M-102 L/22 (105 mm)


História e Desenvolvimento.
O calibre 105 mm consolidou-se como um verdadeiro divisor de águas na evolução da artilharia de campanha ao longo do início do século XX, sobretudo em decorrência das duras lições extraídas da Primeira Guerra Mundial. O conflito, marcado por combates estáticos e extensas linhas de trincheiras, evidenciou a centralidade do apoio de fogo indireto como elemento decisivo no campo de batalha. Nesse contexto, os exércitos europeus com destaque para o alemão demonstraram a superioridade operacional de obuseiros de médio calibre, como o leichte Feldhaubitze 16 (leFH 16), cuja combinação de alcance, potência de fogo e mobilidade relativa oferecia vantagens táticas substanciais.Em contraste,  peças de menor calibre, como o Canon de 75 modèle 1897, amplamente empregadas pelos Aliados, revelaram limitações diante das novas exigências da guerra industrializada. Embora notável por sua cadência de tiro e precisão, o canhão francês de 75 mm mostrava-se menos eficaz contra posições fortificadas e entrincheiradas, onde o projétil de maior massa e trajetória curva do obuseiro de 105 mm se mostrava mais adequado. A eficácia alemã nesse campo reforçou a percepção de que a artilharia moderna exigia não apenas rapidez, mas também maior versatilidade e poder destrutivo. Com o armistício de novembro de 1918, a Força Expedicionária Americana (American Expeditionary Force – AEF), que atuara intensamente no teatro europeu, capturou um pequeno lote de obuseiros leFH 16. Essas peças foram remetidas aos Estados Unidos para análise técnica detalhada pelo Departamento de Artilharia do Exército norte-americano, dando início a um esforço estruturado de avaliação doutrinária e tecnológica. O estudo desses sistemas não se limitou à simples cópia de soluções estrangeiras, mas impulsionou um amplo programa de modernização, voltado à substituição gradual das peças de 75 mm ainda baseadas em concepções do final do século XIX. Esse processo culminaria no desenvolvimento do obuseiro M-2A1 de 105 mm, que passou a ser distribuído aos regimentos de artilharia de campanha no início de 1941. Seu batismo de fogo ocorreu durante a Campanha de Guadalcanal, no teatro do Pacífico, entre agosto de 1942 e fevereiro de 1943. Ali, em meio às severas condições climáticas e logísticas das ilhas Salomão, o novo sistema demonstrou elevada confiabilidade, mobilidade e eficiência no apoio direto às tropas de infantaria. Nesse período, o Exército dos Estados Unidos (U.S. Army) implementou uma estrutura organizacional padronizada para seus regimentos de artilharia de campanha, buscando maximizar a coordenação e a flexibilidade do apoio de fogo às divisões de infantaria e blindadas. A combinação de obuseiros de 155 mm e 105 mm refletia uma concepção equilibrada entre alcance, poder destrutivo e mobilidade tática. O obuseiro M-1 de 155 mm  posteriormente redesignado M-114  destinava-se a engajar alvos a maiores distâncias e a neutralizar fortificações ou concentrações inimigas com maior impacto. Já o M-2A1 de 105 mm, mais tarde reclassificado como M-101, destacava-se pela leveza, facilidade de transporte e rapidez de posicionamento, tornando-se ideal para o apoio direto e contínuo às unidades de primeira linha. Assim, cada regimento de artilharia passou a estruturar-se em um batalhão de 155 mm, equipado com doze peças, e três batalhões de 105 mm, igualmente com doze armas cada. A proporção de três para um evidencia a prioridade atribuída ao volume de fogo tático e à capacidade de resposta imediata às necessidades da manobra terrestre. Ao mesmo tempo, a presença do obuseiro de 155 mm assegurava o poder de choque necessário para missões de maior envergadura, consolidando um modelo organizacional que marcaria profundamente a doutrina de emprego da artilharia norte-americana ao longo da Segunda Guerra Mundial.

Ao término da Segunda Guerra Mundial, a produção do obuseiro M-2A1 de 105 mm alcançara a expressiva marca de 8.563 unidades, consolidando-o como a principal peça de artilharia desse calibre empregada pelas forças aliadas. Sua robustez, simplicidade construtiva e confiabilidade operacional tornaram-no um dos sistemas de apoio de fogo mais difundidos do conflito, permanecendo em serviço ativo no imediato pós-guerra. O eclodir da Guerra da Coreia, em 1950, impôs a retomada de sua produção. Durante esse novo cenário de conflagração, o obuseiro voltou a desempenhar papel relevante no apoio às tropas terrestres, sendo entregues ao Exército dos Estados Unidos mais 1.639 unidades até o final de 1953. Apesar de seu desempenho comprovadamente eficaz, tornavam-se cada vez mais evidentes certas limitações inerentes ao projeto concebido ainda nos anos 1930, particularmente no que se referia ao peso, à mobilidade tática e à capacidade de transporte aéreo. A crescente ênfase doutrinária na mobilidade  intensificada pela consolidação de operações aeromóveis e pela necessidade de atuação em terrenos de difícil acesso  passou a exigir meios de artilharia mais leves e versáteis. Paralelamente, o elevado grau de desgaste observado em grande parte das peças em serviço, fruto de seu emprego intensivo em dois grandes conflitos, reforçava nos altos escalões militares a percepção de que seria necessário, a médio prazo, desenvolver um substituto mais moderno e adaptado às novas realidades operacionais. Com esse propósito, no início da década de 1960 foi lançado um programa destinado ao desenvolvimento de um novo obuseiro de campanha de 105 mm. As especificações fundamentais foram estabelecidas em conjunto pelo Exército dos Estados Unidos e pelo Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos, refletindo a preocupação comum com a mobilidade estratégica e tática. O desenvolvimento ficou a cargo do Rock Island Arsenal, tradicional centro de pesquisa e fabricação de material bélico. O resultado desse esforço foi o obuseiro M-102, concebido para preservar a potência de fogo do M-101A1 (designação posterior do M-2A1), porém com substancial redução de peso e maior facilidade de transporte. Com aproximadamente 1.496 kg  quase uma tonelada a menos que seu predecessor, que pesava cerca de 2.260 kg  o novo sistema alcançou essa redução mediante o emprego de ligas de alumínio na estrutura do reparo e a adoção de um desenho mais compacto e racional. Mantendo o calibre de 105 mm, o M-102 utilizava munição semi-fixa compatível com a família já empregada no M-101A1, incluindo projéteis de alto explosivo (HE), fumígenos, de iluminação e anticarro. Seu alcance máximo situava-se em torno de 11.500 metros com munição convencional, podendo atingir até aproximadamente 15.000 metros com projéteis assistidos por foguete, ampliando significativamente sua flexibilidade tática. O sistema incorporava um reparo de duas rodas com base triangular em alumínio, permitindo rotação de 360 graus. Essa característica representava notável avanço operacional, pois eliminava a necessidade de frequentes reposicionamentos da peça para engajar alvos em diferentes direções, reduzindo o tempo de resposta e aumentando a eficiência em combate. Projetado desde a origem para operações de alta mobilidade, o M-102 podia ser transportado por helicópteros como o Bell UH-1 Iroquois (Huey) e o Boeing CH-47 Chinook, bem como por aeronaves de transporte tático como o Fairchild C-119 Flying Boxcar, o De Havilland Canada DHC-5 Buffalo e o Lockheed C-130 Hercules. Tal capacidade representou um marco para a artilharia de campanha, ao possibilitar rápida projeção de poder de fogo em cenários antes inacessíveis aos meios convencionais.
Operado por uma guarnição de aproximadamente oito militares, o sistema foi concebido com procedimentos simplificados de montagem, desmontagem e preparo para o tiro, adequando-se plenamente às exigências de operações aeromóveis e de elevada dinâmica tática. No primeiro trimestre de 1962 foram concluídos os primeiros protótipos funcionais do obuseiro M-102 de 105 mm, inaugurando-se uma etapa decisiva de avaliações técnicas e operacionais. Esses ensaios de campo concentraram-se, sobretudo, na verificação de sua capacidade de operar em terrenos variados  desde áreas montanhosas até regiões de difícil acesso  e na comprovação de sua plena compatibilidade com os meios de transporte aéreo então em consolidação na doutrina militar norte-americana. Tratava-se de um requisito fundamental, em um contexto marcado pela crescente ênfase na mobilidade tática e na projeção rápida de poder de combate. Os resultados demonstraram que a nova peça reunia robustez estrutural, confiabilidade mecânica e desempenho balístico compatíveis com as exigências das unidades aerotransportadas e de infantaria leve. Dessa forma, o M-102 consolidava-se como uma evolução substancial em relação ao veterano M-101A1, cuja concepção remontava à década de 1930. Em dezembro de 1963, o sistema obteve sua homologação operacional, certificando sua aptidão para o serviço ativo. No início do ano seguinte, foi firmado contrato inicial com o Rock Island Arsenal para a produção de um lote piloto de 20 unidades, destinadas à formação de multiplicadores nos regimentos de artilharia de campanha do Exército dos Estados Unidos. Concluída essa fase preliminar, celebrou-se contrato de maior vulto, prevendo a entrega de 1.150 obuseiros a partir de 1966. As novas peças passaram a equipar progressivamente as unidades de artilharia, iniciando a substituição gradual dos modelos M-2 e M-2A1 (M-101A1), ainda amplamente empregados. Com sua operacionalidade plenamente estabelecida, o M-102 foi rapidamente deslocado para o teatro da Guerra do Vietnã, onde encontraria seu primeiro grande teste em combate real. Sua estreia ocorreu com o 1º Batalhão do 21º Grupo de Artilharia de Campanha (1st Battalion, 21st Field Artillery), unidade que até então operava os tradicionais M-101A1. No ambiente operacional do Sudeste Asiático  caracterizado por selvas densas, relevo acidentado e frentes de combate fluidas, a leveza e a capacidade de transporte aéreo do M-102 revelaram-se particularmente valiosas. No Vietnã, o obuseiro desempenhou papel essencial no apoio de fogo direto e indireto às unidades de infantaria, incluindo divisões aeroterrestres e aeromóveis. A utilização de munição semi-fixa de 105 mm abrangendo projéteis de alto explosivo (HE), fumígenos, de iluminação e anticarro — permitia neutralizar posições fortificadas, suprimir movimentações do Viet Cong e do Exército do Vietnã do Norte (NVA), além de prover iluminação do campo de batalha durante operações noturnas. Seu alcance máximo de cerca de 11.500 metros, podendo atingir até 15.000 metros com munição assistida por foguete (RAP), atendia plenamente às exigências táticas do conflito. Apesar de suas qualidades técnicas, o M-102 enfrentou resistência inicial por parte de artilheiros mais experientes, profundamente habituados ao confiável M-101A1. Argumentava-se que a culatra mais baixa do modelo anterior facilitava o carregamento, reduzindo o esforço físico da guarnição. Além disso, sua maior distância em relação ao solo quando rebocado simplificava o transporte em determinados tipos de terreno. Alguns militares também consideravam o novo obuseiro relativamente mais complexo em termos de operação e manutenção em ambiente de combate, fator que contribuiu para certa relutância inicial na adoção da nova peça.

Apesar das críticas iniciais manifestadas por artilheiros veteranos, habituados ao emprego do M-101A1, os altos comandantes do Exército dos Estados Unidos avaliaram tais objeções como secundárias diante das vantagens técnicas evidenciadas pelo novo obuseiro M-102 de 105 mm. Em um contexto estratégico marcado pela ênfase crescente na mobilidade e na rapidez de desdobramento, o M-102 apresentava qualidades difíceis de ignorar. Superior em mobilidade, sobretudo em terrenos irregulares e em cenários de difícil acesso, o novo sistema distinguia-se também por sua eficiência balística. Seu tubo de maior comprimento proporcionava maior velocidade inicial ao projétil, ampliando o alcance em relação ao antecessor. A silhueta mais baixa, por sua vez, reduzia sua exposição no terreno, dificultando a observação e a aquisição de alvos pelo inimigo, o que representava vantagem tática relevante em combates de alta intensidade. Compreendendo a importância da aceitação do novo equipamento pelas guarnições, o Exército implementou uma estratégia institucional de valorização e divulgação das qualidades do M-102, promovendo instruções técnicas, demonstrações práticas e ações de conscientização destinadas a facilitar sua incorporação às rotinas operacionais. Gradualmente, à medida que a experiência prática evidenciava suas virtudes, o M-102 substituiu integralmente os desgastados M-101A1, consolidando-se como peça fundamental da artilharia leve norte-americana. O emprego intensivo durante a Guerra do Vietnã, entretanto, revelou aspectos passíveis de aperfeiçoamento. Como ocorre com a maioria dos sistemas introduzidos em larga escala sob condições de combate real, determinadas limitações de projeto tornaram-se evidentes apenas no uso operacional contínuo. Essas questões foram identificadas, analisadas e progressivamente corrigidas, sendo incorporadas melhorias nos contratos subsequentes de produção, o que elevou o padrão de confiabilidade e desempenho do obuseiro. Nas décadas seguintes, o M-102 firmou-se como o obuseiro padrão de 105 mm do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army), operando com ampla gama de munições  alto explosivo, fumígenas, de iluminação e anticarro e participando de diversas operações conduzidas pelos Estados Unidos em diferentes cenários geopolíticos. Sua versatilidade e adaptabilidade asseguraram-lhe longa permanência em serviço ativo. Em maio de 1966, o Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos (USMC) formalizou a aquisição de 2.500 unidades do M-102, cujas entregas ocorreram ainda naquele ano. A incorporação dessas peças permitiu a substituição dos M-101A1 nas unidades de artilharia dos fuzileiros navais, reforçando o processo de modernização de seu poder de fogo orgânico. Todavia, a partir do final da década de 1980, estudos técnicos e estratégicos passaram a indicar a necessidade de substituição do M-102 no curto e médio prazo, em virtude da evolução tecnológica e das novas exigências do campo de batalha contemporâneo. Esse processo de transição teve marco relevante com a assinatura, em 1984, de contrato com a empresa britânica BAE Systems Land Systems para a produção sob licença do obuseiro L118 de 105 mm, adaptado às especificações norte-americanas. A versão resultante, designada M-119, começou a ser incorporada em 1985, iniciando a retirada gradual do M-102 das unidades ativas. Ao final da década de 1980, estimava-se que cerca de 520 obuseiros M-102 permaneciam em serviço no Exército dos Estados Unidos, muitos deles transferidos para formações da Guarda Nacional dos Estados Unidos. 
O derradeiro emprego em combate da peça ocorreu em 2004, quando 17 obuseiros pertencentes ao 1º Batalhão, 206ª Artilharia de Campanha da Guarda Nacional do Arkansas foram desdobrados para Camp Taji, no Iraque. Nessas operações, realizaram missões de contrafogo em apoio à 39ª Brigada de Infantaria e à 1ª Divisão de Cavalaria, demonstrando que, mesmo diante da modernização dos sistemas de artilharia, o M-102 ainda preservava relevância operacional em conflitos contemporâneos. Um episódio digno de nota ocorreu durante a Guerra do Iraque, quando forças norte-americanas recuperaram nove obuseiros M-102 de 105 mm que se encontravam em poder das forças iraquianas. Presume-se que tais peças tenham sido capturadas pelo Iraque ao longo da Guerra Irã-Iraque, na década de 1980.  Ao longo de sua trajetória, o M-102 consolidou-se como um obuseiro confiável, versátil e adaptável, deixando marca duradoura em diversos teatros de operações e nas forças armadas de países aliados dos Estados Unidos. Atualmente, apenas um contingente reduzido dessas peças permanece em serviço, concentrado em algumas unidades da Guarda Nacional dos Estados Unidos, onde são empregadas predominantemente em atividades de instrução e em cerimônias oficiais com salvas de honra. Um dos usos mais singulares do M-102 foi sua adaptação para integração às aeronaves de ataque Lockheed AC-130 Spectre da Força Aérea dos Estados Unidos (USAF). Instalado para disparo pela porta lateral traseira esquerda, o obuseiro conferiu à aeronave extraordinária capacidade de apoio de fogo de grande poder destrutivo e precisão sustentada. Essa aplicação teve início nos estágios finais da Guerra do Vietnã e foi mantida em variantes posteriores, como o Lockheed AC-130U Spooky II e o Lockheed AC-130J Ghostrider, demonstrando a notável longevidade e flexibilidade do projeto original. No âmbito do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos, o M-102 foi completamente retirado do serviço ativo nas unidades de artilharia, restando menos de duas dezenas de exemplares destinados exclusivamente a funções cerimoniais. Ainda assim, sua história operacional permanece intimamente ligada a alguns dos principais conflitos da segunda metade do século XX e início do século XXI. Além de seu papel central na Guerra do Vietnã, o M-102 foi empregado em conflitos como a Guerra Civil do Camboja, a Guerra Civil Libanesa, a Guerra Civil Salvadorenha, a Invasão de Granada, a Guerra do Golfo e a Guerra do Kosovo, além da própria Guerra do Iraque. Sua presença em cenários tão diversos atesta a robustez do sistema e sua capacidade de adaptação a diferentes ambientes operacionais e doutrinas de emprego. A partir do final da década de 1980, com o início de sua retirada progressiva pelo Exército dos Estados Unidos (U.S. Army), numerosos obuseiros M-102 foram transferidos a países alinhados à política externa norte-americana por meio de programas de assistência militar. Nações como Jordânia, El Salvador, Malásia, Omã, Vietnã do Sul, Irã, Arábia Saudita, Filipinas, Turquia e Uruguai incorporaram essas peças a seus arsenais, em muitos casos tornando-as elemento central de suas capacidades de artilharia de campanha. Em determinadas forças armadas, o M-102 permaneceu por décadas como vetor essencial de apoio de fogo. Até os dias atuais, algumas dessas nações ainda mantêm exemplares em serviço ativo, o que evidencia a durabilidade estrutural e a relevância operacional do projeto. Assim, o obuseiro M-102 de 105 mm, fruto de um período de intensa transformação doutrinária e tecnológica, permanece como símbolo da capacidade da indústria e das instituições militares norte-americanas de desenvolver sistemas de armas de ampla difusão internacional, cujo impacto ultrapassou fronteiras e influenciou gerações de forças armadas ao redor do mundo.

Emprego no Exército Brasileiro.
No início da Segunda Guerra Mundial, o governo dos Estados Unidos passou a avaliar com crescente preocupação a possibilidade de uma expansão estratégica das potências do Potências do Eixo  notadamente Alemanha Nazista, Itália e Japão  em direção ao continente americano. Essa apreensão intensificou-se após a capitulação da França, em junho de 1940, fato que alterou profundamente o equilíbrio estratégico no Atlântico. Com a derrota francesa, abriu-se a possibilidade de que a Alemanha viesse a utilizar posições estratégicas sob controle francês  como as Ilhas Canárias e Dacar  como pontos de apoio logístico e operacional. A eventual instalação de bases nessas áreas poderia reduzir significativamente a distância entre o continente africano e a América do Sul, criando condições favoráveis para ações de interdição marítima ou, em cenário mais extremo, para uma incursão militar no hemisfério ocidental. Nesse contexto, o Brasil passou a ser considerado, nos círculos estratégicos norte-americanos, como ponto sensível do sistema defensivo continental. Sua posição geográfica  especialmente o saliente nordestino  constituía a menor distância entre os continentes americano e africano, fator de inequívoca relevância militar. À época, o continente africano também figurava nos planos expansionistas alemães, o que reforçava a percepção de vulnerabilidade da região. Paralelamente, as conquistas japonesas no Sudeste Asiático e no Pacífico Sul comprometeram o acesso aliado a importantes áreas produtoras de borracha natural. Nesse cenário, o Brasil assumiu papel central como fornecedor de látex, matéria-prima essencial à produção de pneus, vedações e inúmeros componentes indispensáveis à indústria bélica. A manutenção do fluxo dessas matérias-primas tornava-se, portanto, questão estratégica para o esforço de guerra aliado. O litoral nordestino brasileiro, em especial a cidade de Recife, destacava-se como ponto privilegiado para a instalação de bases aéreas e navais. A região poderia servir como ponte logística para o deslocamento de tropas, aeronaves e suprimentos destinados aos teatros de operações europeu e norte-africano, reduzindo distâncias e ampliando a capacidade de projeção estratégica dos Estados Unidos. Diante desse quadro, desenvolveu-se em curto espaço de tempo um processo de aproximação política, econômica e militar entre Brasil e Estados Unidos. Tal movimento resultou em investimentos estruturais, acordos de cooperação e na adesão brasileira ao programa de assistência militar conhecido como Lend-Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos). O principal objetivo desse mecanismo era fortalecer nações consideradas estratégicas para a defesa hemisférica e para o esforço de guerra aliado. Nos termos do acordo, o Brasil obteve uma linha inicial de crédito de aproximadamente 100 milhões de dólares, destinada à aquisição de material bélico e à modernização de suas Forças Armadas. O acesso a armamentos modernos, aeronaves, veículos e equipamentos militares representou avanço significativo na capacidade defensiva nacional. Esses recursos revelaram-se particularmente relevantes diante da intensificação da guerra submarina alemã no Atlântico, cujos ataques à navegação mercante afetavam diretamente o comércio brasileiro com os Estados Unidos e ameaçavam o fluxo de matérias-primas essenciais à indústria de guerra norte-americana. Gradualmente, a participação brasileira no esforço aliado deixou de restringir-se ao fornecimento de recursos estratégicos. O então presidente Getúlio Vargas declarou que o país não se limitaria ao papel de fornecedor de insumos e sinalizou a disposição de ampliar sua contribuição, inclusive com o possível envio de tropas para teatos de operações de relevância. Essa postura marcaria o início de uma nova etapa na inserção internacional do Brasil, culminando posteriormente em sua participação direta no conflito ao lado das potências aliadas.

Na década de 1940, a artilharia de campanha do Exército Brasileiro enfrentava limitações estruturais significativas. Seu parque de material era composto, em grande parte, por peças concebidas no início do século XX, como os canhões alemães Krupp de 75 mm Modelo 1908 e os franceses Schneider-Canet de 75 mm, sistemas projetados para tração hipomóvel e adequados a uma doutrina de emprego anterior à mecanização ampla dos campos de batalha. Embora robustos e confiáveis em seu tempo, esses armamentos já não correspondiam às exigências técnicas e táticas impostas pela guerra moderna, marcada por maior mobilidade, poder de fogo ampliado e integração com meios mecanizados e aéreos. A entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial ao lado dos Aliados marcou o início de um processo de profunda transformação. No âmbito da cooperação militar com os Estados Unidos, o país passou a receber uma variada gama de equipamentos modernos, incluindo armas de infantaria, canhões anticarro de 37 mm e obuseiros de 105 mm e 155 mm. Essa incorporação representou verdadeiro salto qualitativo para a artilharia brasileira, ampliando significativamente sua capacidade de apoio de fogo, alcance e precisão. A consolidação dessa modernização seria comprovada no teatro de operações da Itália, onde a artilharia da Força Expedicionária Brasileira (FEB) atuou em estreita cooperação com o Quinto Exército dos Estados Unidos. Empregando obuseiros de 105 mm e 155 mm, os artilheiros brasileiros participaram de operações contra importantes linhas defensivas alemãs, como a Linha Gustav e a Linha Gótica, contribuindo para o rompimento das posições inimigas no norte da Itália. O batismo de fogo da artilharia brasileira em solo europeu ocorreu em 16 de setembro de 1944, ao sopé do Monte Bastione, ao norte da cidade de Lucca, na região da Toscana. Sob um vento frio que prenunciava o rigoroso inverno que se aproximava, às 14h22 foi disparado contra as posições alemãs o primeiro tiro de artilharia efetuado pelo Brasil fora do continente sul-americano. O alvo, na localidade de Massarosa, foi atingido com precisão, simbolizando a entrada efetiva da artilharia brasileira no cenário da guerra europeia. Ao longo da campanha, os obuseiros M-2A1 de 105 mm desempenharam papel essencial no bombardeio de posições alemãs, na neutralização de contra-ataques e na proteção dos flancos aliados. Sua precisão e confiabilidade mostraram-se decisivas em combates prolongados, reforçando a reputação da artilharia brasileira entre as forças aliadas. Ainda durante o conflito, novas unidades desses obuseiros foram enviadas ao Brasil, ampliando a capacidade orgânica da Artilharia Divisionária. Estruturou-se, então, pelo menos mais um grande comando composto por três grupos equipados com M-2A1 de 105 mm e um grupo com obuseiros M-1 de 155 mm, todos sediados no Rio de Janeiro, então Distrito Federal. Nas décadas subsequentes, especialmente a partir dos anos 1970, o Brasil intensificou seus esforços de modernização militar, aprofundando as parcerias estratégicas iniciadas durante a Segunda Guerra Mundial. Um marco relevante desse processo foi o Acordo de Assistência Militar Brasil–Estados Unidos, firmado em 1952, que facilitou a transferência de material bélico norte-americano para o Exército Brasileiro e para o Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil. Nesse contexto, a partir do início da década de 1970, o Brasil recebeu ao menos 160 obuseiros M-101A1 de 105 mm, provenientes dos estoques do Exército dos Estados Unidos.  A incorporação dessas peças permitiu a padronização de calibres, a modernização doutrinária e a elevação do poder de fogo da artilharia de campanha nacional, consolidando um processo de atualização iniciado ainda nos anos de 1940l e que continuaria a moldar a estrutura da força terrestre brasileira nas décadas seguintes.
No contexto dos acordos de cooperação firmados entre o Brasil e os Estados Unidos, especialmente sob a égide do Acordo de Assistência Militar de 1952  desdobramento do estreitamento estratégico iniciado na Segunda Guerra Mundial, o Exército Brasileiro recebeu, entre 1967 e 1968, um lote de equipamentos que incluía uma quantidade limitada dos então modernos obuseiros M-102 de 105 mm. À época, esse sistema representava o padrão de excelência da artilharia leve das forças norte-americanas, distinguindo-se por sua reduzida massa, elevada mobilidade e plena adequação a operações aerotransportadas e em terrenos de difícil acesso. A incorporação dessas peças constituiu passo relevante no processo de modernização da artilharia de campanha brasileira, alinhando-a às inovações tecnológicas que já se consolidavam no cenário militar internacional. Os exemplares destinados ao Brasil pertenciam aos primeiros lotes de produção e desembarcaram no porto do Rio de Janeiro em julho de 1968. Após os trâmites alfandegários, foram transportados por via rodoviária até o Arsenal de Guerra do Rio de Janeiro (AGRJ), onde passaram por criterioso processo de montagem, inspeção técnica e revisão geral nas oficinas especializadas. Tal procedimento assegurava que o material fosse incorporado em plenas condições operacionais, refletindo o compromisso institucional com a eficiência e a confiabilidade dos novos meios. Considerando-se o número restrito de obuseiros recebidos, o Comando do Exército optou por concentrar sua operação em uma única organização militar, de modo a maximizar a capacitação técnica das guarnições e racionalizar o emprego logístico. A unidade escolhida foi o 25º Grupo de Artilharia de Campanha (25º GAC), sediado na cidade de Bagé, no Rio Grande do Sul. A escolha não foi aleatória. O 25º GAC é herdeiro de uma tradição centenária, com origens no 1º Regimento de Artilharia a Cavalo  o célebre “Boi de Botas”  criado em 1888. Ao longo de sua história, a unidade acumulou destacada participação em momentos decisivos da vida nacional. Durante a Revolução Federalista, desempenhou papel relevante na defesa de Bagé, consolidando sua reputação de combatividade. Em 1924, foi mobilizada para operações em São Paulo e Alegrete, no contexto dos levantes tenentistas daquele período. Nos anos de 1930 e 1932, o então regimento esteve novamente envolvido em episódios marcantes da história brasileira, participando tanto da Revolução de 1930 quanto da Revolução Constitucionalista de 1932. Já durante a Segunda Guerra Mundial, em 1942, contribuiu para a defesa do litoral sul-rio-grandense, reforçando a vigilância estratégica do Atlântico Sul. Dois anos depois, 23 de seus integrantes foram incorporados à Força Expedicionária Brasileira (FEB), participando das operações na Itália e evidenciando elevado grau de profissionalismo na condução do apoio de fogo de artilharia. Assim, a destinação dos obuseiros M-102 ao 25º GAC representou não apenas uma medida de racionalidade operacional, mas também o reconhecimento da tradição, da experiência e da capacidade técnica de uma unidade cuja trajetória se confunde com momentos cruciais da história militar brasileira.  A introdução desse moderno sistema de artilharia em Bagé simbolizou, portanto, a continuidade de um legado histórico aliado à incorporação de novas tecnologias, consolidando mais um capítulo na evolução da artilharia de campanha do Brasil.

A integração dos obuseiros M-102 AR 105 mm ao 25º Grupo de Artilharia de Campanha (25º GAC), sediado em Bagé, constituiu marco expressivo no processo de modernização da artilharia de campanha do Exército Brasileiro. Incorporadas às 2ª e 3ª Baterias de Obuses, essas peças passaram a operar em conjunto com os obuseiros M-101A1 AR 105 mm e M-114 AR 155 mm, ampliando a flexibilidade tática do grupo e reforçando sua capacidade de apoio de fogo às operações terrestres. A chegada do M-102 representou avanço substancial, sobretudo no que se refere à mobilidade e à eficiência operacional. Com peso aproximado de 1.496 kg  cerca de uma tonelada inferior ao M-101A1 , o novo sistema facilitava significativamente a movimentação em terrenos adversos, característica particularmente relevante em um país de dimensões continentais e grande diversidade geográfica como o Brasil. Seu reparo com base triangular em alumínio, que permitia rotação de 360 graus, conferia agilidade tática superior, reduzindo a necessidade de reposicionamentos frequentes e otimizando o tempo de resposta ao fogo. Concebido originalmente para atender às exigências de operações aeromóveis, o M-102 inaugurou no âmbito da artilharia brasileira uma nova concepção de emprego, fortemente associada à mobilidade estratégica e à capacidade de pronta projeção de poder de combate. Nesse sentido, um dos aspectos mais relevantes de sua incorporação foi a compatibilidade com o transporte aéreo. Inicialmente, os obuseiros passaram a ser deslocados em aeronaves da Força Aérea Brasileira (FAB), como o Fairchild C-119 Flying Boxcar, posteriormente substituído pelo De Havilland Canada DHC-5 Buffalo e, em seguida, pelo Lockheed C-130E Hercules. Essa capacidade de transporte estratégico permitiu ao 25º Grupo de Artilharia de Campanha (25º GAC) ampliar consideravelmente seu raio de atuação, viabilizando o rápido desdobramento de meios de artilharia para diferentes regiões do território nacional. A introdução dos helicópteros SA 330 Puma, a partir de 1981, abriu novas perspectivas para o emprego helitransportado da artilharia leve. Os primeiros ensaios operacionais dessa natureza foram conduzidos em cooperação com o 3º/8º Grupo de Aviação – Esquadrão Puma, explorando precisamente uma das características centrais do projeto do M-102: sua aptidão intrínseca para transporte por helicópteros. Tal capacidade representava significativa evolução doutrinária, aproximando a artilharia brasileira de conceitos modernos de mobilidade e flexibilidade operacional. Outro aspecto fundamental da incorporação do M-102 foi sua plena compatibilidade com a munição semi-fixa de 105 mm já empregada pelo M-101A1. À época, essa munição era produzida nacionalmente pela Indústria de Material Bélico do Brasil (IMBEL), o que proporcionava importante vantagem logística. A padronização reduzia a dependência de fornecedores externos, fortalecia a autonomia estratégica nacional e contribuía para a racionalização dos estoques. Além disso, o custo unitário da munição fabricada no país mostrava-se significativamente inferior ao das munições importadas, repercutindo positivamente nos custos operacionais do Exército. Essa economia permitiu intensificar exercícios com tiro real, ampliando a capacitação técnica das guarnições e elevando o nível de prontidão do 25º Grupo de Artilharia de Campanha (25º GAC).
A introdução do obuseiro M-102 de 105 mm no 25º Grupo de Artilharia de Campanha (25º GAC), sediado em Bagé, constituiu etapa relevante no processo de atualização doutrinária da artilharia do Exército Brasileiro. Dotado de reduzido peso, elevada mobilidade e plena compatibilidade com o transporte aéreo, o sistema incorporava conceitos modernos de emprego da artilharia leve, alinhando-se às tendências internacionais que, desde a segunda metade do século XX, enfatizavam a rapidez de desdobramento e a flexibilidade tática. O M-102 introduziu inovações significativas no âmbito operacional do grupo, ampliando sua capacidade de resposta e permitindo ensaios doutrinários associados ao emprego aeromóvel. Todavia, o número limitado de unidades recebidas comprometeu a viabilidade econômica de sua sustentação a longo prazo. A manutenção de um sistema moderno, porém restrito a um contingente reduzido de peças, impunha desafios logísticos e financeiros consideráveis, dificultando sua plena integração à estrutura orgânica da Força Terrestre. Apesar dos esforços diligentes conduzidos pelo Arsenal de Guerra do Rio Grande do Sul para manter os obuseiros em condições adequadas de emprego, a baixa escala operacional revelou-se obstáculo persistente. Custos de manutenção, obtenção de sobressalentes e racionalização de estoques tornavam-se progressivamente desproporcionais diante do número restrito de exemplares em serviço. Nesse contexto, em 1996, o Comando do Exército decidiu pela desativação do M-102, restabelecendo o M-101A1 como peça padrão de artilharia tracionada de 105 mm. A medida, embora coerente sob a ótica logística e orçamentária, representou certo retrocesso no plano doutrinário. O M-101A1, reconhecido por sua robustez e confiabilidade, não possuía, contudo, as características de mobilidade estratégica e flexibilidade de emprego que distinguiam o M-102, especialmente no que se refere à aptidão para transporte aéreo. A retirada do M-102 evidenciou os desafios enfrentados pelo Exército Brasileiro ao longo do século XX: equilibrar a incorporação de tecnologias modernas com as limitações impostas por restrições orçamentárias e pela necessidade de padronização logística. Tal dilema não era exclusivo do Brasil, mas comum a diversas forças armadas de países em desenvolvimento, que buscavam modernizar-se em ambiente de recursos limitados. O impacto dessa decisão seria parcialmente mitigado anos mais tarde, com a aquisição de sistemas mais modernos, como o obuseiro L118 Light Gun, produzido pela BAE Systems Land Systems, e o M-56, fabricado pela italiana OTO Melara. A incorporação dessas peças integrou um novo ciclo de modernização da artilharia de campanha brasileira, contribuindo para reduzir a defasagem tecnológica acumulada e recuperar parte das capacidades de mobilidade e flexibilidade que haviam sido introduzidas, ainda que de forma pioneira e temporária, com o M-102.

Em Escala.
Para representarmos o obuseiro M-102 L/22 105 mm, fizemos uso do excelente kit da AFV Club na escala 1/35, modelo que prima pela qualidade e detalhamento, combinado peças em metal, e borracha. Para se representar a versão usada pelo Exército Brasileiro, não é necessário proceder nenhuma mudança, com o modelo podendo ser montado direto da caixa.
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o segundo padrão de pintura (camuflagem tática em dois tons) empregado nos obuseiros M-102 105 mm, seguindo o mesmo esquema aplicado nos veículos militares a partir de 1983, substituindo assim a pintura original totalmente em “olive drab”, com a qual foram recebidos no ano de 1968.

Bibliografia: 
- M-102 howitzer Wilipedia - https://en.wikipedia.org/wiki/M102_howitzer
- 25º Grupo de Artilharia de Campanha - http://www.25gac.eb.mil.br/
- M-102 Army Guide  http://www.army-guide.com/eng/product1194.html

HU-2W Westland WS-55 Whirlwind I

História e Desenvolvimento.
A trajetória da Westland Aircraft, uma das mais tradicionais fabricantes aeronáuticas do Reino Unido, teve início em 1915, em meio às exigências impostas pela Primeira Guerra Mundial (1914–1918), um conflito que impulsionou avanços acelerados na tecnologia militar, especialmente no campo da aviação. A empresa surgiu como uma divisão da Petters Limited, sediada em Yeovil, no condado de Somerset, então reconhecida por sua atuação na produção de motores para a indústria metal-mecânica. Sua fundação esteve diretamente associada à iniciativa dos irmãos William Petter, conhecido como “Teddy”, e Ernest Petter, que vislumbraram o potencial estratégico da aviação em um cenário de guerra total. Ainda em 1915, diante da crescente ameaça representada pelos submarinos alemães e da necessidade de intensificar patrulhas marítimas, o Almirantado Britânico contratou a recém-criada divisão para a produção de 12 unidades do Short Type 184, um hidroavião biplano que se tornaria notável por protagonizar o primeiro ataque bem-sucedido com torpedo lançado de uma aeronave, durante a campanha nos Dardanelos. Na sequência, um novo contrato foi firmado para a fabricação de 20 exemplares do Short Admiralty Type 166, também biplanos, empregados em missões de reconhecimento e bombardeio leve, especialmente em operações no Canal da Mancha. A denominação “Westland” teve origem em um gesto pessoal: foi sugerida por Agnes Petter, esposa de Teddy Petter, durante a aquisição de um terreno em West Hendford, em Yeovil, destinado à expansão das instalações industriais. À medida que o conflito evoluía e a guerra aérea se intensificava  caracterizada por combates aéreos cada vez mais frequentes e pelo uso sistemático de aeronaves em missões de reconhecimento e bombardeio, a empresa ampliou significativamente sua produção por meio de contratos adicionais com o governo britânico. Entre 1916 e 1918,  destacou-se como fabricante sob licença de diversos modelos consagrados, contribuindo de maneira decisiva para o esforço de guerra. Entre eles, figuravam o Sopwith 1½ Strutter, empregado em missões de bombardeio diurno na Frente Ocidental; os bombardeiros leves Airco DH.4 e DH.9, projetados por Geoffrey de Havilland e amplamente utilizados em diferentes teatros de operações; o DH.9A, versão aprimorada equipada com motores Liberty ; e o Vickers Vimy, um bombardeiro pesado que, no pós-guerra, alcançaria notoriedade ao realizar o primeiro voo transatlântico sem escalas em 1919. A produção acumulada, que ultrapassou mil aeronaves, aliada à experiência técnica adquirida, permitiu à empresa dar os primeiros passos como projetista independente. Nesse contexto, em 1917, foi desenvolvido o N.1B, um hidroavião experimental concebido para patrulhas navais de médio alcance. No ano seguinte, surgiram os caças Wagtail e Weasel, biplanos ágeis que incorporavam lições aprendidas nos combates aéreos do conflito. O término da guerra, com o Armistício de 1918, trouxe desafios significativos para toda a indústria aeronáutica britânica. A abrupta redução na demanda militar resultou no fechamento de diversas fábricas e na reestruturação do setor. A Westland, contudo, demonstrou capacidade de adaptação ao redirecionar suas atividades para o emergente mercado civil.

Nesse novo cenário, a empresa lançou modelos voltados ao transporte e à aviação leve, como o Westland Limousine, introduzido em 1920 e projetado para  até quatro passageiros com relativo conforto, e o Westland Woodpigeon, de 1924, um biplano leve que se destacou em competições aéreas, incluindo a prestigiada Copa do Rei. Em 1926, a Força Aérea Real (RAF) lançou a especificação M.26/27, destinada à substituição dos já obsoletos treinadores Airco DH.9A. Inserida em um ambiente competitivo que reunia importantes fabricantes britânicos, como a Hawker Aircraft e a Bristol Aeroplane Company, a Westland Aircraft apresentou o Westland Wapiti, um biplano robusto equipado com motor Bristol Jupiter. Após rigorosos ensaios conduzidos em Martlesham Heath, em maio de 1927, o projeto da Westland foi declarado vencedor, resultando em um expressivo contrato para a produção de 500 aeronaves  um marco que consolidou a empresa como fornecedora relevante da aviação militar britânica no período entre guerras. À medida que as tensões internacionais se intensificavam na década de 1930, especialmente com a ascensão do regime nazista na Alemanha, houve uma reorganização estrutural significativa na empresa. Em 1935, William Petter promoveu a separação das atividades industriais da Petters Limited, mantendo a divisão de motores como Petter Engines e estabelecendo formalmente a Westland Aircraft Ltd. como entidade independente, com sede em Yeovil. Durante a Segunda Guerra Mundial, a companhia desempenhou papel de destaque no esforço de guerra aliado, tanto no desenvolvimento de projetos próprios quanto na produção sob licença. Entre suas criações mais notáveis figurou o Whirlwind, um caça bimotor que se destacava por seu elevado desempenho e por ser um dos primeiros a entrar em serviço  equipado com canhões de 20 mm, conferindo-lhe grande poder de fogo. Outro modelo emblemático foi o Lysander, amplamente empregado em missões de ligação e operações especiais, notabilizando-se sobretudo pela inserção e extração de agentes em territórios ocupados. Não obstante, à semelhança do que ocorrera durante a Primeira Guerra Mundial, grande parte da capacidade industrial da empresa foi direcionada à produção em larga escala de aeronaves concebidas por outros fabricantes. Destaca-se, nesse contexto, a fabricação do icônico Spitfire, cuja produção foi intensificada após a destruição das instalações da Supermarine, em Southampton, em setembro de 1940. Entre 1940 e 1945, tornou-se o maior produtor individual desse modelo, contribuindo de maneira decisiva para a manutenção da superioridade aérea britânica. Ademais, sua equipe de engenharia participou do desenvolvimento da versão navalizada da aeronave, o Supermarine Seafire, adaptada para operações embarcadas. Com o término da guerra, a empresa. identificou o potencial emergente do segmento de asas rotativas, então em franca expansão. Buscando posicionar-se nesse novo mercado, a empresa estabeleceu uma parceria estratégica com a Sikorsky Aircraft, visando à produção sob licença e à transferência de tecnologia. O primeiro resultado concreto dessa cooperação foi a fabricação do Sikorsky S-51, designado localmente como  WS-51 Dragonfly.
O protótipo realizou seu voo inaugural em maio de 1948 e, após um abrangente programa de testes e validação, o modelo entrou em produção seriada. A partir de meados da década de 1950, o Dragonfly consolidou-se como o principal helicóptero em serviço, sendo amplamente empregado em missões de busca e salvamento, ligação e apoio logístico. Logo após o fabricante se destacaria como um dos principais expoentes da indústria aeronáutica britânica, impulsionada, em grande medida, pelo êxito do helicóptero  WS-51.  No âmbito civil, operadores como a British European Airways passaram a empregar o modelo em rotas regionais, conectando centros urbanos, a comunidades costeiras e localidades de difícil acesso. Nesse sentido, o helicóptero não apenas ampliou as possibilidades logísticas, mas também contribuiu para a integração territorial, desempenhando um papel relevante na rearticulação socioeconômica do período pós-guerra. No setor militar, contratos firmados com a Força Aérea Real (RAF) e a Marinha Real (RN) para missões de busca e salvamento (SAR) e transporte reforçaram sua reputação  como fornecedora confiável de aeronaves de asas rotativas. O sucesso do  WS-51 estimulou a empresa a projetar voos mais ambiciosos, direcionando seus esforços para o desenvolvimento de um helicóptero de maior porte e capacidade de carga, apto a competir em um mercado internacional em rápida expansão. Esse movimento demandava planejamento criterioso, envolvendo estudos de mercado, análises de desempenho  incluindo capacidade de carga estimada em até 1.500 kg e avaliações de emprego em diferentes ambientes, desde regiões montanhosas do norte britânico até territórios ultramarinos no Sudeste Asiático. Entretanto, o desenvolvimento de um novo vetor implicava desafios financeiros consideráveis, sobretudo em um contexto econômico ainda marcado por restrições e políticas de austeridade no pós-guerra. Diante disso,  optou-se por adotar uma estratégia já comprovada: a celebração de um novo acordo de licenciamento com a Sikorsky Aircraft, referência mundial no desenvolvimento de helicópteros. O modelo selecionado foi o S-55, uma aeronave de porte médio, equipado com motor radial Wright R-1300 de aproximadamente 600 hp de potência, capaz de transportar até oito passageiros ou cargas significativas. Sua comprovada atuação em cenários operacionais exigentes, particularmente em missões de evacuação aeromédica , reforçava sua adequação às necessidades britânicas. Após intensas negociações conduzidas ao longo de 1950, o contrato de licenciamento foi formalmente assinado em março de 1951. O acordo concedia à exclusividade para a fabricação e comercialização do modelo na Europa, atribuindo-lhe também a responsabilidade de adaptar os projetos técnicos, desenvolver ferramental específico e estruturar processos industriais compatíveis com a produção em série. Como parte desse entendimento, seria fornecida uma célula do  S-55, que foi enviada a Yeovil em meados de 1951. Após sua montagem nas instalações britânicas, a aeronave realizou seu voo inaugural em novembro do mesmo ano, marcando o início de uma nova fase na trajetória do fabricante e consolidando sua transição para a produção de helicópteros de maior capacidade e complexidade.

Não obstante os avanços iniciais, o processo  produção sob licença revelou-se mais complexo do que o inicialmente previsto. A conversão dos projetos oriundos da Sikorsky Aircraft às normas e especificações locais implicou uma série de ajustes técnicos, incluindo a adequação dos motores ao padrão de combustíveis europeu, o reforço estrutural da fuselagem para operação em ambientes úmidos e a criação de gabaritos específicos para viabilizar a produção em série. Tais modificações demandaram um esforço significativo de engenharia. Nesse contexto, o primeiro protótipo do WS-55 Whirlwind, matrícula G-AMJT, integralmente fabricado no Reino Unido, realizou seu voo inaugural em 23 de agosto de 1953, representando um importante marco tecnológico. Na sequência, outras duas células foram concluídas e submetidas a um abrangente programa de ensaios em voo, com vistas à certificação para uso civil e militar, processo este concluído com êxito até novembro de 1954. O sucesso nos testes viabilizou a obtenção do primeiro contrato militar, firmado com a Marinha Real, que encomendou 10 aeronaves destinadas a missões de busca e salvamento (SAR). As primeiras unidades, designadas Whirlwind HAR.1, foram entregues a partir de janeiro de 1954 ao 848º Esquadrão Aéreo Naval, sendo rapidamente embarcadas em navios. Seriam empregadas em operações durante a Emergência Malaia, onde a natureza da guerra de guerrilha em ambiente de selva impunha a necessidade de evacuações aeromédicas rápidas e eficientes. Entretanto, a experiência operacional logo evidenciou limitações relevantes. Os motores radiais Pratt & Whitney R-1340 Wasp 600 shp,  também utilizados no Sikorsky H-19  mostraram-se insuficientes para determinadas condições operacionais, especialmente em missões navais de maior alcance e sob climas tropicais adversos. Em resposta a essas restrições, seria iniciado o desenvolvimento de uma versão aprimorada, resultando no HAR.3, equipado com o motor Wright R-1300 Cyclone 7, capaz de gerar cerca de 800 shp. Esse incremento de potência proporcionou ganhos substanciais em desempenho, incluindo maior capacidade de carga alcançando aproximadamente 1.500 kg , melhor comportamento em altitudes elevadas e maior confiabilidade em ambientes quentes e úmidos. O primeiro protótipo realizou alçou voo em 1955, apresentando resultados que atenderam plenamente às expectativas. Como consequência, em 1956 foi firmado um novo contrato para a produção de 35 aeronaves, destinadas ao 848º e  845º Naval Air Squadron. Esses foram prontamente integrados a operações em cenários críticos, destacando-se novamente na Emergência Malaia, em ações de evacuação de feridos em regiões de selva densa, e também durante a Crise de Suez, onde desempenharam papel de apoio em operações anfíbias, particularmente em Port Said. Paralelamente, em 1957, a Força Aérea Real (RAF) encomendou 71 unidades do modelo, destinadas a esquadrões de transporte, como o 22º e o 110º Squadron. Essas aeronaves foram destacadas para bases em regiões estratégicas, incluindo Chipre e Quênia, onde desempenharam uma ampla gama de missões, com ênfase em operações humanitárias, como evacuações médicas em áreas remotas e ambientes desérticos.
Em 1955, seria dado início a um amplo processo de modernização da Marinha Frances, motivado tanto pelas exigências operacionais decorrentes da Guerra de Independência da Argélia (1954–1962) quanto pelo agravamento das tensões geopolíticas no Oriente Médio. Nesse contexto, a escolha do Westland Whirlwind HAR.3, refletia a comprovada versatilidade e robustez, amplamente demonstradas em operações conduzidas  no Sudeste Asiático. Após negociações , o governo francês firmou contrato para a aquisição de 37 aeronaves, entregues entre 1955 e 1956. Esses helicópteros foram incorporados aos esquadrões 31F e 32F da Aviação Naval (Aéronavale), operando tanto a partir de bases costeiras quanto embarcados em navios. O desempenho satisfatório do modelo rapidamente evidenciou seu valor operacional, especialmente em missões de transporte e evacuação. Apesar do êxito alcançado, tornou-se evidente a necessidade de ampliar as capacidades da aeronave, particularmente no campo da guerra antissubmarino (ASW). Contudo, esse avanço encontrava limitações inerentes aos motores então utilizados, cuja potência restringia o desempenho geral. Diante disso, a equipe de engenharia da Westland passou a estudar alternativas propulsivas, optando pela adoção de um novo motor desenvolvido pela Alvis Car and Engineering Company. O resultado foi a incorporação do motor radial Alvis Leonides Major, de 14 cilindros e potência aproximada de 900 cv, dando origem a duas novas variantes: o HAR.5, voltado a missões de transporte e busca e salvamento (SAR), e o HAS, concebido especificamente para operações de guerra antissubmarino. Esta última versão representou um avanço significativo, sendo o primeiro helicóptero britânico projetado desde sua concepção para missões ASW. Dotado de autonomia de patrulha de cerca de 334 milhas a uma velocidade média de 86 mph, o modelo podia ser equipado com sonar de mergulho para detecção de submarinos, além de armamentos como torpedos e cargas de profundidade. Embora a família Whirlwind tenha alcançado relativo sucesso comercial e operacional, o fabricante já vislumbrava novos avanços tecnológicos. Nesse cenário, destacou-se a adoção dos motores turboeixo, uma inovação que permitia a obtenção de maior potência com menor peso e dimensões reduzidas, abrindo caminho para uma nova geração de helicópteros. Esse salto evolutivo materializou-se com o desenvolvimento do Whirlwind Série 3, projetado para superar as limitações das versões anteriores, especialmente em operações navais mais exigentes. A principal inovação residia na introdução do motor turboeixo General Electric T58, posteriormente substituído na versão de produção pelo Bristol Siddeley Gnome. Além do novo grupo motopropulsor, a aeronave incorporava importantes melhorias estruturais e operacionais, incluindo reforços na fuselagem para resistir à corrosão em ambiente marítimo, sistemas de flutuação para pousos de emergência no mar e aviônicos mais avançados, como rádios VHF/UHF. Paralelamente à produção seriam desenvolvidos kits de modernização destinados às versões anteriores, permitindo a atualização  para o padrão  HAR.9. Esse processo prolongou a vida útil operacional da frota. As últimas aeronaves  permaneceram em operação até o início da década de 1970, quando passaram a ser gradualmente substituídas pelo mais moderno Westland Wessex.

Emprego na Marinha do Brasil.
O advento da operação de aeronaves de asas rotativas para fins militares no Brasil representou um marco decisivo no processo de modernização das Forças Armadas, inserindo o país em uma tendência global de valorização do potencial estratégico dos helicópteros ao longo da década de 1950. Esse movimento teve início com a aquisição, pela Força Aérea Brasileira (FAB), de quatro unidades do Bell 47D1  designado militarmente como H-13D  na primeira metade da década. Produzidas pela Bell Helicopter Company, essas aeronaves destacaram-se por sua versatilidade e confiabilidade, características já amplamente comprovadas em operações durante a Guerra da Coreia (1950–1953). O êxito operacional dessas aeronaves no âmbito da aeronáutica rapidamente despertou o interesse da Marinha do Brasil, que, desde o término da Segunda Guerra Mundial, em 1945, buscava reestruturar e revitalizar sua aviação naval. Tal iniciativa, entretanto, enfrentava limitações decorrentes da criação do Ministério da Aeronáutica, que havia centralizado as operações aéreas militares no país sob responsabilidade da Força Aérea Brasileira (FAB), restringindo, por conseguinte, a atuação das demais forças nesse domínio. Ciente das transformações em curso no cenário internacional e do impacto operacional proporcionado pelos helicópteros, a Marinha do Brasil iniciou um processo gradual e estratégico de reconstrução de sua capacidade aeronaval. Um passo fundamental nesse sentido ocorreu em 1952, com a criação da Diretoria de Aeronáutica da Marinha (DAerM), órgão responsável por estabelecer as bases doutrinárias e organizacionais para o emprego de aeronaves no ambiente naval. Assim esta diretoria assumiu a missão de estruturar o futuro braço aeronaval da Marinha do Brasil, delineando diretrizes para a utilização de helicópteros em missões de reconhecimento, transporte, apoio logístico e operações embarcadas, em consonância com práticas já adotadas por potências navais, como os Estados Unidos. Como desdobramento desse esforço, em 1955 foi criado o Centro de Instrução e Adestramento Aeronaval (CIAAN), instalado no quilômetro 11 da Avenida Brasil, na cidade do Rio de Janeiro. Concebido como o núcleo formador da aviação naval brasileira, esta organização passou a concentrar a capacitação de pilotos, mecânicos e demais especialistas, constituindo-se no principal polo de desenvolvimento técnico e operacional da força aeronaval nascente. Sua criação representou um passo essencial para a consolidação de uma doutrina própria e para a formação de recursos humanos qualificados. O processo de modernização ganhou novo impulso em 1957, com a aquisição de três unidades do Bell 47J, uma versão mais avançada da família Bell 47. Essa incorporação foi viabilizada por meio da Missão Naval Americana, no âmbito dos acordos de cooperação militar entre Brasil e Estados Unidos, que facilitaram não apenas a obtenção de equipamentos, mas também a transferência de conhecimento técnico e doutrinário. Dessa forma, estabeleciam-se as bases para o desenvolvimento consistente da aviação de asas rotativas na Marinha do Brasil, alinhando-a às tendências internacionais e preparando o terreno para sua futura expansão operacional.

Ao delinear os planos de reequipamento da recém-reestruturada Aviação Naval, as altas autoridades da Marinha do Brasil identificaram, de forma inequívoca, a necessidade de incorporar um helicóptero de maior porte e capacidade em relação aos já disponíveis Bell 47 e Westland WS-51 Widgeon, adquiridos no final da década de 1950. Tal demanda tornava-se ainda mais premente diante das limitações orçamentárias impostas ao programa de reaparelhamento, o que restringia significativamente o leque de opções disponíveis no mercado internacional. Nesse contexto, foram conduzidos estudos por intermédio do adido naval brasileiro em Washington, junto ao governo dos Estados Unidos, visando à obtenção de aeronaves de asas rotativas. Entre as alternativas consideradas, destacava-se o Sikorsky S-55, modelo amplamente empregado com resultados operacionais bastante satisfatórios em ambiente naval. Todavia, em razão do relacionamento já estabelecido entre a Marinha do Brasil e a Westland Aircraft Ltd.  bem como do prestígio conquistado junto ao Almirantado britânico durante o acompanhamento da do processo de modernização navio aeródromo ligeiro A-11 Minas Gerais, a Comissão Fiscal de Construção de Navios na Europa (CECNFE) conseguiu viabilizar a aquisição de 03 helicópteros WS-55 Whirlwind Série 1. Firmado em julho de 1960, ao valor unitário de US$ 141.366,00 o contrato apresentou como principal vantagem o curto prazo de entrega. O primeiro exemplar foi recebido já em outubro do mesmo ano, sendo seguido pelas aeronaves remanescentes no mês subsequente. Embora pertencentes à versão civil do WS-55 Série 1, esses incorporavam diversas características presentes nas variantes militares Whirlwind HAR Mk 1 e HAR Mk 2. As aeronaves destinadas à Marinha do Brasil foram configuradas para atender a múltiplas missões, podendo transportar até dez militares ou, alternativamente, serem adaptadas para evacuação aeromédica com a instalação de seis macas. Ademais, estavam equipadas com guincho de resgate semelhante ao utilizado nas versões militares britânicas, ampliando significativamente sua capacidade de emprego em operações de busca e salvamento. O contrato contemplava não apenas o fornecimento das aeronaves e de um conjunto inicial de peças de reposição, mas também um abrangente programa de treinamento operacional e de manutenção. Em decorrência disso, uma comitiva composta por aviadores navais e técnicos brasileiros foi enviada às instalações da Westland Aircraft Ltd., em Yeovil, onde realizou o processo de familiarização com o novo vetor. Essa fase transcorreu sem intercorrências, sendo concluída com pleno êxito e garantindo a adequada absorção tecnológica por parte da Marinha do Brasil. Paralelamente, o NAeL Minas Gerais ainda se encontrava no Reino Unido, em fase final de provas de aceitação, operando com um grupo aéreo embarcado britanico. Essa circunstância configurou uma oportunidade singular para a Aviação Naval brasileira, ao possibilitar o contato direto com doutrinas e práticas operacionais já consolidadas no emprego de aeronaves embarcadas, favorecendo a assimilação de conhecimentos fundamentais para a futura operação de helicópteros a bordo do navio-aeródromo.
Em 19 de outubro de 1956, a Aviação Naval da Marinha do Brasil atingiu um marco histórico ao realizar o primeiro pouso de um helicóptero a bordo do navio aeródromo ligeiro A-11 Minas Gerais . A operação foi conduzida pelos oficiais Roberto Mário Monnerat e Hercel Ahrends Teixeira, que empregaram um Westland WS-55 Whirlwind Série 1. Mais do que uma demonstração de habilidade técnica, esse evento simbolizou a integração efetiva entre meios aéreos e navais no Brasil, inaugurando uma nova fase na doutrina de emprego da Força Naval. Poucas semanas depois, em 4 de novembro de 1956, após a realização de ensaios rigorosos e a devida aprovação para recebimento, outros dois helicópteros do mesmo modelo foram incorporados, completando um conjunto de três aeronaves. Esse reforço ampliou de maneira significativa as capacidades operacionais da Aviação Naval, especialmente no que se refere a missões embarcadas. No início de dezembro daquele ano, os três helicópteros foram deslocados em voo até Rotterdam, onde foram embarcados no porta aviões brasileiro, que então se preparava para sua viagem inaugural rumo ao Brasil. O navio, pertencente à classe Colossus e adquirido do Reino Unido, representava um salto qualitativo para a Marinha do Brasil, ao introduzir, pela primeira vez, a capacidade de operar um navio-aeródromo no país. Paralelamente, a Marinha já estudava a ampliação de sua frota de helicópteros, conduzindo negociações para a aquisição de mais dois exemplares do Westland WS-55 Whirlwind Série 1. Todavia, as restrições orçamentárias então vigentes impediram a concretização imediata desses planos, que acabariam sendo postergados para 1963. Ainda assim, a chegada dos três primeiros helicópteros, em 1956, constituiu um divisor de águas, permitindo à Força Naval expandir seu espectro de atuação e consolidar sua capacidade de projeção de poder. Designadas oficialmente como HU2W, essas aeronaves foram inicialmente subordinadas ao Destacamento Aéreo Embarcado do NAeL Minas Gerais. Com a criação do 1º Esquadrão de Helicópteros de Emprego Geral (HU-1), formalizada em junho de 1961, os helicópteros foram transferidos para essa nova unidade, que passou a concentrar as operações de asas rotativas da Marinha. Instalado em dependências ainda modestas no quilômetro 11 da Avenida Brasil, na cidade do Rio de Janeiro, o 1º Esquadrão de Helicópteros de Emprego Geral rapidamente demonstrou o valor operacional do Westland WS-55 Whirlwind. Sua versatilidade permitiu o emprego em uma ampla gama de missões, abrangendo desde tarefas militares  como transporte, apoio logístico e operações embarcadas  até o atendimento a demandas de interesse público, evidenciando o papel estratégico dessas aeronaves no contexto da consolidação da aviação naval brasileira. A introdução dos helicópteros Westland WS-55 Whirlwind representou um ponto de inflexão na evolução da Aviação Naval da Marinha do Brasil, consolidando-a como um vetor indispensável no contexto da estratégia marítima nacional. Ao incorporar uma aeronave de maior porte, autonomia e versatilidade, a Força Naval ampliou significativamente sua capacidade de atuação, especialmente no que se refere às operações embarcadas e ao apoio a missões de caráter logístico e operacional em áreas de difícil acesso.

Nesse cenário, os helicópteros designados HU2W assumiram um papel de destaque em diversas frentes de atuação. Entre as missões mais relevantes, sobressaía o apoio às campanhas hidrográficas conduzidas pela Diretoria de Hidrografia e Navegação (DHN), atividade essencial para a segurança da navegação e para o conhecimento sistemático das águas jurisdicionais brasileiras. Essas operações, realizadas de forma periódica, demandavam o emprego de meios aéreos capazes de transportar pessoal técnico, equipamentos especializados e suprimentos para regiões remotas, muitas vezes inacessíveis por outros meios. Entre essas novas possibilidades, destacou-se a execução de operações aerotransportadas com tropas do Corpo de Fuzileiros Navais (CFN), bem como o lançamento de paraquedistas em missões de infiltração. Tais iniciativas representaram os primeiros passos na construção de uma capacidade efetiva de apoio aéreo à Força de Fuzileiros da Esquadra (FFE), elemento essencial para a consolidação da doutrina anfíbia brasileira. Nesse contexto, um marco relevante foi alcançado em 1964, com a realização da Operação Dragão, conduzida no litoral do Espírito Santo. Considerada a primeira de uma série de operações anfíbias de grande escala no país, essa manobra envolveu o desembarque de aproximadamente 800 militares, além de 20 viaturas leves e 04obuseiros M-2A3 105 mm howitzer, em uma cabeça de praia estabelecida ao longo de um período de cerca de dez horas. As ações incluíram não apenas o movimento navio-terra por meios de superfície, mas também, de forma inédita, o emprego de uma força de assalto helitransportada. Pela primeira vez, tropas foram lançadas a partir do NAeL A-11 Minas Gerais por meio de helicópteros Westland WS-55 Whirlwind, evidenciando o potencial dessas aeronaves no apoio a operações anfíbias. Esse emprego pioneiro marcou a incorporação efetiva da dimensão aeromóvel à doutrina naval brasileira, ampliando consideravelmente a flexibilidade e a capacidade de projeção de poder da Força Naval. Paralelamente às missões de caráter militar, os HU2W também desempenharam funções de elevado valor humanitário. Em diversas ocasiões, foram empregados em evacuações aeromédicas, missões de misericórdia e operações de apoio a populações afetadas por desastres naturais. Destaca-se, nesse sentido, sua atuação durante as intensas chuvas que atingiram a cidade do Rio de Janeiro no início de 1966, quando contribuíram decisivamente para o socorro a comunidades isoladas e o transporte de feridos. Entretanto, a elevada intensidade operacional dos helicópteros Westland WS-55 Whirlwind ao longo do início da década de 1960  embora essencial para a consolidação das capacidades da Aviação Naval da Marinha do Brasil  trouxe à tona os desafios inerentes ao emprego continuado de meios aéreos em ambientes operacionais complexos e, muitas vezes, adversos. O ritmo elevado de missões, somado às limitações tecnológicas próprias de uma aeronave concebida ainda sob parâmetros da década de 1940, bem como ao desgaste estrutural decorrente do uso intensivo, contribuiu para a ocorrência de perdas relevantes no inventário. Tais episódios refletiam não apenas as restrições materiais da época, mas também o processo natural de amadurecimento de uma doutrina aeronaval ainda em desenvolvimento.
Em 4 de novembro de 1963, o helicóptero HU2W de matrícula N-7012 foi perdido em um acidente ocorrido no litoral do Rio de Janeiro. Menos de um ano depois, em 17 de agosto de 1964, outro exemplar, matrícula N-7008, sofreu acidente nas proximidades de Nazaré. Esses episódios, embora trágicos, refletiam os riscos inerentes às operações pioneiras da Aviação Naval da Marinha do Brasil, frequentemente realizadas em condições adversas e em áreas remotas, onde limitações tecnológicas e logísticas ampliavam a complexidade das missões. Com o objetivo de recompor sua capacidade operacional, especialmente no âmbito do 1º Esquadrão de Helicópteros de Emprego Geral (HU-1), a Marinha do Brasil procedeu à aquisição de mais duas unidades do Westland WS-55 Whirlwind Série 1, em meados de 1963. Essa medida revelou-se fundamental para manter o efetivo da frota em níveis equivalentes aos observados no momento de sua introdução, em 1956. A incorporação dessas aeronaves permitiu a continuidade das missões estratégicas, incluindo o transporte de pessoal e material, o apoio às campanhas conduzidas pela Diretoria de Hidrografia e Navegação e o atendimento a demandas de interesse público. Todavia, as limitações estruturais persistiram. A carência de recursos materiais para a execução de revisões gerais, somada à crônica escassez de recursos financeiros, provocou uma queda gradual nos índices de disponibilidade. Em 1966, a situação atingiu um nível crítico, quando uma das aeronaves foi submetida a extensa canibalização, permitindo que as demais permanecessem em condições de voo. Ainda assim, circunstâncias posteriores contribuíram para estender a vida útil dos exemplares remanescentes. Com a decisão de adquirir versões mais avançadas do modelo  notadamente o Westland Whirlwind Série 3, dotado de motores turboeixo , definiu-se, em 1968, o envio de duas aeronaves ao Reino Unido. Nas instalações da Westland Helicopters, esses helicópteros passaram por um amplo processo de modernização, que incluiu a instalação do motor Rolls-Royce Gnome, resultando em ganhos significativos de desempenho e confiabilidade. Após a conclusão dos trabalhos, ambas retornaram ao Brasil em 1969. Por outro lado, o último exemplar da Série 1, matrícula N-7012, já profundamente degradado e sem viabilidade econômica para recuperação, foi alienado em 1970 e posteriormente sucateado. Esse desfecho simbolizou o encerramento de uma fase pioneira da Aviação Naval brasileira, marcada por desafios operacionais e limitações logísticas, mas também por avanços fundamentais na consolidação do emprego de helicópteros no ambiente marítimo nacional.

Em Escala.
Para representarmos Westland WS-55 Whirlwind Série 1 HU2W matricula “N-7029”, fizemos uso do antigo kit produzido pela Airfix na escala 1/72. Não há necessidade de se promover nenhuma alteração para compormos a versão empregada pela Aviação Naval da Marinha do Brasil. Fizemos uso de decais produzidos pela FCM Decais presentes no antigo set 72/10.

O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura empregado pelos Westland Whirlwind HU2W, sendo o mesmo esquema aplicado as demais aeronaves de asas rotativas em uso na Aviação Naval da Marinha do Brasil, mantendo esta sistemática até a implementação de seu programa de modernização realizado em 1968.
Bibliografia :
- Westland Whirlwind – Wikipedia  https://en.wikipedia.org/wiki/Westland_Whirlwind_(helicopter)
- Aeronaves Militares Brasileiras 1916 – 2015  por  Jackson Flores 
- 100 anos da Aviação Naval – Marinha do Brasil
- Asas sob os Mares Aviação Naval , Prof Rudnei Dias Cunha - http://www.rudnei.cunha.nom.br

M-1 Pack Howitzer (75 mm)

História e Desenvolvimento.
Após o término da Primeira Guerra Mundial, o comando do Exército dos Estados Unidos (U.S Army) deparou-se com uma constatação incontornável: sua artilharia de campanha permanecia fortemente dependente de modelos europeus, especialmente franceses e britânicos, como o canhão M1897 de 75 mm. Embora essas peças tivessem desempenhado papel relevante no conflito, a experiência adquirida nos campos de batalha da Europa evidenciou a necessidade de um programa de modernização que contemplasse maior mobilidade, potência de fogo e flexibilidade operacional. Nesse contexto, foi instituído, em 1919, o chamado Westervelt Board, comissão estratégica presidida pelo General de Brigada William I. Westervelt. O grupo recebeu a missão de analisar as lições aprendidas durante a guerra e propor diretrizes para a reorganização e o reequipamento da artilharia norte-americana. Tratava-se de uma iniciativa ambiciosa, voltada não apenas à substituição de equipamentos, mas à redefinição doutrinária do emprego da artilharia em conflitos futuros. Entre as recomendações mais significativas estava o desenvolvimento de um obuseiro leve de 75 mm que reunisse características até então consideradas difíceis de conciliar: alcance mínimo de aproximadamente 10.000 metros, capacidade de disparar projéteis de cerca de 6,8 kg e, sobretudo, possibilidade de desmontagem em cargas transportáveis por mulas. Tal exigência refletia a preocupação com operações em terrenos montanhosos, regiões selváticas ou áreas onde a motorização ainda era limitada. O conselho chegou inclusive a considerar meios de transporte não convencionais, como aeronaves  uma visão que antecipava as futuras operações aerotransportadas e a crescente importância da mobilidade estratégica. O desenvolvimento do que viria a ser o M1 Pack Howitzer teve início em 1920. A primeira versão submetida a testes naquele ano, contudo, foi rejeitada por não atender plenamente aos requisitos de peso e mobilidade estipulados. Após ajustes e aperfeiçoamentos técnicos, um novo projeto foi apresentado em 1922, culminando na padronização oficial, em agosto de 1927, do “Howitzer, Pack, 75 mm M1 on Carriage M1”. O protótipo inicial foi rapidamente concluído e encaminhado para ensaios de campo no ano seguinte, cujos resultados mostraram-se promissores e confirmaram a viabilidade do conceito.   Tratava-se de uma peça pensada não apenas para acompanhar a infantaria em terrenos difíceis, mas para operar onde a artilharia convencional simplesmente não poderia chegar. Com peso aproximado de 653 kg em ordem de combate, o obuseiro podia ser desmontado em seis a nove cargas, conforme a configuração adotada. Cada conjunto variava entre 73 e 107 kg, abrangendo o tubo, o mecanismo de culatra, o reparo, a base de tiro e as rodas. Essa característica permitia seu transporte por mulas  essencial para operações em regiões montanhosas ou de difícil acesso , por lançamento aéreo em paraquedas ou, em situações emergenciais, por equipes de artilheiros devidamente treinados. A desmontagem modular representava, portanto, uma solução prática para os desafios logísticos que marcariam os conflitos da primeira metade do século XX.

Do ponto de vista técnico, o M1 empregava um sistema de recuo hidropneumático instalado sob o tubo, solução que absorvia parte significativa da energia do disparo e contribuía para a estabilidade da peça. O mecanismo de culatra, do tipo cunha deslizante horizontal e operado manualmente, favorecia a simplicidade construtiva e a rapidez na montagem e desmontagem  atributos essenciais para unidades móveis e aerotransportadas. O reparo original, designado M1 Carriage, possuía rodas de madeira e destinava-se principalmente à tração animal ou ao reboque em baixa velocidade. Contudo, à medida que a doutrina militar evoluía e a mobilidade estratégica ganhava importância especialmente com o desenvolvimento das forças aerotransportadas tornou-se evidente a necessidade de aperfeiçoamentos. Na década de 1930 foi introduzido o reparo M8 Carriage, equipado com rodas metálicas e pneus pneumáticos, o que reduziu o peso total do conjunto e possibilitou o reboque por veículos leves, como o jipe de ¼ de tonelada. Essa configuração também facilitava o transporte aéreo em aeronaves como o Douglas C-47 Skytrain e em planadores do tipo Waco CG-4. O reparo M8 tornou-se padrão nas unidades aerotransportadas. Nessa configuração, o obuseiro podia ser desmontado em nove cargas para lançamento por paraquedas  incluindo munição  ou em sete cargas quando destinado ao transporte por mulas. Uma vez em solo, a peça podia ser rapidamente montada e colocada em posição de tiro, característica que ampliava significativamente a capacidade de apoio de fogo em operações aeromóveis. Em serviço, uma guarnição de seis artilheiros bem treinados era capaz de alcançar uma cadência de três a seis disparos por minuto, mantendo precisão satisfatória para o apoio direto à infantaria. Como limitação inerente ao seu projeto, o tubo relativamente curto restringia o alcance máximo a aproximadamente 8,7 quilômetros, valor inferior ao de peças de campanha de maior porte. Ainda assim, seu desempenho atendia às necessidades para as quais fora concebido.  Entretanto, o avanço do programa foi abruptamente impactado pela crise econômica deflagrada em 1929 com a quebra da Bolsa de Valores de Nova York. A Grande Depressão impôs severas restrições orçamentárias ao setor militar, resultando no contingenciamento de recursos e no adiamento da produção em larga escala do novo obuseiro. O programa só seria retomado no início da década de 1930, ainda sob forte limitação financeira; até o começo de 1933, apenas 32 unidades haviam sido fabricadas. Este cenário perduraria, e  até meados de 1940, apenas 91 unidades haviam sido entregues às formações operativas do Exército dos Estados Unidos (U.S army), reflexo direto das limitações impostas pela crise econômica.  No entanto o panorama estratégico internacional alterou-se de forma profunda ao final da década de 1930. A escalada das tensões na Europa e no Pacífico, seguida pela eclosão da Segunda Guerra Mundial, impôs aos Estados Unidos a necessidade de rever rapidamente sua postura militar. Mesmo antes de sua entrada formal no conflito, o país já se mobilizava para suprir tanto suas próprias forças quanto as nações aliadas, especialmente as vésperas da  promulgação do Lend-Lease Act (Lei de Emprestimos e Arrendamentos), que autorizava o fornecimento de armamentos e suprimentos a países considerados vitais à defesa norte-americana. 
Nesse contexto de rearmamento acelerado, o M1  passou a ocupar posição de destaque.  A produção em larga escala foi iniciada em setembro de 1940, sob a liderança do Rock Island Arsenal, um dos mais tradicionais e importantes centros industriais do United States Army no campo da artilharia. Para atender à demanda crescente, outros fabricantes civis e militares foram incorporados ao esforço produtivo, assegurando a ampliação da capacidade industrial e a padronização das linhas de montagem. Esse modelo de mobilização industrial refletia a transição dos Estados Unidos para uma economia de guerra, caracterizada pela coordenação entre governo, forças armadas e setor privado.  No inicio de 1942, um versão aprimorada do obuseiro, a M1A1, foi introduzida com pequenas modificações no anel de culatra e no bloco de culatra, oferecendo maior confiabilidade, neste contexto passariam a ser distribuídas as unidades operativas do Exército dos Estados Unidos (U.S Army), principalmente as unidades de montanha e divisões de paraquedistas.  O batismo de fogo do M-1 75 mm Pack Howitzer ocorreu no contexto da entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, após o ataque a Pearl Harbor em dezembro de 1941. Sua estreia em combate foi registrada no Teatro do Pacífico, particularmente durante a Campanha das Ilhas Salomão em 1942, com destaque para a Batalha de Guadalcanal (agosto de 1942 – fevereiro de 1943). Operado pelos Fuzileiros Navais, o M-1 foi amplamente utilizado em operações em selva, onde sua portabilidade e facilidade de montagem foram cruciais para superar as dificuldades logísticas impostas pelo terreno. Na Batalha de Guadalcanal, o M-1 75 mm Pack Howitzer, apelidado de “Tiny Tim” pelos Fuzileiros Navais, provou sua eficácia contra posições fortificadas japonesas, como bunkers e ninhos de metralhadoras. Transportado por mulas ou desmontado para ser carregado por soldados em trilhas estreitas, o obuseiro ofereceu suporte de fogo preciso e contínuo, permitindo às tropas americanas neutralizar defesas inimigas em um ambiente hostil de selva tropical. Sua capacidade de ser rapidamente montado e operado por uma equipe de seis soldados, com uma cadência de três a seis disparos por minuto, garantiu flexibilidade tática em combates intensos.  Em 22 de janeiro de 1944, o obuseiro foi empregado de maneira significativa durante a Operação Shingle, o desembarque anfíbio aliado em Anzio, Itália, pelas unidades do 39º Regimento de Artilharia de Campo, do 504º Regimento de Infantaria de Paraquedistas e da 82ª Divisão Aerotransportada. Esta operação teve como objetivo abrir uma nova frente na Itália, contornando as fortificações alemãs da Linha Gustav e acelerando o avanço aliado em direção a Roma. O desembarque em Anzio, liderado pelo VI Corpo do V Exército dos Estados Unidos, envolveu forças americanas e britânicas, incluindo unidades de elite como a 82ª Divisão Aerotransportada. O terreno costeiro e pantanoso de Anzio, combinado com a resistência alemã, exigia armas que fossem móveis, fáceis de posicionar e capazes de fornecer suporte de fogo imediato. O 39º Regimento de Artilharia de Campo, parte do VI Corpo, utilizou o M-1 75 mm Pack Howitzer para fornecer apoio de fogo às tropas desembarcadas em Anzio. Transportado em cargas leves, o obuseiro foi rapidamente posicionado nas praias e áreas adjacentes, oferecendo disparos de alto explosivo (HE) contra posições alemãs fortificadas, como ninhos de metralhadoras e bunkers.

A partir de 1943, o obuseiro passou a assumir papel ainda mais relevante nos teatros de operações, com a adoção de uma variante designada M2 75 mm, foi adotada pelas unidades de artilharia divisional do Corpo de Fuzileiros Navais (U.S Marine Corps). Entre os fuzileiros navais, a peça recebeu o apelido de “Tiny Tim”, expressão que refletia, de forma quase afetuosa, seu porte compacto em contraste com sua efetividade em combate. Empregado em sucessivas operações anfíbias no Pacífico, o M1/M2 demonstrou notável utilidade em campanhas como as batalhas de Guadalcanal, Iwo Jima e Okinawa. Nessas frentes, caracterizadas por terrenos abruptos, selvas densas e sistemas defensivos profundamente entrincheirados, sua leveza e relativa facilidade de posicionamento permitiram apoiar de perto as tropas de assalto, neutralizando casamatas, ninhos de metralhadora e posições fortificadas japonesas. Todavia, à medida que as operações avançavam e as defesas inimigas tornavam-se mais robustas, evidenciou-se a necessidade de maior alcance e poder destrutivo. Entre 1944 e 1945, o Corpo de Fuzileiros Navais iniciou gradualmente a substituição do M1 por obuseiros de maior calibre, como os de 105 mm e 155 mm, adequados à destruição de fortificações mais pesadas e à condução de bombardeios preparatórios de maior intensidade. Paralelamente, no âmbito do exército a experiência acumulada nas primeiras operações aerotransportadas levou à revisão das tabelas de organização e equipamento. A partir de fevereiro de 1944, estabeleceu-se que cada divisão aerotransportada deveria dispor de três batalhões de artilharia, totalizando 36 obuseiros M1/M1A1 75 mm. Dois desses batalhões eram transportados em planadores Waco CG-4, enquanto o terceiro  um batalhão de artilharia de campo  lançava suas peças por paraquedas a partir de aeronaves Douglas C-47 Skytrain. Essa organização assegurava apoio de fogo imediato às tropas lançadas atrás das linhas inimigas, como ocorreu na Operation Shingle, em Anzio, e na Operation Overlord, na Normandia. Em determinadas circunstâncias, o M1 podia ser substituído pelo obuseiro M3 de 105 mm, opção que refletia a flexibilidade doutrinária e a constante adaptação às exigências táticas do campo de batalha. Nas divisões de montanha, como a 10th Divisao de Montanha do Exército dos Estados Unidos (U.S Army), o M1 revelou-se igualmente valioso. Cada divisão contava com três batalhões equipados com 12 peças, totalizando 36 obuseiros por grande unidade. Em terrenos acidentados, como os Apeninos italianos, a possibilidade de desmontagem e transporte por animais de carga permitiu que a artilharia acompanhasse a infantaria em áreas onde veículos motorizados eram impraticáveis. O mesmo princípio foi aplicado no Teatro do Pacífico, especialmente nas operações na Birmânia, onde trilhas estreitas e condições climáticas adversas impunham severas restrições logísticas. Nessas circunstâncias, mulas transportavam as peças desmontadas por percursos íngremes e irregulares, assegurando apoio de fogo contínuo a forças que operavam em ambientes extremos. Um dos usos mais singulares do M-1 75 mm Pack Howitzer ocorreu em abril de 1945, durante a Operação Tombola, na Itália. Uma única peça foi lançada de paraquedas para equipar o 2º Regimento Italiano do SAS (Serviço Aéreo Especial), uma unidade heterogênea composta por partisans italianos, ex-prisioneiros de guerra russos e desertores do Exército Alemão (Wehrmacht). Operando entre Modena e Florença, ao longo da Rota 12, o obuseiro foi utilizado para atacar comboios alemães, demonstrando sua versatilidade em operações de guerrilha.  Esse feito destacou a capacidade do M-1 de ser empregado por forças não convencionais em missões táticas complexas, reforçando sua reputação como uma arma adaptável. 
Entre 1940 e dezembro de 1944, foram produzidas 4.939 unidades nas versões M1 e M1A1 número expressivo, sobretudo se consideradas as limitações orçamentárias do período anterior e o fato de que o parque industrial norte-americano precisava, simultaneamente, fabricar uma ampla gama de outros sistemas de armas, como o obuseiro de 105 mm M2A1. Dessa forma, o M1/M2 75 mm Pack Howitzer consolidou-se como um dos mais versáteis sistemas de artilharia leve da Segunda Guerra Mundial, adaptando-se com notável eficácia às demandas de guerra anfíbia, aerotransportada e de montanha  três modalidades operacionais que redefiniram a condução do combate no século XX. Encerrada a Segunda Guerra Mundial, o M1 75 mm Pack Howitzer não foi relegado de imediato aos depósitos, como ocorreu com tantos outros sistemas de artilharia do conflito. Ao contrário, sua comprovada robustez, simplicidade mecânica e notável mobilidade asseguraram-lhe uma sobrevida operacional em diferentes continentes, no contexto das tensões que marcariam o início da Guerra Fria. Na Ásia, particularmente na China, o obuseiro permaneceu em uso por longo período, sendo empregado pelas forças do Viet Minh durante a Guerra da Indochina contra a França e, posteriormente, em fases iniciais dos confrontos que culminariam na Guerra do Vietnã. Sua capacidade de desmontagem em cargas transportáveis, adequada a terrenos montanhosos e de difícil acesso, revelou-se especialmente valiosa em cenários de guerra irregular, nos quais a mobilidade superava, muitas vezes, a necessidade de maior calibre. Em 1962, a peça foi redesignada como M116, conforme a padronização de nomenclaturas adotada pelo Exército dos Estados Unidos (U.S Army),  Mesmo diante da introdução de sistemas mais modernos, o M116 permaneceu em serviço ativo até a década de 1980, sobretudo em funções secundárias e de instrução. Paralelamente, consolidou-se seu emprego cerimonial, tradição que perdura em determinadas unidades, nas quais o obuseiro é utilizado para a execução de salvas em eventos militares solenes. No âmbito da cooperação internacional do pós-guerra, 153 peças do M116 foram transferidas, em 1960, às Forças de Autodefesa do Japão (Jieitai), no contexto dos acordos de segurança firmados entre Tóquio e Washington. Integradas às estruturas japonesas, essas unidades permaneceram em serviço até o final da década de 1980. Em um país de relevo predominantemente montanhoso, a leveza, a facilidade de transporte por veículos leves e a possibilidade de desmontagem continuaram a representar vantagens operacionais significativas, reforçando a reputação de confiabilidade do sistema. De forma surpreendente, o M116 voltou a desempenhar papel operacional no século XXI. Em 2010, o Exército Turco (Türk Kara Kuvvetleri) empregou dezenas dessas peças em operações no sudeste da Turquia, em ações contra grupos separatistas curdos. Mais uma vez, a combinação entre mobilidade, simplicidade logística e capacidade de operar em terrenos acidentados demonstrou a pertinência de um projeto concebido ainda nos anos 1930 para ambientes de difícil acesso.  O Exército dos Estados Unidos (U.S Army) mantém três peças na Bateria de Artilharia Norwich, vinculada à Norwich University, e duas na University of North Georgia. Nessas unidades, o obuseiro é empregado em cerimônias oficiais, disparando salvas que evocam a tradição e a continuidade histórica da artilharia norte-americana, conectando sucessivas gerações de cadetes à experiência de seus predecessores.

Emprego no Exército Brasileiro.
No alvorecer da Segunda Guerra Mundial, a rápida expansão territorial das potências do Eixo — Alemanha Nazista, Itália e Japão  suscitou profunda apreensão em Washington quanto à segurança hemisférica. A capitulação da França, em junho de 1940, agravou esse quadro, pois abriu a possibilidade de que territórios coloniais franceses no Atlântico e na África Ocidental pudessem, direta ou indiretamente, servir aos interesses estratégicos alemães. A perspectiva de utilização de pontos como as Ilhas Canárias, Dacar ou possessões no Norte da África como bases de apoio logístico ou aéreo conferia nova dimensão ao risco de projeção militar em direção ao continente americano. Nesse contexto geopolítico, o Brasil passou a ocupar posição central nos cálculos estratégicos norte-americanos. Sua extensa fachada atlântica e, sobretudo, a proximidade do Nordeste brasileiro com o continente africano faziam do país um elo natural entre os dois lados do Atlântico Sul. A cidade de Recife destacava-se como ponto nodal, por constituir uma das menores distâncias aéreas e marítimas entre a América do Sul e a África, condição que a transformava em área privilegiada para o estabelecimento de bases aéreas e instalações portuárias de valor estratégico. Paralelamente, as conquistas japonesas no Sudeste Asiático e no Pacífico Sul comprometeram severamente o acesso aliado às tradicionais fontes de borracha natural. O Brasil, então, assumiu papel de principal fornecedor de látex para os Aliados, insumo vital para a indústria de guerra indispensável na fabricação de pneus, vedantes, equipamentos médicos e diversos componentes militares. A proteção das rotas marítimas que escoavam essas matérias-primas tornou-se prioridade estratégica. Diante desse cenário, intensificou-se a aproximação política, econômica e militar entre o Brasil e os Estados Unidos. Um dos marcos desse processo foi a adesão brasileira ao programa Lend-Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos), instrumento por meio do qual Washington fornecia material bélico e apoio financeiro a nações consideradas essenciais à defesa dos interesses aliados. O acordo assegurou ao Brasil uma linha inicial de crédito da ordem de US$ 100 milhões de dólares, destinada à aquisição de armamentos modernos, aeronaves, veículos blindados e outros equipamentos necessários à modernização de suas Forças Armadas. Tais recursos revelaram-se particularmente relevantes diante da intensificação dos ataques de submarinos alemães no Atlântico Sul, que ameaçavam a navegação mercante e impactavam diretamente o comércio exterior brasileiro com os Estados Unidos. A proteção das linhas de comunicação marítima, fundamentais para o abastecimento da indústria bélica norte-americana, tornou-se questão de sobrevivência estratégica. A liderança política brasileira, sob o comando do presidente Getúlio Vargas, compreendeu a dimensão histórica daquele momento. Vargas declarou que o Brasil não se limitaria ao fornecimento de matérias-primas estratégicas e sinalizou a disposição de ampliar sua participação no esforço aliado, inclusive com o eventual envio de tropas a um teatro de operações de relevância. Assim, a conjuntura internacional não apenas redefiniu a posição do Brasil no tabuleiro geopolítico do Atlântico Sul, mas também impulsionou um processo de modernização militar e de engajamento internacional que marcaria de forma duradoura a história das Forças Armadas brasileiras e sua inserção no cenário global.

Na década de 1940, a artilharia de campanha do Exército Brasileiro encontrava-se em evidente defasagem material e doutrinária. Grande parte de seus meios era composta por canhões alemães Krupp 75 mm Modelo 1908 e peças francesas Schneider et Cie (Schneider-Canet) de 75 mm, ambos concebidos no início do século XX e destinados à tração hipomóvel. Embora robustos e confiáveis em sua época, tais sistemas já não correspondiam às exigências do combate moderno, marcado por maior mobilidade, emprego intensivo de blindados e integração entre armas combinadas. A esse quadro somava-se a influência da chamada Missão Militar Francesa, cuja permanência no Brasil, desde o período entre guerras, moldara a doutrina e a organização do Exército segundo preceitos já superados pelas transformações táticas observadas nos campos de batalha europeus a partir de 1939. A entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial ao lado dos Aliados inaugurou um processo de modernização acelerada. A partir de meados de 1942, navios de transporte passaram a aportar no Rio de Janeiro trazendo armamentos e equipamentos modernos: armas automáticas de infantaria, canhões anticarro de 37 mm e obuseiros de 75 mm, 105 mm e 155 mm. Esses meios eram fornecidos no âmbito do programa Lend-Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos), instrumento decisivo para a reestruturação das Forças Armadas brasileiras. Entre os primeiros contratos, foram cedidos ao Brasil 36 obuseiros M1 75 mm Pack Howitzer, distribuídos em duas configurações de reparo: o modelo M1, com rodas de madeira  correspondente aos primeiros lotes de produção  e o modelo M8, dotado de pneus de borracha convencionais. Não há, contudo, registros conclusivos que permitam determinar com precisão a quantidade exata recebida de cada versão. Ainda assim, sua incorporação representou um significativo salto qualitativo, ampliando a mobilidade, a precisão e o poder de fogo da artilharia brasileira. O compromisso formal do Brasil com o esforço de guerra aliado consolidou-se em 9 de agosto de 1943, por meio da Portaria Ministerial nº 4.744, que criou a Força Expedicionária Brasileira (FEB). Estruturada como 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária (1ª DIE) e comandada pelo General de Divisão João Batista Mascarenhas de Morais, a FEB deveria totalizar cerca de 25.000 homens, incluindo unidades divisionárias e diversos órgãos de apoio indispensáveis à sua atuação no exterior. Não existem, até o momento, registros oficiais ou documentação fotográfica que comprovem o emprego do M1 75 mm Pack Howitzer pela Força Expedicionária Brasileira (FEB) durante a campanha da Itália. Esta teoria se reflete pelo fato de 10ª Divisão de Montanha norte-americana, que era uma das principais unidades que participaram deste front de batalha , era especializada em operações nos terrenos adversos. Representava assim a primeira e única divisão norte-americana de Alpinos, sendo formada por esquiadores experientes, alpinistas e montanhistas com formação concluída no Texas, e por operar neste nível de especialização estava equipada com peças de artilharia de pequeno porte como os canhões antitanque M-3 37 mm e obuseiros M-1 75 mm Howitzer Pack. Assim a Força Expedicionária Brasileira (FEB) por operar nesta mesma região, possa ter vindo a operar este modelo de peça de artilharia, no entanto reforçamos que trata-se de uma especulação.
No período imediato ao término da Segunda Guerra Mundial, o Exército Brasileiro iniciou um processo gradual, porém consistente, de modernização de suas capacidades operacionais. Parte significativa desse esforço apoiou-se na incorporação de equipamentos recebidos durante o conflito, entre os quais se destacavam os obuseiros leves M1 75 mm Pack Howitzer. Inicialmente distribuídas aos Grupos de Artilharia de Campanha, essas peças passaram a operar em conjunto com outros meios fornecidos por intermédio do Lend-Lease Act, sendo tracionadas por viaturas leves como os jipes Ford Motor Company e Willys-Overland, além dos utilitários Dodge WC-51 e WC-52. A introdução desses obuseiros representou sensível avanço em relação aos antigos canhões de tração hipomóvel, tanto pela maior mobilidade quanto pela versatilidade tática. Sua possibilidade de desmontagem em fardos transportáveis e o reduzido peso operacional permitiam rápido deslocamento e emprego em terrenos variados, alinhando-se às novas concepções de guerra móvel que emergiram do conflito mundial. Uma inflexão decisiva no emprego do M1 75 mm Pack Howitzer ocorreu com a criação, em 26 de dezembro de 1946, do Núcleo de Formação e Treinamento de Paraquedistas, embrião do futuro Núcleo da Divisão Aeroterrestre. A iniciativa refletia a assimilação das lições extraídas das operações aerotransportadas conduzidas durante a guerra, especialmente no teatro europeu. Pretendia-se constituir uma força de elite, estruturada com batalhões de infantaria paraquedista, esquadrões de cavalaria, unidades de comando, comunicações, engenharia, apoio logístico e, de forma inovadora, grupos de artilharia paraquedista. A doutrina então concebida previa a organização de baterias equipadas com obuses de 75 mm e de 105 mm, sendo o M1 a peça que melhor se ajustava às exigências da nova força. Originalmente projetado para operações aerotransportadas norte-americanas, o obuseiro combinava leveza, desmontagem em cargas compatíveis com lançamento aéreo e relativa simplicidade de manutenção — atributos essenciais para uma tropa destinada a atuar isoladamente, em profundidade, e com apoio logístico limitado. O desenvolvimento dessa doutrina culminou na consolidação de uma artilharia aerotransportada nacional, dotada de elevado grau de profissionalização. Um marco simbólico ocorreu em 26 de dezembro de 1950, quando o Capitão Dickson Melges Grael  pioneiro do paraquedismo militar no Brasil e primeiro comandante da unidade  realizou o primeiro tiro de bateria com um obuseiro M1 75 mm Pack Howitzer no âmbito da nova organização. O episódio representou não apenas um feito técnico, mas a afirmação da artilharia paraquedista como elemento orgânico de apoio de fogo da tropa aeroterrestre. As operações aerotransportadas tiveram início logo após esse período inaugural, embora não sem desafios. A Força Aérea Brasileira (FAB) dispunha, à época, de aeronaves como o Douglas C-47 Skytrain, cuja capacidade de carga e configuração  com lançamento realizado exclusivamente por portas laterais  impunham limitações ao transporte de equipamentos mais pesados. Ainda assim, a unidade demonstrou notável capacidade de adaptação, superando restrições materiais por meio de rigoroso treinamento e aperfeiçoamento técnico.

Dessa forma, o M1 75 mm Pack Howitzer não apenas simbolizou a modernização da artilharia brasileira no pós-guerra, mas tornou-se peça fundamental na consolidação da doutrina aeroterrestre nacional, marcando o início de uma tradição que projetaria o Brasil no seleto grupo de nações com capacidade orgânica de emprego de artilharia aerotransportada. A trajetória da artilharia aerotransportada do Exército Brasileiro conheceu etapa decisiva em 31 de março de 1953, quando o então Núcleo da Divisão Aeroterrestre foi elevado à condição de Grupo de Obuses 75 mm Aeroterrestre. A reestruturação concentrou, sob um único comando, todas as peças M1 75 mm Pack Howitzer disponíveis no país, consolidando a especialização da unidade no apoio de fogo às tropas paraquedistas. Sob a liderança de oficiais que marcaram esse período formativo  entre os quais se destacou o Capitão Dickson Melges Grael, pioneiro do paraquedismo militar brasileiro  o grupo afirmou-se como núcleo de inovação doutrinária e elevado profissionalismo. Nesse ambiente, foram lançadas as bases institucionais da futura Brigada de Infantaria Paraquedista, que se tornaria uma das formações de elite mais reconhecidas do Exército Brasileiro. Um salto qualitativo nas capacidades operacionais ocorreu a partir de janeiro de 1956, com a incorporação dos aviões de transporte Fairchild C-82 Packet à Força Aérea Brasileira (FAB). Concebida especificamente para o lançamento de tropas e cargas, a aeronave apresentava capacidade superior à dos veteranos Douglas C-47 Skytrain até então empregados. Sua introdução foi determinante para o amadurecimento da doutrina aeroterrestre nacional, oferecendo melhores condições para o transporte e lançamento de peças de artilharia leve. Esse processo evolutivo culminou, em meados da década de 1950, na realização do primeiro lançamento em larga escala de obuseiros M1 75 mm Pack Howitzer, demonstrando a viabilidade de integrar artilharia leve às operações aerotransportadas brasileiras. Tratava-se de um feito técnico e logístico relevante, que reafirmava a capacidade da unidade de operar com elevado grau de autonomia e coordenação interforças. A partir de 1962, a chegada dos aviões Fairchild C-119 Flying Boxcar ampliou ainda mais o espectro operacional. Dotado de maior capacidade de carga e de portas traseiras adequadas ao lançamento de equipamentos volumosos, o C-119 possibilitou o emprego de obuseiros mais pesados, como os modelos M2 e M3 de 105 mm, que passaram a complementar  e progressivamente substituir  os M1 75 mm Pack Howitzer. Essa modernização refletiu-se na própria designação da unidade, que evoluiu para Grupo de Obuses 105 mm Aeroterrestre e, posteriormente, para 8º Grupo de Artilharia Paraquedista, estrutura que, com adaptações, perdura até os dias atuais. O processo de consolidação das forças aerotransportadas brasileiras atingiu novo patamar em 1968, com a criação da Brigada Aeroterrestre, resultante da reorganização do antigo núcleo divisionário. A nova estrutura fortaleceu a capacidade de atuação em cenários de maior complexidade, organizando-se de forma modular, com batalhões de infantaria paraquedista, esquadrões de cavalaria, companhias de comando e apoio, unidades de comunicações, engenharia, logística e artilharia.
Finalmente, em 1971, a redesignação oficial para Brigada de Infantaria Paraquedista consolidou sua identidade institucional como tropa de elite do Exército Brasileiro. Sediada no Rio de Janeiro e subordinada ao Comando Militar do Leste, a Brigada passou a representar a síntese de um processo iniciado ainda no pós-guerra: a construção de uma capacidade aeroterrestre nacional plenamente integrada, capaz de projetar poder com mobilidade, precisão e elevado grau de preparo técnico. Em 1976, foi realizada a primeira Operação SACI, que aconteceu nas regiões de Campos e Macaé (RJ) e Viana (ES), com a infiltração noturna da Eqp Prec, o lançamento tático de 700 paraquedistas e a participação de caças F-5E precedendo dez aeronaves C-115, três C-95 e seis C-130. Desde então, esta tradicional operação ocorre anualmente como coroamento do período de adestramento. Ao final da década de 1970, os obuseiros M1 75 mm Pack Howitzer  que haviam desempenhado papel decisivo na consolidação da artilharia aerotransportada do Exército Brasileiro  começaram a evidenciar sinais inequívocos de obsolescência. Após mais de três décadas de serviço, desde sua incorporação nos anos 1940, essas peças já enfrentavam limitações técnicas decorrentes do desgaste material, da evolução dos sistemas de tiro e, sobretudo, da necessidade crescente de padronização logística. A doutrina de artilharia de campanha do Exército Brasileiro evoluía no sentido de concentrar esforços no calibre 105 mm, adotado como padrão por oferecer melhor equilíbrio entre mobilidade, alcance e poder de fogo. Essa padronização visava racionalizar estoques de munição, simplificar a manutenção e elevar a eficiência operacional. Nesse novo contexto, o M1 75 mm, embora ainda funcional, tornava-se progressivamente inadequado às exigências de um campo de batalha cada vez mais dinâmico e tecnologicamente sofisticado. Gradualmente, muitas dessas peças passaram a desempenhar funções secundárias, notadamente em atividades de instrução e em disparos de salvas cerimoniais. No âmbito do Curso de Formação de Reservistas de 2ª Categoria, conduzido no Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA), os obuseiros continuaram a cumprir papel formativo e simbólico. Embora tais atividades preservassem tradições e contribuíssem para a educação cívico-militar de jovens reservistas, evidenciavam o declínio de seu emprego operacional efetivo. Diante desse quadro, o Comando do Exército decidiu promover a substituição definitiva do M1 por um sistema mais moderno e compatível com a padronização adotada. A escolha recaiu sobre o Oto Melara Mod 56, cuja aquisição teve início em 1977. Leve, desmontável e apto a operações aerotransportadas e de montanha, o modelo italiano representava significativa evolução tecnológica, alinhando-se às necessidades táticas da época e consolidando o calibre 105 mm como referência na artilharia leve brasileira. Com o encerramento de sua carreira operacional, algumas peças M1 75 mm foram destinadas ao Colégio Militar do Rio de Janeiro, onde passaram a ser empregadas em instrução e em salvas de honra, ao lado dos tradicionais obuseiros franceses Schneider de 75 mm. Nessa nova função, os antigos “Pack Howitzer” assumiram caráter eminentemente simbólico, preservando a memória de uma fase crucial da modernização do Exército Brasileiro e servindo como elo histórico entre gerações de militares. Esse emprego, entretanto, não se prolongaria indefinidamente. No início da década de 1990, os M1 75 mm foram definitivamente desativados do serviço ativo. 

Em Escala.
O kit da Vision Models na escala 1/35 é ideal para representar o M1 75 mm Howitzer Pack do Exército Brasileiro. Apesar de limitações na injeção plástica, o modelo oferece bom detalhamento, com peças em metal e photo-etched, que garantem realismo a elementos como o cano, suportes e grades. O kit não requer modificações para representar a versão utilizada em nosso pais. A pintura em verde-oliva, com marcações discretas, reflete o uso pelo Núcleo da Divisão Aeroterrestre e pela Brigada de Infantaria Paraquedista.
O esquema de pintura adotado para o M-1 75 mm Howitzer Pack consistia predominantemente no Verde-Oliva Fosco, correspondente ao padrão FS 34087 (Federal Standard 595), amplamente utilizado em equipamentos militares brasileiros e aliados durante e após a Segunda Guerra Mundial. As marcações eram minimalistas, geralmente restritas a numerações ou insígnias discretas do Exército Brasileiro, aplicadas em preto fosco (FS 37038) ou, em alguns casos, branco fosco (FS 37875), dependendo do contexto operacional ou cerimonial.

Bibliografia: 
- M116 75 mm  Wikipédia - https://en.wikipedia.org/wiki/M116_howitzer
- Technical Manual TM 9-1320, 75mm Howitzers and Carriages. War Department, 1944
- Veículos Militares do Brasil - EB e CFN – Facebook Edição colaborativa do artigo
-  Exército Brasileiro - http://www.bdainfpqdt.eb.mil.br/oms/60-organiza%C3%A7%C3%B5es-militares/110-8-gac-pqdt.html