se, contudo, que, apesar da ampla adoção do Model 50SD-6 pelas forças aliadas em operações logísticas na Europa, esses caminhões pesados não integraram o pacote de meios cedidos à Força Expedicionária Brasileira (FEB), a  ausência desses modelos na composição da FEB reforça o papel prioritário que lhes foi atribuído no Plano doméstico de defesa portuária e apoio de engenharia, ao invés do emprego em campanhas de longa projeção expedicionária. No Exército Brasileiro, as variantes 514D-6 de carga geral receberam a designação logística padronizada de VTNE Carga – Emprego Geral 2½-Ton 6x6 (EB-21 Truck), sendo inicialmente concentradas em unidades motomecanizadas e, mais tarde, distribuídas também aos Grupos de Artilharia de Campanha, para o reboque de obuseiros norte-americanos M-1 de 155 mm e outras peças logísticas associadas ao transporte tático em campanha. Já os nove exemplares fornecidos na configuração de trator rodoviário “cavalo mecânico” foram designados como VTTNE Trator s/ Rodas – Emprego Geral 8-Ton 6x4 (EB-30 Truck), e incorporados, em um primeiro momento, aos Batalhões de Engenharia de Combate (BEC). Nesses grupamentos, tracionando plataformas rodoviárias de carga, tiveram a relevante missão de transportar e movimentar tratores de esteira, motoniveladoras e outros equipamentos de engenharia, possibilitando obras, abertura de caminhos, instalação de infraestrutura militar e rápida resposta a demandas de mobilidade em áreas remotas ou sem pavimentação adequada.
Estes  seriam reforçadas também por caminhões Corbitt – White “VTNE Carga Emprego Geral 6 Ton 6x6 EB-21 Truck, 6-Ton, Prime Mover” chegando a dotar também  1º  Batalhão de Engenharia de Combate – Villagran Cabrita (1º B E Cmb), o  2º  Batalhão de Engenharia de Combate – Borba Gato (2º B E Cmb), o  3º Batalhão de Engenharia de Combate - Conrado Bittencourt (3º B E Cmb), o 4º Batalhão de Engenharia de Combate - Juarez Távora (4º B E Cmb) e por fim o 7º  Batalhão de Engenharia de Combate - Visconde de Taunay (7º B E Cmb). Nestas unidades estes caminhões pesados teriam grande importância na realização das atividades a eles destinados, comprovando sua extrema robustez operacional. No início da década de 1960, os caminhões Corbitt 50SD-6, que haviam servido com distinção ao Exército Brasileiro, começaram a enfrentar desafios significativos que comprometeram sua operacionalidade. Apesar de sua robustez e contribuições durante a Segunda Guerra Mundial e a Guerra da Coreia, as viaturas remanescentes dessa frota reduzida passaram a apresentar altos índices de indisponibilidade, resultado da crescente dificuldade em obter peças de reposição no mercado internacional. Essa situação foi agravada pelo encerramento das atividades industriais da The Corbitt Company em meados da década de 1950, o que interrompeu a produção de componentes essenciais. Particularmente, os motores a gasolina Hercules HXD de seis cilindros, peça central do desempenho desses caminhões, tornaram-se cada vez mais raros, com a escassez de fornecedores de peças novas ou usadas nas forças militares de outros países. Diante desse cenário, o Comando de Material do Exército Brasileiro tomou a decisão, a partir de 1966, de iniciar um processo gradual de retirada de serviço dessas viaturas. O primeiro modelo a ser desativado foi o VTNE Carga Emprego Geral 6 Ton 6x6, substituído pelos modernos REO M-35, que ofereciam maior disponibilidade e adequação às necessidades contemporâneas. Após a desativação, os componentes críticos desses caminhões foram cuidadosamente removidos e armazenados, enquanto chassis, cabines e carrocerias foram leiloados como sucata, encerrando um ciclo de serviço marcante. Os nove caminhões da variante VTTNE Trator s/ Rodas Cavalo Mecânico Emprego Geral 8 Ton 6x4, modelo Corbitt G-512 50SD-6, tiveram sua vida útil esticada graças à utilização de peças de reposição disponíveis, provenientes de outros veículos da mesma família. Esses cavalos mecânicos foram realocados para os Regimentos de Carro de Combate (RCC), onde assumiram a missão estratégica de transportar carros de combate leves, como os M-3 e M-3A1 Stuart, em plataformas rodoviárias. Sua robustez e capacidade de tração continuaram a ser valiosas, permitindo que permanecessem em operação até o final da década de 1970. A substituição definitiva desses caminhões ocorreu com a introdução do VTE-Cavalo Mecânico 17 Ton 6x6 Scania LT110-38S, um modelo mais avançado que atendia às exigências de modernização do Exército Brasileiro.

Em Escala.
Para representarmos o “VTNE Carga Emprego Geral 6 Ton 6x6” G-514 model 666 White Motor, foi representado pelo kit da Hobby Boss na escala 1/35, conhecido por seu elevado nível de detalhamento e pela inclusão de peças em photo-etched de alta qualidade. Incluímos em resina artefatos que simulam a carga em formato de caixas de suprimentos,  paletes de madeira e lonas de campanha. As marcações foram aplicadas com decais do conjunto “Exército Brasileiro 1942-1982” da Eletric Products, garantindo autenticidade às insígnias e detalhes históricos.
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura do Exército dos Estados Unidos (US Army) durante a campanha na Europa durante a Segunda Guerra Mundial, esquema este com que estes caminhões foram recebidos no Brasil. Este padrão seria mantido ao longo de todo seu tempo de serviço, recebendo apenas ligeiras alterações em termos de marcações de numero de série e unidades operativas. 

Bibliografia

- White 666 Cargo - Corbitt Truck 6X6 – Wikipedia https://en.wikipedia.org/wiki/6-ton_6%C3%976_truck 

- Pesquisa Acordo Leand & Lease ActEvilésio Pedro da Costa 

- Manual Técnico – Exército Brasileiro 1976