CAP4 Paulistinha & Taylorcraft Militar

História e Desenvolvimento. 

A origem desta vasta linhagem de aeronaves leves de ligação transporte e instrução de grande sucesso mundial, tem início em 1927 com a fundação da empresa Taylor Brothers Aircraft Manufacturing, apresentando como primeiro produto de destaque o Taylor Cub, um pequeno avião biplace de asa alta cuja produção foi iniciada em 1931 atingindo a cifra de mais quatro mil aeronaves produzidas. Em dezembro de 1937 está pujante empresa seria renomeada como Piper Aircraft Company, e rapidamente sua marca tornou-se sinônimo de aeronaves leves de treinamento e transporte com suas vendas sempre se baseando na casa milhares de células entregues ao mercado civil. Durante a Segunda Guerra Mundial a companhia teria destaque no esforço de guerra aliado, sendo responsável pela produção de mais cinco mil células das versões militares do J-3 Cub designadas como L-4 Grasshopper, além de produzir diversos componentes para equipamentos de defesa. A simplicidade e a robustez do projeto que o permitia operar em aeroportos com baixa infraestrutura de apoio, levaria a celebração de contratos de exportação para o mundo todo, encontrando um farto mercado nos países em desenvolvimento, inicialmente as aeronaves eram exportadas prontas sendo montadas nos países de destino, logo em seguida o fabricante começou a negociar os direitos (licença de produção), permitindo a inclusão de um percentual de componentes produzidos localmente. Esta sistemática iria ampliar o mercado desta notável família de aeronaves de baixo custo de aquisição e operação, atingindo os países mais distantes do mundo, entre eles o Brasil. No entanto um dos fundadores da empresa original em 1927, que fora retirado com controle da empresa em 1935, por não se dar por vencido ele fundaria logo uma nova empresa Taylorcraft Aircraft Co e passaria a produzir uma nova aeronave baseada o modelo BC-12 que era baseado em sua criação anterior, obtendo êxito tanto no segmento civil, quanto militar durante a Segunda Guerra Mundial.

Em nosso país a carreira das aeronaves inspiradas nos modelos da produzidos pelas empresas Taylor/Piper Cub, começou a tomar forma no final da década de 1930, momento em que o Brasil vivenciava uma grande transformação em seu ciclo de desenvolvimento. Nesta época o entusiasmo do empresário paulista Francisco Pignatari pela aviação levaria a associação com o engenheiro italiano Luigi Bresciani, para o desenvolvimento e produção de uma aeronave nacional de pequeno porte para dois tripulantes que deveria ser baseada no desing e conceito dos modelos do original norte americano, deste estudo foram produzidos dois protótipos que empregavam motores a pistão Continental A65 com 50 cv .Apesar de se mostrarem operacionais este projeto não passaria da fase de protótipo, mas as experiencias obtidas neste processo serviriam de base para a criação de uma divisão aeronáutica dentro das instalações de uma das empresas de Francisco Pignatari, a Laminação Nacional de Metais no início do ano de 1942. Inicialmente esta divisão se destinava a produção de planadores para atuação em tarefas de treinamento, porém o sucesso em vendas encorajaria Pignatari a criar uma empresa de construção de aviões independente dos demais negócios do grupo. Desta maneira em agosto de 1942 foi fundada a Companhia Aeronáutica Paulista – CAP, detentora do capital a empresa necessitava de apoio tecnológico o que levaria a celebração de uma parceria com o Instituto de Pesquisas e Tecnologia de São Paulo. Esta parceria resultaria no desenvolvimento do primeiro protótipo designado como IPT-4 que receberia o nome comercial de CAP-1 "Planalto”, que seria ao longo dos anos melhorado criando as variantes CAP-2, o CAP-3 e o CAP-3A.
Mas neste mesmo período Francisco Pignatari, não era o único entusiasta a investir na produção de aeronaves no Brasil, por volta de meados de 1931 seria fundada pelos empresários Fritz Roesler, Orthon W. Hoover e Henrique Santos Dumont, sobrinho de Alberto Santos Dumont a EAY – Empresa Aeronáutica Ypiranga. Inicialmente esta nova empresa passou a fabricar a família de planadores EAY-101, os primeiros a serem 100% projetados no Brasil. No ano de 1934 resolveu alçar voos maiores iniciando o desenvolvimento de uma aeronave motorizada que seria designada como EAY-201 Ypiranga. Inspirado no projeto norte-americano Taylor Cub, o EAY-201 uma aeronave leve para dois passageiros fez seu primeiro voo em 1935, inicialmente empregando um motor francês Salmson 9 AD radial, de apenas 40 hp que impulsionava uma hélice em madeira, posteriormente, sendo remotorizado com um motor mais potente o  Franklin de 65 hp. Diversas unidades seriam fabricadas e comercializadas até o ano de 1943 quando a empresa, ferramental, maquinário, equipes e cujos direitos de projeto e fabricação foram adquiridos pela Companhia Aeronáutica Paulista – CAP. O último EAY-201 Ypiranga a voar foi o PP-TJR, que, no dia 10 de dezembro de 1970, foi transladado do Campo de Marte, em São Paulo, para o Campo dos Afonsos, pelo Comandante Lucy Lúpia Pinel Balthazar. Hoje essa aeronave está exposta no Museu Aeroespacial.

Com base nesta aquisição o corpo diretivo da empresa em parceria novamente com os técnicos da equipe de engenharia do Instituto de Pesquisas e Tecnologia de São Paulo analisaram, revisaram e atualizaram os planos do projeto do EAY-201 Ypiranga, nascendo assim uma nova aeronave que recebeu a designação de CAP-4. O primeiro exemplar deixou as linhas de montagem para testes iniciais de aceitação em 2 de abril de 1943. Sem complexidade na sua linha de construção, o Paulistinha era robusto, de pilotagem assimilada com facilidade, com manutenção executada com rapidez, eficiência e baixo custo. No apogeu de sua produção, em 1943, a CAP chegou a fabricar um Paulistinha por dia. Com exceção dos motores, que vinham dos EUA, e os principais instrumentos de seu painel, praticamente todos os demais itens eram de fabricação nacional. Com 777 unidades construídas, o Paulistinha (como ficou popularmente conhecido) CAP-4 foi produzido em três versões voltadas para a instrução, duas que transportaram uma maca, e um protótipo, o “Paulistinha Rádio”, para regulagem de tiro de artilharia. Além das boas qualidades aeronáuticas, o sucesso comercial do Paulistinha deveu-se também à “CNA – Campanha Nacional de Aviação”, ou ainda conhecida como “Campanha para Dar Asas a Juventude Brasileira”, ou pelo slogan “Deem Asas ao Brasil”, idealizada e organizada em 1941, pelo jornalista Assis Chateaubriand.
Em 1955 a Sociedade Construtora Aeronáutica Neiva, adquiriu os direitos de fabricação do Paulistinha CAP-4 com o Ministério da Aeronáutica. O projeto recebeu modificações, entre elas o reposicionamento do tanque e a seletora de combustível, que recebeu uma proteção para evitar o fechamento acidental, a alteração das portas da cabine, as janelas, o capô do motor e os instrumentos, além de utilizar um propulsor mais potente, um Lycoming de 100 hp, e o batizou P-56 (P de Paulistinha e 56 do ano do projeto - 1956). Para motorizar o P-56, a Neiva adotou o Continental C90 8F, de 90 hp, mas como não foi possível adquiri-lo no Brasil, utilizou o Continental C90 14F, também de 90 hp, mas que tinha partida elétrica, e mudou o sistema para manual para certificá-lo em 1957. Em setembro do mesmo ano, o Ministério da Aeronáutica fez uma encomenda de 19 P-56, que receberam os motores Lycoming O235B, de 100 hp, de propriedade do governo brasileiro, e a Neiva o designou P-56B. Com a aquisição dos motores Continental C90 8F, de 90 hp, a Neiva homologou o P-56C (C de Continental) em 1960. Em seguida, o fabricante criou os modelos P-56B1, que recebeu um motor Lycoming de 115 hp, utilizado para pulverização de lavouras, e o P-56C1, que recebeu o motor Lycoming O320, de 150 hp, e foi usado como rebocador de planadores. Foram fabricados cerca de 260 Neiva P-56 Paulistinhas. A maioria foi comprada pelo Ministério da Aeronáutica e doada aos aeroclubes, que, posteriormente, venderam alguns modelos a pilotos particulares, estando muitos operacionais no meio civil até os dias de hoje.

Emprego no Brasil. 

Nos primeiros anos da década de 1940 a arma área nacional passava por uma transformação sem precedentes, pois além de iminente participação do pais no esforço de guerra aliado durante a Segunda Guerra Mundial, a criação da Força Aérea Brasileira em 1941 seria acompanhada pela adesão do governo brasileiro do presidente Getúlio Vargas ao programa norte americano denominado Leand & Lease Bill Act (Lei de Arrendamentos e Empréstimos). Os termos garantidos por este acordo viriam a criar uma linha inicial de crédito ao país da ordem de cem milhões de dólares, para a aquisição de material bélico, proporcionando ao país acesso a modernos armamentos, aeronaves, veículos blindados e carros de combate. Assim a começaram a ser recebidos gradativamente centenas de aeronaves militares, desde modelos de treinamento, transporte, patrulha, bombardeio e caça. Apesar desta cessão de materiais atender plenamente as necessidades, havia no ar um sentimento de patriotismo exaltado que motivaria junto a sociedade civil a criação e uma série de movimentos em apoio as forças armadas, dentre estas destacam-se as campanhas de arrecadação de fundos que visavam a doação de aviões para a Força Aérea Brasileira.  Dentre estas iniciativas citamos a campanha comandada pelo Rotary Club do Rio de Janeiro que junto a comunidade local angariaram frutos na aquisição para doação de uma aeronave CAP-4B Paulistinha, que estava configurada com ambulância para remoção aéreo médica, esta célula foi batizada como “Anna Nery”, sendo distribuída a Base Aérea do Galeão.

Em maio de 1945, a Subdiretoria Técnica da Aeronáutica (SDTAer), recebeu um CAP-4A Paulistinha novo de fábrica, que recebeu a matrícula L-CAP4 3055, e passou a ser empregado em missões de ligação e transporte. Após o término da Segunda Guerra Mundial a FAB dispunha de mais de 1.500 aeronaves dispostas em diversas missões, assim foi realizada uma análise buscando se padronizar ao máximo os modelos em uso e como só haviam dois CAP-4 Paulistinha em carga, estes foram considerados como excedentes as necessidades da força área, e assim foram alienados para doação ao segmento civil, assim em 1947 o CAP-4B “Anna Nery”, foi entregue a Fundação Brasil Central, e no ano seguinte no mês de novembro o CAP-4A que pertencia a Diretoria de Material da Aeronáutica foi transferido ao Departamento de Aviação Civil, e repassado para o Aeroclube de Garça(SP). Já os Taylorcraft BC15 tiveram uma passagem bastante discreta pela Força Aérea Brasileira, duas das aeronaves da versão civil do modelo BC12 empregado largamente na Segunda Guerra Mundial foram recebidas desmontadas no Parque Aeronáutico dos Afonsos (a origem destas células remonta a dúvidas se elas foram doadas ou mesmo apreendidas em contrabando). Estes aviões foram colocados em condições pelos técnicos do parque, recebendo a designação militar L-2 com as matriculas FAB 3060 e 3061, e foram transferidas as Bases Aéreas do Galeão e Porto Alegre, ficando a disposição do Quartel General da V Zona Aérea onde devido a sua baixa capacidade de transporte foram empregadas somente em missões de ligação do comando.
Em 1956 os dois Taylorcraft L-2 foram retirados do serviço, e após revisão foram transferidos ao Departamento de Aviação Civil onde foram cedidos a aeroclubes e se mantiveram em voo por muitos anos. Em 1962 uma célula usada do modelo militar Taylorcraft BC12D foi incorporada a Aviação Naval da Marinha, esta aeronave foi adquirida a fim de prover instrução real no Curso de Observador Aéreo Naval (COAN), porém este programa foi cancelado antes mesmo do recebimento do avião. Assim o BC12 foi destinado Destacamento Especial de Aeronaves do CIAAN (Centro de Instrução e Adestramento Aeronaval), onde passou a passou a realizar missões de ligação e transporte em proveito do pessoal do BaeNSPA. Em 1964 foi determinado que esta aeronave fosse alocada junto ao 1º Esquadrão Misto de Aeronaves do Núcleo do Comando de Aviação da Força de Fuzileiros da Esquadra juntamente com um CAP 4 Paulistinha, onde permaneceram em operação até 26 de janeiro de 1966 quando foi assinado o Decreto 55.627 que determinava a entrega a FAB de todas as aeronaves de asa fixa. Esta determinação foi seguida semana após, porém a aeronáutica não se interessou por sua incorporação, sendo a mesma vendida como sucata. Já as duas células do CAP-4 Paulistinha foram adquiridas também em 1962 seguindo a mesma destinação em termos de serviço do BC12, e a exemplo deste não foram aproveitadas pela FAB sendo transferidas ao DAC para repasse a aeroclubes.

Na primeira metade da década de 1950, a Força Aérea Brasileira, buscava opções para a substituição de sua frota de aeronaves de ligação leve. Visando fomentar a indústria de defesa nacional, o Ministério da Aeronáutica assinou com a Sociedade Aeronáutica Neiva em 1957, um contrato para a aquisição de 20 exemplares do modelo P-56B Paulistinha, tratava-se de uma versão melhorada do antigo CAP-4 , estando equipada com o motor Continental A-65-8 de 4 cilindros em linha, desenvolvendo 90 HP. A primeira aeronave a ser entregue o P-56D por ser o protótipo foi destinada ao CTA, já as 12 aeronaves seguintes produzidas foram alocadas a 3º Esquadrilha de Ligação e Observação (3ºELO) sendo incorporadas entre junho de 1959 e janeiro de 1960. As aeronaves restantes foram distribuídas a 1º Esquadrilha de Ligação e Observação (1ºELO), no entanto os últimos cinco aviões apesar de receberem as matriculas militares foram transferidos diretamente ao Departamento de Aviação Civil (DAC) onde foram posteriormente destinados a aeroclubes. Em serviço estas aeronaves receberam a designação militar de L-6  FAB 3080 á 3099, inicialmente tais aviões careciam de equipamentos especializados para as missões de controle aéreo e observação como rádio e lançadores de foguetes de fosforo branco, restringindo em muitos suas tarefas as missões de ligação. A partir de meados de 1960 algumas células começaram a ser transferidas para outras unidades entre elas a Escola de Aeronáutica e bases aéreas para emprego como aeronaves orgânicas. 
Em 1963 mais duas células foram recebidas, ambas entregues ao Grupo de Transporte Especial, porém tiveram uma vida efêmera, com uma transferida a Base Aérea de Brasília e outra para o DAC, neste mesmo ano as últimas unidades foram retiradas do acervo da 3º ELO e alocadas junto a BACO, BAFZ e BASC onde passaram a ser operados por pessoal do 1º/14º Gav e 1º GavC. Em 1965 um P-56D com motor mais potente foi recebido sendo designado como YL-6A com esta aeronave sendo operada pelo CTA, no ano seguinte quatro aeronaves foram revisadas e doadas a Força Aérea Paraguaia. Em meados de 1973 foi iniciado o processo de desativação dos L-6 passando a ser substituídos pelo L-42 Regente, com as aeronaves remanescentes transferidas ao DAC que procedeu sua doação a diversos aeroclubes brasileiros.

Em Escala.

Para representarmos o CAP4 Paulistinha N-710 da Aviação Naval (que posteriormente teve sua matricula alterada para N-505), fizemos uso do antigo kit da Academy na escala 1/48, a similaridade do projeto da Piper com a aeronave nacional nos permite representarmos o modelo em questão procedendo mínimas alterações. Empregamos decais confeccionados pela FCM  Decais presentes no Set 48/07A.

O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o primeiro padrão de pintura de alta visibilidade, empregado nas aeronaves de instrução da Marinha Brasileira, durante a sua segunda fase da aviação naval. As aeronaves da FAB empregaram outros esquemas de pintura durante sua carreira.




Bibliografia :

- Averonaves Militares Brasileirsa 1916 – 2015 – Jackson Flores Jr
- História da Força Aérea Brasileira, Professor Rudnei Dias Cunha - http://www.rudnei.cunha.nom.br/FAB/index.html
- Aviação Naval Brasileira, Professor Rudnei Dias Cunha - http://www.rudnei.cunha.nom.br/Asas%20sobre%20os%20mares/index.html