História e Desenvolvimento.
Em 1836, os irmãos Adolphe Schneider e Joseph‑Eugène Schneider , oriundos da região da Lorena, fundaram a empresa Schneider, Frères & Cie. na cidade de Le Creusot, localizada na região da Borgonha, na França. A nova sociedade industrial foi estruturada como uma comandita por ações e nasceu a partir da aquisição das forjas e fundições locais, que se encontravam em situação de falência. Essa operação contou com o apoio financeiro do banqueiro François‑Alexandre Seillière e de Louis Boigues, proprietário das Forges de Fourchambault. A escolha de Le Creusot para sediar o empreendimento revelou-se estratégica. A região dispunha de abundantes reservas de carvão mineral e minério de ferro em suas proximidades, recursos fundamentais para a atividade metalúrgica. Além disso, a presença do Canal du Centre proporcionava uma importante via de transporte para matérias-primas e produtos manufaturados, facilitando a integração da empresa com os principais centros econômicos franceses. Esse cenário favorável coincidiu com o avanço da Revolução Industrial na França e com a expansão das ferrovias, fatores que ampliaram significativamente as oportunidades para o desenvolvimento industrial. Embora não possuíssem formação técnica formal, os irmãos Schneider demonstraram notável visão empresarial e sólida capacidade de gestão financeira. Parte desse conhecimento foi adquirida por meio de estudos realizados no Conservatoire des Arts et Métiers, em Paris. Na condução da empresa, estabeleceu-se uma divisão clara de responsabilidades: Adolphe assumiu a direção administrativa e comercial, enquanto Eugène concentrou-se nos aspectos técnicos e operacionais da produção. Essa complementaridade de funções foi decisiva para o rápido crescimento da companhia em seus primeiros anos. A Schneider, Frères & Cie. surgiu com a ambição de modernizar a indústria metalúrgica francesa, incorporando avanços tecnológicos inspirados nas experiências britânicas, então líderes no setor. A partir de 1837, a empresa iniciou um processo de modernização de suas instalações industriais, introduzindo altos-fornos alimentados a coque, fornos de pudlagem mecanizados e equipamentos de grande porte para forjamento pesado, como o marteau-pilon (martelo-pilão), desenvolvido pelo engenheiro François Bourdon. Um marco significativo dessa fase ocorreu em 1838, quando a empresa produziu a primeira locomotiva a vapor fabricada na França, denominada La Gironde. A máquina foi construída para a Compagnie du Chemin de Fer Paris–Versailles e representou um avanço importante para a indústria ferroviária francesa, até então fortemente dependente da tecnologia britânica. Esse feito consolidou a reputação da empresa e a colocou em competição direta com fabricantes do Reino Unido. Paralelamente à produção de locomotivas, a companhia expandiu suas atividades para a fabricação de trilhos ferroviários, pontes metálicas e estruturas destinadas a estações ferroviárias, atendendo à crescente demanda por infraestrutura ferroviária na França e em diversos países europeus. Entre seus clientes figuravam empresas e governos da Itália, Espanha e do Império Russo. Outro elemento fundamental para o sucesso da empresa foi a adoção de uma estratégia de integração vertical. A companhia passou a controlar diversas etapas do processo produtivo, desde a extração de matérias-primas até a fabricação de produtos finais. Para garantir o fornecimento contínuo de carvão e minério de ferro, foram adquiridas minas no bassin de Blanzy e jazidas na região da Nièvre e no vale da Dheune.
Ao mesmo tempo, a criação de oficinas mecânicas e de montagem em Le Creusot, apoiadas por escritórios internos de engenharia e projetos, permitiu à empresa desenvolver suas próprias máquinas-ferramentas e tecnologias industriais. Essa capacidade de inovação consolidou a Schneider como uma das empresas pioneiras da indústria pesada francesa, desempenhando papel central no processo de industrialização do país ao longo do século XIX. Em 1845, a trajetória da empresa sofreu um revés significativo com a morte acidental de Adolphe Schneider, vítima de um acidente a cavalo. A partir desse momento, seu irmão Joseph-Eugène Schneider assumiu integralmente a direção do empreendimento, promovendo também uma alteração na razão social da companhia, que passou a se chamar Schneider & Cie.. Apesar da perda de um de seus fundadores, Eugène demonstrou notável capacidade de liderança ao preservar a continuidade do crescimento industrial da empresa, ampliando suas atividades e consolidando sua crescente influência tanto no campo econômico quanto no político. Sob sua administração, a Schneider & Cie. transformou-se em um dos mais importantes conglomerados industriais da França ao longo do século XIX. A companhia diversificou progressivamente suas atividades, expandindo-se para setores estratégicos como a produção de armamentos, a construção naval e a engenharia pesada. Esse processo de diversificação ganhou impulso especialmente após a derrota francesa na Guerra Franco-Prussiana (1870–1871). O conflito evidenciou a superioridade técnica da artilharia prussiana, cujos canhões de aço demonstraram desempenho superior no campo de batalha. Diante dessa constatação, o governo francês incentivou o fortalecimento da indústria nacional de armamentos, tarefa na qual a Schneider & Cie. desempenhou papel central. Atendendo a essa demanda estratégica, a empresa passou a investir intensamente na produção de canhões, placas de blindagem e novos tipos de ligas metálicas, entre elas o aço ao níquel, material que se revelou particularmente adequado para aplicações militares e navais. Paralelamente, a companhia expandiu sua atuação na construção naval, fabricando navios de guerra e componentes estruturais destinados a grandes estaleiros. Entre esses empreendimentos destacava-se o controle do estaleiro Forges et Chantiers de la Gironde, que permaneceu sob a esfera do grupo entre 1882 e 1927. No setor ferroviário, a Schneider & Cie. consolidou sua reputação como fabricante de locomotivas e equipamentos ferroviários, exportando seus produtos para diversos mercados internacionais. Entre esses destacava-se o Império Russo, onde a empresa participou do fornecimento de equipamentos e estruturas relacionados à construção da Ferrovia Transiberiana, uma das maiores obras de infraestrutura ferroviária do século XIX. O fortalecimento da capacidade industrial da companhia também se refletiu na modernização de seu parque fabril. Em 1876, a aquisição de um gigantesco marteau-pilon de 100 toneladas ampliou significativamente a capacidade da empresa para produzir peças metálicas de grande porte, como eixos de navios, componentes estruturais e tubos de canhões de artilharia pesada. No plano social, Eugène Schneider adotou em Le Creusot uma política de caráter paternalista voltada à organização da comunidade operária vinculada à empresa. Foram construídas moradias, escolas, hospitais e igrejas destinadas aos trabalhadores e suas famílias. No auge da expansão industrial do século XIX, a força de trabalho local chegou a cerca de dez mil operários.

A influência da família Schneider não se limitou ao campo industrial. Joseph-Eugène Schneider exerceu destacada atuação política, tendo ocupado cargos como ministro da Agricultura e Comércio em 1851, deputado, prefeito de Le Creusot e presidente do Corps Législatif durante o Segundo Império Francês. Essa combinação de poder econômico e influência política transformou Le Creusot em um verdadeiro centro industrial dominado. Após a morte de Eugène Schneider, em 1875, a liderança da empresa passou para seu filho, Henri Schneider (1840–1898). Sob sua direção, a Schneider & Cie. deu continuidade ao processo de modernização tecnológica, adotando métodos avançados de produção siderúrgica, como os convertidores do Processo Bessemer e os fornos do Processo Siemens-Martin, que permitiam produzir aço em maior escala e com qualidade superior. Durante sua gestão, a empresa também intensificou a exportação de armamentos, beneficiando-se da legislação francesa de 1884, que autorizava a venda de material militar para o exterior. Entre os produtos de maior destaque estavam os canhões conhecidos como “Long Tom”, derivados do projeto brevet Canet Schneider, que foram adquiridos por diversos países e utilizados em conflitos internacionais. Um dos casos mais conhecidos foi o fornecimento dessas peças ao Transvaal, onde demonstraram elevada eficácia em combates contra forças britânicas, consolidando a reputação internacional da indústria armamentista francesa. Após a derrota francesa na Guerra Franco‑Prussiana, que evidenciou a superioridade tecnológica dos canhões de aço prussianos, a França iniciou um amplo esforço de modernização de seu aparato militar. Nesse contexto, a Schneider, Frères & Cie., sob a liderança de Henri Schneider filho de Eugène identificou uma oportunidade estratégica ao direcionar parte significativa de seus investimentos para o setor de armamentos. A partir da década de 1870, a empresa, estabelecida em Le Creusot, passou a reorientar parte de suas atividades para o desenvolvimento e a fabricação de uma ampla variedade de canhões e morteiros. Esse processo marcou o início de sua consolidação como uma das principais fabricantes de artilharia da Europa. A iniciativa foi impulsionada tanto pela necessidade de fortalecer a defesa nacional quanto pelos avanços técnicos proporcionados pela metalurgia moderna e pela engenharia industrial em plena expansão durante a Revolução Industrial. A empresa, já amplamente reconhecida por sua experiência nos setores de siderurgia, ferrovias e construção naval, soube aproveitar sua robusta infraestrutura industrial para atender às demandas do Armée de Terre. A estratégia adotada por Henri refletia uma visão empresarial que buscava posicionar a companhia como um dos pilares da indústria de defesa francesa, em um período marcado pela intensificação das rivalidades internacionais e pela crescente industrialização da produção militar. Um passo decisivo nessa trajetória ocorreu em 1897, quando a Schneider & Cie. adquiriu as Forges et Chantiers de la Méditerranée, localizadas em Le Havre. Essa aquisição proporcionou à empresa acesso a uma equipe altamente qualificada de engenheiros e projetistas, bem como a tecnologias avançadas, especialmente no campo do desenvolvimento de sistemas de artilharia modernos. A integração do conhecimento técnico proveniente dessas instalações permitiu à Schneider & Cie. absorver rapidamente um valioso know-how especializado, reforçando sua posição entre os principais fabricantes de armamentos no final do século XIX.
Entre os protagonistas desse período destacou-se o engenheiro Gustave Canet, anteriormente vinculado às Forges et Chantiers de la Méditerranée. Reconhecido internacionalmente por sua capacidade técnica e inventividade, Canet assumiu um papel central dentro da Schneider & Cie., atuando inicialmente como diretor de artilharia em Le Creusot e, posteriormente, como diretor honorário da divisão de artilharia. Sob sua orientação, a empresa desenvolveu a notável família de canhões Canet-Schneider, produzida em diversos calibres e destinada tanto a aplicações terrestres quanto navais. Esses sistemas de artilharia combinavam avanços metalúrgicos como o emprego de aços de alta resistência com soluções técnicas inovadoras no projeto dos tubos e mecanismos de disparo, resultando em peças caracterizadas por elevada precisão, robustez estrutural e confiabilidade operacional. Dessa forma, a Schneider & Cie. consolidou-se como um dos centros mais importantes de desenvolvimento de artilharia pesada na Europa. A maior contribuição da Schneider & Cie. para a evolução da artilharia moderna ocorreu na transição do século XIX para o século XX, com o desenvolvimento do canhão Schneider-Canet de 75 mm. Apresentado oficialmente em 1906, esse sistema representou um marco tecnológico na artilharia de campanha ao incorporar soluções inovadoras que ampliaram significativamente a cadência de tiro, a precisão e a eficiência operacional das peças de artilharia de tiro rápido. Projetado pelo engenheiro francês Gustave Canet, o canhão foi inteiramente construído em aço de alta resistência e dotado de tubo estriado com carregamento pela culatra, características que asseguravam maior robustez estrutural e rapidez nas operações de tiro. Contudo, o elemento mais revolucionário do projeto residia em seu sofisticado sistema de absorção de recuo, composto por um freio hidráulico associado a um recuperador hidropneumático. Esse mecanismo permitia que a peça retornasse automaticamente à posição de disparo após cada tiro, eliminando a necessidade de reposicionamento manual do armamento. Graças a essa inovação, tornou-se possível operar a peça em regime de tiro rápido, alcançando uma cadência média de 10 a 20 disparos por minuto, podendo atingir até 30 disparos quando servida por uma guarnição altamente treinada. Em comparação, sistemas anteriores de reparo fixo como o Canet M-890 de 100 mm exigiam reposicionamento completo após cada disparo, limitando severamente sua cadência de tiro e reduzindo sua eficiência em combate. O sistema de recuo do Schneider-Canet de 75 mm utilizava mecanismos hidropneumáticos capazes de absorver a energia liberada pelo disparo. Durante o recuo, o tubo e o seu trenó deslizavam sobre um berço construído em aço cromo-níquel, enquanto o sistema hidráulico dissipava parte da energia gerada. Em seguida, o recuperador hidropneumático restaurava automaticamente o conjunto à posição original de tiro. Essa solução técnica mantinha a peça alinhada com o alvo, permitindo disparos sucessivos sem necessidade de reajustes na direção do tiro. Outro aspecto relevante era a disposição dos dispositivos de pontaria, montados diretamente no berço da peça. Dessa forma, os sistemas de mira permaneciam alinhados mesmo durante o movimento de recuo, facilitando correções rápidas de direção e elevação e contribuindo para maior precisão e eficiência no campo de batalha. Do ponto de vista construtivo, o canhão possuía um tubo de aço-níquel forjado e temperado, composto por um tubo interno reforçado por duas mangas e uma abraçadeira externa. A alma do cano apresentava 30 estrias progressivas, projetadas para estabilizar o projétil durante o disparo e aumentar sua velocidade inicial.

O sistema de fechamento da culatra empregava um mecanismo de parafuso interrompido, formado por dois setores lisos e dois roscados, que permitia abertura e fechamento rápidos, além da ejeção automática da cápsula após o disparo. No que se refere ao armamento, o Schneider-Canet de 75 mm podia empregar três tipos principais de munição, todos com aproximadamente 6,5 kg: granadas comuns de fragmentação, granadas de estilhaços destinadas ao combate contra tropas em campo aberto e granadas de alto explosivo, particularmente eficazes contra fortificações e posições defensivas. Essas características tornaram o sistema significativamente mais leve, preciso e eficiente em comparação com peças contemporâneas produzidas por outros fabricantes europeus, incluindo modelos desenvolvidos pela Saint-Chamond e pela Krupp. Reconhecendo suas vantagens operacionais, o Exército Francês adotou rapidamente o novo sistema e firmou, em 1906, um contrato de aquisição em grande escala destinado a substituir e complementar peças consideradas obsoletas, como o Canet M-890 de 100 mm. As primeiras unidades começaram a ser entregues no mesmo ano, marcando o início de um processo de modernização da artilharia francesa. O sucesso do canhão não se limitou à França: sua reputação atraiu contratos de exportação para diversos países, com destaque para a Espanha, que se tornou um dos maiores usuários do modelo na primeira década do século XX. A partir de 1909, a Espanha passou a produzir o canhão e suas munições sob licença, consolidando a influência da Schneider & Cie. no mercado internacional. O Schneider-Canet de 75 mm foi amplamente reconhecido como o ápice da tecnologia de artilharia de campanha de tiro rápido em sua época. Sua superioridade técnica, aliada à capacidade de produção em escala da Schneider & Cie., garantiu sua adoção em diversos exércitos e sua utilização em conflitos do início do século XX, incluindo a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), onde demonstrou eficácia em operações de campo. Seu baixo peso total, acabaria o tornando ideal para o emprego como canhão de montanha, até então a movimentação e operação de peças de artilharia em regiões montanhosas representava desde sempre grandes dificuldades aos homens da arma de artilharia. As peças de grande calibre, habitualmente mais eficazes, eram pesadas demais para poderem tracionadas por animais, limitando assim o poder ofensivo neste tipo de campo de batalha. Assim os primeiros exercícios com os canhões Schneider Canner 75 mm, teriam início em regiões de relevo irregular a partir de meados do ano de 1909, e seus promissores resultados levariam a imediata aprovação e consequente celebração de grandes contratos e produção. Sua incorporação pelo Exército Frances (Armée de Terre), levaria a gradual substituição dos canhões Schneider 65 mm modelo 1906. O modelo logo conquistaria diversos contratos de exportação, com seu batismo de fogo ocorrendo em 1909, sendo empregados pelo Exército Espanhol (Ejército de Tierra) durante a Guerra Melilla deflagrada entre os meses de julho e dezembro. Este seria o primeiro registro de uma longa carreira de empregos em conflitos militares no século XX, com destaque na Primeira Guerra Mundial, Guerra Civil Espanhola, Segunda Guerra Mundial e outros conflitos regionais de importância relevante. Os canhões Schneider Cannet 75 mm além da Espanha, seriam exportados para o Brasil, Polônia, Grécia, Brasil, Paraguai, Iugoslávia e Estados Unidos, com muitos destes se mantendo em emprego até meados da década de 1960.
Emprego nas Forças Armadas Brasileiras.
A artilharia brasileira, profundamente enraizada nas experiências militares do período colonial e consolidada após a independência do país, proclamada em Independência do Brasil, constitui um dos pilares mais tradicionais da história militar nacional. Ao longo de sua trajetória, essa arma destacou-se não apenas pelo papel desempenhado em diversos conflitos, mas também pela constante busca por aperfeiçoamento técnico, disciplina e inovação, características que contribuíram para moldar a identidade profissional dos artilheiros brasileiros. As origens da artilharia no território brasileiro remontam ao período colonial, quando forças luso-brasileiras se mobilizaram em enfrentamentos decisivos contra invasores estrangeiros. Entre esses episódios, destacam-se as Batalhas dos Guararapes, travadas em Pernambuco contra as tropas da Companhia Neerlandesa das Índias Ocidentais. Embora o emprego da artilharia naquele momento ainda fosse limitado e baseado em meios relativamente rudimentares, os combates revelaram a capacidade de organização e resistência das forças locais, consolidando uma tradição militar que se desenvolveria ao longo dos séculos seguintes. Após a independência, a artilharia de campanha passou gradualmente por um processo de institucionalização no âmbito do Exército Brasileiro. Durante o período do Império do Brasil, essa arma adquiriu prestígio particular devido à sua complexidade técnica. Diferentemente da infantaria e da cavalaria, cujos oficiais podiam ingressar na carreira com formação mais curta, a artilharia exigia preparação completa na Academia Militar do Império. Essa formação abrangia estudos aprofundados de matemática, balística, engenharia e tática, refletindo o elevado grau de especialização necessário para o manejo eficiente das peças de artilharia. Nesse ambiente acadêmico e militar, formou-se uma geração de oficiais altamente qualificados, capazes de conduzir operações complexas e de adaptar-se às rápidas transformações tecnológicas que caracterizaram o século XIX. O domínio de cálculos balísticos, a precisão na pontaria e a coordenação das manobras de fogo tornaram-se elementos centrais da cultura profissional dos artilheiros, contribuindo para o desenvolvimento de uma tradição de excelência que se perpetuaria nas décadas seguinte. O momento de maior projeção da artilharia brasileira nesse período ocorreu durante a Guerra da Tríplice Aliança, conflito de grandes proporções travado contra o Paraguai. Nesse contexto, a artilharia destacou-se particularmente na Batalha de Tuiuti, considerada a maior batalha campal da história da América do Sul. Sob o comando do oficial de origem francesa Emílio Luís Mallet, naturalizado brasileiro, as baterias de artilharia desempenharam papel decisivo na contenção dos ataques paraguaios. A organização das posições defensivas, aliada ao emprego eficiente das peças de artilharia, permitiu às forças brasileiras estabelecer um sistema defensivo eficaz, reforçado por um fosso tático que dificultava o avanço das tropas inimigas. A rapidez e a precisão dos disparos renderam à artilharia brasileira o apelido de “Artilharia Revólver”, uma metáfora que evocava a elevada cadência de tiro e a eficácia de seu emprego em combate. Nesse episódio, tornou-se célebre a frase atribuída a Mallet “Eles que venham! Por aqui não passam!” expressão que simbolizou a determinação das forças brasileiras naquele momento crítico da campanha. A liderança de Mallet consolidou sua reputação como um dos mais notáveis comandantes da história militar brasileira. Nascido na França em 1801, ele construiu uma carreira de destaque no Brasil Sua atuação contribuiu decisivamente para consolidar o prestígio da artilharia dentro das Forças Armadas brasileiras.
No período posterior ao conflito, a modernização do material de artilharia tornou-se uma prioridade estratégica para o Exército. Nesse processo, destacou-se a influência da indústria alemã, especialmente da empresa Friedrich Krupp AG, sediada em Essen. A partir de 1872, o Brasil iniciou a aquisição de modernos canhões de campanha de 75 mm fabricados pela companhia, destinados principalmente aos Regimentos de Artilharia a Cavalo. Essas peças representavam um significativo avanço tecnológico em relação aos sistemas anteriormente utilizados, como os canhões franceses do sistema La Hitte. A superioridade dos equipamentos alemães era evidente em diversos aspectos, incluindo alcance, robustez estrutural e confiabilidade mecânica. Na década de 1880, o processo de modernização prosseguiu com a aquisição de novas peças de artilharia, entre elas o modelo Krupp 75 mm Modelo 1895. A introdução desses sistemas foi fortemente apoiada por Gastão de Orléans, Conde d’Eu, comandante-geral da artilharia do Exército Imperial e presidente da Comissão de Melhoramento do Material do Exército. Genro do imperador Dom Pedro II, o Conde d’Eu desempenhou papel relevante como conselheiro militar, defendendo a adoção de equipamentos mais modernos para fortalecer a capacidade operacional. Os canhões Krupp destacavam-se por seu alcance superior, podendo atingir alvos a distâncias de até aproximadamente 12.000 metros, uma melhoria significativa em relação aos modelos anteriores. Sua introdução marcou um importante passo no processo de modernização das forças terrestres brasileiras, contribuindo para recuperar parte do potencial militar após o desgaste provocado pela longa campanha no Paraguai. De forma irônica, parte do material de artilharia cuja aquisição havia sido recomendada pelo Conde d’Eu viria a ser empregada, alguns anos depois, contra forças monarquistas durante a Guerra de Canudos. Nesse conflito travado no sertão da Bahia, os canhões Krupp demonstraram sua eficácia em condições operacionais difíceis, marcadas pelo terreno adverso e pelas limitações logísticas da campanha. No período posterior ao conflito, a modernização do material de artilharia tornou-se uma prioridade estratégica para o Exército. Nesse processo, destacou-se a influência da indústria alemã, especialmente da empresa Friedrich Krupp AG, sediada em Essen. A partir de 1872, o Brasil iniciou a aquisição de modernos canhões de campanha de 75 mm fabricados pela companhia, destinados principalmente aos Regimentos de Artilharia a Cavalo. Essas peças representavam um significativo avanço tecnológico em relação aos sistemas anteriormente utilizados, como os canhões franceses do sistema La Hitte. A superioridade dos equipamentos alemães era evidente em diversos aspectos, incluindo alcance, robustez estrutural e confiabilidade mecânica. Na década de 1880, o processo de modernização prosseguiu com a aquisição de novas peças de artilharia da Krupp, entre elas o modelo Krupp 75 mm Modelo 1895. A introdução desses sistemas foi fortemente apoiada por Gastão de Orléans, Conde d’Eu, comandante-geral da artilharia do Exército Imperial e presidente da Comissão de Melhoramento do Material do Exército. Ele desempenhou papel relevante como conselheiro militar, defendendo a adoção de equipamentos mais modernos para fortalecer a capacidade operacional do Exército.

De forma irônica, parte do material de artilharia cuja aquisição havia sido recomendada pelo Conde d’Eu viria a ser empregada, alguns anos depois, contra forças monarquistas durante a Guerra de Canudos. Nesse conflito travado no sertão da Bahia, os canhões Krupp demonstraram sua eficácia em condições operacionais difíceis, marcadas pelo terreno adverso e pelas limitações logísticas da campanha.No início do século XX, o Exército Brasileiro enfrentava desafios significativos decorrentes da obsolescência de seus armamentos e doutrinas militares. As limitações técnicas haviam sido expostas durante a Guerra da Tríplice Aliança (1864-1870), e confirmadas na Campanha de Canudos (1896-1897), que revelou a inadequação do arsenal brasileiro frente às demandas de combates modernos. Este cenário refletia não apenas a ausência de uma indústria bélica nacional, mas também a dependência de importações e a necessidade urgente de modernização para alinhar o Brasil às potências militares da época. A transformação do Exército Brasileiro ganhou impulso com a liderança de figuras visionárias, como os Marechais João Nepomuceno de Medeiros Mallet, Francisco de Paula Argolo e, sobretudo, Hermes da Fonseca, que, com o apoio do Barão do Rio Branco, então Ministro das Relações Exteriores, impulsionaram a chamada Reforma Hermes (1900-1908). Este processo de reestruturação, conduzido durante o governo de Rodrigues Alves e intensificado sob a presidência de Afonso Pena, buscava reposicionar o Exército como uma força moderna, capaz de responder aos desafios estratégicos do novo século. Inspirado pelo modelo do Exército Prussiano, particularmente pelo sistema de Estado-Maior, Hermes da Fonseca defendia a necessidade de equipar o Brasil com armamentos de ponta e adotar uma organização militar baseada na disciplina, na eficiência e na inovação tecnológica. Reconhecendo a inexistência de uma indústria bélica nacional capaz de suprir as necessidades do Exército, Hermes da Fonseca organizou, em agosto de 1908, uma missão militar à Europa, com destino à Alemanha e à França, dois dos principais centros de tecnologia militar da época. A missão, composta por oficiais de alto escalão, tinha como objetivo identificar fornecedores de armamentos modernos e estabelecer parcerias para a transferência de conhecimentos técnicos e profissionais, essenciais para a capacitação do Exército Brasileiro. Os resultados dessa missão foram expressivos, culminando na aquisição de um vasto arsenal de equipamentos destinados a renovar as capacidades da infantaria, cavalaria e artilharia. Para a infantaria, foram adquiridos 400.000 fuzis Mauser de calibre 7 mm, fabricados na Alemanha, reconhecidos por sua precisão e confiabilidade. A cavalaria foi equipada com 10.000 lanças Ehrhardt, 20.000 espadas e 10.000 mosquetões, adaptados às táticas de combate montado. A Marinha do Brasil também foi beneficiada com a aquisição de peças de artilharia de costa Schneider-Canet C-50 1902 de 150 mm, conhecidas pelo sistema de tiro rápido, que combinava carregamento pela culatra e mecanismos de recuo hidropneumático. Essas peças foram instaladas em fortificações estratégicas, como a Fortaleza de Copacabana, no Rio de Janeiro, e em seis conjuntos destinados às defesas costeiras de Santos, no litoral de São Paulo. Em Santos, os canhões Schneider-Canet operavam em conjunto com quatro obuses Krupp 280 mm C-16 Modelo 1912.
Embora as aquisições de 1908 representassem um marco na modernização militar, os canhões Schneider-Canet já integravam o arsenal brasileiro desde o final do século XIX. Durante a década de 1890, o Exército Brasileiro havia incorporado baterias equipadas com os canhões Canet M-890 de 100 mm e Canet M-897 de 75 mm, fabricados pela Schneider & Cie. em Le Creusot, França. Esses modelos, embora menos avançados que o Schneider-Canet de 75 mm introduzido em 1906, já demonstravam a qualidade técnica da empresa francesa, conhecida por sua liderança em artilharia de tiro rápido. A presença desses canhões no Brasil evidenciava a confiança do Exército nas tecnologias da Schneider & Cie., reforçada pelas novas aquisições no início do século XX. Durante os anos vindouros a adoção destas novas peças de artilharia de origem alemã e francesa em muito iram modificar o patamar operacional brasileiro, sendo postos a prova em uma série de eventos de revoltas ou insurreições regionais, como a “Guerra do Contestado” ocorrida nos estados do Paraná e Santa Catarina durante o ano de 1912. Apesar destes significativos avanços, o eclodir da Primeira Guerra Mundial em 1914, traria grandes avanços não só em tecnologia de armas, mas também na doutrina militar, elevando os patamares da guerra moderna. Esta nova realidade rapidamente relegaria o Exército Brasileiro a patamar operacional inferior ao vigente a partir do ano de 1918, suscitando assim a necessidade de um novo ciclo de atualização. As preocupações em torno da obsolescência doutrinariam e de material das Forças Armadas Brasileiras, eram fundamentadas principalmente pelo rápido desenvolvimento econômico e militar da Argentina, que passava a representar a principal hipotética ameaça ao pais. Assim com o objetivo de reverter este cenário crítico a partir do segundo semestre de 1918, o governo brasileiro passaria a buscar alternativas para a implementação deste novo ciclo de desenvolvimento militar. Neste intuito seriam conduzidos diálogos junto ao governo francês a fim de estudar a contratação de uma assessoria militar que pudesse conduzir este processo. Estas negociações já em um estágio avançado ocorreriam em Paris, entre o adido militar brasileiro na França, coronel Malan d’Angrogne, e o ministro da Guerra francês, Georges Clemenceau. Paralelamente seria enviado ao Brasil o general Maurice Gamelin, em uma missão de levantamento de perspectivas sobre o real cenário das Forças Armadas Brasileiras, visando assim melhor embasar a proposta francesa. O contrato seria assinado poucos meses depois na capital francesa, sendo ratificado logo em seguida no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, criando assim oficialmente a “Missão Militar Francesa”. Os termos do contrato estipulavam que oficiais franceses comandariam durante quatro anos as escolas de Estado-Maior (EEM), de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO), de Intendência e Veterinária. Em contrapartida o Brasil se comprometeria a privilegiar a indústria francesa em seus processos de aquisição de armas e equipamentos militares, desde que as condições comerciais e prazos de entrega fossem no mínimo equivalentes as propostas apresentadas por empresa de outros países. Para o Brasil, este contrato representaria um grande passo na direção da profissionalização e modernização de suas forças armadas, novamente equalizando a balança militar na América do Sul. Este processo começaria a ser consolidado a partir de meados de 1921, com a adoção de novos regulamentos destinados à Direção e Emprego das Grandes Unidades, ao Exercício e Emprego da Artilharia e ao Serviço de Estado-Maior em Campanha.

As primeiras percepções levantadas pela “Missão Militar Francesa” apontavam a necessidade modernização de uma série equipamento e armas. Uma concorrência internacional seria aberta e atendendo ao preceito estabelecido anteriormente, as propostas apresentadas pela indústria militar francesa seriam preferenciadas. Em termos da arma de artilharia de campanha seriam adquiridos um grande número de canhões, incluindo vários modelos fabricados pela empresa Schneider - Creusot Fréres & Cie, entre estes os modelos C-50 1902 de 150 mm (emprego terrestre e ferroviário), Schneider 75/28 modelo 1906 de 75 mm e C-18 - 6 Modelo 1919 de 75 mm (canhão de montanha), com dois estes últimos modelos, encomendados e recebidos durante o ano de 1923. Para o atendimento as necessidades do Exército Brasileiro que na época era em sua maioria hipomóvel, os canhões de campanha Schneider-Canet seriam recebidos com rodas de madeira, sendo destinados então a equipar as a equipar as unidades de cavalaria de fronteira. Seguindo os padrões franceses as unidades de cavalaria seriam compostas por baterias com quatro canhões de 75 mm, quatro carros de munição (cada arma podia carregar 38 munições na carroça de tração, sendo complementadas com mais 60 unidades no carro de munição), um carro de apoio e por fim um carro forja, com a função de assegurar a manutenção das peças em campanha e os reparos nos carros de tração e de serviço. Estas baterias seriam operadas por um efetivo de 3 oficiais, 10 sargentos e 121 praças, demandando trinta e nove cavalos e noventa e seis muares para a tração das peças e do pessoal. Os canhões Schneider-Canet de 75 mm foram amplamente utilizados em quase todos os grandes conflitos internos do Brasil no início do século XX, desempenhando papéis cruciais em momentos de instabilidade política e social. Durante a Revolução de 1930, essas peças de artilharia foram empregadas por forças governistas e oposicionistas, demonstrando sua confiabilidade em operações de campanha. Na Revolução Constitucionalista de 1932, estes canhoes foram utilizados por ambos os lados A presença dessas armas em combates urbanos e rurais, especialmente nas frentes de batalha no interior de São Paulo, evidenciou sua importância estratégica, com sua mobilidade e precisão. Um dos usos mais peculiares dos canhões Schneider-Canet de 75 mm (e também dos Krupp) ocorreu neste periodo, quando foram integrados como armamento orgânico em seis trens blindados, denominados TB-1 a TB-6. Estes foram construídos nas Oficinas Ferroviárias de São Paulo, sob a supervisão técnica Escola Politécnica Paulista. Cada trem blindado era composto por uma locomotiva posicionada entre dois vagões, com uma prancha à frente para inspecionar a integridade dos trilhos, uma precaução contra sabotagens. No vagão frontal, uma abertura central abrigava um canhão de 75 mm, operado internamente e ocupando toda a parte dianteira do carro. Essa configuração permitia disparar diretamente contra alvos à frente, oferecendo proteção às tropas e apoio de fogo em operações ao longo das ferrovias, que eram cruciais para a logística e mobilidade. Com o início da Segunda Guerra Mundial , os canhões Schneider-Canet de 75 mm continuaram a desempenhar um papel relevante. A partir de 1954, com a crescente motorização, estes canhões passaram por um processo de modernização nos Arsenais de Guerra do Rio de Janeiro (AGRJ) e de General Câmara (AGRS). As rodas de madeira, inadequadas para o transporte em veículos motorizados, foram substituídas por rodas com pneus. Essa atualização permitiu que os canhões permanecessem em serviço operacional até meados da década de 1960, quando foram gradualmente substituídos por armamentos mais modernos, como os obuses M-101 de 105 mm.
Em Escala.
Para recriar o canhão Schneider-Canet 75 mm M-897 em escala, a única opção disponível no mercado na escala 1/35 é o kit produzido pela empresa alemã Tom Modellbau. Apesar de ser um kit mais antigo, ele oferece um nível de detalhamento e acabamento aceitável para os padrões da escala 1/35. Na montagem do modelo, optou-se por não utilizar decais, uma escolha que reflete a intenção de manter a representação focada na autenticidade estrutural e estética do canhão, sem a necessidade de marcações adicionais.
O esquema de pintura aplicado aos canhões Schneider-Canet de 75 mm foi inspirado no padrão francês da década de 1920, durante a Revolução Constitucionalista de 1932, as forças paulistas adaptaram o padrão de pintura dos canhões Schneider-Canet e Krupp de 75 mm para atender às demandas táticas do conflito. As peças preservadas no Museu Histórico do Forte de Copacabana, no Rio de Janeiro, refletem o esquema de cores adotado pelo Exército Brasileiro na década de 1920.
Bibliografia:
- Schneider Frères et Compagnie - https://www.lesechos.fr
- Schneider-Canet - https://pt.wikipedia.org/wiki/Schneider-Canet
- Missão Militar Francesa por Rodrigo N. Araujo - https://cpdoc.fgv.br/
- Arquivos do Museu Militar de Conde de Linhares – Rio de Janeiro
- Canhão de Montanha Schneider 75mm - http://www.cporpa.eb.mil.br/





